sábado, julho 11, 2026

DRUMMOND, DAD SQUARISI, LENINE & STELLA MARIS REZENDE

 

Imagem: Acervo ArtLAM.


 

Interlúnio do inominado marupiara pé-frio... - Insosso não tinha nome, só sobrenome e duplo: os finados pais, Maria Combreia e Zé Caralâmpio, compuseram, às turras, o batizado: Caralâmpio Combreia; vingou-lhe o apelido desenxabido, colecionando remoques, outro Zé à toa. Isso há muito tempo, até tinha perdido as feições avoengas, desconhecia até então qualquer parentesco. Era amanhecido vistoso quando aventou, na curva da ideia, névoas oníricas, repisando pretéritos; se duvidava, segurou o espirro, escamoteava, acocorado matutando, tanto retardava coisas de sua, nem podia do dever. Cismava sozinho no mundo, ressuscitando olvidadices, o protelado na urgência da hora, irrespondível. Sentia-se viver noutras situações nunca vista, coisas estranhas que nem eram suas, de quem seria, ignorava; só que passava com ele, destá. Providenciou tirar a prova dos 9 fora e acelerou a ida. Foi a pé, mochila ao sovaco pendurada nos redondos ombros, água na moringa, toda pressa no dia arejado de um céu da rotina, pelo capinzal das ervas, a poeira do chão na areia dos pés, as alpercatas nos vestígios de passagens, as folhas e a passarada, sombreada jaboticabeira, as flores na brisa que vinha dos morros limítrofes, as moitas pelas nuvens dos arredores. Saboreava serelepe vasta fruteira farta pelas beiradas da estrada, ah, jaboticabas, chupava, se enchia. Subiu a serra, desceu o morro, esticou as orelhas: o ermo longe ia pelo demais. Deu em Catuama, o portão. Naquela instância as lápides, benzeu-se, cerrou os punhos, quanto tempo, nenhuma data, jaziam no sacrilégio do seu quase esquecimento. Deteve-se com gastura, tossiu seco, prosternado no primeiro batente, serôdio, soçobrava. Puxou do bisaco um par de velas, acendeu-as e o tempo amoitou nas escurezas de Deus, instantaneamente. Cegou paradeiro e um redemoinho medonho, danou-se! Aos giros, perdia-se, de cabeça pra baixo; de tanto rodar, foi jogado, estendido. Onde estou? Diante da Pedra Letrada: Já estive aqui? Parece. Deu fé de recorrentes anemoias: Será que só sou eu que tenho esses pantins, ou essa paranoia é geral? Cada qual sua loucura. Era seu paradoxo do ônibus: Vou ou não vou, lascou. Viu-se aos trocentos pedaços, desassossegado. Coçava a palma da mão: Sarna da moléstia, essa; será que estou com mau-olhado? Subitamente a coisa mudou de figura: o céu atroou, trovões ribombaram aos raios e o diabo pintou assombração. Estarrecido, comediu-se. O chio das coisas. Era o tempestuoso Bicho do Vau: Leia! Lufadas de tornado iminente. E agora? Leia, vá! A ameaça, o alerta. O prenúncio de um ciclone, já quase tragado e alguém o puxou pela beca. Volteava desgovernado, derreou. Pisou o chão ignorado, apaziguou-se e, ao levantar a vista, outro susto, de escorregar desajeitado em fuga afora. Peraí. De novo? Torou aço, um frio na coluna, arrepiou-se: Ave! Era gente ou bicho mesmo? Sou teriana! E fala? Vamos, aqui não é seguro. Hem? Vem logo! Foram rasgando matadentro: ela ágil rojava aos voos pelos galhos e troncos, ele amedrontado seguindo-a, aos pinotes, pés na bunda. Deram numa clareira e ela atrepada, na copa dum eucalipto gigante, gesticulava, como sinais de avisos aos apitos e guturais. Obrigou-o a esconder-se. Refugiou-se no medo e esperou arfante. Logo apareceram muitos outros seres esquisitos: Que é que é isso? Ela desceu ladina: Venha, são aliados. Aí foi tomando pé do que pra ele era maior bizarrice, uma tropa interminável de furries, kingêneros, queers, cosplays, goblincores e otherkins - fadas, goblins, elfos e duendes, mesmo? -, licantropos, vampiros, nefilins, nunca tinha visto do tanto, ora. Mais tulpamancistas, zentais, otakus, kawaiis, clowncores divertidos, pastafarianos da Igreja do Monstro do Espaguete Voador, haul girls, biohackers – Eita! Gente com antena na cabeça, smartwatches, pitocos nos dedos -, vaporwaves, neo-tribalistas, plankings, Barbies e GothLolis, tecktoniks, sílfides, ironistas – Ué, passadores radicais de roupa? -, esportistas de quadribol, skinheads, hardcore punks, metaleiros, grunges, emos, bod-mods – Vôte! Tem até com implantes de chifres, língua bífida, tatuagens e piercings! -, sneakerheads, caçadores de fantasmas, dândis, fetichistas, colecionistas estranhos – do tipo colecionador de escova de dentes usada, avalie -, sugestionados, adeptos da pneuteologia, sobreviventes afetivos, retrôs – preservacionistas do passado, pode? -, imperadores das cócegas, mergulhadores de lixeira, fashionistas, Toy Voyagers, fantasistas disfuncionais, delirantes, disforistas, paleoterios, fictórios, teriomíticos... Deu o créu! Havia quem incorporasse o Kholstomér do Tolstói, ou o urso-polar da Tawada, o polvo da Despret, a sardinha do Bill François, maior piração! Seria coisa de outro mundo que estava metido ou falseamentos, tudo perdido, modelos com figurinos excêntricos, cada qual mergulhados na sua sandice, ora! Boba da peste! Plantassem batatas, penteassem macacos, lambessem sabões nos seus folguedos exóticos, dislates, tinha de tudo! Eita, pêga! Logo um boi solene mugia Guimarães Rosa: O homem é um bicho esmochado, que não devia haver. Depois recitava o de Drummond quando se deparava com humanos. E lá estavam Quidim & marquês Rabicó, quem Orlando de Woolf, o furacão da Hilda, as diminutas criaturas de Lilipute de Swift, quem falasse do Magnum Opus nos portais de Tlön, do Mutus Liber, do poema celta do Graal, de Atlântida, até personagens de Arantza Sestayo. Quem? Que carnaval é esse? Agora sabia: bicho gente é um bocado de doidices arrodeado de perigo por todos os lados. Céus, em que fui me meter? À caça, aos gritos, muitos correram, alguns pouquíssimos ficaram. Tremia: Pronde foram? Caçar, já já voltam pra comilança, fica aí. Ela tinha ido com os outros, hem hem. Sozinho cismou: Com certeza era mais fácil entender a razão áurea ou a sequência de Fibonacci, do que sacar maluquice dessa. Não dava pra entender essa gente. Com o tempo foi se acostumando, quase pariceiros íntimos. Ela retornou da caça com os que foram e sorria na chegada. Aí ele virou-se do lado, ao mais próximo, puxou conversa para enturmar-se: Como é mesmo o nome dela? Sei-que-lá-de-tal! Fodeu! Ouvindo a conversa, ela soletrou: Meu nome é N-o-no-r-i-ri-e-l-a-la, Noriela Hentai, euzinha aqui, muito prazer, de novo! E o seu? Ih!... Ela riu-se do insípido, contida. É mesmo? Alcunha. E como se chama de mesmo? Uh!... Gracejou irônica: Também, com um nome desse, melhor o pseudônimo! Quem fala, ó, e o seu, hem? Acomodou-se relaxado ao lado dela e matutou consigo: Ela é coisa de bicho da muita estimação, maior xerimbabado, cheia das amorosidades. Mesmo insólita, a alma dela conjugava certinho com a sua, airosa no seu jeito peculiar, toda sacudida, dócil, os dentes de fora, recheada de franqueza e amabilidades. Diante dela todo inédito ímpeto, precipitava-se, saltava aos olhos, timidez dele apreciou, aliás e talvez, conjugou o verbo direitinho, zelava por ela, tomava conta, ela destinatária, ele insulso encurralado respeitoso, premente. Era o que podia fazer ali. Embevecia-se aos palmos dela, o traje, o quiasma: zilhões de anos-luz do seu sorriso, ô garapa boa! Cabeça sempre ocupada com chamegos de xodó, pouco importando se de segunda mão. Pronde vocês estão indo? Pra Pasárgada. Fazer o quê lá? Somos amigos do rei! Como assim? Ciclones devastadores se anunciam prenunciando um gigantesco tufão! O quê? Vem com a gente! Quando? Depois do repasto a gente vai zarpar, no certo, o mundo está ficando inabitável! O quê? Ora, você não sabe? Não. Vamos encher a pança logo, depois explicarei. Para quem desdenhava agouros, abolia crendices e conspirações extravagantes, estar ali no meio de tão tribais tão diversos, dava-lhe a impressão de já ter vivido ou sonhado com aquilo. Será? Além do mais: o que Deus num quis, não se deve dar ao diabo, né! Se revivia ou ressonhava, não sabia se por serendipidade entusiasmada ou desdita amaldiçoadora, só saberia no depois qual. A bem dizer, decerto, suspeitou do havido, encardiu-se, às pausas, comprava fiado o futuro. Um lampejo e decidiu-se: Vou virar bicho! Seria mais uma vazada das quantas jornadas, vezes quisesse até nenhum enfim. Já era tarde, oxe, ela partiu com muitos. Ih! Foi? Foi. Apartou-se, a ideia nascia do absurdo fortuitamente encadeada com movimento do impalpável e da ausência dela ali compondo silêncios ensurdecedores. Hem, hem. Néscio, afeiçoou-se dela à socapa e uma saudade arroxeava já dentro dele: Seria ingrata ao tanto da desconsideração, em paga devagar, sem socorro à vista, como se o dia de anteontem não passasse desde ontem até agora, o quanto pudesse suportar de se doer, mais condoía! Não era mais Pernambuco dali por diante, outro lugar que não sabia, era capaz de ser doutra banda desconhecida, uma confusão dentro de si. E ela já tinha ido, ficava só com os outros desapegados, afora o repuxo tristonho da ausência dela. E se ali o verão era longo, o inverno seria pior, precavia-se. Como proceder: este mundo dá medo, as leviandades, o verossímil, o abandono, as sobras, aos desperdícios, ninguém está a salvo, tudo do contra, a dor das coisas retine seu ricocheteado na gente mesmo. Aí desancou-se de todo, por enquanto, episódio custoso aquele, meios vãos, só faltava sair puxando a venta alheia a cada motejo pela feiúra. Cadê-la! Abscônditas evocações suas. Ela escapuliu furtiva, foi-se o que era doce. Devia a vida a ela, fujona, creditava. Roía-se por dentro, macambúzio, o que havia avinagrado em demasia sua existência tão pantagruelicamente. Ainda não seria daquela vez, que pena. Pesaroso: Era provável que as desventuras fosse só um brinquedo da sorte, era a vida e suas consequências. Reconhecia a exatidão da tristeza: Mas por quê? O futuro trazia respostas aos pouquinhos, o que haveria de vir? Por derradeiro a áspera, bis e tris, quantos mais à infinitude, dava baixa, até que a morte astuta viesse à tona das perpetuidades. Ficava o escrito pelo não dito: perdia o coração no mal resolvido. Não havia prazo pras descobertas, bastava o momento entroutros e pronto, se desvelando aos pouquinhos, o esmiuçado, só nas tristecências, o comum. Revivescente marupiara, quem dera. Ouviu longe: Vai ficar aí quarando com a morte da bezerra, ou vem com a gente! Hem? Até mais ver.

