sábado, setembro 05, 2026

MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

 


O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto na área! Vasculhou-se de onde era que vinha aquela catinga horrível incomodando todos dali. Caçaram, pelejaram, vasculharam e só deram conta do sucedido quando avistaram uma tuia de urubu-de-cabeça-preta atrepado aos giros sobre uma casa, a última do arruado do Barão, só pessoas dele moravam naquela redondeza. E depois delas, temores quando anoitecia, a rodagem dava pro cemitério. Vixe! Mau agouro! Oxe, larga de ser frouxo! Quem mora aí? Ah, um que era tido por estranho mudo, há décadas perdidas na memória. Ninguém sabia o seu nome, nem parentes, nem conhecidos, apenas que era cheleléu do Barão. E que saía de casa antes do amanhecer e só retornava tarde da noite. Isso até a morte do influente poderoso – há uns 10 ou mais anos atrás. Depois do desencarne do onipotente, via-se ele toda noitinha, aboletado na cadeira à porta de casa. Não conversava com ninguém e só saía de casa para comprar mantimentos, logo retornava e se trancava novamente. Viam-no vez em quando na padaria, no açougue, no supermercado, ou pela beira do rio. E davam-no por álalo, porque ao ser saudado, apenas balançava a cabeça anuente com um sorriso receptivo. É aí mesmo a fetidez! E agora? Chutes e mãozadas botaram a porta abaixo: a inhaca tomou conta. Danou-se! Foi difícil adentrar, o corpo jazia no chão escuro, ao lado da cama, envolto por várias folhas de papel e outras espalhadas pelo chão. Era uma casa simples, sala, quarto, cozinha e banheiro, poucos utensílios: um fogão de duas bocas, acoplado a um diminuto botijão de gás, um prato, talher, uma garrafa térmica, uma cadeira de balanço e outra plástica, uma foto do barão na parede, um rádio de pilha e um amontoado de volumes, com encadernação artesanal, lendo-se na capa: Diário do Barão. Eram muitos tomos pelos cantos da sala, pelo quarto e empilhados na parede da cozinha, às centenas. Todos iguaizinhos e com a mesma inscrição na capa. Ao folheá-los, manuscritos com uma caligrafia bem desenhada, datas – dia, mês e ano - e narrativas registrando o dia-a-dia. Eita! Ninguém estava interessado em saber o que continha naqueles rabiscos. Saíram procurando por parentes ou conhecidos, vasculharam documentos, nada. Por fim, sacudiram-no numa cova rasa no canto do muro lá do cemitério. Pronto. E a casa dele? Deixa pra lá, os que ficaram para herdeiros do barão a qualquer momento vão arrumar um jeito. E a casa abandonada ali ficara. Um ou outro curioso surrupiava um exemplar para saber o que tinha. Logo o converseiro nasceu, a curiosidade aguçou. Rapaz, tu lesse aquele? É bronca! O barão era virado, hem? Oxe, meu pai contava muitas e boas dele! E em pouco tempo a coleção  sumiu. E a arenga: Quem tem um livro daquele? Quem sabe! Rapaz, é mesmo? Tudinho aos detalhes! Tá doido? Quero nem saber! Os anos se passaram e de boca em ouvido, dizem, toda a hestória das coisas tidas e idas em Alagoinhanduba. Valha-me!.. Até mais ver.

 

Georges Bataille: A necessidade de se desviar, de ser destruído, é uma verdade extremamente íntima, distante, apaixonada, turbulenta... Um beijo é o começo do canibalismo... Na verdade, temos apenas duas certezas neste mundo - que não somos tudo e que morreremos... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Heather Thomas: Aprendi a me ouvir, a prestar atenção ao que meu corpo dizia e a respirar conscientemente. Eu também estava lidando com uma doença crônica. Lutei para aceitar tudo o que fazia parte da minha vida, dentro e fora da narrativa oficial. Assim como eu, essa narrativa estava sempre em revisão, assumindo novas formas... Veja mais aqui & aqui.

