quarta-feira, julho 18, 2018

BANDEIRA, GERSHWIN, LUC FERRY, GILBERTO FREYRE, CARAVAGGIO, MOUWAILIHI, ARTUR GOMES, MARIA & SEVERINA BRANCA


AS MULHERES DE CARAVAGGIO - Imagens: arte do pintor italiano Michelangelo Merisi, o Caravaggio (1571-1610) – Merisi, o Golias autorretratado, apareceu do Ducado de Milão, do Porto Ercole, Monte Argentário. De lá o menino viu de perto a peste bubônica imprimir um rastro de morte ao redor. Cresceu contencioso com o desafio nos olhos, farrista inveterado com seu gênio difícil a criar problemas e rusgas pelos lupanares de então. Perseguia a si próprio a passar fome em Roma, vivendo pelas ruas numa turbulência perigosa. Teve sua cabeça a prêmio por matar um jovem. A fuga errática dá em Malta e uma nova briga e mais outras tantas em Nápoles, e andou de cidade em cidade, casmurro insultante tão litigante compulsivo por extravagâncias a levarem-no ao endividamento, entre o desespero e o remorso, entre a arte e a recusa por trabalho fiel ao seu estilo. Era a vida atribulada do amante libertino de mulheres de má fama, quantas delas sobejadas por um celerado que conhecia todos os calabouços, um proscrito impetuoso que dormia com a adaga sob o travesseiro e sempre perseguido por matar seu rival nobre. Em louvor a elas retratava as coisas mundanas como se fossem sagradas: o Jesus flagelado e as cenas religiosas com seus modelos recrutados na rua, gente simples e pobre para romper com as convenções, em contrastes de luz e sombra, a beleza na vulgaridade: pessoas e a vida de todos os dias, a vida inflamada e elas ardendo de prazeres. Era a emoção profunda de santas, madonas, rainhas, deusas, interpretadas por modelos catadas entre as suas amantes prostitutas e mendigas das ruas esconsas, com impressionantes e audaciosos gestos, a mulher encarquilhada com toda tristeza da Terra, a Filli de Melandroni que representou Salomé e Judith, e aquela gente medonha, carnal, das vísceras do povo, que riem, devem, desacatam, fornicam, se danam, se amam e se detestam, se inflamam e se embriagam quais pecadores dos quintos dos infernos na exaltação da vida pelo gozo da carne desejada. As mulheres e todos esculpidos na condição humana. O bispo reconheceu e o excomungou. Assim, ele se viu só, esperava o barco que nunca chegou à solidão da febre e condenado à morte da vergonha, até desaparecer misteriosamente para nunca mais ser encontrado. Só depois do seu desaparecimento foi absolvido pelo Papa. Já era tarde, nada nem nunca mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor estadunidense George Gershwin (1898-1937): Rapsody in Blue, Piano Concert in F Major, Blue Monday & Summertime & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] a própria ideia de felicidade é objeto de um debate contraditório, de uma “antinomia” que opõe radicalmente duas teses. Para uns, a felicidade é a meta de toda vida humana, e também da animal, e a sabedoria suprema consiste em apoderar-se dela. [...] Já para outros, embora seja evidente que todos procuramos desesperadamente a felicidade, essa busca não passa de ilusão, de uma miragem. A felicidade não apenas é inacessível aos seres humanos em razão do caráter finito de nossa existência como simples mortais, mas também, sendo nossos desejos contraditórios e flutuantes, em qualquer hipótese é impossível defini-la de maneira categórica e satisfatória. Sabemos com bastante clareza o que nos torna infelizes, mas muito menos distintamente sabemos o que nos faria felizes. É claro, em nossa existência conhecemos momentos de alegria, e até oásis de serenidade. [...] Trechos extraídos da obra 7 maneiras de ser feliz: como viver de forma plena (Objetiva, 2018), do filósofo francês Luc Ferry, que em outra obra Aprender a Viver: Filosofia para os novos tempos (Objetiva, 2012), expressa que: [...] Como dizem, cada um a seu modo, vários pensadores contemporâneos, não se filosofa por divertimento, nem mesmo apenas para compreender o mundo e conhecer melhor a si mesmo, mas, às vezes, para “salvar a pele”. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ISTO É BRASIL? – [...] Não há brasileiro de classe mais elevada, mesmo depois de nascido e criado depois de oficialmente abolida a escravidão, que não se sinta aparentado do menino Braz Cubas na malvadez e no gosto de judiar com negros. Aquele mórbido deleite em ser mau com os inferiores e com os animais é bem nosso: é de todo o menino brasileiro atingido pela influência do sistema escravocrata [...] um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher de doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer a minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um muleque de casa, era meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava-lhe mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, – algumas vezes gemendo – mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um – “ai, nhonhô!” – ao que eu retorquia – cala a boca, besta!”- esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscão nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos [...]. Trechos extraídos da obra Casa-grande e senzala (Livros do Brasil, 1957), do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987). Veja mais aqui e aqui.

