sábado, agosto 01, 2026

NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

 

Imagem: Acervo ArtLAM.



 

Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para me esfarelar entre os pesadelos. E se ainda madrugava, não podia vacilar, relaxava só no somenos: o inopinado podia ser letal. E se me fiz o erro, nenhuma voz jamais ouvi, semblante algum de Ophelia a me deixar desgovernado pelos temores no socorro inútil. E não era ninguém, cada qual berrava suas convicções e as impunha sobre a vontade alheia, quem morreu foi a expectativa, esmagada pelos suplícios insones na passagem das horas e o horror de morrer todos os sonhos do mundo. Quase amanhecia me refazendo dos pedaços perdidos e se ainda fosse dia, catava: cadê a armadura? Não podia sair assim sem a carapaça da invulnerabilidade, à toda prova, vigilante: a ocasião fazia o golpe heteróclito. E nem sabia quando recuar, ou atacar em marcha, pisada firme, percepção ubíqua, porque meus olhos implacáveis se perdiam pelas margens movediças das viagens vicárias no peito aberto. O corpo desadormecia, hora de espertar a alma; pegava a máscara e ia à luta: a vida é guerra! Idioleto em dia às saudações do ermo, porque os da estima, tudo perdido alhures; o extraordinário não-acontecido. Tudo isso era muito pungente e entortou-me o emotivo, todo retorcido. Ora, ora. Havia apenas o presságio de outros eus afogados na ode marítima. Nada mais que um simples guardador de rebanhos e um poema em linha reta singrava os céus para que não mais tivesse os confins da terra, a sorte que me cabia e precisava suportar a dor Whitman. Depois da ascese o interlúdio da circumambulação, a paz efêmera no sorriso da iniciação. Quem me dera fosse só Fernando, um pastor amoroso apascentando meus demônios na cabalística solidão, solitude: liberdade é isolamento. Ah, não seria meu aniversário, muito menos ano novo e me comovia com o desassossego de Bernardo, que saiu apressado da tabacaria porque alguém falou de amor. Nenhuma notícia de Álvaro e Caieiro fugiu no inverno, nem o paradeiro de Reis, nem um só, cada e todos cúmplices e o que havia de belo subestimava o nonsense. O que é o amor senão viver plenamente de tudo que restou à mão espalmada, já que os sortilégios se foram porque havia uma esperança no horizonte escancarado. Sim, sou minha própria ilha povoada pelos tantos que em mim coabitavam. Até mais ver.


Primo Levi: É preciso que nos ouçam: para além da nossa experiência pessoal, testemunhamos coletivamente um evento fundamental e inesperado — fundamental justamente por ser inesperado, por não ter sido previsto por ninguém. Aconteceu; logo, pode acontecer novamente. Esse é o cerne do que temos a dizer. Pode acontecer, e pode acontecer em qualquer lugar... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Jenny Holzer: Como você se resigna diante daquilo que jamais se concretizará? Você deixa de querer justamente essa coisa. Você se torna insensível. Ou então, mata o agente do desejo... Com todos os buracos em você, não há razão para definir o ambiente externo como estranho... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Phoebe Waller-Bridge: Acho que há algo de engraçado em pessoas que riem na cara das convenções ou nos surpreendem moralmente... Estou constantemente à beira de explodir em lágrimas de alegria... Veja mais aqui & aqui.

 

A MÃO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Toma o ventre da terra \ e planta no pedaço que te cabe \ esta raiz enxertada de epitáfios. \ Não seja tua lágrima a maldição \ que sequestra o ímpeto do grão \ levanta do pó a nudez dos ossos, \ a estilhaçada mão \ e semeia \ girassóis ou sinos, não importa \ se agora uma gota anuncia \ o latente odor dos tomateiros \ a viva hora dos teus dedos.

Poema da poeta são-tomense Conceição Lima (Maria da Conceição de Deus Lima – 1961-2026).

 

CONJUNÇÕES & DISJUNÇÕES - [...] A associação de signos, seja ela forte ou fraca, é o que nos distingue, enquanto humanos, dos outros animais. Mais do que isso, é o que nos torna seres complexos, problemáticos e imprevisíveis. [...] As culturas chamadas primitivas criaram um sistema de metáforas e de símbolos que, como mostrou Lévi-Strauss, constituem um código de símbolos, ao mesmo tempo sensíveis e intelectuais: uma linguagem. A função da linguagem é significar e comunicar os significados, mas nós, os homens modernos, reduzimos o signo à mera significação intelectual e a comunicação à transmissão da informação. Esquecemos que os signos são coisas sensíveis e que operam sobre os sentidos. O perfume transmite uma informação que é inseparável da sensação. O mesmo sucede com o sabor, o som e as outras expressões e impressões sensoriais. O rigor da ‘lógica sensível’ dos primitivos nos fascina por sua precisão intelectual; não é menos extraordinária a riqueza de percepções: onde um nariz moderno não distingue senão um cheiro vago, um selvagem percebe uma gama definida de aromas. O mais assombroso é o método, a maneira de associar todos esses signos até tecer com eles séries de objetos simbólicos: o mundo convertido numa linguagem sensível. Dupla maravilha: falar com o corpo e converter a linguagem num corpo [...]. Trechos extraídos da obra Conjunctions and Disjunctions (Arcade, 2015), do poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano Octavio Paz (Octavio Paz Lozano – 1914-1998), reunindo ensaios que examinam a dualidade entre o corpo e o não-corpo (mente, alma e espírito), comparando as visões de diferentes culturas do Oriente e do Ocidente, abordando temáticas como a relação corpo e alma, na indagação de como cada civilização define e une ou separa a matéria física e o espírito; o contraste entre tradições asiáticas religiosas, como o budismo e o taoísmo, com o cristianismo ocidental; e o erotismo e ascetismo, no tocante à aceitação ou negação do corpo nas práticas sociais e religiosas, discutindo questões acerca do signo social, medindo a temperatura espiritual e política dos sinais visíveis e costumes de uma sociedade; e analisando a modernidade, sob a perspectiva da perda das harmonias tradicionais entre o homem, a natureza e o cosmos. Este prolífico autor desenvolveu sua escritura pelos mais diversos gêneros literários, a ponto de ser contemplado com o Nobel de Literatura de 1990. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


