sábado, agosto 06, 2022

ROSÁRIO CASTELLANOS, DIANE DI PRIMA, LOUELLA PARSONS, EVANDRO NICOLAU & VITAL CORRÊA DE ARAÚJO

 

 

TRÍPTICO DQP: Itinerar pelos devires e espaventos... - Ao som do álbum Diários de vento (Prêmio de Música TerraUna Ibermúsicas, Serra da Mantiqueira, 2016), da compositora e multi-instrumentista Joana Queiroz - Voo pelas praças e por aí: a cidade se confunde com o abandono das imundícies. É quase tão inabitável quanto a sede ressentida que esmola em meu peito à procura da mão amiga jamais vista. Só os invisíveis estirados nas calçadas de agosto saúdam o que já morreu faz tempo, enquanto ensaio as Despedidas de Rosário Castellanos: Queríamos aprender a despedida / e rompemos a aliança / que unia o amigo com o amigo. / E nós preenchemos a lacuna / entre amizades divididas. / Para aprender a sair, andamos. / Deixamos para trás as colinas, os vales, / os prados verdejantes. / observamos sua beleza, / mas não ficamos. Prossigo e os farrapos dum fantasmenino estende a mão com seus olhos famintos de espera a me levar entre vultos alheios como sombras divagantes pela sedução insone da ganância. Ele me olha com um sorriso inocente de quem é apenas uma criança e o seu gesto me diz do poema Gente que gosto, do Mário Benedetti: Antes de mais nada gosto da gente que vibra, / que não é necessário empurrar,/ que não se tem que dizer que faça as coisas / e que sabem o que tem que ser feito / e o fazem em menos tempo que o esperado. / Gosto da gente com capacidade de medir / as consequências de suas ações. / A gente que não deixa as soluções para a sorte decidir. / Gosto da gente exigente com seu pessoal e consigo mesma, / mas que não perde de vista que somos humanos / e que podemos nos equivocar. / Gosto da gente que pensa que o trabalho em equipe, entre amigos, / produz às vezes mais que os caóticos esforços individuais. / Gosto da gente que sabe da importância da alegria. / Gosto da gente sincera e franca, / capaz de opor-se com argumentos serenos e racionais às decisões de seus superiores. / Gosto da gente de critério, / a que não sente vergonha de reconhecer / que não conhece algo ou que se enganou. / Gosto da gente que ao aceitar seus erros, / se esforça genuinamente por não voltar a cometê-los. / Gosto da gente capaz de criticar-me construtivamente e sem rodeios: / a essas pessoas as chamo de meus amigos. / Gosto da gente fiel e persistente / e que não descansa quando se trata de alcançar objetivos e ideais. / Gosto da gente que trabalha para alcançar bons resultados. / Com gente como esta, me comprometo a tudo, / já que por ter esta gente ao meu lado me dou por satisfeito. Ele, então, meninamente abre os braços e dou-lhe o meu afago e tudo é como se eu escutasse o trecho doutro do poeta uruguaio insistindo ao meu ouvido que eu não desista: Ainda há fogo em sua alma, / Ainda há vida em seus sonhos / Porque cada dia é um novo começo, / Porque este é o momento e o melhor tempo. / Porque você não está sozinho, porque eu te amo. O seu abraço ensolarou os meus anoitecidos dias, não havia como ignorar, esse aconchego me levou a perseguir caminhos proutras descobertas, mesmo que amanhã pareça distante e sequer pouso algum tenha para mirar.

 


Um verso não brota à toa... - Restou-me a mim os meus próprios redemoinhos e fui arrastado para o Labirinto Verbo de VCA. O poetamigo mostrou-me mais que a loucura dos meus próprios dédalos no seu jeito aberto e desanuviou o trajeto agora desembaraçado nas paredes que se tornaram Monósticos entroutros poemas esgarçantes da venda mitológica dominante, desvelando o Minotauro como se me dissesse que É de lástima a pele dos pusilânimes que se esvaíram nas Líricas Chacinárias deste e de todos os tempos. Não, não era uma encruzilhada nem malsinações caluniosas dos óbices impostores, definitivamente não era porque a Ascese é uma mulher transfigurada em muitas outras. E entre elas a escritorestadunidense Louella Parsons (1881-1972) dissesse: Não é da minha natureza chorar por muito tempo. É uma das bênçãos da minha vida que as coisas que são passadas - são passadas. As calamidades de ontem são apenas o desafio de hoje. Eu posso descer - mas não posso ficar lá... Quase qualquer pessoa que já alcançou qualquer tipo de estatura pública em sua profissão pode esperar ver, às vezes, um reflexo em um espelho rachado. Atento ouvia tudo mesmo que parecesse me iludir ali instantaneamente confessional com a Carta Revolucionária nº 1, da poetativistestadunidense da Geração Beat, Diane di Prima (1934-2020): Acabo de perceber que o que está em jogo sou eu / Não tenho outra moeda de resgate, nada para / quebrar ou trocar, a não ser minha vida / meu espírito parcelado, em fragmentos, esparramado sobre / a mesa de roulette, eu recupero o que posso / só isso para enfiar embaixo do nariz do maitre de jeu / só isso para jogar pela janela, nenhuma bandeira branca / só tenho minha pele para oferecer, para fazer minha jogada / com esta cabeça imediata, com aquilo que inventa, é a minha vez / enquanto deslizamos sobre o tabuleiro, e sempre pisando / (assim esperamos) nas entrelinhas. Era como se lesse a minha alma estilhaçada e não tivéssemos nenhuma outra possibilidade de escapar daquele angustiante momento tenebroso, só a poesia nos salvava e eu pude segui-la rumalhures sem que soubesse qual direção seguíamos.

