domingo, novembro 01, 2026

MARGARET ATWOOD, IMAN MERSAL, DAVID JULIUS & MIKAELA GOMES

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

 


Gesta equestre de baixo pra cima... - Relinchos na madrugada: Que é isso? Ruidoso trote apressado no asfalto, potoque. Platero ficou inheto, mesmo sempre humílimo, vulnerável, contido, quase nem falava no cotidiano, imagine morrendo de medo: Estão rodeando o oitão da casa! Caramba! Mister Ed logo ingadou lampeiro: Que vexame é esse, hem? Coisas acontecendo... Silver logo galhofou: Ele está com cotoco hoje, não para quieto! Eita! Que foi? São as éguas de Diomedes! Como é que pode? Parecia mais uma cratofania infernal: É o fim do mundo, meu! Começou a tremedeira, ossos e dentes rangiam barulhando no sacolejo: Hora de cagar fora do caco! Pânico geral. Lá vem a Podargo! Valha-me! Esconde! Num adianta! Por quê? A Lâmpon já me viu! A Xanto também! O galope está comendo no centro, só é bom quando é à beira-mar! Cai fora! A Deino está fuçando tudo quanto é canto! Reza, desgraçado! Quero lá servir de dieta pressas devoradoras! Se dessa a gente escapar, estamos feitos! BoJack aperreou-se todo tagarela: E agora? Todos estavam arrepiados! Não era pra menos, né? Xi! Rocinante capengou: Estamos fritos! Coragem, fresco! Incitatus logo emperrou jaez: Tamos todos é lascados do primeiro ao quinto! Vai te catar, medroso! Bucéfalo não deixou por menos, na maior sarabanda: Tudo covarde! Marengo desafiou: Vai encará-las, cagão? De vupt, tirou o cu da reta! Numa hora dessas num aparece o Sleipnir... Quer o quê? Nem Tianma pra salvar a gente! Ou o al-Buraq! Buraque, ora! O Pégasus de Belerofonte bem que podia dar as caras, né? Palomo desarredou no chasqueado: Ah, eles têm mais o que fazer, abestalhados frouxos! Nem Babieca de El Cid encararia essa! Ô Chal-kuyruk, que é que a gente vai resolver, hem? Ué!?! Nem o Bayard, muito menos o Schimmelreiter, mesmo que viessem com trocentos truques dariam cabo dessa desgraça, meu! O terror aumentando do lado de fora, pra dentro. Segura a onda! Centauro malévolo logo sentenciou: Todos prontos pro Açvamedha? Que é que é isso, meu! Tu num passa dum cavalo de Troia! Insulte, não! Só daria jeito se ele virasse o cavalo de três pés, aí sim! E se trouxerem os cavalos marinhos de Simbad? Aqui só tem, no máximo, cavalo de santo ou das molengas cavalariças de Áugias, mais nada! Aí a Burmese da rainha provocou a macharia: Se juntar tudinho num dá um traque que preste! Oxe, quem é? É a Mulher de Branco da Serra d’Água! Igi! Treme não, maricas! Tais com medo até de mulher, é? Imagine se fosse a sargento Reckless, botava tudo de prontidão! Bata com o pé na boca que a mão não alcança, enxerido! Essa é danada mesmo! Pede aí, pelo amor de deus, pelas 5 éguas do profeta! Agora deu. Quem está ali espiando tudo é a matriarca Jude do turfe, serve? Só valia se fosse qualquer um dos filhotes dela! Ela tá é rezando pra Deméter, bziziuziziuzi, ô erínia enfurecida! Tá ali com a frochosa da Blanque de Pas-de-Calais! Ah, essa é de primeira, potranca das boas! Tenha vergonha nessa cara deslavada! Eita! Olha só! Que foi? Maior buruçu! Que é que houve? O maior revestrés! Conta! Espie! Expectativa de baixar a poeirada. A salvação foi o Jegue-de-Paul, que apareceu lúbrico Príapo feito um cavaleiro Orosongo, pronto pra esfolá-las às peiadas! Só se ouvia ele gritando: Venham! Elas pulavam fora,  ligeirinho. Santo remédio, hem? Bicho macho, esse! Este sim, digno de Átila, encarou-las mesmo! A coisa acalmou e, depois de muito revirar, Platero achou a lanterna de Diógenes, iluminou o ambiente e viu quantos ali se escondiam: Comboio de pangaré toleima! E se ele não der cabo e elas voltarem, hem? Aí, fodeu. Ah! Como quem perdeu viagem, ele seguiu até deparar-se com um espelho enorme, segredo revelado: Alma de jumento em corpo de gente? Vida essa de alimária do pior quilate, o desconforto de ser inadequado, incompatível, rejeitado: Que mundo mais chato! Sai pra lá, asno! Isso é um jerico das costas ocas, meu! Apedeuta deslavado! Com os apupos, ele delirou pelas curvas senoidais da situação, coisa de potro, gritando: Preciso dum psicopompo! Agora, deu! Taí, isso é fácil, facinho! É só estralar os dedos, cotó! Tais querendo arengar? Tudinho aqui com o cu na mão, ora! Rocinante cuspiu às patadas: Ele está é com dor de cotovelo! E é? Bem empregado! Duas de quinhentos não faz mal a ninguém! Oxe, dá é circuito no quengo do corno, cara! Claro, ele só vive no mundo da lua como se procurasse o Santo Graal! Olha, elas estão voltando, escutem! Xá pra lá, o burro tá é lavando a jega! Coisa de doido, mesmo! Isso é um furreca! Deixem ele pra lá, cada broco com seu pantim! Platero então virou-se e, diante de todos, solene jactante: A felicidade é uma fábula, resta o poder de sonhar, há sempre começos, um sisifismo; infeliz de quem leva tudo ao pé da letra: a vida é uma metáfora! Pronto, empiorou: agora virou filósofo depois de torar o maior aço! Igi, só quer ser o Cheval Blanc da parada! Se fosse uma mula até que dava pro gasto! Isso quando não der uns de seus coices, né? Os outros caíram às gaitadas e mais mangaram, foram-se todos os trocistas com o estandarte das pilhérias. Xaropada dessa, pior purgante. E ele? Amargando angústia, temores muitos. Ah, até mais ver.