O UNIVERSO LITERÁRIO DE NÉLIDA PIÑON - Aprendo a amar. Uma arte difícil, nenhuma norma me orienta... A memória é frágil. Consulto suas fontes no afã de defender meus haveres... Se a imaginação edifica enredos de amor, o corpo fatalmente sofre seus efeitos... Pensar é um dos atos mais eróticos da vida de uma pessoa... Só envelhece quem vive... Pensamento da escritora Nélida Piñon (Nélida Cuíñas Piñón – 1934-2022), a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras (ABL) e aplaudida por desenvolver em suas obras uma linguagem poética e requintada, calcada na estrutura narrativa. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DIREITO AO SEXO – [...] O sexo, que concebemos como o mais privado dos atos, é, na realidade, algo público. Os papéis que desempenhamos, as emoções que sentimos, quem dá, quem recebe, quem exige, quem serve, quem deseja, quem é desejado, quem se beneficia, quem sofre: as regras para tudo isso foram estabelecidas muito antes de chegarmos ao mundo. [...] Fomos criados para temer o "sim" que habita em nós — nossos anseios mais profundos. No entanto, uma vez reconhecidos, aqueles que não favorecem o nosso futuro perdem o seu poder e podem ser transformados. O medo dos nossos desejos faz com que pareçam suspeitos e lhes confere um poder indiscriminado, pois reprimir qualquer verdade é dar-lhe uma força insuportável. O receio de não conseguirmos superar as distorções que possamos encontrar em nós mesmos mantém-nos dóceis, leais e obedientes, definidos por fatores externos. [...] De fato, o que chama a atenção na revolução sexual — e é por isso que ela foi tão determinante para a política de uma geração de feministas radicais — é o quanto permaneceu inalterado. Mulheres que dizem "não" continuam querendo dizer "sim", e mulheres que dizem "sim" continuam sendo vistas como vadias. Homens negros e pardos continuam sendo tachados de estupradores, e o estupro de mulheres negras e pardas continua não contando. As garotas continuam "pedindo por isso". Os garotos continuam tendo de aprender a "dar isso". [...] O feminismo não é uma filosofia, nem uma teoria, nem mesmo um ponto de vista. É um movimento político para transformar o mundo a ponto de torná-lo irreconhecível. Ele pergunta: como seria acabar com a subordinação política, social, sexual, econômica, psicológica e física das mulheres? E responde: não sabemos; vamos tentar e ver. [...] O feminismo não pode se permitir a fantasia de que os interesses sempre convergem, de que nossos planos não terão consequências inesperadas e indesejáveis, e de que a política é um lugar de conforto. [...] A ideia central da interseccionalidade é que qualquer movimento de libertação – o feminismo, o anti-racismo, o movimento laboral – que se concentre apenas naquilo que todos os membros do grupo relevante (mulheres, pessoas de cor, a classe trabalhadora) têm em comum é um movimento que servirá melhor os membros do grupo que são menos oprimidos.[...] Trechos extraídos da obra The Right to Sex: Feminism in the Twenty-First Century (Farrar, Straus and Giroux, 2021), da filósofa e escritora bareinita Amia Srinivasan, professora da Universidade de Oxford.

 

A ARTE DE NANÁ VASCONCELOS

[...] O berimbau é muito espiritual e virou uma missão pra mim. Como eu era baterista, comecei a pensar o berimbau como uma bateria. Eu fazia outros ritmos que não eram do berimbau. [...] O berimbau virou o carro-chefe do negócio, o maestro da coisa, o pai grande. O berimbau nunca foi utilizado como instrumento, porque era e é um elemento da capoeira. O centro da história é a dança. O berimbau está lá para acompanhar e nunca foi utilizado como instrumento solista. Mas essa coisa veio pra mim. [...] O berimbau que me fez pensar em sons, em música. Pra mim tudo é música. A cuíca não foi somente feita para o samba. Ela é um instrumento. [...] ele simplesmente mudou a minha concepção, a minha maneira de ouvir. Ele me levou ao silêncio. O berimbau é muito zen. [...] O primeiro instrumento é a voz e o melhor é o corpo [...].

Trechos extraídos de uma entrevista concedida à revista Trip (2006), pelo premiado e aplaudido músico percussionista Naná Vasconcelos (Juvenal de Holanda Vasconcelos – 1944-2016), que ainda expressa: Quando você aprende teoria musical por livros, precisa sempre consultar os textos. Quando você aprende com o corpo, é como andar de bicicleta. Seu corpo se lembra... Na sua discografia estão os álbuns Africadeus (1973), Amazonas (1973), Saudades - concerto de berimbau e orquestra (ECM, 1979), Zumbi (1983), Nanatronics (1985), Contando Estórias (1994), Storytelling (1995), Fragments: Modern Tradition (1997), Contaminação (1999), Saravah compilation (1999), Minha Lôa (2002), Chegada (2005), Trilhas (2006), Sinfonia & Batuques (2011), entre outros. Além disso deixou trilhas sonoras para os filmes Procura-se Susan Desesperadamente, de Susan Seidelman; Down By Law, de  Jim Jarmusch; Amazonas, de Mika Kaurismäki; Pindorama, de Arnaldo Jabor e O menino e o mundo. Outra de suas frases imortalizadas: Mesmo se eu morrer, não quero ninguém chorando, quero muito batuque, muito barulho, porque, se vocês fizerem silêncio, vou pensar que vocês estão dormindo e vou fazer como em casa, com minha esposa. Quando ela está dormindo, faço barulho para ela acordar. É a cigarra. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


ASCENSO FERREIRA – Tributo ao poeta Ascenso Ferreira (Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira – 1895-1965), reunindo seus poemas e considerações acerca de sua obra por personalidades como Manuel Bandeira, Ariano Suassuna, Raimundo Alves de Souza, Abel Fraga e da companheira dele, Lourdes Medeiros, bem como dos ditos, acontecimentos, pilhérias e situações jocosas em que se metera tanto em Palmares, como Paquevira, Recife e entre os familiares de Juscelino Kubitschek, entre outras. Confira aqui.

 


LITERATURA DE CORDEL – Os versos de cantadores, repentistas, violeiros e emboladores sempre estiveram presente na minha desde menino, uma vez que meu pai, o poeta Rubem de Lima Machado, era um dos aficionados que colecionava desde discos, fitas cassetes, livros, folhetos e publicações do gênero, promovendo sempre o encontro de cordelistas para o desafio dos motes na peleja das glosas. Neste texto narro o fascínio que me arrebatou desde menino, ao presenciar a arte dos nossos poetas populares e de ser contagiado por esta manifestação da poética nordestina. Confira aqui.

 


ANCESTRALIDADE NOS DEBATES CONTEMPORÂNEOS – Reunião de estudos e debates acerca da temática ancestralidade, com reflexões de Rigoberta Menchú, Kaka Werá Jecupé, Davi Kopenawa Yanomami, Nnedi Okorafor, Renato Noguera, Mariela Tulián, Sam Harris, Rosa Mechiço, Kate Kretz, Giva Silva, Silvia Rivera Cusicanqui, entre outros. Confira aqui.


