quinta-feira, fevereiro 23, 2017

CENTENÁRIO DE HERMILO BORBA FILHO (1917-2017)

CENTENÁRIO DE HERMILO – A porteira do mundo foi aberta e eu escapuli na horAgá pra poder ser gente na vida, o que nunca fui, porque me perdi nos sonhos de felicidade das vidas cruzadas nos sobrados e mocambos, onde outrora podia ter sido senhor de engenho dos mais abastados e mandão. Qual não, menino traquino da beira do rio Una, só sabia de João sem terra que mendigava entre a moscas por não poder namorar a donzela Joana, o pai dela não permitia, faça isso não. Então, quando rapaz fui galante cavalo da noite pelas pernas daquela moça bonita que eu via toda vez que descia do Alto do Lenhador, pela Esconde Negro, e já nem sabia das horas com os ventos levantando as saias pra mostrar o viço dentro da calcinha das meninas do sobrado, ô coisa linda de se vê os peitinhos duros no estufado das blusas molhadas pelas águas de Pirangi, umbigos de fora e alvoroços de pernas bulindo o juízo, com o perfume de moças boas pra namorar depois do Riacho dos Cachorros. Isso é que é bão! Fiz de tudo pra ser um bom samaritano com três cavalheiros a rigor na empreitada, tentando fazer bonito pra chamar atenção das moçoilas do lugar, até que folgado remava na barca de ouro pelas correntezas, aproveitar o bumba-meu-boi na festa domingueira, e me sair entre os bailarinos, bate-coxa no maior rastapé com mulheres jeitosas ou perdidas que faziam valer a pena viver. E de antemão, tudo eu fazia pra chamar atenção de Electra no circo, imitando mamulengo com a história de um Tatuetê, ou fazendo a vez do diálogo do encenador nas reflexões sôbre a mise-em-scène ou glosando mote no teatro da arte do povo do Nordeste com seus espetáculos populares no sacudido do frevo, maracatu ou baião, ô cabra enrolão, cabriola fazendo o círculo encantado do gráfico amador, só pra fisgar simpatia de moça sonsa, maior distinção, daquelas que no repente não tiram o olho do chão, e na hora do desafio das intimidades esquentam a chaleira de virar trepadeira mais sem-vergonha. Segura o cambão! Pra quem foi um cavalheiro da segunda decadência, cair de terceira no terreiro era a maior das regalias, maior promissão. Enquanto mandava ver na folga, do outro lado avisavam que o general está pintando o sete pra golpear o presidente da república com seus parentes da ocasião, e o cabo fanfarrão alcaguetando minhas insolências com as filhas, dele só querer me pegar pelos possuídos só pra capar e eu, sabido de besta, sete dias a cavalo entre os caminhos da solidão e a margem das lembranças. Seguro o bordão! Os grunhidos e risadas das meninas nuas na hora da cavalgada delas, qual éguas no cio que se derretiam, como se eu fosse garanhão safado com a tabica da macheza pronta pra dizimá-las na agonia dum gozo pra lá de sem fim, ah isso não me saía da imaginação. Ô meninas danadas! Quanto mais longe ia, mais o bafo da desgraça via. Que danação! Subia morro de quilombo, descia matas e canaviais, até ao meio dia o Sol das almas no vento do mundo me mostrar os ambulantes de Deus no pasto. Ô precisão, a vida que é minha, é do meu irmão. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

 Curtindo os álbuns Aboio (Continental, 1975), da Orquestra Armorial, e Raízes brasileiras (2004), do Grupo Orange, sob a regência do compositor, violinista e regente Cussy de Almeida (1936-2010). Veja mais aqui.

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A arte do advogado, escritor, crítico literário, jornalista, dramaturgo, diretor, teatrólogo e tradutor Hermilo Borba Filho (1917-2017) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

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DESTAQUE: A QUEDA DAS ATRIZES
[...] Um dia em São Paulo, um empresário conseguiu reunir num mesmo elenco as duas vedetas mais em voga na época. Custou-lhe muito trabalho, porque teve de enfrentar árduas reuniões sobre remunerações, cartazes, publicidade, etc.,: as duas queriam tirar o melhor partido possível da publicidade. Durante todo o espetáculo havia uma única cena em que as duas atrizes, sozinhas no palco, se enfrentavam. Por isso não havia grande problema: quando uma estava em cena, os outros atores retiravam-se prudentemente para a periferia e as damas ficavam no centro do palco e na sua parte alta, mais distante do público. No dia da estreia, a disputa pelos favores do público foi dura e intensa. O espetáculo progredia prevendo-se um honroso empate para ambas, quando começou a famosa cena, um longo diálogo entre as vedetas. Tudo era muito bonito no cenário, que representava um enorme salão de baile, tendo ao fundo uma grande janela aberta sobre uma maravilhosa noite cheia de estrelas. A cena começou e o público conteve a respiração: pela primeira vez na história do teatro paulista as duas maiores damas, as mais ilustres, trajadas com vestidos mais dernier cri europeu e com as joias mais sul-africanas, pisavam o mesmo palco. Ao princípio, tal como nas lutas de boxe, as duas contendoras analisaram-se durante as primeiras trocas de palavras. Depois começou uma árdua luta pelo centro da cena, as duas aproximando-se perigosamente uma da outra (até sentirem reciprocamente as respectivas respirações), cada uma procurando forçar a outra a abandonar a área “teatral” do palco. Depois, quando uma delas conseguiu afirmar-se no centro, a outra, muito esperta, começou a recuar, colocando-se quase de costas para a primeira; esta viu-se então forçada a torcer o seu delicado e sensível pescoço para poder dialogar. Ambas se agarraram à mesma tática. Em cada troca de palavras, a vedeta que falava recuava algunas passos, colocando-se mais atrás e submetendo a adversária a uma posição incômoda. O diálogo progredia, progredindo a luta: uma troca de palavras dois passos atrás, outra frase e era a outra que recuava, novo diálogo e novos passos, mais poesia e mais passos atrás, tudo isto no cenário belamente iluminado, com a sua formosa janela que mostrava uma linda noite cheia de estrelas mas que tinha o parapeito baixo demais: na sua ânsia de recuar e conquistar o centro do palco, as duas damas caíram de costas, precipitando-se na bela noite...[...].
Trecho extraído da obra 200 exercícios e jogos para o ator e o não-ator com vontade de dizer algo através do teatro (Civilização Brasileira, 1983),
do dramaturgo e ensaísta Augusto Boal (1931-2009). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor britânico Joshua Reynolds (1723-1792).
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