Albert Camus: Não ande à minha frente… posso não te seguir. Não ande atrás de mim… posso não te guiar. Ande ao meu lado… seja apenas meu amigo... Você nunca será feliz se continuar buscando em que consiste a felicidade. Você nunca viverá se estiver à procura do sentido da vida... O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Samantha Shannon: Nem todos nós sabemos o que somos. Alguns morrem sem nunca saber. Alguns sabem, e nunca são pegos. Mas estamos por aí. Acredite em mim... Não existia normalidade. Nunca existiu. "Normal" e "natural" eram as maiores mentiras que já criamos... O conhecimento é perigoso. Uma vez que você sabe algo, não consegue se livrar disso. Você tem que carregá-lo consigo. Sempre... Veja mais aqui.

Kazuo Ishiguro: Havia uma outra vida que eu poderia ter tido, mas estou vivendo esta... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

UMA VIDA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Isso não aconteceu na minha casa de família – não, não entre aqueles que me conhecem (ou assim eu acreditei). \ Minha vida, a vida que eu nunca fui capaz de tocar, nunca fui capaz de encontrar uma foto mostrando apenas nós dois \ – que a vida está ao meu lado na minha cama, abrindo os olhos depois de um longo sono \ e estendendo seus membros, como uma princesa que sabe que o palácio de seu pai é magicamente protegido contra ladrões, \ e que, embora as guerras nunca pareçam acabar, a felicidade está logo abaixo da pele. \ Esta é a vida em que mais de um pai enfiou suas ambições, mais de uma mãe sua tesoura, \ mais de um médico suas pílulas, mais de um ativista sua espada, mais de uma instituição sua estupidez \ e mais de uma escola de poesia sua poética. \ Minha vida que eu tenho carregado comigo de cidade em cidade, \ correndo sem fôlego enquanto a perseguia da escola para a biblioteca, \ da cozinha para o bar, da flauta ao piano, de Marx aos museus, \ da memória do cheiro de um corpo ao sonho de um salão de aeroporto, \ de tudo o que eu não sei a tudo o que eu não conheço. \ Minha vida, cuja existência eu nunca tive certeza, está ao meu lado na minha cama, \ abrindo os olhos depois de um longo sono e estendendo seus membros, \ como uma princesa que sabe que o palácio de seu pai está magicamente protegido contra ladrões, \ e que, embora as guerras nunca pareçam acabar, a felicidade está logo abaixo da pele. \ Foi assim que acordei naquela terra estranha na manhã em que virei quarenta, \ e se não fosse pelo fato de que Deus nunca escolheu uma mulher, \ eu teria dito que foi o primeiro sinal de profecia. \ Se não fosse pela minha própria maneira peculiar de pensar, \ eu citaria Mahmoud Darwish sobre uma mulher que entrou na casa dos quarenta anos com damascos perfeitos, \ ou então as palavras de Miłosz: Eu senti uma porta se abrindo em mim e entrei. \ Vejo diante de mim uma longa fila dos mortos – mortos, talvez, porque eu os amava – \ e vejo as casas projetadas para insônia, \ que eu sempre limpei com muito cuidado durante as férias, \ e os presentes que eu nunca abri, \ e os poemas roubados de mim linha por linha até que eu duvidava se eles já eram meus, \ e homens que eu só conheci nos momentos errados, \ e clínicas das quais eu não me lembro de nada além das barras em suas janelas. \ Eu vejo toda a minha vida diante de mim \ e eu poderia até mesmo abraçá-la se eu desejasse, \ ou sentar no colo dela e cantar, ou lamentar.

Poema da escritora, acadêmica e tradutora egípcia, Iman Mersal, autora dos livros Mamarr mu'tim yasluh lita'allum al-raqs (1995), al-Mashy Atwal Wat Mumkin (1997), Mamarr mu'tim yasluh lita'allum al-raqs (2004), Jughrafiya Badila (2006), Hatta atakhalla `an fikrat al-buyut (2013), Kayfa talta'em: 'an al umuma wa ashbahuha (2016) e Fi Athar Enayat al-Zayyat (2019).

 

OS TESTAMENTOS - [...] Você não acredita que o céu está desabando até que um pedaço dele caia sobre você. [...] Como se costuma dizer, a história não se repete, mas rima. [...] Uma vez que uma história que você considerava verdadeira se torna falsa, você passa a suspeitar de todas as histórias. [...] Você se surpreenderia com a rapidez com que a mente se torna mole na ausência de outras pessoas. Uma pessoa sozinha não é uma pessoa completa: existimos em relação aos outros. Eu era uma pessoa; corri o risco de deixar de ser pessoa alguma. [...] A verdade pode causar muitos problemas para aqueles que não deveriam conhecê-la. [...] Saber ler e escrever não trazia respostas para todas as perguntas. Levava a outras perguntas, e depois a outras mais. [...] O inventor do espelho não nos fez um grande favor: devíamos ser mais felizes antes de saber qual era a nossa aparência. [...] Onde existe um vazio, a mente prontamente o preenche. O medo está sempre à mão para ocupar quaisquer lacunas, assim como a curiosidade. Tenho vasta experiência com ambos. [...] Os totalitarismos podem ruir por dentro, à medida que falham em cumprir as promessas que os levaram ao poder; ou podem ser atacados de fora; ou, ainda, ambas as coisas. Não existem fórmulas infalíveis, uma vez que pouquíssima coisa na história é inevitável. [...]. Trechos extraídos da obra The Testaments (Vintage, 2020), da escritora, ensaista e crítica literária canadense, Margaret Atwood (Margaret Eleanor Atwood), que é um romance distópico, continuação de The Handmaid's Tale (1985), narrado pela Tia Lydia, uma personagem do romance anterior; Agnes, uma jovem mulher que vive em Gilead; e Daisy, uma jovem mulher que vive no Canadá, com um epílogo metaficcional, descrevendo a transcrição parcial de uma conferência promovida por uma associação histórica internacional. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

VOCÊ É RESPONSÁVEL PELA SUA PRÓPRIA CRIATIVIDADE - [...] Você tem que encontrar sua própria voz única. Você não quer apenas fazer o que todo mundo está fazendo. Você quer fazer algo único e ser conhecido por um certo estilo criativo [...] Sempre digo às pessoas no meu laboratório que a persistência compensa! [...] Quando você encontra um campo que não é bem compreendido, é uma ótima oportunidade para se aprofundar. [...] Precisamos restaurar a fé na ciência [...]. Trechos extraídos da entrevista You’re responsible for your own creativity (MLA style/NobelPrize, 2026), concedida pelo neurocientista estadunidense, David Julius (David Jay Julius), Prêmio Nobel de Fisiologia/Medicina, de 2021, pela investigação sobre o sistema somatossensorial, nomeadamente os receptores de temperatura e tato.

