domingo, abril 19, 2026

JENNIFER WONG, JANET EVANOVICH, CARLO ROVELLI, LUZILÁ GONÇALVES & CIBELE SARKIS CARNEIRO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Reencuentros (2023), Lejos de Casa (2023) e Guitar Recital (2016), da violonista espanhola Andrea González Caballero.

 


Gesta do espantalho... - O instante e que dia era, pouco importava: ontamanhães emaranhados e o que desse na telha ignorava o calendário que se perdeu noutras datas. O que via ou vivesse, às enxurradas, davam nos seus trocentos versos pelas suas duas mil e duas vontades adiadas nos milênios de solidão, um fantoche contando o que viveu como se fossem hestórias inventadas no eterno suspense, nada a ver com quem nunca fez uma pirâmide, muito menos biscoitos, ninharias. Quem era, nada. Trôpego bajoujo cheio de esperança pelos pântanos apodrecidos dos que se esfolavam uns aos outros, todos uns dogabobados por extenso, incapazes como ele de discernir entre o erro e o fatal. Escapava badameco a se confrangir com o escarro letal da exclusão, palúrdio cegueta que não distinguia o crível do irônico, as pedras falsas da cama de gato, o blefe da ameaça. Entre sins e nãos, relíquias e macabros, o que havia de escondido por trás da fumaça, ah, deixava pra lá, se o espantoso e o estarrecedor faziam o cotidiano. Dava pé e se ria de oligofrênicos e outros pacóvios, dos taroucos que mantinham o já obsoleto da ideia, dos atoleimados que se esqueciam do recém-acontecido, dos paspalhos que reenterravam equivocadamente seus mortos, de nem sequer lembrar de tão já apagados definitivamente; e dos estafermos marias-vão-com-as-outras porque não havia outra coisa a fazer na sua pálida existência, a não ser torcer pelo horror desgrenhado a disparar o espantoso estarrecedor para bulir no sangue das veias e na tentativa desembaçadora de lembrar do kitsh veemente das hibridizações na recompensa do crástino que restava. Nem era tão tarde e, se vivia, ali era tudo tão mórbido, o passado perdido e o que não fazia o mínimo sentido: e se não fosse, seria outro. Como assim? Tantas que perdeu a conta e dava de cara com o mundo dos simulacros, suas mentiras e soberbas. Restava perguntar-se a si mesmo: por que tanto ódio? Descobria: torpezas, abjeções e indignidades. Mas se aquele que matava também morria, por que, então, matar? E o assassino lia a notícia às gargalhadas. Estava confuso, sentia-se desastrado, quando revolvia toda vitalidade e saiu errante para o mais longe possível: em toda parte a deterioração. Viu-se quase soterrado pelas avalanches das distopias. Não é possível! Era. As crenças invalidadas, os pactos malogrados, as certezas aos farrapos, os laços esgarçados. Lançou mão dos anseios, esbarrou na estupidez. E viu-se um cretino a mais no turbilhão das horas. Foi mais além e onde qualquer, um simples dado biográfico a mais: andejo. Então, deu em Nagoro, na ilha de Shikoku, kakassi no sato, e viu-se à beira do abismo e da extinção. Olhos arregalados e a cena teratológica no quengo: as cabeças embalsamadas, as lápides mortuárias, a Virgem de Nuremberg estarrecedora, os gritos lancinantes de suicidas incógnitos, os brinquedos auditivos, os sabores da língua, a pele dos toques, os cheiros, as paisagens e, enquanto via, inventava pra si o seu mundo: ninguém tinha nome, a maravilha anônima, a ubiquidade inapelável. Aí, a abrupta salvação: deparou-se com sorridente Tsukimi de braços abertos e suas mãos artesãs espalmadas deram-lhe a razão do agora feito para a luz do futuro: ali escreveria sua própria vida antes enovelada e, quase logoteta, desenrolava com as pestanas nos cílios umedecidos. O coração batia, a emoção das lágrimas, as trêmulas mãos: sentia-se, enfim, vivo e não era, estava: memória visceral, segredo intersticial... Até mais ver.

 

Hilda Hilst: Estou convencida de que o amor é a única coisa a se viver. Minha infraestrutura é completamente amorosa. Eu queria viver sempre na paixão. Isso pode custar anos de vida, esse ‘viver’ unicamente em função da paixão … Eu daria com muito prazer anos da minha vida para só conhecer esse estado... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Rachel Corrie: Siga seus sonhos, acredite em si mesmo e não desista... A morte tem cheiro de purê de maçã caseiro cozinhando no fogão. Não é a sensação sufocante da doença. Não é medo. É liberdade... Veja mais aqui & aqui.