Jared Diamond: É impressionante que os nativos do continente americano não tenham desenvolvido nenhuma doença epidêmica devastadora para transmitir aos europeus, em troca das muitas doenças epidêmicas devastadoras que receberam do Velho Mundo... Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

OS USOS DA TRISTEZA - Uma vez, alguém que amei me deu \ uma caixa cheia de escuridão. \ Levei anos para entender \ que isso também era um dom.

EXCETO PELO CORPO - Com exceção do corpo \ de alguém que você ama, \ incluindo todas as suas expressões \ em privado e em público, \ As árvores, em minha opinião, \ são as \ formas mais belas da Terra. \ Embora, reconhecidamente, \ se isto fosse uma competição, \ as árvores ficariam em \ um distante segundo lugar.

Poemas da premiada poeta estadunidense Mary Oliver (Mary Jane Oliver – 1935-2019). Veja mais aqui.

 

RACISMO & RESILIÊNCIA - […] Atenção: este livro contém material que os leitores podem considerar perturbador e chocante, podendo causar tristeza, angústia ou desencadear memórias traumáticas, especialmente para os povos aborígenes e para aqueles que sobreviveram a abusos, violência ou traumas na infância. [...] Quando você apanha, isso te afeta profundamente. Tira sua autoestima, sua confiança, seu amor-próprio e sua autovalorização. Mas, mais importante ainda, tira sua voz. [...] Entrei para a polícia por vários motivos: primeiro, para ver se conseguia entrar, e mais importante, porque tinha visto como a polícia maltratava o meu povo e ingenuamente pensei que, se entrasse, conseguiria acabar com isso. [...] Quando entrei para a polícia, tinha a ideia de que poderia mudar a atitude da comunidade aborígine em relação à polícia. Mal sabia eu que só conseguiria fazer isso depois de mudar a atitude da polícia em relação aos aborígenes [...] A dor e o sofrimento das gerações roubadas são transmitidos de geração em geração. Minha avó viveu esse medo, meu pai experimentou o medo e eu temi a experiência. [...]. Trechos extraídos da obra Black and Blue: A Memoir of Racism and Resilience (Bolinda, 2022), da escritora aborígene australiana Veronica Gorrie (Veronica Heritage-Gorrie), autora de trabalhos como When Cops Are Criminals (2024) e Nullung (2021).

 

PÓS-HUMANO - […] O que é necessário é uma transformação radical, seguindo as bases do feminismo, do antirracismo e do antifascismo... [...] O conceito de ser humano hoje está em discussão. Aliás, não tenho certeza se existe um consenso sobre o que significa ser humano [...] Não acredito que o pós-humanismo seja algo que virá no futuro. Não é ficção científica. [...] E também não sou um transhumanista do Vale do Silício que acredita que somos capazes de fazer o upload da nossa consciência para um computador e nos transformarmos em super-humanos. Acredito que o pós-humanismo seja, na verdade, um índice para descrever o estágio em que nos encontramos agora. Nossos valores, nossas representações e nossas formas de compreensão ainda estão ligados a conceitos antigos do ser humano [...] Estamos repensando os parâmetros da nossa humanidade. Encontramo-nos numa fase de crítica ao antropocentrismo, à ideia de uma espécie central que controla todas as outras. Pós-humano não é um conceito excelente. Pessoalmente, não gosto dele, mas, no momento, não temos um termo melhor para designar todas as pesquisas e experiências realizadas em universidades e centros culturais que se concentram em novas formas de pensar sobre o que estamos nos tornando. Desenvolvemos novas possibilidades fascinantes, como, por exemplo, a manipulação genética, mas nossos valores, nossas representações e nossas formas de compreensão ainda estão atreladas a conceitos antigos do ser humano. Precisamos ser corajosos e discutir juntos, de forma democrática e crítica, o que queremos nos tornar. O que somos capazes de nos tornar. [...]. Trechos da entrevista (CCCBLab, 2019), concedida pela filósofa e teórica feminista italiana Rosi Braidotti, que no seu livro El conocimiento posthumano (GEDISA, 2019) aborda questões contextuais acerca do retorno virulento de atitudes patriarcais e supremacistas brancas, examinando as implicações da virada pós-humana para a teoria e a prática feministas. Ela define a virada pós-humana como uma convergência entre o pós-humanismo, por um lado, e o pós-antropocentrismo, por outro, e analisa sua complexa relação e impacto conjunto, afirmando que a produção acadêmica pós-humana dominante negligenciou a teoria feminista, quando, na verdade, o feminismo é um dos precursores da virada pós-humana, por meio de diversos movimentos sociais e tradições políticas. Ela é autora de obras como Posthuman Feminism (Polity Press, 2022), The Posthuman (2013) e  Nomadic Subjects (1994). Veja mais aqui & aqui.