 


MÁRCIA GEBARA – A artista visual e professora, Márcia Gebara, realiza em Mogi Mirim, São Paulo, a exposição Além da linha dos olhos, com trabalhos dos alunos do Ateliê Marcia Gebara. Além disso reunimos os seus trabalhos que integraram a exposição Gentamiga Ateliê, por ocasião do lançamento do livro-catálogo homônimo, na Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto, em Palmares (PE), entre os dias 21 e 30 de setembro de 2026. Confira aqui.

 


PLURIVERSALIDADE – (Imagem: art by Dags Vidulejs) Tema abordado a partir das ideias de Mogobe Ramose, Enrique Dussel, Achile Mbembe, Renato Noguera, Anibal Quijano, Mignolo, Grosfoguel, entre outros, a partir da decolonialidade em confronto com a perspectiva eurocêntrica nas mais diversas áreas do conhecimento. Traz-se o conceito da pluriversalidade, observando-se o processo de colonização do sul planetário, a desmistificação histórica e efetivação da pluriversalidade decolonial, seus pilares na plurirracionalidade, no diálogo intercultural e heterárquico, na crítica ao eurocentrismo e à colonialidade, e na descentralização dos marcos de origem, permeadas pelo hibridismo, alteridade e afirmatividade. Confira aqui.

 


O BOI CALÇADO DA BAOBÁ BARRIGUDA – Este é o 10º episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna, contemplando as paragens agrestinas do município de Calçado e é onde se ouve os conselhos da Baobá Barriguda – na verdade, a buchuda Maria Paineira, com a polpa que mais parece uma jaca, guardando os ancestrais e toda memória da humanidade, cuidado com a serpente que mora dentro do tronco mais grosso do mundo – e do Boi Calçado que foi pra serra da Quizanga e desceu pra foz do riacho Barracas, no rio Canhoto. Com xilogravura de Lucélia Borges, confira aqui.

 


RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS – Projeto ficcional que narra as idas e vindas na vida de José Zé, um canoeiro órfão, que se vê enredado em intrigas e perseguições, culminando com o seu retorno ao lar de seu nascimento, para contar suas memórias, num depoimento de tudo que sucedeu na sua trajetória, a fúria de seus algozes e a fuga pelas águas do rio da infância. Confira aqui.

 


SOMBRAS DO CORAÇÃO – Roteiro de curta-metragem baseado na história autoral As sombras de Gilvanícila, a solidão e a sua relação com os pais Suetônio e Deusdith, o tio Susdidido e todo clima tenso de seu autoexílio pelas lembranças infanto-juvenis. Veja aqui, aqui & aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO

A jovem modelo Mikaela Gomes, que iniciou sua carreira em 2014 e fez sua estreia no São Paulo Fashion Week, desfilando na passarela com marcas de renome. Antes ela trabalhava como designer gráfica e dedicava seu tempo livre à dança, ganhando destaque com autenticidade e carisma nos seus vlogs, em 2023, conquistando audiência na sua rotina internacional. Veja mais aqui.

 


sábado, outubro 24, 2026

NÊGO BISPO, IA GENBERG, JOUMANA HADDAD & FUXICO CULTURAL

 

Imagem: Acervo ArtLAM.



