domingo, julho 05, 2026

WOLE SOYINKA, CINDY SHEEHAN, MONA AWAD & GORETTI VARELLA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som da performance Live at Minotti (Berklee College of Music, USA-2025), dos Eps Rise (2026) e The Dawn (2024) e do álbum Sixth Week (Apple Music, 2026), da jovem pianista, compositora e prodígio do jazz japonesa, Ai Furusato, que possui trabalhos autorais lançados nas principais plataformas de streaming.


 

Bilaro, insólita fuga dum Zé de si mesmo!... - Zé Bilaro ficou órfão de pai e saiu pelo mundo. Olvidou os rogos maternos: não fizesse mais asneiras, bastavam os desatinos paternos agora enterrados. Mal saíra ele capenga dum grande amor, agora duplamente enlutado cogitava sequestrar a amada no dia do casamento dela. Endoidou mesmo, diziam. Ousou finca-pé na esparrela, depois: a cara mais lisa, lavada. Findou: Mas, mas... Depois de muitos atrapalhos, as errâncias dum malfadado. Foi-se: o olhar perdido na lonjura das léguas estiradas, misturando ideais e infortúnios, o regalo de uma módica sombra e o Sol na moleira. Arre! Alguém chamou por um nome que não o seu. Quem? Deu fé: os bichos falavam abeirados, as árvores tagarelavam longínquas, as pedras cochichavam genringonças, um pandemônio, temia caducar amalucado: Onde é que estou mesmo, hem? Ali o morro que perdeu a ponta, imenso. Vixe! E lá ia pelas trilhas de umburanas e grutas, os cânions e a pareidolia, chapadas e desenhos rupestres, a caverna e o sítio de Alcobaça, a Loca das Cinzas e a Gameleira de Buíque, a pedra do Cachorro e o Portal da Igrejinha, a merafusa de Sabadi tangendo seus fiéis pra caverna de Meu Rei, o Morro do Elefante e a caatinga, a Vila dos Breus e a Serra das Torres, a Jurema Preta e o Povoado de Aterrados, o marmeleiro-do-mato e o enxame de abelhas, o feijão-bravo e o Vale das Tartarugas, os Lapiais e o Véu de Noiva, a catingueira e os visíveis sinais do fogo corredor – o compadre e a comadre brincavam de esconde-esconde -, os encantados das furnas do holoceno, Homo floresiensis, Homo luzonensis - Oxe! -, os caboclos encantados, cobras aninhadas, um cachimbo velho e pequeno, ali tudo podia acontecer. Passou a vista e ouviu lá longe soar o uruá dos Kapinawá - sinal do sagrado Kwarup afastando maus espíritos, ou o rito de passagem da furação de orelha. Respondiam takuaras como se fossem o uirapuru – o coração partido do guerreiro Quaracá, a cantar de saudade pelo amor impossível de Anaí. Tal como ele, melancólico. Há quem surpreendido soubesse do canto o seu amuleto de sorte, o poema sinfônico de Villa-Lobos. Ele nem, nem. E se era Oribici chorava de amor, para outros. A surpresa foi possível com os gritos do gigante Mapinguari, quebrando galhos no interior do matagal – ali seu peludo casco de tartaruga, um olho apenas na testa e a boca no umbigo, pés de mão de pilão. Valha-me! Outros silvos, será da flauta de Pã, ou da de Krishna? Arredou, hesitante. Mal escapara e viu logo atrás do Mapinguari, o Ipupiara: ataque comendo parte dos corpos de desavisados, o demônio d’água, seus braços longos, pés de barbatanas, dentes pontiagudos, o corpo coberto de pelos e focinho com bigode. Ô. Ora, ora. Temeroso, ouviu amiudado cochicho: Pare, não responda, o sopro dele dilata o aço do cano da espingarda e você perderá a vida, quieto; os sobreviventes, aos aleijões e nódoas no corpo. Olhos pros lados, virou-se, girou: a paisagem e mais nada. Ué? Psiu! Salvou-se, achou: ares de Tejucupapo! Era Maíra, a Dona Clara com as heroínas guerreiras depois da Batalha, anônimas Marias. Boa tarde! E achegou-se esbaforida, abanando-se acalorada: Mormaço, hem? Era o meio da tarde, puxou conversa e o paradeiro. Ah, estava mesmo extraviado da lucidez. Hum? Acalmou-se com a brisa arranchando-se ao lado dela. E muito ouviu e tomou ciência: ensinou-lhe como o beijo dança contando toda hestória. Entardecia, o Sol cochilava escondendo-se. Ela foi-se apressada e tudo o mais acontecia no trâmite das horas. Anoiteceu com o burlão astucioso Malasartes aos espalhafatos, vinha do Cancioneiro da Vaticana para se encontrar com Cancão de Fogo: Você viu? Não. Inté. E logo seguido pela esperteza e deboche de Camonge, escapando dos bumerangues das armadilhas: Tá ouvindo o Esquenta-mulher? Aguçou as ouças: Não. Rola no oculto, espie direito: o terno da zabumba, cabaçal com o toque de Lampião. Hum? É a Zabé da Loca ensaiando. Logo viu os volteios apaixonados do caçador Papageno com sua amada Papagena, disfarçavam perseguirem no encalço de Sarastro, que raptou a filha da Rainha da Noite. E um cortejo seguia: os apaixonados Tamino e Pamina, o Peer Gynt de Ibsen nos tons de Grieg. Vieram depois Sethos de Terrasson e a Megara de Hafner, caborés e pífanos com as pantomimas das peripécias e artimanhas da farsa do mestre Scapin de Molière, tirando vantagem, como se fosse o filósofo do povo às piruetas inagarráveis, revelando interditos e hipocrisias. E o Fígaro de Beaumarchais completamente desatinado porque perdeu Suzanne e, em vingança, ousou exigir o jus primae noctis de todos os nubentes e dos já casados: Não somos seus servos! E repetia exigente: derecho de pernada, droit de cuissage. Condoeu-se, comiserado: o mesmo com ele. Ali tudo acontecia simultaneamente: o bambu de taboca, Zé Tapera & Teodoro com a roupa nova do rei de Andersen, as proezas de João Grilo, Mainá nas carapebas e Mazzaropi: larga de ser besta! Viu até o duelo da vida com a morte, quando um trio de montanhesas apareceram para roubar suas ideias. Entre elas uma mulher vestida de verde apontava grávida dele. Eu? Uma voz: Seja fiel a si mesmo. Aí deu a volta e aos rodeios passou-se por missionário, fausto comerciante de escravos e vestiu-se de beduíno para ser referenciado como profeta. Enganou a quem? Deu-se diante da Esfinge: pro hospício, imperador de si mesmo. Ah! Invocou socorro quando viu: Deus é o guarda de todos os tolos. E era um velho náufrago em auxílio sinalizando: Descobrisse onde os sonhos têm seu lugar. Hem? Aí foi julgado pelo que não fez, as músicas não cantadas, as obras desfeitas, as lágrimas não derramadas e as perguntas que nunca foram feitas na ameaça de sua alma torrar derretida: Quando foi você mesmo? Sei lá! Procurou confessar e deu de cara com o diabo: Sua vida está perdida, pra sua mãe sua morte nunca deu certo. E correu pra última encruzilhada e lá encontrou a amorante Solveig: Você não tem pecado, está perdido, por onde andou? Hem? E ela: Não direi mais nada... E ninguém sabia dos achaques e temores dele nas copas das árvores, a longuidão dos percalços, o mundo por vencer. Sentiu-se ali banido, acuado, preterido, rejeitado. E agora? Esfregou os olhos, o existir sozinho noutra manhã: o Sol na areia, a ventania libertadora, os túmulos e os cárceres, os pingos de chuva, a brandura das nuvens momentâneas e os vultos andantes. Via-se acontecer alhures ali na hora, sorvia o veneno bento e um pouco de tudo no imperdoável renascer da memória. Eram medonhas lembranças, os anos excedendo as denúncias e revertérios, o avesso de outrora e a descoberta dentro de si da centelha, antes escondida, a preencher seus vazios, num doidivano festejo de realizar-se, cônscio da erradia essência de viver: Estou vivo mesmo ou já morri? Presenciou in loco o Primum Mobile e o Empíreo: era o céu de Dante. Escapava fedendo, por um trisco de nada. Demorou lá mais outro tanto: “Não é um voo para as minhas asas”. Sonhava de olhos abertos no Vale do Catimbau. Até mais ver. 

