domingo, junho 21, 2026

JOY HARJO, WALEED AL-HUSSEINI, SUSANA TRIMARCO & BRINCANTES DA MATA SUL

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

É o beija-flor \ E aqui dentro vai guardando o medo \ Mantendo em segredo o que deve mostrar \ Pois já tem medo de se ver sozinho \ Perder o caminho por compartilhar \ E vai voando de flor em flor \ Feito o beija-flor, sem se apaixonar \ E pouco a pouco vai perdendo o medo \ De se ver do avesso, por saber amar \ E voa mais que eu \ Seu beija-flor sou eu \ Além de nós, um eu \ Pra que eu seja todo seu \ E nunca mais seguir sozinho \ Construiu seu ninho, vai acreditar \ Sorrir com o choro do primeiro filho \ E servir de abrigo sem sequer chorar \ Pois foi voando de flor em flor \ Feito beija-flor, até se apaixonar \ E pouco a pouco foi perdendo o medo \ De se ver do avesso por saber amar... Pra que eu seja todo seu (aí, ó!)...

Ao som dos álbuns Dominguinho (Vol. 1 – Olinda, 2025 & Vol. 2 – Salvador, 2026), aclamado projeto acústico que une o compositor cantor de píseiro/forró, João Gomes (João Fernando Gomes Valério), o cantor, compositor e violonista Jota.pê (João Paulo Gomes da Silva) e o sanfoneiro, cantor, compositor e arranjador Mestrinho (Erivaldo Júnior Alves de Oliveira), com a participação do violonista Vanutti e da percussão inventiva de Gilú Amaral, homenageando o legendário sanfoneiro Dominguinhos, com repertório dos três artistas e releituras de clássicos. Veja mais aqui & aqui.

 


O bufo garçom na festa do céu... – Luzantoinho era bandoleiro de nascença. Desde bruguelo pirrototinho, bastava mãos ou braços que fossem e lá pulava, dele sair dando chau, com os dentes de fora. Já rapazote parecia ter tomado jeito de gente no baque das ondas pelas batucadas dos mulungus de Chico de Itá, no Maracatu Porto Rico, então apelidado já de Cutiliquê. Vôte! Foi aí, cheio das loas, o despranaviado: viu-se acometido pela síndrome da Tourette. E agora? Foi sacudido aos empurrões pra fora: Sai pra lá, cururu! Nisso ficou: liso e lesado, a coçar cocuruto. Num estalo deu o pira aos pinotes, montando com uma tocha de fogo no rabo dum porco ronceiro, dele ganhar rumo pra meter uma lança em África. Foi-se. Parecia: era uma vez... Qual nada, rasgou foi a boca. Nada, não. Aí penteou a gaforinha e foi ser aprendiz de feiticeiro com Tó Zeca: descobriu o rato dentro do queijo, o segredo da abelha, o dente de coelho, o elefante branco, o estômago de avestruz, a formiga de asa – tanajura? -, os gansos do Capitólio, as lágrimas do crocodilo, o leão-de-chácara, o leite de pato, as macacas de auditório, os olhos de lince, o asno de Buridan, o carneiro de Panúrgio, o cisne negro e a mula de Tales de Mileto que fez Him e voou sem cabeça por aí. Eita, bagaceira! Viu que a jaboticaba era pouca, nem dava pro gasto. Queixou-se ao bispo, arrumou os mijados e zarpou: Isso num vale um peido! Mandou tudo pras urtigas, ora. Nem acenou, mal-agradecido. Num vupe era o bei de Tunes e tinha de passar pelo sacrifício de Cúrcio, quando o galo cantou fora de hora atrapalhando tudo, de findar na garapa azeda pelo labirinto de Creta e, vexado, botou o ovo de Colombo na justiça de Cambises. Que aperto, meu! Quebrava a cabeça. E enquanto o diabo esfregava o olho, determinou-se agarrando no fio de Ariadne, com a lanterna de Diógenes e as muletas de Xisto. Valeu-se das cebolas do Egito e das cobras que perderam o veneno, dobrou o beiço e o rumo da venta pras galinhas dos ovos de ouro pelos jardins das Hespérides. Foi trupé. Mas, não: teve de encarar o bafo do Cérbero, a espada de Dâmocles no toitiço, a chuvada de canivetes. Que coisa! Nem mel nem cabaça na noite de Walpurgis, outros galos cantarão. Será? Isso se não desse em Lua cheia de saci correr bicho, com os relinchos da mula-sem-cabeça, os assobios da Curupira e agouros de Boitatá. Quem mexeu o angu é que sabe da bronca. Até aí já tinha morrido o burro atrepado no telhado e escapava tirando fino no bafo da onça. Por pouco, hem? Só voltas e revoltas às lonjuras, pertinho de nada, suas aporias. Suava muito a camisa pra tirar o pé do lodo e bote monturo nisso. Até que caiu do céu a sorte vocacional: garçom de ocasião festejado por clientela batucando em seu louvor A conversa de botequim do Noel & Vadico. Arrocha! Foi o que deu na beira de lagoa e ele só: Foi, foi, foi! Aprumou-se dedicado e passou a adivinhar pedidos dos paroquianos, oxe, metido a guardião Le Cordon Bleu, o faz-tudo inventava cardápio como se servisse deliciosa culinária de Cápua, dos fregueses lambuzarem-se de chupar os dedos e lamber os pratos. Eba! Virou casa de Orates. Com o tempo tornou-se confidente de solitários – teve de acalmar Alceste, alcovitar Alfeu e Aretusa, amansou Xatipa, até descobriu o anel de Polícrates e o escambau. Tô feito! Psiu! Tá dando em cima? Saideira. Tirava foto dos corujões e flagrava o anjo da guarda mangando dele, os 10%, folgado, bobão. Ainda apartou brigas de Chimangos e Maragatos, deu paradeiro ao dinheiro de sacristão, exaltou pretensos lotários, guardou a lista negra de sicários, até consolou o doutor da mula ruça chorando a morte da bezerra e escorado na mãe de Pedro, avalie. Com o tempo sabia de tudo: o resultado do bicho, o horóscopo do dia de cada signo, o prêmio da loteria, a manchete de amanhã, todas as fofocas, eventos, até da verdadeira e quilométrica lista dos propineiros do Banco Master e doutras escusas tramoias judiciais. Ora, se. E viu sucumbir os castelos no ar de muito soberbo que foi com muita sede ao pote e findou na Canosia, hem hem, para não dizer de quem pediu penico, abriu da vela e cagou fora do caco, maior meladeiro repugnante. Sacou? Foi nesse ínterim que ele foi escolhido pra servir na festa do céu. Eita! Viva! Maior badalação de soçaites embecados e noticiários retumbantes. O cara ajeitou-se todo na pinta e bancou profissa de responsa. Chegando lá estavam aboletados, entre os convivas, o cachorro Kratin-Qitmir-Al-Raqim dos 7 companheiros da caverna adormecidos em Éfeso, a jumenta falante de Balaão, a camela prenhe de Salé, Naqat Allah, que saiu de dentro duma rocha com bençãos gerais e leite em abundância; a baleia jactante que engoliu o profeta Jonas, a formiga de Salomão, o carneiro do Monte Moriá sacrificado por Abraão, o pássaro de Balgis-Belquisse da rainha Sabá, o bezerro de ouro de Moises, o burro Buraque-Al Borak de Maomé e a pomba do ramo de oliveira da arca de Noé. É mole? Só. Que marmota é essa, hem? Sou mais o criatório de Zeca Biu! Cadê o povo todo? Psiu. Foi empurrado entre bandejas e uma tuia de pratos agigantados, afora terrinas e travessas da muita, tudo fumegante e aos reclamos. Fui engalobado; mas, fiquei famoso. No outro dia, lá estava ele recolhido à Tebaida com cara de quem levou xexo e perdeu a mão na roda da fortuna, piongo de quase invisível. Foi então surpreendido por uma rabiçaca do destino: Era ela. Vixe! Um achado, ruidoso milagre. Jeitoso da gema, tirou da manga do colete toda sagacidade e: A-rá! E partiu pra melindrosa todo fogueteiro. Madame? Tenho esmola agora não. Posso servi-la? Passe outra hora. A bicuda olvidava e ele insistente no encalço, suspirava com os seus redondos seios, a diferente alvura dos seus dentes, a morenice brejeira, o cheiro fresco, seus gestos inéditos, sacudida de beleza vistosa, oooooooh, dele estouvar recreando-se ousada estimação nas pernas bambas, ah, danada, nela daria jeito. Ah, se. Poetou e fez figa: Lá vai a água descendo sem dizer nada. Já vai tarde. Aí arretou-se, pegou no bico da chaleira fervendo, pintou o caneco e pôs as tripas ao Sol: A senhora dá-me a honra desta dança? Ela virou a cara. Ele lá só conjugando: o nariz de Cleópatra, as orelhas de Midas, as joias de Cornélia, não há lindeza maior no mundo. Ela passou um rabo de olho e ele agitou as mãos, sorridente: Há um dia para o caçador e a caça fazerem a festa! Ela achou graça. Ih, deu mole, tô dentro! E não teve papas na língua, mandou ver nas razões chacoalhando aranzel chavecado no juízo dela, num esforço repuxado pelas pataratices, amabilidades aos bocados, até que, lá pras tantas, viu-la perder a paciência e deu o tiro de misericórdia, dela dar-se por vencida: Só uma valsa! E saiu com ele pelo salão dois pra lá e pra cá. Esmerou-se no gingado. No enfim, ela destrancou-se, entressorriram-se. Ele destampou seus segredos exagerando-se no macio como quem folheia abusado o Kama Sutra, venceu-lhe a pirraça, ancho como o homem da capa preta descabaçando a donzela de Orleães, nem se dando conta de tão enredado pela teia de Penélope, tecida e destecida, no de antes emprestado ao depois, nem desconfiava das astúcias dela, a ponto de emplacar sobrenome em agoniado cerimonial. Hoje é de vê-lo todo pabo pula-pula lavando a jega com suco de jurubeba ou gengibre, escanchado na porta de casa. Como vai sua patroa? E ele torando aço: Cala boca, a perereca tá lá dentro virada no créu, deixa quieto. Ih! Até mais ver.