Bródio na pareidolia do perdulário pendular... - Alagoinhanduba estava em polvorosa com os estardalhaços causados pelo aparecimento dum visionário taumaturgo. Outro? Ora, se! De novo? Pois é. Correria da muita aos cochichos, de boca e ouvido nos cantadores de cordel e providenciassem acordes pros motes e glosas, pipocando o assanhamento do povo pruma ineivada procissão. É mesmo? Mas, tá! Cadê o curandeiro? Ah, já foi arrastado pra casa do Barão caga-raio! Foi mesmo? Rapaz, nunca se viu aquele palacete tão iluminado! Aff! Oxe, tinha gente até de um olho só! Num diga! Dizem que pra lá foram os Rothschilds, os Rockefeller, os Wallenberg, os Walton, os Koch, os Mars, os Brenninkmeijer, os Bardi, Médici, Gondi, Fugger, Welser, Baring, Schröder, Goldman-Sachs, Contarini, Cornaro, Dandolo, Giustinian, Loredan, Mocenigo e Morosini e uma ruma de gente empaletozada de num acabar mais. Vixe, quanto nome difícil, patavina de entender quem são esses! Num sabe? Não! Ah, são os donos do mundo todo, bestão! Ricaços? Iapois! Igi! Até o papa estava pra chegar, mas deu um problema lá no teco-teco dele e foi representado, de última hora, pelo padre Quiba e um o bispo lá que nem sei quem é, nem nunca vi! Danou-se! Destá. Foi um festaço de arromba: o venerável da Maçonaria foi encasacado com meio mundo de urubu e com os caras lá do Rotary, mais os do Lions, da LBV, da Federação Espírita, da Assembleia de Deus e da Aliança Evangélica, até a extinta LBA ressuscitou lá! Eita! Tinha grã-fino até umas horas, gente casacuda como a praga! Pra quê mesmo, hem? Num tais sabendo? De quê? Do tal Doctor ZêZê Rasputin! Quem? Um danado dum peregrino klystys que veio dum lugar longe como a droga, lá das bandas da Sibéria, e que é ele na Terra e Deus no céu, somente! E que medonho é isso de, como é mesmo o nome? Klystys? Sim, nunca ouvi nem falar! Sei lá, tô só repetindo o que dizem dele e decorei, deve ser coisa boa, senão é malefício dos brabos. É mesmo. O cara é o fodão! Tais brincando? O hômi lá é sábio, véi! Como é? Pelo boato sabe-se que ele estudou muito, chega anda de peito inflado: Fiz num sei quê lá, desarnei num sei quê diga, essas coisas. Arreda! Oxe, até o padre Quiba se ajoelhou amoquecado aos gritos: Jesus voltou! Desmunhecou muito, foi? Só. E o convidado do além? Já tão chamando ele de xodó da Baronesa. Vixe! Tão dizendo por aí dos muitos milagres e que era só ele embeiçar uma talagada de cachaça-de-cabeça com pimenta malagueta, aí estralava a língua e os dedos, todo arrepiado, bulindo lá nele, uns muxoxos cheio dos pantins, caretas assombrosas e batia os pauzinhos nas coisas do outro mundo, invocando num sei quem numa novena e, pronto, desmanchava as ingresias lá, desenvultava e curava, tanto as câimbras da imperatriz, como qualquer moléstia dos enfermos, da coisa resolver-se tudinho na horinha mesmo! Valei-me, estuporado! A Madama Puxa-Encolhe mesmo saiu alardeando com as sinhás amigas dela lá: Ele me confortou, santa cura! É coisa escalafobética, meu! E num é! Ontem de noite mesmo armaram o palanque assim do lado e o milagreiro apareceu lá com meio mundo de gente no arousal, ele todo lisonjeado começou a falar mansinho num discurso, como se diz, anódino e teve até quem visse uma aureola angélica brilhar naquela cabeça santa. Deu o créu! Deus, mesmo! E depois, o bruxo lá ostentou na cipoada e, de repente, falava como quem trovejava, dos olhos dele saíram relâmpagos assustadores. Tanto é que, na hora, se eu tivesse bosta pronta, cagava de melar tudo, mas que torei aço do chicote deixou ficar o frosquete fazendo biquinho, com as pregas rapando tudo que viesse! Larga de ser frouxo! E num é! Ufa! O cabra é culto mesmo, né? O homem é de sete-ciências e bote lá mais, sabe tudo! E teve uma hora que gravaram o que ele disse, ouça, veja: Há mais de 100 anos, quando os interesses mais uma vez se amesquinharam, potencializando rivalidades para perpetuar a miséria humana, espoucou a mortandade e, ciclicamente, supostos heróis e vilões se digladiavam para a catástrofe. E quem pagou o pato dessas invectivas disparatadas? Sempre o povo miserável que é levado pelas ondas dos oportunismos, sucumbindo à gangorra dos dissabores! Em cada século a Lenda do Grande Inquisidor se repete... Os vilões, na verdade, somos cada um de nós; e os traidores pagarão nas mãos do inimigo celebrado, tenho dito! Foi aplauso do estopô calango de quase num acabar mais! Vixe! A coisa é séria! O que achou do discurso do forasteiro? Entendi nada, mas achei muito bonito e encorajador. Reconheceu, não? Nada. Num viu direito! Como? Aquilo é José Zon, só – dito ZéZon! Quem? Aquele, ora! Mesmo? Num lembra dele não? Não. Era ainda menino quando deixou de ser ajudante nas presepadas do Doro e, bandoleiro que só, seguiu os passos nebulosos de Tó Zeca: Esse tinha mais futuro, claro, era neto daquele barão que ninguém sabia soletrar o nome, né? Sim, sim! De anão encruado virou um varapau donzelão do bilau grande. Tá c’a gota! E num foi? Sei disso não! Ele aprendeu com o mentiroso e, segundo seu próprio juízo, foi muito mais além, pois, na maioridade, ele assuntou na aprumada e foi pras bandas do Padre Bidião: Muito melhor! Lembrou? Aaaah! Foi ele que decorou o Evangelho do reverendo, seguiu ao pé da letra na liturgia das beatas e sacerdotisas, comungou, tornou-se neófito e, na primeira iniciação, ousou um voo solo. Cabra sabido, hem? Vamos tirar a limpo isso: O doutor Zé Gulu já leu algum livro desse sabichão? Isso é um embusteiro, cagador de regra! Cuma? Tá ignorando os diplomas do letrudo, meu? Ora, ninguém nunca viu sequer um risco que fosse num taco de papel com o nome desse impostor! Oxe! Procure, vá! Será que é pinoia? Nada, dizem que ele está casado com uma princesa dita Sakina, filha duma tal de matriarca Begum Wilayat Mahal! Ah, foi assim que ele fez fortuna e passou a ser o bicho-papão das ciências e filosofias, então! Quem contou isso? Ele mesmo, ué? Quem já viu a princesa? Hum? Isso é um enrolão! Quem é doido de tirar a prova dos 9? Cá pra nós: o escroque parece que agora é conselheiro, ou coisa parecida, do Barão e da madame dele! Pronto, lascou! De que adiantou desmascarar? Deixa de tua apofenia, cara! Jamais vu! O povo é todo credo, paga no mesmo tanto pela leseira, sempre. Deixa quieto! Eu, hem? Até mais ver.

 

Sylvia Plath: Se você não espera nada de ninguém, você nunca está desapontada... E, a propósito, tudo na vida é gravável se você tem a coragem de sair para fazê-lo, e a imaginação para improvisar. O pior inimigo da criatividade é a autodúvida... Veja mais aqui.

