sexta-feira, junho 22, 2018

GOLDING, BALMONT, STEINER, NORBERT ELIAS, MILTON NASCIMENTO, KIAROSTAMI & FRANÇOISE GILOT


TRÊS & UMA VIDA SÓ – Imagem: A Gordiuszi csomó III (2005), da pintora francesa Françoise Gilot. - Numa bela manhã de 1552, nascia Erik no meio de um parto complicado com a morte materna. Cresceu ouvindo as histórias dos Vikings. de Odin, Thor, Gladius e a batalha de Lena, Nokken, Tallemaja, Draug, Näcks, de muito fazer uso disso na sua formação adulta. Na busca pelo pai desconhecido, soube do excêntrico imperador Rodolfo de Habsburgo, colecionador de anões e gigantes em um regimento do seu exército. Não entendia nada de política e muito menos da Contrarreforma e do calendário gregoriano, das andanças por Praga, o fascínio por jogos e códigos, astrologia, alquimia e ciências ocultas. Achava muito estranho o que diziam de um certo pintor Arcimboldo, em meio as conversas das revoltas austríacas e húngaras, as questões dos otomanos na Áustria, Morávia e Hungria, as passagens por Boêmia e a Silésia. Tal como a majestade, ele também sofria de constantes ataques de melancolia e insanidade, principalmente quando pôde ver uma vez de longe o livro gigante do Codex Gigas, a deslumbrante oitava maravilha do mundo, escrita por um monge copista do mosteiro de Podlazice, dado por destruído durante as guerras religiosas do século anterior e seu autor condenado a ser emparedado vivo por crime grave e que, para salvar-se, pediu ajuda ao demo. Aos boticões, jamais esqueceu a decoração das tintas vermelhas, azuis, amarelas e douradas do volume, coisa que não lhe saía da cabeça, ambicionando roubá-lo e passando a sonhos constantes, aguçados por sua curiosidade em saber das fórmulas mágicas contidas naquela publicação imensa. Depois disso, pesadelos assustadores acometiam suas noites dias afora. Tantos tormentos entre trogloditas, dinossauros e guerreiros que povoavam suas desventuras oníricas, com perseguições, quedas dos precipícios, ataques de animais, crucificações, monstros mitológicos, guerras de caveiras e terrores diversos. As perseguições tanto ocorriam nos seus adormecimentos noturnos, como nos devaneios em dia claro, ouvindo vozes do além, ameaças de íncubos e súcubos ao derredor, bruxarias e premonições malsinadas, amedrontando seu pobre ser amargurado, identificando qualquer aproximação de alguém, como presença de terrível algoz para destruí-lo. Por conta disso, viveu pelas sombras da existência. Além do mais, outra paixão angustiava o peito entre ataques de sobrevivência e aluamentos: a filha bastarda do rei, Carlota, marquesa da Áustria, a ponto de arquitetar estratagemas para capturá-la e aprisioná-la para si. Essa paixão platônica o fez armar ardis engenhosos, rondando todos os locais onde supunha ela pudesse estar presente, isso até o dia que ela se casou com o príncipe de Cantecroix, deixando-o aos desastres da existência, ora resgatando furioso e completamente embriagado a exaltar a memória de Gustavo Vasa e assumindo o luteranismo evangélico, ora não menos ébrio se bandeando pela defesa da igreja romana católica. Quis estupra-la e nisso se determinou, dela não escapar, em pleno golpe, enlouqueceu na investida até sucumbir maldito em 1612, vítima de um ataque desconhecido no meio dos seus tantos pesadelos. Eis que numa tarde mormaçada de 1756, nascia uma criança entre os Palawah, nas inóspitas regiões australianas. Cresceu entre os aborígenes e os dingos, cangurus, emas, bumerangues, lanças, bastões, o cultivo da terra, caça, pesca e dialetos. Era silencioso e prestava atenção em tudo. Estava adolescente quando ouviu das sucessivas histórias contadas sobre os migrantes indianos e das ameaças dos portugueses que zanzaram pelas terras da Australis Incógnita, do navegador holandês Willem Janszoon e da Nova Holanda, das andanças de James Cook pela Nova Gales do Sul e a colônia penal, de Abel Tasman na Tasmânia, e da invasão britânica de 1788. Sabia apenas da noite e do dia, da fome e da caça, das coisas de sua tribo, matava pra não morrer, savanas, o Tempo dos Sonhos, o didgeridoo, a Mãe Serpente, os massacres dos colonos e a catequese, alijauaras, arandas, mundbaras, gurindjis, pitjantjaras, pintubis, ualparis, uarramungas, ualpiris, mardus, o Uluru. No meio disso teve o primeiro sonho estranho, em que vivia num mundo distante do seu, como se fosse um dos invasores em terras estrangeiras. Eram sonhos monstruosos que o perseguiram terrivelmente por toda vida, até sucumbir em 1816, vítima do genocídio contra os aborígenes no processo de colonização britânica. Foi então que na madrugada chuvosa de maio de 1960, nascia no nordeste brasileiro uma criança de pais pobres, vítimas das secas sertanejas. Brincava do muito no terreiro tórrido e ouvia histórias da Cumade Fulôsinha, Saci Pererê, bois e cavalos dumas matas perdidas na imaginação. Cresceu com o Sol de janeiro a janeiro, em plena ditadura militar, maria-vai-com-as-outras, a desconhecer da censura e repressão. Aos dez anos teve um sonho estarrecedor: que era um menino órfão galego no frio, perseguido por monstros e maldições. Ao amanhecer estava amedrontado com tudo embaixo da cama. Chamou aos pais, nada encontraram, e ele insistia tudo aquilo sonhado lá embaixo. No outro dia acordou com o pesadelo de ser uma criança de cor perseguida por invasores brancos barbudos que matavam os da sua tribo. Contou pros pais que disseram estar ele ouvindo muita Estória de Trancoso. Não era, noite após noite, e precipícios, feras, bruxarias, uma princesa linda que o levava para a morte, ataques de invasores, tiros, mortandade, terrores. Estava adolescente púbere e no seu mundo de devaneios macabros, para ele tanto faziam falar de Papai Noel, AI-5, a Mula sem cabeça, a Burrinha do Padre, Iêiê, O meu pé de laranja lima, Moral e Cívica, Brasília e FMI, Milagres, guerrilhas, Arena e MDB, tudo como se fosse Monteiro Lobato contando coisas pros jovens que podiam ser tratados por homens feitos. Misturava Araguaia com Homem Aranha, USTop com MR-8, Hippies e cristãos, Cuba com as calças Lee, TFP com a tricampeonato de futebol, desemprego com subversão, Guerra Fria com ligas camponesas, corrupção com levar vantagem em tudo, promulgação da Constituição Federal com papo de ETs, AIDS com a economia canavieira, dívida externa com papo furado, impeachment com a novela da Globo, Plano Real com a vinda de Jesus e por aí vai. Aos trinta e quatro anos era ufano tetracampeão, falando de Emerson, Piquet e Senna como se fossem os únicos heróis nacionais depois dos jogadores. Odiava coisas de estudo ou escola, terminara o segundo grau a pulso na escolinha do arruado e ali ficara como se fora o maior sabichão do planeta. Misturava lucro com apurado, metia o pau nos comunistas e votava de acordo com a amizade nas eleições. A partir dos trinta e cinco anos, os pesadelos horríveis passaram a ser recorrentes, sem poder distinguir o que era a vida e o que era sonhado, misturando-se por infernos dantescos e buscas de felicidade jamais alcançada, até o dia em que teve a nítida experiência de que era Erick e não sabia que a sua vida era assim porque tinha sido ele e reconhecera ser ele mesmo, ao passo que tudo se transformava em si e já o inominável australiano a fugir e guerrear contra os invasores intrépidos, e tudo inexplicável sem entender como podia ser quem era nisso tudo, um nordestino brasileiro, enquanto um branco escandinavo e um aborígene australiano eram nele uma coisa só e não sabia mais nada porque mergulhando na trindade esqueceu existir para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor e compositor Milton Nascimento: Planeta blue na terra do sol, Ângelus, Uma Travessia 50 Anos ao vivo & Pietá ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Três coisas condicionam o rumo de vida de um ser humano entre o nascimento e a morte; e com isto ele é triplicemente dependente de fatores situados aquém do nascimento e além da morte. O corpo está sujeito às leis da hereditariedade. A alma está sujeita ao destino criado pelo próprio ser humano; esse destino criado pelo homem é denominado com a antiga palavra carma. E o espírito obedece às leis da reencarnação, das repetidas vidas na Terra. Sendo assim, a relação entre corpo, alma e espírito pode ser expressa da seguinte maneira: o imperecível é o espírito; o nascimento e a morte imperam na corporalidade segundo as leis do mundo físico; a vida anímica, sujeita ao destino, serve para unir o espírito e a corporalidade durante uma vida terrena. Todos os demais conhecimentos sobre a natureza do homem pressupõem o conhecimento dos ‘três mundos’ a que ele pertence. [...]. Trecho extraído da obra Teosofia: introdução ao conhecimento supra-sensível do mundo e do destino humano (Antroposófica, 2002), do filósofo e educador austríaco Rudolf Steiner (1861-1925). Veja mais aqui.