O MORTO RESSUSCITADO - [...] Vi-me em sonho numa planície de Al-Imâm, caminhando entre os túmulos e as colunas, por uma bela noite clara. [...] Eu ia com minha alma por cima dos túmulos e das lápides, do orgulho do homem e da sua presunção, da vaidade das suas ideias de gloria e de ilustração, do insondável exagero das suas pretensões, da excessiva opinião que ele faz de si próprio quando se glorifica e se esquece do túmulo. A vaidade o exalta a ponto de querer atravessar a abobada celeste, cheio de admirações pelo que possui e pelo que adquiriu. Depois, a morte constrange este nariz erguido para o céu a abrir um buraco na terra, após haver sepultado sob as lápides funerárias, as páginas da sua gloria e da sua grandeza. Eu continuava a andar, a ir e vir, até que me lembrei no decorrer da minha caminhada por sobre as areias das planícies, dos versos do sábio poeta SAbou’l alâ: “Diminui a pressão dos teus passos sobre a terra, posque o chão não é feito de outra coisa senão destes corpos. Não seria bom de nossa parte, mesmo que eles tenham morrido há muito tempo, tratar com desprezo os nossos pais e antepassados. Caminha tão devagar quanto possas, sem te orgulhares às expensas dos outros humanos”. Rangi os dentes arrependido e pus-me a caminha na ponta dos pés, sentindo que na massa destes mortos, na multidão dessas ossadas, havia lábios que os amorosos tomaram por gibla, pela doçura dos quais eles os preferiam às cores do arco-íris; bocas misturadas à poeira cinzenta e dentes em meio às pedras do caminho. Recordei então que estas faces de que a rosa tivera ciúmes, e que choravam com lagrimas de orvalho, e que acendiam nos corações os fogos da consumação, diante das quais o grain de beauté era como Abrão diante do fogo, ou como os fios da água do ceu nas anêmonas, nos quais brilhava o resplendor do poder e da juventude – lembrava-me de que estas faces tinham visto sua beleza dobrada pelo destino como página de um livro – tinham por seu decreto se tornado poeira na face da terra. [...]. Trecho de conto do escritor egípcio Mohammed al-Mouwailihi (1858-1930).

ESTRADAEsta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho, / Interessa mais que uma avenida urbana. / Nas cidades todas as pessoas se parecem. / Todo o mundo é igual. todo o mundo é toda a gente. / Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma. / Cada criatura é única. / Até os cães. / Estes cães da roça parecem homens de negócios: / Andam sempre preocupados. / E quanta gente vem e vai! / E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar: / Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho / manhoso. / Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos, / Que a vida passa! que a vida passa! / E que a mocidade vai acabar. Poema do poeta, tradutor, critico literário e de arte, Manuel Bandeira (1886-1968). Veja mais aqui.

MARIA, NO TEMPO DO CORPO VIVE A MEMÓRIA.
Sou mulher de sentimento
As duas da madrugada
Levando a chave na mão
Deixando a porta trancada
E uma filha na cama
Sem esperança de nada.
O curta Maria (2016), com direção e roteiro de Carol Correia, traz momentos da vida de uma poeta, ex-prostituta e analfabeta do Sertão do Pajeú, Severina Branca, com as atrizes Marcelia Cartaxo e Karine Ordônio, produção da Cambaio Filmes e Nahsom Filmes.

A performance poética Poesia Viva Poesia do poeta e ator Artur Gomes & muito mais na Agenda aqui.
&
A arte de Artur Gomes aqui, aqui & aqui.
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Não sou um pintor valentão, como me chamam, mas sim um pintor valente, isto é, que sabe pintar bem e imitar bem as coisas naturais.”
Série de Tree3Art inspirada na obra Caravaggio (1571-1610). Também a fotógrafa Mônica Silva fez uma exposição inspirada na obra do mesmo autor intitulada Lux Et Filum, uma visão contemporânea de Caravaggio (2015), em São Paulo.
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A jaca & a botija, Coco Chanel & Stravinsky, Aprender a aprender de Joseph D. Novak e D. Bob Gowin, A sociedade pós-capitalista de Peter Drucker, Vênus Afrodite, a música de Stravinsky, Maria João Pires, João Guilherme Ripper & Martha Angerich aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.


terça-feira, julho 17, 2018

DRUMMOND, PRIGOGINE, CLARA SCHUMANN, PAULO MENDES CAMPOS, EMMELINE PANKHURST, PALADE, MARIE-HÉLÈNE SIROIS & FESTIVAL DE CURTA