 

CHACRINHA, O VELHO GUERREIRO

Cheguei, baixei, saravei! Eu vim para confundir, não para explicar!...

Sentença do saudoso comunicador e apresentador do rádio e da TV, Chacrinha (José Abelardo Barbosa de Medeiros, simplesmente Abelardo Barbosa – 1917-1988), que revelou inúmeros artistas como Roberto Carlos, Clara Nunes, Raul Seixas, entre outros. Ele depois de falsificar a data de nascimento, ingressou no Tiro de Guerra, em Recife, quando atuou como baterista e percussionista do grupo Bando Acadêmico. Cursou Medicina e, depois de uma malograda turnê por conta da 2ª guerra mundial, voltou para o Rio Janeiro, onde se tornou locutor da Rádio Tupi e daí foi para a televisão. Era chamado de “Velho Guerreiro”, por conta da homenagem feita a ele por Gilberto Gil, como também de Papa da Comunicação, alcunha dada pelo filósofo francês Edgar Morin. Ele iniciou sua carreira no rádio com o programa Rei Momo na Chacrinha, em 1943, e fez muito sucesso na televisão com os programas Buzina do Chacrinha, Cassino do Chacrinha e Discoteca do Chacrinha, até o final da década de 1980. Foi homenageado pela escola de samba Império Serrano no carnaval de 1987, com o enredo "Com a boca no mundo - Quem não se comunica, se trumbica", e pela escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio, no carnaval de 2018, com o enredo “Vai para o trono ou não vai?”. Outra homenagem foi a música Roda e Avisa, de Jota Michiles e Edson Rodrigues, gravada por Alceu Valença. Ele participou de diversos filmes, entre eles Três Colegas de Batina (1962), A opinião pública (1967), Pobre Príncipe Encantado (1969), Já não se faz amor como antigamente (1976) e As Aventuras de um Paraíba (1982). Além destes, ele foi tema do documentário Alô, Alô, Terezinha! (2009), dirigido por Nelson Hoineff. Veja mais aqui.

 


A MÚSICA DE MOACIR SANTOS – Homenagem ao arranjador, compositor, maestro e multi-instrumentista Moacir Santos (1926-2006), pela sua trajetória musical iniciada ainda menino órfão e que, durante décadas, finalmente perseguiu sua arte para alcançar aplausos no exterior. Confira aqui.

 


PAULO FREIRE – O educador e filósofo Paulo Freire (1921-1997) é uma das mais importantes personalidades da educação planetária, tendo sua obra atravessado fronteiras e estudada nos mais diversos países. Sua proposta de educação dialógica e problematizadora tem sido relevante na construção de uma postura crítica ante a realidade. Veja a dimensão de sua filosofia aqui.

 


ARTE NA ESCOLA – Por iniciativa das professoras Fátima Portela & Myrelly, os alunos do 9º ano da Escola Caic - José do Rego Maciel, de Palmares (PE), realizaram atividades que envolveram a elaboração e realização de xilogravuras, trava-língua, apresentações de cordel, embolada, dança de roda, parlendas, entre outras. Confira aqui.

 


BARÃO DE ALAGOINHANDUBA – (Imagem: Acervo ArtLAM) – A personagem do Barão de Alagoinhanduba é uma das mais relevantes no território de Alagoinhanduba e arredores regionais, não só pela sua preponderante participação no desenvolvimento da cidade, como o envolvimento com a política, a ordem, segurança e desenvolvimento, responsável pelos mais inusitados e extravagantes acontecimentos da localidade. Confira aqui.