Malalai Joya: Eu não temo a morte, eu temo ficar calada frente à injustiça... Veja mais aqui.

 

CHAMANDO OS MORTOS

Imagem: Acervo ArtLAM.

Em certas noites eles voltam, \ Fragmentos de histórias de fantasmas alojados na minha cabeça \ de corridas de táxi à meia-noite. Quase sempre \ uma mulher de vestido vermelho, riso oco \ e uma bola quicando em um parquinho, \ almas perdidas atravessando o rio enevoado onde Meng \ Oferece-lhes sopa para esquecerem, antes de sua próxima vida. \ E naquelas tardes em que minha mente divagava \ Com histórias sinistras, cada escola em Hong Kong \ um cemitério. Imploramos para que nos chegassem a nossa vez. \ ir ao banheiro juntos, acreditavam mãos fantasmagóricas \ brotariam das torneiras para nos trazer de volta \ para uma colônia em tempos de guerra onde soldados japoneses \ competiam entre si para ver quem decepava mais cabeças. \ A menina da minha turma tinha um álbum de recortes. \ de histórias de fantasmas: aprendi que vampiros \ Na dinastia Qing, as vestes não se movem lateralmente; \ Alguns atores nunca voltaram das filmagens. \ E crianças descuidadas desaparecem a cada OVNI. \ Nos reunimos em volta de um prato de molho de soja que tremia. \ ver a carta se mover pelo tabuleiro Ouija. Seria difícil... \ fazer os espíritos da comida irem embora.  E outros mitos da terra. \ dos desaparecidos; meu primeiro amigo no ensino médio, \ Nossos aniversários eram com um dia de diferença, costumava me mostrar \ As linhas da palma da mão dela, uma linha mais curta que as outras. \ O que você acha do lugar onde você está agora? \ Seremos amigos em nossas próximas vidas?

Poema da escritora honconquesa Jennifer Wong, autora das obras Letters Home (Nine Arches Press, 2020), Goldfish (Chameleon Press, 2013) e Summer Cicadas (Chameleon Press, 2006). Ela possui mestrado em escrita criativa pela Universidade de East Anglia e o doutorado em escrita criativa sobre poesia da diáspora chinesa pela Universidade Oxford Brookes.

 

JOGANDO A TENTAÇÃO - [...] Meu trabalho não é perfeito porque é um reflexo da vida. A vida não é perfeita. [...] A gente nunca sabe o que esperar das pessoas. Num minuto elas são a rainha do baile e no minuto seguinte já são completamente malucas. [...]. Trechos extraídos da obra Game On: Tempting Twenty-Eight (Simon & Schuster, 2021), da escritora estadunidense Janet Evanovich, autora das obras Fortune & Glory Tantalizing Twenty-Seven (2020), Plum Spooky (2008), Eleven on Top (2005), Hard Eight (2002), Seven Up (2001), Three to Get Deadly (1997) e One for the Money (1994). Ela também se expressa: O melhor que podemos fazer é priorizar nossas necessidades e tomar decisões de acordo com elas... Existem homens que entram na vida de uma mulher e a arruínam para sempre... É possível superar situações muito sérias, às vezes horríveis, embaraçosas e extremamente desconfortáveis ​​com humor. Ele nos dá uma saída...

 

RADICAL PERSPECTIVA – [...] Minha pergunta central sempre foi: como o mundo funciona? Temos duas teorias principais que funcionam incrivelmente bem em diferentes áreas: a relatividade geral e a mecânica quântica. Quando aprendi sobre essas teorias na faculdade, fiquei impressionado com o quão radicais elas eram. Ambas desafiam concepções muito fundamentais que temos sobre o mundo ao nosso redor [...] Todas as tentativas de refutar a mecânica quântica e a relatividade geral falharam. [...] Creio que o desafio da ciência é encontrar o esquema conceitual correto para melhor compreender a natureza como a vemos. [...] E para isso, precisamos da filosofia. Os filósofos nos ajudam não a encontrar as respostas certas para perguntas específicas, mas a encontrar as perguntas certas para melhor conceituar a realidade. [...]. Trechos extraídos da entrevista Carlo Rovelli’s Radical Perspective on Reality (Quanta Magazine, 2025), concedida pelo físico e cosmólogo italiano Carlo Rovelli, que na sua obra Sette brevi lezioni di fisica (Adelphi, 2014), expressou que: [...] Somos feitos da mesma poeira estelar da qual todas as coisas são feitas, e quando estamos imersos no sofrimento ou quando experimentamos uma alegria intensa, não somos nada além daquilo que não podemos deixar de ser: parte do nosso mundo. [...]. Veja mais aqui & aqui.