CLARA, ÚNICO AMOR - Imagem: Clara Wieek, arte da artista visual canadense Marie-Hélène Sirois. - Clara de todas as teclas nos exímios dedos, talento de berço, nutria paixão infantil pelo aluno saxão de seu pai, teimando em não saber se ele seguia pelas leis ou tons na indecisão da vida em Lipsia. Tudo era apaixonante naquele estranho jovem órfão com seus olhos de sonhos e poucas palavras na sensibilidade melancólica aos devaneios insatisfeitos improvisados de poesia exaltada. Ele se decide por Leipzig e depois Heidelberg formar-se advogado e, ao encontrar Thibaut, as hesitações da mãe dele são vencidas e retorna a Lipsia para novos pesares atormentadores, misturando desencorajamento com a ânsia de glória, bebida e crises depressivas, o fumo e a incerteza, tudo desabonava sua reputação. Clara orgulho de pai sabia dos salões por viagens de recitais nas partituras, empolgada pela genialidade poética daquele jovem aluno de seu pai, agigantando o seu prodígio nas entrelinhas do diário com um presente de sua composição musical prometido praquele estranho que morava na sua casa. Eis que ele se enamora da Ernestina no desejo de esposá-la, todavia é pra Clara que ele destina os tesouros de sua alma transbordante num intenso amor. O velho professor Wieek tinha outros planos pro futuro da filha, afastando-a para Dresden. Golpe duro no coração daquele enamorado, e ele pede, então, a mão dela ao pai pela primeira vez e foi negado o amor agora sofrimento incessante de saudade noitedia. Na distância ela arranja um namorado, o que o faz explodir de ira até conseguir desfazer aquele idílio e as pazes por apaixonadas juras de amor. Ele pede a mão dela ao pai pela segunda vez e o amor lhe foi negado outra vez para desespero da alma daquele poeta que compõe febrilmente canções. Afastada daquele apaixonado, novamente ela encontra outro amor para desastre da paixão que parte para Viena com todas as dores da plangente Humoreske, a ela dedicada. Aí pela terceira vez pede a mão dela e o amor negado agora em excursão por Paris, recorre aos tribunais sob calúnias e abjeções, e o casamento enfim a glória, as oito gestações não a permitiam compor nem colaborar com o marido divulgando sua arte. Mesmo assim abdicou de sua criação, agora ela própria em segundo plano, para se dedicar integralmente na promoção da dele. Enquanto ela adorava turnês, ele o silêncio e as crises nervosas da melancolia psicótica, a nota lá dominante martelando seus ouvidos aonde quer que fosse. Seguiam a desconhecer da asa negra da tragédia na estridente monotonia dos tímpanos que o leva à tortura das alucinações, à loucura e tentativa de suicídio. Ao interná-lo com depressão crônica num manicômio de Endenich, ela seguia sozinha pelo caminho de Düsseldorf que deu Johannes o seu sustentáculo pro resto da vida. O amigo alisa seus seios na intimidade e um pacto de fidelidade ao doente é selado, enquanto os excessivos treinos do tratamento multimodal levavam-na à síndrome de dor crônica, dela quase sucumbir junto com marido à sepultura. Enviuvou e manteve-se fiel à sua memória, respeitada por Johannes. Ela era até os seus últimos dias a única musa nas harmonias imortais de um único amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da pianista e compositora alemã Clara Schumann (1819-1896): Piano Works, Piano Concert in A minor Op. 7, Klaviertrio in G moll Op. 17 & Piano Trio in G minor – em sua homenagem foi realizado o drama musical Clara (2008), dirigido por Helma Sanders Brahms & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O que sei? Minha resposta é clara: muito pouca coisa [...] A visão clássica associava a ciência a certeza. A suprema glória da razão humana parecia ligada à possibilidade de atingir a certeza. Muito pelo contrário, creio que a ideia de certeza conduz a contradições. [...]. Pensamento do químico russo Prêmio Nobel de Quimica de 1977, Ilya Prigogine (1917-2003), Veja mais aqui.

NÃO PARAMOS DE PERGUNTAR - A questão “o que não sei?”, participa estreitamente da vida de todo pesquisador. Cada descoberta nova – o que significa cada elemento novo de conhecimento – constitui uma etapa que obriga a nos interrogarmos uma vez mais. O processo científico é uma longa cadeia de interrogações. Cada questão que encontrou sua resposta abre novo campo de investigação a explorar. O programa avança lentamente em direção a uma resposta final ainda desconhecida. Se todos os cientistas fazem perguntas específicas no quadro de seu programa de pesquisa, raros são os que se arriscam a ampliar suas investigações a um campo ou a um ramo da ciência. Os pesquisadores de hoje são formados para avançar passo a passo, com lentidão e precaução, a fim de evitar fazer perguntas de ordem geral, exceto se possuem boas razões e bons instrumentos para isso. No entanto, os que estendem suas interrogações ao domínio geral se encontram muitas vezes na origem das aberturas científicas maiores. Não paramos de nos perguntar quais eram as coisas que não sabíamos e que queríamos compreender. [...] Ao mesmo tempo conseguimos fornecer inúmeras respostas assumidas e aceitáveis. No entanto, muitas coisas permanecem ainda na sombra. Gostaríamos de saber como as células e seus componentes se adaptam a novas circunstâncias e como elas corrigem os desequilíbrios. Estima-se entre 100 e 200 mil números de genes que formam o genoma humano – o código genético que condiciona nosso desenvolvimento e nossas particularidades. Mesmo nos pequenos mamíferos de laboratório, esse número é considerável. Gostaríamos de saber quantos genes são necessários para construir uma célula pancreática e quantos para construir um pâncreas. E, na mesma ordem de ideias, gostaríamos de saber quantos genes são necessários para fabricar um rim ou um cérebro. O número de perguntas sem respostas que nos fazemos é infinito. No entanto, responder a essas questões equivaleria a privilegiar o conhecimento por amor ao conhecimento. Mas em um futuro mais ou menos próximo poderíamos chegar a identificar os genes que condicionam um desenvolvimento normal. Trecho extraído do artigo Não paramos de perguntar (Folha de S. Paulo, em 26 de março de 1995.), do biólogo romeno e prêmio Nobel de Medicina em 1974, George Palade (1912-2008). Veja mais aqui.

