sábado, setembro 12, 2026

SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

 


Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou por baixo da ponte. Enxurrada braba, foi: chega o rio estava apressado e sem margens, pra todo lado. Despencou dos céus o maior temporal, deslizamentos, inundações: a Terra se desmanchava. Quem escapuliu, subiu no telhado que deu pra se salvar, um aguaceiro de danar a paciência: assim também já é demais, né? É mesmo! Até a saparia atônita arregou com súplicas de clemência! Fodeu! De repente, ao cabo de meses, quase ano, estiou de vez e esturricou. A temperatura subiu e, em alta voltagem, o termômetro derreteu: bombas de guerras no gozo das BT&DC, vulcões em erupção, terremotos, tornados, maremotos, tsunamis, lixo & a barbárie cristonazifascistada, poluição geral. Eita! É pouco? E, não muito longe dali, os anfíbios resignados e espremidos na beira do que restou duma poça chocha, croc, croc, o que era de ribeirão, córregos, lagoa e brejo, ih, só aluviãozinho, poin, poin, tudo por uma peínha de nada, foi, foi. Vamos pra lá! Pra onde, ora? Pra qualquer corredeira! Vá você: quem quer se perder, é só mergulhar, mas só se for no chão. Ah, não! O Sol amadurecia e, aos psalmos, só bufotoxina no ar: S’ajeite na beldroega, prefiro taioba. O calorão tá de lascar. Será que chove? Lá vem ela! Isso não é chuva é cabelo de jia, chuvisquinho besta! Vamos apelar pra Amana-manha: Ô Amanhamanha! Essa rã não vai mais nos atender! E ela veio cantando, ajuntou todos e começou a bactromancia, catando varinhas, gravetos e bastões: Se caírem duas vezes seguidas mostrando o lado da casca, é mau presságio! Valha-me! Não deu outra. Foi nada! Ah, se... E Frineia desconsolada lançou-se nua às águas, a heterófila anadiômena, para servir Afrodite nas festas de poseidonia, em Eleusis. Eita, danou-se tudo! Aí o Dardo-verde-e-preto chamou o Amazônico-listrado, que puxou o Arlequim-escarlate e veio o Fantasmagórico: Larga de ser palerma! Sai pra lá, papudo! Ora, tiborna! Aí o Dardo-granular-da-flecha-granulada: Vamos timbungar no Paraopeba! O Dardo-morango: Menos esse tanto, Ludugero! O Dardo-azul: An-ham! O Dourado-da-Costa-Rica: Nem existe mais, bestões! E o que não era regra dele, levou a Dardo-dourada irritada: Coisa mais fora de hora! O Janelo-titicaca, todo posudo falando difícil: O inabitual! A de Schuencas-Romeu-&-Julieta, segredou: Areja, véi! E os pândegos Harlequins, só folia, nem sabiam que estavam fazendo ali. Era pra ser reunião séria: Como é que é? A coisa enfeiou! Para espanto de todos chegou o gigante Tiddalik australiano, riu-se de soluçar, verteu toda água, um santo adjutório pra crise. Pronto, resolvido. Está melhorando, só! Evaporou, deu pra nada. Depois o Tsathoggua de Cthulhu, doutra galáxia, em socorro! Coisa de outro mundo é? Só sendo, na causa. E hibernou. Ah, agora é tarde! Veio Ōgama do Japão, com mais de mil anos como yōkai! Vixe! E foi crescendo, aumentando, até ficar feito uma montanha, a língua longa de fora, o hálito de arco-íris. Que danado é isso? É o fim do mundo! Olha a Pipa Pipa! A Aru, pé-de-pato-surinã! Pra quê? Ah, meu, chama logo o garçom Luzantonho pra servir a gente! Ô Pula-pula vem cá! Minchou, meu! Qual é a bronca? Inesperadamente, deu-se um eclipse e a Ch'an-chu devorou a Lua! Valha-me! E depois o Sol! Maior escuridão. Ouviu-se trovejar: O rei está mal! Como assim? Indagorinha ele estava bonzinho da silva! Gente, o rei tá morrendo! Óóóóóóóó! E todos se renderam plangentes, contando disso e daquilo das façanhas do governante. Alguém lamentava: Logo ele que resgatou a bola de ouro da princesa, em troca de promessas de companhia, ela, a rainha; e, ele, o sapo-rei, agora velho, à beira da morte! Como é que pode? Ouviu-se logo - Como gostais, Shakespeare: Doces são os frutos da adversidade; \ que, como o sapo, feio e venenoso, \ carrega, no entanto, uma joia preciosa na cabeça... É vero, um aviso: só querem a crapaudine. É, a bufonita feita amuleto pros outros, desgraça da gente. Isso mesmo, dizem: a batracita cura de venenos, qualquer picada, a forma perfeita que enriquece a joalheria. E tome anel, talismã. Só quem nos pegar vivos poderá extraí-la, senão a pedra apodrecia sem valor. É. Viu aquele sobre um pano vermelho pra vomitá-la? Esse ainda se banha, eu mesmo fui colocado em um pote perfurado em cima de um formigueiro, quer pior? Servi de graça pro Medici seduzir a Graciosa, filha do Baltazar de Cabell. E quem não foi pra joia mágica da Deltora Quest da Rodda? E quantos pras joias da Catedral de Aachen? E eficaz contra os sortilégios e poderosa contra os venenos, por que malvadam tanto com a gente, hem? Nisso, a tarde recuava na boquinha da noite, quando deu as caras, do trapézio dos dias, Aderbal! Esse veio de encomenda: chorou na barriga da mãe! Vinha de Pasárgada, malas arrumadas de saudades - de caçarola a penico, de gargalo a pinguelo, das ouças aos focinhos, os de casa e os de fora, ije! Que é que tá pegando? O rei está esticando as pernas, tá todo mundo borocochô! Ah, não é segredo de abelha! Meu, mesmo não! -, disse o Flecha-abelha-faixa-amarela. Quer semear sisânia, é? Aqui num vale, só: Sapientis est mutare consilium! Não adianta nada xingar com nome feio! Tem que desentocar a causa disso tudo! Ah e não sabia? Tagarela de sempre, o seu fraco era puxar conversa e, arrebatado pela emoção do reencontro, esfriou: Ah, por isso que tá todo mundo agora aqui, né? Foi então que a perereca Kambô trouxe a vacina. Curou? Oxe, o cabra teve náusea, vômito, diarreia, rejeitou o laxativo. Vá na onda de sapeiro, viu! Deixe de marmota! Ora, é revigorante, estimulante! Taís pensando que é a aquela Pimenta que encaipora é? Ah, vou pro buraco da Gia, Fortaleza. Eita, fandango! Vamos pro sarrabalho, dancê a serra-baile! E o que era falta de jeito e fealdade, às interjeições com as façanhas glosadas. Alguém arengou: Vá lá pro jieiro Tito, o homem da jia. Ah, o ladrão! E o Sapo-boi mugiu: Sapo de fora não chia! A Rã-Golias se armou: Quem vai na garupa, não mexe na rédea! E o que era anuro virou Mirão, o outro Espião, que trouxe Xagueta, Ferreiro e Martelo: Sapo não lava o pé, taí o chulé! E o De-vidro, translúcido, venenoso: Quando se ama, parece amar-se a Lua. Aí o De-chifre, ô pacman, o folha: O óleo perfura a pedra! Eita, Moché! Moxé! Uma tuia de girino e era Pingo-de-ouro, De-rabo e Ponta-de-flecha! E pulou o que estava no ombro da bruxa, vestido de veludo escuro, chamou na grande: A coisa é séria, gente, rezem todos pra chamar chuva! Mais? Quase tudo morre afogado instantinho atrás. Bora. Aderbal, tome jeito, folgado! Aí a Rã-chorona: Olha só, minha gente, o rei foi acometido de enfermidade letal e, por causa disso, todos vamos morrer! Nossa, batráquios! Como assim? Tão culpando a comadre Unha Africano. Hum? Sim, um patógeno. Que é isso? O fungo critídio. Deixe de falar grego, esclareça! Um tal de maligno DB, até as salamandras, cecílias, tritões, axolotes, perigam todos extintos, incluindo nós aqui. É mesmo? Até a cobra-cega? Infelizmente, pandemia. A desconsolação bateu geral: Cadê meus girinos? E a vacina? Não tem. A desesperação caía cada vez mais perto. Vão apostar no pior? As perdas ensinam. E já era noite sem Lua. E Aderbal: Mãe Natura endoideceu, Jayme? Que pinoia é essa, hem? Aderbal, Aderbal, toma tino! Vão desertar? Pronde tu vai, abestado? Ué, escapulir, sou lá de esperar tempo ruim! Pra onde, fulustreco? Ah, fuga, babau... Fui! Até mais ver.