 

MUITO ALÉM DO CORPO, DE LUZILÁ GONÇALVES FERREIRA

[...] Urgia aprender a conviver com a tua ausência, fazer dela um elemento de vida, algo tranquilo, suave, presença e não imagem dolorida de uma falta. Era preciso transforma tua ausência num dado passado embora luminoso, a lançar sua incandescência sobre um presente turvo. Chorava, o lápis à mão. As lágrimas escorriam pelo rosto que eu não pensava esconder, algumas caíram sobre o texto que eu nem enxuguei. Continuei a ler, a anotar, vez em quando as letras dançavam na página, eu perseguindo a leitura. Então, me senti olhada [...] Uma mão pousou sobre a minha, compassiva, e outra mão acariciou os cabelos, deteve-se nas faces. Levantei a cabeça e vi. Um rosto. Ou antes: um olhar. [...] Aquele olhar falar você só face, eu estou vendo. E dizia: eu estou aqui [...].

Trechos extraídos do romance Muito além do corpo (Nestlé/Scipione, 1988/Cepe, 2016), da escritora, pesquisadora, feminista e professora Luzilá Gonçalves Ferreira, autora de obras como A Anti-Poesia de Alberto Caeiro (1990), Os rios turvos (1993), A Garça Malferida (1995), Em Busca de Thargélia (1996), Humana, Demasiado Humana (2000), Voltar a Palermo (2002) e No Tempo Frágil das Horas (2004), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

&

A ARTE DE CIBELE SARKIS CARNEIRO

A arte da artista visual Cibele Sarkis Carneiro, que atua como professora de Artes em diversas escolas da rede pública e privada, integra o grupo Gentamiga Ateliê (SP), participa da plataforma Ubqub (SP) e participou com seus trabalhos da publicação Dareladas (CriaArt, 2024) e no zineblog Tataritaritatá. Veja a entrevista dela aqui & mais aqui.

 

Fernando Monteiro aqui & aqui.

Alice Amorim aqui.

Alceu Valença aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ladjane Bandeira aqui, aqui & aqui.

Miró da Muribeca aqui.

Dona Duda da Ciranda aqui.

Ronildo Maia Leite aqui, aqui, aqui & aqui.

Marisa Lacerda de Andrade aqui.

Mestre Noza (Inocêncio Medeiros da Costa - 1897-1983) aqui.

Nathalia Protazio aqui.

 


domingo, abril 12, 2026

CRISTINA GARZA, STELLA NYANZI, CAROL GREIDER & ARAMIS TRINDADE

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Debussy: La fille aux cheveux de lin (2025), My European Journey (2021) e Letters from Paris (2016), da violonista britânica Alexandra Whittingham. Veja mais aqui.

 