O MÉDICO E O MONSTRO - Avental branco, pincenê vermelho, bigodes azuis, ei-lo, grave, aplicando sobre o peito descoberto duma criancinha um estetoscópio, e depois a injeção que a enfermeira lhe passa. O avental na verdade é uma camisa de homem adulto a bater-lhe pelos joelhos; os bigodes foram pintados por sua irmã, a enfermeira; a criancinha é uma boneca de olhos cerúleos, mas já meio careca, que atende pelo nome de Rosinha; os instrumentos para exame e cirurgia saem duma caixinha de brinquedos. Ela, seis anos e meio; o doutor tem cinco. Enquanto trabalham, a enfermeira presta informações: – Esta menina é boba mesmo, não gosta de injeção, nem de vitamina, mas a irmãzinha dela adora. O médico segura o microscópio, focaliza-o dentro da boca de Rosinha, pede uma colher, manda a paciente dizer aaá. Rosinha diz aaá pelos lábios da enfermeira. O médico apanha o pincenê, que escorreu de seu nariz, rabisca uma receita, enquanto a enfermeira continua: – O senhor pode dar injeção que eu faço ela tomar de qualquer jeito, porque é claro que se ela não quiser, né, vai ficar muito magrinha que até o vento carrega. O médico, no entanto, prefere enrolar uma gaze em torno do pescoço da boneca, diagnosticando: – Mordida de leão. – Mordida de leão? – pergunta, desapontada, a enfermeira, para logo aceitar este faz-de-conta dentro do outro faz-de-conta. – Eu já disse tanto, meu Deus, para essa garota não ir na floresta brincar com Chapeuzinho Vermelho... Novos clientes desfilam pela clínica: uma baiana de acarajé, um urso muito resfriado, porque só gostava de neve, um cachorro atropelado por lotação, outras bonecas de vários tamanhos, um Papai Noel, uma bola de borracha e até mesmo o pai e a mãe do médico e da enfermeira. De repente, o médico diz que está com sede e corre para a cozinha, apertando o pincenê contra o rosto. A mãe se aproveita disso para dar um beijo violento no seu amor de filho e também para preparar-lhe um copázio de vitaminas: tomate, cenoura, maçã, banana, limão, laranja e aveia. O famoso pediatra, com um esgar colérico, recusa a formidável droga. – Tem de tomar, senão quem acaba no médico é você mesmo, doutor. Ele implora em vão por uma bebida mais inócua. O copo é levado com energia aos seus lábios, a beberagem é provada com uma careta. Em seguida, propõe um trato: – Só se você depois me der um sorvete. A terrível mistura é sorvida com dificuldade e repugnância, seus olhos se alteram nas órbitas, um engasgo devolve o restinho. A operação durou um quarto de hora. A mãe recolhe o copo vazio com a alegria da vitória e aplica no menino uma palmadinha carinhosa, revidada com a ameaça dum chute. Já estamos a essa altura, como não podia deixar de ser, presenciando a metamorfose do médico em monstro. Ao passar zunindo pela sala, o pincenê e o avental são atirados sobre o tapete com um gesto desabrido. Do antigo médico resta um lindo bigode azul. De máscara preta e espada, Mr. Hyde penetra no quarto, onde a doce enfermeira continua a brincar, e desfaz com uma espadeirada todo o consultório: microscópio, estetoscópio, remédios, seringa, termômetro, tesoura, gaze, esparadrapo, bonecas, tudo se derrama pelo chão. A enfermeira dá um grito de horror e começa a chorar nervosamente. O monstro, exultante, espeta-lhe a espada na barriga e brada: – Eu sou o Demônio do Deserto! Ainda sob o efeito das vitaminas, preso na solidão escura do mal, desatento a qualquer autoridade materna ou paterna, com o diabo no corpo, o monstro vai espalhando terror a seu redor: é a televisão ligada ao máximo, é o divã massacrado sob os seus pés, é uma corneta indo tinir no ouvido da cozinheira, um vaso quebrado, uma cortina que se despenca, um grito, um uivo, um rugido animal, é o doce derramado, a torneira inundando o banheiro, a revista nova dilacerada, é, enfim, o flagelo à solta no sexto andar dum apartamento carioca. Subitamente, o monstro se acalma. Suado e ofegante, senta-se sobre os joelhos do pai, pedindo com doçura que conte uma história ou lhe compre um carneirinho de verdade. E a paz e a ternura de novo abrem suas asas num lar ameaçado pelas forças do mal. Crônica do escritor e jornalista Paulo Mendes Campos (1922-1991). Veja mais aqui e aqui.

PROCURA DA POESIANão faças versos sobre acontecimentos. / Não há criação nem morte perante a poesia. / Diante dela, a vida é um sol estático,/ não aquece nem ilumina. / As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. / Não faças poesia com o corpo, / esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. / Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro / são indiferentes. / Não me reveles teus sentimentos, / que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem. / O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia. / Não cantes tua cidade, deixa-a em paz. / O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. / Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. / O canto não é a natureza / nem os homens em sociedade. / Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam. / A poesia (não tires poesia das coisas) / elide sujeito e objeto. / Não dramatizes, não invoques, / não indagues. Não percas tempo em mentir. / Não te aborreças. / Teu iate de marfim, teu sapato de diamante, / vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família / desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável. / Não recomponhas / tua sepultada e merencória infância. / Não osciles entre o espelho e a / memória em dissipação. / Que se dissipou, não era poesia. / Que se partiu, cristal não era. / Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos. / Estão paralisados, mas não há desespero, / há calma e frescura na superfície intata. / Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. / Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. / Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. / Espera que cada um se realize e consume / com seu poder de palavra / e seu poder de silêncio. / Não forces o poema a desprender-se do limbo. / Não colhas no chão o poema que se perdeu. / Não adules o poema. Aceita-o / como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada / no espaço. / Chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma / tem mil faces secretas sob a face neutra / e te pergunta, sem interesse pela resposta, / pobre ou terrível que lhe deres: / Trouxeste a chave? / Repara: / ermas de melodia e conceito / elas se refugiaram na noite, as palavras. / Ainda úmidas e impregnadas de sono, / rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. Poema extraído da obra A rosa do povo (Record, 1989), do poeta, contista e cronista Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Veja mais aqui e aqui.