 

Vladimir Maiakóvski: Antigamente, eu acreditava que os livros eram feitos assim: um poeta chegava, entreabria os lábios e o tolo inspirado irrompia em canto — vejam só! Mas parece que, antes de poderem lançar uma canção, os poetas precisam caminhar por dias com os pés calejados, enquanto o peixe lento da imaginação se debate suavemente na lama do coração. E, enquanto eles cozinham um caldo de amores e rouxinóis ao som de rimas que chilreiam, a rua muda apenas se contorce, na falta de algo para gritar ou dizer... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Espido Freire: E sempre fora assim. Ninguém dava muita atenção... Na verdade, ninguém ouvia ninguém... Escrevemos e lemos para fugir, para viajar além dos nossos meios... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Denise Stoklos: Não dá pra fazer nada pela metade ou por três quartos ou um tanto ou se proteger de entregar. A entrega tem que ser cem por cento, que grau estiver você dos seu cem por cento. Ela tem que ser os cem por cento que você tenha... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

UM BOI VÊ OS HOMENS

Imagem: Acervo ArtLAM.

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm \ e correm de um para outro lado, sempre esquecidos \ de alguma coisa. Certamente, falta-lhes \ não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres \ e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves, \ até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam \ nem o canto do ar nem os segredos do feno, \ como também parecem não enxergar o que é visível \ e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes \ e no rasto da tristeza chegam à crueldade. \ Toda a expressão deles mora nos olhos — e perde-se \ a um simples baixar de cílios, a uma sombra. \ Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade, \ e como neles há pouca montanha, \ e que secura e que reentrâncias e que \ impossibilidade de se organizarem em formas calmas, \ permanentes e necessárias. Têm, talvez, \ certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem \ perdoar a agitação incômoda e o translúcido \ vazio interior que os torna tão pobres e carecidos \ de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme \ (que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo \ como pedras aflitas e queimam a erva e a água, \ e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

Poema do escritor Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), considerado o mais influente poeta brasileiro do século 20. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A FILHA INJUSTIÇADA, DE STELLA MARIS REZENDE

Me inspirei na história verídica de uma mocinha de 15 anos, de Dores do Indaiá, que foi internada à força no Hospital Colônia de Barbacena. Motivo: Não concordava em trabalhar escondida dos fregueses do armazém do pai machista, violento e cruel. Maria da Soledade era obrigada a trabalhar no galpão, cuidando do estoque, carregando peso, sem receber nada, enquanto os três irmãos trabalhavam na loja em frente à rua, e recebiam salário. Ela queria ser respeitada, só isso.