 

Marcel Proust: Os paradoxos de hoje são os preconceitos do amanhã, já que os preconceitos mais desprezíveis e os mais deploráveis tiveram seu momento de novidade quando a moda lhes emprestou sua frágil graça... Somos curados do sofrimento apenas experimentando-o ao máximo... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Edgar Morin: A loucura humana é fonte de ódio, crueldade, barbárie, cegueira... Estamos completamente imersos neste mundo que é o dos nossos sofrimentos, das nossas felicidades e dos nossos amores. Não sentir é evitar o sofrimento, mas também o regozijo. Quanto mais aptos estamos para a felicidade mais aptos estamos para a infelicidade... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ana Botafogo: Muita coisa eu sei, mas muita coisa ainda vai ser surpresa para mim... Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez!... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

NOITE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Tua mão pesa, Noite, sobre minha testa. \ Não tenho coração mercurial como as nuvens, \ para ousar. \ Exacerbação de teu arado sutil. \ Mulher como uma ostra, na crescente do mar. \ Vi teu olhar ciumento extinguir a \ fluorescência do mar, dançar no pulso incessante \ das ondas. E eu fiquei ali, exausta, \ submetendo-me como as areias, sangue e salmoura \ correndo até as raízes. Noite, tu choveste \ sombras serrilhadas através de folhas úmidas \ até que, banhada na quente difusão de tuas células salpicadas, \ sensações me atormentaram, sem rosto, silenciosas como ladrões da noite. \ Esconde-me agora, quando crianças da noite assombrarem a terra, \ não devo ouvir nenhuma! Estas células nebulosas ainda \ me desfarão; nua, sem ser convidada, no nascimento silencioso da Noite.

Poema do escritor, dramaturgo e ensaísta nigeriano Wole Soyinka, Prêmio Nobel de Literatura de 1986, que em 1967 foi preso durante a Guerra Civil Nigeriana, pelo governo federal do general Yakubu Gowon e colocado em prisão solitária durante dois anos, por ter se voluntariado como ator mediador não-governamental. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ROUGE – [...] A única jornada que importa no final, Filha de Noelle.” “Retinol?”, sussurro. “A alma. Uma jornada da alma, é claro. [...] Um espelho é apenas um espelho, Belle. Ele só reflete aquilo que desejamos e ansiamos. [...] Havia um espaço ali também, como aquele entre mim e a Mamãe. Como aquele entre mim e todos, dali em diante. Existe um espaço entre mim e tudo o mais desde que você virou fumaça. Existe uma parede de vidro. [....]. Trechos extraídos do livro Rouge (Globo, 2024), da escritora canadense Mona Awad, que noutra obra, Bunny (Globo, 2024), expressou que: […] Nunca deixei realmente de escrever, nunca fiquei sem um outro mundo criado por mim para onde escapar, nunca soube como estar neste mundo sem que a maior parte da minha alma estivesse sonhando com outro e vivendo nele. [...] Os poetas preparam-se para uma pobreza iminente e altamente instruída. [...]. Ela também é autora dos livros 13 Ways of Looking at a Fat Girl (2016), All's Well (2021) e We Love You, Bunny (2025).

 

MÃE SALVADORASou apenas uma mãe normal que tenta salvar vidas e ser o melhor ser humano que possa ser... O nosso país foi assaltado por bandidos assassinos, gangsters que cobiçam fortunas e poder... Quando eu estava crescendo, era 'Comunistas'. Agora é "Terroristas". Então você sempre tem que ter alguém para lutar e ter medo, para que a máquina de guerra possa construir mais bombas, armas e balas e tudo mais... Então, o que realmente me faz é esses chickenhawks, que enviaram nossos filhos para morrer, sem nunca servir em uma guerra. Eles não sabem do que se trata... Precisamos realmente deter as tendências imperialistas de países como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha... Cabe a nós, o povo, quebrar leis imorais e resistir. Assim que os líderes de um país vos mentem, não têm autoridade sobre vós. Esses maníacos não têm autoridade sobre nós. E eles podem ser capazes de colocar nossos corpos na prisão, mas eles não podem colocar nosso espírito na prisão... Não podemos permitir que nenhuma guerra pelo imperialismo ou pela ganância seja travada em nossos nomes. É por isso que temos de continuar a lutar... Se ficarmos juntos como um povo, podemos derrubar os criminosos de guerra que estão comandando nosso país agora... Pensamento da ativista estadunidense Cindy Sheehan (Cindy Lee Miller Sheehan).