SOCIEDADE DOS INDIVÍDUOS – [...] O controle comportamental desta ou daquela espécie existe sem dúvida em todas as sociedades humanas. Mas aqui, em muitas sociedades ocidentais, há vários séculos que esse controle é particularmente intensivo, complexo e difundido; e o controle social está mais ligado do que nunca ao autocontrole do indivíduo. Nas crianças, os impulsos instintivos, emocionais e mentais, assim como os movimentos musculares e os comportamentos a que tudo isso as impele, ainda são completamente inseparáveis. Elas agem como sentem. Falam como pensam. À medida que vão crescendo, os impulsos elementares e espontâneos, de um lado, e a descarga motora – os atos e comportamentos decorrentes desses impulsos –, de outro, separam-se cada vez mais. Impulsos contrários, formados com base nas experiências individuais, interpõem-se entre eles. [...] Uma trama delicadamente tecida de controles, que abarca de modo bastante uniforme, não apenas algumas, mas todas as áreas da existência humana, é instalada nos jovens desta ou daquela forma, e às vezes de formas contrárias, como uma espécie de imunização, através do exemplo, das palavras e atos dos adultos. E o que era, a princípio, um ditame social acaba por tornar-se, principalmente por intermédio de pais e professores, uma segunda natureza do indivíduo, conforme suas experiências particulares. [...] Considerados como corpos, os indivíduos inseridos por toda vida em comunidades de parentesco estreitamente unidas foram e são tão separados entre si quanto os membros das sociedades nacionais complexas. O que emerge nestas últimas são o isolamento e a encapsulação dos indivíduos em suas relações uns com os outros [...] à medida que prossegue essa mudança social, as pessoas são mais e mais instadas a esconder umas das outras, ou até de si mesmas, as funções corporais ou as manifestações e desejos instintivos antes livremente expressos, ou que só eram refreados por medo das outras pessoas, de tal maneira que normalmente se tornam inconscientes deles [...]. Trechos extraídos da obra A sociedade dos indivíduos (Jorge Zahar, 1994), do sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990). Veja mais aqui.

O SENHOR DAS MOSCAS - [...] O fogo chegou nos coqueiros junto à praia e os devorou ruidosamente. Uma chama, aparentemente isolada, torceu-se como um acrobata e lambeu as frondes das palmeiras na plataforma. O céu estava negro. O oficial sorriu alegremente para Ralph. — Vimos sua fumaça. O que estavam fazendo? Uma guerra ou algo assim? Ralph assentiu. O oficial examinou o pequeno espantalho à sua frente. O menino precisava de um banho, de um corte de cabelo, de uma assoada de nariz e de uma boa quantidade de unguento. — Ninguém morreu, espero. Há algum cadáver? — Só dois. E sumiram. O oficial inclinou-se para baixo e olhou bem de perto para Ralph. — Dois? Assassinados? Ralph concordou com um gesto. Atrás dele, toda a ilha estremecia em chamas. O oficial sabia, por ofício, quando as pessoas falavam a verdade. [...] Por um instante, vislumbrou uma imagem fugaz do estranho encanto que outrora dominara as praias. Mas a ilha estava carbonizada como lenha usada... Simon morrera... e Jack havia... As lágrimas começaram a correr-lhe pelas faces e soluços sacudiram-no. Pela primeira vez, desde que chegara à ilha, entregou-se ao choro; grandes e convulsivos espasmos de tristeza pareciam torcer todo o seu corpo. Sua voz elevou-se sob a fumaça negra diante dos restos incendiados da ilha; contagiados por aquela emoção, os outros meninos começaram a tremer e a soluçar. No meio deles, com o corpo sujo, cabelo emaranhado e nariz escorrendo, Ralph chorou pelo fim da inocência, pela escuridão do coração humano e pela queda no ar do verdadeiro e sábio amigo chamado Porquinho. O oficial, cercado por todo esse ruído, ficou emocionado e um pouco embaraçado. Virou-se para dar tempo a que se recuperassem. Esperou, deixando os olhos fixos no garboso cruzador a distância. Trechos extraídos do romance O senhor das moscas (Nova Fronteira, 2011), do escritor e dramaturgo William Golding (1911-1993).