 

A ARTE DE EVANDRO NICOLAU – Destaque para a arte do artista, professor e pesquisador Evandro Carlos Nicolau, que se apresentando usando suas próprias palavras: é artista das linguagens e das artes todas, em busca de colaborar para um mundo livre, saudável e são! Ele é autor do livro A Filosofia pelo Desenho, criador da plataforma UBQUB e editor dos blogs Projeto Ócios do Ofício, Eros para livres e Desenho Manifesto, nos quais reúne toda sua diversidade criadora, que vão desde suas composições musicais autorais à performances visuais. Confira aqui.

 


DIÁRIO DOS ZÉS - Reunião de causos, hestórias, contos e loas sobre o cotidiano exótico dos hilariantes notáveis Zés, habitantes de um excêntrico local denominado Alagoinhanduba, o lugar onde o mundo todo se revela e tudo pode acontecer. Confira aqui e veja mais aqui.

 

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domingo, julho 26, 2026

MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

 

Imagem: Acervo ArtLAM.


 

Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet. Nem a astronauta patrulheira Barbarella do Vadim de Forest. Nem a poeta Akhmadulina, muito menos outra qualquer matusquela, era só e simplesmente ela, aquela menina Rainha do Milho de todas as festas juninas da escola; aquela que era miss do ginásio e colegial, a mais celebrada Miss Alagoinhanduba, irradiando o frescor juvenil de sua fulgurante lindeza. Ah, chega a cidade se iluminava toda com seus passeios, flores e presentes, deslumbrantemente pudibunda, escorreita, a escolhida para noivados, a preferida esponsal das núpcias engalanadas. Não havia marmanjo que não se inquietasse ambicionando o mínimo que fosse de sua graciosa atenção. Ela sempre gentil sorridente, amável com tudo e todos. Foi no fuzuê desse seu reinado que reapareceu assim do nada o Barãozinho, aquele mesmo – lembra? – que ainda ontem era um pirralho mimado, que cresceu de quase envergar-se e deu na vista: pior que o pai! Morreu uma vez, foi; todo endeusado numa barroada medonha, valha-me! Não, rapaz, foram duas: teve a do paraquedas, doido! Eita! Foi mesmo! Melhor: três, a do submarino que explodiu com ele dentro, se esqueceu? Vixe! Ainda está vivo? Ressuscitou! Glória a Deus! Ora, foram tantas e muitas, renascia não se sabe como. Milagre! Era adorado pelas fanáticas donzelas soçaites, pelos caboetas de todas as hierarquias, por toda população do lugar. E dessa vez quando ele deu as caras, logo soube dela e enrabichou-se todo, com mundos e fundos, tudo pra ela. Bailes, efemérides institucionais, o par perfeito, ele desfilava ao lado dela, lindo casal para os mais simpatizantes. Aí, certa noite, depois de tantas festanças e torcida pelo casório deles, ele foi, criou coragem e falou namoro: ela bambeou, desculpou-se, floreou os argumentos e desconversou: só queria sua vida e compromisso com ninguém. Ah, isso não! Sim. Faça isso não! Isso sim. Tá certo, fazer o quê? Ele não arredou pé. Continuou acompanhando-a aos lugares nas comemorações e convidando-a pra casa grande do Barão todo final de semana. Ela assentia, não se furtava entretenimentos. Aí ele soube dela se engraçando pras bandas da rapsódia do Zé Bunito, que andava taciturno roendo unha aos telengotengos na sofrência pela perdição da Lampioa. Ela, todo dia, dispensava momentos de longo papo com ele, conversa solta, cumplicidade de afetos. Oxe, deram com a língua nos dentes e o enciumado cismou do abilolado de quase desarranjá-lo, capá-lo e deixá-lo inválido pro resto da vida, escapou fedendo – condoído que tivesse fosse se lascar com sua paixonite horrorosa pros quintos dos infernos, ora! Nossa! Foi por pouco. Não fosse a intervenção dela, já estava mortinho da silva. Mas, passou o tempo, quase esquecido dessa, de repente, ficou feia a situação de mesmo: um boato corredor de que ela andava aos idílios com um outro sujeitinho qualquer, que foi colega dela de escola. Ih, essa não! Ah, o coração do enervado possessivo estremeceu, ferveu o sangue: Vou botar isso em pratos limpos; se não é minha, não será de ninguém. Foi lá meio jeitoso dá uma prensa nela: Quem é? Nada, não. Desconfiou sem dar na vista e botou a cabroeira no encalço. Confirmaram: ela aos amassos com o talzinho. Ah é? Ela me paga tudo que me deve e já! Armaram uma cilada, tramaram tudo direitinho no absoluto sigilo. Seguiram seus passos, ligados, noitedias. Depois de um tanto de flagra, deu-se o sequestro: encurralados - ela foi caçada, perseguida, capturada. Três veículos cercaram, fecharam a estrada e dois encapuzados, fortemente armados chegaram, abriram a porta do veículo violentamente e deram uma coronhada no motorista, jogando-o pro banco de trás, desacordado. Nem deu tempo, ela indefesa foi puxada do assento e jogada no porta-malas doutro veículo. E partiram em disparada. Num matagal sinistro, jogaram os dois próximos a um pântano deletério. Eram muitos, todos de arma em riste. Amarraram-na e ficaram atiçando o parceiro. Quando ela viu a chegada doutro veículo, era seu fiel apaixonado e sentiu um alívio: era a salvação. Ele conversou reservadamente com um deles e logo a viu. Ela teve um pressentimento e logo se retraiu ao vê-lo irreconhecivelmente transtornado em sua direção. An-hã! Os dois pombinhos... Ele então deu ordens e uma movimentação estranha começou. Ouviu ironicamente: Ó Belladonna – nem passava pela cabeça dela a tragédia de Jennie do Michelet e Yamamoto. Segurada forçosamente por dois brutamontes assistiu a sessão de torturas: esfolaram até emasculação, seviciaram e, ao vê-lo desmaiar, a sentença: mata! Muitos disparos e sacudiram o corpo dele de volta ao assento do motorista, dentro do automóvel. O desalmado então gritou: Cambada, todo mundo de costas, plantão de vigilância, ninguém se vira! Os capangas se afastaram um pouco, formaram um círculo enorme e se postaram vigilantes protetores, de costas, prontos para ceifar qualquer metido invasor. Um mau presságio escureceu o coração ingênuo dela e o antigo sonho romântico se dissipou quando ele chegou perto, desamarrou-a e obrigou-a a ajoelhar-se diante dele – ali não previa: era a sua vez de tortura. Ela chorou e tentou clemência, o dominador irredutível, parecia fora de si, dionisíaco. Ousou conciliação: Você sempre tão bonito, amável, bondoso, não combina com esse jeito impiedoso. Foi esbofeteada pela astúcia, inclemente: Ajoelhe-se! E mesmo que suplicasse pela fé cristã dele, pelo amor da família e por tudo que fosse de mais sagrado no seu coração, mais inexorável sádico a castigava com requintes de crueldade, degradando-a, ultrajando-a: Sabe o que é amor de verdade, sua quenga chupona, sabe? E mais se irava espancando-a. Ela relutou, resistiu o tanto que pode, mas foi truculentamente vencida. Ele arrancou suas vestes e exigiu dela: Continue a felação, vá! Pressionada rispidamente por duas coronhadas à cabeça e ela cedeu, submissa, quase desnuda, supliciada, às puxadas de cabelos, estapeada, o abuso do ato, os murros nas costas, os socavões, quase sufocada com a invasão garganta adentro, a ânsia de vômito, a violação: Vai, engole, chupa! Ele impaciente e bruscamente arrastou-a para jogá-la sobre o capô do carro, completamente nua na frieza e em decúbito ventral, mais martirizada. Sentiu a brutalidade de ser flagelada em carne viva, violentada. Era o pacto de morte: Não é minha, nem será de mais ninguém. Ouviu a maldizente voz embrulhada de furor e um estampido na nuca, tudo escureceu de vez. Jaziam dois corpos no amanhecer friento, um sonho de casal esquecido no tempo. Até mais ver.