Memória visceral, segredo intersticial... - Era maio, foi. E em plena primavera, il Prete Rosso imprimia os acordes do Allegro em fá maior, terceiro concerto Le quattro stagioni, um anúncio outonal do vindouro solstício de inverno. Fora do tempo, a vida era brisa mansa fagueira nos olhos orvalhados, criança risonha, arteira: o quintal era o paraíso e se estendia às fugidas pela beira do rio, o reino encantado de todas as coisas. Mais dias, temores e pirraças: vingava na fruteira, legumes ou verduras; aos puxões de orelha e bra bre bri bro bru, crás! Tome! Pronde ia, a pele na parede rebocada, com as travessuras: menino traquino subia muro pra saber do depois. E só quando a noite, piongo se escondia arregalado pelo papa-figo e outras abusões sinistras. Assim crescia na correnteza de Valuna e mais. Até que adolesceu ousadia estival no meio do proceloso quarto concerto em fá menor e era pra si próprio: Il cimento dell'armonia e dell'inventione. Quase rapaz na invernada, um bigodinho ralo encorajador na cabeça de vento, imberbe idiossincrasia nos incipientes pelos das axilas e púbis, o punho solitário desbossulado pelas efígies coloridas, erotomania medonha estava escrita na testa. Tudo voava sem antes, o dia no idílio e as ideias tempestuosas pelas cachoeiras de sonhos. Se houvesse lonjura passava perto do fim do mundo, nada era demais no fastio das léguas engolidas, de audaz singrador pelos avessos e às voltas com a feiúra ocrídia, daquelas de quebrar espelhos. E vieram reveses, pisado curto: dava-se prazo. De resto, tinha coragem: vozes escuras insólitas e as funduras da vida. Podia fazer melhor: se acomodar ao vulgo ou alheio, acovardar-se; mas, não, ia. A mãe vestia branco e olvidava sua angústia impulsiva: medos e culpas, pseudologia fantástica e irrecuperável mitomania narcisista. O pai distante, idolatrava. Era mais um pendurado na ponta da corda. Mesmo assim, quando adulteza outonal chegou, não era mais que uma peraltice guilhotinando a hora no primaveril equinócio do barroco primeiro concerto, em mi maior. Houvesse quentura mormaçada, lavado de suor e lágrimas, segurava o teitei na pisada larga. Mais trovejasse e o raio era o salto com afinco sobrepujando percalços, recorrentes revertérios e o podium desmoronava pelo cimento mole, adivinhando o buraco escondido sob o aguaceiro. Precauções inúteis e escorregões nas escadarias, no asfalto, pedras falsas, a queda e a cara no tolote, sossega-leão, nada poupava risadas vindouras. Havia sempre fritura em ponto de exaustão, coisa de quase fora-da-lei. Nada não. Houvesse premência, nada mais que dedos estalando para acender provisão: segundos por semanas vencidas, meses por anos devorados. Piorava com a própria disgrafia disléxica e a doença de escrever na disortografia: tudo misturado, desconexo, mal inventado, a graforréia crônica, caráter anancástico e a aritmomania, o desarrazoado e a calamidade hipotética. Teibei! Endoidou? Intuía reconciliação: escrevia como se salvasse do autoexílio, ah, as ruminações mentais, as alucinações, coisa de louco. E o cúmulo: bandeira branca a meio pau, topava, aguçava as vistas e as ouças, rasteiro, apurava: agora vale imediato, nem seguintes nem antes, da vez, onde ou longe. Avaliava sobras e privações, não batia o desconforme e destilava seus próprios venenos. O que não dava jeito, inéditas coisas, feições demudadas. Então, peraí! Era a vez do melodioso segundo concerto em Sol menor, como se revivesse os versos da primavera de Neruda, o verão no aquário de Lygia, o outono de Knausgård e o inverno de Torga. Aprendia: do abismo, os ósculos da sorte; dos dias, o ritual dos renascimentos; e das noites: o segredo das constelações invisíveis. Assim, na sua vetustez, atinou das rugas e pelancas: a vida era plena no solstício de verão. Ué! O traquejo do sonâmbulo cavanhaque grisalho, quase abstêmio, tão e quão, nada tão sério quanto um chiste pra gaitada débil: história de muito assunto, sobre o mofo das coisas emborcadas, puídas, arriadas. Passou, passaram. Amplexos ocasionais, desapegos - túmulos, desesperos, niilismo, tudo muito póstumo e embalado pela primeira sinfonia em sol menor, de Tchaikovski, aos ecos do salmo: Todos os homens são mentirosos... E uma legião de impostores rondando pesadelos: um bando de sátiros, pinóquios, titeriteiros, espantalhos, duendes, mascarados, desfilavam espectrais, talvez avistasse assombrações desarrumadas de olho aberto. Mantinha a munheca trêmula em riste - previa o rasgado, proveito dos remendos: coincidência é retrato falso, sabia, o urdido se consumia, cogitava desengancho, havia de desfiar tudo no oco da mão surrada, premido pelo que se foi e escapuliu pela culatra aos demasiados. Se desde muito estafermo, não dava noutra: se a Terra dançava, a vida seguia. E tudo ia, foi atrás. Até quando? Ora. Até mais ver.

 

Lygia Fagundes Telles: Quando na realidade o amor é uma coisa tão simples... Veja-o como uma flor que nasce e morre em seguida por que tem que morrer. Nada de querer guardar a flor dentro de um livro, não existe nada mais triste no mundo do que fingir que há vida onde a vida acabou... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Cressida Cowell: Lembre-se: não há nada de errado em ter um senso saudável de autoestima... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Claire Wineland: A morte é inevitável. Viver uma vida da qual possamos nos orgulhar é algo que podemos controlar... Veja mais aqui & aqui.