 

Luis Cernuda: Não anseie por um destino mais fácil... Contarei como nasceram os prazeres proibidos, como um desejo nasce sobre torres de terror... Tudo que é belo tem seu momento e depois desaparece... Veja mais aqui, aqui & aqui.

William Golding: O que um homem faz o contamina, não o que os outros fazem... Estive em muitos países e neles encontrei pessoas examinando seu próprio amor pela vida, seu senso de perigo e seu próprio bom senso. A única coisa que elas não conseguem entender é por que esse mesmo amor pela vida, esse mesmo senso de perigo e, sobretudo, esse bom senso, não são invariavelmente compartilhados por seus líderes e governantes... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ursula Karven: Envelhecer é uma jornada empolgante que leva a ainda mais independência e liberdade... Nenhuma tempestade dura para sempre... É exatamente nesses momentos que reside a força na paz e na serenidade... Veja mais aqui & aqui.

 

NAUFRÁGIO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Quero soltar a âncora e velejar nesse mapa desconhecido, \ e se o mar ficar bravo, \ assobiarei aos céus para negociar a rota direta à lua, \ e se os ventos forem fortes, \ aguentarei firme nas coordenadas dessa viagem da vida.

Poema da premiada poeta e artista visual maçambicana Sónia Sultuane, autora do livro Walking Words (2021), entre outros. Veja mais aqui.

 

PALAVRAS HERMÉTICAS ENAUSEADAS - [...] Em um tempo no qual a intimidade é perpassada por todos os códigos de IA, a maneira de se proteger é simular uma linguagem hermenêutica, que não o é. Antes, é náusea que brota incontivelmente, com o mínimo de filtros e revisões. Vai do ato incontrolável da escrita relaxada à publicação não revisada num ato contínuo que desconsidera a liturgia que segrega o sagrado do profano. [...] Não entender nada pode ser tomado como uma tradução ao ato de discordância radical de quem prefere rotular de nonsense a fala alheia, bárbara, evitando a possibilidade de diálogo. Mas se há a possibilidade de diálogo, a concordância se dá como ponto de fuga, isto é, busca-se o entendimento como repulsa ao monólogo, da linguagem unidirecional. Decidimos concordar sobre a disposição de nos lançar ao diálogo, mormente com quem discordamos radicalmente. [...] Tudo que escrevo em textos resultante da náusea é um transbordo deste tempo em que os limites do diálogo são rompidos e a violência e a mentira tomam o lugar da discordância. [...] De fato, apelo a uma linguagem estranha, na qual há o apelo para que o lobo e o cordeiro vivam juntos (a despeito dos sábios). Mas como, se o leão amando o cordeiro faz dele sua refeição? Isto é um mistério. [...]. Trechos extraído do texto Palavras herméticas enauseadas (2025), do escritor samarinês Marco Nicolini, autor de Sottacqua (Aiep, 2020).

 

RACISMO - Não se pode olhar para uma pessoa e julgá-la pela cor da sua pele... O racismo é uma doença de adultos, e devemos parar de usar nossas crianças para propagá-lo... O racismo é uma forma de ódio. Nós o transmitimos aos nossos jovens. Quando fazemos isso, estamos roubando a inocência das crianças... As escolas precisam ser diversas se quisermos superar as diferenças raciais... Acredito que odiar não te faz bem nenhum... Talvez não sejamos todos igualmente culpados. Mas todos somos igualmente responsáveis por construir uma sociedade decente e justa... Pensamento da ativista estadunidense Ruby Bridges (Ruby Nell Bridges Hall), que é autora da obra Through My Eyes (Scholastic Press, 1999) e presidente da Fundação Ruby Bridges, criada em 1999, para promover "os valores da tolerância, do respeito e valorização de todas as diferenças."