 

Zezé Motta: É preciso ter coragem para viver... Não fico presa nessa ideia de lutar contra o tempo. Faz parte da vida... O palco, a música, o cinema, o carinho das pessoas. Tudo isso me mantém viva, ativa, com brilha no olhar. Trabalhar com o que amo há tantos anos também é combustível... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Efraim Medina Reyes: A vida tem muitas dimensões, mas estamos condenados a escolher uma e ignorar as outras. Estamos condenados a sentir que, por melhor que estejamos, nossa escolha foi errada. Estamos condenados a viver com alguém enquanto desejamos outros dia após dia. Estamos condenados a mentir, a dar beijos frios, a continuar tateando no escuro, fingindo uma paixão que se desvaneceu há anos. Por que fazemos isso? O medo de aceitar o fracasso pode ser uma das razões... Sabe, você me lembra um poema que não consigo recordar, uma canção que nunca existiu, e um lugar onde não tenho certeza já estive... Nada que se move está isento de falhas... Veja mais aqui.

Anna Akhmatova: É insuportavelmente doloroso para a alma amar em silêncio... Você ouvirá trovões e se lembrará de mim, e pensará: ela queria tempestades... Durante os terríveis anos do terror de Yekhov, passei dezessete meses nas filas da prisão em Leningrado. Um dia, alguém me "identificou". Então, uma mulher com os lábios azulados de frio, que estava atrás de mim e, claro, nunca tinha ouvido falar do meu nome, saiu do torpor que nos afetava a todos e sussurrou no meu ouvido (todos falávamos em sussurros): "Você poderia descrever isso?". Eu disse: "Posso!". Então, algo parecido com um sorriso surgiu no que antes era o seu rosto... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

FOGO - Uma mulher não pode sobreviver apenas com a própria respiração; ela precisa conhecer as vozes das montanhas, precisa reconhecer a eternidade do céu azul, precisa fluir com os corpos fugazes dos ventos noturnos que a acolherão em seu interior. Olhe para mim: eu não sou uma mulher separada; sou uma continuação do céu azul; sou a garganta das montanhas, um vento noturno que queima a cada respiração.

ESTA TERRA É UM POEMA - Esta terra é um poema de ocre e areia queimada que eu jamais conseguiria escrever, \ a menos que o papel fosse o sacramento do céu, e a tinta a linha quebrada de \ cavalos selvagens cambaleando no horizonte a quilômetros de distância. Mesmo assim, \ será que algo escrito importa para a terra, o vento e o céu?

Poemas da escritora, musicista, dramaturga e poeta estadunidense Joy Harjo, que se inspira nas histórias e narrativas das Primeiras Nações, bem como nas tradições poéticas feministas e de justiça social, incorporando mitos, símbolos e valores indígenas: Sinto fortemente que tenho uma responsabilidade para com todas as fontes que sou: para com todos os ancestrais passados e futuros, para com minha terra natal, para com todos os lugares que piso e que fazem parte de mim, para com todas as vozes, todas as mulheres, toda a minha tribo, todas as pessoas, toda a Terra e, além disso, para com todos os começos e fins. De uma forma estranha, me liberta para acreditar em mim mesma, para poder falar, para ter voz, porque preciso; é a minha sobrevivência... Entre seus álbuns musicais, o Red Dreams, A Trail Beyond Tears (2010), o espetáculo solo, Wings of Night Sky, Wings of Morning Light (desde 2009) e a peça musical, We Were There When Jazz Was Invented. Também é membro fundadora do conselho da Native Arts and Cultures Foundation.

 

BLASFEMO - […] Aqueles que são chamados de revolucionários e rebeldes, ou seja, aqueles que escaparam desse condicionamento, movidos pela vontade de viver, de refletir, de compreender uns aos outros e de explorar a vida e suas nuances. [...] É um grito de alarme que corro para salvar a inocência de crianças ameaçadas pela loucura e pela raiva. E é na escola e na mesquita que elas são moldadas para se tornarem criminosas! Porque no meu país e em outros, os principais fornecedores de terroristas são as mesquitas. [...]. Trechos extraídos da obra The Blasphemer: The Price I Paid for Rejecting Islam (Arcade, 2017), do escritor palestino Waleed Al-Husseini, que foi preso em 2010 sob a acusação de difamação, fugiu para a França onde obteve asilo. É autor dos ensaios publicados no seu blog Noor al-Aqel (Iluminação da Razão) e em língua inglesa no Proud Atheist (O ateu orgulhoso), descrevendo Alá como "um deus primitivo, beduíno e antropomórfico, e Maomé como um "maníaco sexual", o que lhe valeu antipatias de familiares e conterrâneos, afora ameaças de morte. Para ele todas as religiões são: um amontoado de lendas incríveis e uma pilha de disparates que competem entre si em estupidez. Ele critica o tratamento dado pelo Islã, a supressão da criatividade humana e as alegações de que o Alcorão contém milagres científicos. Fundou em 2013 o Conselho dos Ex-Muçulmanos de França. É também autor de The collaborationists of radical Islam unveiled (2017), Blasphémateur ! Les Prisons d'Allah (2015) e Une trahison française: Les collaborationnistes de l'islam radical dévoilés (2017). Para ele: É verdade que nem todos os muçulmanos são terroristas, mas todos os terroristas são muçulmanos. O problema no Islã está no conteúdo do Alcorão, e isso é absolutamente cristalino. Quem defende o contrário está cego... Não dizer nada é tolerar o intolerável. Não temo aqueles que me chamarão de “islamofóbico” quando denunciar o seu fundamentalismo: a sua chantagem com a islamofobia nunca funcionou comigo... O véu nada mais é do que um símbolo do islamismo político, assim como as braçadeiras eram para os nazistas!...

