Gesta equestre
de baixo pra cima... - Relinchos na
madrugada: Que é isso? Ruidoso trote apressado no asfalto, potoque. Platero ficou
inheto, mesmo sempre humílimo, vulnerável, contido, quase nem falava no
cotidiano, imagine morrendo de medo: Estão rodeando o oitão da casa! Caramba! Mister
Ed logo ingadou lampeiro: Que vexame é esse, hem? Coisas acontecendo... Silver
logo galhofou: Ele está com cotoco hoje, não para quieto! Eita! Que foi? São as
éguas de Diomedes! Como é que pode? Parecia mais uma cratofania infernal: É o
fim do mundo, meu! Começou a tremedeira, ossos e dentes rangiam barulhando no
sacolejo: Hora de cagar fora do caco! Pânico geral. Lá vem a Podargo! Valha-me!
Esconde! Num adianta! Por quê? A Lâmpon já me viu! A Xanto também! O galope está
comendo no centro, só é bom quando é à beira-mar! Cai fora! A Deino está fuçando tudo quanto é canto! Reza,
desgraçado! Quero lá servir de dieta pressas devoradoras! Se dessa a gente
escapar, estamos feitos! BoJack aperreou-se todo tagarela: E agora? Todos
estavam arrepiados! Não era pra menos, né? Xi! Rocinante capengou: Estamos
fritos! Coragem, fresco! Incitatus logo emperrou jaez: Tamos todos é lascados
do primeiro ao quinto! Vai te catar, medroso! Bucéfalo não deixou por menos, na
maior sarabanda: Tudo covarde! Marengo desafiou: Vai encará-las, cagão? De vupt,
tirou o cu da reta! Numa hora dessas num aparece o Sleipnir... Quer o quê? Nem Tianma pra
salvar a gente! Ou o al-Buraq! Buraque, ora! O Pégasus de Belerofonte bem que
podia dar as caras, né? Palomo desarredou no chasqueado: Ah, eles têm mais o
que fazer, abestalhados frouxos! Nem Babieca de El Cid encararia essa! Ô Chal-kuyruk,
que é que a gente vai resolver, hem? Ué!?! Nem o Bayard, muito menos o Schimmelreiter,
mesmo que viessem com trocentos truques dariam cabo dessa desgraça, meu! O
terror aumentando do lado de fora, pra dentro. Segura a onda! Centauro malévolo logo
sentenciou: Todos prontos pro Açvamedha? Que é que é isso, meu! Tu num passa
dum cavalo de Troia! Insulte, não! Só daria jeito se ele virasse o cavalo de
três pés, aí sim! E se trouxerem os cavalos marinhos de Simbad? Aqui só tem, no
máximo, cavalo de santo ou das molengas cavalariças de Áugias, mais nada! Aí a Burmese
da rainha provocou a macharia: Se juntar tudinho num dá um traque que preste!
Oxe, quem é? É a Mulher de Branco da Serra d’Água! Igi! Treme não, maricas!