DOIS POEMASI - Pode-se com os olhos fechados viver, / Não desejando nem mesmo a sorte / E para sempre adeus ao céu dizer. / E entender, que ao redor há apenas morte. / Pode-se viver, em silêncio esfriando, / Não contando os minutos passados, / Como vive a floresta de outono, afinando, / Como vivem os sonhos apagados. / Pode-se todo o amor renunciar, / Pode-se tudo para sempre deixar de benquerer. / Mas não pode para o passado esfriar, / Mas não pode sobre o passado esquecer! – VENTO – A natureza é um templo onde vivos pilares / Deixam filtrar não raro insólitos enredos; / O homem o cruza em meio a um bosque de segredos / Que ali o espreitam com seus olhos familiares. / Como ecos longos que à distância se matizam / Numa vertiginosa e lúgubre unidade, / Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade, / Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam. / Há aromas frescos como a carne dos infantes, / Doces como o oboé, verdes como a campina, / E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes, / Com a fluidez daquilo que jamais termina, / Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente, / Que a glória exaltam dos sentidos e da mente. / Viver do presente eu não posso, / Amo o turbamento dos meus sonhos. Poemas do poeta russo Konstantin Balmont (1867-1942).

O GOSTO DA CEREJA
O premiado filme O gosto de cereja (Palma de Ouro de Cannes, 1997), do também do premiado cineasta, poeta, roteirista, produtor e fotógrafo iraniano Abbas Kiarostami, conta a história de um homem de classe média que habita em Teerã e planeja um suicídio. Procura alguém para ajudá-lo a cavar um túmulo nas montanhas, todos se recusam e, apenas um velho taxidermista turco concorda em ajudá-lo. Porém, o contratado tenta convencê-lo a desistir da ideia, alegando que o sabor da cereja havia impedido que ele próprio cometesse um suicídio. Recomendo. Veja mais aqui.
O VI Seminário da Educação Brasileira & muito mais na Agenda aqui.
&
A arte da pintora francesa Françoise Gilot.
&
A Previdência Social é superavitária!, O socialismo de Bernard Shaw, Casablanca de Umberto Eco, a música do Quarteto Camargo Guarnieri, a arte de Judy Burgarella & Eneida Paes Lima aqui.
&
A quadrilha da paixão, A era do vazio de Gilles Lipovetsky, o cinema de Fernando Arrabal, Anouk Ferjac & Mariangela Melato; o teatro de Samir Yazbek, a fotografia de Nair Benedicto, a arte de Roland Topor & Luciah Lopez aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.
 

quinta-feira, junho 21, 2018

DIDI-HUBERMAN, PROUST, JOYCE, BOURDIEU, JESSIER, TEIXEIRA LOPES, PHILIPH DVORAK, ALFARRÁBIOS & POESIA ABSOLUTA


ESCOLHA DAS MÃOS: O QUE VALE É VIVER! – Imagem: arte do pintor, desenhista e fotógrafo estadunidense Philiph Dvorak. - Já passei por debaixo da ponte de muitas broncas e, vez ou outra, depois de pelejar tanto, umazinha lá, no bambo, lograr êxito ao acertar na caçapa. Não é nada demais, uma vez lá que seja, acertar na mosca: tum! Também sou filho de Deus, né? Porquanto, nunca reclamei da sorte, assim mesmo sempre me achei privilegiado pelo que fiz e não tenho. Nunca usei das mãos pra brigar na marra, ou arrancar pra possuir, no máximo a ler as linhas da palma, porque sempre soube uma para alcançar o que se quer e, outra, para zis coisas, afora as duas, em concha, punho cerrado, expostas. Se uma abre caminho; a outra, arma o bote ou semeia e colhe. E as duas, pedido ou entrega, sejam destros ou canhotos, tudo do nada pode brotar inventando o que não há, reinventado a si e ao redor. Tanto faz ficar ou seguir, ir ou parar, a ocasião faz a hora de dormir ou acordar, senão sigo na minha: devagar e sempre. Ao livre arbítrio, quantas escolhas a todo átimo por cara ou coroa, quem não no lá ou loa, ímpar ou par, e acertar o negócio da China ou gorar a morte da bezerra, sujeito ao escalpelo ou covarde isento de gafes escondido pelas beiradas, seguindo retardatários pra se esboroar ao sacrossanto, ou rasgar o glossário do interdito pra saborear o limiar do pecado. Sempre soube quem foi pra voltar, quem vem pra desistir: enlaces e desencontros, erros e acertos, adesões e repulsões, guisado ou frito, subir ou descer, em pé ou deitado, tanto pelo insosso certo previsto, como pelo sedutor desconhecido misterioso, nunca se sabe. Qual é, entre todas e nenhuma, ou uma ou outra, e se passei batido e nem vi a bússola entre as agruras do céu e as delícias do inferno, sorri soprando o relado da pele no reboco dos muros com suas sombras a desfazer de sonhos por ocas desilusões ou vazias vicissitudes. Assim são as escolhas e sou quem não sabe delas as consequências, nem preciso, vivo o momento no sabor do imprevisível. A vida não tem ver de novo, vale a precisão do inesquecível, a memória acendendo a libido, cada vez única, de outra não se repete, revive sem saber aonde vai dar. Não há melhor que isso, nada de repeteco, coisas de parar, retroceder e consertar o que passou, nada disso, aconteceu e foi, já era. Só fica a vivência, o experienciado inupto, singular, da gente saber o que voga, se isso ou aquilo, distinguir depois da curva ou atrás do monte, ninguém sabe, nem adianta ficar matutando se tivesse ido pro outro lado ou se tivesse tempo de pular fora antes do acontecido. Nada disso. E tudo isso, ora. Tem até quem não sabe que escolheu e fala dos outros, como se incólume da desgraceira. As coisas vão pelo tino, assim como pra quem gosta de guerra, sou pela paz e voo de beija-flor que não sobrevive ao olhar, recolhendo a música das pedras e o ensurdecedor silêncio mortuário que vem das ruas da ancestralidade milenar. Deu ou não deu, não há pra chorar, só recomeçar, refazer-se, revelar-se. Se me perdi dos passos, não é nada, voluntário vou com o coração na mão, pulsando a fazer o que posso, de novo e resiliente, porque pra quem errou demais da conta é só aprender a lição, apagar o passado e sorrir esquecido de ontem se quiser ser feliz, senão nunca mais, pra nunca ser tarde de seguir de mãos dadas, depois do celebrado e mútuo aperto de mãos nos abraços de vida. O que vale é viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