 

A ARTE DE JOÃO FALCÃO

[...] Eu vi que o teatro era fácil, era só juntar algumas pessoas e ter uma boa ideia [...] Trabalhei com monstros consagrados, mas também com muita gente iniciante [...] O Asdrúbal me despertou o fascínio pelo trabalho de grupo e pela temática contemporânea. Quando vi Macunaíma, descobri a figura do diretor, inventei que queria fazer aquilo [...].

Trechos extraídos da entrevista João Falcão: De mansinho, a consagração - Como a carreira do diretor foi construída sobre percalços que se confundem com os dos personagens de sua peça 'Clandestinos' (Continente, 2010), do roteirista, diretor e compositor musical, João Falcão (João Barreto Falcão Neto), que atua no teatro com quase quatro décadas de trajetória e dezenas de peças encenadas, criador da famosa peça A Máquina (1999), que revelou atores como Wagner Moura, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta, e que transformada em filme em 2004.. Também dirigiu sucessos como Gonzagão – a Lenda e Clandestinos, com também participou de produções de grande destaque na Rede Globo, como A Comédia da Vida Privada, Sexo Frágil e Clandestinos. No cinema, colaborou nos roteiros de filmes como O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro. Começou sua trajetória como ator na peça Morte e vida Severina (1980), de João Cabral, e em Toda Nudez será castigada (1980). Dirigiu Flicts, a cor, de Ziraldo e Aderbal Freire Filho. É autor das peças Muito pelo contrário (1981), Xilique Peba Piriquito Xique (1983), Cara Metade (1983), O Pequenino Grão de Areia (1983), Esse Estranho desejo (1984), A ver estrelas (1985), Palmas pra que te quero (1986), Criadas da Glória (1986), Mamãe não pode saber (1993), A História do Homem (1996), A Dona da História (1998), Uma noite na lua (1999), Marilyn, Marilyn (2000), As aventuras de Zé Jack e seu Pandeiro... (2005), Dhrama (2007), Clandestinos (2008), Gonzagão, a Lenda (2012), Dorinha, meu amor (2017), Que Deus sou eu (2020) e Ensina-me a Viver (2022). Atuou com roteirista e diretor em diversos audiovisuais da TV Globo, entre participações na direção e roteiro de filmes, shows e especiais. Veja mais aqui & aqui.

 


A MÚSICA DE MILTON NASCIMENTO - Perfil & trajetória, com toda discografia e participações cinematográficas, do cantor, compositor, ator e multi-instrumentista Milton Nascimento (Milton Silva Campos do Nascimento, 1942), que aos 4 anos ganhou uma sanfona de 2 baixos e, aos 13, cantava no conjunto Continental de Duilio Riso Cougo, um grupo de baile. Com a música Travessia, parceria com Fernando Brant, ocupou o 2º lugar no Festival Internacional da Canção, em 1967, gravou 34 álbuns registrando as suas mais diversas parcerias, hoje, com 84 anos, os aplausos para este cidadão do mundo. Confira aqui.

 


A ARTE DE GUITA CHARIFKER – Destaque para a arte da pintora, desenhista, gravurista e escultora, Guita Charifker (1936-2017), pela relevância de sua trajetória no cenário das pinturas, aquarelas e desenhos desta grande artista. Veja a homenagem aqui.

 


MUNDO DA DIVERSIDADE – Reunião de temas que caracterizam a diversidade de ideias da contemporaneidade, tratando sobre cultura, sexualidade, racismo, gênero, identidade, inclusão, relacionamento, entre outros, fazem parte das discussões na reflexão ampla de pensadores da atualidade. Confira aqui.

 


TORÉ XUKURU – Trata-se do 4º episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna. Desta feita, a garotada se depara com o Toré Xukuru, em Pesqueira, terra do doce e da renda renascença, a terra da amizade. Confira aqui.

 


CANTARAU TATARITARITATÁ – Registro de realização do cantarau Tataritaritatá, um projeto iniciado em 2002 como como zine impresso, depois transformou-se em zineblog, programa radiofônico, folheto de cordel, show poético-musical e, agora, em livro. Dá-se aqui a reunião de informações do portfólio, repertório, playlist de vídeos e fotos do projeto, a exemplo da apresentação no Sopa de Letrinhas do Clube Caiubi, em São Paulo. Veja detalhes aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO!!!

A arte do escultor, artesão, mamulengueiro, dançarino, escritor e artista Mestre Saúba (Antônio Elias da Silva), apelidado por conta de uma façanha da juventude: conseguiu retirar um relógio de dentro de um formigueiro. Veja mais aqui.

 


sábado, setembro 05, 2026

MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

 