Tais com medo até de mulher, é? Imagine se fosse a sargento Reckless, botava
tudo de prontidão! Bata com o pé na boca que a mão não alcança, enxerido! Essa
é danada mesmo! Pede aí, pelo amor de deus, pelas 5 éguas do profeta! Agora deu. Quem
está ali espiando tudo é a matriarca Jude do turfe, serve? Só valia se fosse
qualquer um dos filhotes dela! Ela tá é rezando pra Deméter, bziziuziziuzi, ô erínia
enfurecida! Tá ali com a frochosa da Blanque de Pas-de-Calais! Ah, essa é de
primeira, potranca das boas! Tenha vergonha nessa cara deslavada! Eita! Olha
só! Que foi? Maior buruçu! Que é que houve? O maior revestrés! Conta! Espie! Expectativa
de baixar a poeirada. A salvação foi o Jegue-de-Paul, que apareceu lúbrico
Príapo feito um cavaleiro Orosongo, pronto pra esfolá-las às peiadas! Só se
ouvia ele gritando: Venham! Elas pulavam fora, ligeirinho. Santo remédio, hem? Bicho
macho, esse! Este sim, digno de Átila, encarou-las mesmo! A coisa acalmou e, depois
de muito revirar, Platero achou a lanterna de Diógenes, iluminou o ambiente e
viu quantos ali se escondiam: Comboio de pangaré toleima! E se ele não der cabo e elas voltarem, hem? Aí, fodeu. Ah! Como quem perdeu viagem,
ele seguiu até deparar-se com um espelho enorme, segredo revelado: Alma de
jumento em corpo de gente? Vida essa de alimária do pior quilate, o desconforto
de ser inadequado, incompatível, rejeitado: Que mundo mais chato! Sai pra lá, asno! Isso
é um jerico das costas ocas, meu! Apedeuta deslavado! Com os apupos, ele delirou
pelas curvas senoidais da situação, coisa de potro, gritando: Preciso dum
psicopompo! Agora, deu! Taí, isso é fácil, facinho! É só estralar os dedos,
cotó! Tais querendo arengar? Tudinho aqui com o cu na mão, ora! Rocinante
cuspiu às patadas: Ele está é com dor de cotovelo! E é? Bem empregado! Duas de quinhentos
não faz mal a ninguém! Oxe, dá é circuito no quengo do corno, cara! Claro, ele
só vive no mundo da lua como se procurasse o Santo Graal! Olha, elas estão voltando, escutem! Xá pra lá, o burro tá é lavando a jega! Coisa de doido,
mesmo! Isso é um furreca! Deixem ele pra lá, cada broco com seu pantim! Platero
então virou-se e, diante de todos, solene jactante: A felicidade é uma fábula,
resta o poder de sonhar, há sempre começos, um sisifismo; infeliz de quem leva
tudo ao pé da letra: a vida é uma metáfora! Pronto, empiorou: agora virou filósofo depois
de torar o maior aço! Igi, só quer ser o Cheval Blanc da parada! Se fosse uma
mula até que dava pro gasto! Isso quando não der uns de seus coices, né? Os outros
caíram às gaitadas e mais mangaram, foram-se todos os trocistas com o estandarte das pilhérias.
Xaropada dessa, pior purgante. E ele? Amargando angústia, temores muitos. Ah, até mais ver.
Albert Camus: Não ande à minha
frente… posso não te seguir. Não ande atrás de mim… posso não te guiar. Ande ao
meu lado… seja apenas meu amigo... Você nunca será feliz se continuar buscando
em que consiste a felicidade. Você nunca viverá se estiver à procura do sentido
da vida... O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,
aqui & aqui.
Samantha Shannon: Nem todos nós sabemos o que
somos. Alguns morrem sem nunca saber. Alguns sabem, e nunca são pegos. Mas
estamos por aí. Acredite em mim... Não existia normalidade. Nunca existiu.
"Normal" e "natural" eram as maiores mentiras que já
criamos... O conhecimento é perigoso. Uma vez que você sabe algo, não consegue
se livrar disso. Você tem que carregá-lo consigo. Sempre... Veja mais aqui.
Kazuo Ishiguro: Havia uma outra vida que eu poderia ter tido, mas estou
vivendo esta... Veja mais aqui, aqui & aqui.
UMA VIDA
Imagem: Acervo ArtLAM.