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Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música
da cantora, compositora e instrumentista Joyce: Visions of dawn, Revendo amigos, Aquarius & Ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] se a unidade doméstica é um dos lugares em, que a dominação masculina se manifesta de maneira mais indiscutível (e não só através do recurso à violência física), o princípio de perpetuação das relações de força materiais e simbólicas que aí se exercem se coloca essencialmente fora desta unidade, em instancias como a Igreja, a Escola ou o Estado e em suas ações propriamente políticas, declaradas ou escondidas, oficiais ou oficiosas (basta, para nos convencermos disto, observar, na realidade imediata, as reações e as resistências ao projeto de contrato de união social). [...]. Trecho extraído da obra A dominação masculina (Bertrand Brasil, 2002), do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), que em outra publicação, A escola conservadora: as desigualdades frente a escola e à cultura (Vozes, 2003), assinala que: [...] Além de permitir à elite se justificar de ser o que é, a ideologia do dom, chave do sistema escolar e do sistema social, contribui para encerrar os membros das classes desfavorecidas no destino que a sociedade lhes assinala, levando-os a perceberem como inaptidões naturais o que não é senão efeito de uma condição inferior, e persuadindo-os de que eles devem o seu destino social (cada vez mais ligado ao seu destino escolar) à sua natureza individual e à sua falta de dom. [...]. Veja mais aqui.

TEMPO ATUAL – [...] O apocalipse continua sua marcha. Nosso atual “mal-estar na cultura” caminha nesse sentido, ao que tudo indica, e é assim que, com frequência, o experimentamos. Mas uma coisa é designar a máquina totalitária, outra coisa é lhe atribuir tão rapidamente uma vitória definitiva e sem partilha. Assujeitou-se o mundo, assim, totalmente como o sonharam - o projetam, o programam e querem no-lo impor - nossos atuais “conselheiros pérfidos”? Postulá-lo é, justamente, dar crédito ao que sua máquina quer nos fazer crer. É ver somente a noite escura ou a ofuscante luz dos projetores. É agir como vencidos: é estarmos convencidos de que a máquina cumpre seu trabalho sem resto nem resistência. É não ver mais nada [“C’est ne voir que du tout”, é ver “apenas o todo/o tudo”, ao contrário do “apesar de tudo”.]. É, portanto, não ver o espaço - seja ele intersticial, intermitente, nômade, situado no improvável - das aberturas, dos possíveis, dos lampejos, dos apesar de tudo [...]. Trecho extraído da obra Sobrevivência dos vagalumes (EdUFMG, 2011), do filósofo, historiador, crítico de arte e professor francês Georges Didi-Huberman, que em outra obra A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg (Contraponto, 2013), expressa que: [...] Eis o que seria necessário fazer face ao esplendor e ao caos do mundo: enquadrar – isolar, para melhor o observar como que por dentro – cada fenômeno fecundo. E, para isso, seria importante também pegar no lápis, na pena e no pincel para preencher cadernos e folhas de desenho, que constituiriam ainda testemunhos dessa precisão poética que Goethe demonstra perante a diversidade do mundo sensível [...]. Veja mais aqui.

NOS CAMINHOS DE SWAN - [...] fazer penetrar a imagem de Odette num mundo de sonhos ao qual até então ela não tivera acesso e no qual ela impregnou-se de nobreza. E, ao passo que a visão puramente carnal que tivera daquela mulher enfraquecia seu amor, essas dúvidas foram dissipadas e esse amor assegurado quando teve por base os dados de uma estética exata; sem contar que o beijo e a posse, que lhe pareciam naturais e medíocres se concedidos por uma carne arruinada, vindo coroar a adoração de uma peça de museu, afiguravam-se-lhe sobrenaturais e deliciosos [...]. Trecho da obra Nos caminhos de Swan (Abril, 1979), do escritor francês Marcel Proust (1871 - 1922). Veja mais aqui e aqui.

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS ESQUERDOS HUMANOSO cabôco pode ter todo defeito do mundo: / Ser assoprador de velas antes do parabéns / Aborteiro do amor / Cacundeiro de político / Pode ser desmancha-samba / Dizedor de palavrão. / Pode ter vício, desvio: / Ser tomador de cachaça / Putanheiro, maconheiro / Vivaldino, fanfarrão. / Ter tido uma desventura: Ser corno dum mulherão. / E também ser diferente: um domador de serpente / Mais pra lá do que pra cá, peneirinha, chibateiro. / Apoucado de tamanho: / Metade de Nelson Ned / Ou mesmo um caga-baixinho. / Mulher pode ser: / Megera, concordante, oferecida / Moita-crespa ao deus-dará / Ser tabaco-militar, das que só pega soldado. / O cabôco ser machista, moralista, de direita… / Não interessa: / Têm todo o esquerdo do mundo / De ser tratado dentro do vão dos direitos. / Pois o lado direito de quem olha / É o lado perfeito e benfazejo / Do esquerdo e sensível coração. Extraído da obra Berro Novo (Bagaço, 2009), do poeta, compositor e intérprete Jessier Quirino. Veja mais aqui.