 


A paz age na paisagem”... – Imagem: fotograma do professor, compositor e artista visual Evandro Carlos Nicolau - Tantas paragens entre iridescentes meteoros esvoaçantes e cascalhos do meu chão fantasmagórico, até uma ancoragem sabia-se lá onde, nalgum tempespaço amigável e era Graça Lins apontando a manchete jornalística a respeito da necessidade de se ter amizades positivas para uma vida saudável, mas como se eu sequer sabia dalguma coisa próxima no espaçagora temperdido, não fosse ela própria a benfazeja instância dos sonhos que viajei nas asas de Darel e pude ouvir da sua graça e jeito o que dissera Evandro Carlos Nicolau: Mesmo sem percebermos todos estamos deixando marcas de nossas ações movimentos, interferências no mundo... E foi ao som de um trecho da canção dele mesmo, Viver além, do álbum Esboço (2016): ...o que desejo é não querer nada apenas tenho os meus pés na estrada... E seguisse assim aos Archivos del Sur para ganhar um Heráclito poema de Araceli Otamendi: eu sou feito de barro / eu moro em um pote / e a água passa... E um convite poético inusitado dela: Há uma cidade dentro de uma cidade... / saio a caminhar... Então fomos todos de mãos dadas singrando a delicadeza dos potentes afetos que nos fazem tão vivos quanto humanos atravessando o mais terrível flagelo na nossa doce ilusão de indelével incolumidade. Até mais ver.


 

[...] uma práxis pedagógica que pretenda ser emancipada e emancipadora não pode se furtar da responsabilidade de promover um clima cultural que favoreça o desenvolvimento de uma identidade autocrítica, de uma proposta pedagógica que permita com que os agentes educacionais experienciem verdadeiramente tanto os vínculos entre si quanto também os fracassos amealhados no processo ensino- aprendizagem que podem se transformar em sucesso; que conceda oportunidade de que o aluno e o mestre enfrentem seus medos e percebam que é o trabalho coletivo, que respeite as diferenças, aquele que produz uma individualidade não-patológica [...].

Trecho extraído da obra Indústria Cultural e educação: o novo canto da sereia (Autores Associados, 1999), do professor Antônio Álvaro Soares Zuin. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



segunda-feira, agosto 01, 2022

ANN BRASHARES, MALALA YOUSAFZAI, MEIR SHALEV & MIRÓ DA MURIBECA

 

 

TRÍPTICO DQP: De máscaras & personas... - Ao som do Concert Excerpts @International Guitar Festival Ferran Sor (2020), da violonista espanhola Anabel Montesinos. - O que vejo e sou: a máscara traz a persona que se mostra no palco do mundo e no cenário da vida. A aparência preferida almeja protagonizar entre os arquétipos de Jung e o senso diante da escolha entre os princípios de Freud: o prazer e a realidade. A lucidez é um detalhe e não precisa ser sisuda, como diria Nise da Silveira, seria uma chatura por esconder o real sob o ideal. E essa manipulação não seria lá tão saudável, ou quem capaz do Poema em linha reta ou da Tabacaria de Pessoa, enquanto visualizasse aquela que Carl Rogers colocou no centro da fenomenologia-existencial. Talvez seria melhor considerar o que dissera a escritora estadunidense Ann Brashares: Talvez haja mais verdade em como você se sente do que no que realmente acontece... Talvez a verdade seja que há um pouco de perdedor em todos nós. Ser feliz não é ter tudo em sua vida perfeito. Talvez seja sobre juntar todas as pequenas coisas... Ou atentar para o que escrevera o escritor israelense Meir Shalev: Se ao menos pudéssemos nos livrar de todas as coisas mortas dentro de nossos próprios corpos e almas!... Cada qual seu repertório de representações no ludo vital, sabendo-se de antemão que na cena, diz Stanislavski, deve-se expor o que vem de dentro para não ser um histrião no meio dos outros. É que por trás da máscara mil semblantes podem reverberar...