 


CAOSMOSE & O POEMA NASCE NO VISINVISÍVEL...Série ArtLAM elaborada com pigmentos naturais, acrílica e lã de aço em papel Canson A4, para a exposição coletiva Gentamiga Ateliê, realizada entre os dias 21 a 30 de setembro, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto, Palmares (PE), por ocasião de lançamento do livro-catálogo do Gentamiga Ateliê (CriaArt, 2026), com apresentação dos professores da USP, Evandro Nicolau e Renata Sant’anna. A série reúne os trabalhos intitulados Pulsações caósmicas, Fluxo dos devires, Pulsações do efêmero, Ensaio de múltiplas dimensões, Trâmite dos simulacros & platitudes, Arrostar aporias, Celebração autopoiética e Limiar da loucura poética. Confira aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO!!!

A arte do escultor Mestre Noza (Inocêncio Medeiros da Costa, Inocêncio da Costa Nick – 1897-1983).

Veja mais aqui.

 




sábado, agosto 29, 2026

ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

 


Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, aparando a testa dos seus 13 anos de idade, caniço de magro, à procura duma lavagem de roupa pra se sustentar em pé. Cabisbaixo arrastava a chinela, pra cima e pra baixo, a se distrair com as falas escandalosas da estridente aglomeração no vuque-vuque pelo centro da cidade. Era gente que só, pensava consigo: todos só queriam ganhar e gastar dinheiro, alvoroçados, e o que fazer mais se era esse o ânimo de todo mundo e, fora disso, a miséria encardida dele pela manhã todinha. Ah, porcaria! Já passava do meio dia e a fome apertava pra quem ainda se segurava no jejum. Numa lanchonete pediu emprego: Venha sábado, que é dia de feira. Então, me dê uma comida aí! Sai pra lá, mendigo! Austero, grosseiro, o dono do estabelecimento o defenestrava dali. A sua salvação foi um estranho que ofereceu pagar a refeição dele. Traçaram o rango juntos e, tapeado o bucho,  zanzaram a tarde toda. O céu àquela hora tinha a cor de quando vem chuva e ele se achando pelo mundo postiço, flagrando a torpeza espalhada entre fingimentos e desavenças pelos chuviscos. Só faltava essa! Os olhos amornados: caiu o maior pé d’água. Assuntou um tiquinho, coisa chocha mesmo. Ajeitava-se pelas beiradas, a água já pelo mocotó, fazia que aguentava aquilo tudo, as coisas todas de fora e as não vistas por aí. Desencosta dessa tristeza, chô! Hem? Segura a tampa. Ah, infame! Ele ali cheio das curiosidades, não conhecia bem Alagoinhanduba. Danou-se às perguntas, carregado de dúvidas. Desinvoca, vai! Falavam dum milagre que ele andava à cata: Onde? Quando? Nunca que sabia que tinha um santo Médici: Onde já se viu? Desincha as bochechas, vai! Às risadagens, com agora amigo Beto tagarela: Eu quero é botar meu bloco na rua! Como assim? Quero é atravessar a ponte Rio-Niterói! É longe? Se, ó. Queria era arrumar um emprego! Melhor fugir pela Transamazônica. Onde fica isso? Lá longe, depois de onde vira o beiço! E como chego lá? Vai andar um bocado. Logo vi, tudo é longe pra mim. Ih! Sorria, meu bem, sorria!... Chega dá vontade... Não bote força, vá no jeito. Aí, não deu sentença. E o amigo, numa cantiga de amor doido: Chorar pra quê?... Foi-se Bruce Lee. Era o dia dele. Gente é bicho de Deus. Ara. Fique atento, senão finda como o agente Laranja pedindo penico pra vietcongue, visse! Como? Você não entende nada! Palavreado loré esse seu. Oh, tapado: é aqui a Guerra do Vietnam, de verdade. Você fala umas coisas estranhas... Eu sou a Mosca na sopa! Queria ser como você... Anoiteceu, vamos cear pra gente assistir o Bem-amado. Onde? Ali na tevê da praça, não viu? Vamos, depois, a gente passa por lá. Engoliram o que deu pra comer no pavilhão de dona Zefinha e, depois, se arrancharam no jardim da praça pra ver a novela. Você vai dormir aonde? Não sei. Tem uma maloca no arruado da usina, a gente dorme por lá. Oba! No dia seguinte despertou sozinho, o amigo havia sumido. Oxe! Passou o dia todo pedindo emprego, a pança vazia. Já de noite de novo e tentou enganar a barriga roncadora assistindo ao capítulo teledramático, mas perdeu a paciência e foi-se, recolheu-se à tapera, tentando dormir. Amanheceu o sábado roxo de fome, correu pra lanchonete e, chegando lá, conseguiu ocupar-se. Já tomou café? Não como desde anteontem. Tome. Devorou um sanduíche de mortadela, deu pra enrolar as tripas. Bora trabalhar. Viu o patrão folheando um jornal com a foto daquele seu amigo desaparecido, o Beto. De soslaio: Conhece ele? Não. Era dia de feira, o povo e seus pedidos. Nem deu tempo para mal-entendidos. Desenrolou e, no final do expediente, comeu um pão com ovo, zarpou bêbado de sono. No outro dia, as moedas do bolso: O que ganhei mal dá pra comer. Foi pro