Depoimento da autora sobre o seu recentemente lançado e elogiado romance A filha injustiçada (Faria e Silva, 2026), da premiada escritora e atriz Stella Maris Rezende, mestre em Literatura Brasileira pela UnB, que participa de feiras literárias e ministra a oficina Letras Mágicas. Ela é detentora de 4 prêmios Jabuti, afora outras tantas premiações de sua exitosa carreira. Ela concedeu uma entrevista exclusiva pra gente, falando de sua trajetória, seus livros publicados e estudados no meio acadêmico, da Fada da Palavra, da Oficina Letras Mágicas e de suas perspectivas literárias. Confira a entrevista aqui.

 

ESCREVER É MANDAR RECADO - Redigir é técnica. Pode ser aperfeiçoada. Nem sempre a atração reside no que você diz. Mas no jeito de dizer. Uma frase particularmente elegante, capaz de veicular com clareza e simplicidade a mensagem que você quer transmitir, é conquista pessoal, exercício diário de desapego e humildade. [...] Os segredos do estilo mais eficiente podem ser resumidos em dez preceitos. UM - Seja natural: fique à vontade. Imagine que o leitor esteja à sua frente. Converse com ele. Não fale difícil. Espaceje suas frases com pausas. Confira ao texto um toque humano. Você está escrevendo para pessoas. DOIS - Vá direto ao assunto: não enrole. Comece pelo mais importante. E comece bem, com uma frase atraente, que lhe desperte o interesse e o estimule a prosseguir a leitura. No final, dê-lhe o prêmio – um fecho de ouro, como inesquecível sobremesa a coroar um lauto almoço. TRÊS - Use frases curtas: a pessoa só consegue dominar determinado número de palavras antes que os olhos peçam uma pausa. A frase muito longa dá trabalho, confunde. Por isso, use sentenças de, no máximo, uma linha e meia. Lembre-se: uma frase longa nada mais é do que duas curtas. QUATRO - Prefira palavras breves e simples: vocábulos longos e pomposos funcionam como cortina de fumaça entre você e o leitor. Seja simples. Entre duas palavras, prefira a mais curta. Entre duas curtas, a mais simples. Em vez de falecer, escreva morrer; em lugar de somente, só; de matrimônio, casamento; de féretro, caixão; de morosidade, lentidão. CINCO - Ponha as sentenças na forma positiva: diga o que é, não o que não é. Quer exemplos? “Não ser honesto” é “ser desonesto”; “não lembrar” é “esquecer”; “não dar atenção” é  “ignorar”; “não comparecer” é “faltar”; “não pagar em dia” é “atrasar o pagamento”. SEIS - Opte pela voz ativa: ela é mais direta, vigorosa e concisa que a passiva (a passiva, como o nome diz, parece sem força, desmaiada). Prefira “um raio provocou o blecaute” a “o blecaute foi provocado por um raio” SETE - Abuse de substantivos e verbos: escreva com a convicção de que no idioma só existem essas duas classes de palavras. As demais, sobretudo adjetivos e advérbios, devem ser usadas com a sovinice do Tio Patinhas. Na dúvida, deixe-os pra lá: (Normalmente) ao escrever textos (informativos), use substantivos (fortes) e verbos (expressivos). OITO - Seja conciso: não diga nem mais nem menos do que você precisa dizer. Cultivar a economia verbal sem prejuízo da completa e eficaz expressão do pensamento tem dupla vantagem. Uma: respeita a paciência do leitor. Outra: poupa tempo e espaço. NOVE - Dê clareza às citações: dificultar a compreensão do texto é colocar uma pedra no caminho do leitor. Para quê? Facilite-lhe a vida. Nas declarações longas, não o deixe ansioso. Identifique o autor imediatamente antes da citação ou depois da primeira frase. [...] Nas declarações curtas, identifique o autor no começo ou no fim da fala: “Toda questão tem dois lados”, escreveu Pitágoras. DEZ - Escolha termos específicos [...]. Trechos do artigo Dez ideias úteis para usar a palavra escrita com clareza e eficiência (FilosofiaEsotérica, 2026), da escritora e professora libanesa Dad Squarisi (Dad Abi Chahine Squarisi – 1946-2923), autora do livro Dicas da Dad: português com humor (Contexto, 2003), Mais dicas da Dad: português com humor(Contexto, 2003), Deuses e heróis - mitologia para crianças (LGE, 2004), Manual de redação e estilo para mídias convergentes (Geração, 2011), Sete pecados da língua (Contexto, 2017), entre outros.

 

A ARTE DE LENINE

(Imagem: Alexandre Loureiro/Getty Images)

[...] Não tenho a mínima ideia nem ouso descrever quem é o ser humano contemporâneo. Agora, diante da contemporaneidade em que estou inserido, existe uma constatação para mim que é clara, cristalina: é uma desconstrução da realidade. Isso me causa espanto, porque, não por acaso, a primeira música do disco "Eita" vai nesse tema, da confiança. Nós perdemos a confiança. E isso é um problema, eu acho. Na minha formação, fui educado a confiar na pessoa. Se não conheço alguém, eu confio nela, até que me provem o contrário. Hoje é completamente o oposto. Hoje a gente vive numa época de dissimulação. As pessoas não têm o mínimo escrúpulo, não têm a mínima educação. Falam uma coisa, pregam essa coisa, mas agem de forma oposta, completamente oposta. É muito dissimulado, é muito mentiroso o que a gente está vivendo hoje em dia. É como se a gente tivesse voltado a uma certa Idade Média, desacreditar das coisas que a gente já tinha conquistado. Não sei quem é esse ser humano contemporâneo. Torço para que ele tenha uma tomada de consciência e volte a escolher um caminho do bem comum. [...].