 


Dum lado a outro a vida se manifesta... – Imagem: arte da sulcoreana Stella Im Hultberg. - Um clique, o estalo, zás. Dentro: um som, tons. Daí sílabas e sonoridades: uma palavra, uma sinapse neuronal, zis significados – senão todos à mercê da percepção. Disso um dedo, o sinal e quantos sentidos (do caos, quantas expressões por descobrir). O simples ato apenas sugeriu e tudo, exatamente tudo pode acontecer: um fio puxa outro, teias. Não é só uma coisa ou outra, de um ponto: todas as ideias – rizomas, galhos dendríticos pulsantes escorrem pelo axônio: as terminações atraem umas às outras, as escolhas, imantações. Quanto poderia se dizer de um simples ato: vibrações ecoam, reverberam algures. E se uma emergiu aqui pode ser outra noutra percepção. Dita o poder de síntese de quem se expressa, a imaginação de quem perceber. Não só, cabe o mundo inteiro em uma só palavra, quanto mais em duas, três, seis. E se uma fonte expede sêxtuplas rajadas de gotas entre muitas outras que circundam e desembocam na emersão do universo à seletividade, níveis da compreensão. É só um triz, apenas, em meia dúzia de jatos com outros pingos condensados, aleatórios ou não, quantas emissões: em cada gota significados implícitos; e, se reunidas, múltiploutros. Ou como diz Cees Nooteboom: O mundo é uma referência cruzada sem fim... Cada período da história tem seus próprios castigos, e o nosso tem uma infinidade... Essa é a diferença entre deuses e homens. Os deuses podem mudar a si mesmos; humanos só podem ser mudados... Quem fala e quem ouve entre empatias e dissonâncias, transmissões e retransmissões: dum lado a outro a vida se manifesta.

 


D’agosto e lá se vai... - Imagem: arte da sulcoreana Stella Im Hultberg. - Era eu menino pelos quatro anos de idade e bateram no portão de quase derrubá-lo – era o início do tenebroso período ditatorial do golpe militar de sessenta e quatro. Começou no primeiro de abril e me assustou: botas expunham fuzis das fardas, vasculhando salas, quartos e quintal. Não sabia o que queriam, só sei que todos os dias marchavam bravos lá em casa e eu, toda vez, entre um dos braços de minha mãe grávida, agarrado à minha irmã. Lembro certa vez ela gritou que era agosto e eles nem consideraram: estava prestes a dar à luz. Lembrei-me porque li A história de mim de Graça Lins, como se lesse um poema de Miró da Muribeca (1960-2022): olhei para o passado / as folhas dos calendários / caindo / é preciso plantar cedo sua árvore / pra mais tarde ter uma sombra / que lhe agasalhe... Agora novamente agosto como o poema de Tchello d’Barros: O tempo desenha na face / O alto custo de um imposto / Pois lento nos dá outro susto / Chegamos a outro agosto / Posto que o destino é vasto / E visto o que está posto / Este viver tão sucinto / Nesta sina a contragosto / Dias semanas e meses / Somam em si um desgosto / No raso espaço do espelho / Os anos esculpem seu rosto... e eu sozinho conto de Emily Brontë: Deixe-me a sós, que preciso pensar; enquanto penso, não sofro… Do que passou e o presente, lembranças tão vivas como ecoassem agora. Até mais ver.

 


Um livro, uma caneta, uma criança e um professor podem mudar o mundo. A diversidade garante que crianças possam sonhar, sem colocar fronteiras ou barreiras para o futuro e os sonhos delas. Vamos pegar nossos livros e canetas. Eles são nossas armas mais poderosas. Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo. A educação é a única solução. A educação é o poder das mulheres.

Pensamento da ativista paquistanesa Malala Yousafzai. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


sábado, julho 23, 2022

EMMA LAZARUS, ARHUR DANTO, DARCY RIBEIRO, DUDA DO RECIFE & POETA PICAPAU

 

 