AS SUFRAGISTAS
Nós não queremos quebrar as leis. Nós queremos fazer as leis
Frase da ativista britânica Emmeline Pankhurst (1858-1928), que embasa o drama longa-metragem As sufragistas (2015), dirigido por Sarah Gravon, delicado por apresentar defeitos que ferem a luta por um feminismo interseccional e respeitoso quanto ao lugar de fala de cada mulher dentro da pirâmide social. Trata-se de um grito por representatividade, marcando o início da luta do movimento feminista e os métodos incomuns de batalha, a história das mulheres que enfrentaram seus limites na luta por igualdade e pelo direito de voto, resistindo à opressão de forma passiva, mas, a partir do momento em que começaram a sofrer uma crescente agressão da polícia, decidiram se rebelar publicamente. Veja mais aqui e aqui.

Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo & muito mais na Agenda aqui.
&
A arte da artista visual canadense Marie-Hélène Sirois.
&
Domingo na Massagueira, a literatura de Moacyr Scliar, O envenenamento mental de Harvey Spencer Lewis, a arte de Henry Yan, a música de Cláudia Telles, Elis Regina, Al Di Meola & Felipe Coelho aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.
 

segunda-feira, julho 16, 2018

DERRIDA, ZATZ, RUBEM ALVES, ROSALIA DE CASTRO, BEETHOVEN, KLIMT, SCHÖNBERG, LOJA DE RÉPTEIS, BOZ VAKHSHORI & VITAL CORRÊA DE ARAÚJO


A ARTE PARA IMORTAL AMADA – Imagem: art by Boz Vakhshori. - Os tons e a surdez: restava mais nada, a vida era só um detalhe de Deus. Desde muito jovem condenado por Albrechtsberger: nunca aprendeu nem aprenderá, é um caso perdido. Jovem leão enjaulado, nada mais que um louco espanhol do gênio fogoso e língua mordaz: um campônio que desbancava a etiqueta da nobreza à custa de suas próprias mãos: príncipes, muitos; gênio, só eu. Umas poucas mordidas de mosquitos jamais poderão sofrear um garanhão, mesmo com os sintomas da surdez à flor da idade: a solidão é a minha religião. Saía à conquista das damas do remoinho social de Viena, com as cartas de plebeu e suas queixas inconsoláveis para Amada Imortal que pedia fizesse tudo para que ela pudesse viver com ele. Harmonias e melodias cresceram: Für Elise – à cantora de ópera Elisabeth Röckel do pedido de casamento malogrado; a frágil Antonie Brentano, Madalena Willmann, Josephine Brunsvik, outras tantas e muitas, elas sabiam: não se flerta com um Deus feio e surdo. Para ele, devia viver como exilado: vagar para longe sem rumo, até que possa voar em teus braços, e possa dizer que estou inteiramente em casa contigo, permanecendo meu fiel e único tesouro. Eis daí o cântico da liberdade Fidelio baseado em Bouilly; as sonatas, ao Luar no Lago Lucerna suíço, quase uma fantasia melancólica; a Patética, Appassionata, trinta e duas ao todo, mais Concertos, Oratórios, Missas, Quartetos, Septeto, Trios, Missas, Fantasias, Bagatelas, Lieds à amada longínqua, todas com tragicidade profunda e humorismo exuberante. Vieram sinfonias, a primeira, a gênese; a segunda, o horrível dragão que se retorce negando-se a expirar; a revolução ternária da terceira, interpretando as ideias de Deus; o eterno mistério da quarta, o amor, a paixão e a dúvida existencial; a do Destino, Eroica, em memória de um grande homem e sua obsessão Liberté, Égalité, Fraternité; a sexta Pastoral, o citadino que vai para o campo e mergulha em sentimentos bucólicos, a tempestade e o Hino de Ação de Graças; a poética sétima explorando todos os níveis da consciência de si mesmo; a emancipação da oitava, a transformação; a sublime elevação fraternal da nona: foi para isso que Deus criou o mundo! Com os versos da Ode à Alegria de Schiller e a chegada da fictícia copista Anna Holz, o segredo. Se não fosse A raiva pelo tostão perdido - rondó em sol maior, e o Testamento de Heiligenstadt para Caspar e Nicolaus, nunca enviado e guardado na gaveta, a depressão e suicídio que levaram o eremita rebelde na casca da rudeza, um hipocondríaco: devo a mim mesmo, ao gênero humano e ao Todo-Poderoso, a arte apenas me susteve. É que a felicidade não foi feita para ele: não fui feito pra felicidade, quem sente intensamente, sofre intensamente. A felicidade do artista está dentro dele mesmo porque a arte justifica o sofrimento da vida: Sede abraçados pelo amor, milhões! Aí vai um beijo para o mundo inteiro, a tônica da vida é o amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor alemão Arnold Schönberg (1874-1952): Pierrot Lunaire, Transfugured Night for String Sextet op. 4, Verkl&arte Nacht op 4 & Pélleas und Melisande op 5 & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Onde e como se produz esse descentramento como pensamento da estruturalidade da estrutura? Para designar esta produção, seria algum tanto ingênuo referirmo-nos a um acontecimento, a uma doutrina ou ao nome de um autor. Esta produção pertence certamente à totalidade de uma época, que é a nossa,  mas ela já começou há muito a anunciar-se e a trabalhar. [...] Se a totalização não tem sentido, não é porque a infinidade de um campo não possa ser coberta por um olhar ou um discurso finitos, mas porque a natureza do campo – a saber, uma linguagem e uma linguagem infinita – exclui a totalização. [...] Este campo permite estas substituições infinitas porque, em vez de ser um campo inesgotável, como na hipótese clássica, em vez de ser demasiado grande, lhe falta alguma coisa, a saber, um centro que detenha e funde o jogo das substituições. [...]. Trechos extraídos da obra A escritura e a diferença (Perspectiva, 2002), do filósofo francês Jacques Derrida (1930-2004). Veja mais aqui.