Trecho da entrevista Eita! Uma conversa com Lenine sobre o espanto, o tempo e o futuro (Fast Company Brasil, 2026), concedida pelo premiadíssimo cantor, compositor, arranjador, multi-instrumentista, letrista, ator, escritor, produtor musical, engenheiro químico e ecologista, Lenine (Oswaldo Lenine Macedo Pimentel), autor de mais de 500 canções, 9 álbuns de estúdios e 4 álbuns ao vivo e em vídeo. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


 

MÚSICA: CRIANÇA - O Brincarte do Nitolino conta e canta hestórias para o público infantil e infanto-juvenil, ofertando, ainda, conteúdos de Literatura, Psicologia, Educação, Direito, Teatro, Música, contação de histórias, brincadeiras, artes dos estudantes e uma agenda de recreações, oficinas e palestras para a área. Confira a música & letra Criança & muito mais aqui.

 


TEATRO: HISTÓRIA & AUTORES / DE PALMARES (PERNAMBUCO) PRO MUNDO – No Música, Teatro & Cia um estudo sobre o que é o teatro, abordando a história desta arte milenar, desde os primórdios até a contemporaneidade, destacando autores e peças teatrais, bem como uma abordagem sobre os movimentos no decorrer dos séculos, destacando, sobretudo, a arte no Brasil, em Pernambuco e Palmares, com extensa indicação bibliográfica. Confira clicando aqui.

 


PESQUISA & CIA – No Pesquisa & Cia reflexões de célebres personalidades por meio de suas obras, pensamentos e feitos sobre temas que vão desde das Neurociências, passando por ativismo, injustiça, crise climática, sustentabilidade, violência, ecofeminismo, simbiossexualidade, entre tantos outros, que constituem o debate contemporâneo. Confira aqui.

 


REUNIÃO SETIGONAL – Levado pela provocação dos criadores Admmauro Gommes, José Durán y Durán e Cícero Felipe, cometi alguns setígonos. Gostei. E quando vi uma penca de gente da melhor cepa cultuando e dando pitaco acerca dessa novidade poética, não me fiz rogado e soltei o verbo. Quer saber como é que o setígono? Ora, confira aqui.

  

E veja mais Pernambuco aqui.

 


domingo, julho 05, 2026

WOLE SOYINKA, CINDY SHEEHAN, MONA AWAD & GORETTI VARELLA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som da performance Live at Minotti (Berklee College of Music, USA-2025), dos Eps Rise (2026) e The Dawn (2024) e do álbum Sixth Week (Apple Music, 2026), da jovem pianista, compositora e prodígio do jazz japonesa, Ai Furusato, que possui trabalhos autorais lançados nas principais plataformas de streaming.


 

Bilaro, insólita fuga dum Zé de si mesmo!... - Zé Bilaro ficou órfão de pai e saiu pelo mundo. Olvidou os rogos maternos: não fizesse mais asneiras, bastavam os desatinos paternos agora enterrados. Mal saíra ele capenga dum grande amor, agora duplamente enlutado cogitava sequestrar a amada no dia do casamento dela. Endoidou mesmo, diziam. Ousou finca-pé na esparrela, depois: a cara mais lisa, lavada. Findou: Mas, mas... Depois de muitos atrapalhos, as errâncias dum malfadado. Foi-se: o olhar perdido na lonjura das léguas estiradas, misturando ideais e infortúnios, o regalo de uma módica sombra e o Sol na moleira. Arre! Alguém chamou por um nome que não o seu. Quem? Deu fé: os bichos falavam abeirados, as árvores tagarelavam longínquas, as pedras cochichavam genringonças, um pandemônio, temia caducar amalucado: Onde é que estou mesmo, hem? Ali o morro que perdeu a ponta, imenso. Vixe! E lá ia pelas trilhas de umburanas e grutas, os cânions e a pareidolia, chapadas e desenhos rupestres, a caverna e o sítio de Alcobaça, a Loca das Cinzas e a Gameleira de Buíque, a pedra do Cachorro e o Portal da Igrejinha, a merafusa de Sabadi tangendo seus fiéis pra caverna de Meu Rei, o Morro do Elefante e a caatinga, a Vila dos Breus e a Serra das Torres, a Jurema Preta e o Povoado de Aterrados, o marmeleiro-do-mato e o enxame de abelhas, o feijão-bravo e o Vale das Tartarugas, os Lapiais e o Véu de Noiva, a catingueira e os visíveis sinais do fogo corredor – o compadre e a comadre brincavam de esconde-esconde -, os encantados das furnas do holoceno, Homo floresiensis, Homo luzonensis - Oxe! -, os caboclos encantados, cobras aninhadas, um cachimbo velho e pequeno, ali tudo podia acontecer. Passou a vista e ouviu lá longe soar o uruá dos Kapinawá - sinal do sagrado Kwarup afastando maus espíritos, ou o rito de passagem da furação de orelha. Respondiam takuaras como se fossem o uirapuru – o coração partido do guerreiro Quaracá, a cantar de saudade pelo amor impossível de Anaí. Tal como ele, melancólico. Há quem surpreendido soubesse do canto o seu amuleto de sorte, o poema sinfônico de Villa-Lobos. Ele nem, nem. E se era Oribici chorava de amor, para outros. A surpresa foi possível com os gritos do gigante Mapinguari, quebrando galhos no interior do matagal – ali seu peludo casco de tartaruga, um olho apenas na testa e a boca no umbigo, pés de mão de pilão. Valha-me! Outros silvos, será da flauta de Pã, ou da de Krishna? Arredou, hesitante. Mal escapara e viu logo atrás do Mapinguari, o Ipupiara: ataque comendo parte dos corpos de desavisados, o demônio d’água, seus braços longos, pés de barbatanas, dentes pontiagudos, o corpo coberto de pelos e focinho com bigode. Ô. Ora, ora. Temeroso, ouviu amiudado cochicho: Pare, não responda, o sopro dele dilata o aço do cano da espingarda e você perderá a vida, quieto; os sobreviventes, aos aleijões e nódoas no corpo. Olhos pros lados, virou-se, girou: a paisagem e mais nada. Ué? Psiu! Salvou-se, achou: ares de Tejucupapo! Era Maíra, a Dona Clara com as heroínas guerreiras depois da Batalha, anônimas Marias. Boa tarde! E achegou-se esbaforida, abanando-se acalorada: Mormaço, hem? Era o meio da tarde, puxou conversa e o paradeiro. Ah, estava mesmo extraviado da lucidez. Hum? Acalmou-se com a brisa arranchando-se ao lado dela. E muito ouviu e tomou ciência: ensinou-lhe como o beijo dança contando toda hestória. Entardecia, o Sol cochilava escondendo-se. Ela foi-se apressada e tudo o mais acontecia no trâmite das horas. Anoiteceu com o burlão astucioso Malasartes aos espalhafatos, vinha do Cancioneiro da Vaticana para se encontrar com Cancão de Fogo: Você viu? Não. Inté. E logo seguido pela esperteza e deboche de Camonge, escapando dos bumerangues das armadilhas: Tá ouvindo o Esquenta-mulher? Aguçou as ouças: Não. Rola no oculto, espie direito: o terno da zabumba, cabaçal com o toque de Lampião. Hum? É a Zabé da Loca ensaiando. Logo viu os volteios apaixonados do caçador Papageno com sua amada Papagena, disfarçavam perseguirem no encalço de Sarastro, que raptou a filha da Rainha da Noite. E um cortejo seguia: os apaixonados Tamino e Pamina, o Peer Gynt de Ibsen nos tons de Grieg. Vieram depois Sethos de Terrasson e a Megara de Hafner, caborés e pífanos com as pantomimas das peripécias e artimanhas da farsa do mestre Scapin de Molière, tirando vantagem, como se fosse o filósofo do povo às piruetas inagarráveis, revelando interditos e hipocrisias. E o Fígaro de Beaumarchais completamente desatinado porque perdeu Suzanne e, em vingança, ousou exigir o jus primae noctis de todos os nubentes e dos já casados: Não somos seus servos! E repetia exigente: derecho de pernada, droit de cuissage. Condoeu-se, comiserado: o mesmo com ele. Ali tudo acontecia simultaneamente: o bambu de taboca, Zé Tapera & Teodoro com a roupa nova do rei de Andersen, as proezas de João Grilo, Mainá nas carapebas e Mazzaropi: larga de ser besta! Viu até o duelo da vida com a morte, quando um trio de montanhesas apareceram para roubar suas ideias. Entre elas uma mulher vestida de verde apontava grávida dele. Eu? Uma voz: Seja fiel a si mesmo. Aí deu a volta e aos rodeios passou-se por missionário, fausto comerciante de escravos e vestiu-se de beduíno para ser referenciado como profeta. Enganou a quem? Deu-se diante da Esfinge: pro hospício, imperador de si mesmo. Ah! Invocou socorro quando viu: Deus é o guarda de todos os tolos. E era um velho náufrago em auxílio sinalizando: Descobrisse onde os sonhos têm seu lugar. Hem? Aí foi julgado pelo que não fez, as músicas não cantadas, as obras desfeitas, as lágrimas não derramadas e as perguntas que nunca foram feitas na ameaça de sua alma torrar derretida: Quando foi você mesmo? Sei lá! Procurou confessar e deu de cara com o diabo: Sua vida está perdida, pra sua mãe sua morte nunca deu certo. E correu pra última encruzilhada e lá encontrou a amorante Solveig: Você não tem pecado, está perdido, por onde andou? Hem? E ela: Não direi mais nada... E ninguém sabia dos achaques e temores dele nas copas das árvores, a longuidão dos percalços, o mundo por vencer. Sentiu-se ali banido, acuado, preterido, rejeitado. E agora? Esfregou os olhos, o existir sozinho noutra manhã: o Sol na areia, a ventania libertadora, os túmulos e os cárceres, os pingos de chuva, a brandura das nuvens momentâneas e os vultos andantes. Via-se acontecer alhures ali na hora, sorvia o veneno bento e um pouco de tudo no imperdoável renascer da memória. Eram medonhas lembranças, os anos excedendo as denúncias e revertérios, o avesso de outrora e a descoberta dentro de si da centelha, antes escondida, a preencher seus vazios, num doidivano festejo de realizar-se, cônscio da erradia essência de viver: Estou vivo mesmo ou já morri? Presenciou in loco o Primum Mobile e o Empíreo: era o céu de Dante. Escapava fedendo, por um trisco de nada. Demorou lá mais outro tanto: “Não é um voo para as minhas asas”. Sonhava de olhos abertos no Vale do Catimbau. Até mais ver. 