trabalho, fechado, era domingo, ora, tinha de se virar: saiu catando o que fazer. Deu de cara com um estranho cantarolando o sucesso do rádio: “Vira, vira, vira, \ Vira, vira, vira homem, vira, vira \ Vira, vira lobisomem...” Era o receptivo coroinha Pedim do Padre: Que é que você tem? Tô com fome. Oxe, vamos pra igreja, você me ajuda a balançar o sino e a gente come na casa paroquial. Bora. Nunca tinha visto mesa farta, o padre Quiba deu as ordens: Quem é esse? É um morador de rua, estava com fome e veio me ajudar. Vamos logo! Os dois lá, blém, blém, pra missa da manhã domingueira. Terminada a liturgia, limparam tudo e saborearam farto repasto: era o almoço. Saíram juntos quando o agora amigo mostrou-lhe uma coleção de gibi. Coisa de ficar entretido. E brincavam já de tarde: De noite a gente vai no cemitério! Fazer o quê? Brechar as moças da vida se esfregando nos machos! E é! Pra frente, Brasil! À boquinha da noite lavaram a égua e foram pular o muro do sepulcrário. Hesitou, o terror das trevas, tudo nevoento. Atravessaram pelas catacumbas e se arrancharam numa touceira na parede esburacada. O que é aquilo? Safadeza. Viram dois machões esmurrando uma delas, aos gritos. Vieram outras, apanharam todas, chicotadas, desnudas. Eita, cada lamborada, hem? Gritaria. Lua espantou-se com o amigo onanista, em êxtase por vê-las seminuas, vestes rasgadas. Olha a caçola delas, meu! E o provocava para um cavalo-mago! Eita! Deixa de ser molenga! Estranhou vê-lo às aperturas, todo se desmilinguindo, os olhos virando. Sai pra lá! O enterro voltando: Lá vem os caras pra cá! Corre! Quedaram em desespero, acotovelaram-se. Pra que lado? Arquejavam, o chão tremia sob os pés. Tomou-lhe o pulso: Bora, porra! Deixaram tudo pra trás. Pularam o muro de volta e na primeira esquina: Vamos, já tá na hora da missa! Correram e ficaram lá, de joelhos, cara mais lisa, santinhos. Ao término, seguiam sob as vistas desconfiadas do pároco, chamando Pedim prum confidencial. Ouviu o zunzunzum e logo percebeu que não seria nada de bom. Um estrondo: só viu o baque! Eita! Pedim veio com uma cara enjoada. O vigário logo em seguida com cara de poucos amigos: Tem onde dormir? Tenho. Então pode ir, zarpa! Despediu-se do amigo, com uma promessa dele: Amanhã passa na Barraca Azul que eu descolo um lanche pra você. O da batina deu um beliscão no achegado e cagou raios nos bregues. Foi-se o que dera doce, socou-se na sua loca e, no outro dia, olhos remelentos, fatigado. Levantou-se e foi pro acertado: o amigo não estava lá, como prometido; o canto mais limpo. Disseram: Ele foi trabalhar em Itaipu! Vixe! Foi pra lanchonete e levou esporro porque chegou atrasado: Você é o Skylab é? Não, senhor. Se for, leve a bronca pra lá! Descolou um petisco e ficou por ali fazendo mandados. O patrão resmungava: Esse não vale o feijão que come! Ao lado, uma banca de revistas, não tirava o olho: Quanto é? Não tinha dinheiro para comprar aquela que soletrava: Char-lie, Charlie Moon. O chefe ralhando feio, brabeza nos olhos: Vai roubar não, tô de olho em você! O proprietário da banca arremedou: Esse num vale um conto de réis! Aí o superior castigou: Fique perto das minhas vistas, seu! Zé na defensiva, ficou meio de banda e levou no cangote maior esculacho: Menino, tome jeito, senão você acaba que nem Araceli, viu? Ou como Carlinhos... Ana Lídia... Ou o Beto, se assunte! Beto? Ficou com o coração na mão, o olho numa rapadura ali estirada no gosto. Serviu-se de uma boia e, às portas arreadas, procurou caminho de volta pro cantinho, pra se entocar. No meio do caminho: Foi ele! Pega! Correria, escondeu-se na primeira brecha. Onde ele se meteu? Pente fino, caça tudo! Clandestino, ficou na sua: Pra quem não tem um bem nem vintém, ué! Tapava o olho, mirava, aos sopapos, um toco de graveto, a futucar no traquejo, era o ponto pras más surpresas. Foi por uma banda, voltou pela outra. Segurou a carranca na sola do pé, foi a conta: riscou no ar. Mandou longe, tão desfeliz, segurou-se na cacunda, resignado: a boa lua que acudisse, asfixiado de medo. Coisa de cigano: sem saber pra onde metesse as ventas. Mas ia. A coragem no toitiço por uma peínha de nada, segurava nos beiços sua indignação. A vizinhança caçadora: Cadê-lo? E ele trepado na garupa doutro esconderijo, sua modorra. Ao rés do chão, puxou a tabica, faria o mesmo e se desviava papudo, pueril, afiava a munheca no parapeito. Aí a frustração: nada dava liga. Lembrou-se de Beto, Pedim, o emprego, dona Zefinha tão boa, tudo perdido. Assim por vários dias, semanas, meses, aos pinotes, a coisa nunca como sonhado e ele: Só deixo o meu Cariri no último pau de arara... Era uma vez e mais uma e outra mais... Até mais ver.