 


O UNIVERSO LITERÁRIO DE ADÉLIA PRADO - O que a memória ama fica eterno... Fugir da dor é uma perda de tempo... O sofrimento não tem idioma... Dor não tem nada a ver com amargura. Acho que tudo que acontece é feito pra gente aprender cada vez mais, é pra ensinar a gente a viver. Desdobrável. Cada dia mais rica de humanidade... Não tenho mais tempo algum, ser feliz me consome... O destino não existe. É de Deus que precisamos, e rápido... Quanto a mim dou graças pelo que agora sei e, mais que perdoo, eu amo... Pensamento da poeta, filósofa, escritora e professora Adélia Prado (Adélia Luzia Prado de Freitas). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE GORETTI VARELLA

Arte da artista visual, arte-educadora e arteterapeuta Goretti Varella (Maria Goretti de Souza Ferreira), editora do blog Desenhos no meu quintal. Veja mais aqui.

 

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domingo, junho 28, 2026

GLORIA MARK, JANET MOCK, EILEEN BARBOSA & ALCEU VALENÇA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Crescendo com a Poesia (2010), do cd solo (2013) e do Nordestinação (2017), da acordeonista e compositora Karol Maciel. Ela ainda é estudante de licenciatura em Música pela UFPE e faz parte das bandas dos artistas Lucas Mamede e Larissa Lisboa. Participou de vários festivais pelo país, como o FAM Festival (2023), Festival Sotaques da Sanfona Brasileira (2023), Encontro Nacional de Foles e Sanfonas (2023), Festival de Forró de Ibitipoca (2021) e o Festival de Sanfoneiros de Feira de Santana (2021). Ela integra o grupo instrumental MaKaMo e trabalha como educadora musical pelo projeto Musicou.


 

Bumba-ê: picamalácia de Catirina, apuros de Mateus!... - Catirina sonhava anjo-príncipe rolando do céu pros seus braços. A menina, antes franzina, debutou e tomou corpo: Que espetáculo! Despertou naquela manhã como nunca, nefelibata: repleta de vida na flor da idade. Olhou da janela o desiderato: era ele. Olhos vivos, fogosa, tinha certeza. E com ele teria muitos filhos, ambicionava. E assim foi toda prendada: Ei, pronde vai? Mateus era um matuto desarnado daquele do tino afiado, cheio das lábias e vantagens. Boa-pinta, de chapa tascou: Quem 14 tira 24, fica 12! Hem? Deu pra ela um pé de verso cheio de muitas cantigas, um rosário de louvores. Ela logo gamou na covinha inescrupulosa das bochechas dele, deu fiança com simpatia e namorou levantando a saia no sarro pesado, noivou na alcova e cobrou a obrigação: o desejo de muitos filhos. Casaram às pressas e de manhã Messalina, sereia arriada; de tarde, desbragada ninfa lasciva; de noite, uma súcubo insaciável; de madrugada, vampira devoradora; o resto do dia, náiade ninfomaníaca diuturna, todo dia e o dia todo, chega a chibata dele retinia no fole do vuco-vuco de nunca acabar. Ele encarou a peleja no maior galope, munheca no afinco, findou com dois palmos de língua de fora: Vou morrer! Toma catuaba, véi! Ou gemada com maca peruana, pó de guaraná, amendoim e ovo de codorna de muitão, para não amolecer nem caiar, bicho! Tá doido! Nem deram conta e o tempo passou pra ver a protagonista plenilunar de bucho inchado, barriguda aos 16, o desejo por mentrasto-de-frade, sim, catinga-de-bode, o enjoo seguinte, desejosa na geofagia, não largava a pagofagia: Eita, mão fria, gelada! E era uma vontade intensa e repentina, dela se empanturrar com peixe cru, ração de cachorro, tomando vinagre, café cru com limão, besouros com cola de sapateiro, até comeu o pano de limpar a pia, com creme de cabelo. O pior foi ter devorado às dentadas a bola e chuteira dum menino da vizinhança, deu o que falar. E quando voltou lá estava ela com um banquete de aranhas recheadas de insetos trazidos da Tailândia, na maior fritada. Lascou. E ela dava marrada na pancada da zabumba, foi bordoada e tome reco-reco, estultice e triângulo, cadê o decoro, no bombo seguia a toada e pariu de última hora o primogênito raçudo de quase rasgá-la toda: 6 quilos. Parecença com ninguém, o parentesco qual, nomeado Bastião, festança de peões, pajés e curandeiros: Esse filho é meu mesmo? Ê, boi! Nem bem 10 meses depois, ela viu o morto-carregando-o-vivo e quase teve um troço. O remédio foi o maior apetite: Picamalácia, meu! E engoliu uma extrovenga com sabão, tijolo, giz e cinzas de cigarro. Vai estourar! E vieram as gêmeas. Maior festejada. Quase ano e a alotriofagia comia no centro, as maiores estranhices na culinária – Que gosto! - e um rebento de trigêmeos: um menino, duas meninas. O comedor de vidro testemunhou: Ela comeu tanto barro com giz, lascas de parede, tijolo, bosta de guenzo e carvão, deu três filhos bonitos, ao invés de monstrinhos pintudos. Salve! Gargalhadas. A coisa ia bem até, de repente, ela desejar escargots. Vixe! Onde vou arrumar? Senão o filho nasceria troncho e feioso. Mateus se virou: Isso é uma rotônica! Já era verão quando o capitão Boca-mole no cavalo marinho avisou: Ela deu à luz quadrigêmeos! Deu a praga! Passou o resguardo e normalizou: o rala-bucho no rala e rola. Esquecidas as extravagâncias, lá vinha ela desejosa dum cachorro quente daquele marmanjo que, com a mesma mão, assoava o nariz e limpava na calça. Que nojo! Eu quero, vá lá. E foi carvão bem torradinho no almoço, repelente no jantar, roer as unhas do pé do meu marido no café da manhã, goiabada com salame e areia no lanche e vomitava tudo, mas, teco! Até que Maria Capitulina chamou por Arlequim: Vai avisar pro Mateus que Catirina partejou quíntuplos. Eita-pau! Depois duma quarentena normalizada, veio de novo a compulsão alimentar: Comeu o mealheiro - um porquinho de gesso com dinheiro e tudo. Denunciou-se quando sorriu: cadê os incisivos centrais? Lá estava a janelinha, uma lindeza. Que foi que houve? No meio da comilança mordeu uma moeda, teibei. E o picacismo deixou atarantado Penico Branco: Isso é uma draga! Quase: desemprenhou sêxtuplos! Aí empatou com a Quezia Romualdo de Colatina e Mama Uganda, 1x1x1 das 3. Lá se vão 40 dias depois, restabelecida, a correria do zoadeiro dentro de casa. Que deu? Ela havia esburacado todo recinto e estava lordemente espragatada em lauto repasto regado por um suntuoso ninho de baratas. Ave! Aí Mané Gostoso gritou para Babau: Ela esbarrigou. Como assim? Parturiu nônuplos! Deu a porra! Que nem a Halima Cissé de Male. Empatou de novo. As gestações múltiplas prosseguiram e a hiperovulação a todo vapor. O marido: Onde vou parar? Estava eclipsado, melhor, de certo modo: lascado mesmo. Ela queria por que queria kopi luwak - o café mais caro do mundo? Só nas ilhas de Sumatra, Java e Sulawesi! Agora deu. Simbora. Foi quando ela teve o delírio de Pasífae ao avistar o suposto touro de Posídon, a brancura dele e os chifres dourados. Pediu por Deus e o mundo pra Dédalo fazê-la vaca. Onde já se viu? No fim: desgravidou-se de décuplos! É a Gosiame Thama Sithole sul-africana? O pior: um Minotauro no meio deles. Onde vou arrumar um labirinto de Cnossos? Fodeu-Maria-preá! Sou lá Hércules para deter esse bicho! Boba-da-peste! Tuntunqué perdeu a conta: ao todo, quantos mesmo? Quem sabe! Virou problemão, calamidade púbica. Donativos, caridade internacional, afora arrombar com as estatísticas do Guinness: batia todos os recordes! Quem não se comoveu? A manchete das paradas, de boca em boca, atrativos dos fuxicos: apostavam, mangavam. Não era pra tanto, né? As vizinhas e voluntárias vieram dos 4 cantos do mundo. Pitaqueiros levantaram dados pra conferência: teve 20 pares de gêmeos, 10 trigêmios, 8 quadrigêmeos – e é a Valentina Vassilyev é? Ou a Leontina Albino? Danou-se! A conta está errada, reconta tudo. Dava pra muito mais e a coisa tomou vulto. Mateus: O que é que se deve fazer numa hora dessas? Não tinha onde cair morto. Pedia perdão todo santo dia, a vida só escárnio. À essa altura do campeonato o coadjuvante pensava de banda, olhar de sobrancelhas circunflexas, entendia o sucedido? Era o mistério da vida aos inesperados, cogitava desertar, se esconder nos sapatos, o que fosse, pudesse. Deu-se as bodas de ouro dela, maior festão; ele teve um mal-estar: na mesma hora a filha encostada ao mais velho casava-se com o seu inimigo figadal. Deixa disso, pai! A desfeita escondia incesto, mancebias, arranca-rabo: É carnaval, é? E rolou o pastoril, a quadrilha do casório, bumba-meu-boi: irmão com irmã e vice-versa, parentes, achegados, festejos dionisíacos. Tudo junto, na tuia. Ali a coleção de filhos: aos muitos e demais. Era tempo da copa do mundo, a torcida: Dá preu fazer uns três times desses ou mais. Quem desacreditasse, os dissabores de medo do vazio, a vertigem às alturas, a tal da nuvenzinha sobre sua cabeça, passou de tudo: mais que o azarado Frane Selak – as tragédias e o prêmio da loteria; pior que o para-raio Roy Sullivan: Sou lá SPDA, meu! – foram 10 na moleira, queimaduras e desmaios, sortudo mesmo; afora mais bombas que Tsutomu Yamaguchi, mais naufrágios que Violet Jessop, mais furacões que Melanie Martinez, mais atacado que Erik Norrie, mais calamidade que John Lyne, mais desastrado que John Wade Agan. Impossível, meu! Oxe, ele tá de cu pra Lua, meu! Dá-lhe, afortunado! Foi ter com um dervixe e fez a dança giratória do sema no êxtase espiritual e a conexão com o divino, a mão direta pra cima, a esquerda pra baixo, e a tropa da pecha: Boiolou, foi? Ah, venturoso! Era tabu: São outros dois mil e quinhentos tantos – engasgou-se ao gaguejar: Se a letra está morta pra quê liberdade de palavra? Findou dourando a pílula antes de encomendar a alma a Deus. E ela: Se acovarde não! Catirina reinava pujante na maior felicidade. Até mais ver.