 

Marcel Proust: Os paradoxos de hoje são os preconceitos do amanhã, já que os preconceitos mais desprezíveis e os mais deploráveis tiveram seu momento de novidade quando a moda lhes emprestou sua frágil graça... Somos curados do sofrimento apenas experimentando-o ao máximo... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Edgar Morin: A loucura humana é fonte de ódio, crueldade, barbárie, cegueira... Estamos completamente imersos neste mundo que é o dos nossos sofrimentos, das nossas felicidades e dos nossos amores. Não sentir é evitar o sofrimento, mas também o regozijo. Quanto mais aptos estamos para a felicidade mais aptos estamos para a infelicidade... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ana Botafogo: Muita coisa eu sei, mas muita coisa ainda vai ser surpresa para mim... Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez!... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

NOITE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Tua mão pesa, Noite, sobre minha testa. \ Não tenho coração mercurial como as nuvens, \ para ousar. \ Exacerbação de teu arado sutil. \ Mulher como uma ostra, na crescente do mar. \ Vi teu olhar ciumento extinguir a \ fluorescência do mar, dançar no pulso incessante \ das ondas. E eu fiquei ali, exausta, \ submetendo-me como as areias, sangue e salmoura \ correndo até as raízes. Noite, tu choveste \ sombras serrilhadas através de folhas úmidas \ até que, banhada na quente difusão de tuas células salpicadas, \ sensações me atormentaram, sem rosto, silenciosas como ladrões da noite. \ Esconde-me agora, quando crianças da noite assombrarem a terra, \ não devo ouvir nenhuma! Estas células nebulosas ainda \ me desfarão; nua, sem ser convidada, no nascimento silencioso da Noite.

Poema do escritor, dramaturgo e ensaísta nigeriano Wole Soyinka, Prêmio Nobel de Literatura de 1986, que em 1967 foi preso durante a Guerra Civil Nigeriana, pelo governo federal do general Yakubu Gowon e colocado em prisão solitária durante dois anos, por ter se voluntariado como ator mediador não-governamental. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ROUGE – [...] A única jornada que importa no final, Filha de Noelle.” “Retinol?”, sussurro. “A alma. Uma jornada da alma, é claro. [...] Um espelho é apenas um espelho, Belle. Ele só reflete aquilo que desejamos e ansiamos. [...] Havia um espaço ali também, como aquele entre mim e a Mamãe. Como aquele entre mim e todos, dali em diante. Existe um espaço entre mim e tudo o mais desde que você virou fumaça. Existe uma parede de vidro. [....]. Trechos extraídos do livro Rouge (Globo, 2024), da escritora canadense Mona Awad, que noutra obra, Bunny (Globo, 2024), expressou que: […] Nunca deixei realmente de escrever, nunca fiquei sem um outro mundo criado por mim para onde escapar, nunca soube como estar neste mundo sem que a maior parte da minha alma estivesse sonhando com outro e vivendo nele. [...] Os poetas preparam-se para uma pobreza iminente e altamente instruída. [...]. Ela também é autora dos livros 13 Ways of Looking at a Fat Girl (2016), All's Well (2021) e We Love You, Bunny (2025).