 

DOR DE MÃE CORAGEM & AS FILHAS DA DOR - [...] O dia 3 de abril de 2002 foi o dia mais triste da minha vida. Nunca me esquecerei desse dia, pois foi quando a vida da minha filha foi destruída [...] Essa é uma dor terrível que carrego permanentemente na minha alma. Quase me acostumei a viver com ela. [...] Quando Marita não voltou naquele dia, meu marido e eu sentimos que algo terrível tinha acontecido. Como pais, a gente simplesmente pressente essas coisas [...] Havia cerca de 60 mulheres, todas com roupas sumárias. Marita não estava entre elas. Eu disse a essas mulheres que quem estivesse ali contra a sua vontade, deveria se apresentar e vir conosco. Imediatamente, uma jovem correu para os meus braços e não me soltou até sairmos daquele lugar [...] Eu não era uma figura pública na época, então isso facilitou as coisas. Nem sequer contei ao meu marido que ia fazer isso. [...] Cada uma tinha um preço. Havia até meninas menores de idade, algumas com apenas 14 anos. Todas pareciam aterrorizadas. Quando você olhava para elas, baixavam o olhar e tentavam cobrir seus corpos quase nus com as mãos [...] A linguagem grosseira dessas meninas demonstrava o terror e a dor que elas estavam passando [...] Foi então que decidi criar uma fundação [...] Também vou continuar lutando na rua, nos meios de comunicação e onde quer que seja contra a exploração sexual, por minha filha Marita e por todas as moças que passam e passaram pela que ela sofreu... [...] Aqui, no meu peito, sinto que ela está viva e meu desejo mais profundo é o de abraçá-la forte... [...] Techos da entrevista Enfrentando os traficantes de pessoas na Argentina (BBC News, 2012), da ativista argentina Susana Trimarco, mãe de Marita Verón e fundadora da Fundación María de los Ángeles. Marita (María de los Ángeles Verón Trimarco) tinha 23 anos, em 2002, quando desapareceu em San Miguel de Tucumán, negociada por uma rede de tráfico de mulheres. A luta da mãe viúva e ex-funcionária pública argentina para encontrar sua filha, levou-a a se vestir de cafetina em prostíbulos, infiltrando-se em quadrilhas de tráfico humano, contando com a participação direta de sua neta, a adolescente Micaela Sol Trimarco. Ela sobreviveu a duas tentativas de assassinato, sua casa foi incendiada, ela recebeu inúmeras ameaças de morte, mas nada a impediu de procurar por sua filha desaparecida. Até hoje ela continua a denunciar fortemente a cumplicidade entre redes de tráfico humano, policiais e o poder político. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


O UNIVERSO LITERÁRIO DE JOÃO GUIMARÃES ROSA - A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada... O mais importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando... Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura...  Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver mesmo... Viver é etecetera... Trechos extraídos das obras do escritor, diplomata e médico João Guimarães Rosa (1908-1967). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

BRINCANTES DA MATA SUL

[...] Escrever esta obra foi caminhar por um mapa de afetos. A motivação veio do desejo de honrar aqueles que guardam o brilho da nossa cultura no corpo e na voz. [...].

Trecho da apresentação da obra Brincantes da Mata Sul: mapeamento da tradição popular pernambucana (Arranco-PNAB, 2022), da produtora cultural Maria Clara Catende (Maria Clara Mendes) e Flor das Chagas, resultado de uma pesquisa de campo realizada nas cidades de Catende e Palmares, marcadas por uma rica tradição de folguedos populares que atravessa gerações, na Mata Sul de Pernambuco. Durante a pesquisa de campo, a equipe percorreu engenhos, feiras, distritos e comunidades rurais, indo de porta em porta para ouvir, registrar e compreender os brincantes que mantêm vivas as manifestações como a Mazuca, o Guerreiro, o Caboclinho e o Bumba Meu Boi. A obra reúne registros fotográficos, entrevistas e um mapeamento detalhado das expressões culturais dos dois municípios. Veja mais aqui.

 

EDUCAÇÃO PATRIMONIAL, PERNAMBUCANIDADE NA HISTÓRIA:

ENTRE VERSOS, BACAMARTES & FOGUEIRAS – O CICLO JUNINO COMO EXPRESSÃO DA LITERATURA, DAS TRADIÇÕES E IDENTIDADE CULTURAL PERNAMBUCANA

Dia 25 de junho na Biblioteca Fenelon Barreto, Palmares (PE). Veja mais aqui.

 

E veja mais Pernambuco aqui.



 


domingo, junho 14, 2026

FRANÇOIS JULLIEN, EILEEN CHONG, STARHAWK & GUEL ARRAES

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Glamorous Life (2017), Very Special (2017), Tea Times (2016), Self Portrait (1997) e Cruisin' (1993), da pianista japonesa Junko Onishi.

 