 

Emil Cioran: O homem recomeça todos os dias, apesar de tudo o que sabe, contra tudo o que sabe... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Jennifer Egan: De certa forma, estou sempre tentando fazer algo que não estou qualificada para fazer. Por isso, sinto essa falta de qualificação. E tenho medo. E eu tenho uma tendência a pensar que as coisas podem e provavelmente não vão dar certo. Essa é a minha mentalidade básica... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ione Skye: Eu tenho essa teoria da convergência, de que coisas boas sempre acontecem junto com coisas ruins... Não seja cruel, isso também é difícil para mim... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

VÓRTICE QUEBRADO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Estou num vazio árido, escuro e desolado. \ Pendurei os kilims contra o vento. \ Aqui estou eu, \ num cochilo vespertino sobre os talos. \ O mundo está lá embaixo, as montanhas distantes. \ Sou tão ressentido quanto esta encosta, \ mas colorido, ao vento, kilims \ e o fim da colheita, folha cansada, lagarto fugitivo. \ Sou o lago sobre o qual a noite cai. \ Uma vez que criei uma memória por amor, \ não o farei novamente. \ Sou um pequeno grupo na vinha \ sobre a qual o outono passou e abandonou. \ Você é como um lago, \ você é como um lago? \ Você é como um lago, ei! \ Você está em um sonho, ei, você é o sonho. \ Em um poema aquático, \ você está falando alto. \ Os Países Baixos \ estão silenciosos agora. Sempre!