Ezra Pound: Guerras são feitas para fazer dívidas... Um escravo é aquele que espera que alguém venha libertá-lo... Ou se move ou é movido... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Graciliano Ramos: É fácil se livrar das responsabilidades. Difícil é escapar das consequências por ter se livrado delas... Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, ídolos que depois derrubo. Uma estrela no céu, algumas mulheres na terra... Se a única coisa que o homem tem certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

EU SOU UMA MULHER

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ninguém consegue adivinhar \ o que digo quando me calo, \ quem vejo quando fecho os olhos, \ como me deixo levar quando me deixo levar, \ o que procuro quando estendo as mãos. \ Ninguém, ninguém sabe \ quando tenho fome, quando parto, \ quando caminho e quando estou perdida. \ E ninguém sabe \ que minha partida é um retorno \ e meu retorno é uma abstinência, \ que minha fraqueza é uma máscara \ e minha força é uma máscara, \ e que o que está por vir é uma tempestade. \ Eles pensam que sabem, \ então eu os deixo, \ e eu aconteço. \ Eles me colocam em uma gaiola para que \ minha liberdade seja um presente deles, \ e eu tenha que agradecê-los e obedecer. \ Mas sou livre diante deles, depois deles, \ com eles, sem eles. \ Sou livre em minha opressão, em minha derrota \ e minha prisão é o que eu quero. \ A chave da prisão pode ser a língua deles. \ Mas a língua deles está enrolada nos dedos do meu desejo, \ e meu desejo eles jamais poderão controlar. \ Sou uma mulher. \ Eles pensam que são donos da minha liberdade. \ Então eu os deixo, \ e eu aconteço.

Poema da escritora, jornalista e ativista cultural libanesa Joumana Haddad.

 

PEQUENO CONFORTO - [...] Eu queria escrever um livro sobre dinheiro e considerei diferentes maneiras de abordar o assunto. No fim, escrevi várias histórias que giravam em torno do dinheiro. Para este livro, pesquisei muito mais — li livros e conversei com pessoas. Por exemplo, tentei entender o que o dinheiro realmente é, infelizmente sem sucesso. Não acho que o valor, quando se trata de dinheiro, e o valor, quando se trata de pessoas, sejam a mesma coisa, exceto em um sentido puramente semântico. Mas é interessante como nossa linguagem é invadida por termos econômicos — como falamos sobre investir em um relacionamento ou ter "credibilidade" em certas situações. Também é estranho que meçamos o tempo em termos de dinheiro e deixemos essas duas unidades circularem juntas, mesmo que nosso tempo seja muito limitado e o dinheiro seja algo essencialmente fictício. [...]. Trecho da entrevista From fever dreams to fiction: the unscripted world of Ia Genberg (Al Majalla – Culture & Social Affairs, 2026), concedida pela escritora e jornalista sueca Ia Genberg (Ia Gabriella Genberg), sobre o seu livro de contos Small Comfort (2026), no qual reúne 5 contos, todos conectados com personagens recorrentes e tematicamente, expandindo as questões atinentes ao papel do dinheiro em uma sociedade que está passando por crises financeiras. Como resultado, ela também examina a ética e a moral em torno das finanças, o que faz da obra algo diferente e inovador. Os contos, a exemplo de Framgång Greger (uma entrevista com um ex-ator mirim que virou um ladrão fracassado) é um relato sobre um mensageiro de suborno farmacêutico desaparecido. O conto Tal vid ett bröllop / A Speech at a Wedding (um ator contratado para dar um discurso no casamento de um desconhecido); o Loser's Claustrophobia (notas sobre um experimento manipulado de Monopoly) e Klen tröst / Small Comfort (um casal divorciado fingindo viver em harmonia conjugal por causa de uma herança). Já no seu livro The Details (‎Harpervia, 2023), ela expressa que: [...] Vivemos tantas vidas dentro de nossas vidas — vidas menores com pessoas que vêm e vão, amigos que desaparecem, filhos que crescem — e nunca sei qual dessas vidas deve servir como moldura. [...] É só isso que compõe o "eu" — ou o chamado "eu": vestígios das pessoas com quem convivemos. [...] Alguns livros permanecem em seu íntimo muito tempo depois que seus títulos e detalhes já se apagaram da memória. [...]. Veja mais da autora aqui.

 

A TERRA DÁ, A TERRA QUER... – [...] O que é a cidade? É o contrário de mata. O contrário de natureza. A cidade é um território artificializado, humanizado. A cidade é um território arquitetado exclusivamente para os humanos. Os humanos excluíram todas as possibilidades de outras vidas na cidade. Qualquer outra vida que tenta existir na cidade é destruída. Se existe, é graças à força do orgânico, não porque os humanos queiram. [...] “O mundo é grande e tem lugar para todo mundo. O mundo é redondo exatamente para as pessoas não se atropelarem. [...]. Trechos extraídos do livro A terra dá, a terra quer (Ubu, 2023), do escritor, professor, sindicalista, ativista e líder quilombola, Nêgo Bispo (Antônio Bispo dos Santos – 1959-2023), que desenvolveu o conceito de contracolonização por meio de seus livros Quilombos, modos e significados (2007) e Colonização, Quilombos: modos e significados (2015). Veja mais aqui.

 


TUNGA – Em 2023 realizou-se a Semana Tunga na Biblioteca Fenelon Barreto – Palmares (PE), uma homenagem ao artista performático, escultor e desenhista Tunga (Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão – 1952-2016). Por resultado ocorreu durante o evento exposições, palestras, oficinas, vídeos e pocket show, resultando na publicação do livro Tungando a vida (CriaArt, 2024). O evento foi uma realização da Biblioteca Fenelon Barreto, Amigos da Biblioteca, Gabinete de Arte e zineblog Tataritaritatá, contando com apoio do Instituto Tunga, Usina de Arte & Semed-Palmares/Observatório de Leitura. Veja detalhes aqui.


 

LAJEDO – Este é 9º episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna, desta feita no agreste meridional, em Lajedo, Pernambuco, contando da festa no céu e o cágado que despencou de lá, caiu na pedraria da Volta do Canhoto e escorregou pelos rios Quatis, da Chata e do Retiro, pelos riachos Bonito, Doce e do Serrote, até o pé do lajeiro onde a onça mora. Confira aqui.