VIVA FANZINE
Foi lançado no último dia 16/06, no Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, em Niterói, o Fanzine Coletivo Alfarrábios VIII D'Além MAR!, com participação especial de Victor H. Rosa & mais: Adriana Mayrinck, Andreia Evangelista, Cláudia Lí, Jammy Said, João Ayres, Jordão Pablo de Pão, José Antonio C e Silva, José Glauco Ribeiro Tostes, Marco Valença, María Angélica Carter Morales, Mônica Firma Maciel, Spírito Santo, Tchello d'Barros, Thina Curtis & muito mais! Produção: Armazém de Quinquilharias e Utopias Brasil. PS: Alfarrábios não tem dono, não tem liderança, não visa lucro. As edições são a preço de custo e o valor de venda se destina a reposição do investimento, propiciando a auto sustentabilidade.
A Poesia Absoluta aqui & muito mais na Agenda aqui.
&
A arte do escultor português Teixeira Lopes (1866-1942) aqui.
&
Em cada esquina a vida passa, Era secular de Charles Taylor, A educação estética de Friedrich Schiller, o cinema de Lúcia Murat & Luciana Rigueira, a arte de Benjamin Cassiano & Sarau Poesia Revista aqui.

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quarta-feira, junho 20, 2018

DESBORDES-VALMORE, KITARO, PERNIOLA, VOLTAIRINE DE CLEYRE, BLANCHOT, NICOLE KIDMAN, ELLY SMALLWOOD & FÁBIO DE CARVALHO


O QUE FIZ DE MIM E NÃO SEI – Imagem: arte da artista visual canadense Elly Smallwood. - No topo de um imenso morro, um cenário paradisíaco: o regato, as matas, o encontro do mar, será o fim do mundo? Como cheguei aqui nem o que fazia agora, não sabia. Mais parecia um filme, eu o protagonista perdido numa linda paisagem que não sei se amanhecia ou se preparava o anoitecer, o Sol escondido apenas seus raios no céu, tudo parecia parado, embora uma brisa fresca me envolvesse. Procurei identificar aquelas paragens, não era a Serra da Prata nem da Russa, as mais próximas, nem nenhuma das que já tivesse passado, porém familiar. Inquieto, não parava de me perguntar como fui parar nesse ponto do mundo, e me desesperava porque não sabia como sair dali. Fiz a volta em torno de mim mesmo, não havia caminhos por onde pudesse ter chegado ou pudesse voltar. Parei no mesmo ponto de antes, fitei todos os limites e uma voz soou do nada: Lindo cenário. Era uma voz que não era desconhecida e não havia ninguém. Arrepiei e tornei a procurar ao meu redor, intrigado. Sabe você quem é? Estava próximo de mim, não conseguia ver quem era. Sabia ali, não visível. Veja ali você ontem, disse-me. E de repente vinha alguém no matagal denso, e via perfeitamente, andando, à procura de algo que não consegui distinguir. Ontem? Sim, na eternidade, um dia é igual a todo tempo de uma encarnação. Ao dizer-me isso, uma cobra enorme e ameaçadora passou-me entre as pernas em direção àquele outro eu que subia investigando todos os lugares que pisava. Fiquei assustado. Não se assuste, olhe ali seus familiares. Ao virar, constatei uma reunião de muitas pessoas desconhecidas: Não conheço ninguém ali. Sim, você não se lembra nada do que fez ontem, não há como rememorar as tantas coisas feitas, nem a família, os amigos, os prazeres, os caprichos, nada, mesmo assim você é hoje o que fez ontem. Ao dizer-me isso, percebi que a serpente alojou-se justamente em local que aquele eu se aproximava, ela pronta pro bote. Tentei gritar, avisando. Não adianta, disse-me a voz invisível. E dali a pouco presenciei o ataque: a víbora voou ao pescoço daquele eu, enroscou-se ao tronco coibindo qualquer ação dos braços e desferiu golpes às mordidas na jugular, até vê-lo cair imóvel à sua sanha venenosa. Como pode? Você não pode fazer nada. Dois estranhos apareceram naquele instante e avistaram aquele eu sendo atacado. A malacatifa logo se desenrolou daquele eu e fugiu rastejando. Logo tentaram socorrê-lo e gritaram por ajuda. Os estranhos que se reuniam lá embaixo, logo se dirigiram subindo ao encontro dos outros dois que tentavam reanimá-lo. Foram vindos homens, mulheres e crianças, todos que nunca tinha visto, choravam e se lamentavam agarrados ao morto que, após algum tempo, foi levado morro abaixo para onde não sei. Acompanhei a descida, quando a voz me disse: Aquele ali é você anteontem. Anteontem? Sim. Onde? Ali. E me virei e era aquele eu remando desesperado pela corredeira, sozinho escapando de não sei quê. Você não se lembra do que fez anteontem. Não, não me lembrava de nada, mesmo, nem daquele eu tão agoniado para salvar-se. Da mesma forma, não se lembra dos parentes, achegados, vitórias e derrotas, luxúria e malquerenças, não há de ter a menor noção, porque hoje você é o que foi ontem e anteontem. Impressionado eu acompanhava a pugna com as águas revoltas, a noite escura, nenhum lugar. Só muito depois que vi o voo, a cachoeira, um corpo em queda, uma jangada desgovernada que caía e um remo que levitava para se enterrar no chão, ao lado de um corpo inchado e sem vida. Quando vi direito, aquele eu boiava na margem, até ser encontrado por pessoas estranhas: Esses são seus familiares de anteontem. Também não reconheci. A voz então disse: Hoje você está aqui, se lembra do que fez hoje? Virei-me, ninguém do lado, respondi assim mesmo negativamente, não recordava de nada. Quer ver seu futuro? Abri os olhos espantados esperando uma resposta. Por um instante não disse nada, um silêncio absoluto tomou conta de tudo por ali. Um porco rosnou distante, pássaros em revoada, um cheiro de rosa, um vulto de mulher passou rente, mãos apertadas, olhos no vazio, faces perdidas. Então, ele me falou: Não, não há mais futuro, chegou a hora. Vamos. Baixei a cabeça e não sabia o que fazer. Como de um sonho, acordei; e estava tão desencontrado quanto perdido. Apenas me sabia vivo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor, música e mult-instrumentista japonês Kitaro: Live in America, Live na Enchanted Evening, Daylught Moonlight Live & Oasis & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] E quando todos tenham passado novamente através de mim, porque embora eu não me lembre, eles já passaram uma vez; e além de outras considerações, quando todos tenham passado de novo através de mim, será uma imensa satisfação, porque eu lhes poderei dizer a todos que são o primeiro, que aquelas coisas que faço com eles não as fiz nunca com ninguém [...]. Pensamento extraído da obra Tiresia (Silva, 1968), do filósofo italiano Mario Perniola (1941-2018), que noutra obra, Do sentir (Presença, 1993), expressa: [...] Não nos devemos deixar arrebatar pelo impulso exterior e devemos refletir com tempo e deixar que o repouso acalme completamente a emoção! [...]. Veja mais aqui.