 

Pierre Bourdieu: A menos que seja salvo por um talento excepcional, ele inevitavelmente paga o preço da clareza... A mente é uma metáfora do mundo dos objetos... Veja mais aqui.

Wislawa Szymborska: Este mundo aterrador não é desprovido de encantos, de manhãs que fazem o despertar valer a pena... Eu sou quem eu sou. Uma coincidência tão impensável quanto qualquer outra... E tudo o que eu fizer se tornará para sempre o que eu fiz... Veja mais aqui.

Rebecca Solnit: A esperança não é um bilhete de loteria que você pode segurar no sofá, sentindo-se com sorte. É um machado com o qual você arromba portas em uma emergência. A esperança deve te empurrar para fora, porque será preciso tudo o que você tem para direcionar o futuro para longe de guerras intermináveis, da aniquilação dos tesouros da Terra e da opressão dos pobres e marginalizados. Ter esperança é se entregar ao futuro – e esse compromisso com o futuro é o que torna o presente habitável… Veja mais aqui.

 

POBRE POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu escrevi um poema horrível! \ É claro que ele queria dizer alguma coisa... \ Mas o quê? \ Estaria engasgado? \ Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura mansa como a que se vê nos olhos de uma criança doente, uma precoce, incompreensível gravidade \ de quem, sem ler os jornais, \ soubesse dos sequestros \ dos que morrem sem culpa \ dos que se desviam porque todos os caminhos estão tomados... \ Poema, menininho condenado, \ bem se via que ele não era deste mundo nem para este mundo... \ Tomado, então, de um ódio insensato, \ esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável \ verdade, dilacerei-o em mil pedaços. \ E respirei... \ Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?

Poema do poeta, jornalista e tradutor Mário Quintana (Mario de Miranda Quintana – 1906-1994), conhecido como "o poeta das coisas simples", sua obra poética é marcada pela linguagem simples e pela abordagem de temas cotidianos e contemplativos. Ele tentou por três vezes uma vaga à Academia Brasileira de Letras, mas em nenhuma delas foi eleito; as razões eleitorais da instituição não lhe permitiram alcançar os vinte votos necessários para ter direito a uma cadeira. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A IMORTAL – […] Suponha, por um momento, que as afirmações sobre a inefabilidade da dor sejam historicamente específicas e ideológicas — que a dor seja amplamente declarada inarticulável justamente porque não se espera que compartilhemos uma linguagem para expressar como realmente nos sentimos. [...] Os exaustos são os santos da vida desperdiçada, se é que um santo é alguém que sofre melhor do que os outros. O que os exaustos sofrem melhor é o modo como corpos e tempo entram tantas vezes em conflito na nossa era de cronicidade avassaladora e confusa — quando cada hora é amplificada para além dos ritmos circadianos, quadruplicada na agenda de intervalos de quinze minutos, submetida ao método Pomodoro, hackeada, marcada pela ansiedade do *FOMO* e tornada produtiva. Os exaustos são a prova viva de cada minuto erroneamente visto como um império para as finanças, de cada corpo humano erroneamente visto como um instrumento que deveria tocar mil melodias dóceis ao mesmo tempo. [...] A doença nunca é neutra. O tratamento nunca é ideológico. A mortalidade nunca está isenta de sua política. [...] Meu trabalho é habitar os silêncios com os quais convivi e preenchê-los com a minha própria presença, até que adquiram os sons do dia mais luminoso e do trovão mais estrondoso. [...]. Trechos extraídos da obra The Undying: Pain, vulnerability, mortality, medicine, art, time, dreams, data, exhaustion, cancer, and care (Farrar, Straus and Giroux, 2019), da escritora estadunidense Anne Boyer, autora de obras como The Romance of Happy Workers (2008), The 2000s (2009), My Common Heart (2011), Garments Against Women (2015) e The Handbook of Disappointed Fate (2018).

 

GORDOFOBIA – [...] O corpo não é um objeto de correção, colonização ou consumo. [...] No fim das contas, a neutralidade em relação ao corpo parece, na melhor das hipóteses, um recuo precário diante do julgamento, e não um porto seguro e estável. É como oferecer um zero em vez de um número positivo ou negativo, quando o que se faz necessário é dispensar completamente os números. [...] Quando a positividade corporal é imposta ou parece exercer controle, ela pode minar o senso de agência e autonomia e, consequentemente, gerar o efeito oposto... Enfatizar a positividade enquanto se ignoram sentimentos e experiências negativos cobra um preço da autenticidade e da integração do eu — isto é, da necessidade de sentir-se fiel a si mesmo (e em consonância consigo mesmo). [...] Filósofos citam frequentemente o princípio de que "o dever implica o poder": a ideia de que temos a obrigação moral de fazer algo apenas se formos capazes de fazê-lo ou, de forma equivalente, de que não somos obrigados a fazer algo que não podemos realizar. Segundo uma adaptação plausível desse princípio, a quase impossibilidade de alguém realizar uma ação também torna inútil e injusta a exigência de que ela a execute. Assim, o fato de que a maioria das pessoas gordas não consegue, de forma realista, emagrecer a longo prazo por meio de dieta e exercícios traz implicações morais de grande alcance: não podemos, portanto, ser culpados por não realizar o que é praticamente impossível. [...] Quando se trata da nossa saúde, portanto, há evidências consideráveis de que é o condicionamento físico e não o excesso de gordura que mais importa, e de que esse condicionamento atenua muitos, se não todos, os riscos à saúde associados a viver em um corpo maior. E, no entanto, muitos continuam a confundir o excesso de gordura com o maior problema. [...]. Trechos extraídos da obra Unshrinking: How to Face Fatphobia (Penguin, 2024), da filósofa australiana Kate Manne (Kate Alice Manne), autora de obras como Entitled: How Male Privilege Hurts Women (Penguim, 2020) e Down Girl: The Logic of Misogyny (Oxford Press, 2017).