 

MÃE SALVADORASou apenas uma mãe normal que tenta salvar vidas e ser o melhor ser humano que possa ser... O nosso país foi assaltado por bandidos assassinos, gangsters que cobiçam fortunas e poder... Quando eu estava crescendo, era 'Comunistas'. Agora é "Terroristas". Então você sempre tem que ter alguém para lutar e ter medo, para que a máquina de guerra possa construir mais bombas, armas e balas e tudo mais... Então, o que realmente me faz é esses chickenhawks, que enviaram nossos filhos para morrer, sem nunca servir em uma guerra. Eles não sabem do que se trata... Precisamos realmente deter as tendências imperialistas de países como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha... Cabe a nós, o povo, quebrar leis imorais e resistir. Assim que os líderes de um país vos mentem, não têm autoridade sobre vós. Esses maníacos não têm autoridade sobre nós. E eles podem ser capazes de colocar nossos corpos na prisão, mas eles não podem colocar nosso espírito na prisão... Não podemos permitir que nenhuma guerra pelo imperialismo ou pela ganância seja travada em nossos nomes. É por isso que temos de continuar a lutar... Se ficarmos juntos como um povo, podemos derrubar os criminosos de guerra que estão comandando nosso país agora... Pensamento da ativista estadunidense Cindy Sheehan (Cindy Lee Miller Sheehan).

 


O UNIVERSO LITERÁRIO DE ADÉLIA PRADO - O que a memória ama fica eterno... Fugir da dor é uma perda de tempo... O sofrimento não tem idioma... Dor não tem nada a ver com amargura. Acho que tudo que acontece é feito pra gente aprender cada vez mais, é pra ensinar a gente a viver. Desdobrável. Cada dia mais rica de humanidade... Não tenho mais tempo algum, ser feliz me consome... O destino não existe. É de Deus que precisamos, e rápido... Quanto a mim dou graças pelo que agora sei e, mais que perdoo, eu amo... Pensamento da poeta, filósofa, escritora e professora Adélia Prado (Adélia Luzia Prado de Freitas). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE GORETTI VARELLA

Arte da artista visual, arte-educadora e arteterapeuta Goretti Varella (Maria Goretti de Souza Ferreira), editora do blog Desenhos no meu quintal. Veja mais aqui.

 

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domingo, junho 28, 2026

GLORIA MARK, JANET MOCK, EILEEN BARBOSA & ALCEU VALENÇA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Crescendo com a Poesia (2010), do cd solo (2013) e do Nordestinação (2017), da acordeonista e compositora Karol Maciel. Ela ainda é estudante de licenciatura em Música pela UFPE e faz parte das bandas dos artistas Lucas Mamede e Larissa Lisboa. Participou de vários festivais pelo país, como o FAM Festival (2023), Festival Sotaques da Sanfona Brasileira (2023), Encontro Nacional de Foles e Sanfonas (2023), Festival de Forró de Ibitipoca (2021) e o Festival de Sanfoneiros de Feira de Santana (2021). Ela integra o grupo instrumental MaKaMo e trabalha como educadora musical pelo projeto Musicou.


 