SONHO & SEMELHANTE – [...] O sonho é o despertar do interminável [...]. O sonho toca a região onde reina a pura semelhança. Tudo nele é semelhante, cada figura nele é uma outra, é semelhante a outra, e ainda a uma outra, e esta a uma outra. Procura-se o modelo original, quer-se ser remetido a um ponto de partida, a uma revelação inicial, mas nada disso existe: o sonho é o semelhante que remete eternamente ao semelhante. […] Viver um acontecimento em imagem não é ter desse evento uma imagem nem tampouco dar-lhe a gratuidade do imaginário. O acontecimento, nesse caso, tem lugar verdadeiramente e, no entanto, terá ele lugar “verdadeiramente”? O que acontece nos arrebata, como nos arrebataria a imagem, ou seja, nos despoja, de si e de nós, mantém-nos de fora, faz desse fora uma presença em que o “Eu” não “se” reconhece. [...] Essa duplicidade não é tal que se possa pacificá-la por meio de um ou isto ou aquilo, capaz de autorizar uma escolha e de apagar da escolha a ambiguidade que a torna possível. Essa duplicidade remete ela própria a um duplo sentido sempre mais inicial. [...] Aqui, o sentido não escapa para um outro sentido, mas para o outro de todo sentido e, por causa da ambiguidade, nada tem sentido, mas tudo parece ter infinitamente sentido: o sentido não é nada além de uma aparência, a aparência faz com que o sentido se torne infinitamente rico. [...]. Trechos extraídos da obra L’espace littéraire (Galimard, 1955), do escritor, ensaísta e crítico de literatura Maurice Blanchot (1907-2003). Veja mais aqui e aqui.

AÇÃO DIRETADo ponto de vista daquele que se julga capaz de discernir uma rota constante para o progresso humano, e segue por ela, e desenha tal rota no mapa de sua mente, certamente resolverá indicá-la aos outros; fazê-los ver as coisas como ele vê; convencê-los com argumentos claros e simples que expressem seus pensamentos -- diante disso é um sinal de pesar e de confusão de espírito o fato da frase «Ação Direta» adquirir de repente na mente das pessoas em geral um significado circunscrito, que não tem, e que certamente nunca teve, nem mesmo no pensamento de seus adeptos. Porém, essa é mais uma ironia que o Progresso lança naqueles que se julgam capazes de fixar metas e lutar por alcançá-las. Inúmeras vezes, nomes, frases, lemas, divisas, palavras de ordem, são viradas ao avesso, colocadas de cabeça para baixo. [...] Logo após a chegada dos Quakers em Massachusetts, os Puritanos os acusaram de “aborrecer todo mundo com seus discursos”. Os Quakers não aceitavam jurar submissão a governo algum e nem admitiam que sua igreja pagasse impostos. (Fazendo essas coisas eles eram praticantes da ação direta, coisa que poderíamos chamar de ação direta negativa.) Assim, os Puritanos, sendo ativistas políticos, aprovavam leis para excluir, deportar, multar, encarcerar, mutilar, e finalmente, até mesmo para enforcar os Quakers. Todavia, os Quakers continuaram praticando suas idéias (que era ação direta positiva); há registros na história que depois de enforcarem quatro Quakers e de arrastarem Margaret Brewster presa ao para-choques de um carro pelas ruas de Boston, “os Puritanos desistiram de tentar silenciar os missionários; a persistência e não-violência quacre acabou prevalecendo”. [...] pessoas que perderam o hábito de lutar por si mesmas enquanto indivíduos, pessoas que se submetem a toda injustiça esperando que uma maioria seja formada, são metamorfoseadas em humanos de alto poder explosivo por um mero processo de empacotamento! Eu concordo totalmente que as fontes da vida, e toda a riqueza natural da terra, e as ferramentas necessários à produção cooperativa, tem que estar livremente acessíveis a todos. [...]. Trechos extraídos de The Voltairine De Cleyre Reader (AK Press, 2004), da escritora e ativista anarquista estadunidense Voltairine de Cleyre (1866-1912). Veja mais aqui.

A SINCERA - Você quer comprar? / Coração à venda. / Você quer comprar, / Sem ter que brigar? / Deus o fez de aço; / E você que o renda; / Deus o fez de aço / Para um só abraço! / Eu decido o preço; / Você quer saber? / Eu decido o preço; / Não fique surpreso. / Você tem o seu? / Dê! ganhe meu ser. / Você tem o seu, / Pra pagar o meu? / Se seu não é mais, / Só tenho um desejo; / Se seu não é mais, / Pra mim não há paz. / O meu seguirá, / Cerrado sem pejo; / O meu seguirá, / E Deus o terá! / Pois para a paixão, / A vida é tão rara; / Pois para a paixão, / Não há duração. / A alma só corre / Como a água clara; / A alma só corre, / Só ama! e morre. Poema da poeta maldita francesa Marceline Desbordes-Valmore (1786-1859). Veja mais aqui.

A ARTE DE NICOLE KIDMAN
A arte da sempre linda e extremamente talentosa atriz australiana Nicole Kidman. Veja mais aqui, aqui e aqui.


Fábio de Carvalho & banda em show & muito mais na Agenda aqui.
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Imagem: arte da artista visual canadense Elly Smallwood.
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A poesia de Fábio de Carvalho aqui e aqui.
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A bolsa da vera bandoleira, Civilização e barbárie de Jean-François Mattei, a poesia de Marceline Desbordes-Valmore, a ação direta de Valtairine de Cleyre, a Venus Aphrodite Callipyge & a música do OuroBa aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.
 