 

Frida Kahlo: A coisa mais importante para todos em Gringolandia é ter ambição e se tornar ‘alguém’, e francamente, eu não tenho a menor ambição de me tornar ninguém... Nada é absoluto. Tudo muda, tudo se move, tudo gira, tudo voa e vai embora... Nada vale mais do que rir. É força para rir e abandonar-se, ser leve. A tragédia é a coisa mais ridícula... No final do dia, podemos suportar muito mais do que pensamos que podemos... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Mia Couto: Carregamos o nosso passado como uma doença e o nosso presente parece estar conectado com um culto pela velocidade, que não nos faz refletir sobre o que nós somos... Todas as influências são parte de mim, que dão vazão na palavra, que constrói e inventa... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Aza Njeri: O Brasil continua sendo regido por trinetos de escravocratas herdeiros do lusotropicalismo freyriano... Todos nascemos com um Sol, que deve ser cuidado para manter a potência... Veja mais aqui.

 

A MINHA GENTE

Imagem: Acervo ArtLAM.

A minha gente \ Parece ter brotado \ Desta terra seca \ Brotada dos vulcões \ Nascida de uma concha \ Que o mar depositou na areia. \ A minha gente \ Tem rugas de olhar o longe \ Rugas de rir \ De sofrer \ E de morrer \ As de morrer são mais bonitas \ Provam o renascer.

Poema da premiada escritora cabo-verdiana Eileen Barbosa (Eileen Almeida Barbosa), que é autora de Eileenístico (2007) e incluída a na antologia Africa39: New Writing from Africa South of the Sahara (Ellah Allfrey, 2014). Edita o blog Soncent.