O sacrifício da heroína & as façanhas acanhadas do mancebo... - Aperturam libra: Zeca Biu já contava com seus 17 castos anos e a mãe dele, dona Adélia, desde que vencida a puerícia dele, se corroía há tempos por preocupações: o alistamento militar e cadê a namoradinha dele? Toda mãe é sagrada, há de se perdoar até as ideias extravagantes dela: Será? O filho até então não se servia pro metier, ou se passasse a desmunhecar e, o pior: a zooerastia, valei-me, afora o risco da peste no pipocar dos furúnculos. Em confidências hesitantes e sucessivas com a Viscondessa, a constatação do pânico: Puxou ao pai? Talqualzinho. O mal-estar angustiante: careciam de providências urgentíssimas. Idas e vindas. Ele lá alheio a tudo: inepto donzelo Príapo, no vice-versa da escola pro oitão da bicharada: seu meio de ganho com estimado gosto, cada dia o seu pão e sequer um sinalzinho dum pé de gente por amizade. Nem se incomodava mais com o desplante dos vizinhos furiosos com o fedor do criatório. A genitora partiu pra cima da vocação hereditária, traquejo da vida, que seja: ou vai ou racha! Inventava todo dia um folguedo pra reunir as amigas e suas filhas, esperançosa de que dali uma que fosse caísse nas graças dele. E inventava pândegas de Príncipe Encantado, levada pela festa do boi do Barão, tudo para destabocar a curiosidade das convidadas, resultando, ao final de cada festejo, num desfile amuado de Zeca Biu, todo sem jeito, só pra que todas vissem a filiação de um bom partido. Não dava cloro. Apelou pro anjo da guarda deles, fez careta com as omissões, a cada batida do coração uma vontade escapulia e quase tudo se perdia, de não desperdiçar outra vez, uma chance, a única, descartada? Nunca. Desenganava: Ele que bote suas astúcias pra fora, lavo as mãos não. O pubescente parecia já ter tirado a catinga do mijo e de tão tabacudo nem aí. Ela fez finca-pé: recorreu à inarredável Viscondessa e lá, na sepultura dela, ajoelhava-se de rezar e orar por horas, pedia permissão e rogava um sinal de seu consentimento. Na hora: uma nuvem larga escureceu e caiu o maior pé d’água, logo o Sol raiou: casamento da raposa. Era o que precisava, saiu efusiva pronta pra deixar tudo nos conformes, louvando seus rogos pro Santoínho. Dissimulada lá e cá, dissuadia: Cadê a paquera? Ele gaguejava retraído, desconversava, tudo vez nada: quão e tão sombra sem voga, pernas e braços cruzados, todo encabulado quanto ao assunto, constrangia-se a qualquer insinuação. Ô meu filho, tá na hora de pensar em casar, num tá não? Casar? Ora, se. O mancebo alesado: Quem? Um espirro, só na babaquice de queijudo. Ô homem sem jeito! Sujeito retraído, abria e fechava os olhos; levantou-se e foi até longe no alto do morro e confidenciou sua indignação: Casar? Foi pra casa dormir que já era breu pra madrugar. Aí ele sonhou com uma cigana jeitosa: Qual a sua missão? Despertou agoniado sem entender patavina. Eis que amanhecera e distraído no quintal, apareceu do nada Dorcelimesia, a Dodô, também afeiçoada a bicho. Ela trouxe pela coleira um gambá de estimação – tipo rato-do-mato. Ele receptivo: Também gosto de cassaco, saruê, mucura, timbu, sariguê, tenho desses não no meu zoo, só uma ticaca perdida por aí. Quer? Pra você eu dou. É macho? Sei lá. Deixe ver: agora temos um casal. E riram-se. É que a mãe dela ralhava: Quero isso aqui não, rouba ovos de galinha. Oxe! E se riam da leseira dela. Assim se viam manhãs, tardes e noites, até foram juntos prum concurso e todo mundo fugiu. Ué! Quem aguentaria a bufa dum da orelha-preta? Nisso a felizarda genetriz benzeu-se, foi ver de perto e um tênue alívio repousara no seu coração: estava ali, naquela menina, a sua redenção. Aproveitou-se achegando-se: aguava o pagode ensinando as manhas pra moça e tudo fez força preles se estreitarem: No dia dos namorados, Almofadinha e Melindrosa, brincava. A menina gostou tanto, da viúva sogra, dela correr antecipada pros pais da afeiçoada: Vamos ajeitar o casório! Como? Está mais do que na hora de juntar os dois pombinhos. E virava os olhos sonhando com epitalâmios no ritual do matrimônio e bruguelos saltando pelo himeneu: Vovó! Voltou pra casa e contou logo pra sua agora suposta nora: Pronto, agora vão brincar no quintal com a Paz de Deus. Oxe! Os dois subiam e desciam pelas árvores, buliam com a bicharada, pulavam muro, escorregavam no pó-de-serra, atravessavam o brejo, viravam cambota, bundacanasca. A cunhã viçava, mais atirada, taluda, destemida, determinada, o instinto materno adotivo; ele tão medroso na estase franzina da ingenuidade, achava dela uma coisa tão chochinha, vixe! Passava. E se empolgaram tanto dele contar um segredo. Havia do que se falar: juntando montes e esburacados, deu numa panela cheia, dinheirama. Mesmo? Uma botija por achado, segredou. E aí? Fez pelos avessos: dividiu em caçarolas menores para semear em pequenas covinhas esparsas pela imensidão. Tais rico, então? Só eu e você, chiiiii. Daí ele pegava o chilreio da passarada para guardá-lo atrevido no bolso da blusinha dela: Pra você, todos! Ela sorria dourada quase tarde ensolarada. E roubavam algodão doce das nuvens baixinhas ao alcance das mãos, botando os pedaços um na boca do outro. Se sentiam como na epopeia do camelo & a zebra, era a amizade deles nascendo escondido, tímida, clandestina, embaixo de 7 capas. Não despregava as vistas da titela dela que cochichava cócegas às suas ouças; o riso, respiração profunda. Trocavam azuis por rosas, roxos por amarelos, verdes por vermelhos. Ela gostava de ver o bando dos bichos, até da criatura com o dobro de braços e pernas. Quem? Oxe, apareceu agora. Deu fé até dum ET. Danou-se tudo! Aí ardiloso pras bandas dela: Vê aquele negócio ali! Ela foi, arreou-se conferente e ele, inadvertidamente, viu-lhe o cofrinho robusto no lance da calcinha. Caiu a ficha, zarolho, empertigado: Fazer o quê, meu Deus? Um inadvertido prurido ventral emergiu com a brejeirice dela sem empecilhos, descobria a polução involuntária, aprendia a função onanista. O zerola lambia os beiços, súbito fugitivo. Dodô virou-se: Cadê-lo. Sumira. Caçou-lo pela redondeza e pegou-lo acuado ensandecido numa touceira escondida. Cobra? Foi ajudá-lo e pegou dum jeito que ele sentiu o efeito na hora: maior meladeiro. O que foi isso? Titubeou desajeitado, mas e nãos e sins. Não é venenosa não, né? Não era. Ela apurou direito dos olhos quase pularem fora: Você tem três pernas ou isso é um aleijão? Tartamudeava lívido, acabrunhado. Deixe ver direito? Um abismo. Não! Ele fugou aos desembestos. Ela no encalço. Cansados da correria, se agacharam esbaforidos à sombra do cajueiro. Tomavam fôlego. Cabeça baixa, olhos fechados, ele não sabia o que dizer, língua enrolada, juízo deu nó. Quando ela olhou pra ele ali acocorado, arregalou-se com o bico da piroca pendurada, escapulindo coxa abaixo. Que bicho é esse? Hum? Não se mexa, vou pegar! E, como a maior de todas as heroínas, encarou destemida. Deu-se a lavação da jega, dele bater forte nos possuídos dela, uma peiada macha, de levá-lo à rebordosa: viciado, via-se logo famélico, olhos fundos, desapaziguado, só os ossos. Qualquer gesto dela e sacudia-se, deseganchado da toleima, atirava-se sobre os seus costados deles esquecerem o almoço depois do meio dia, a janta na boquinha da noite e assaltados pela surpresa de que já era tarde da noite, hora de cada um se recolher-se ao seu domicílio. Não era de reprimenda e apartavam-se meio que desastrados até bufarem sono pesado pela noite folgazã, cada qual na sua cama. No outro dia Zeca Biu, todo ancho, procurou Dodô. O canto mais limpo. Cadê-la? Os pais se mudaram. Pra onde? Quem sabe! O seu mundo pipocou esfarelado e, na mais espessa escuridão, piongos, mãe e filho, desconsoláveis: fazer o quê dali pra diante. Dias depois bateram à porta. Duas envelopes por baixo da porta. Inadvertida a mãe as apanhou: É pra você! Escolheu logo a da caligrafia dela estampada no bilhete: Vou fugir de casa praí! Ele alvoroçou-se todo. Contudo, conteve-se: os olhos maternos chorosos: Que foi? Entendeu-lhe o papel: era hora de servir a uma das forças armadas. Acta est fabula. Até mais ver.

