domingo, fevereiro 01, 2026

NOEMI JAFFE, MALORIE BLACKMAN, AURITHA TABAJARA, DELANO & RUBENS MATTOS CUNHA LIMA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som de As emboladas do norte (1929) e Graúna (1923), do compositor, violonista e violeiro João Pernambuco (João Teixeira Guimarães – 1883-1947), na performance da premiada violonista clássica australiana Stephanie Jones. Veja mais aqui.

 


A cizânia amolestada de Siberiano & Afesireia... - O destemido conquistador Siberiano seguia majestoso pelas tundras e densas florestas: era solstício de inverno e as suas pisadas cruéis e céleres firmavam a demolição de quaisquer obstáculos que se impusessem ou impedissem a direção das ventas. Nascido dos olhos abissais de Marduk, jamais conhecera o gosto do malogro. Invicto, de casta guerreira e longevidade, se alimentava da escuridão e, sobretudo, da Lua Nova. Mais que astuto despedaçava suas vítimas como um Smilodon, mantendo o mesmo ar do seu primo de Bengala. Agressivo shijin Byakko, impôs sua força bruta de Mohan diante do invencível dragão, aniquilando-o por nocaute. Por conta disso foi condecorado pelo espírito dos 5 Tigres do Oráculo da Terra, tornando-se Baihu, o principal guardião dos pontos cardeais e do centro, um geomante no uso das 16 figuras simbólicas para obter respostas a todas as perguntas que o inquietasse, soberano por vencer todas as batalhas. Assim encorajou-se à empreitada de enfrentar a tigresa de Champawat, depois dela ter causado terror na região de Kumaon e na fronteira do Nepal. Vitorioso conduziu a neófita pelos bambus da selva dos pecados, para matá-la e ressuscitá-la numa noite sem Lua. Ao vencê-la desdenhou e seguiu por fechadas brenhas, árvores entre outras, céu de brigadeiro da Lapônia, a ponto de se deparar na sua caminhada com um vulto insolente que batia a cauda na água para fisgar os peixes com suas afiadas garras. Quem era? Ora, triunfante ele olvidou do ditado: quem com ela se depara não corre, nem dá as costas, nenhum movimento brusco: usa da espingarda; se o tiro falhar, recorra ao revólver; escapuliu da mão, ataque de faca; se quebrar, aí fuja; se for perseguido, se atrepe numa árvore; se ela subir, reze: todo mundo é amigo-da-onça. Num átimo ela virou-se e fitou firme, quieta, soberana. Seus olhos revelaram: era a crepuscular caguaçuarana, a solitária Afesireia, filha da Borges, sobrinha da Cabocla, neta da Mão-Torta e prima da Maneta e da Pé de Boi. Era afilhada da Iaiá Cabocla de Xakriabá – investida deusa Kianumaka Manã, quem concedeu pra ela a dádiva do poder ressurreto de Arakuni: a mutação. Ela nadava, rastejava e escalava alturas, transformava-se agigantada e devorando um jacaré inteiro, hirto, hipnotizado; e diante do eclipse, estraçalhava a Jaci e Guaraci ao mesmo tempo, festejando com seus parentes jaguar, pantera, puma, acanguçu, jaguaripina, leopardo, yguaretê, suçuarana, jaguará e jaguaretê. Num relance ela fixou o olhar nele e ele o evitou ciente do sortilégio. Um raio rasgou o céu ameaçador: hora de vida ou morte, sabiam: um deles não sairia vivo do