 

É PRECISO ENLOUQUECER PRIMEIRO?

Imagem: Acervo ArtLAM.

Neste país abandonado por Deus \ as bocas dos homens estão caladas. \ O medo paralisa-os. \ A coragem das mulheres, esmorecida. \ Os seus filhos, mortos ou presos. \ Dizem que sou louca \ por dizer publicamente verdades \ que os anjos não ousam sussurrar. \ Dizem que sou perturbada \ por combater assassinos armados \ com posts no Facebook e poemas. \ Eles olham-me e abanam as cabeças. \ Perguntam-se quem me terá enfeitiçado. \ Olho-os de volta e suspiro. \ Fomos todos reduzidos a isto? \ Será preciso enlouquecer primeiro \ para dizer a verdade ao poder \ neste país abandonado por Deus?

Poema da poeta, antropóloga, médica e feminista ugandense, Stella Nyanzi. Ela é ativista, defensora dos direitos humanos, dos direitos queer e da sexualidade, do planejamento familiar e saúde pública. Veja mais aqui.

 

O INVENCÍVEL VERÃO DE LILIANA – [...] Viver em duelo é isso: nunca estar sozinho. Invisível, mas patente de muitas formas, a presença dos mortos nos acompanha nos minúsculos interstícios dos dias. Por sobre o homem, a um lado da voz, no eco de cada passo. Arriba das janelas, no fio do horizonte, entre as sombras das árvores. Sempre está lá. e sempre estás aqui, con y adentro de nós, e afuera, envolvendo-nos com sua calidez, protegendo-nos da intempérie. Este é o trabalho do duelo: reconheça sua presença, decirle que sim a sua presença Sempre há outros olhos vendo o que vejo e imagina esse outro ângulo, imagina o que uns. sentidos que não meus filhos poderiam apreciar através dos meus sentidos, bem mirado, uma definição pontual de amor. O duelo é o fim da solidão. [...]. A liberdade não é o problema. Os homens são o problema — homens violentos, arrogantes e assassinos. [...]. Trechos extraídos da obra Liliana's Invincible Summer (Hogarth, 2023),da premiada escritora, ensaísta e poeta mexicana, Cristina Rivera Garza. Veja mais aqui & aqui.

 

DISLEXIA - Quando criança, eu me achava burra porque precisava de reforço escolar. Só muito mais tarde descobri que era disléxica e que minha dificuldade com ortografia e pronúncia não significava que eu era burra, mas essas primeiras impressões ficaram comigo e influenciaram meu mundo por um tempo... No ensino fundamental, descobri que podia me sair bem na escola. Lembro-me de gostar da liberdade de escolher as disciplinas e do prazer de aprender e ter um bom desempenho. Minha perseverança e meu amor pela leitura, de alguma forma, me permitiram superar muitas das desvantagens da dislexia, e eu lia muitos livros por prazer... São necessários anos para perceber os múltiplos benefícios da ciência; sem financiamento adequado e contínuo para a pesquisa, a carreira de muitos jovens cientistas brilhantes pode ser interrompida abruptamente... A ciência pode promover a compreensão entre as pessoas em um nível realmente fundamental... Pensamento da bióloga molecular estadunidense Carol Greider, que descobriu a telomerase em 1984. Suas pesquisas relacionadas à proteção dos cromossomos através do telómero, juntamente com Elizabeth Blackburn Jack Szostak renderam-lhe o Nobel de Medicina/Fisiologia de 2009.

 

A ARTE DE ARAMIS TRINDADE

Nós temos uma ferramenta muito importante na educação – é o teatro. Ministra o conteúdo e facilita o aprendizado. É muito didático, através da encenação passamos muita informação...

Trecho da entrevista (Ciranda de Palavras, 2018), concedida pelo ator, produtor, diretor e humorista, Aramis Trindade (Aramis Marques de Trindade Sobrinho), conhecido por suas atuações em filmes como O baile perfumado (1997) e O auto da compadecida (2000). Ele começou sua trajetória artística aos 13 anos de idade, num circo em Fazenda Nova (PE). Daí foi pro teatro e, a partir de 1982, atuou em espetáculos como Lisbela e o prisioneiro (2000-2002) e Não vamos pagar (2016), entre outras peças teatrais. No cinema, além dos mencionados, participou de Bandeira, Bandeiras (1986), Tainá 2 - A Aventura Continua (2005), Árido Movie (2006), Zuzu Angel (2006), Gonzaga - de Pai pra Filho (2012), totalizando mais de 60 filmes. Na TV participou de séries, novelas, programas, entre outras apresentações, afora produzir curtas metragens. Veja mais aqui.