 

Jürgen Habermas: Somente quem assume o controle da própria história de vida pode enxergar nela a realização de si mesmo. A responsabilidade de assumir o controle da própria biografia significa ter clareza sobre quem se quer ser... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Joyce Carol Oates: Somos todos regionalistas em nossas origens, por mais 'universais' que sejam nossos temas e personagens, e sem nossas queridas cidades natais e paisagens infantis para nos nutrir, seríamos como plantas colocadas em solo raso. Nossas almas devem criar raízes - quase literalmente... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Salman Rushdie: Sociedades livres... são sociedades em movimento, e com o movimento vêm a tensão, a dissidência, o atrito. Pessoas livres produzem faíscas, e essas faíscas são a melhor prova da existência da liberdade... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

BÚSSOLA

Imagem: Acervo ArtLAM.

EU - Minha mãe me colocou na água. \ Ela me deitou de costas. Algum instinto \ manteve meu pescoço rígido e minha cabeça erguida. \ A fotografia se perdeu. No álbum \ da minha mente, vejo o pânico nos meus punhos cerrados. \ Ainda sinto o frio da água ao meu redor.

II - Ele disse que iríamos jogar um jogo. \ Todos nós pulamos de susto. Ele segurou minha mão com força. \ No fundo, contamos. Bolhas \ prateadas subiram à superfície. Então, eu saí correndo. \ de ar. Eu não conseguia me soltar. Ao \ subir, ele me chutou. A água: tão pesada.

III - À tarde, eu tinha muita alegria \ em encher a pequena chaleira e levá-la \ para o meu avô na sala de estar. \ Ele colocava a chaleira na chapa quente e deixava \ a água ferver. Folhas de chá na chaleira. \ O aroma de bambu. A infusão amarga.

IV - Meu pai sempre dizia: onde há água, \ há chineses; onde há chineses, \ há hakka. Tenho cinco frases: \ comer, dormir, tomar banho, cagar, não entendo. \ Para contar os inhames: descascamos os inhames. \ Cozinhamos, amassamos, adicionamos farinha e amassamos \ até virar massa. As mulheres em fila, moldando \ as bolinhas com covinhas. Nunca entendi toda essa confusão. \ Óleo cobre meus lábios, meus dentes e minha língua.

V - Sinto muita falta da banheira. \ Nas manhãs de inverno, eu acordava e preparava \um banho quente. Um calor insuportável, escaldante. \ Vapor subindo da água. Sal dissolvendo-se \ instantaneamente. A imersão sublime — \ um retorno ao útero, ou a um caixão.

VI - Às três horas da manhã, \ minha avó resolveu esfregar \ o chão do banheiro. \ Ela escorregou, cortou a testa \ num cano e caiu de cara no chão. \ Sangue e dois olhos roxos. \ Essa mulher lutou a vida inteira. \ À noite, trava uma batalha consigo mesma. \ O suor encharca seus lençóis.

VII - Nunca soube que tinha um gosto doce. \ Como mel da rocha— \ Sermões monótonos ecoavam pelo meu teto \ enquanto eu lia o Cântico em silêncio. \ De cânticos, salmos e provérbios. \ Versículos como as marés. Meu primeiro \ Poema, o oceano da minha ruína.  \ No fundo: uma bússola de lata, \ sua agulha selvagem e inquisitiva.

Poema da poeta singapuriana Eileen Chong (Eileen Chong Pei Shan), radicada na Austrália e autora dos livros Burning Rice (2012), Peony (2014), Painting Red Orchids (2016) e Rainforest (2018).

 

CIDADE DE REFÚGIO - […] Que o vento carregue seu espírito suavemente, que o Fogo liberte sua alma, que a Água a purifique, que a Terra a acolha, que a Deusa a tome em seus braços e a guie para o renascimento. [...] Mesmo uma gota de felicidade poderia colorir um poço inteiro de miséria. [...] Trabalhamos muito, estávamos conseguindo nos manter — aí eles aumentaram as taxas de juros, ou fecharam as escolas, ou mudaram as leis... [...]. Trechos extraídos da obra City of Refuge: The Fifth Sacred Thing (Califia Press, 2016), da escritora e ecofeminista estadunidense Starhawk (Miriam Simos), que no seu livro The Earth Path: Grounding Your Spirit in the Rhythms of Nature (HarperCollins, 2004), ela expressou que: […] A energia se move em ciclos, círculos, espirais, vórtices, redemoinhos, pulsações, ondas e ritmos — raramente, ou nunca, em linhas retas simples. [...] Como tudo é interdependente, não existem causas e efeitos simples e isolados. Cada ação cria não apenas uma reação igual e oposta, mas uma teia de consequências que se propagam. [...] Uma relação real com a natureza é vital para o nosso desenvolvimento mágico e espiritual e para a nossa saúde psíquica e espiritual. É também uma base vital para qualquer trabalho que façamos para curar a Terra e transformar os sistemas sociais e políticos que a atacam diariamente. [...] Mas um quebra-vento também é um grande professor, para mim, sobre não-violência. Como respondemos a forças intensas — raiva, fúria, até mesmo ataques físicos — sem nos tornarmos violentos em resposta? Como reagimos a críticas bem-intencionadas, porém duras (sejam elas bem-intencionadas ou intencionalmente ofensivas)? Se nos tornarmos uma muralha, bloqueando as energias que nos atingem, podemos, na verdade, fortalecer a raiva da oposição. Por outro lado, se simplesmente ignorarmos ou rejeitarmos as críticas, a oposição pode expandir suas críticas para incluir nossas reações. Mas há uma terceira alternativa: se aprendermos com as árvores, podemos absorver e transformar a energia que nos atinge. Fazemos isso mantendo a calma, o equilíbrio e o centramento, ouvindo em vez de responder, balançando com o vento e deixando-o dissipar-se. [...] Não acredito que tudo em nossas vidas seja uma questão de escolha. Em círculos da Nova Era, ouço frequentemente pessoas dizerem: "Criamos nossa própria realidade". Essa é uma compreensão simplista e míope de como a realidade funciona. Não escolhemos todas as nossas circunstâncias, nem todas as nossas opções. Os pobres geralmente não escolhem morrer de fome, nem os oprimidos escolhem a opressão, e as vítimas da guerra não escolhem morrer. Mas podemos escolher como reagir às circunstâncias que nos são apresentadas. [...]. Ela também é autora de outros livros como Webs of Power: Notes from the Global Uprising (2002), Walking to Mercury (1997), The Pagan Book of Living and Dying: Practical Rituals, Prayers, Blessings, and Meditations on Crossing Over (1997), The Fifth Sacred Thing (1993), Truth or Dare: Encounters with Power, Authority, and Mystery – Creative Alternatives for Positive Change in Our Lives and World (1987), Dreaming the Dark : Magic, Sex, and Politics (1982) e The Spiral Dance: A Rebirth of the Ancient Religions of the Great Goddess (1979).

 

NÃO HÁ IDENTIDADE CULTURAL – […] tratar a diversidade das culturas em termos de diferença levará a querer isolá-las e fixá-las na sua identidade. [...]. Trecho extraído da obra No hay identidad cultural (Taurus, 2017), do filósofo francês François Jullien, que em sua outra obra The Silent Transformations (Seagull Books, 2009), ele expressa que: [...] O que resta, de fato? O que mais nos resta além da grama que cresce e das montanhas que se erodem, corpos que se tornam pesados e rostos que se emaciam, a vida que fecunda, ou se exaure, ou melhor, que, enquanto fecunda, já começa a se exaurir? E vagas expectativas que se cristalizam em paixão febril, ou então em encontros que se tornam menos frequentes. Ou cumplicidades amorosas que, sem serem confessadas, se transformam em relações de poder? Ou revoluções heroicas que (sem que possamos precisar quando) se transformam em privilégios do Partido? Ou então as feridas de ontem que são deslocadas, enterradas e condensadas, e então se transcrevem em representações criptografadas de sonhos – e obras que amadurecem em silêncio? [...]. No livro La china da que pensar (Anthropos, 2005), ele reflete que: [...] ao que foi aprendido, enquanto se continua aprendendo. [...], acrescentando noutra obra, The Propensity of Things: Toward a History of Efficacy in China (Zone Books, 1995), que: […] No estágio mais embrionário, a tendência à plenitude da atualização já está latente. [...]