O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto na área! Vasculhou-se de onde era que vinha aquela catinga horrível incomodando todos dali. Caçaram, pelejaram, vasculharam e só deram conta do sucedido quando avistaram uma tuia de urubu-de-cabeça-preta atrepado aos giros sobre uma casa, a última do arruado do Barão, só pessoas dele moravam naquela redondeza. E depois delas, temores quando anoitecia, a rodagem dava pro cemitério. Vixe! Mau agouro! Oxe, larga de ser frouxo! Quem mora aí? Ah, um que era tido por estranho mudo, há décadas perdidas na memória. Ninguém sabia o seu nome, nem parentes, nem conhecidos, apenas que era cheleléu do Barão. E que saía de casa antes do amanhecer e só retornava tarde da noite. Isso até a morte do influente poderoso – há uns 10 ou mais anos atrás. Depois do desencarne do onipotente, via-se ele toda noitinha, aboletado na cadeira à porta de casa. Não conversava com ninguém e só saía de casa para comprar mantimentos, logo retornava e se trancava novamente. Viam-no vez em quando na padaria, no açougue, no supermercado, ou pela beira do rio. E davam-no por álalo, porque ao ser saudado, apenas balançava a cabeça anuente com um sorriso receptivo. É aí mesmo a fetidez! E agora? Chutes e mãozadas botaram a porta abaixo: a inhaca tomou conta. Danou-se! Foi difícil adentrar, o corpo jazia no chão escuro, ao lado da cama, envolto por várias folhas de papel e outras espalhadas pelo chão. Era uma casa simples, sala, quarto, cozinha e banheiro, poucos utensílios: um fogão de duas bocas, acoplado a um diminuto botijão de gás, um prato, talher, uma garrafa térmica, uma cadeira de balanço e outra plástica, uma foto do barão na parede, um rádio de pilha e um amontoado de volumes, com encadernação artesanal, lendo-se na capa: Diário do Barão. Eram muitos tomos pelos cantos da sala, pelo quarto e empilhados na parede da cozinha, às centenas. Todos iguaizinhos e com a mesma inscrição na capa. Ao folheá-los, manuscritos com uma caligrafia bem desenhada, datas – dia, mês e ano - e narrativas registrando o dia-a-dia. Eita! Ninguém estava interessado em saber o que continha naqueles rabiscos. Saíram procurando por parentes ou conhecidos, vasculharam documentos, nada. Por fim, sacudiram-no numa cova rasa no canto do muro lá do cemitério. Pronto. E a casa dele? Deixa pra lá, os que ficaram para herdeiros do barão a qualquer momento vão arrumar um jeito. E a casa abandonada ali ficara. Um ou outro curioso surrupiava um exemplar para saber o que tinha. Logo o converseiro nasceu, a curiosidade aguçou. Rapaz, tu lesse aquele? É bronca! O barão era virado, hem? Oxe, meu pai contava muitas e boas dele! E em pouco tempo a coleção  sumiu. E a arenga: Quem tem um livro daquele? Quem sabe! Rapaz, é mesmo? Tudinho aos detalhes! Tá doido? Quero nem saber! Os anos se passaram e de boca em ouvido, dizem, toda a hestória das coisas tidas e idas em Alagoinhanduba. Valha-me!.. Até mais ver.

 

Georges Bataille: A necessidade de se desviar, de ser destruído, é uma verdade extremamente íntima, distante, apaixonada, turbulenta... Um beijo é o começo do canibalismo... Na verdade, temos apenas duas certezas neste mundo - que não somos tudo e que morreremos... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Heather Thomas: Aprendi a me ouvir, a prestar atenção ao que meu corpo dizia e a respirar conscientemente. Eu também estava lidando com uma doença crônica. Lutei para aceitar tudo o que fazia parte da minha vida, dentro e fora da narrativa oficial. Assim como eu, essa narrativa estava sempre em revisão, assumindo novas formas... Veja mais aqui & aqui.

Jared Diamond: É impressionante que os nativos do continente americano não tenham desenvolvido nenhuma doença epidêmica devastadora para transmitir aos europeus, em troca das muitas doenças epidêmicas devastadoras que receberam do Velho Mundo... Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

OS USOS DA TRISTEZA - Uma vez, alguém que amei me deu \ uma caixa cheia de escuridão. \ Levei anos para entender \ que isso também era um dom.

EXCETO PELO CORPO - Com exceção do corpo \ de alguém que você ama, \ incluindo todas as suas expressões \ em privado e em público, \ As árvores, em minha opinião, \ são as \ formas mais belas da Terra. \ Embora, reconhecidamente, \ se isto fosse uma competição, \ as árvores ficariam em \ um distante segundo lugar.

Poemas da premiada poeta estadunidense Mary Oliver (Mary Jane Oliver – 1935-2019). Veja mais aqui.

 

RACISMO & RESILIÊNCIA - […] Atenção: este livro contém material que os leitores podem considerar perturbador e chocante, podendo causar tristeza, angústia ou desencadear memórias traumáticas, especialmente para os povos aborígenes e para aqueles que sobreviveram a abusos, violência ou traumas na infância. [...] Quando você apanha, isso te afeta profundamente. Tira sua autoestima, sua confiança, seu amor-próprio e sua autovalorização. Mas, mais importante ainda, tira sua voz. [...] Entrei para a polícia por vários motivos: primeiro, para ver se conseguia entrar, e mais importante, porque tinha visto como a polícia maltratava o meu povo e ingenuamente pensei que, se entrasse, conseguiria acabar com isso. [...] Quando entrei para a polícia, tinha a ideia de que poderia mudar a atitude da comunidade aborígine em relação à polícia. Mal sabia eu que só conseguiria fazer isso depois de mudar a atitude da polícia em relação aos aborígenes [...] A dor e o sofrimento das gerações roubadas são transmitidos de geração em geração. Minha avó viveu esse medo, meu pai experimentou o medo e eu temi a experiência. [...]. Trechos extraídos da obra Black and Blue: A Memoir of Racism and Resilience (Bolinda, 2022), da escritora aborígene australiana Veronica Gorrie (Veronica Heritage-Gorrie), autora de trabalhos como When Cops Are Criminals (2024) e Nullung (2021).