AVANÇOS & RETROCESSOS: CIÊNCIA & RELIGIÃO - [...] Desde o início de 2004, as notícias sobre células-tronco têm sido animadoras: pacientes são tratados, pesquisadores coreanos têm sucesso na clonagem terapêutica, células-tronco embrionárias formam neurônios. Enquanto a ciência avança a passos gigantescos no exterior, o Brasil luta para conseguir iniciar pesquisas com células-tronco embrionárias. Conseguiremos recuperar o tempo perdido? [...] O que precisa ser desmistificado? Por que as células-tronco embrionárias são tão importantes? Somente as células-tronco embrionárias são pluripotentes. [...] A esperança é que inúmeras condições, muitas delas letais na infância ou no início da idade adulta, tais como algumas doenças neuromusculares, diabetes, mal de Parkinson, lesões de medula possam ser tratadas pela substituição ou correção de células ou tecidos defeituosos. [...]. Mas, para chegar lá, ainda temos inúmeros obstáculos a vencer. [...] Utilizar células-tronco de embriões congelados equivale a um aborto, afirmam alguns grupos religiosos. Definitivamente não! No aborto provocado, interrompe-se a vida de um feto que está dentro do útero da mãe. Já no caso de embriões congelados em um tubo de ensaio nas clínicas de fertilização, não há chance de vida se não houver introdução do embrião dentro do útero. Na prática, esses embriões ficam congelados por anos, tornam-se inviáveis e são descartados. Do ponto de vista científico, a grande vantagem das células-tronco retiradas de um embrião congelado é que, até a fase de cento e poucas células, elas são pluripotentes. [...] A expectativa de um tratamento para inúmeros pacientes condenados deve estar acima de dogmas religiosos. [...]. Trechos extraídos de Conseguiremos recuperar o tempo perdido? (Folha de São Paulo, 2005), da bióloga molecular e geneticista Mayana Zatz, Veja mais aqui.

CENAS DA VIDA – [...] Na verdade, acho que não existe povo no Brasil. Somos um bando de bois e vacas infestados por bernes gordos que não saem de nossas costas. Santo Agostinho disse que “povo é um conjunto de pessoas racionais unidas pelo mesmo sonho”. O Geraldo Vandré disse a mesma coisa, com poesia diferente: “Caminhando e cantando e seguindo a canção”. É isso: há de haver uma canção que todos cantam e que indica o caminho. O Chico, nos anos de ditadura, esperto como ele só, falou de um jeito que os milicos não entenderam (milicos e cientistas são duros de entender metáfora. Sobre os milicos eu já sabia. Sobre os cientistas aprendi na última reunião da SBPC). Falou de uma Banda. “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”. Aí ele desanda a falar do faroleiro que contava vantagem, da namorada que contava as estrelas, do homem rico que contava o dinheiro, da moça feia debruçada na janela, cada um com o seu sonho pequeno. Mas foi só a Banda tocar para que cada um deles se esquecesse dos sonhos pequenos por amor ao sonho grande. Começaram a seguir a Banda: viraram povo. Um povo nasce quando as pessoas trocam seus sonhos pequenos (individuais) por um sonho grande (comum). Um líder político é aquele que ajuda um povo a nascer. Mas um povo só nasce quando os indivíduos são seduzidos por um sonho de beleza. A beleza do sonho é a comida que mantém a vida do povo. [...] Que sonho temos? Moeda estável, sem inflação? Mas isso não é sonho que chegue para formar um povo. É verdade que inflação é barco furado. Com barco furado não se navega. Verdade é também que moeda estável é barco sem furo. Mas barco sem furo não basta pra navegar. Pra navegar é preciso sonhar com um porto. Esse porto, na linguagem da política, tem o nome de utopia. Vão me dizer que utopias são inatingíveis. [...] A mágica presença das estrelas! É isso que os políticos nos roubaram. Os povos estão sempre dispostos a passar pelas mais duras provações, desde que essas mesmas provações tenham um sentido: as dores de parto são bem-vindas pelo filho que vai nascer. O presidente se esqueceu do povo. O povo não é o seu “outros significantes”. Por isso ele não gasta tempo para fazer o povo sonhar. Estamos “desgarrados e errantes como ovelhas que não têm pastor…”. O tempo da ditadura era noite. Mas no céu havia estrelas. Eu sonhava. Veio o dia. Mas a noite continuou. Céu sem estrelas. Já não sonhamos. Resta-nos a dura vida sem sonhos. [...]. Trechos da crônica O fim da banda, extraído da obra Cenas da vida (Papirus/Speculum, 1997), do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014). Veja mais aqui e aqui.