 


O UNIVERSO DE MACHADO DE ASSIS - Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito... Pensamento do escritor Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis – 1839-1908). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE GUEL ARRAES

[...] Eu entrei em cinema no começo dos anos 70, bem por acaso. Na época, todo mundo fazia um pouco de Super-8, que corresponde ao vídeo de hoje em dia. Na Universidade de Paris VII, eu fazia um curso de antropologia e havia umas cadeiras de cinema. Como eu já fazia filme em Super-8, optei por cadeiras relacionadas a cinema, etnologia e etnofilmes. Foi quando comecei a ver os filmes de Jean Rouch e fiquei fascinado [...] Eu cheguei no Brasil em dezembro de 79. Cheguei no Rio em abril de 80 e seis meses depois eu estava na televisão, já na Globo, já em novela. Eu comecei como estagiário e uns seis meses depois comecei a dirigir. Minha ida para a Globo também foi por acaso. [...] O que eu faço no cinema é comédia maluca. Gosto do cinema burlesco, da comédia, da farsa mas nesse gênero de filme não se explora a paisagem, planos em contra-luz. Não dá tempo para se ter muitas panorâmicas, por exemplo. O cinema que eu faço não tem a pretensão de ser um cinema de arte. Não precisa ser julgado dentro dessa regras. Há eixos nos meus trabalhos e são eles que precisam ser analisados: há essa mistura de ficção e realidade, há o apelo à metalinguagem, o burlesco, por exemplo. [...] O Auto surgiu quando a gente já estava começando a cansar de novo da TV. [...] Na maioria das histórias, a gente teria que cortar muito para colocar tudo em um único episódio; não haveria como aproveitar mais cenas difíceis e caras de produzir, foi quando então a gente propôs o formato seriado, em capítulos. Foi o que fizemos com o Auto da Compadecida, Luna Cliente e, mais tarde, com Caramuru. [...] Com a transformação do Auto da Compadecida em filme, ficou bem claro que a leitura no cinema é mesmo outra, permite um grau de sofisticação maior. [...] Mas, para muita gente o Auto, no cinema, foi uma coisa inteiramente nova. Isso só mostra que, na televisão, às vezes, a gente “vê e não vê”. Se ficasse só na TV, teria sido só mais um excelente programa; no cinema, virou uma interpretação clássica de um clássico de Ariano Suassuna. No entanto, era a mesma coisa. O cinema cria uma outra relação. [...] Parecia ser possível então educar um público pra ver diferente: se o programa tem equilíbrio, desperta curiosidade, desperta interesse, o espectador começa a sentir que pra ver aquilo ele tem que prestar atenção, e ele começa a prestar atenção porque se ele virar, piscar, pode perder uma piada. Isso eu acho que, de alguma maneira, começou a acontecer com os programas que a gente fez [...].

Trechos recolhidos da entrevista Subvertendo as fórmulas, reiventando os formatos: entrevista com Guel Arraes (Galáxia, 2002), dos jornalistas Alexandre Figueirôa e Yvana Fechine, concedida pelo cineasta, roteirista e diretor Guel Arraes (Miguel Arraes de Alencar Filho), diretor de filmes como Doris para maiores (1991), A comédia da vida privada (1997), O auto da compadecida (2000), Caramuru – a invençãodo Brasil (2001), Lisbela e o prisioneiro (2003), O bem amado (2010), Grande sertão (2024) e Fábrica de sonhos (2024), entre outros. Veja mais aqui.

 

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segunda-feira, junho 08, 2026

ALI COBBY ECKERMANN, MAGGIE O'FARRELL, LORRAINE DASTON & ANITA PAES BARRETO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns The Road... (Shanachie Records, 2011), Soul Quest (Shanachie Records, 2013) e Journey to the Heart (Shanachie Records, 2016), da cantora, compositora e pianista japonesa Keiko Matsui.



 