 


NEUROEDUCAÇÃO & PRÁTICAS PÉDAGÓGICAS NO ENSINO-APRENDIZAGEM – Resultado do projeto acadêmico sob a temática Neuroeducação: relação escola, professor e aluno na Educação Pública de Maceió, apresentado no Grupo de Pesquisa Neurofilosofia & Neurociência Cognitiva, em 2015, envolvendo alunos e professores do Ensino Médio, bem como gestores de duas escolas do Centro de Estudos e Pesquisas Aplicadas (CEPA), notadamente na Escola Estadual Moreira e Silva, por meio da gestora Ely Quintela Lisboa Carvalho, e na Escola Estadual Princesa Izabel, com as gestoras Sônia Suely Araújo Ferreira e Valquíria Balbino da Silva, em Maceió – AL, destacando o papel da neuroeducação no processo de ensino-aprendizagem e na qualidade de vida de docentes e discentes. Confira aqui.

 


LITERATURA LAM – Reunião que incorpora desde a publicação da antologia poética Primeira Reunião (Bagaço, 1992), às publicações do Nitolino no reino encantado de todas as coisas (Nascente, 2010), O lobisomem zonzo (Nascente, 1998-2011), Trâmite da Solidão (1992-2010), Crônica de amor por ela (edição limitada, capa dura – 2010), Vers&prosa à menina azul (2006), Rol da paixão (2008), Ao redor da pira onde queima o amor (2009), As trelas do Doro, o bacharel das chapuletadas (2006), Proezas do Biritoaldo (2009), Tolinho & Bestinha (2009), Big Shit Bôbras (2008) e Fecamepa (2000). Confira aqui.

 


REENCONTRO MARCADO – Conta a hestória do menino Auquê que encontra o Senhor da Lua para realizar seus sonhos. Transformado no adulto Anteu, passa a viver nua paisagem onírica, em que se vê envolvido com Catxerê, Daumília, Merca e Alcionélia, numa persistente decisão de escolhas que, ao serem tomadas, malogram indefinidamente, numa trajetória de idas e vindas intermináveis. Trata-se do projeto de um romance ainda inédito que, em seguida, foi transformado em roteiro cinematográfico para curta metragem. Confira aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO

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sábado, outubro 17, 2026

ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

 

 Imagem: Pulsações caósmicas, da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM.

 


Em rota de colisão, a sorte fecha a cara & teibei!... – Jesus Zé enganchou-se na porta giratória: Ó mata-burro! Opa! Ele retrocedeu ao perceber outra pessoa engatada, do outro lado, recuando também. Foi necessária intervenção do vigilante, enfim, desembaraçando a passagem. Aí ele entrou; ela, saiu. Pronto, resolvido. Lá dentro, ambiente lotadíssimo: Ué, como coube tanta gente aqui? Puxou a ficha de atendimento e apurou: Vixe, a senha do fim do mundo, nunca serei atendido! Ora. Lá na expectativa, maior lentidão, os olhos às voltas com os ponteiros do relógio e a morosidade emperrada no expediente abarrotado. Zanzou impaciente espremendo-se entre um e outro, ia e voltava, tudo na mesma, já mais de meia hora, a fila na mesma e ele secando os cambitos, quarando, empachado. Num ímpeto aborreceu-se, quase deixa tudo pra lá, não fosse a porta bloquear: De novo? Esse troço não foi com a minha cara! Ao sacolejar aos empurrões, quase causou um acidente na outra pessoa entrante. Coincidência: era a mesma pessoa que havia saído anteriormente, quando ele tentou entrar. Eita! Duas vezes? É sinal... Afastou-se, nova intervenção do segurança, porta desenguiçada. Ufa! Tácita repreensão geral pesou no ar. Desculpe, minha senhora, está bem? Não foi nada. De soslaio, a aguda e unânime reprovação: A coisa aqui tá pesando pra minha banda. E ele só queria ali mesmo era um buraco no chão pra se socar e sumir. Desconfortavelmente indeciso, tentou sair de vez, hesitou; foi prestar assistência à quase vitimada, foi dispensado. Ficou ali encostado, contando carneirinhos entretido de nem se dar conta de 1, 2, 3 horas, naquele impasse: Argh! Ah, flagrou uma cadeira vazia, correu pra se aboletar brincando consigo: Foi passear, perdeu o lugar; daqui não saio, ninguém me tira! Um milagre! Olhou do lado, ela, desculpou-se reiteradamente. Não foi nada. Essa espera dá nos nervos. É. E nos muitos guichês apenas 3 funcionárias se desdobravam: A população do mundo todo tá aqui para ser atendida, só sendo! Ela sorriu: Pelo jeito não seremos atendidos nunca! Ficaram sem jeito: nunca tinham se visto, nem se falado, ao menos. Na dele, passou um rabo de olho e viu-lhe ataviada. Hum... Nela um ar confiante, obstinada, os olhos alados e brandos, podia-se dizer, meigos; havia um quê de remota simpatia. E ele na sua angústia: Que morrinha! Ah, mas entre trombadas e empurrões de corpo, finalmente a fortuna poderia lhe sorrir ali: Será que dá cloro? Meditou apreensivo. E abriu o badalo, adiantando-se desenrolado: Com licença, sou escancha-parente de ninguém, de Jesus só o nome, na verdade sou apenas Zé, um faz-tudo, broco O pagador de promessas. Um vozerio enorme atrapalhou a conversa, logo amainou. E ela: Sim, o senhor ia dizendo mesmo o quê? Foram envolvidos por nova insatisfação generalizada. E virou-se ao ouvido dela: Aqui tá difícil. As funcionárias faziam o que podiam. Ela fitou-o esticando a conversa: As duas vítimas se confrontam! Como assim? Não vê? O quê? De um lado, 3 atendentes dão o sangue, a empresa devia contratar mais, todos se vingam nelas quando deveriam era amaldiçoar a empresa. Ah, é mesmo. De outro, todos nós queremos ser atendidos e já, não há solidariedade. Sim. Vamos mudar de assunto? Pode ser. O que você faz da vida? Sou um estornado! Estamos aqui no mesmo barco, mas não sou tão pessimista. Fazer o quê? Saindo daqui a vida flui. Sim, você está certa: é que já levei demais no espinhaço. E quem não? Riram. Prazer, Jesus Zé. Dália. Novo tumulto, uma funcionária mais altiva e experiente, jeitão de gerentona ou chefe dali, chamou a atenção de todos: Nós estamos aqui todas compenetradas e tentando atendê-los da melhor forma possível, pedimos paciência, tão logo atenderemos a todos. Óóóóóó! Aí ele aproveitou o deixa disso e falou pra ela das escolhas desastrosas: Veja só a minha vida, diga, quem eu julgava amigo me traiu; quem eu tinha por irmão, me negou 3 vezes; fui discriminado pelo sotaque de matuto dos cafundós e só se referem a mim com mangação; então, sigo os passos do pai que nunca tive, desenrolo; nasci dum parto fugitivo: mãe que nunca vi; fui criado por uma suposta avó que jamais foi; cresci fujão; o que via, aprendia; nunca fui ouro 18, aos solavancos levei tudo na caixa dos peitos, escapando, sempre à mercê da ventania e na pedra de Drummond: Tome, uma topada da porra, meu! Afora tudo isso: Uma fila enorme pra todo lado; e pulei muro, desci pelo esgoto, entalei no arame farpado e sempre empurrado portão afora. Ela arregalou-se e ele desembestou-se no tirinete. O tempo passava e a coisa mais que imobilizada, ele no blábláblá, esperava que ela bendissesse a sina dele e, ela, ele que juntasse os cacos do que sobrou e desse a cara à tapa. Não era outra a sua inacessível missão. Nem deu pra ver o ar de repugnância dela com a tagarelice dele, desajeitada, incomodada: Como é mesmo seu nome? Aí ela desanimou: Ele não era louro nem tinha os olhos verdes, do contrário, era pardo e com uns olhos amarelados e fundos; só podia: o destino quer mesmo me pregar uma peça, contraste cômico. Deu-lhe logo um fastio e, a cada pinoia dele, se assustava. Claro, teria muito do que se queixar, a espera na fila, a fadiga, o horror às baratas e muriçocas, indagaria, com certeza: Por que tanta coisa ruim, tanto bicho feio na face da Terra? Ele, mouco. Deus existe mesmo? Olvidava. Aí ele ficou destreinado, todo sem jeito, cheio de pernas, com remorso pelo que pudesse ter feito ali. Mais de 4 horas se passaram. E, de repente, a ficha deles: que coincidência! Graças, cada qual num guichê, falsos sorrisos mútuos pra todo lado. O atendimento de ambos, mesmo em guichês separados, foi concluído. Na saída, emparelharam-se. Primeiro, as damas. Não, pode ir. Não tenho pressa. Também não. Deu certo? Não, terei que voltar depois com outros documentos. E você? Esperar mais até não sei quando para retornar. Curioso: saíam igualmente, titubearam aos balbucios. O senhor vai ou não? Pode ir. Pronde a senhora vai? Morrer! E danou-se porta afora deixando-o com cara de alesado que perdeu a condução. Ele teve um choque com o que ela disse e, no apavoro, engasgado com tudo pela goela, viu-se desenganchar dentro de si: Não vou fazer nada? Cadê-la? Ela sumira mais que apressada para nunca mais... Até mais ver.  