DOIS POEMASCANTIGA: Eu cantar, cantar, cantei; / a graça não era muita, / pois nunca por meu pesar, / fui eu menina graciosa. / Cantei como foi possível, / dando voltas e mais voltas / assim como quem não sabe / perfeitamente uma cousa. / Porém depois de mansinho / e um pouco mais alto agora, / fui soltando essas cantigas / como quem não quer a cousa. / Eu bem quisera, é verdade, / que elas fossem mais bonitas; / eu bem quisera que nelas / bailasse o sol com as pombas, / as brancas águas com a luz, / e os ares mansos com as rosas. / Que nelas claras se vissem / a espuma das verdes ondas, / do céu as brancas estrelas / da terá as plantas formosas, / as névoas de cor sombria / que lá nas montanhas voam; / os pios do triste mocho, / as campainhas que dobram / a primavera que ri, / e os passarinhos que voam. / E canta que canta, enquanto / os corações tristes choram. / Isto e ainda mais quisera / dizer com língua graciosa; / mas onde a graça me falta, / o sentimento me sobra. / Entretanto isto não basta / par explicar certas cousas / que, às vezes, por fora um canta / enquanto por dentro chora./ Não me expliquei qual quisera: / sou de pouca explicação; / se graça em cantar não tenho, / o amor da terra me afoga. / Eu cantar, cantar, cantei, / a graça não era muita, / mas que fazer —  desgraçada! — / se não nasci mais graciosa. AONDE IREI COMIGO? ONDE ME ESCONDEREI? - Aonde irei comigo? Onde me esconderei, / que já ninguém me veja e eu não veja ninguém? / A luz do dia assombra-me, pasma-me a das estrelas, / e os olhares dos homens na alma me penetram. / Pois o que guardo dentro em mim penso que ao rosto / me sai, como do mar ao fim um corpo morto / Houvesse, e que saísse!...; mas não, te levo dentro, / fantasma pavoroso dos meus remordimentos! Poemas da escritora espanhola Rosalia de Castro (1837-1885)

LOJA DE RÉPTEIS
O curta-metragem Loja de Répteis, do cineasta Pedro Severien, é um drama psicológico que conta a história que se passa no Recife, de horror expressionista vivida por um casal, um dono de loja de repteis e sua esposa, que é quieto e mantem uma estranha conexão com os animais, e ela está disposta a se livrar daquilo

Os livros ID & A poesia salva a alma & muito mais na Agenda aqui.
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A música de Beethoven aqui, aqui, aqui e aqui
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Ele via a mulher como um ser superior, uma figura dominante que estava acima dos homens. As mulheres retratadas quase sempre são poderosas – mesmo quando as retrata aparentemente submissas, parece uma concessão que a mulher fez como um gesto nobre a fraqueza masculina em resistir ao seu poder.
A arte do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt (1862-1918) e sua eterna musa inspiradora, a designer de moda e empresária austríaca Emilie Louise Flöge (1874-1953) aqui.
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Porque era sábado no Una, Mal de Arquivo de Jacques Derrida, Guido Bilharinho, o teatro Oficina de José Celso Martinez Correa, a arte de Hamid Zavareei, a música de Paulo Moura, Eugénia Melo e Castro, Pat Metheny & Tomoko Mukaiyama aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.
 

sexta-feira, julho 13, 2018

CLARICE, JOCY OLIVEIRA, AGOSTINHO SILVA, GORDIMER, WOLE SOYINKA, BRANDEN & GENÉSIO CAVALCANTI


OS OLHOS DE CLARICE - Ao mergulhar nos olhos crepusculares de Clarice, ainda não era noite e eu não tinha mais que dezessete anos de idade, a minha nada lisonjeira adolescência. Descobri no seu olhar oceânico o faroleiro caleidoscópico de antes da pré-história da pré-história da pré-história em que fui menino no meio nada. Para não me perder nos desvãos da sina, ela tomou minhas mãos e levou-me por ermas paragens da cidade sitiada na desaparição de tudo. Nada via pela íngreme vertigem de seus mistérios, até à beira do precipício. Convidou-me a pular, ela comigo. E diante dos laços de família esgarçados na minha solidão perene, abraçou-me acendendo o lustre e era o oásis do seu quarto pra guarida do meu desassossego. Deitou-me qual criança exaltada de temores e pra visão do esplendor ela se despiu como a mãe que se banha sem perder o filho de vista. Deitou-se com o aroma incensado de sua carne fresca, minha cabeça ao seu ombro, alisando meus cabelos, beijando-me as faces na minha felicidade clandestina. Achegou-se mais e sua pele na minha pele, senti seu ventre quente na via-crucis do corpo. Era quase de verdade, como se sonho que sonha real nos ponteiros loucos do tempo, a me mostrar da água viva e da legião estrangeira, a maçã no escuro, e eu a revolver seus mares, constelações e galáxias, até bem perto do coração selvagem. A cada beijo para não esquecer, mais me abraçava com as pulsações de um sopro de vida, a ensinar a imitação da rosa de corpo inteiro. E me contou histórias da mulher que matou os peixes, o mistério do coelhinho pensante, a bela e a fera, a vida íntima de Laura, a paixão segundo G. H., para que eu adormecesse sobre seus seios nus, uma aprendizagem no livro dos prazeres. À hora da estrela perguntou por onde estive nas noites de antes e sem me deixar dizer nada,  me falou da morte em pleno dezembro e que ia morrer dali a pouco pra guardar o seu momento pra mim. Eu tinha apenas dezessete anos e ela prestes a morrer na hora chegada e eu soubesse ela viva para sempre em mim no seu silêncio inatingível. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da compositora, pianista e escritora Jocy de Oliveira: Estórias para voz, instrumentos acústicos e eletrônicos, Noturno de um piano, Esferas rítmicas & Revisinting Stravinsky & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O amor é uma criação de beleza, [...]. E quando o amor surge é uma obra de arte e o criador tem com ele todos os cuidados que se tem com uma obra de arte [...]. Pensamento extraído da obra Educação de Portugal (Ulmeiro, 1990), do filósofo, poeta e ensaísta português Agostinho da Silva (1906-1994), que em outra obra, Vida conversável (NEP/ CEAM/UnB, 1994), expressou que: [...] a capacidade de contemplação e de criação do homem, aproveitando tudo aquilo que foi feito com o sacrifício dos trabalhadores durante séculos e séculos. [...] esperança de que se estabeleça na Terra um paraíso terreal, de que, pela meditação, os homens cheguem a um tempo em que o paraíso terreal e o espiritual, o do Céu, sejam exatamente a mesma coisa [...] em que o homem deixa que brote de si tudo quanto é de possibilidade divina ao mesmo tempo que não perde nada da sua humanidade [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