A viúva do bestiário... - Estava correndo bicho! Sabiam, medrosos cochichos, temores ao pôr-do-sol. Às horas noturnas o agouro, coisas medonhas pela madrugada: partes com o coisa ruim, só sendo. Alívio, só ao amanhecer. Isso é lá coisa que se faça? E tome zunzunzum: quanto mais se tentava esclarecer, mais dúvida se valia. Vogava era espanto, eventos vários e sucessivos, viravam tudo de pernas pro ar. Como é que pode? Fechava a boca pra não topar malefício. Não visto, não sofrido, só pelo sabido: esperar sua vez. Desesperados, quem acudiria? Findava tudo aos risos e sustos, desordens às caçoadas, motejos: a coisa pelo logro, embustes de última hora. O tinhoso cercas rondava, pelas brenhas fechadas, capoeiras, brejos, chãs, o bafo da ameaça oculta, fugiam até os espíritos dos trechos de mata devastada, nada bulia nas trilhas na vegetação, estradas de barro, estalidos pelas benditas lonjuras, êpa, às caretas, o fôlego das ventas, segurando as fivelas, premiam a volta das arreatas, as astúcias na caixa dos peitos: Venha, não! Quem viu rastro de cobra? Destá. Do que disseram que era, nem sinal! Desaforo. Feitiço, trabalho de encruzilhada. Ora, se. No amiudado, o canavial quieto. Ih, pé adiante, só se sabia no outro dia de estraçalhadas vacas, carneiros, cabras, porcos, patos, galinhas - ferrava presa às traições, dente chupa sangue, suga tudo até o ar dos bofes, só estendido no oitão. Cadê sinal de sangue? Valei-me! – Mexeram na gadaria daqueles ricaços? Nada, só dos que juntavam poucos pra sobrevivência. Ara. Vigiavam. Faziam serão, penosa tocaia, as paredes do casebre, o bafejo ruidoso, foices, facas, a face da fera na miragem, olhela! Facões afiados, o pé-de-vento, corridas a cortar mato, pé atrás, queriam o couro do bicho, esfolá-lo! A fama. Remexia a sorte: Pra donde ela pendia? Aos arredores, espreitava-se; andavam de costas pelas próprias pegadas, tarde demais, media-se, calculava-se às funduras, fio-de-prumo, mira no alvo, o extraordinário, ventania e desenredo, cercados intactos: Isto é uma tiborna! Peça licença e não olhe pra trás, não responda chamado nem assobio! Isso não tem cabimento! Era coisa de dar medo, só pavor: Os olhos em brasas vermelhas da Medusa, as feições horríveis, feiosas, o despovoado, as cascas destroçadas, sacudidas vantagens nas lonjuras, suspeitas, celeumas, triunfar embaraçoso, receios pueris. Frescura, cara! Tudo nos conformes. O sapo coaxou, ou a borboleta voou, escorpiões arrastavam, a adivinhação: Vai fazer medo a outro! Uma anomalia que se deu fé em El Yunque, passou por Varginha, parece, e foi bater lá pras bandas de Craíbas, um teratismo sui generis. Isso é pinoia! Era não. Diziam do predador de pele cinza e fedor horrível, drenando a vida dos animais – sugavam o sangue até a última gota e o seu distintivo nas cauterizadas perfurações dentárias cravadas no pescoço ou nas axilas da vitimada, hemorragias internas, sem outras marcas além da mordida e o sangue não jorrava. Ué? Ora, era uma criatura bípede de quase um metro e meio de altura, olhos grandes arregalados, espinhos nas costas e longas garras, saído do fundo dos lagos ou pantanais, em terras distantes ou dos confins das florestas; ora, outros dizquês, era sem pelos por conta da sarna sarcóptica e locomovendo nas quatro patas, aparecia às janelas aterrorizadas, não era coiote, nem guaxinim, nem cachorro selvagem. Que droga que era? Dizem do vampírico Chupacabras. Hem? Nada, deve ser a Tarya do Caribe. Que é isso? Quem sabia! Uns mustelídeos, coisa de doninhas, visons e martas-pescadoras, que também bebem o sangue de presas grandes demais para serem carregadas. Nada, é lorota. Cogita-se oriundo de experiências científicas ultrassecretas malsucedidas pelos algozes colonizadores imperialistas – ah, isso mesmo: exagero da mídia, ansiedade cultural e histeria coletiva! Danou-se, doutor! São híbridos coydogs sarnentos. Quem já viu, de mesmo? Ninguém. Tó Zeca desconfiou da leseira e como era gente de peleja foi atrás da desgraça. Quero ver a cor dessa chita, ah, se vou! Coisas de grotas longes, ladeiras sem fim, de barro batido. Seguiu as pegadas no faro e tirocínio, o rastro escondido parecia brilhar na escuridão, adivinhava. Persistia no encalço. Logo a catinga foi crescendo, tomando vulto e, de repente, desvencilhou-se dum golpe repentino. Eita! Quase me pega desprevenido. De novo, outro golpe devastador. Aí: A-rá! Peguei-te, besta fera! Agarrou o tornozelo da maligna e sustentou-la de vê-se arrastado pelas pedras, matos, rios e mar, até o fim do mundo, quando bateu dela exaurir-se no cansaço de tanto espernear. Peguei-la. Solto não, desgraça! O monstro arfava, a poeira baixou. Encolheu-se, em decúbito ventral. Oxe! Aberração ardilosa, sabia: Quer me pegar na virada, né? Precauções, vigilante, teratologia em dia. Deixou-la quieta, nem ousou soltar o calcanhar dela: Tá doido? Um facho de luz e ali uma mulher nua, indefesa, quase desmaiada. Vôte! Ouviu-a: Sou Filínia de Anfípolis, a Noiva de Corinto do Goethe e da De Mirabilibus de Flégon de Trales. Vá, converse mais, não me ganha, não. Ela fugira do Livro das Bestas para ser prisioneira de Labatut, na Chapada do Apodi – aquele desalmado dos pés redondos, mãos compridas, cabelos longos e assanhados, o olho insone na testa, os dentes de elefante, o mais sanguinário general francês, mercenário cruel, abusava de mim, comia os filhos que paria e saía à caça em noites de ventos e lua cheia. Havia enfrentado todo tipo de acusação de bruxaria e incontáveis julgamentos e censuras, até o dia da fuga quando o amazônico peixe vampiro candiru – entrou-lhe pela uretra e sugou seu sangue, parasita hospedeiro incruado lá dentro dela. Era a primeira morte. Depois a lampreia – uma enguia dentada do mar e dos rios, convívio com morcegos, sanguessugas, artrópodes e insetos – mosquitos, pulgas, carrapatos, percevejos, monstros invisíveis que vieram da febre do Nilo Ocidental, a sua hematofagia. Deram-na pela fugitiva filha do Drácula de Stocker: Marya Zaleska. Mais disse-lhe da sabença dos mistérios no fundo das coisas, o que esconde e o que aquieta, ele só esperava o bote no intervalo, deduzia o estopim, o assombro, a culpa de quem, ao que ela mencionou ser ele da linhagem do grego Carpophorus, que se tornou o venador de Sêneca e abatia feras no Amphitheatrum Flavium. Acreditou? E ela prometeu para ele a vida eterna, desde que a poupasse e vivesse com ela. Como é? Mais precaveu-se: era Lâmia e quantas mais? E só dele o poder de desencantá-la, ciente do amor e seus mistérios. Até mais ver.

 

Gayle Forman: Não leve a vida muito a sério. Você nunca vai sair dela viva... É melhor manter a boca fechada e deixar que as pessoas pensem que você é um tolo do que abri-la e remover toda a dúvida... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Hélène Cixous: Pensar é tentar pensar o impensável: pensar o pensável não vale o esforço... Censurar o corpo é censurar a respiração e a fala ao mesmo tempo. Escreva sobre si mesmo. Seu corpo precisa ser ouvido... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Marie NDiaye: Quando eu era adolescente, esperava que a literatura, tanto a que eu lia quanto a que eu escrevia, me salvasse de uma vida comum, da monotonia do dia a dia com um emprego assalariado, ou de um casamento, etc. A vida real me deixava ansiosa. A literatura me permitiu transformar minha profunda inadaptação ao mundo em algo socialmente aceitável e até gratificante – porque, felizmente para mim, a aposta valeu a pena, e isso poderia muito bem não ter acontecido... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

UM SONHO - Eu vi-te dançar \ aquele verão \ antes da guerra \ seu rosto pintado \ orgulhosamente celebra \ suas habilidades de caça \ mulheres em sussurro de admiração \ atrás de suas mãos \ de sua força \ e bravura \ o cocar que você usa \ reflete seu lugar de direito \ de liderança \ e sabedoria \ Isto foi antes \ o homem branco veio \ e assassinou-te.

EU TE CONTO VERDADE - Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Desde que eu vi minha filha perecer \ Ela queimou até a morte dentro de um carro \ Perdi o que mais prezo \ Vi os anjos segurá-la \ Enquanto eu gritava com uma esperança inútil \ Eu não posso parar de beber Eu te digo verdade \ É a única maneira que eu lido! \ Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Desde que encontrei a minha irmã morta \ Ela se enforcou para impedir os estupros \ Encontrei-a no barracão \ Aquele cabrão de violador ainda vive aqui \ Impune nesta cidade \ Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Desde que a cortei \ Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Desde que a minha mãe faleceu \ Encontraram-na maltratada pelo riacho \ Sinto mais a falta dela a cada dia \ A minha família culpou-me pela morte dela \ Suas palavras me tornaram selvagem \ Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Porque eu era apenas uma criança \ Então, se você vê alguém como eu \ Quem está bêbado e alto e xingando \ Não julgue muito ‘porque você não sabe \ Que tristezas estamos amamentando.

Poemas da poeta Yankunytjatjara australiana Ali Cobby Eckermann. Ela, sua mãe e sua avó foram todas roubadas, enganadas e adotadas, afastando-se de suas famílias biológicas e tornando-se parte das Gerações Roubadas, foi abusada sexualmente por um amigo da família quando tinha 7 anos e sofreu abusos e racismo contínuos durante a infância e adolescência. Aos 17 anos, saiu de casa com um homem com quem viveu por dois anos, mas de quem se separou devido à violência. Ao retornar para casa, descobriu que estava grávida e deu à luz aos 19 anos. Seu filho foi adotado. Após completar 18 anos, Eckermann começou a procurar sua mãe biológica, Audrey, mas só a encontrou aos 34 anos, depois que informações foram divulgadas com o relatório Bringing Them Home, em 1997. E 4 anos depois, ela encontrou seu filho Jonnie. Sobre sua experiência ela diz: "Aprendi a viver de duas maneiras diferentes ao longo da minha vida. Aprendi um bom exemplo de trabalho árduo e bondade crescendo com minha mãe e meu pai na minha família adotiva. E sou extremamente grata por minha família tradicional ter me acolhido de volta com tanto amor e honestidade. Ganhei uma segunda chance de viver em um mundo honesto". Ela é autora de livros como Little Bit Long Time (2009), Kami (2010), His Father's Eyes (2011), Love Dreaming & Other Poems (2012), Too Afraid to Cry (2012), Inside My Mother (2015) e She Is the Earth (2023), entre outros.