 

DEBATE: POLÍTICA & VIOLÊNCIA

[…] Cada brasileiro vive muito o seu Estado como uma espécie de mini-pátria, pouco antenado – com exceção do momento da eleição presidencial – com o destino do País como um todo. Isso é fundamental no sistema de dominação vigente no nosso Brasil. [...] Porque a partir do momento em que você está dizendo que o racismo se expressa fundamentalmente na esfera da cultura, da subjetividade e da institucionalidade, é natural que o programa de superação disso esteja focado na cultura, na subjetividade e na representatividade das instituições públicas e privadas. Então o problema da questão racial no Brasil seria um problema de integração da parcela negra, “as oportunidades”. Ou seja: é dizer que uma grande parcela da classe trabalhadora brasileira vai ter seus problemas resolvidos com uma modernização capitalista das oportunidades, em que cada um vai disputar seu espaço de uma maneira igualitária dentro de um mercado capitalista sem barreiras raciais. Isso precisa ser combatido e superado para ontem, se a gente quiser ver realmente uma revolução no Brasil. [...].

Trechos recolhidos da entrevista É um absurdo falar de política sem falar de violência (Opera Mundi, 2024), concedida pelo historiador, professor, comunicador, escritor, militante e político, Jones Manoel, autor dos livros A negação do Brasil negro: imperialismo, dependência e questão racial na obra de Guerreiro Ramos (Autonomia Literária, 2024) e A batalha pela memória – reflexões sobre o socialismo e a revolução no século 20 (Baioneta e Ruptura, 2024). Veja mais aqui.



CURUMIM NO MEIO DA TARDE - Imagem: arte de Lú Karyry. – Este é um texto extraído da publicação 11.645 indígenas e diversidade pela paz (Thydewa – Escola Livre Abya Yala, 2024), que reúne o trabalho e o ativismo dos movimentos de retomada indígena no Brasil e na América Latina, voltados para a Educação Infantil e Ensino Fundamental das escolas das redes pública e privada. Confira aqui.


 

ARTEXPRESSÃO - O projeto ArtExpressão: trabalhando arte para a criatividade nos alunos dos anos finais do Ensino Fundamental, foi desenvolvido como atividade de Arte na Escola, realizado desde 2023, no Observatório de Linguagens, da Semed-Palmares (PE). O projeto tem contemplado inicialmente os professores de Língua Portuguesa e de Artes, com formações e oficinas que versam sobre a arte e os gêneros artísticos. Veja detalhes aqui & aqui.

 


VALUNA – Esta iniciativa compreende um conjunto de projetos que envolvem desde a publicação de uma ficção de viagem, tanto para o público infanto-juvenil, como para o público adulto, pautadas nos objetivos proposto pelo projeto Bacia Artístico-Criativa do Rio Una (Bacuna) e do roteiro de curta-metragem Valuna. As informações a respeito estão aqui, aqui & aqui.

 


PROEZAS DO BIRITOALDO – Trata-se de uma narrativa humorística acerca das presepadas e doidices do personagem Biritoaldo, desde o seu estranhíssimo nascimento, sua adolescência perturbada e o seu desarrumado casamento com uma dondoca ricaça extravagante. Confira essa aventura aqui.

 


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sábado, julho 18, 2026

CECÍLIA MEIRELES, BERNARDO ATXAGA, SUZANA HERCULANO-HOUZEL & SANTANNA O CANTADOR

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.


 