 

PÓS-HUMANO - […] O que é necessário é uma transformação radical, seguindo as bases do feminismo, do antirracismo e do antifascismo... [...] O conceito de ser humano hoje está em discussão. Aliás, não tenho certeza se existe um consenso sobre o que significa ser humano [...] Não acredito que o pós-humanismo seja algo que virá no futuro. Não é ficção científica. [...] E também não sou um transhumanista do Vale do Silício que acredita que somos capazes de fazer o upload da nossa consciência para um computador e nos transformarmos em super-humanos. Acredito que o pós-humanismo seja, na verdade, um índice para descrever o estágio em que nos encontramos agora. Nossos valores, nossas representações e nossas formas de compreensão ainda estão ligados a conceitos antigos do ser humano [...] Estamos repensando os parâmetros da nossa humanidade. Encontramo-nos numa fase de crítica ao antropocentrismo, à ideia de uma espécie central que controla todas as outras. Pós-humano não é um conceito excelente. Pessoalmente, não gosto dele, mas, no momento, não temos um termo melhor para designar todas as pesquisas e experiências realizadas em universidades e centros culturais que se concentram em novas formas de pensar sobre o que estamos nos tornando. Desenvolvemos novas possibilidades fascinantes, como, por exemplo, a manipulação genética, mas nossos valores, nossas representações e nossas formas de compreensão ainda estão atreladas a conceitos antigos do ser humano. Precisamos ser corajosos e discutir juntos, de forma democrática e crítica, o que queremos nos tornar. O que somos capazes de nos tornar. [...]. Trechos da entrevista (CCCBLab, 2019), concedida pela filósofa e teórica feminista italiana Rosi Braidotti, que no seu livro El conocimiento posthumano (GEDISA, 2019) aborda questões contextuais acerca do retorno virulento de atitudes patriarcais e supremacistas brancas, examinando as implicações da virada pós-humana para a teoria e a prática feministas. Ela define a virada pós-humana como uma convergência entre o pós-humanismo, por um lado, e o pós-antropocentrismo, por outro, e analisa sua complexa relação e impacto conjunto, afirmando que a produção acadêmica pós-humana dominante negligenciou a teoria feminista, quando, na verdade, o feminismo é um dos precursores da virada pós-humana, por meio de diversos movimentos sociais e tradições políticas. Ela é autora de obras como Posthuman Feminism (Polity Press, 2022), The Posthuman (2013) e  Nomadic Subjects (1994). Veja mais aqui & aqui.

 

CHACRINHA, O VELHO GUERREIRO

Cheguei, baixei, saravei! Eu vim para confundir, não para explicar!...

Sentença do saudoso comunicador e apresentador do rádio e da TV, Chacrinha (José Abelardo Barbosa de Medeiros, simplesmente Abelardo Barbosa – 1917-1988), que revelou inúmeros artistas como Roberto Carlos, Clara Nunes, Raul Seixas, entre outros. Ele depois de falsificar a data de nascimento, ingressou no Tiro de Guerra, em Recife, quando atuou como baterista e percussionista do grupo Bando Acadêmico. Cursou Medicina e, depois de uma malograda turnê por conta da 2ª guerra mundial, voltou para o Rio Janeiro, onde se tornou locutor da Rádio Tupi e daí foi para a televisão. Era chamado de “Velho Guerreiro”, por conta da homenagem feita a ele por Gilberto Gil, como também de Papa da Comunicação, alcunha dada pelo filósofo francês Edgar Morin. Ele iniciou sua carreira no rádio com o programa Rei Momo na Chacrinha, em 1943, e fez muito sucesso na televisão com os programas Buzina do Chacrinha, Cassino do Chacrinha e Discoteca do Chacrinha, até o final da década de 1980. Foi homenageado pela escola de samba Império Serrano no carnaval de 1987, com o enredo "Com a boca no mundo - Quem não se comunica, se trumbica", e pela escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio, no carnaval de 2018, com o enredo “Vai para o trono ou não vai?”. Outra homenagem foi a música Roda e Avisa, de Jota Michiles e Edson Rodrigues, gravada por Alceu Valença. Ele participou de diversos filmes, entre eles Três Colegas de Batina (1962), A opinião pública (1967), Pobre Príncipe Encantado (1969), Já não se faz amor como antigamente (1976) e As Aventuras de um Paraíba (1982). Além destes, ele foi tema do documentário Alô, Alô, Terezinha! (2009), dirigido por Nelson Hoineff. Veja mais aqui.

 


A MÚSICA DE MOACIR SANTOS – Homenagem ao arranjador, compositor, maestro e multi-instrumentista Moacir Santos (1926-2006), pela sua trajetória musical iniciada ainda menino órfão e que, durante décadas, finalmente perseguiu sua arte para alcançar aplausos no exterior. Confira aqui.

 


PAULO FREIRE – O educador e filósofo Paulo Freire (1921-1997) é uma das mais importantes personalidades da educação planetária, tendo sua obra atravessado fronteiras e estudada nos mais diversos países. Sua proposta de educação dialógica e problematizadora tem sido relevante na construção de uma postura crítica ante a realidade. Veja a dimensão de sua filosofia aqui.

 


ARTE NA ESCOLA – Por iniciativa das professoras Fátima Portela & Myrelly, os alunos do 9º ano da Escola Caic - José do Rego Maciel, de Palmares (PE), realizaram atividades que envolveram a elaboração e realização de xilogravuras, trava-língua, apresentações de cordel, embolada, dança de roda, parlendas, entre outras. Confira aqui.

 


BARÃO DE ALAGOINHANDUBA – (Imagem: Acervo ArtLAM) – A personagem do Barão de Alagoinhanduba é uma das mais relevantes no território de Alagoinhanduba e arredores regionais, não só pela sua preponderante participação no desenvolvimento da cidade, como o envolvimento com a política, a ordem, segurança e desenvolvimento, responsável pelos mais inusitados e extravagantes acontecimentos da localidade. Confira aqui.

 


CAOSMOSE & O POEMA NASCE NO VISINVISÍVEL...Série ArtLAM elaborada com pigmentos naturais, acrílica e lã de aço em papel Canson A4, para a exposição coletiva Gentamiga Ateliê, realizada entre os dias 21 a 30 de setembro, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto, Palmares (PE), por ocasião de lançamento do livro-catálogo do Gentamiga Ateliê (CriaArt, 2026), com apresentação dos professores da USP, Evandro Nicolau e Renata Sant’anna. A série reúne os trabalhos intitulados Pulsações caósmicas, Fluxo dos devires, Pulsações do efêmero, Ensaio de múltiplas dimensões, Trâmite dos simulacros & platitudes, Arrostar aporias, Celebração autopoiética e Limiar da loucura poética. Confira aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO!!!

A arte do escultor Mestre Noza (Inocêncio Medeiros da Costa, Inocêncio da Costa Nick – 1897-1983).

Veja mais aqui.