Bumba-ê: picamalácia de Catirina, apuros de Mateus!... - Catirina sonhava anjo-príncipe rolando do céu pros seus braços. A menina, antes franzina, debutou e tomou corpo: Que espetáculo! Despertou naquela manhã como nunca, nefelibata: repleta de vida na flor da idade. Olhou da janela o desiderato: era ele. Olhos vivos, fogosa, tinha certeza. E com ele teria muitos filhos, ambicionava. E assim foi toda prendada: Ei, pronde vai? Mateus era um matuto desarnado daquele do tino afiado, cheio das lábias e vantagens. Boa-pinta, de chapa tascou: Quem 14 tira 24, fica 12! Hem? Deu pra ela um pé de verso cheio de muitas cantigas, um rosário de louvores. Ela logo gamou na covinha inescrupulosa das bochechas dele, deu fiança com simpatia e namorou levantando a saia no sarro pesado, noivou na alcova e cobrou a obrigação: o desejo de muitos filhos. Casaram às pressas e de manhã Messalina, sereia arriada; de tarde, desbragada ninfa lasciva; de noite, uma súcubo insaciável; de madrugada, vampira devoradora; o resto do dia, náiade ninfomaníaca diuturna, todo dia e o dia todo, chega a chibata dele retinia no fole do vuco-vuco de nunca acabar. Ele encarou a peleja no maior galope, munheca no afinco, findou com dois palmos de língua de fora: Vou morrer! Toma catuaba, véi! Ou gemada com maca peruana, pó de guaraná, amendoim e ovo de codorna de muitão, para não amolecer nem caiar, bicho! Tá doido! Nem deram conta e o tempo passou pra ver a protagonista plenilunar de bucho inchado, barriguda aos 16, o desejo por mentrasto-de-frade, sim, catinga-de-bode, o enjoo seguinte, desejosa na geofagia, não largava a pagofagia: Eita, mão fria, gelada! E era uma vontade intensa e repentina, dela se empanturrar com peixe cru, ração de cachorro, tomando vinagre, café cru com limão, besouros com cola de sapateiro, até comeu o pano de limpar a pia, com creme de cabelo. O pior foi ter devorado às dentadas a bola e chuteira dum menino da vizinhança, deu o que falar. E quando voltou lá estava ela com um banquete de aranhas recheadas de insetos trazidos da Tailândia, na maior fritada. Lascou. E ela dava marrada na pancada da zabumba, foi bordoada e tome reco-reco, estultice e triângulo, cadê o decoro, no bombo seguia a toada e pariu de última hora o primogênito raçudo de quase rasgá-la toda: 6 quilos. Parecença com ninguém, o parentesco qual, nomeado Bastião, festança de peões, pajés e curandeiros: Esse filho é meu mesmo? Ê, boi! Nem bem 10 meses depois, ela viu o morto-carregando-o-vivo e quase teve um troço. O remédio foi o maior apetite: Picamalácia, meu! E engoliu uma extrovenga com sabão, tijolo, giz e cinzas de cigarro. Vai estourar! E vieram as gêmeas. Maior festejada. Quase ano e a alotriofagia comia no centro, as maiores estranhices na culinária – Que gosto! - e um rebento de trigêmeos: um menino, duas meninas. O comedor de vidro testemunhou: Ela comeu tanto barro com giz, lascas de parede, tijolo, bosta de guenzo e carvão, deu três filhos bonitos, ao invés de monstrinhos pintudos. Salve! Gargalhadas. A coisa ia bem até, de repente, ela desejar escargots. Vixe! Onde vou arrumar? Senão o filho nasceria troncho e feioso. Mateus se virou: Isso é uma rotônica! Já era verão quando o capitão Boca-mole no cavalo marinho avisou: Ela deu à luz quadrigêmeos! Deu a praga! Passou o resguardo e normalizou: o rala-bucho no rala e rola. Esquecidas as extravagâncias, lá vinha ela desejosa dum cachorro quente daquele marmanjo que, com a mesma mão, assoava o nariz e limpava na calça. Que nojo! Eu quero, vá lá. E foi carvão bem torradinho no almoço, repelente no jantar, roer as unhas do pé do meu marido no café da manhã, goiabada com salame e areia no lanche e vomitava tudo, mas, teco! Até que Maria Capitulina chamou por Arlequim: Vai avisar pro Mateus que Catirina partejou quíntuplos. Eita-pau! Depois duma quarentena normalizada, veio de novo a compulsão alimentar: Comeu o mealheiro - um porquinho de gesso com dinheiro e tudo. Denunciou-se quando sorriu: cadê os incisivos centrais? Lá estava a janelinha, uma lindeza. Que foi que houve? No meio da comilança mordeu uma moeda, teibei. E o picacismo deixou atarantado Penico Branco: Isso é uma draga! Quase: desemprenhou sêxtuplos! Aí empatou com a Quezia Romualdo de Colatina e Mama Uganda, 1x1x1 das 3. Lá se vão 40 dias depois, restabelecida, a correria do zoadeiro dentro de casa. Que deu? Ela havia esburacado todo recinto e estava lordemente espragatada em lauto repasto regado por um suntuoso ninho de baratas. Ave! Aí Mané Gostoso gritou para Babau: Ela esbarrigou. Como assim? Parturiu nônuplos! Deu a porra! Que nem a Halima Cissé de Male. Empatou de novo. As gestações múltiplas prosseguiram e a hiperovulação a todo vapor. O marido: Onde vou parar? Estava eclipsado, melhor, de certo modo: lascado mesmo. Ela queria por que queria kopi luwak - o café mais caro do mundo? Só nas ilhas de Sumatra, Java e Sulawesi! Agora deu. Simbora. Foi quando ela teve o delírio de Pasífae ao avistar o suposto touro de Posídon, a brancura dele e os chifres dourados. Pediu por Deus e o mundo pra Dédalo fazê-la vaca. Onde já se viu? No fim: desgravidou-se de décuplos! É a Gosiame Thama Sithole sul-africana? O pior: um Minotauro no meio deles. Onde vou arrumar um labirinto de Cnossos? Fodeu-Maria-preá! Sou lá Hércules para deter esse bicho! Boba-da-peste! Tuntunqué perdeu a conta: ao todo, quantos mesmo? Quem sabe! Virou problemão, calamidade púbica. Donativos, caridade internacional, afora arrombar com as estatísticas do Guinness: batia todos os recordes! Quem não se comoveu? A manchete das paradas, de boca em boca, atrativos dos fuxicos: apostavam, mangavam. Não era pra tanto, né? As vizinhas e voluntárias vieram dos 4 cantos do mundo. Pitaqueiros levantaram dados pra conferência: teve 20 pares de gêmeos, 10 trigêmios, 8 quadrigêmeos – e é a Valentina Vassilyev é? Ou a Leontina Albino? Danou-se! A conta está errada, reconta tudo. Dava pra muito mais e a coisa tomou vulto. Mateus: O que é que se deve fazer numa hora dessas? Não tinha onde cair morto. Pedia perdão todo santo dia, a vida só escárnio. À essa altura do campeonato o coadjuvante pensava de banda, olhar de sobrancelhas circunflexas, entendia o sucedido? Era o mistério da vida aos inesperados, cogitava desertar, se esconder nos sapatos, o que fosse, pudesse. Deu-se as bodas de ouro dela, maior festão; ele teve um mal-estar: na mesma hora a filha encostada ao mais velho casava-se com o seu inimigo figadal. Deixa disso, pai! A desfeita escondia incesto, mancebias, arranca-rabo: É carnaval, é? E rolou o pastoril, a quadrilha do casório, bumba-meu-boi: irmão com irmã e vice-versa, parentes, achegados, festejos dionisíacos. Tudo junto, na tuia. Ali a coleção de filhos: aos muitos e demais. Era tempo da copa do mundo, a torcida: Dá preu fazer uns três times desses ou mais. Quem desacreditasse, os dissabores de medo do vazio, a vertigem às alturas, a tal da nuvenzinha sobre sua cabeça, passou de tudo: mais que o azarado Frane Selak – as tragédias e o prêmio da loteria; pior que o para-raio Roy Sullivan: Sou lá SPDA, meu! – foram 10 na moleira, queimaduras e desmaios, sortudo mesmo; afora mais bombas que Tsutomu Yamaguchi, mais naufrágios que Violet Jessop, mais furacões que Melanie Martinez, mais atacado que Erik Norrie, mais calamidade que John Lyne, mais desastrado que John Wade Agan. Impossível, meu! Oxe, ele tá de cu pra Lua, meu! Dá-lhe, afortunado! Foi ter com um dervixe e fez a dança giratória do sema no êxtase espiritual e a conexão com o divino, a mão direta pra cima, a esquerda pra baixo, e a tropa da pecha: Boiolou, foi? Ah, venturoso! Era tabu: São outros dois mil e quinhentos tantos – engasgou-se ao gaguejar: Se a letra está morta pra quê liberdade de palavra? Findou dourando a pílula antes de encomendar a alma a Deus. E ela: Se acovarde não! Catirina reinava pujante na maior felicidade. Até mais ver.

 

Frida Kahlo: A coisa mais importante para todos em Gringolandia é ter ambição e se tornar ‘alguém’, e francamente, eu não tenho a menor ambição de me tornar ninguém... Nada é absoluto. Tudo muda, tudo se move, tudo gira, tudo voa e vai embora... Nada vale mais do que rir. É força para rir e abandonar-se, ser leve. A tragédia é a coisa mais ridícula... No final do dia, podemos suportar muito mais do que pensamos que podemos... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Mia Couto: Carregamos o nosso passado como uma doença e o nosso presente parece estar conectado com um culto pela velocidade, que não nos faz refletir sobre o que nós somos... Todas as influências são parte de mim, que dão vazão na palavra, que constrói e inventa... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Aza Njeri: O Brasil continua sendo regido por trinetos de escravocratas herdeiros do lusotropicalismo freyriano... Todos nascemos com um Sol, que deve ser cuidado para manter a potência... Veja mais aqui.

 

A MINHA GENTE

Imagem: Acervo ArtLAM.

A minha gente \ Parece ter brotado \ Desta terra seca \ Brotada dos vulcões \ Nascida de uma concha \ Que o mar depositou na areia. \ A minha gente \ Tem rugas de olhar o longe \ Rugas de rir \ De sofrer \ E de morrer \ As de morrer são mais bonitas \ Provam o renascer.

Poema da premiada escritora cabo-verdiana Eileen Barbosa (Eileen Almeida Barbosa), que é autora de Eileenístico (2007) e incluída a na antologia Africa39: New Writing from Africa South of the Sahara (Ellah Allfrey, 2014). Edita o blog Soncent.