&

ABRIL ÍNDIGENA

Acontecerá no dia 15 de abril, o Abril Indígena da UFPE, ocasião em que o Mata Sul Indígena tratará sobre a experiência do Museu do Povo Marikito Tapuyá, do artesanato Anuará e exibição do doc. Matapiruma, retratando o trabalho dos cortadores de cana no Engenho Matapiruma, em Escada (PE). O evento contará ainda com atividades culturais, valorização de direitos e saberes dos povos originários e o Acampamento Terra Livre (ATL), integrando-se ao cenário nacional a ações da FUNAI, com a temática "Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós".

&

ESCRITORES DA MINHA TERRA

Dia 14 de abril, 14h, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto (Palmares-PE).

 

Nelson Rodrigues aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Lívia Falcão aqui & aqui.

Naná Vasconcelos aqui, aqui, aqui & aqui.

Paula Berinson aqui.

Alberto da Cunha Melo aqui, aqui & aqui.

Janete Maria Lins de Azevedo aqui & aqui.

José Barbosa aqui & aqui.

Gio Simões aqui.

Marcelino Freire aqui, aqui & aqui.

Joana Liberal aqui.

 


domingo, abril 05, 2026

CLAUDIA PIÑEIRO, HELEN HEATH, DOLORES HUERTA & JOÃO PERNAMBUCO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum Avant l’Aube (Timespan Recordings, 2022), da violonista italiana Cristina Galietto.


 