confronto. Não havia como desertar, nem espaço para sedição. Seus olhos faiscaram mútuos relâmpagos letais, outros estrondos açoitavam. Ele trovejou astucioso com estridente assombro, seus sinistros rugidos e o bafejo dava prazo sem aviso. Ambidestro se insinuava, cada movimento milimetricamente calculado, um passo em frente e recuava estratégico, o ronco praguejava, o bafo às ventas dela. Moviam-se táticos, encaravam-se e circulavam, ameaçavam insinuantes, blefavam, cada qual expunha o arsenal de truques em cada jogada. Ele flanqueava, apertava o cerco com todos os recursos disponíveis, a finta dela, bastava ali um salto e pronto, a urgência da hora e qualquer vacilo, o golpe fatal da maldição furiosa, o bote teria de ser certeiro. A vigilância de ambos e a sorte estava lançada. O ousado dissimulava e tanto fascinava pavoroso, o inevitável perigo não a intimidara. Ele evitava cada vez mais os olhos dela, de esguelha, sabia da armadilha e acuava diante do sedento ataque dela. Preparava as emboscadas escondendo sua pelagem de manchas e rosetas pela boca do matagal espesso. Tentou acossá-la e, ao desaforo dele, ela respondeu invocando Charría e um olho dela estrelou vermelha de Antares; o outro refulgiu de Aldebaran, transformou-se na eclipsada Caetana e partiu pro confronto direto. Cravou o olhar e ele foi surpreendido com o avanço decisivo dela, a ofensiva indefensável e travaram luta. Uma revoada de pássaros, a poeira subiu, o chão revolvido pelo botes aos nhaques, as patadas revirando o atrito estremecedor no ambiente e se prepararam para as investidas abrindo as portas dos 9 círculos do inferno dantesco, atravessando o limbo, percorrendo a luxúria, cortando a gula, correndo a ganância, cruzando a ira, rasgando a heresia, singrando a violência, perpassando a fraude e passando a traição no gelo do lago Cócito, para sobrepujarem Aqueronte, Eridano, Flegetonte e o Lete. Venciam Naraka e ela então cravou suas garras e o levou malbaratado pelas trevas de Vilon, percorrendo o abismo de Raki’a, ascendendo às altas nuvens de Shehagim e o fogo do éter empíreo, romperam o umbral de Zebul, a transição de Ma’on, as esferas de Machon e foram celebrados por ofanins e serafins no penhasco da cachoeira do Sertão Zen, no Alto Paraíso da Chapada dos Veadeiros. Depois desse momento episódico se defrontaram diante do Mirante da Janela. O déspota pérfido ousou rondar obliquamente matreiro: era ele Dioniso quase vencido e apaixonado pela ninfa asiática. Ela fascinante o hipnotizou, arrebatada o encurralou numa furna, ele cautelosamente escondeu-se esfregando seu dorso num tronco robusto, rolou no chão e pronto para mordê-la, ali hesitou e foi tomado pela fúria amorosa dela. Ela era agora Nice, o epônimo da vitória e logo fez-se manhã vistosa nos saltos do Rio Preto: a Lua renasceu e a luz retornou. O Sol aqueceu a toada na dança às margens do Opará, ao som duma moda de viola. Ali, naquele ato, não só havia um tigre, nem apenas uma onça, mas muitos deles que se encontravam intermitentemente por milênios sucessivos na eternidade. Até mais ver.