 

JORNADA DE SEU PRÓPRIO CAMINHO - Precisamos de espaço para discutir verdades sombrias não ditas e desconfortáveis... Quando eu era mais jovem, eu gostaria de ter sido informada com mais frequência que eu estava certa e nada estava errado comigo, que eu era merecedora de tudo o que este mundo tem para oferecer, e que minhas visões para o meu futuro eram dignas de busca... Devemos ter a audácia de aumentar a frequência de nossas verdades... Eu sei intimamente a luta de tentar viver sua vida e ser você mesma enquanto sente a pressão de uma comunidade inteira sobre seus ombros... Como uma ativista que usa a narrativa para combater o estigma, sempre fui inflexível de que contamos nossas próprias histórias... Para mim, como ativista e contadora de histórias, estou muito centrada em garantir que mostremos a cumplicidade da experiência humana que está enraizada nas experiências trans da minha comunidade... Pensamento da escritora, cineasta e ativista havaiana Janet Mock. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

AMPLITUDE DE ATENÇÃO – [...] É hora de repensar nossa relação com as tecnologias pessoais. Precisamos mudar o foco: em vez de buscar maximizar a produtividade humana com nossos dispositivos, devemos utilizá-los para manter um equilíbrio psicológico saudável, sem deixar de alcançar nossos objetivos. [...] Planeje seu dia levando em conta que você possui recursos mentais limitados e sabendo que dedicar um tempo para recarregá-los não só ajudará a reduzir o estresse e a resistir melhor às distrações, mas também aumentará sua criatividade. Sabemos como diferentes atividades — como estar com a família ou amigos, organizar um evento complexo ou caminhar na natureza — afetam nossa energia física no mundo real. No mundo digital, o que drena sua energia mental? Quais atividades repõem seus recursos? Que tipo de tarefa mecânica ajuda você a relaxar? Ao final do dia, você quer se sentir cheio de energia e com uma atitude positiva. Evite chegar ao início da tarde com suas reservas de energia já no limite. [...] Sabemos, pela gestão de projetos, que geralmente ocorrem atrasos e que as tarefas quase sempre levam mais tempo do que o previsto. Além disso, não há espaço para incluir o bem-estar humano nos cronogramas de tarefas. Precisamos, em vez disso, reaprender como estruturar o dia no mundo digital do século XXI. Isso deve incluir estratégias para evitar a exaustão e promover o bem-estar, bem como compreender o seu próprio ritmo de estados de atenção e o fato de que você dispõe de recursos cognitivos limitados e preciosos. [...] Todos sabem o que é a atenção. É a tomada de posse pela mente, de forma clara e vívida, de um dentre o que parecem ser vários objetos ou linhas de pensamento simultaneamente possíveis. A focalização, a concentração da consciência, são da sua essência. Mas, o que também é importante, James acreditava que a nossa escolha sobre aquilo a que prestamos atenção tem consequências, uma vez que construímos a nossa experiência de vida dessa maneira: "Milhões de elementos da ordem externa estão presentes aos meus sentidos, mas nunca chegam realmente a fazer parte da minha experiência. Por quê? Porque não despertam o meu interesse. A minha experiência é aquilo a que decido prestar atenção. Apenas os elementos que noto moldam a minha mente — sem um interesse seletivo, a experiência seria um caos absoluto."Em outras palavras, James acreditava que aquilo a que decidimos prestar atenção passa a fazer parte da nossa experiência vivida. Posso estar caminhando em um belo jardim com o celular na mão. Estou trocando mensagens com um amigo e tentando escrever corretamente, desviando do corretor automático, que muitas vezes adivinha errado. São as mensagens que ficam registradas na minha experiência, e não a maciez do solo, o trinado da toutinegra ou o vermelho-escarlate das azaléias. Concentrei minha atenção nas mensagens; eu poderia estar até na Times Square. Para James, então, à medida que transitamos pelo mundo, deparamo-nos com uma infinidade de estímulos variados e selecionamos, por vontade própria, aquilo em que vamos focar. Em outras palavras, podemos controlar onde depositamos nossa atenção. Ah, quem dera fosse tão fácil quanto James imaginava. [...]. Trechos extraídos da obra Attention Span: A Groundbreaking Way to Restore Balance, Happiness and Productivity (Hanover Square Press, 2023), da psicóloga e professora estadunidense Gloria Mark (Gloria Janet Mark), autora de mais de 200 artigos de pesquisa científica, que a fizeram reconhecida por sua pesquisa sobre computação social e os impactos sociais da mídia digital.

 

O UNIVERSO LITERÁRIO DE CLARICE LISPECTOR - Pensar é um ato. Sentir é um fato... Quem nunca se perguntou: sou um monstro ou é isso que significa ser uma pessoa?... Você sabia que, às vezes, a esperança consiste apenas em uma pergunta sem resposta?... Viver não é ter coragem; saber que você está vivendo, isso sim é coragem... Minha vida, a mais verdadeira, é irreconhecível, extremamente interior, e não há uma única palavra que lhe dê sentido... A única verdade é que eu vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou eu? Bem, isso já é demais... Enquanto eu tiver perguntas sem resposta, continuarei escrevendo... Pensamento da escritora e jornalista ucraniana-judaica, autodeclarada pernambucana brasileira, Clarice Lispector (Chaya Pinkhasivna Lispector – 1920-1977). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALCEU VALENÇA: 80 GIRASSÓIS, 50 ANOS DE CARREIRA

[...] Palco é vitamina. É alegria, harmonia. É comunicação. Muitas vezes, me encontro cansado, fatigado, mas quando chego ao palco é aquela energia absurda. Aí, viro o menino travesso, traquina, meio maluco. E adoro sê-lo. [...].

Trecho extraído da entrevista concedida ao jornalista Danilo Casaletti (Estadão, 2026), pelo cantor, compositor, instrumentista e advogado, Alceu Valença (Alceu Paiva Valença), que está em turnê pelo país, comemorando os seus 80 girassóis e a publicação do livro Pelas Ruas Que Andei: uma biografia de Alceu Valença (2023), escrito pelo jornalista Julio Moura e tema do documentário Vivo 76 (2026), dirigido pelo conterrâneo Lírio Ferreira. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

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ARTE NA ESCOLA: ARTESANATO

A professora Fátima Portela realizou com os alunos do 6º e 9º anos, da Escola CAIC, de Palmares (PE), trabalho de artes por meio da expressão artística do artesanato, numa homenagem aos artesãos locais, com a confecção de enfeites juninos. Confira detalhes aqui & mais aqui, aqui & aqui.

 


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domingo, junho 21, 2026

JOY HARJO, WALEED AL-HUSSEINI, SUSANA TRIMARCO & BRINCANTES DA MATA SUL

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

É o beija-flor \ E aqui dentro vai guardando o medo \ Mantendo em segredo o que deve mostrar \ Pois já tem medo de se ver sozinho \ Perder o caminho por compartilhar \ E vai voando de flor em flor \ Feito o beija-flor, sem se apaixonar \ E pouco a pouco vai perdendo o medo \ De se ver do avesso, por saber amar \ E voa mais que eu \ Seu beija-flor sou eu \ Além de nós, um eu \ Pra que eu seja todo seu \ E nunca mais seguir sozinho \ Construiu seu ninho, vai acreditar \ Sorrir com o choro do primeiro filho \ E servir de abrigo sem sequer chorar \ Pois foi voando de flor em flor \ Feito beija-flor, até se apaixonar \ E pouco a pouco foi perdendo o medo \ De se ver do avesso por saber amar... Pra que eu seja todo seu (aí, ó!)...