 

JORNADA DE SEU PRÓPRIO CAMINHO - Precisamos de espaço para discutir verdades sombrias não ditas e desconfortáveis... Quando eu era mais jovem, eu gostaria de ter sido informada com mais frequência que eu estava certa e nada estava errado comigo, que eu era merecedora de tudo o que este mundo tem para oferecer, e que minhas visões para o meu futuro eram dignas de busca... Devemos ter a audácia de aumentar a frequência de nossas verdades... Eu sei intimamente a luta de tentar viver sua vida e ser você mesma enquanto sente a pressão de uma comunidade inteira sobre seus ombros... Como uma ativista que usa a narrativa para combater o estigma, sempre fui inflexível de que contamos nossas próprias histórias... Para mim, como ativista e contadora de histórias, estou muito centrada em garantir que mostremos a cumplicidade da experiência humana que está enraizada nas experiências trans da minha comunidade... Pensamento da escritora, cineasta e ativista havaiana Janet Mock. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

AMPLITUDE DE ATENÇÃO – [...] É hora de repensar nossa relação com as tecnologias pessoais. Precisamos mudar o foco: em vez de buscar maximizar a produtividade humana com nossos dispositivos, devemos utilizá-los para manter um equilíbrio psicológico saudável, sem deixar de alcançar nossos objetivos. [...] Planeje seu dia levando em conta que você possui recursos mentais limitados e sabendo que dedicar um tempo para recarregá-los não só ajudará a reduzir o estresse e a resistir melhor às distrações, mas também aumentará sua criatividade. Sabemos como diferentes atividades — como estar com a família ou amigos, organizar um evento complexo ou caminhar na natureza — afetam nossa energia física no mundo real. No mundo digital, o que drena sua energia mental? Quais atividades repõem seus recursos? Que tipo de tarefa mecânica ajuda você a relaxar? Ao final do dia, você quer se sentir cheio de energia e com uma atitude positiva. Evite chegar ao início da tarde com suas reservas de energia já no limite. [...] Sabemos, pela gestão de projetos, que geralmente ocorrem atrasos e que as tarefas quase sempre levam mais tempo do que o previsto. Além disso, não há espaço para incluir o bem-estar humano nos cronogramas de tarefas. Precisamos, em vez disso, reaprender como estruturar o dia no mundo digital do século XXI. Isso deve incluir estratégias para evitar a exaustão e promover o bem-estar, bem como compreender o seu próprio ritmo de estados de atenção e o fato de que você dispõe de recursos cognitivos limitados e preciosos. [...] Todos sabem o que é a atenção. É a tomada de posse pela mente, de forma clara e vívida, de um dentre o que parecem ser vários objetos ou linhas de pensamento simultaneamente possíveis. A focalização, a concentração da consciência, são da sua essência. Mas, o que também é importante, James acreditava que a nossa escolha sobre aquilo a que prestamos atenção tem consequências, uma vez que construímos a nossa experiência de vida dessa maneira: "Milhões de elementos da ordem externa estão presentes aos meus sentidos, mas nunca chegam realmente a fazer parte da minha experiência. Por quê? Porque não despertam o meu interesse. A minha experiência é aquilo a que decido prestar atenção. Apenas os elementos que noto moldam a minha mente — sem um interesse seletivo, a experiência seria um caos absoluto."Em outras palavras, James acreditava que aquilo a que decidimos prestar atenção passa a fazer parte da nossa experiência vivida. Posso estar caminhando em um belo jardim com o celular na mão. Estou trocando mensagens com um amigo e tentando escrever corretamente, desviando do corretor automático, que muitas vezes adivinha errado. São as mensagens que ficam registradas na minha experiência, e não a maciez do solo, o trinado da toutinegra ou o vermelho-escarlate das azaléias. Concentrei minha atenção nas mensagens; eu poderia estar até na Times Square. Para James, então, à medida que transitamos pelo mundo, deparamo-nos com uma infinidade de estímulos variados e selecionamos, por vontade própria, aquilo em que vamos focar. Em outras palavras, podemos controlar onde depositamos nossa atenção. Ah, quem dera fosse tão fácil quanto James imaginava. [...]. Trechos extraídos da obra Attention Span: A Groundbreaking Way to Restore Balance, Happiness and Productivity (Hanover Square Press, 2023), da psicóloga e professora estadunidense Gloria Mark (Gloria Janet Mark), autora de mais de 200 artigos de pesquisa científica, que a fizeram reconhecida por sua pesquisa sobre computação social e os impactos sociais da mídia digital.

 

O UNIVERSO LITERÁRIO DE CLARICE LISPECTOR - Pensar é um ato. Sentir é um fato... Quem nunca se perguntou: sou um monstro ou é isso que significa ser uma pessoa?... Você sabia que, às vezes, a esperança consiste apenas em uma pergunta sem resposta?... Viver não é ter coragem; saber que você está vivendo, isso sim é coragem... Minha vida, a mais verdadeira, é irreconhecível, extremamente interior, e não há uma única palavra que lhe dê sentido... A única verdade é que eu vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou eu? Bem, isso já é demais... Enquanto eu tiver perguntas sem resposta, continuarei escrevendo... Pensamento da escritora e jornalista ucraniana-judaica, autodeclarada pernambucana brasileira, Clarice Lispector (Chaya Pinkhasivna Lispector – 1920-1977). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALCEU VALENÇA: 80 GIRASSÓIS, 50 ANOS DE CARREIRA

[...] Palco é vitamina. É alegria, harmonia. É comunicação. Muitas vezes, me encontro cansado, fatigado, mas quando chego ao palco é aquela energia absurda. Aí, viro o menino travesso, traquina, meio maluco. E adoro sê-lo. [...].

Trecho extraído da entrevista concedida ao jornalista Danilo Casaletti (Estadão, 2026), pelo cantor, compositor, instrumentista e advogado, Alceu Valença (Alceu Paiva Valença), que está em turnê pelo país, comemorando os seus 80 girassóis e a publicação do livro Pelas Ruas Que Andei: uma biografia de Alceu Valença (2023), escrito pelo jornalista Julio Moura e tema do documentário Vivo 76 (2026), dirigido pelo conterrâneo Lírio Ferreira. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

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ARTE NA ESCOLA: ARTESANATO

A professora Fátima Portela realizou com os alunos do 6º e 9º anos, da Escola CAIC, de Palmares (PE), trabalho de artes por meio da expressão artística do artesanato, numa homenagem aos artesãos locais, com a confecção de enfeites juninos. Confira detalhes aqui & mais aqui, aqui & aqui.

 


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DRUMMOND, DAD SQUARISI, LENINE & STELLA MARIS REZENDE

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interlúnio do inominado marupiara pé-frio... - Insosso não tinha nome, só sobrenome e duplo: os finados pais...