As guinadas de chué ao nababo de findar amundiçado pastafari... - Desde nascença Jeremulino apostava tudo pra dar certo. Fazia força, fincava pé e quanto mais pelejava, menos saía do lugar. Era voluntarioso, mas pé-frio, coitado. Décadas de miséria nos costados. Tudo isso durou até o dia em que conheceu Mary, que se dizia Butterworth e tratada por Mãe do Ouro: Ih, estrangeira, é? Sei lá. Tá lavando a jega, hem? E tanto afeiçoou-se, de segurar no cós da saia dela de não mais largar, pegado. Tão atarantado, enrolou-se de paixão. Estava um tanto deslumbrado: bem vestido, altas rodas, lugares granfinos, gente nos trinques - ela tinha muita grana e amigos, parecia -, a partir de agora, também eram seus nas portas escancaradas, recepções acaloradas, abraços efusivos, nunca tinha visto nada daquilo na vida: Ora, tô enturmado, meu! Agora vai! Logo no primeiro jantar associaram-se a uma dupla de magnatas, tratados por Charles e Bernie - pelo jeito estrangeiros e inseparáveis: agora era internacional, visse! E não muito tempo depois, o casal foi acompanhado por Frank, um fino médico que também era piloto de aviação. Que chique! Compadre, meu! E almoçavam num requintado restaurante com os achegados do dia, ou jantares, chás, encontros. Doutra vez era Alfred, um que descobriu um medicamento que era uma verdadeira panaceia pra cura da AIDS, câncer, lúpus e qualquer tipo de doença. Brindaram o futuro Prêmio Nobel de Química dele. Oh! Tamos juntos! E recepcionaram um ricaço hindu, o Mithilesh, recém-chegado duma negociação no Taj Mahal. Olha o requinte! Sua vida dera um giro estratosférico de 360 graus, desde que ela apareceu, pra ele se empanzinar no sofisticado, a se empolgar com os drinques, da cabeça nas nuvens e a vida no mundo da Lua, todo apurado. Foi. Apegou-se à tal largadona, os modos enxutos dela, toda recente e esvoaçante, inaugurava felicidade jamais vista: ela fascinante nos seus olhos, cativante no coração dele. Ao lado dela se sentia maior do que nunca foi. Autoconfiança ganha, dedicando a ela mais do que nem tinha. E assim foram dias movimentados, semanas agitadas, efemérides por meses ininterruptos, quase dois anos inesquecíveis, quando, de supetão e sem causa aparente, viu-se na clausura da solidão: liso, fodido e mal pago. Que foi que houve? Perdeu a boquinha: foi despejado do paraíso. Não tinha mais guarda-roupa para as ocasiões, nem comes e bebes, ninguém mais pra chamá-lo de doutor – que nem era, mal conseguira findar o ginasial, a pulso, avalie. Estava empalado pela escassez: Vida madrasta, essa, se eu fosse de passar a perna, ainda ia, embrulhava; mas perdi o crédito, soltaram os demônios pra festa do inferno. E com uma mão na frente e outra atrás, desvalido. Reparou melhor: Por que foi mesmo? Assuntou, a extravagância da punição bissexual. Como pode? Fosse gente ou bicho, assim era. Mas isso nem ligava, duas de quinhentos que fosse, nem aí; ser corno era pouco, vá lá; o pior mesmo era sentir-se rejeitado: a tragédia foi ter nascido -, só agora se dava conta disso. Passava mal, zonzo, claudicante, à beira da loucura, roendo unha de ressentimento pela dor de cotovelo: As gaias pesam fodendo tudo na cachola! Insistia em reatar a relação com ela, mas cadê-la, pronde foi, perdeu o contato. Foi-se. Bateu de porta em portão, todas sisudamente fechadas, havia ninguém pra recebê-lo: Destá, todos se passavam por amigos e agora? Quebrou a cara, lascou; alisou, fim de tudo e, sem ela, era ninguém, invisível desconhecido. Dobrava capenga a esquina da amargura e, inadvertidamente, trombou com um estranho, desculpou-se. Já seguia se escorando na parede, quando ouviu em alto e bom som: Rapaz, é você mesmo? Levantou a vista e era Marcelo, um amigo de infância que o reconhecera na hora. Como vai? Escapando. Que é que falta? Tudo. Vambora colocar o papo em dia, diga lá o que aflige! Jeremulino acompanhou o amigo, agora já bem de vida, elegante, nem parecia o maloqueiro com quem convivera na miséria décadas atrás. Agora não, arrotava contando que a mãe enviuvou e casou-se com um ricaço que o tratava por filho, herdeiro de uma companhia aérea e outros tantos bens e posses. Está precisando do quê? Rapaz. Diga! Tô f-o-fo-d-i-di-d-o-do! Ah, reencontrar e reatar com a namorada? Piongo. Como é o nome dela? Mary Butterworth! Ela? Sim. E você numa pindaíba dessa? Ela foi pior que a Rita: levou tudo, até a minha vida. Ora, tenho um amigo detetive aí que localizará ela na hora. Mesmo? Você está hospedado aonde? Na rua. Vamos pro meu hotel, vou ligar agorinha pro nosso investigador. E seguiram, atravessaram o saguão, entraram no elevador, subiram e foram bater numa suíte real, com múltiplos quartos, sala de jantar, cozinha compacta, segurança redobrada e serviços altamente personalizados. Este aqui é o meu quarto, escolha o seu, vá! Eita, agora sim, voltava a ventar favorável, sabia: a vida não ia deixá-lo na mão. Chega regozijou-se folgado, renovava as esperanças. Lá estava de novo revivendo nas alturas as coisas recém passadas. Foi se banhar e ouviu: O agente está chegando, vou ter que ir a uma reunião, fique à vontade, viu? Tá. Poucos minutos depois bateram insistente à porta. Já vai! Enrolou-se na toalha e abriu: Polícia! Ôpa! Você está preso! Eu? Algemaram-no do jeito que estava e arrastaram-no porta afora. Deram numa delegacia e, de lá, vamos por parte: chegou e foi logo empurrado pra uma sala com várias pessoas, sentaram-no à cadeira e um bafo na moleira: Vá, abra o bico? Sobre o quê? Fala! O quê? Foto! Quem é essa? Mary, minha ex-namorada. Quem? Mary Butterworth, não sei pronunciar direito! Desembucha! E contou que ela deu as costas pra ele, hoje de madrugada, num bar e sumiu. Fui na casa dela, bati, ninguém atendeu. Onde ela mora? No Sítio Groenlândia, Switzland. Hum, ricaça! Vão lá. E esses? Charles e Bernie, são estrangeiros. De quê? Não sei, são amigos dela, conheci o ano passado, só sei dos nomes. E esse? Frank. De quê? Também não sei, é amigo dela, disse ser médico e piloto, conheci pelos outros dois. E esse? Alfred. De quê? Não sei, ele está pra ganhar a qualquer momento o Prêmio Nobel pela descoberta de um medicamento aí. E esse? Ah, esse é Mithilesh, um bilionário hindu. De quê? Também não sei e é amigo dela. Todos são amigos e você no meio sem saber de nada? Sim. Fazia o que entre eles? Festas, passeios, viagens. Leve ele pra cela! Estava nu. Os outros presidiários comiseraram e já arrumaram umas vestes que foram entregues pelo carcereiro: Tomaí, porra! Era uma camisa já um tanto esfarrapada, um resto de bermuda e um par de meias furadas. Pronto, vestiu-se e quase sentiu um fiapinho de dignidade. No primeiro cochilo foi picado por uma aranha-armadeira, acometido por priapismo doloroso: Vou morrer! E ficou aos gritos. Que é que tá acontecendo? Foi levado às pressas pra enfermaria, logo levando fisgada de injeção por todo lado. Vou morrer que nem tábua de pirulito! Ê, furado! Lá pras tantas, ao sentir-se melhor, logo foi assolado por uma diarreia braba: Oxe, ele tá se acabando pelo fundo feito panela! Eita, caganeira macha! E fedorenta, meu! Catinga da peste! E tornou-se a diversão: o Zé Cagão. Nos dias seguintes foi levado pro delegado e um brabo agente mostrou uma foto e disse: Essa é sua ex-namorada? Sim, a Mary. Sabe quem é ela? Não, senhor. Passou a saber na hora: uma foragida balzaquiana, falsificadora de libra esterlina, que lavava o dinheiro num suposto bufê supostamente de sua propriedade. Esses são amigos dela? Sim. Eram Charles Ponzi e Bernie Madoff que criaram um sistema golpista, que ludibriaram muitos investidores com promessas de lucros astronômicos. Esse também amigo dela, né? É Frank. Era o mestre dos disfarces, Frank Abagnale, trambiqueiro que se passava por médico, piloto e até advogado. Esse? O Alfred. Era o curandeiro herbalista, Alfredo Bowman, picareta mais conhecido como Dr. Sebi, criador do O Cell Food e cultor de uma filosofia extravagante de vida. Esse? Mithilesh. Era o lendário caloteiro indiano, Mithilesh Kumar Srivastava, famoso por vender marcos históricos com documentos falsificados, inclusive o Taj Mahal. Minha nossa! E você não tem a ver com isso? Nem sabia quem eram! E esse? Ah, um amigo de infância. É? Sabe quem ele é? Não o via desde uns 15 ou 20 anos atrás. Era o trapaceiro Marcelo Nascimento da Rocha, piloto do crime, se passou pelo filho do dono da Gol, por VJ da MTV, por guitarrista do Engenheiros do Havaí, dono de edifícios e propriedades, está preso agora em Avaré, cumprindo pena de 16 anos. Minha nossa! E agora? Deus tenha pena de mim. O sonho de caça ao tesouro, era uma vez. Tudo vigarista e eu alesado, no meio da enrolação. Se liga no caô aí, véi! Tô frito! Anos se passaram e cumpriu pena. Ao sair da prisão não tinha pra onde ir, só tinha a roupa do couro e o terreno baldio por guarida. Fazer o quê? Juntar as bandas da bunda e sair uma rebatendo na outra. E calar a boca: quando penso, peido; quando falo, cago. E aos reclamos: Porra, fedeu, hem! Bagunçava a porratoda! Lá ia se arrastando. As horas demoravam, comovida mudez: Por onde recomeçar, não sabia. Solidão: Sou entre os que foram abandonados por Deus! Cuspiu sua palavra, seu dialeto próprio, sabia: sua hora ainda vai chegar, ah, se vai. Sua pele coriácia encorajava-o: Não foi a primeira vez, nem a última. E nem morri! Essa sua terrível sorte. A tristeza cansava no durado de semanas, sabia: a alegria tem seus perigos de vigia, convinha precaver. Amanhã ninguém sabe, tanto faz cair pra qualquer lado, a queda é uma só, até o dia em que o diabo levanta os braços, aí, já era, babau. Tá bom. É com o escorregão alheio que o povo se diverte. No mais, tudo era sempre depois de amanhã. Nas contas do dia, um perito em identificar pontos de fuga. Qual indulto naquela hora? Deu-se em estado de bicho, néscio instintivo, intensas sensações, a cólica dos intestinos, entortou-se às cuspidas, acossado por todas as culpas, pensou alto: precisava se perder para chegar aos lugares que não se acham! Ah, não há de ser nada, disse-lhe alguém. Hem? Perdido ou escorraçado? Uma e outra. Ah, tenho um santo remédio, venha! E foram até um recinto ali perto, deram-lhe banho, vestimentas e apreço. Ao redor, todos os presentes com uma caneca à mão, ofereciam: Cerveja? Já sai a comida sagrada pro nosso ritual. Animou-se com a travessa farta de espaguete. Uma ovação: Viva! Ramém! Encheu a pança e, depois das comemorações, deitaram-no numa espreguiçadeira num quarto do quintal, nem notando a presença de outros arranchados por ali. Ao amanhecer ouviu os 8 mandamentos do Evangelho do Monstro do Espaguete Voador. Meteu-se na risadagem, era sua redenção. Um escorredor de macarrão na cabeça e vestimenta de pirata: Ramén! Goles na rodada de cerveja. Ramém! Toda sexta é dia santo e feriado! Ramém! E assim simpatizou-se com os pastafari, mais um neófito, entre eles, na senda, sobrevivendo de bicos, cama e comida garantida. E toda sexta pirateando: Viva Ching Shih! Ramém! Viva o Barba Negra! Ramém! Viva Anne Bonny! Ramém! Viva Black Bart! Ramém! Viva Mary Read! Ramém! Viva o capitão bucaneiro Morgan! Ramém! E tome virada de copos, empanzinamentos com as massas e lambuzado pelos molhos e espumas. Foi assim que aprendeu o riscado, assoletrando: quem na vida muito quer, finda no baú de Davy Jones. Cuidado: se salve de andar na prancha. Aprenda: pegue o que puder, não devolva nada - os mortos não contam histórias. Até mais ver.