Ao som dos álbuns Dominguinho (Vol. 1 – Olinda, 2025 & Vol. 2 – Salvador, 2026), aclamado projeto acústico que une o compositor cantor de píseiro/forró, João Gomes (João Fernando Gomes Valério), o cantor, compositor e violonista Jota.pê (João Paulo Gomes da Silva) e o sanfoneiro, cantor, compositor e arranjador Mestrinho (Erivaldo Júnior Alves de Oliveira), com a participação do violonista Vanutti e da percussão inventiva de Gilú Amaral, homenageando o legendário sanfoneiro Dominguinhos, com repertório dos três artistas e releituras de clássicos. Veja mais aqui & aqui.

 


O bufo garçom na festa do céu... – Luzantoinho era bandoleiro de nascença. Desde bruguelo pirrototinho, bastava mãos ou braços que fossem e lá pulava, dele sair dando chau, com os dentes de fora. Já rapazote parecia ter tomado jeito de gente no baque das ondas pelas batucadas dos mulungus de Chico de Itá, no Maracatu Porto Rico, então apelidado já de Cutiliquê. Vôte! Foi aí, cheio das loas, o despranaviado: viu-se acometido pela síndrome da Tourette. E agora? Foi sacudido aos empurrões pra fora: Sai pra lá, cururu! Nisso ficou: liso e lesado, a coçar cocuruto. Num estalo deu o pira aos pinotes, montando com uma tocha de fogo no rabo dum porco ronceiro, dele ganhar rumo pra meter uma lança em África. Foi-se. Parecia: era uma vez... Qual nada, rasgou foi a boca. Nada, não. Aí penteou a gaforinha e foi ser aprendiz de feiticeiro com Tó Zeca: descobriu o rato dentro do queijo, o segredo da abelha, o dente de coelho, o elefante branco, o estômago de avestruz, a formiga de asa – tanajura? -, os gansos do Capitólio, as lágrimas do crocodilo, o leão-de-chácara, o leite de pato, as macacas de auditório, os olhos de lince, o asno de Buridan, o carneiro de Panúrgio, o cisne negro e a mula de Tales de Mileto que fez Him e voou sem cabeça por aí. Eita, bagaceira! Viu que a jaboticaba era pouca, nem dava pro gasto. Queixou-se ao bispo, arrumou os mijados e zarpou: Isso num vale um peido! Mandou tudo pras urtigas, ora. Nem acenou, mal-agradecido. Num vupe era o bei de Tunes e tinha de passar pelo sacrifício de Cúrcio, quando o galo cantou fora de hora atrapalhando tudo, de findar na garapa azeda pelo labirinto de Creta e, vexado, botou o ovo de Colombo na justiça de Cambises. Que aperto, meu! Quebrava a cabeça. E enquanto o diabo esfregava o olho, determinou-se agarrando no fio de Ariadne, com a lanterna de Diógenes e as muletas de Xisto. Valeu-se das cebolas do Egito e das cobras que perderam o veneno, dobrou o beiço e o rumo da venta pras galinhas dos ovos de ouro pelos jardins das Hespérides. Foi trupé. Mas, não: teve de encarar o bafo do Cérbero, a espada de Dâmocles no toitiço, a chuvada de canivetes. Que coisa! Nem mel nem cabaça na noite de Walpurgis, outros galos cantarão. Será? Isso se não desse em Lua cheia de saci correr bicho, com os relinchos da mula-sem-cabeça, os assobios da Curupira e agouros de Boitatá. Quem mexeu o angu é que sabe da bronca. Até aí já tinha morrido o burro atrepado no telhado e escapava tirando fino no bafo da onça. Por pouco, hem? Só voltas e revoltas às lonjuras, pertinho de nada, suas aporias. Suava muito a camisa pra tirar o pé do lodo e bote monturo nisso. Até que caiu do céu a sorte vocacional: garçom de ocasião festejado por clientela batucando em seu louvor A conversa de botequim do Noel & Vadico. Arrocha! Foi o que deu na beira de lagoa e ele só: Foi, foi, foi! Aprumou-se dedicado e passou a adivinhar pedidos dos paroquianos, oxe, metido a guardião Le Cordon Bleu, o faz-tudo inventava cardápio como se servisse deliciosa culinária de Cápua, dos fregueses lambuzarem-se de chupar os dedos e lamber os pratos. Eba! Virou casa de Orates. Com o tempo tornou-se confidente de solitários – teve de acalmar Alceste, alcovitar Alfeu e Aretusa, amansou Xatipa, até descobriu o anel de Polícrates e o escambau. Tô feito! Psiu! Tá dando em cima? Saideira. Tirava foto dos corujões e flagrava o anjo da guarda mangando dele, os 10%, folgado, bobão. Ainda apartou brigas de Chimangos e Maragatos, deu paradeiro ao dinheiro de sacristão, exaltou pretensos lotários, guardou a lista negra de sicários, até consolou o doutor da mula ruça chorando a morte da bezerra e escorado na mãe de Pedro, avalie. Com o tempo sabia de tudo: o resultado do bicho, o horóscopo do dia de cada signo, o prêmio da loteria, a manchete de amanhã, todas as fofocas, eventos, até da verdadeira e quilométrica lista dos propineiros do Banco Master e doutras escusas tramoias judiciais. Ora, se. E viu sucumbir os castelos no ar de muito soberbo que foi com muita sede ao pote e findou na Canosia, hem hem, para não dizer de quem pediu penico, abriu da vela e cagou fora do caco, maior meladeiro repugnante. Sacou? Foi nesse ínterim que ele foi escolhido pra servir na festa do céu. Eita! Viva! Maior badalação de soçaites embecados e noticiários retumbantes. O cara ajeitou-se todo na pinta e bancou profissa de responsa. Chegando lá estavam aboletados, entre os convivas, o cachorro Kratin-Qitmir-Al-Raqim dos 7 companheiros da caverna adormecidos em Éfeso, a jumenta falante de Balaão, a camela prenhe de Salé, Naqat Allah, que saiu de dentro duma rocha com bençãos gerais e leite em abundância; a baleia jactante que engoliu o profeta Jonas, a formiga de Salomão, o carneiro do Monte Moriá sacrificado por Abraão, o pássaro de Balgis-Belquisse da rainha Sabá, o bezerro de ouro de Moises, o burro Buraque-Al Borak de Maomé e a pomba do ramo de oliveira da arca de Noé. É mole? Só. Que marmota é essa, hem? Sou mais o criatório de Zeca Biu! Cadê o povo todo? Psiu. Foi empurrado entre bandejas e uma tuia de pratos agigantados, afora terrinas e travessas da muita, tudo fumegante e aos reclamos. Fui engalobado; mas, fiquei famoso. No outro dia, lá estava ele recolhido à Tebaida com cara de quem levou xexo e perdeu a mão na roda da fortuna, piongo de quase invisível. Foi então surpreendido por uma rabiçaca do destino: Era ela. Vixe! Um achado, ruidoso milagre. Jeitoso da gema, tirou da manga do colete toda sagacidade e: A-rá! E partiu pra melindrosa todo fogueteiro. Madame? Tenho esmola agora não. Posso servi-la? Passe outra hora. A bicuda olvidava e ele insistente no encalço, suspirava com os seus redondos seios, a diferente alvura dos seus dentes, a morenice brejeira, o cheiro fresco, seus gestos inéditos, sacudida de beleza vistosa, oooooooh, dele estouvar recreando-se ousada estimação nas pernas bambas, ah, danada, nela daria jeito. Ah, se. Poetou e fez figa: Lá vai a água descendo sem dizer nada. Já vai tarde. Aí arretou-se, pegou no bico da chaleira fervendo, pintou o caneco e pôs as tripas ao Sol: A senhora dá-me a honra desta dança? Ela virou a cara. Ele lá só conjugando: o nariz de Cleópatra, as orelhas de Midas, as joias de Cornélia, não há lindeza maior no mundo. Ela passou um rabo de olho e ele agitou as mãos, sorridente: Há um dia para o caçador e a caça fazerem a festa! Ela achou graça. Ih, deu mole, tô dentro! E não teve papas na língua, mandou ver nas razões chacoalhando aranzel chavecado no juízo dela, num esforço repuxado pelas pataratices, amabilidades aos bocados, até que, lá pras tantas, viu-la perder a paciência e deu o tiro de misericórdia, dela dar-se por vencida: Só uma valsa! E saiu com ele pelo salão dois pra lá e pra cá. Esmerou-se no gingado. No enfim, ela destrancou-se, entressorriram-se. Ele destampou seus segredos exagerando-se no macio como quem folheia abusado o Kama Sutra, venceu-lhe a pirraça, ancho como o homem da capa preta descabaçando a donzela de Orleães, nem se dando conta de tão enredado pela teia de Penélope, tecida e destecida, no de antes emprestado ao depois, nem desconfiava das astúcias dela, a ponto de emplacar sobrenome em agoniado cerimonial. Hoje é de vê-lo todo pabo pula-pula lavando a jega com suco de jurubeba ou gengibre, escanchado na porta de casa. Como vai sua patroa? E ele torando aço: Cala boca, a perereca tá lá dentro virada no créu, deixa quieto. Ih! Até mais ver.