TRÍPTICO DQP: Assim como a noite, também vai o dia... - Ao som da Suíte Nordestina, com o maestro Duda do Recife e a Orquestra Experimental de Repertório, no lançamento do álbum Arranjadores (Memória Brasileira, 1997), no Theatro Municipal de São Paulo, em 11 de agosto de 2012. - Alguns anos atrás a situação estava clara e era improvável que um fato adverso ocorresse. Até fiz coro com os que também tinham a segurança que não aconteceria nada que pudesse atrapalhar a desenvoltura pálida tanto quanto teimosa da nossa incipiente e mal-amada democracia. Só que o improvável aconteceu: um duro golpe parlamentar bem tramado com a acoloiada geral da imprensa, Judiciário e outras nefastas forças até então ocultas. Quase perdi a crença em tudo, um fiapinho de esperança trazia deveras algum alento. Os anos se passaram, veio a desgraceira dupla: a pandemia e o Fecamepa do Coisonário. Uma desgraça nunca vem sozinha, sabia desde pirralho. Por isso mesmo agora a proximidade me faz mais que descrente, orelha em pé: o iminente e à espreita. Era eu menino quando ocorreu o Golpe de 1964. Todo dia minha casa era invadida por um batalhão que marchava pelos corredores, revirando quartos, salas e quintal. Foi muito jovem aprendi o que dissera Anthony D’Angelo: As coisas mais importantes na vida não são coisas. Toda minha juventude se esvaíra com a dedicação à luta por um país melhor. Quantos sonhos, tantos desenganos. E eu insistia recitando trechos dos versos de Emma Lazarus: Dai-me os seus fatigados, os seus pobres, / As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade / O miserável refugo das suas costas apinhadas. / Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades, / Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado... Entoei noitedia a minha Nênia de Abril, sabia: Sou um poeta obscuro. Os meus companheiros são poetas obscuros, nosso país é o amor subterrâneo em sagração de interiores catedrais... Toda minha vida aos sobressaltos, sabia: se cochilasse cairia não só o cachimbo como toda a dignidade. Não tenho a mínima ideia do que será daqui para diante, nem o que está por vir, sei da indagação de Arhur Danto: Ou toda a distinção entre arte e realidade caiu por terra?... Deve-se creditar à teoria antiga o mérito de ter compreendido corretamente a relação entre arte e realidade... Com a vista aguçada neste tempo impenetravelmente espesso de insegurança, apesar de diáfano na minha ideia, não concilio o sono nem posso negligenciar o perigo: assim como a noite, também vai o dia...

 


O papagaio do Azor de Aunnilon... – Imagem da artista estadunidense Sarah Sze. - A jovem Sileta era muda como os demais habitantes daquela ilha. Era a irmã mais jovem do príncipe Azor de Aunnilon. Um belo dia deparou-se com um pássaro para ela desconhecido. Quem era? Um papagaio que era dos sobreviventes de um naufrágio ali perto e que dormiam na praia: Zelindor e sua irmã Zelinda. Ambos foram bem recepcionados juntamente com o seu animal de estimação tagarela. Pois, o papagaio falava e muito, e ela, nada entendia. A ave então, paciente e dedicadamente amável, ensinou-a o dom da palavra. O aprendizado durou muito tempo e ao se expressar, ela pediu àquela adorável criaturinha que ensinasse aos demais ilhéus. Assim procedeu de forma admirável e cativante na alfabetização de cada um dos moradores dali: um ensino cheio de amor. Concluída a incansável tarefa, ela reuniu a todos e manifestou publicamente sua paixão recolhida, formalizando ali mesmo e naquele momento, o desejo de contrair matrimônio com a querida ave. Diante de todos, ela tomou o amado entre as mãos e o beijou. Deu-se, então, o inesperado: o papagaio desencantou tornando-se o príncipe humano que sempre fora. A ovação foi geral! Decidiu-se, então, como prêmio pela dádiva, a construção de uma pirâmide encimada por enorme estátua do papagaio. (Releitura de trecho da obra Azor ou o Príncipe Encantado: uma nova história para servir de crônica para a da Terra dos Papagaios (Valente , 1750), do escritor francês Pierre-Charles-Fabiot Aunillon (1685-1760).

 


Proseando com a cultura - Na boca da noitinha dum sábado desse passado recentemente, lá estava eu atendendo convite de Admmauro Gommes que chegava de Xexéu, acompanhado do seu filho, o editor Ademac, para um evento surpresa, era o que me parecia. A chuva começou a despencar do céu e logo fui me aboletando no banco traseiro do automóvel, puxando conversa com os dois parceiros disso e daquilo. Entra aqui e sai ali, pegamos a BR 101 e, depois de umas voltas e subidas íngremes e deslizantes – fosse eu ao volante já estava atolado e perdido no meio daquela lonjura -, nos deparamos com um recanto para lá de acolhedor. Nossa! Lugar muito bom e bonito. Fiquei admirando o ambiente, enquanto o cicerone não dava as caras. Qual não foi a minha surpresa de que o sujeito que eu pensava ser o anfitrião como um daqueles todo farofudo, qual nada, era a cara mais lisa do meu pariceiramigo das infâncias, o Poeta Picapau. Arreliamos logo umas pinoias, enquanto eu tomava pé da aconchegante paragem. Logo uma tuia de caixa foi aparecendo e se amontoando sobre a mesa. Que droga é nove? Rasguei uma delas e saquei: Proseando com a cultura! Esse era o título de uma simpática publicação que eu mesmo havia prefaciado e sequer me lembrava. A comemoração começou com o destampado dum uísque, muito gelo, tira-gosto e a poetada solta no meio de umas conversadas jogadas fora. Algumas confidências rolaram: Admmauro trouxe à tona a lembrança do seu avô que o havia ensinado as regras da poesia popular, sacando do celular um galope à beira-mar de sua autoria. Daqui a pouco Ademac surpreendeu ao violão, sapecando umas daquelas canções do repertório popular, arrancando da memória músicas do tempo do ronca e das paradas de sucesso dos últimos 50 anos. E isso do chué ao que se parece chique. O receptor da festança não se fez de rogado e largou uma tuia de chapoletadas poéticas que foram arremedadas pelos demais em tons e versos. Só eu que ficava calado ou soltando pilherias, nada mais além da virada de copo. Lá pras tantas eu já balançava a cabeça zonza, o Picapau sacudiu no meu pau da venta: nunca arrematei um mote / pra não ver a bagaceira / também não faço heresia / faço o que a mente cria / pois ela é de primeira / e sem insistir na natura / vou a mesma admirando / e a vida vou levando / proseando com a cultura. Isso me deu coragem de tomar a viola e dei umas trastejadas me esgoelando das tripas coração, e foi só uma mesmo, devolvi a viola pro Ademac que reassumiu o posto, porque eu mesmo já estava com o raciocínio apagando de tanta beiçada no álcool. Bem, para encurtar a hestória, só sei que cheguei em casa não sei como, bêbado que só de trocar as pernas e o solado, as calças arriando, o mundo rodando, a porta estreita e com uma caixa enorme e pesada atrapalhando a passagem nos braços (nela os exemplares da obra Ascese é uma mulher – CriaArte, 2022 -, do poeta Vital Corrêa de Araújo, volume este que é o quinto da série de publicações do autor que eu organizei, prefaciei e ilustrei). A comemoração era dupla e eu não sabia. Enganchado na entrada de casa, fui socorrido e despachei tudo caindo na cama que rodava mais que carrossel em noite de festa. Gostei, outra dessa não sei não, pelamordedeus, gente! Agora mais não, só na outra. Tirante as aumentadas propositais, a anedota está igualzinha ao que se sucedeu. Até mais ver.

