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Mostrando postagens de Novembro, 2019

ÉRICO VERÍSSIMO, NOELIA RIBEIRO, ANASOR ED SEAROM & STEFAN ZWEIG

DEPOIMEPÍSTOLA DE NOVEMBROUTUBROUTRO – O que deveria ter dito e não disse – impasses e flores na primavera quente do meu coração. Outra é a sensação: passos síncronos e recíprocos se arrastam lá fora, talvez seja eu mesmo na minha exequível vontade de sair por aí e não mais voltar. Sobraram metástases enquanto à cabeça outras sinapses conjugadas enlouqueciam a palavra e me mantenho de pé quanto posso, quase nada. Não tenho mais idade, duro há tempos como se rondasse a relva do túmulo. O que me disse de formidável era verbo encravado, se eu só tinha a voz rouca, uma pedra rasgando o peito e os dias incertos nas mãos – a canção é pouca e se vale da esperança para romper paredes que roubaram calçadas na doidice ambulante do consumo. De que me servem os telhados madrugadores da solidão fria, se nem mesmo um aceno eu recolho do que pudesse ser vivo nas altas horas das dores de uma quase morte súbita. Valho-me dos trapos de sonhos da mata espessa para poder viver meus lêmures fugidios dos a…

WILLIAM BLAKE, TEATRO ATIVIDÁRIO, ANÉE LINS, PIERRE MOLINIER & OUTRA CARTA DE NOVEMBRO

OUTRA CARTA DE NOVEMBRO – O mistério do secreto: é no esotérico que a vida se desvela - longe da ilusão dos sentidos algo acontece de verdade. Tenho a lição de Trismegistus, a vida e o mundo no que penso: o Universo sou eu e tudo o mais. Do Oriente, o Sol nasce todos os dias. Aqui, quereres entre o que faz falta. E um botão liga ou desliga – átomos, mônadas, oxímoros, metáforas e simulacros -, há muito mais. Desde o advento do Homo sapiens, parece, pouco ou quase nada evoluiu. De lá para cá, que o digam os filhos de Caim: guerras, fome, bombas e miséria. De fato: o Ocidente é só mal-estar, já foi dito: histerias, neuroses, convenções e infelicidade. Civilizados com senhas, vestes, códigos, excludências e outros senões. Afora o calendário e as horas passam depressa entre o passado e o esquecimento com tantos desacertos, recaídas, expectativas, idealizações, paredes, tetos, muros e cercas. Onde a felicidade, tudo tão efêmero e diferente do que realmente sou. O que temer se o tempo passa…

JACK LONDON, DUÍLIA DE MELLO, ISADORA DUNCAN & MINEHAHA MULHER DO BÚFALO

OS SEIOS DE ISADORA - A vida não é um sonho. Como se fosse, assim se fez para a caçula do banqueiro que faliu e se foi, da professora de música numa casa onde só o amor à arte e sonhos, mais nada, frio e fome a cada dia. O incêndio a desapropriou: a vida na rua, à beira da indigência. A escola sufocava o fogo ardente de sua meninice maltrapilha, nem um centavo no bolso. Os sonhos continuavam sonhos, selvagem de nascença, geminiana jamais domesticada, o lema sem limites. Até que seu corpo as ondas do mar, a água, o vento, as plantas: a nudez grega, a vitalidade desinibida e avassaladora, nenhuma ninfa ou fada, música e poesia na rebeldia descalça de seios à mostra na túnica transparente, cabelos soltos, corpo livre aos improvisos irreverentes, decididamente escandalosa, desnudada, aplaudida, exaltada. Fez-se raposa comunista e os horrores dos fuzilados do czar pelo pão da miséria, engasgada pelas lágrimas indignadas: cortejo interminável dos infelizes, aos ombros seus mártires mortos e…

PÉREZ ESQUIVEL, DÓRIS MONTEIRO, LORD BYRON & ÁLVAREZ CUBERO

ÚLTIMA CARTA PARA TERESA – Minha querida Teresa, tremo aqui enquanto escrevo. Você minha condessa G romanhola, com seus olhos grandes atônitos de Ravenna, a que passou a ser a lourinha da Gôndola do meu coração para sempre. Não sei o que será de mim nessa distância grega, sem o seu cativante frescor, nua e bela como a madrugada, quente como o meio dia. Não sei o que será de mim sem o seu olhar de submissão na entrega, plácida, luminosa, doce, sempre apaixonada. Tenho em mim todos os seus dotes, esses que me fazem viver: face, pele, coxas, ventre, tudo que amo. Não sei o que será de mim sem a sua boca gulosa, desenhada como um arco de Cupido, a me tomar por inteiro completamente ensandecido. Amor mio, você é a minha existência aqui e no futuro, como sinto a falta dos seus beijos, seu doce jeito de em mim se aninhar e me fazer inteiro, maior que o reinado de qualquer poder. Minha amadorada, eu amo você e você me ama, endeusado por sua divina compleição. Mas eu mais do que lhe amo, e não…

ARUNDHATI ROY, MICHÈLE PETIT, ALEXANDRA WHITIGHAM, GEÓRGIA CREIMER, AMANDA LEAR & CARTA AO MEU PAI

CARTA AO MEU PAI – Conversamos muito e era pouco um ou dois dias corridos quase insones, diuturnos. Contamos estrelas, soltamos lorotas e nos embriagamos de ver o Sol nascer ou lembrar os cochilos nas urnas funerárias de Bilaro, a mesa grande e lá tia Arlinda, Nadeje, Lourdes, Conça e a outra que esqueci o nome (ah, lembrei, Angelita! Não podia esquecer os Gilsons...), de uma rua perto da casa de vovó, a bodega de Água Preta. Aprendi muitas e úteis lições, a velhice é sábia, eu sei, vô Arlindo era ele. A gente sempre teve uma relação de igual para igual. Na infância, o meu herói. Eu era o brinquedo de Emanoel, Paulo e Carlos, parceiro de Zito. Também premiado por Pai Lula e Carma, outra mesa enorme para minhas folganças, apreços muitos. Ainda menino, atendeu meu pedido para a responsabilidade laboral e me entregou, aos dez anos, para que eu vivesse sobre o bigodinho ralo como David de Dickens nas mãos do meu Uriah Heep. Foi tudo muito difícil, irrespirável. Fiz o que pude, inescapável…

ALDOUS HUXLEY, FARADAY, LEJEUNE, ANA ELISA RIBEIRO & LAURA LIMA

ÚLTIMA CARTA PARA SALLY – Ah, Sally querida, desde aquela primeira em que maldizia da noção de amor, eu sei, como bem disse seu pai que filósofos tornam-se tolos ao amar, e eu a amei, graças aos céus, ao seguir sua fuga para Ramsgate e declarar-me para a sua decisão. Graças, mil graças à vida: tudo sou em você, minha Sally, minha querida. Não fosse a sua mão companheira de todos os dias, não teria eu vencido tantos degraus nos íngremes aclives das descobertas e desânimos. Não fosse o seu riso compreensivo de todas as horas, não teria eu vencido batalhas tão ferrenhas, constantes e indesejáveis. Não fosse o seu abraçabrigo materno de todos os meus choros inconsoláveis, não teria eu vitalidade e afinco para enfrentar tantos giros na roda da fortuna, nem triunfado sobre os mais repetidos sortilégios infames e procelosos percalços. Não tivesse a firmeza dos seus passos seguindo os meus e os meus os seus, não teria eu sido além de um entregador de jornais ou encadernador dos livros do patr…