 

Alice Walker: Observe atentamente o presente que você está construindo: ele deve se parecer com o futuro que você está sonhando... Sempre que você cria beleza ao seu redor, você está restaurando a sua própria alma... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Naomi Grossman: Eu estou constantemente destaco os benefícios da yoga (obrigado por me entregar a isso mais cedo) – que se eu pudesse começar um movimento apresentando as pessoas a isso, acho que eliminaríamos a maior parte do conflito do mundo! Se apenas as pessoas passassem mais tempo desafiando seu equilíbrio, força e flexibilidade, e menos tempo desafiando umas às outras, que mundo melhor seria!... Veja mais aqui.

Tawakel Karman: Você precisa ser forte; precisa confiar em si mesmo para derrubar o regime ditatorial que houver e construir um novo país. Você precisa participar da construção do seu país. Sabemos que tudo o que você sonha pode se tornar realidade. Você precisa saber que tem a capacidade de realizar seu sonho. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

POR AMOR À VIDA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Sei que muita gente sofre \ És uma realidade \ Um sintoma perigoso \ Desde a tal ansiedade \ Causando em si uma dor \ A vida perde o valor \ Dentro da sociedade \ Vivemos tempos difíceis \ Mas não podemos falhar \ Quem é mãe de adolescente \ Sabe o que eu quero falar \ Pois o nosso coração \ Se desdobra em aflição \ Ao no seu filho pensar \ Nós que somos mães e pais \ E também sociedade \ Vamos dar mais atenção \ Nossos filhos prioridade \ Sofrer sem deixar de amar \ Só o amor pode evitar \ O fim da humanidade \ Dialogar com paciência \ Humildade, admiração \ Estimula e valoriza \ Exercício de inspiração \ Por favor abra seu olho \ Seu filho és um tesouro \ Não deixe em outras mãos.

Poema da escritora e contadora de histórias Auritha Tabajara, autora da obra Magistério Indígena em Verso e Poesia (2004), cantando seus versos: Sou mulher que ainda chora \ Por tão grande escuridão \ Minha essência está aqui \ Dentro do meu coração \ De um Brasil ensanguentado \ Onde ninguém é culpado \ Mulher da mesma nação! Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

JOGO DA VELHA - [...] Só lembre-se, Callum, quando estiver flutuando cada vez mais alto na sua bolha, que bolhas têm o hábito de estourar. Quanto mais alto você sobe, maior é a queda. [...] É assim mesmo. Algumas coisas nunca mudam. Simplesmente é assim. Mas não acredite neles. [...] Eu costumava me consolar com a crença de que eram apenas certos indivíduos e suas ideias peculiares que estragavam as coisas para o resto de nós. Mas quantos indivíduos são necessários para que não sejam os indivíduos que sejam preconceituosos, mas a sociedade inteira? [...] As notícias mentem o tempo todo. Elas nos dizem o que acham que queremos ouvir. [...]. Trechos extraídos da obra Noughts & Crosses (Minotauro, 2020), da escritora britânica Malorie Blackman, autora de obras como Boys Don't Cry (2010), Checkmate (2005) e Knife Edge (2003). Para ela: Ler é um exercício de empatia, um exercício de se colocar no lugar do outro por um tempo...

 