AUTOESTIMA & HOJE – [...] A turbulência de nossa época exige indivíduos fortes, com um claro senso de identidade, competência e valor. Diante do colapso do consenso cultural, da falta de modelos de papéis dignos, das poucas coisas públicas que inspirem nossa fidelidade, e das rápidas e desorientadoras mudanças que são a feição permanente de nossa vida, é perigoso não saber, neste momento de nossa história, quem somos, ou não confiarmos em nós mesmos. A estabilidade que não podemos encontrar no mundo terá que ser criada dentro de cada um. Enfrentar a vida com baixa autoestima é estar em séria desvantagem [...] A mente que confia em si mesma não pesa sobre os pés.[...] a confiança em nossa capacidade de pensar; confiança em nossa habilidade de dar conta dos desafios básicos da vida; e confiança em nosso direito de vencer e sermos felizes; a sensação de que temos valor, e de que merecemos e podemos afirmar nossas necessidades e aquilo que queremos, alcançar nossas metas e colher frutos de nossos esforços [...] O que hoje se necessita e se exige, numa era de trabalhadores inteligentes, não é a obediência robotizada, mas pessoas que possam pensar.[...]. Trechos extraídos da obra Autoestima e seus seis pilares (Saraiva, 2002), do escritor e psicoterapeuta canadense Nathaniel Branden (1930-2014). Veja mais aqui.

O MELHOR TEMPO É O PRESENTE – [...] Ela era negra, ele era branco. Nada mais importava. Identidade era só isso, naquele tempo. Simples como as letras negras nesta página branca. Por causa dessas duas identidades, eles transgrediam. E conseguiram se dar bem, mais ou menos. Não eram tão visíveis, nem politicamente tão conhecidos, que vales-se a pena processá-los nos termos da Lei da Imoralidade: melhor seria mantê-los em observação, segui-los, por um lado, na expectativa de que deixassem pistas que levassem a militantes de mais peso, ou pela possibilidade de que fossem recrutados para fazer relatórios referentes ao seu nível de envolvimento, fosse o de dissidentes ou o de revolucionários. Na verdade, ele era um daqueles que, quando estudante, fora abordado discretamente com indiretas sutis baseadas no patriotismo ou, talvez, na suposição igualmente natural de que os jovens precisam de dinheiro, tendo sido deixado claro que ele não deveria se preocupar, pois sua segurança pessoal estaria garantida, bem como sua situação financeira, se ele se lembrasse das coisas que eram ditas nas reuniões a que ele estava presente e desempenhava seu papel. Engolindo uma golfada de repugnância e imitando o tom da abordagem, ele recusou a oferta — sem que o homem se desse conta de que a rejeição não era apenas da oferta, mas também da pessoa que se prestava ao papel de cafetão da polícia política. Ela era negra, mas isso agora é muito mais complexo do que o início e o fim da existência conforme registrada num arquivo ultrapassado de um país ultrapassado, muito embora o nome permaneça o mesmo. Ela nasceu naquele tempo; seu nome é uma assinatura do passado de sua origem, batizada na igreja metodista em que um de seus avôs fora pastor, e seu pai, diretor de uma escola local para meninos negros, era presbítero, sendo sua mãe presidente da sociedade feminina da igreja. A Bíblia era a fonte do primeiro nome de batismo, seguido do segundo, africano, o qual as pessoas brancas — que a criança teria que aprender a agradar, e com quem teria de lidar neste mundo — não associavam a nenhuma identidade. Rebecca Jabulile. Ele era branco. Mas também isso não é tão definitivo quanto era codificado nos arquivos antigos [...]. Trecho extraído do romance O melhor tempo é o presente (Companhia das Letras, 2014), da escritora sul-africana e Prêmio Nobel de Literatura em 1991, Nadine Gordimer (1923-2014). Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA – Umedece /teus lábios com sal, /  que não seja o de tuas lágrimas. / Esta chuva-água é presente dos deuses / bebe sua pureza, frutifica na hora certa. / Leva, pois, os frutos à boca, / corre para devolver o milagre de teu nascimento. / Cria marés humanas como as ondas, / imprime tua lembrança nas areias que ainda guardarão / fósseis. Poema do poeta e dramaturgo nigeriano Wole Soyinka. Veja mais aqui.

CLARICE LISPECTOR
UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES
I

Lançamento do livro Porto Solidão & do filme Palmares, arte, poesia e amor, de Genésio Cavalcanti & muito mais na Agenda aqui.
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O dedo mindinho do pé direito, Nasrudin de Indries Shah, o pensamento de Richard Orage, a arte de Liz West, a música dos Beatles, Gênesis, Pink Floyd & Led Zeppelin aqui.
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É ela todas as musas, a literatura de Dalton Trevisan, O ocasionalismo de Al-Ghazzali, a arte de Kazimierz Mikulski & Luciah Lopez, a música de Marlos Nobre, Galina Ustvolskaya, Gilberto Mendes & Miriam Ramos aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.


BANDEIRA, GERSHWIN, LUC FERRY, GILBERTO FREYRE, CARAVAGGIO, MOUWAILIHI, ARTUR GOMES, MARIA & SEVERINA BRANCA

AS MULHERES DE CARAVAGGIO - Imagens: arte do pintor italiano Michelangelo Merisi, o Caravaggio (1571-1610) – Merisi, o Golias autorretra...