 




sábado, agosto 29, 2026

ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

 


Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, aparando a testa dos seus 13 anos de idade, caniço de magro, à procura duma lavagem de roupa pra se sustentar em pé. Cabisbaixo arrastava a chinela, pra cima e pra baixo, a se distrair com as falas escandalosas da estridente aglomeração no vuque-vuque pelo centro da cidade. Era gente que só, pensava consigo: todos só queriam ganhar e gastar dinheiro, alvoroçados, e o que fazer mais se era esse o ânimo de todo mundo e, fora disso, a miséria encardida dele pela manhã todinha. Ah, porcaria! Já passava do meio dia e a fome apertava pra quem ainda se segurava no jejum. Numa lanchonete pediu emprego: Venha sábado, que é dia de feira. Então, me dê uma comida aí! Sai pra lá, mendigo! Austero, grosseiro, o dono do estabelecimento o defenestrava dali. A sua salvação foi um estranho que ofereceu pagar a refeição dele. Traçaram o rango juntos e, tapeado o bucho,  zanzaram a tarde toda. O céu àquela hora tinha a cor de quando vem chuva e ele se achando pelo mundo postiço, flagrando a torpeza espalhada entre fingimentos e desavenças pelos chuviscos. Só faltava essa! Os olhos amornados: caiu o maior pé d’água. Assuntou um tiquinho, coisa chocha mesmo. Ajeitava-se pelas beiradas, a água já pelo mocotó, fazia que aguentava aquilo tudo, as coisas todas de fora e as não vistas por aí. Desencosta dessa tristeza, chô! Hem? Segura a tampa. Ah, infame! Ele ali cheio das curiosidades, não conhecia bem Alagoinhanduba. Danou-se às perguntas, carregado de dúvidas. Desinvoca, vai! Falavam dum milagre que ele andava à cata: Onde? Quando? Nunca que sabia que tinha um santo Médici: Onde já se viu? Desincha as bochechas, vai! Às risadagens, com agora amigo Beto tagarela: Eu quero é botar meu bloco na rua! Como assim? Quero é atravessar a ponte Rio-Niterói! É longe? Se, ó. Queria era arrumar um emprego! Melhor fugir pela Transamazônica. Onde fica isso? Lá longe, depois de onde vira o beiço! E como chego lá? Vai andar um bocado. Logo vi, tudo é longe pra mim. Ih! Sorria, meu bem, sorria!... Chega dá vontade... Não bote força, vá no jeito. Aí, não deu sentença. E o amigo, numa cantiga de amor doido: Chorar pra quê?... Foi-se Bruce Lee. Era o dia dele. Gente é bicho de Deus. Ara. Fique atento, senão finda como o agente Laranja pedindo penico pra vietcongue, visse! Como? Você não entende nada! Palavreado loré esse seu. Oh, tapado: é aqui a Guerra do Vietnam, de verdade. Você fala umas coisas estranhas... Eu sou a Mosca na sopa! Queria ser como você... Anoiteceu, vamos cear pra gente assistir o Bem-amado. Onde? Ali na tevê da praça, não viu? Vamos, depois, a gente passa por lá. Engoliram o que deu pra comer no pavilhão de dona Zefinha e, depois, se arrancharam no jardim da praça pra ver a novela. Você vai dormir aonde? Não sei. Tem uma maloca no arruado da usina, a gente dorme por lá. Oba! No dia seguinte despertou sozinho, o amigo havia sumido. Oxe! Passou o dia todo pedindo emprego, a pança vazia. Já de noite de novo e tentou enganar a barriga roncadora assistindo ao capítulo teledramático, mas perdeu a paciência e foi-se, recolheu-se à tapera, tentando dormir. Amanheceu o sábado roxo de fome, correu pra lanchonete e, chegando lá, conseguiu ocupar-se. Já tomou café? Não como desde anteontem. Tome. Devorou um sanduíche de mortadela, deu pra enrolar as tripas. Bora trabalhar. Viu o patrão folheando um jornal com a foto daquele seu amigo desaparecido, o Beto. De soslaio: Conhece ele? Não. Era dia de feira, o povo e seus pedidos. Nem deu tempo para mal-entendidos. Desenrolou e, no final do expediente, comeu um pão com ovo, zarpou bêbado de sono. No outro dia, as moedas do bolso: O que ganhei mal dá pra comer. Foi pro trabalho, fechado, era domingo, ora, tinha de se virar: saiu catando o que fazer. Deu de cara com um estranho cantarolando o sucesso do rádio: “Vira, vira, vira, \ Vira, vira, vira homem, vira, vira \ Vira, vira lobisomem...” Era o receptivo coroinha Pedim do Padre: Que é que você tem? Tô com fome. Oxe, vamos pra igreja, você me ajuda a balançar o sino e a gente come na casa paroquial. Bora. Nunca tinha visto mesa farta, o padre Quiba deu as ordens: Quem é esse? É um morador de rua, estava com fome e veio me ajudar. Vamos logo! Os dois lá, blém, blém, pra missa da manhã domingueira. Terminada a liturgia, limparam tudo e saborearam farto repasto: era o almoço. Saíram juntos quando o agora amigo mostrou-lhe uma coleção de gibi. Coisa de ficar entretido. E brincavam já de tarde: De noite a gente vai no cemitério! Fazer o quê? Brechar as moças da vida se esfregando nos machos! E é! Pra frente, Brasil! À boquinha da noite lavaram a égua e foram pular o muro do sepulcrário. Hesitou, o terror das trevas, tudo nevoento. Atravessaram pelas catacumbas e se arrancharam numa touceira na parede esburacada. O que é aquilo? Safadeza. Viram dois machões esmurrando uma delas, aos gritos. Vieram outras, apanharam todas, chicotadas, desnudas. Eita, cada lamborada, hem? Gritaria. Lua espantou-se com o amigo onanista, em êxtase por vê-las seminuas, vestes rasgadas. Olha a caçola delas, meu! E o provocava para um cavalo-mago! Eita! Deixa de ser molenga! Estranhou vê-lo às aperturas, todo se desmilinguindo, os olhos virando. Sai pra lá! O enterro voltando: Lá vem os caras pra cá! Corre! Quedaram em desespero, acotovelaram-se. Pra que lado? Arquejavam, o chão tremia sob os pés. Tomou-lhe o pulso: Bora, porra! Deixaram tudo pra trás. Pularam o muro de volta e na primeira esquina: Vamos, já tá na hora da missa! Correram e ficaram lá, de joelhos, cara mais lisa, santinhos. Ao término, seguiam sob as vistas desconfiadas do pároco, chamando Pedim prum confidencial. Ouviu o zunzunzum e logo percebeu que não seria nada de bom. Um estrondo: só viu o baque! Eita! Pedim veio com uma cara enjoada. O vigário logo em seguida com cara de poucos amigos: Tem onde dormir? Tenho. Então pode ir, zarpa! Despediu-se do amigo, com uma promessa dele: Amanhã passa na Barraca Azul que eu descolo um lanche pra você. O da batina deu um beliscão no achegado e cagou raios nos bregues. Foi-se o que dera doce, socou-se na sua loca e, no outro dia, olhos remelentos, fatigado. Levantou-se e foi pro acertado: o amigo não estava lá, como prometido; o canto mais limpo. Disseram: Ele foi trabalhar em Itaipu! Vixe! Foi pra lanchonete e levou esporro porque chegou atrasado: Você é o Skylab é? Não, senhor. Se for, leve a bronca pra lá! Descolou um petisco e ficou por ali fazendo mandados. O patrão resmungava: Esse não vale o feijão que come! Ao lado, uma banca de revistas, não tirava o olho: Quanto é? Não tinha dinheiro para comprar aquela que soletrava: Char-lie, Charlie Moon. O chefe ralhando feio, brabeza nos olhos: Vai roubar não, tô de olho em você! O proprietário da banca arremedou: Esse num vale um conto de réis! Aí o superior castigou: Fique perto das minhas vistas, seu! Zé na defensiva, ficou meio de banda e levou no cangote maior esculacho: Menino, tome jeito, senão você acaba que nem Araceli, viu? Ou como Carlinhos... Ana Lídia... Ou o Beto, se assunte! Beto? Ficou com o coração na mão, o olho numa rapadura ali estirada no gosto. Serviu-se de uma boia e, às portas arreadas, procurou caminho de volta pro cantinho, pra se entocar. No meio do caminho: Foi ele! Pega! Correria, escondeu-se na primeira brecha. Onde ele se meteu? Pente fino, caça tudo! Clandestino, ficou na sua: Pra quem não tem um bem nem vintém, ué! Tapava o olho, mirava, aos sopapos, um toco de graveto, a futucar no traquejo, era o ponto pras más surpresas. Foi por uma banda, voltou pela outra. Segurou a carranca na sola do pé, foi a conta: riscou no ar. Mandou longe, tão desfeliz, segurou-se na cacunda, resignado: a boa lua que acudisse, asfixiado de medo. Coisa de cigano: sem saber pra onde metesse as ventas. Mas ia. A coragem no toitiço por uma peínha de nada, segurava nos beiços sua indignação. A vizinhança caçadora: Cadê-lo? E ele trepado na garupa doutro esconderijo, sua modorra. Ao rés do chão, puxou a tabica, faria o mesmo e se desviava papudo, pueril, afiava a munheca no parapeito. Aí a frustração: nada dava liga. Lembrou-se de Beto, Pedim, o emprego, dona Zefinha tão boa, tudo perdido. Assim por vários dias, semanas, meses, aos pinotes, a coisa nunca como sonhado e ele: Só deixo o meu Cariri no último pau de arara... Era uma vez e mais uma e outra mais... Até mais ver.