Isso não aconteceu na minha casa de
família – não, não entre aqueles que me conhecem (ou assim eu acreditei). \ Minha
vida, a vida que eu nunca fui capaz de tocar, nunca fui capaz de encontrar uma
foto mostrando apenas nós dois \ – que a vida está ao meu lado na minha cama,
abrindo os olhos depois de um longo sono \ e estendendo seus membros, como uma
princesa que sabe que o palácio de seu pai é magicamente protegido contra
ladrões, \ e que, embora as guerras nunca pareçam acabar, a felicidade está
logo abaixo da pele. \ Esta é a vida em que mais de um pai enfiou suas
ambições, mais de uma mãe sua tesoura, \ mais de um médico suas pílulas, mais
de um ativista sua espada, mais de uma instituição sua estupidez \ e mais de
uma escola de poesia sua poética. \ Minha vida que eu tenho carregado comigo de
cidade em cidade, \ correndo sem fôlego enquanto a perseguia da escola para a
biblioteca, \ da cozinha para o bar, da flauta ao piano, de Marx aos museus, \ da
memória do cheiro de um corpo ao sonho de um salão de aeroporto, \ de tudo o
que eu não sei a tudo o que eu não conheço. \ Minha vida, cuja existência eu
nunca tive certeza, está ao meu lado na minha cama, \ abrindo os olhos depois
de um longo sono e estendendo seus membros, \ como uma princesa que sabe que o
palácio de seu pai está magicamente protegido contra ladrões, \ e que, embora
as guerras nunca pareçam acabar, a felicidade está logo abaixo da pele. \ Foi
assim que acordei naquela terra estranha na manhã em que virei quarenta, \ e se
não fosse pelo fato de que Deus nunca escolheu uma mulher, \ eu teria dito que
foi o primeiro sinal de profecia. \ Se não fosse pela minha própria maneira
peculiar de pensar, \ eu citaria Mahmoud Darwish sobre uma mulher que entrou na
casa dos quarenta anos com damascos perfeitos, \ ou então as palavras de
Miłosz: Eu senti uma porta se abrindo em mim e entrei. \ Vejo diante de mim uma
longa fila dos mortos – mortos, talvez, porque eu os amava – \ e vejo as casas
projetadas para insônia, \ que eu sempre limpei com muito cuidado durante as
férias, \ e os presentes que eu nunca abri, \ e os poemas roubados de mim linha
por linha até que eu duvidava se eles já eram meus, \ e homens que eu só
conheci nos momentos errados, \ e clínicas das quais eu não me lembro de nada
além das barras em suas janelas. \ Eu vejo toda a minha vida diante de mim \ e
eu poderia até mesmo abraçá-la se eu desejasse, \ ou sentar no colo dela e
cantar, ou lamentar.
Poema da escritora, acadêmica e
tradutora egípcia, Iman Mersal, autora dos livros Mamarr mu'tim
yasluh lita'allum al-raqs (1995), al-Mashy Atwal Wat Mumkin (1997), Mamarr
mu'tim yasluh lita'allum al-raqs (2004), Jughrafiya Badila (2006), Hatta
atakhalla `an fikrat al-buyut (2013), Kayfa talta'em: 'an al umuma wa
ashbahuha (2016) e Fi Athar Enayat al-Zayyat (2019).
OS TESTAMENTOS - [...] Você não acredita que o céu está desabando
até que um pedaço dele caia sobre você. [...] Como
se costuma dizer, a história não se repete, mas rima. [...] Uma vez que
uma história que você considerava verdadeira se torna falsa, você passa a
suspeitar de todas as histórias. [...] Você se surpreenderia com a
rapidez com que a mente se torna mole na ausência de outras pessoas. Uma pessoa
sozinha não é uma pessoa completa: existimos em relação aos outros. Eu era uma
pessoa; corri o risco de deixar de ser pessoa alguma. [...] A verdade
pode causar muitos problemas para aqueles que não deveriam conhecê-la. [...]
Saber ler e escrever não trazia respostas para todas as perguntas. Levava a
outras perguntas, e depois a outras mais. [...] O inventor do espelho
não nos fez um grande favor: devíamos ser mais felizes antes de saber qual era
a nossa aparência. [...] Onde existe um vazio, a mente prontamente o
preenche. O medo está sempre à mão para ocupar quaisquer lacunas, assim como a
curiosidade. Tenho vasta experiência com ambos. [...] Os totalitarismos
podem ruir por dentro, à medida que falham em cumprir as promessas que os
levaram ao poder; ou podem ser atacados de fora; ou, ainda, ambas as coisas.