 


Urge preveni-los do muito que se poderia fazer, com apoio no saber científico, e do descalabro e pequenez do que se está fazendo... Mestrado é só para mostrar que o sujeito é alfabetizado, pois a metade dos que estão na universidade não sabem ler. Viva aceso, olhando e conhecendo o mundo que o rodeia, aprendendo como um índio... A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto...

Pensamento do antropólogo, educador e escritor Darcy Ribeiro (1922-1997). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



segunda-feira, julho 11, 2022

LÍDIA JORGE, NANCY FARMER, ÉLE SEMOG, CECÍLIA MEIRELES & MANET

 

 

TRÍPTICO DQP: Eclosão do canto, memória viva!... - Ao som de Uirapuru, da pianista, compositora e musicoterapeuta Gisele Mallon, na interpretação da instrumentista Talita Passoni e pássaros do Espaço Musicoterapia, Salto –SP. - Um piado e o espanto; depois do som, um tom: silvos e assovios, trinados e gorjeios, quantos estalidos & Néstogas: o verbo canta. Tudo pulsa - fusas, mínimas e colcheias nas águas da correnteza, no vento das folhas, chuva na relva, poeira da brisa nas pedras, no desabrochar colorido das flores, nas ondas dos mares e marés, tudo respira buliçoso, seres e coisas dançam. São pisadas e passos de todas as feras e mansas nos quintais de todas as frutas e infâncias, nos braços de todas as raças e crenças, várzeas e campos, naus dos brejos, lagos e lagoas. Tudo é céu no meu solfejo para Tupã dormir. Tudo o mais é o espetáculo do amor, o sumo da existência. Não há como olvidar de nada, porque ali é como se ouvisse a escritora estadunidense Nancy Farmer segredar: As almas das pessoas são como jardins. Você não pode virar as costas para alguém porque seu jardim está cheio de ervas daninhas. Você tem que dar a ele água e muita luz do sol. É como se ouvisse tudo isso na canora expressão do Xexéu à minha janela. Toda manhazinha e ele lá como se me dissesse Sem amor estamos amputados de nossa melhor parte. A vida pode até ser mais tranquila e livre de dores quando não amamos. Mas trata-se de uma paz de cinzas. O amor não é fácil, a gente sabe disso. Para conseguir, para manter, para conservar, para renovar, é pedido da gente que exista um trabalho psíquico, que exista um trabalho mental. A pergunta é saber como a gente começou a imaginar que o amor ia ser essa coisa fácil, ao alcance de todo mundo e ao alcance de um sujeito muito tempo na vida ou várias vezes na vida. Convém lembrar: a vida nos olhos de todas as manhãs, o direito de viver e deixar viver.