terça-feira, junho 19, 2018

CALVINO, DAZAI, CHICO BUARQUE, MERLEAU-PONTY, JOSÉ RIZAL, RIBEMONT-DESSAIGNES & MIGRANTES


DESMANTELO SÓ PRESTA GRANDE – Imagem: Silence (1915), do pintor, escritor e dramaturgo francês Georges Ribemont-Dessaignes (1884-1974). - A função começou cedo no domingo, bastou o pé-de-serra ditar o ritmo das horas logo de manhãzinha. Umas aos outros se achegando com alvoroço: É hoje! Estalos de tampas das garrafas, assados no fogareiro, correria pra lá e pra cá arrumando as coisas, lapadas de dois-dedos amargando na garganta, viradas de copo na lavada, caretas, tinindos, papo vai, papo vem: É hoje que vou lagar a jega! A coisa passou de chegança pra pandemônio: Vamos nessa, Brasilzilzilzil!, gritou um exaltado. Ninguém revidou, só aplausos e torcida. Uma risadagem aqui, uma pilhéria ali, e a coisa foi tomando ares incontroláveis. Não era nem meio-dia e o movimento ganhou pressão. Gente até de um olho só se amontoava como podia puxando tamboretes, aglutinando mesas, cada qual dimensionando o seu espaço: Arreda, vai! Aqui sou eu! No fundo havia uma esfuziante confraternização, abraços, beijos, apupos, enxerimentos, provocações e ameaças veladas. O rastapé já se insinuava, a poeira comia no centro com o arrastado dos solados. Segura o trupé, gente!, berrou o sanfoneiro castigando no dedilhado, a zabumba e o triângulo só na marcação. Rodadas de saias, encoxamentos, fungados e uma exigência de respeito: Para tudo! Atenção, mundiça, respeito no salão que isso é de família! E tudo voltava ao normal com o baticum comendo no centro. Daí a pouco a coisa fervia com o mormaço da tarde. Suores na pegação, odores de festança, comes e bebes, embeiçadas, arregueiros de plantão, o fuá corria solto e tudo na santa paz. Havia chegado a hora, ajeitaram a tevê em cima da mesa, ninguém aí porque ainda era hora dos hinos. Ao apito do juiz, imperou o silêncio, olhos grudados, nem um pio – cachorro que latisse ou bicho que aparecesse com o menor zumbido, era enxotado -, só Galvão balançando as besteiradas e aumentando a tensão. Unhas roídas, pernas inquietas, maior concentração para não se perder o mínimo lance. Alguns minutos e a explosão: gol! Dá-lhe, Brasil! Uma ovação. Ah, pelo jeito esse será de lavagem! Não foi, passou-se o tempo, acusaram o juiz de ladrão, os jogadores de pernas-de-pau, o técnico de burro, enfim, duzentos milhões de torcedores dando pitaco em cada jogada. Findou o primeiro tempo e o alívio instalou-se por ali. Filas no banheiro, pedidos renovados e aos montes, empolgações e ranzinzices: Quero só ver a lapada agora! Ufanidades à flor da pele: Essa vai ser de lambuja! Segura a onda, comboio de corno, que a coisa recomeçou! É agora! Não foi. Nem bem começou o segundo tempo, gol contra: Isso é a porra, meu! Placar empatado: Vamos partir com tudo! E foi, não deu. Os minutos passavam e os nervos aflorados: Esse timeco é só de faro! Se fosse o Sport já tava dez a zero! Deixa de pacutia, alesado! Ôxe, o Sport num ganha nem prum time de várzea, tinha que ser o meu Santa Cruz pra dá uma goleada medonha! Vixe, nenhum docês sabem nada, se fosse o Náutico já tinha mandado os gringos pra casa! E a coisa esquentou, entrou em ebulição: Aparta! Acalmaram os ânimos ainda remoendo e a bola ia e vinha e nada de entrar: Isso é a cega Dedé! Eu mesmo vou torcer agora pros gringos! Cala boca, fresco! Fresco é seu pai! Fecha o bico, viado! Puta é a sua mãe! Pulha pra lá, desaforo pra cá, deu-se a arenga e o pau cantou: cachaça, tapa e gaia! Segura o pencó, putada! Pega esse corno da gaia mole! Facas e canivetes empunhadas, bastou um pipoco de bala, correu todo mundo. E o jogo findou empatado pra prejuízo de todos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do escritor, teatrólogo, compositor, músico e cantor Chico Buarque: Carioca, Na carreira, As cidades & Le Zenite ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] a experiência da percepção nos põe em presença do momento em que se constituem para nós as coisas, as verdades, os bens: que a percepção nos dá um logo em estado nascente, que ela nos ensina, fora de todo dogmatismo, as verdadeiras condições da própria objetividade: que ela nos recorda as tarefas do conhecimento e da ação. [...]. Trecho extraído de A linguagem indireta e as vozes do silêncio (Martins Fontes, 1991), do filósofo fenomenólogo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). Veja mais aqui.

SEIS PROPOSTAS PARA O PRÓXIMO MILÊNIO[...] A mente do poeta, bem como o espírito do cientista em certos momentos decisivos, funcionam segundo um processo de associações de imagens que é o sistema mais rápido de coordenar e escolher entre as formas infinitas do possível e do impossível. A fantasia é uma espécie de máquina eletrônica que leva em conta todas as combinações possíveis e escolhe as que obedecem a um fim [...] que futuro estará reservado à imaginação individual nessa que se convencionou chamar de “civilização da imagem”? [...] Na sua sabedoria e pobreza molisanas, o doutor Ingravallo [...] sustentava, entre outras coisas, que as catástrofes inopinadas não são jamais a consequência ou o efeito, como se costuma dizer, de um motivo único, de uma causa singular: mas são como um vórtice, um ponto de depressão ciclônica na consciência do mundo, para as quais conspirava toda uma gama de causalidades convergentes [...]. Trechos extraídos da obra Seis propostas para o próximo milênio (Vozes, 2000), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui.