DOU MINHA PALAVRA - [...] Vida é gasto e estou gasta, o espelho que magnifica mostra a verdade e a verdade é a velhice. [...] O corpo vai pendendo para baixo, e lá embaixo encontro uma menina. Desde que ela descobriu, com quatro ou cinco anos, que seus pais eram sobreviventes de uma guerra contra os judeus e que sua mãe guardava numa caixa dentro do armário um diário escrito na Suécia — um diário que ela só podia olhar mas não ler, já que nem ler ela sabia, e o diário estava escrito em i-u-g-o-s-l-a-v-o —, essas vidas viraram histórias e as pessoas, personagens. A menina vivia nessas histórias e não prestava para a realidade. Sem amigos, perseguida, invejava a prima magra e boa aluna, tinha os pés chatos e se desequilibrava (as irmãs mais velhas não deixaram a mãe colocar botas ortopédicas nela; hoje as irmãs têm pés altos e finos e ela, pés largos e chatos), se isolava nas festas e prometia se suicidar. Assim que aprendeu a ler, seu tio Arthur a presenteava com livros estrangeiros e seu pai lhe deu a Barsa de aniversário e comprava enciclopédias de um vendedor ambulante. A coleção do Monteiro Lobato, Meu pé de laranja lima, Poesia brasileira para a infância, Demian, a Torá (todos os dias, no Renascença), letras do Chico Buarque, O Pequeno Príncipe, gibis da Mônica e os livros de adultos das irmãs dela. Na casa de sobreviventes de guerra, frequentada por refugiados da Rússia, da Polônia, da Romênia, da Iugoslávia e de outros países de nomes estranhos, ela escutava muitas línguas: português, ídiche, alemão, hebraico, húngaro e iugoslavo. A menina não entendia as línguas, mas escutava as palavras [...]. Trechos extraídos da obra Te dou minha palavra (Companhia das Letras, 2025), da escritora, professora e crítica literária, Noemi Jaffe, que noutra de sua obra, Lili- Novela de um luto (Companhia das Letras, 2021), ela traz o seguinte trecho: [...] Quando ela estava morta, eu beijei seu rosto, suas mãos, seu colo. Apertava o pulso, abraçava o corpo, chamava: mãe, mãe. Levantava a mão e a deixava cair. No dia anterior, quando ela ainda não estava morta, mas quase, eu aproximava meu ouvido do seu peito e ouvia a respiração. Era diferente. É diferente estar quase morta de estar morta mesmo. É diferente e só sei disso agora que ela morreu. Se quando ela estava quase morta eu esperava que ela morresse, agora é como se eu a quisesse, se pudesse, quase morta para sempre, só para ouvir sua respiração, a bochecha quente, os dedos da mão se mexendo mesmo que por reflexo, um ronco baixo no peito, o tremor nas pálpebras. Nunca tinha ficado perto de uma pessoa morta e descoberta. Fiquei perto do meu pai, mas ele estava coberto por um lençol e eu tracei com o dedo o contorno do seu nariz, o que repeti com a minha mãe depois que a cobriram. [...]. Já na sua obra O que ela sussurra (Companhia das Letras, 2020), ela expressa: [...] Gosto do som das conversas e gosto de música, mas prefiro sempre o silêncio, agora ainda mais que antes: esse som suro e verdadeiro em toda a sua extensão, mais geográfica do que temporal e que ocupa a paisagem que vejo pela janela e a alma que não vejo mas que fica inteiramente ocupada por ele. [...].

 

A ARTE DE DELANO

Eu sou um observador das pessoas, sempre as observo quando saio... Eu não trabalho pensando em exposição. Não gosto de me expor, mal saio de casa. Às vezes, passo meses sem descer do meu ateliê, botar o pé na calçada. Preciso até que as pessoas levem comida para mim...

Pensamento e arte do pintor, desenhista e gravador, Delano – (Flanklin Delano de França e Silva - 1945-2010), foi ilustrador do Jornal da Tarde, participou de diversas mostras coletivas pelo Brasil afora, integrou o Ateliê + 10, em Olinda, e participou da criação da Oficina Guaianases de Gravura. Veja mais aqui, aqui & aqui.

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A ARTE DE RUBENS MATTOS CUNHA LIMA, 60 ANOS DE TRAJETÓRIA

Desenvolvi projetos de residências e obras. Em 60 anos de carreira fiz mais obras que projetos... Gosto muito da arquitetura... Conheci o Darel. Era uma pessoa muito intensa. Fiz várias gravuras dele...

A arte de arquiteto e artista plástico de São Paulo, Rubens José Mattos Cunha Lima, que fundou a Editora Clube da Gravura, editou a revista Gravura & Gravadores (1980), participou com suas obras da publicação Dareladas (CriaArt, 2024), integra o Gentamiga Atelier e participa da plataforma Ubqub (SP). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

João Cabral de Mélo Neto aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Déa Ferraz aqui & aqui.

Antônio Meneses aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Thina Cunha aqui & aqui.

Barbosa Lima Sobrinho aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Martha Batalha aqui & aqui.

Wellington Virgulino aqui & aqui.

Lucinha Guerra aqui, aqui & aqui.

Mário Souto Maior aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Roberta Cirne aqui.



NOEMI JAFFE, MALORIE BLACKMAN, AURITHA TABAJARA, DELANO & RUBENS MATTOS CUNHA LIMA

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som de As emboladas do norte (1929) e Graúna (1923), do compositor, violonista e violeiro João Pernambuco...