Reduto da migração... - À beira do rio vagava gente: a dança do imprevisível noitedia. Uns desafinavam descompassos; outros, valsavam torvelinhos intérminos. Prestativo, desde menino, Zé Calunga por ali - não tinha instrução, mas tirocínio. E ajudava quem chegasse pro embarque, avisava o horário da travessia do caudal ou da condução pela rodagem. Para isso ajeitava tamborete em troca de moedas ou do que dispusessem, evitando quem arrastasse as malas e perdesse a viagem das águas ou dos caminhos. Oxe! Perdeu a hora? Ora, ora. Captava bigus para desprovidos, carregava malas dos precisados, levava recados distantes, conduzia enfermos às emergências, servia de moletas pros pernetas e guia para cegos, ensinava destinos, dava a direção aos perdidos, servia de companhia para desencontrados, dava jeito em tudo que desafiasse resolução. Será o absurdo? Mas, tá! Assim cresceu enquanto as pessoas surgiam como coisas inventadas na hora: iam e vinham aos borbotões, migravam como lagartixas tontas fugitivas de suas incógnitas inexatidões. Eita, lasqueira! Motivo do alvoroço? Havia guerra remexendo os restos das ninharias, aos ensurdecedores pipocos: o mundo enorme se apequenava, todos proutras paragens na outra margem. E já! Deu o créu! Maior vexame! Foi assim que ganhou a simpatia do jangadeiro Caronte, que ia de Alagoinhanduba pelo Una, para alcançar Opará, Estige, Aqueronte, até o abismo profundo do Tártaro, nos confins do mundo. O navegante cobrava uma dânaca pelo traslado, bastava pagar ao seu vigilante escudeiro, o cachorro Cérbero, que as guardava permitindo acesso. Quando não, virava um feroz demônio do poço, acaso alguém contrariasse seu dono: com raiva tornava-se tricéfalo, fogo saindo pelo pescoço com serpentes cuspidoras e cauda de dragão. Que desgraceira é essa? Até comia gente: era uma vez Pirítoo. Valha-me! Era tratado na mão firme do dono, bastava jogar um bolo de farinha e logo se aquietava manso – o curioso era que o cão dormia com olhos abertos e andava de olhos fechados, ô danado, no geral era uma criatura adorável, fazendo festa balançando o rabo pra quem chegasse. Havia outra possibilidade: Lá vem Tua Mãe Bigoduda! Ela vai até o fim do mundo? Ora, se! E o cata-corno do severo Maalik, cara fechada de quem nunca sorriu, entupido até o tampo levava dessa pra melhor, ou do ruim pro pior, quem sabe, estradafora, todos que vinham das redondezas e dali queriam sair às pressas. E eram muitos os viajantes: Dioniso procurava por sua mãe Sêmele, Psiquê atrás do Asno de Ouro de Apuleio; Orfeu buscando por Eurídice que foi picada por uma cobra; Enéas ansiando pelo reencontro do pai, Ulisses segurava Tirésias para voltar pra casa na Odisseia de Homero; Rimbaud à cata de toda vidência poética; Otto escapando da Noite dos Cristais dos nazistas pelas páginas de Boschwitz; os passageiros de Agualusa, os seguidores da Katábasis de Kuang e espiões do bode verde da ISI paquistanesa. Ufa! Ainda havia Pedro, o porteiro do paraíso, inviabilizando aquela entrada: ou correnteza redemoinhada, ou os catabís das trilhas pelo itinerário aos pés dos morros, mais nada. E enchia a pança obesa com a farofada, mangando da magreza de Calunga: Pronto! O diabo foi pro céu! Que foi? Ivan Karamazov devolveu o bilhete: Não há retorno, só os despojos do Ozymandias de Shelley, crianças empaladas e um maltrapilho Jesus condenado pelo vazio de todos os crucificados pelo livre-arbítrio e pelas múltiplas opções consumistas do paradoxo da escolha de Schwartz, o Se questo è un uomo de Primo Levi. Num diga! A coisa piorou quando Héracles saltou da jangada trazendo Teseu e queria levar Cérbero para Euristeu. Aí não! Como assim? Conversa vai, toma lá, dá cá, desavenças - cada qual sua catábase. Quem apartou a briga e acordou tudo no tom apaziguador foi Maalik, que deu uma freada de levantar poeira e desceu com os Zabaniyah que todo dia eram levados pra Jahannam. E como passava por muitas entradas, levava mais quem quisesse. Entre eles, o profeta Muhammad que ia pra Meca pegar o Buraq pra Isra e ser guiado por Gabriel até chegar em Masjid al-Aqsa e ascender para Mi’rai, também interveio engrossando o buruçu, ampliando o deixa disso que, finalmente, chegou a bom termo: resolvido, tudo certo. Foi no meio disso e de muitas outras, que Zé Calunga foi tomando jeito: tornou-se cobrador, vendedor de passagens, recebia e entregava encomendas, passava o pule do jogo do bicho pros apostadores, fazia triagens e dava norte pras coisas, atendendo avexados párias, imigrantes, exilados, nômades, refugiados, estrangeiros, metecos, degredados, expatriados, proscritos, banidos; os que queriam visitar os Moais de Rapa Nui, os que iam brincar na flora alienígena da Ilha de Socotra do Iêmen, outros que iam ver as cores do Fly Gleyser, os que desejavam virar estátua no Lago Natron da Tanzânia, ou iam pro deserto do Salar de Uyuni, ou mesmo pra Ilha Sentinela do Norte, ou bisbilhotar os arquivos secretos do Vaticano, os gigantescos geoglifos das linhas de Nazca; as cidades fantasmas de Chernobyl e Priapyat, as ruínas apocalípticas da Ilha Hashima, a fantasmagoria da colina de Craco, a submersa Kolmanskop no deserto da Namíbia, a ruina das pedras de Kayaköy, as labaredas eternas de Centralia, as bonecas velhas de Xochimilco, os ossos da capela de Évora; o suicídio na floresta Aokigahara, as assombrações noturnas do Bhangarh Fort, o Triângulo das Bermudas e lá vai teibei! E havia até quem queria ir pro fervedouro do Jalapão e os cânions de Cambará do Sul, pra Serra da Capivara, pros Lençóis Maranhenses, pro portal da Serra do Roncador, pra solidão do abandono de Fordlândia, pra vila ferroviária de Paranapiacaba, pra Ilha das Cobras da Queimada Grande, ou mesmo pra Planolândia! Eita, coisa medonha! Desde que ficasse longe dali! Danou-se tudo! E tinham os que procuravam pelo porteiro de Jackson Ribeiro, os que queriam ir pela Les Portes de l'Enfer de Rodin, os que passaram pela agonia do passageiro Lúcio Flávio – apareceu até o porteiro Maximiliam na noite de Liliana Cavani à procura da sobrevivente Lucia Atherton, afora os desejosos pela descida de Ishtar ou do descensus ad inferos de Oyá e o escambau. Quem é doido de esperar por tempo ruim? Pé na bunda! O certo era que os que iam nunca voltavam, pareciam mais que desapareciam na neblina da noite de Resnais. Ou raramente, retorno minguado, gente estranha sem saudade, mulheres esquisitas, homens sombrios - cada qual sua sordidez. E ele desde menino insone testemunhava a emigração e recreava, às horas vagas que eram brevíssimas, catando mensagens no fundo das tantas garrafas jogadas e assim entretinha de nem se dar conta que o tempo passou e nele se foi. Até mais ver.