 

Elias Canetti: Todas as coisas que se esqueceram clamam por socorro nos sonhos... Não consigo ser modesto; muitas coisas ardem em mim; as velhas soluções estão ruindo; nada foi feito ainda com as novas. Por isso começo, em toda parte ao mesmo tempo, como se tivesse um século pela frente... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Joacine Katar Moreira: Andei sempre contra a maré que nos indicava quais as nossas hipóteses, até onde é que podia ir. E eu olhava para isso não como uma limitação mas como algo que eu iria provar que não era bem assim... Veja mais aqui.

Cassandra Clare: Leia tudo! Não basta ler coisas que estão em sua zona de conforto ou coisas que você acha que já vai gostar. Experimente; experimente coisas novas e experimente novos gêneros. Se você ler muito romance, então comece a ler mistério. Se você ler muito mistério, comece a ler fantasia... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ROMANCE X OU DA DONZELA POBRE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Donzelinha, donzelinha \ dos grandes olhos sombrios, \ teus parentes andam Longe, \ pelas serras, pelos rios, \ tentando a sorte nas catas, \ em barrancos já vazios! \ Donzelinha, donzelinha, \ mira os santos nos altares, \ que apontam, compadecidos, \ para celestes lugares, \ onde são de ouro e diamante \ quantas lágrimas chorares! \ Donzelinha, donzelinha, \ fecha esses olhos sombrios. \ As montanhas são tão altas! \ Os ribeiros são tão frios! \ O reino de Deus, tão Longe \ dos humanos desvarios!

Poema extraído do Romanceiro da inconfidência (Nova Aguilar, 1997), da poeta, jornalista, pintora, escritora e professora Cecília Meireles (Cecília Benevides de Carvalho Meireles – 1901-1964). Dela o verso: Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda... que inspirou curta-metragem dirigido por Jorge Furtado em 1989. O documentário utiliza esse trecho do poema épico Romanceiro da Inconfidência para encerrar sua crítica ao sistema capitalista e à desigualdade. O curta-metragem acompanha o ciclo de vida de um tomate, desde a colheita até ser descartado em um lixão na Ilha das Flores (1989), dirigido por Jorge Furtado, em Porto Alegre. O objetivo da obra é escancarar a desumanidade social ao mostrar que, no local, porcos têm preferência de consumo sobre os restos de lixo antes que estes sejam destinados aos seres humanos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

CASAS & TÚMULOS - [...] Feliz é aquele que, como Ulisses, viu cem paisagens. [...] Não existem palavras que sejam como água destilada, insubstanciais, alheias à vida e ao mundo. [...] Existem dois tipos de literatura: uma que propõe uma jornada para fora (crimes em Norlândia, paixões na corte chinesa do século XII, traições mortais em um campus americano…) e outra que inclui uma jornada adicional, aquela que o leitor deve fazer dentro de si. [...] Sei que os laços do amor não são iguais, e que um deles, o que vai de mãe para filha, deve ser mais forte do que o que vai de filha para mãe. [...], Trechos extraídos da obra Casas y tumbas (Alfaguara, 2019), do escritor espanhol, Bernardo Atxaga (Joseba Irazu Garmendia), autor de obras como The Accordionist's Son (2003), Memorias de una vaca (1991) e Obabakoak (1988), entre outros.