 


O que é de céu senão da Terra... – Imagem: A arte do artista espanhol multimídia pós-conceitual Antoni Muntadas. - Aqui dentro eu posso tudo até o céu. Lá fora irrespirável inferno dantesco, porque do átrio da civilização saíram todos direto pra caquistocracia da esgotosfera coisonária! É vigente o poetar d’O íntimo dado (A senha) do Éle Semog: Cada vez que gritam: pobre! / me assusto. Recuo ao canto / mais perto do rés do chão. / Negro, fico sem cor. / Fúria, fico sem fala. / Pois sei que as balas dos patrões, / que as balas dos políticos, da polícia / correm atrás de mim sem-terra, / correm atrás de mim sem-teto, / correm atrás das minhas razões / por esses labirintos finitos / enredados de justiça e democracia, / só para eu sair nos jornais, / morto na foto, / sangue vazando pelos ouvidos. / Toda vez que eles gritam: pobre! / é a tortura, é o estampido, é a vala. / É a nossa dor que tranquiliza os ricos. / Alô rapaziada... tem de antenar o dia: / o vento que venta lá, venta cá. Lá fora tudo se parece andar para trás e eu teimo seguir adiante com a dor de Lídia Jorge: Os olhos frios da história precisam das lágrimas ardentes da literatura... Se não sei mais o que fazer, opto pela vida, reitero teimar seguir em frente, sempre adiante.

 

O que é da vida senão amor... - Imagem: a arte da fotógrafa e artista conceitual holandesa Laura Zalenga. - Não tenho asas e nem sei onde estou. Ela me abre os braços Boadicea por alento para que eu não me sinta recusado Manet no Le Havre et Guadaloupe, pelos mares tenebrosos de Conrad: Não há linhas na natureza, apenas áreas de cor, uma contra outra. Seu abraço Susanne Leenhof - a amante de meu pai -, é o apoio que eu não tive quando precisei e como prêmio se fez a Ninfa surpresa que junta meus pedaços como cacos de vidro às mãos: Não há simetria na natureza. Um olho nunca é exatamente o mesmo que o outro. Há sempre uma diferença. Todos nós temos um nariz mais ou menos torto e uma boca irregular. Ela me chama à câmara fotográfica e é lá que a sua nudez me ilumina ao toque do piano de suas mãos divinas. E se faz mais que amante Victorine Maurent para escândalo do Almoço na Relva na pele da controversa Olímpia: Em uma face, procure a luz principal e a sombra principal; O resto virá naturalmente - muitas vezes não é importante. E então você deve cultivar sua memória, porque a natureza lhe fornecerá referências. A natureza é como um diretor em um asilo lunático. Ele impede que você se torne banal. Não fossem a infecção na perna e a insuficiência circulatória eu teria mais para que ela feita Berthe Morisot, elegante e refinada entre as violetas com seus olhos escuros, feições marcantes, seu leque e suas cartas: Toda vez que pinto, me lembro na água para aprender a nadar. Era ela a pujança da jovem estudante Eva Gonzales, o que me fez saber qual o meu lugar. E mesmo que eu não tenha para onde ir nem o que fazer é nela que eu sei que a vida vale o amor, isso é o que me basta. Até mais ver.


 

A educação é uma das coisas deste mundo em que acredito de maneira inabalável. Hoje desaprendo o que tinha aprendido até ontem e que amanhã recomeçarei a aprender...

Pensamento da escritora, pintora, professora e jornalista Cecília Meireles (1901-1964). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


Conrad

domingo, julho 03, 2022

ANNE-MARIE DE BACKER, EUGENIO MONTEJO, JASON STANLEY & ROALD DAHL

 

 

TRÍPTICO DQP: A certidão da sobrevivência... Ao som do concerto Delicate Sound of Thunder - Live in New York (1988), da banda britânica Pink Floyd. - Sobrevivo ao negrume da chuvarada torrencial, impossível quase é se poupar do afogamento. Alguma esperança insiste amanhecer lá longe, quase nada. E isso para quem não sabe da Política do amigo e do inimigo do filósofo estadunidense Jason Stanley: A peculiar antipatia do fascismo pela verdade não é um recurso adicional da ideologia... a centralidade da distinção amigo/inimigo implica que a única forma possível de disputa política é a guerra. Numa disputa amigo/ inimigo não há concessão, nem acordo, nem valores comuns. A verdade é a primeira vítima de uma ideologia que coloca em seu centro a guerra entre amigo e inimigo. Este o cenário hostil à recepção, imprópria desavença para quem não leu Número zero de Umberto Eco: Não há sucesso maior que o encontro agradável entre dois fracassos. A questão é que os jornais não são feitos para divulgar, mas para encobrir as notícias. Vivemos na mentira e, se você sabe que lhes estão mentindo, precisa viver desconfiado... A vida é suportável, basta contentar-se. Ah, como sou descontente, cada vez mais ouço bem mais altos os acordes com os sussurros da bela no The Great Gig In The Sky - epílogo da parte 1 do The Dark Side of the Moon de Pink Floyd. Queria ruas hospitaleiras como o riso da criança que brinca no meu peito. Contudo, o solfejo dela é maior no diário de sobrevivente, só sendo, arrepio da pele.