 

Anne Lamott: A idade me deu o presente de mim mesma; me deu o que eu sempre desejei, que era me tornar a mulher que sempre sonhei ser. Alguém que sabe descansar, trabalhar duro e ser uma companheira constante, uma esposa carinhosa e dedicada a mim mesma... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Jennifer Esposito: Às vezes, tudo precisa explodir para ser reconstruído... Se você não apostar em si mesmo, quem diabos vai apostar em você?... Me dê civilização. Não quero ser mimada... Veja mais aqui & aqui.

Shiori Teshirogi: Minhas oscilações de humor eram praticamente insuportáveis para todos ao meu redor. Peço desculpas porque foi um período muito difícil da minha vida... Veja mais aqui.

 

O TOQUE

Imagem: Acervo ArtLAM.

da sua mão no meu \ seio traz pequenas agulhadas e \ primeiro deixo cair uma gota, depois outra, e \ então, quando estou sentada em você, sobre você, \ o fluxo é constante e o leite está por toda parte. \ Acho que não é bem um desperdício, porque \ sempre tem mais, mas eu te ressinto um pouco porque \ não é seu e você acha engraçado, e \ acho que é mesmo, e eu só preciso deixar ir. \ Você checa se eu tenho dentes lá embaixo e \ se consegue passar para o outro lado. \ Você acha que eu sou uma deusa e \ as crianças nos separam, eu na terra, você \ no ar, ou será o contrário? E \ nossas pontas dos dedos mal conseguem se tocar e eu choro em você, \ ou você chora em mim? \ As crianças me pisoteiam, ou \ é você? \ Vale, colinas, rios e cavernas.

Poema da poeta neozelandesa Helen Heath.

 

QUEM NÃO GOSTARIA? - [...] Assim, cada um tinha seu mérito, e méritos são muito difíceis de dividir. [...] Criado para encobrir uma dor ou resolvê-la para sempre. [...] Você nunca imagina que aquilo que deixa para trás se transforma. No exílio, os conhecidos não envelhecem, as casas não se deterioram, as árvores não crescem. [...]. Trechos extraídos da obra Quién no (Alfaguara, 2019), da escritora, roteirista e dramaturga argentina Claudia Piñeiro. Veja mais aqui.

 

LIÇÕES ATIVISTAS - Quando há um conflito, significa que existem verdades que precisam ser abordadas por ambos os lados. E quando há um conflito, o processo de resolvê-lo é educativo. Para isso, é preciso envolver as pessoas de ambos os lados para que possam dialogar... Cada momento é uma oportunidade de organização, cada pessoa um ativista em potencial, cada minuto uma chance de mudar o mundo... Se as pessoas não votarem, tudo continua igual. Você pode protestar até o céu ficar amarelo ou a lua ficar azul, e nada vai mudar se você não votar... Pensamento da ativista estadunidense Dolores Huerta (Dolores Clara Fernández Huerta), ex-líder sindical cofundadora da Associação Nacional de Camponeses, que mais tarde se juntou ao Sindicato Geral de Camponeses (United Farm Workers), atuando na defesa dos direitos dos trabalhadores, dos imigrantes e das mulheres. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE JOÃO PERNAMBUCO

Livro João Pernambuco – clássicas e inéditas (Legato, 2022), álbum de partituras reunindo a obra de João Pernambuco (João Teixeira Guimarães - 1883-1947), pesquisa e texto de Jorge Mello, prefácio de Flávia Prando e curadoria de Celso Faria. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

Álvaro Lins aqui.

Renata Santana aqui.

João Câmara aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Zabé da Loca aqui.

Fábio Xavier aqui.

Maria Oliveira aqui.

Adelmo Arcoverde aqui, aqui & aqui.

Oriana Duarte aqui & aqui.

Daniel Aragão aqui.

Marilourdes Ferraz aqui & aqui.



JENNIFER WONG, JANET EVANOVICH, CARLO ROVELLI, LUZILÁ GONÇALVES & CIBELE SARKIS CARNEIRO

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos álbuns Reencuentros (2023), Lejos de Casa (2023) e Guitar Recital (2016), da v iolonista espanho...