Não existem fórmulas infalíveis, uma vez que pouquíssima coisa na história é
inevitável. [...]. Trechos
extraídos da obra The Testaments (Vintage, 2020), da escritora, ensaista e crítica
literária canadense, Margaret Atwood (Margaret Eleanor Atwood), que é um romance
distópico, continuação de The Handmaid's Tale (1985), narrado pela Tia Lydia, uma
personagem do romance anterior; Agnes, uma jovem mulher que vive em Gilead; e
Daisy, uma jovem mulher que vive no Canadá, com um epílogo metaficcional,
descrevendo a transcrição parcial de uma conferência promovida por uma
associação histórica internacional. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,
aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
VOCÊ É
RESPONSÁVEL PELA SUA PRÓPRIA CRIATIVIDADE - [...] Você tem que encontrar sua própria voz única.
Você não quer apenas fazer o que todo mundo está fazendo. Você quer fazer algo
único e ser conhecido por um certo estilo criativo [...] Sempre digo às
pessoas no meu laboratório que a persistência compensa! [...] Quando você encontra um campo que não é bem compreendido,
é uma ótima oportunidade para se aprofundar.
[...] Precisamos restaurar a fé na ciência [...]. Trechos extraídos da entrevista You’re
responsible for your own creativity (MLA style/NobelPrize, 2026), concedida
pelo neurocientista estadunidense, David Julius (David Jay Julius),
Prêmio Nobel de Fisiologia/Medicina, de 2021, pela investigação sobre o sistema
somatossensorial, nomeadamente os receptores de temperatura e tato.
MÁRCIA GEBARA – A artista visual e professora, Márcia Gebara,
realiza em Mogi Mirim, São Paulo, a exposição Além da linha dos olhos,
com trabalhos dos alunos do Ateliê Marcia Gebara. Além disso reunimos os seus
trabalhos que integraram a exposição Gentamiga Ateliê, por ocasião do
lançamento do livro-catálogo homônimo, na Biblioteca Pública Municipal Fenelon
Barreto, em Palmares (PE), entre os dias 21 e 30 de setembro de 2026. Confira
aqui.
PLURIVERSALIDADE
– (Imagem: art by Dags Vidulejs) Tema
abordado a partir das ideias de Mogobe Ramose, Enrique Dussel, Achile Mbembe,
Renato Noguera, Anibal Quijano, Mignolo, Grosfoguel, entre outros, a partir da
decolonialidade em confronto com a perspectiva eurocêntrica nas mais diversas
áreas do conhecimento. Traz-se o conceito da pluriversalidade, observando-se o
processo de colonização do sul planetário, a desmistificação histórica e
efetivação da pluriversalidade decolonial, seus pilares na plurirracionalidade,
no diálogo intercultural e heterárquico, na crítica ao eurocentrismo e à
colonialidade, e na descentralização dos marcos de origem, permeadas pelo
hibridismo, alteridade e afirmatividade. Confira aqui.
O BOI CALÇADO DA BAOBÁ BARRIGUDA – Este é o 10º episódio das Aventuras do
Nitolino no Valuna, contemplando as paragens agrestinas do município de Calçado
e é onde se ouve os conselhos da Baobá Barriguda – na verdade, a buchuda Maria
Paineira, com a polpa que mais parece uma jaca, guardando os ancestrais e toda
memória da humanidade, cuidado com a serpente que mora dentro do tronco mais
grosso do mundo – e do Boi Calçado que foi pra serra da Quizanga e desceu pra
foz do riacho Barracas, no rio Canhoto. Com xilogravura de Lucélia Borges,
confira aqui.
RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS – Projeto ficcional que narra as idas
e vindas na vida de José Zé, um canoeiro órfão, que se vê enredado em
intrigas e perseguições, culminando com o seu retorno ao lar de seu nascimento,
para contar suas memórias, num depoimento de tudo que sucedeu na sua
trajetória, a fúria de seus algozes e a fuga pelas águas do rio da infância. Confira aqui.
SOMBRAS DO CORAÇÃO – Roteiro de curta-metragem baseado na história autoral As
sombras de Gilvanícila, a solidão e a sua relação com os pais Suetônio
e Deusdith, o tio Susdidido e todo clima tenso de seu autoexílio pelas
lembranças infanto-juvenis. Veja aqui, aqui & aqui.
ISTO É PERNAMBUCO













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