 

Zezé Motta: É preciso ter coragem para viver... Não fico presa nessa ideia de lutar contra o tempo. Faz parte da vida... O palco, a música, o cinema, o carinho das pessoas. Tudo isso me mantém viva, ativa, com brilha no olhar. Trabalhar com o que amo há tantos anos também é combustível... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Efraim Medina Reyes: A vida tem muitas dimensões, mas estamos condenados a escolher uma e ignorar as outras. Estamos condenados a sentir que, por melhor que estejamos, nossa escolha foi errada. Estamos condenados a viver com alguém enquanto desejamos outros dia após dia. Estamos condenados a mentir, a dar beijos frios, a continuar tateando no escuro, fingindo uma paixão que se desvaneceu há anos. Por que fazemos isso? O medo de aceitar o fracasso pode ser uma das razões... Sabe, você me lembra um poema que não consigo recordar, uma canção que nunca existiu, e um lugar onde não tenho certeza já estive... Nada que se move está isento de falhas... Veja mais aqui.

Anna Akhmatova: É insuportavelmente doloroso para a alma amar em silêncio... Você ouvirá trovões e se lembrará de mim, e pensará: ela queria tempestades... Durante os terríveis anos do terror de Yekhov, passei dezessete meses nas filas da prisão em Leningrado. Um dia, alguém me "identificou". Então, uma mulher com os lábios azulados de frio, que estava atrás de mim e, claro, nunca tinha ouvido falar do meu nome, saiu do torpor que nos afetava a todos e sussurrou no meu ouvido (todos falávamos em sussurros): "Você poderia descrever isso?". Eu disse: "Posso!". Então, algo parecido com um sorriso surgiu no que antes era o seu rosto... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

FOGO - Uma mulher não pode sobreviver apenas com a própria respiração; ela precisa conhecer as vozes das montanhas, precisa reconhecer a eternidade do céu azul, precisa fluir com os corpos fugazes dos ventos noturnos que a acolherão em seu interior. Olhe para mim: eu não sou uma mulher separada; sou uma continuação do céu azul; sou a garganta das montanhas, um vento noturno que queima a cada respiração.

ESTA TERRA É UM POEMA - Esta terra é um poema de ocre e areia queimada que eu jamais conseguiria escrever, \ a menos que o papel fosse o sacramento do céu, e a tinta a linha quebrada de \ cavalos selvagens cambaleando no horizonte a quilômetros de distância. Mesmo assim, \ será que algo escrito importa para a terra, o vento e o céu?

Poemas da escritora, musicista, dramaturga e poeta estadunidense Joy Harjo, que se inspira nas histórias e narrativas das Primeiras Nações, bem como nas tradições poéticas feministas e de justiça social, incorporando mitos, símbolos e valores indígenas: Sinto fortemente que tenho uma responsabilidade para com todas as fontes que sou: para com todos os ancestrais passados e futuros, para com minha terra natal, para com todos os lugares que piso e que fazem parte de mim, para com todas as vozes, todas as mulheres, toda a minha tribo, todas as pessoas, toda a Terra e, além disso, para com todos os começos e fins. De uma forma estranha, me liberta para acreditar em mim mesma, para poder falar, para ter voz, porque preciso; é a minha sobrevivência... Entre seus álbuns musicais, o Red Dreams, A Trail Beyond Tears (2010), o espetáculo solo, Wings of Night Sky, Wings of Morning Light (desde 2009) e a peça musical, We Were There When Jazz Was Invented. Também é membro fundadora do conselho da Native Arts and Cultures Foundation.