 

Arthur Rimbaud: Transformei silêncios e noites em palavras. O que era indizível, eu escrevi. Fiz o mundo giratório parar... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Elif Shafak: Tente não resistir às mudanças que surgem em seu caminho. Em vez disso, deixe a vida viver através de você. E não se preocupe se a sua cabeça der uma volta de ponta-cabeça. Como você sabe que o lado a que você está acostumado é melhor do que o que está por vir?... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Alaa Murabit: Eu sempre serei a garota que acreditava que podia chegar à lua, em um mundo que ainda debate se as garotas devem ter educação e se as mulheres devem ter direitos reprodutivos... Veja mais aqui.

 

BREVE PALESTRA SOBRE O HOMO SAPIENS

Imagem: Trâmite da motilidade espermática, da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM.

Com pequenos cortes, o homem de Cro-Magnon registrava \ as fases da lua nos cabos de suas \ ferramentas, pensando nela enquanto trabalhava. \ Animais. Horizonte. Rosto em uma panela d'água. \ Em toda história que conto, chega \ um ponto em que não consigo enxergar mais nada. \ Odeio esse ponto. É por isso que \ chamam os contadores de histórias de cegos — uma provocação.

Poema da premiada escritora canadense Anne Carson. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A ESPOSA DA STARTUP - […] Todas as grandes histórias de amor são sobre duas pessoas que unem a história de seus passados e a história de seus presentes em um poema épico entrelaçado — e é isso que querem dizer quando falam que o raio cai. [...] Os professores são as pessoas com quem convivemos mais intimamente durante uma fase da vida, mas a relação é voltada para nós; eles se deixam em segundo plano para servir de canal para o nosso crescimento. [...] A tecnologia nos permite deixar de fazer coisas que não queremos mais fazer. Como chamar um táxi na rua ou enviar faxes. Ninguém quer encarar a morte. E agora não precisamos mais. [...] Não posso deixar de sentir que cada pequeno sucesso é um pequeno foda-se para todas as pessoas que olharam feio para minha mãe em seu sári no Walmart, ou pronunciaram meu nome incorretamente, embora tivesse apenas quatro letras, ou disseram algo casualmente racista e depois disseram: “Mas não me refiro a você”. [...] Ele espiona você. Ele extrai seus dados. Ele arranca sua alma e depois a revende para você. Ele foi projetado para fazer você gastar dinheiro, de modo que fique ocupado demais comprando para perceber que o mundo está pegando fogo. […] Será que eu lamentava o fato de Cyrus ser branco? Para dizer a verdade, às vezes sim. Se Cyrus fosse bengali, eu não precisaria explicar por que roer a ponta de uma coxa de frango era talvez a melhor parte da refeição, ou por que existiam roupas de sair, roupas de ficar em casa e aquelas roupas intermediárias que a gente vestia ao chegar, sem estar pronta para ir para a cama. Eu não teria de explicar todas as regras complicadas sobre onde se pode ou não colocar os pés, nem que ele até podia me beijar na frente dos meus pais, mas não na boca e, certamente, jamais com língua. Mas o que eu achava infinitamente pior era tentar avaliar se um homem tinha a dose certa de "marrom" em si. Ele precisava entender de coxas de frango e de sapatos e não odiar a si mesmo, mas também não podia ser apaixonado demais pela mãe, nem imaginar que eu trocaria mais fraldas do que ele, ou jamais — em hipótese alguma — se sentir atraído pela ideia de me ver de hijab. Ele tinha de ser três partes Tagore, uma parte Drake e uma parte e. e. cummings — isso sem nem entrar no mérito de eu sentir um arrepio só de sentir o cheiro do rosto dele. Então, não: eu não queria ficar pensando na brancura de Cyrus; eu só queria aproveitar o cheiro dele, o pau dele de tamanho perfeito e o fato de que, entre todas as pessoas que conheci na vida, ele era quem mais me passava a sensação de estar em casa. [...]. Trechos extraídos da obra The Startup Wife (Scribner, 2022), da escritora e jornalista de Bangladesh, Tahmima Anam, autora de livros como The Bones of Grace (2016), The Good Muslim (2011) e A Golden Age (2008).