 

ALGUNS SÃO IDIOTAS MESMO!... - [...] Algumas pessoas SÃO idiotas e continuarão sendo, não importa o que você faça. Isso inclui os Mansplainers; pessoas de todos os gêneros que são tão convencidas de si mesmas que não ouvem (portanto, não é possível ter uma conversa); supremacistas de todos os tipos. Meu conselho? Se eles forem reincidentes, exponha-os, chame-os a atenção - mas com o idiota desconhecido ocasional que VAI incomodá-lo sempre que você começar a brilhar, não perca seu tempo tentando educá-los. Aprenda o que puder com eles: seus "argumentos" favoritos, sua "lógica", seus padrões de retórica - depois acene com a cabeça "obrigado" educadamente enquanto eles ainda estão bajulando sua superioridade intelectual sobre você e, em seguida, livre-se deles. Aprenda com a experiência, assim como você pode aprender ao assistir a uma palestra ruim. Algumas pessoas, entretanto, NÃO são idiotas (ainda), mas podem, ocasionalmente, agir como tal. Essas são salváveis e merecem seus esforços, SE você estiver disposto a isso. Você pode tentar perguntar educadamente: "Você percebe que está parecendo que está dizendo Y em vez de X e me insultando? Você realmente quis dizer isso? Porque você está parecendo um idiota, e eu não acho que você seja um" - ou algo nesse sentido. A parte importante é enfatizar como a pessoa está agindo como um idiota, quando você não acredita que ela seja um. As pessoas não esperam a franqueza, portanto, se não forem idiotas, a franqueza educada, não agressiva, não defensiva e puramente informativa as desarmará. E se, no fim das contas, elas forem idiotas... melhor que fiquem longe, não é mesmo? [...]. Trecho do artigo Algumas pessoas SÃO idiotas, e isso não vai mudar (Escritos em Neurociências,), da neurocientista e professora Suzana Herculano-Houzel, que noutro artigo, Todo mundo precisa ter problemas (Neurociências da vida comum), ela expressa: [...] Só com sensação de controle sobre a própria vida se deixam os outros em paz. [...] Eu hoje, neurocientista, entendo perfeitamente. Aprendi que a chave para o bem-estar está na sensação de controle sobre a própria vida, e que, por definição, só há “controle” onde existe algo a ser controlado: um problema ao alcance da nossa competência. Por isso os tempos de calmaria, teoricamente ideais, nem duram, nem são ideais de fato. Se não há problemas para resolver, criamos um, e ainda chamamos de “propósito”. Pode ser chamado de hobby, projeto de aposentadoria, mas também neto, nora, vizinho – ou imigrantes e outras pessoas estranhas em aparência, ideias ou religião. Acho que agora entendo a obsessão de cada vez mais gente mundo afora em controlar a vida dos outros, num flerte global com o autoritarismo que já descamba para a execução. Quem vive cronicamente estressado com subemprego e exploração socioeconômica, apanhando da vida, precisa da sensação de controle de poder baixar o cacete em alguma outra coisa ou alguém ainda mais na miséria. Para quem vive cheio de problemas, ir às redes sociais se meter nos direitos alheios oferece o alívio temporário tão necessário à sensação de impotência. E quem vive no estado oposto de afluência descansada precisa igualmente de um novo problema para resolver. Com a vantagem de gozar de tempo e dinheiro, parte dessas pessoas vão se meter a controlar os outros que vivem situações de merda tão profunda que requerem aborto, emigração ou novas chances, negando-lhes tudo apenas porque elas podem. Como fazer com que as pessoas parem de se meter na vida alheia? [...] Alguns problemas são insuperáveis, mas a vida é feita de todos os outros. [...]. Ela é autora da obra The Human Advantage: A New Understanding of How Our Brain Became Remarkable (The MIT Press, 2016). Veja mais aqui.

 

SANTANNA O CANTADOR

Eu acho que devemos ser eternos aprendizes, para podermos evoluir com mais consciência do que somos e do que queremos... Você tem que acreditar no seu jeito de fazer as propostas. Quando a coisa é verdadeira as pessoas notam e sentem. A verdade será sempre moderna e bem aceita, mesmo que doa...

Pensamento do parceiramigo, cantor e compositor Santanna, O Cantador. Veja a entrevista que ele concedeu pra mim e outras coisas a respeito do seu talento e carisma aqui.

 

LER BEM – O concurso Ler Bem 2026, iniciativa da Associação Pernambucana de Atacadistas e Distribuidores (ASPA) objetiva incentivar a leitura entre estudantes do 4º ano do Ensino Fundamental de escolas municipais. Este ano o Observatório de Leituras da Semed-Palmares, acompanhou o estudante Zeus Vinícius Barbosa Holanda, da Escola Municipal Professora Maria Elizabete de Oliveira Calado, em Palmares, Pernambuco, em 3 encontros, contando com o apoio do professor Emerson José Oliveira da Silva e dos técnicos da Semed, comandados pelo professor Valmir Melo. A obra estudada foi A volta ao mundo em 80 dias (Le tour du monde en quatre-vingts jours - FTD, 2013), do escritor francês como Júlio Verne (Jules Gabriel Verne – 1828-1906), considerado o inventor do gênero de ficção científica. Veja o ocorreu durante os encontros e treinamentos aqui.

 


ARTE NA ESCOLA – O professor Emerson José Oliveira da Silva apresentou o artigo científico sob a temática A arte na educação infantil e desenvolvimento da criança na pré-escola, no Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia, da Faculdade de Formação de Professores da Mata Sul/PE (Famasul), de Palmares (PE), orientado pela professora Vanessa Ferreira dos Santos. Veja na íntegra aqui.


 

CENTENÁRIO DE DAREL VALENÇA LINS – Em 2024 comemorei o centenário do gravurista, pintor, desenhista, ilustrador e professor, Darel Valença Lins (1924-2017), com a publicação do livro Dareladas, lançado tanto em Palmares, sua terra natal, como também no Rio de Janeiro. Confira como ocorreu aqui.

 


SEMANA HERMILO BORBA FILHO - Em homenagem ao advogado, escritor, crítico literário, jornalista, dramaturgo, diretor, teatrólogo e tradutor Hermilo Borba Filho (1917-2017), acontecerá a Semana Hermilo, entre os dias 28 e 31 de julho, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto, em Palmares (PE). Confira detalhes & muito mais aqui.

 

E veja mais Pernambuco aqui.

 


NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...