 

Emil Cioran: O homem recomeça todos os dias, apesar de tudo o que sabe, contra tudo o que sabe... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Jennifer Egan: De certa forma, estou sempre tentando fazer algo que não estou qualificada para fazer. Por isso, sinto essa falta de qualificação. E tenho medo. E eu tenho uma tendência a pensar que as coisas podem e provavelmente não vão dar certo. Essa é a minha mentalidade básica... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ione Skye: Eu tenho essa teoria da convergência, de que coisas boas sempre acontecem junto com coisas ruins... Não seja cruel, isso também é difícil para mim... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

VÓRTICE QUEBRADO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Estou num vazio árido, escuro e desolado. \ Pendurei os kilims contra o vento. \ Aqui estou eu, \ num cochilo vespertino sobre os talos. \ O mundo está lá embaixo, as montanhas distantes. \ Sou tão ressentido quanto esta encosta, \ mas colorido, ao vento, kilims \ e o fim da colheita, folha cansada, lagarto fugitivo. \ Sou o lago sobre o qual a noite cai. \ Uma vez que criei uma memória por amor, \ não o farei novamente. \ Sou um pequeno grupo na vinha \ sobre a qual o outono passou e abandonou. \ Você é como um lago, \ você é como um lago? \ Você é como um lago, ei! \ Você está em um sonho, ei, você é o sonho. \ Em um poema aquático, \ você está falando alto. \ Os Países Baixos \ estão silenciosos agora. Sempre!

Poema da escritora, editora e socióloga turca Birhan Keskin, que foi editora adjunta da pequena revista Göçebe e é autora de livros como: Delilirikler (1991), Bakarsın Üzgün Dönerim (1994), Cinayet Kışı + İki Mektup (1996), Yirmi Lak Tablet + Yolcunun Siyah Bavulu (1999) e Yeryüzü Halleri (2002), Kim Bağışlayacak Beni (2005), Ba (2005), Y'ol (2006), Soğuk Kazı (2010) e Fakir Kene (2016).