 

FEMINISMO DECOLONIAL - [...] A missão do feminismo civilizacional é clara: as mulheres europeias estão embarcando em uma cruzada contra a discriminação sexista e os símbolos de subordinação que persistem em sociedades fora da Europa Ocidental; elas se apresentam como um exército defendendo o continente de uma invasão de ideias, práticas, mulheres e homens que ameaçam suas conquistas. Essa narrativa é patentemente falsa. Ela serviu para despolitizar as lutas das mulheres da década de 1970, para ofuscar as mulheres do Terceiro Mundo e para apagar as conquistas do feminismo negro. A liberdade individual — eu me visto como quero (mas não posso usar véu) — torna-se o símbolo das lutas da década de 1970; isso é um claro insulto às lutas das mulheres trabalhadoras, imigrantes e refugiadas políticas. A luta do feminismo civilizacional é elevada a uma batalha universal entre o bem e o mal. [...] Para se tornar um movimento consolidado e não uma ideologia marginal, para entrar nos corredores do poder, para convencer o Estado e o capital de que existe um feminismo que não só não representa uma ameaça para eles, como também pode se tornar sua arma ideológica e política, o feminismo civilizacional teve que se transformar no feminismo militante, substituindo seus oponentes da época (o patriarcado branco, o Estado e o capital) pelo Islã. [...]. Trecho extraído da obra Un féminisme decolonial (‎Fabrique, 2019), da cientista política e ativista francesa Françoise Vergès. Veja mais aqui & aqui.

 


TEATRO & CINEMA: O PAGADOR DE PROMESSAS - A peça teatral O pagador de Promessas (Agir, 1961), do escritor, dramaturgo, autor de telenovelas e membro da Academia Brasileira de Letras, Dias Gomes (Alfredo de Freitas Dias Gomes – 1922-1999), foi escrita em 1959 e estreou nos palcos brasileiros em 1960, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em São Paulo. Embasou o filme O pagador de Promessas (1962), escrito e dirigido pelo ator, roteirista, escritor e cineasta, Anselmo Duarte (Anselmo Duarte Bento – 1920-2009), tornando-se o primeiro sul-americano a vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes (em 1962) e o primeiro indicado brasileiro ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (em 1963), um marco para as artes cênicas e o cinema brasileiro. Confira detalhes aqui.


 

ANCESTRALIDADE NOS TEMPOS ATUAIS – O tema da ancestralidade tem permeado debates e discussões, trazendo reflexões por meio de depoimentos e poemas de personalidades, tais como Wole Soyinka, Jones Manoel, Nelly Sachs, Conceição Lima, Sónia Sultuane, Marco Nicolini, Augusto Boal, Malika Mokeddem, Vanessa Martínez Rivero, Sinéad Gleeson, Cindy Sheehan & Ruby Bridges. Confira aqui.


 

CANTO & SOU XEXÉU – O livro autoral Canto & sou xexéu (CriArt, 2023) foi lançado com tiragem limitado e feito em homenagem à memória de Gercino Gonçalves de Lima e à convivência de infância e adolescência, durante a trajetória de passagem do distrito a Município, articulando ancestralidade a partir do passarinho e sua convivência com marimbondos e vespas durante período pandêmico, a trajetória de seu êxodo por Macaco e Aurora, atravessando acontecimentos históricos que permearam as litas pernambucanas durante a passagem dos séculos, até alcançar a sua transformação em humano no século 20. Veja detalhes aqui.


 

JUPI – Este o 8º episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna, contemplando desta feita, Jupi e as Mulheres Fulni-ô, contando da história triste de um beija-flor no olho d’água dos Ouricury - sigilo yaathe e sagrado Fulni-ô -, da palmeira e o jardineiro, dos sítios Catonho, Miné, Pau-Ferro, Raposa e Xícurus, dos rios da Chata e o do Retiro, dos riachos do Estreito e da Volta do Rio, desde o Peri-Peri, das missangas e das gentes de Areias, Barro Vermelho, Lagoa da Pedra, Marmeleiro, Miné, Pau-Ferro, Rio da Chata, Saco-dos-bois, Santa Rosa, Serrinha e Várzea da Raposa. Veja mais aqui.

 


PINTANDO NA PRAÇA & IBAVALEUNA – O projeto Pintando na Praça é desenvolvido pelo Instituto de Belas Artes Vale do Una (IbaValeUna), desde de 2010, comandado pelo poeta e artista visual, Paulo Profeta. Nesta postagem registra-se as edições de 2017 a 2023, culminando com a publicação do catálogo Pintando nas Praças de Pernambuco (Funcultura, 2025). Confira aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO

Feira de Literatura & Artes dos Palmares (FLIARP), de 19 a 23 de outubro, no Complexo Esportivo Portelão, Palmares – PE. No dia 21, às 20h, com o lançamento do livro Setígono: Teoria, história e poesia, de Admmauro Gommes, José Durán y Durán e Luiz Alberto Machado, na Plataforma Rio Una do evento. Veja mais aqui, aqui & aqui.


 


MARGARET ATWOOD, IMAN MERSAL, DAVID JULIUS & MIKAELA GOMES

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Gesta equestre de baixo pra cima... - Relinchos na madrugada: Que é isso? Ruidoso trote apressado no asfal...