 


Pelos vales... - A arte do artista visual japonês Katsumi Komagata: tudo na vida é frágil – inclusive as relações humanas. - Sou um edifício quão estranha tarde mormaçada de arco-íris do outro lado na margem amena, longe dos rebocos da clausura e pronta gaiola escancarada. Desse no meio da solidão seria outro dia e estou naquela do poeta Alberto da Cunha Melo: O mundo anda tão falto de assuntos, todo dia é a mesma coisa: violência urbana, milhares de mortos, milhões de assaltos e as guerras de sempre, essa rotina que dá tédio. E muita indignação. Porque sou de nada e tenho em mim aquilo que disse o escritor britânico Roald Dahl (1916-1990): Escrever é percorrer vales e montanhas... E o meu país tornou-se um interdito nas encruzilhadas, a ponto de quase nem se saber o que há depois, o que sobrará e o que travou na garganta. Há quem espere Um teto todo seu de Virgínia Woolf: Pois as mulheres permaneceram dentro de casa por milhões de anos, então a essa altura até as paredes estão impregnadas com sua força criativa. Está nelas a última esperança, já que nublaram os semblantes, as pálpebras cobriram os olhos equivocados, não me veem e talvez não vejam nada além do umbigo.

 


Nela o trâmite... - A arte da fotógrafa, socióloga e artista visual russa Valeri Haravets. - Desse no meio da solidão seria outro dia. O que houve e não sei quão tardia a minha impressão na assimetria das horas. Quem disse que era ou deixou de ser. A sorte é ter ela surgido com a Melodia da poeta francesa Anne-Marie de Backer (1908-1987): Toda a felicidade que seu rosto havia dado para mim / Eu a cantei, eu a chorei, como um mártir. / Nosso futuro não passa de um parque deserto, / Mas a sombra é azul e, dentro da noite, flores respiram. / Há dias e estações em que é preciso sonhar. / Tu, que vais embora deslizando nas torrenciais cabeleiras das águas, sobreviverás? / Pássaros negros giram ao redor de teu castelo / E a Sereia fechou os olhos sobre tuas margens arenosas. / Há dias e estações em que é preciso viver. / Alguém me atou e eu segui as fendas desenhadas no mar. / Tu, que vais embora, pálido e cativo, sobreviverás / Quando o vento te agarrar em seus turbilhões?/ Toda a felicidade que teu rosto havia dado para mim / Eu a expiei como uma culpa sem perdão / Há dias e estações que nos conduzem / Em direção a nossos remorsos, a nossos jardins abandonados... A salvação é que ela chega do inopinado, sempre cheia de luz, fogos de artifícios nas minhas veias, trovões no meu coração. E se ela vai e volta é porque nossos caminhos se confundem paralelas e convergem aleatórias perpendiculares. Parece oblíqua às vezes, mesmo com sua contumaz transparência, seu olhar indômito, sua boca de véspera, e eu mais que assíduo no seu jeito entreaberto. Há quem foi e quase não voltou e nem é tão triste a solidão, solitude. Dela fica o melhor. Restam aqueles versos dum poema do Adeus, do poeta venezuelano Eugenio Montejo (1938-2008): Prossigo entre as pedras dos velhos subúrbios / por um trago, por um pouco de jazz, / contemplando os deuses que dormem dissolvidos / na serradura dos bares, / enquanto decifro seus nomes a cada passo / e sigo meu caminho. Mais que um dia, outra não seria a data diferente talvez com os ademanes de asnos que insistem emporcalhar tudo com seu reino de morte. O meu lucro é não ter nada para gastar no mundo. Até mais ver.

 


O ser humano é aquilo que a educação faz dele. É no problema da educação que assenta o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade.

Pensamento do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



segunda-feira, junho 27, 2022

HUMBERTO MATURANA, SAMANTA SCHWEBLIN, NÚRIA AÑÓ & LÍVIA FALCÃO

 

 

TRÍPTICO DQP: Sobrevivo... – Imagem: AcervoLAM: Antes do Verbo havia o antes e era Néstogas, ao som do Concert Barbakan Festival Bratislava, Slovakia Nova Cvernovka (Open air Park De Palma, 2021), da pianista, compositora e cantora polaca Hania Rani. - Meia década ou mais anos, nem sei quanto, perdi a conta e o tempo: o negrume perpassa ainda hoje, noit&dias. Durante toda minha vida despendi esforços inúteis, desperdicei demais, restou o que sobrevivi do tanto que arrastei degraus abaixo ou acima, quedas e errâncias. Sobrevivi ao que fui arrebatado pelo desencanto, quase condenado à podridão e resistindo à queda livre. Não fosse uma mão amiga, assim do nada, me acolher toda vez no desamparo, não saberia o que foram amores contrariados, arroubos litigantes da juventude às paixões cáusticas, nem que não precisava me penitenciar do que sobrou de relações tóxicas, das sombras do passado, das urgências dos venenos, dos nãos, dos cataclismos da reputação, nem de mais nada... Sei, sobrevivi inválido como quem se extraviou entre duas quedas de quase quebrar o pescoço, e um atropelamento. E era como se a sobrevivência resultasse vir probus sobre toda bufonaria de quantas tormentas e latomias. Algumas vezes perdi a mais completa noção, noutras passei despercebido, sequer ouvi Samanta Schweblin: O que o mundo vive é uma grande crise de amor porque, afinal, estes não são bons tempos para pessoas muito sensíveis. Agora sei o muito que chamei pelo nome coisa mais sem cabimento e o diabo a quatro, a vida ao rés do chão no pátio de nenhum lugar, qual o propício jamais escolhido ou achado, se é que já passei pelo pior ou pelo que mais merecia. Sobrevivo agora mais do que nunca e se sucumbi a minha salvação é uma quimera, inquietações da centelha ao incêndio. Jamais deixarei de ser grato pelo que vi e passei, tinha de aprender a lição e me vali do que sou mesmo que nada mais seja.