 

ÍDOLO ARDENTE - [...] Da mesma forma que uma noite de sono amassava os lençóis, o simples fato de estar vivo cobrava seu preço. [...] Mas este mundo onde eu aparecia com minha persona meio inventada era um lugar mais gentil. [...] Eu não conseguia lidar com a vida da mesma forma que todos os outros pareciam fazer com facilidade, e lutava diariamente com as consequências complicadas. Mas impulsionar meu oshi era o centro da minha vida, algo natural, meu único ponto de clareza. Era mais do que um núcleo — era minha espinha dorsal. [...]. Trechos extraídos da obra Idol, Burning: A Psychological Debut About Celebrity Worship, Fame, and Devastating Scandal (HarperVia, 2022), da escritora japonesa Rin Usami.

 

A VIDA & VIVER - Eu exorto você a encontrar uma maneira de mergulhar plenamente na vida que lhe foi dada. Parar de fugir de tudo o que você está tentando escapar, e em vez disso para parar, virar, e enfrentar o que quer que seja… A razão pela qual todos nós somos tão miseráveis pode ser porque estamos trabalhando tão duro para evitar ser miseráveis... Pensamento da psiquiatra e professora estadunidense Anna Lembke. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE ANTÔNIO MARIA

(Escultura de Antônio Maria, na Rua Bom Jesus, centro histórico do Recife, do escultor Demétrio Albuquerque - Foto: Rubens Chaves)

Vi-a passar. Comecei a vê-la ao longe, quando despontou na rua. Conheci-lhe a blusa, mas achei diferente a maneira de caminhar. Aquele andar mole, de quem vai para lugar nenhum. Talvez não fosse o caso, no entanto. As pessoas quando não estão felizes, ou quando estão infelizes, por mais que andem, parece que não vão para lugar nenhum... De vez em quando eu tenho me surpreendido descansando de coisas que eu não fiz... O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira...

Trechos extraídos de crônicas do escritor, jornalista e compositor Antônio Maria (Antônio Maria Araújo de Morais – 1921-1964), que compôs samba-canção, polcas, frevos, marchinhas de carnaval, valsas e sambas. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,  aqui & aqui.

 

A ARTE DE YAYOI KUSAMA

Minha arte é uma expressão da minha vida, sobretudo da minha doença mental, originária das alucinações que eu posso ver. Traduzo as alucinações e imagens obsessivas que me atormentam em esculturas e pinturas. Todos os meus trabalhos em pastel são os produtos da neurose obsessiva e, portanto, intrinsecamente ligados à minha doença. Eu crio peças, mesmo quando eu não vejo alucinações, no entanto. Com o tempo, passou a preencher pisos, paredes, telas, objetos e até pessoas com seus pontos...

Pensamento da escritora e artista plástica japonesa Yayoi Kusama (1929-2026), que se expressou por meio de uma diversidade artísticas, que vai das colagens, pinturas, esculturas, arte performática e instalações ambientais, tendo por característica a obsessão por pontos e bolas. A obra “Narcissus garden Inhotim” (2009) pode ser encontrada no Centro Cultural Inhotim, em Minas Gerais, dezenas de grandes esferas prateadas, que ficam na superfície da água e que podem ser movidas conforme a ação dos ventos, réplica/versão da escultura que fez em 1966, para participar da Bienal em Veneza, onde ela espalhou 1500 esferas espelhadas e as vendia por 2 dólares. Entre as bolas, havia placas com os dizeres “Seu narcisismo à venda”, uma forma que ela encontrou para criticar o sistema das artes. Ela era considerada louca e, na sua loucura e em seus desvarios, ela encontrou na arte a fuga e o tratamento da sua doença. Como ela mesma diz: Se não fosse sua arte, já teria me matado há muito tempo. No caso dela, além das alucinações, muitas vezes suicidas, ela ainda passou a ter TOC, ou seja, as bolinhas e pontos se tornaram uma verdadeira obsessão, que se reflete em tudo que venha da artista, não só em sua arte como também no seu visual, que chamou muita atenção. Veja mais aqui & aqui.

 


LEITURAS: JORGE LUÍS BORGES – (Imagem do pintor italiano Stefano Davidson) - Reunião de algumas das leituras de obras do escritor argentino Jorge Luís Borges (Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo – 1899-1986), por quem nutro profunda admiração, tornando-me compulsivo em devorar seus livros, incluindo-se aí releituras reiteradas e feitas até hoje. Confira aqui.

 


O TEATRO DE AUGUSTO BOAL – Homenagem ao dramaturgo, escritor e compositor Augusto Boal (Augusto Pinto Boal - 1931-2009), tendo em vista a sua indispensável importância na minha formação teatral, influenciando, evidentemente, a minha atuação na área, inclusive na escrita dos meus textos. Muito aprendizado que foram recolhidas de suas obras, notadamente Técnicas Latino-Americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário (Hucitec, 1975), 200 exercícios e jogos para o ator e não-ator com vontade de dizer algo através do teatro (Civilização Brasileira, 1983), além de Teatro do oprimido e outras poéticas políticas (Civilização Brasileira. 1975), entre outras. Tenho em os livros de minha predileção o seu Teatro Completo (Hucitec, 1986, 2 volumes). Confira aqui.

 


SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – Reunião de temáticas que abordam a diversidade dos debates na sociedade contemporânea, envolvendo desde a questão do futuro da humanidade, a arqui-violência, o cristofascismo, o capitalismo, o racismo, agrotóxicos, a responsabilização política, as tecnologias e as neurociências, entre outros, refletidas pelos mais diversos pensadores, neurocientistas, filósofos, psicólogos & outros profissionais estudiosos dos mais diversos campos do saber. Confira aqui.

 


O CAMINHO DOS VENTOS - Este é o terceiro episódio das aventuras do Nitolino no Valuna, em que os protagonistas chegam no toré xukuru e são levados ao sabor dos ventos. Confira aqui.

 


GENTAMIGA ATELIÊ – Livro-catálogo & exposição que ocorrerá neste mês de setembro, reunindo as obras dos artistas integrantes do Gentamiga Ateliê, formado por Rubens da Cunha Lima, Cibele Sarkis, Ricardo Aidar, Márcia Gebara.  A coletânea conta com apresentação dos professores da USP, Evandro Nicolau & Renata Sant'Anna. Confira aqui

 

ISTO É PERNAMBUCO

Arte do Mestre Vitalino. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 



SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...