 

RETRATO DO CASAMENTO – [...] Perder a calma é perder a batalha. [...] A tristeza continua tentando amarrar pesos em seus pulsos e tornozelos, portanto ela precisa continuar se movendo, precisa ser mais rápida que ela. [...] Ela sempre teve uma predileção secreta por essa parte do bordado, o lado "avesso", repleto de nós, estrias de seda e torções de linha. Como é mais interessante, com sua exibição franca do trabalho necessário para alcançar a perfeição da peça finalizada. [...] Ela está aqui agora, fora dos muros da vila, onde a noite pintou sua própria versão do vale, em pinceladas ousadas de índigo; onde o vento anima esta misteriosa paisagem sombreada, pondo as árvores em movimento, lançando pássaros noturnos para o ar azul-escuro, espalhando manchas raivosas pela face ilegível do firmamento. [...] As palavras se imprimiam em sua memória, como a sola de um sapato na lama macia, que secava e solidificava, a pegada preservada para sempre. [...]. Trechos da obra The Marriage Portrait (Tinder Press, 2022), da escritora irlandesa Maggie O'Farrell, autora dos livros Hamnet (2020), The Hand That First Held Mine (2019), I Am, I Am, I Am (2017), This Must Be the Place (2016), The Vanishing Act of Esme Lennox (2006) e After You'd Gone (2000).

 

CONTRA A NATUREZA - [...] O artista não se destaca em nada além de si mesmo. [...] Cultivei minha histeria com alegria e terror. [...] É de mau gosto prolongar a vida artificialmente. Já fiz a minha parte, é hora de partir. Deixarei para trás o máximo de imagens possível; então, de repente, me fecharei como uma crisálida. [...] Na literatura, como em tudo, existe apenas um significado, mas esse significado pode assumir múltiplas formas. [...]. Trechos extraídos de Against Nature (The MIT Press, 2019), da historiadora estadunidense Lorraine Daston, acrescentando que: [...] Os fatos são frequentemente tênues e fugazes. São as conquistas de investigações sutis que devem estabilizar meticulosamente efeitos evanescentes ou combinar engenhosamente vários fios de evidência em um cordão forte e consistente. Acima de tudo, como sugere sua etimologia, [...] os fatos mais interessantes e úteis não são dados, mas construídos, artefatos no melhor sentido da palavra. A racionalidade é feita para um mundo de problemas bem formulados com respostas inequívocas; a razoabilidade postula um mundo menos organizado, no qual particularidades recalcitrantes muitas vezes tropeçam em universais abrangentes. A constatação de que vivemos numa era de polarização e extremismo tornou-se um lugar-comum, mas o historiador deve perguntar: por que agora, por que aqui? Convicções fervorosas podem existir em qualquer época; posições extremas de clareza cristalina sempre atraíram aqueles impacientes com compromissos incertos. Mas, no passado, a realidade complexa, mais cedo ou mais tarde, obrigou os dogmáticos de todos os matizes a baixar a voz e moderar suas afirmações. A novidade em nossa situação atual é a ilusão de que o mundo pode ser regido pelas regras mais rígidas da racionalidade: algoritmos tão inequívocos e inflexíveis que podem ser executados mecanicamente. Embora a propaganda em torno de algoritmos para tudo, desde dirigir um carro até escolher um parceiro de vida, tenha permanecido, em grande parte, apenas propaganda, a racionalidade intransigente se beneficiou às custas da flexibilidade e da razoabilidade. Mas a sociedade civil não pode sobreviver sem o diálogo atento que a razoabilidade implica – até porque, mais cedo ou mais tarde, a realidade se revoltará contra as suposições simplistas da racionalidade. [...]. Ela é autora de obras como lassical Probability and the Enlightenment (1988), Wonders and the Order of Nature, 1150 - 1750 (1998), Objectivity and the Escape from Perspective (1999), Biographies of Scientific Objects (2000), Things that Talk: Object Lessons from Art and Science (2004), Thinking with Animals: New Perspectives on Anthropomorphism (2005), entre outras.

 

A PSICOLOGIA DE ANITA PAES BARRETO

[...] eu só, não posso fazer nada. Agora, vamos nos lembrar que essas crianças que não têm nada e que estão passando pelas mãos da gente talvez não tenham oportunidade na vida. [...] Não é dar coisas, é fazer elas fazerem, fazer elas se promoverem. Porque amanhã elas podem reivindicar os seus direitos, mudar de situação porque entenderam isso. Então vocês não deixem nunca que a aula seja uma aula morta [...]

Depoimento (FGV/CPDOC, História oral, 1978), da professora e psicóloga Anita Paes Barreto, que foi presa como subversiva no golpe de 1964 e desenvolveu estudos e pesquisas sobre Educação de crianças e adolescentes. In: Movimento de cultura popular: memorial (Fundação de Cultura Cidade do Recife/Fundação Educar, 1986) e Ulisses Pernambucano, educador (Psicologia: Ciência e Profissão, 1992). Em entrevista concedida à jornalista Fernanda d’Oliveira (Diário de Pernambuco, 1982), ela expressou que: [...] acho que cada mulher que puder ocupar uma posição onde ela firma os seus princípios e que saiba ser coerente e autêntica na maneira de agir, estará fazendo um bem a todas nós. É interessante que a mulher tome parte na vida política. [...] Sou apolítica, mas tenho como educadora, o desejo da existência, no País, de uma verdadeira democracia [...]. Sobre o seu trabalho o artigo Anita Paes Barreto e o projeto de modernização da educação em Pernambuco (Revista Temas em Educação, 2025) de Alessandra Maria dos Santos e Raylane Andreza Dias Navarro Barreto. Veja mais aqui.

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A ARTE DE RICARDO AIDAR

Entrevista com o engenheiro civil e artista plástico Ricardo Bertacin Aidar, integrante do Gentamiga Ateliê (SP), participante da publicação Dareladas (CriaArt, 2024) e da plataforma Ubqub (SP). Veja aqui & mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

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A MENINADA DO LER BEM

Encontro do Observatório de Linguagens com os estudantes classificados no concurso Ler Bem, na Semed- Palmares (PE). Veja aqui & mais aqui & aqui.

 

Geraldo Azevedo aqui.

Pally Siqueira aqui.

Aguinaldo Silva aqui.

Bárbara Pereira de Alencar (1760-1832) aqui.

Gilvan Samico aqui.

Lucila Nogueira aqui.

Lourival Batista aqui.

Magdale Alves aqui.

Arnaud Rodrigues aqui.

Celina de Holanda aquí.


 


JOY HARJO, WALEED AL-HUSSEINI, SUSANA TRIMARCO & BRINCANTES DA MATA SUL

    Imagem: Acervo ArtLAM . É o beija-flor \ E aqui dentro vai guardando o medo \ Mantendo em segredo o que deve mostrar \ Pois já tem med...