 

BLASFEMO - […] Aqueles que são chamados de revolucionários e rebeldes, ou seja, aqueles que escaparam desse condicionamento, movidos pela vontade de viver, de refletir, de compreender uns aos outros e de explorar a vida e suas nuances. [...] É um grito de alarme que corro para salvar a inocência de crianças ameaçadas pela loucura e pela raiva. E é na escola e na mesquita que elas são moldadas para se tornarem criminosas! Porque no meu país e em outros, os principais fornecedores de terroristas são as mesquitas. [...]. Trechos extraídos da obra The Blasphemer: The Price I Paid for Rejecting Islam (Arcade, 2017), do escritor palestino Waleed Al-Husseini, que foi preso em 2010 sob a acusação de difamação, fugiu para a França onde obteve asilo. É autor dos ensaios publicados no seu blog Noor al-Aqel (Iluminação da Razão) e em língua inglesa no Proud Atheist (O ateu orgulhoso), descrevendo Alá como "um deus primitivo, beduíno e antropomórfico, e Maomé como um "maníaco sexual", o que lhe valeu antipatias de familiares e conterrâneos, afora ameaças de morte. Para ele todas as religiões são: um amontoado de lendas incríveis e uma pilha de disparates que competem entre si em estupidez. Ele critica o tratamento dado pelo Islã, a supressão da criatividade humana e as alegações de que o Alcorão contém milagres científicos. Fundou em 2013 o Conselho dos Ex-Muçulmanos de França. É também autor de The collaborationists of radical Islam unveiled (2017), Blasphémateur ! Les Prisons d'Allah (2015) e Une trahison française: Les collaborationnistes de l'islam radical dévoilés (2017). Para ele: É verdade que nem todos os muçulmanos são terroristas, mas todos os terroristas são muçulmanos. O problema no Islã está no conteúdo do Alcorão, e isso é absolutamente cristalino. Quem defende o contrário está cego... Não dizer nada é tolerar o intolerável. Não temo aqueles que me chamarão de “islamofóbico” quando denunciar o seu fundamentalismo: a sua chantagem com a islamofobia nunca funcionou comigo... O véu nada mais é do que um símbolo do islamismo político, assim como as braçadeiras eram para os nazistas!...

 

DOR DE MÃE CORAGEM & AS FILHAS DA DOR - [...] O dia 3 de abril de 2002 foi o dia mais triste da minha vida. Nunca me esquecerei desse dia, pois foi quando a vida da minha filha foi destruída [...] Essa é uma dor terrível que carrego permanentemente na minha alma. Quase me acostumei a viver com ela. [...] Quando Marita não voltou naquele dia, meu marido e eu sentimos que algo terrível tinha acontecido. Como pais, a gente simplesmente pressente essas coisas [...] Havia cerca de 60 mulheres, todas com roupas sumárias. Marita não estava entre elas. Eu disse a essas mulheres que quem estivesse ali contra a sua vontade, deveria se apresentar e vir conosco. Imediatamente, uma jovem correu para os meus braços e não me soltou até sairmos daquele lugar [...] Eu não era uma figura pública na época, então isso facilitou as coisas. Nem sequer contei ao meu marido que ia fazer isso. [...] Cada uma tinha um preço. Havia até meninas menores de idade, algumas com apenas 14 anos. Todas pareciam aterrorizadas. Quando você olhava para elas, baixavam o olhar e tentavam cobrir seus corpos quase nus com as mãos [...] A linguagem grosseira dessas meninas demonstrava o terror e a dor que elas estavam passando [...] Foi então que decidi criar uma fundação [...] Também vou continuar lutando na rua, nos meios de comunicação e onde quer que seja contra a exploração sexual, por minha filha Marita e por todas as moças que passam e passaram pela que ela sofreu... [...] Aqui, no meu peito, sinto que ela está viva e meu desejo mais profundo é o de abraçá-la forte... [...] Techos da entrevista Enfrentando os traficantes de pessoas na Argentina (BBC News, 2012), da ativista argentina Susana Trimarco, mãe de Marita Verón e fundadora da Fundación María de los Ángeles. Marita (María de los Ángeles Verón Trimarco) tinha 23 anos, em 2002, quando desapareceu em San Miguel de Tucumán, negociada por uma rede de tráfico de mulheres. A luta da mãe viúva e ex-funcionária pública argentina para encontrar sua filha, levou-a a se vestir de cafetina em prostíbulos, infiltrando-se em quadrilhas de tráfico humano, contando com a participação direta de sua neta, a adolescente Micaela Sol Trimarco. Ela sobreviveu a duas tentativas de assassinato, sua casa foi incendiada, ela recebeu inúmeras ameaças de morte, mas nada a impediu de procurar por sua filha desaparecida. Até hoje ela continua a denunciar fortemente a cumplicidade entre redes de tráfico humano, policiais e o poder político. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


O UNIVERSO LITERÁRIO DE JOÃO GUIMARÃES ROSA - A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada... O mais importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando... Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura...  Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver mesmo... Viver é etecetera... Trechos extraídos das obras do escritor, diplomata e médico João Guimarães Rosa (1908-1967). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

BRINCANTES DA MATA SUL

[...] Escrever esta obra foi caminhar por um mapa de afetos. A motivação veio do desejo de honrar aqueles que guardam o brilho da nossa cultura no corpo e na voz. [...].

Trecho da apresentação da obra Brincantes da Mata Sul: mapeamento da tradição popular pernambucana (Arranco-PNAB, 2022), da produtora cultural Maria Clara Catende (Maria Clara Mendes) e Flor das Chagas, resultado de uma pesquisa de campo realizada nas cidades de Catende e Palmares, marcadas por uma rica tradição de folguedos populares que atravessa gerações, na Mata Sul de Pernambuco. Durante a pesquisa de campo, a equipe percorreu engenhos, feiras, distritos e comunidades rurais, indo de porta em porta para ouvir, registrar e compreender os brincantes que mantêm vivas as manifestações como a Mazuca, o Guerreiro, o Caboclinho e o Bumba Meu Boi. A obra reúne registros fotográficos, entrevistas e um mapeamento detalhado das expressões culturais dos dois municípios. Veja mais aqui.

 

EDUCAÇÃO PATRIMONIAL, PERNAMBUCANIDADE NA HISTÓRIA:

ENTRE VERSOS, BACAMARTES & FOGUEIRAS – O CICLO JUNINO COMO EXPRESSÃO DA LITERATURA, DAS TRADIÇÕES E IDENTIDADE CULTURAL PERNAMBUCANA

Dia 25 de junho na Biblioteca Fenelon Barreto, Palmares (PE). Veja mais aqui.

 

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WOLE SOYINKA, CINDY SHEEHAN, MONA AWAD & GORETTI VARELLA

  Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som da performance Live at Minotti (Berklee College of Music, USA-2025), dos Eps Rise (2026) e T he Dawn (...