A MULHER DE VILLON – [...] ― Quando a guerra começou, e os bombardeios passaram a ficar mais perigosos, ainda assim continuamos em Tóquio. Não tendo filhos nem outros motivos para nos deslocarmos para o interior, decidimos continuar o negócio até que nos caísse uma bomba na cabeça. Se mantivéssemos nosso negócio até o fim da guerra, ainda que sofrendo, teríamos enfim um alívio. Por isso, acabamos produzindo álcool ilícito, por pouco tempo, apenas o suficiente para reabastecer nosso estoque. E, ainda que por pouco tempo, não tivemos muita dificuldade — até um pouco de sorte. Mas essa vida sempre prepara algo de ruim para nós. É como dizem, para cada sun de felicidade, há um shaku de maldade. É realmente uma verdade. Se, em um ano, você tiver um dia, ou mesmo meio dia, sem nenhum problema, pode se considerar uma pessoa de sorte. [...] ―Senhora, esta foi a única vez, de todas, que recebemos algum dinheiro dele. Desde então, ele só vem, há três anos, nos enganando e empurrando com a barriga sem pagar sequer um tostão. Bebeu todo o nosso estoque de álcool quase sozinho, secou tudo, é inacreditável! Então, sem nem perceber, comecei a gargalhar. Não sei exatamente qual era a graça, mas não consegui me segurar. Confusa, cobri a boca, mas, ao olhar para a senhora com o canto do olho, percebi que, estranhamente, ela também ria. E então seu marido também, sem outra opção, esboçou um riso triste. [...] Novamente, de algum lugar na história toda, alguma graça pareceu ter se apossado de mim, e eu ri em voz alta, não conseguindo me segurar. Gargalhava, enquanto a senhora deu um leve sorriso, ficando com o rosto vermelho. Eu, sem conseguir parar de rir, comecei a pensar mal de meu marido e me veio um sentimento estranho e engraçado ao mesmo tempo, e comecei a chorar, enquanto seguia rindo. Lembrei de um de seus poemas, ―Gargalhada dos frutos da civilização, e pensei se não era a esse sentimento que ele estaria se referindo. [...]. Trechos extraídos de La Femme de Villon (Rocher, 2005), do escritor japonês Osamu Dazai (1909-1948). Veja mais aqui.

MEU ÚLTIMO ADEUS - Adeus, Pátria adorada, região de sol querida. / Pérola do mar de Oriente, nosso perdido Éden! / Vou te dar alegre a triste e murcha vida. / E fosse mais brilhante, mais fresca, mais florida, / Também para ti daria, a daria para teu bem. / Em campos de batalha, lutando com delírio / Outros te dão suas vidas, sem dúvidas, sem pesar; / O lugar não importa: cipreste, laurel ou lírio. / Cadafalso, campo aberto, combate ou cruel martírio. / São iguais quando as pedem a Pátria e o lar. / Eu morro quando vejo que o céu se colora / E o fim anuncia o dia atrás, lúgubre capuz; / Se carmesim necessitas para ter tua aurora, / Verte meu sangue, derrama-o em boa hora / Doura-o com o reflexo de sua nascente luz. / Meus sonhos quando apenas moço adolescente, / Meus sonhos quando jovem já cheio de vigor, / Foram te ver um dia, joia do mar de Oriente, / Com olhos sem lágrimas, de testa reluzente / Sem cenho, sem rugas, sem mancha de rubor. / Sonho de minha vida, meu ardente anseio, / Salve! Grita a alma que logo irá partir! / À tua liberdade caio feliz sem receio! / Morrer pra dar-te vida, morrer em teu seio / Encantada terra, a eternidade dormir. / Se sobre meu sepulcro vieres brotar um dia, / Entre espessa erva, simples e humilde flor, / Aproxima teus lábios e beija minha alma / Que sinta no rosto embaixo da tumba fria / De tua ternura o sopro, de teu hálito o calor. / Deixa a lua me ver com luz tranquila e suave, / Deixa que a alva envie resplendor fugaz, / Deixa gemer o vento com seu murmúrio grave; / Se baixar e pousar sobre minha cruz uma ave, / Deixa que entoe seu lindo cântico de paz. / Deixa que o sol ardente as chuvas evapore / E ao céu voltem puras com meu clamor de adeus, / Deixa que um ser amigo meu fim precoce chore / E nas serenas tardes quando por mim alguém ore / Ora também, oh Pátria, por meu descanso a Deus! / Ora por todos quantos morreram sem ventura, / Por quantos padeceram tormentos sem igual, / Por nossas pobres mães que gemem sua amargura, / Por órfãos e viúvas, por presos em tortura / E ora por ti que vejas tua redenção final. / Quando noite escura envolve o cemitério / E só, apenas mortos ficam velando ali / Não perturbes repouso, não perturbes mistério; / Talvez acordes ouças de cítara ou saltério / Sou eu, querida Pátria, sou eu que canto a ti. / E quando minha tumba de todos esquecida / Já não tiver cruz nem pedra que marque seu lugar, / Deixa que a are o homem, que espalhe com inchada / E minhas cinzas, antes que retornem a nada, / O pó do teu tapete permite que vão formar. / Então nada me importa que me ponhas no olvido; / Teu céu, teus montes, prados e vales eu cruzarei / Vibrante e limpa nota serei ao teu ouvido, / Aroma, luz, cores, rumor, canto e gemido / Sem cessar a essência de minha fé ecoarei. / Minha Pátria adorada, dor de minhas dores. / Querida Filipinas, ouça o último adeus, / Aí te deixo tudo, meus pais e meus amores. / Vou aonde não há escravos, verdugos, opressores. / Aonde a fé não mata, aonde quem reina é Deus. / Adeus, pais e irmãos, pedaços de minha alma, /Adeus amigos da infância do perdido lar, / Deem graças que descanso do fatigante dia. / Adeus, doce estrangeira, minha amiga e alegria! / Adeus, queridos seres, morrer é descansar. Poema do escritor, jornalista, oftalmologista e revolucionário nacionalista filipino José Rizal y Alonso (1861-1896).

O MIGRANTE
O documentário O migrante (2007), direção de Beto Novaes, Francisco Alves e Cleisson Vidal, com edição de Luiz Guimarães, apresenta as condições trabalhistas desumanas de cortadores de cana e mostra a hipocrisia do discurso da “modernidade” no campo brasileiro e expõe realidade dos migrantes nordestinos. É o resultado de parceria entre quatro universidades federais; a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Piauí (UFPI) e Universidade Federal do Maranhão (UFMA), tendo sido lançando Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), em 2007, e exibido em uma série de eventos posteriores. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


XV Fórum do Forró & muito mais na Agenda aqui.
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A arte do pintor, escritor e dramaturgo francês Georges Ribemont-Dessaignes (1884-1974).
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O cinema brasileiro aqui e aqui.
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Ad captandum vulgus, Aprender a viver de Luc Ferry, a literatura de Salman Rushdie, o balé de Allison DeBona, a pintura de Renata Brzozowska & a poesia de Léa Marinho aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.
 

GOLDING, BALMONT, STEINER, NORBERT ELIAS, MILTON NASCIMENTO, KIAROSTAMI & FRANÇOISE GILOT

TRÊS & UMA VIDA SÓ – Imagem: A Gordiuszi csomó III (2005), da pintora francesa Françoise Gilot . - Numa bela manhã de 1552, nascia E...