 


Não era Ennasin nem Cocanha, o que era... – Imagem da artista visual estadunidense Helen Frankenthaler (1928-2011). - Para onde fui não sabia onde, de fato a paisagem Brea-zill era do éden. Porém, a ganância de quem chegou para ver de perto, fez do que era mapa do Fabliau de Cocagne, ambições e toleimas: o terror entre nuvens de poeira pelo caminho. Eita! Por trás dos ouropéis se falava da guerra e a derrocada prevista. E se era mesmo o paraíso eu quase dei fé, não fosse o medievalista Hilário Franco Júnior, com toda facúndia, pôr tudo a perder a graça. Pois o que antes era placidez, tornou dóceis nativos em abrasados vermelhos mais canibais foderosos, o que viria a ser mesmo Ennasin de Rabelais desenhado por Doré. Apurando a vista, o ócio, a gulodice e a usura escondiam o flagelo da fome, nada mais que um pândego encaralhamento - na verdade Vidas Secas de Graciliano, ensinando pra gente o que um cachorro faz com o osso. Ah, um mico, paguei de tudo até o último vintém que restara ao bolso. Por causa disso não fui rumo ao Ocidente do Primo Levi, porque me perdi em naufrágios pelos mares das trevas de Conrad. Era como se eu tivesse de ser perseguido a todo instante a ler o trecho da Minima moralia de Adorno: Para quem não tem mais pátria, é bem possível que o escrever se torne sua morada. Não havia mais nada a fazer, senão contar hestória: o que era o meu país, outras versões nem tão simpáticas.

 


Entre teres e haveres... – Imagem da artista australiana Mere Langmaid. – Tudo se parecia onírico e era Cocaigne, o reino de Anaitis, a Dama do Lago: Faze o que parece bom para ti. Quando a vi era a atriz Lívia Falcão se passando no cenário pela Boieira reluzente da minha vida, apontando o dedo para uma placa no cemitério do Butantã: Os meus olhos choram por dias amargos. Não entendi porque ela se parecia aquela da Vênus de Ille do Merimée no meu quintal: pele deslumbrante, vestido decotado de alças, translúcida, e se desfazia ataviada pelas águas, com a sua espantosa e empalidecida cútis, a me dizer: doravante o prazer não tem preço, sou sua polaca. E mais se fez Naná de Zola com sua vulcânica sexualidade, mais tarde a Bola de Sebo do Maupassant no que me deu de seu, e logo amanhecia Anita Ekberg para me levar na La Dolce Vita de Fellini – eu o seu Mastroiani naquela cena, quando escondeu embaixo da saia molhada o segredo de Matrona de Êfeso. Ali me beijou plenamente como se fosse pela última vez e me recolheu em seu regaço para nunca mais. Depois de tudo, disse-me Núria Añó: Qualquer um poderia ver que esta mulher está vivendo um pesadelo. Exceto que ela passa por sua vida diária bem acordada, sabendo que pode cometer um erro a qualquer momento. Nada entendia e com ela o fio de todos os enredos difíceis, caminhos aos solavancos, os passos saldados nos autos da existência. Nela eu tive paz e nem sabia. Até mais ver.

Quando dizemos que amar educa, o que dizemos é que o amar como espaço de acolhida ao outro, que o deixamos aparecer, no qual escutamos o que diz sem nega-lo desde um preconceito, suposto ou teoria, vai se transformar na educação que nós queremos. Como uma pessoa que reflete, pergunta, que é autônoma, que decide por si mesma. Amar educa. Se criamos um espaço que acolhe, que escuta, no qual dizemos a verdade, respondemos as perguntas e nos damos tempo para estar ali com o menino ou a menina, essa criança se transformará em uma pessoa reflexiva, séria, responsável que vai escolher desde si mesma. O poder escolher o que se faz, o poder escolher se se quer o que escolheu ou não. Quero fazer o que digo que quero fazer? Gosto de estar onde estou? Essas são algumas das perguntas que surgem. Para que o amar eduque há que amar e ter ternura. O amar é deixar aparecer. Dê-lhe espaço ao outro para que nossos filhos, amigos e familiares mais velhos tenham presença.

Pensamento do neurobiólogo chileno e criador da teoria da autopoiese e da biologia do conhecer, Humberto Maturana. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.


 


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