Poema da escritora, editora e socióloga turca Birhan Keskin, que foi editora adjunta da pequena revista Göçebe e é autora de livros como: Delilirikler (1991), Bakarsın Üzgün Dönerim (1994), Cinayet Kışı + İki Mektup (1996), Yirmi Lak Tablet + Yolcunun Siyah Bavulu (1999) e Yeryüzü Halleri (2002), Kim Bağışlayacak Beni (2005), Ba (2005), Y'ol (2006), Soğuk Kazı (2010) e Fakir Kene (2016).

 

ÍDOLO ARDENTE - [...] Da mesma forma que uma noite de sono amassava os lençóis, o simples fato de estar vivo cobrava seu preço. [...] Mas este mundo onde eu aparecia com minha persona meio inventada era um lugar mais gentil. [...] Eu não conseguia lidar com a vida da mesma forma que todos os outros pareciam fazer com facilidade, e lutava diariamente com as consequências complicadas. Mas impulsionar meu oshi era o centro da minha vida, algo natural, meu único ponto de clareza. Era mais do que um núcleo — era minha espinha dorsal. [...]. Trechos extraídos da obra Idol, Burning: A Psychological Debut About Celebrity Worship, Fame, and Devastating Scandal (HarperVia, 2022), da escritora japonesa Rin Usami.

 

A VIDA & VIVER - Eu exorto você a encontrar uma maneira de mergulhar plenamente na vida que lhe foi dada. Parar de fugir de tudo o que você está tentando escapar, e em vez disso para parar, virar, e enfrentar o que quer que seja… A razão pela qual todos nós somos tão miseráveis pode ser porque estamos trabalhando tão duro para evitar ser miseráveis... Pensamento da psiquiatra e professora estadunidense Anna Lembke. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE ANTÔNIO MARIA

(Escultura de Antônio Maria, na Rua Bom Jesus, centro histórico do Recife, do escultor Demétrio Albuquerque - Foto: Rubens Chaves)

Vi-a passar. Comecei a vê-la ao longe, quando despontou na rua. Conheci-lhe a blusa, mas achei diferente a maneira de caminhar. Aquele andar mole, de quem vai para lugar nenhum. Talvez não fosse o caso, no entanto. As pessoas quando não estão felizes, ou quando estão infelizes, por mais que andem, parece que não vão para lugar nenhum... De vez em quando eu tenho me surpreendido descansando de coisas que eu não fiz... O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira...

Trechos extraídos de crônicas do escritor, jornalista e compositor Antônio Maria (Antônio Maria Araújo de Morais – 1921-1964), que compôs samba-canção, polcas, frevos, marchinhas de carnaval, valsas e sambas. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,  aqui & aqui.

 

A ARTE DE YAYOI KUSAMA

Minha arte é uma expressão da minha vida, sobretudo da minha doença mental, originária das alucinações que eu posso ver. Traduzo as alucinações e imagens obsessivas que me atormentam em esculturas e pinturas. Todos os meus trabalhos em pastel são os produtos da neurose obsessiva e, portanto, intrinsecamente ligados à minha doença. Eu crio peças, mesmo quando eu não vejo alucinações, no entanto. Com o tempo, passou a preencher pisos, paredes, telas, objetos e até pessoas com seus pontos...

Pensamento da escritora e artista plástica japonesa Yayoi Kusama (1929-2026), que se expressou por meio de uma diversidade artísticas, que vai das colagens, pinturas, esculturas, arte performática e instalações ambientais, tendo por característica a obsessão por pontos e bolas. A obra “Narcissus garden Inhotim” (2009) pode ser encontrada no Centro Cultural Inhotim, em Minas Gerais, dezenas de grandes esferas prateadas, que ficam na superfície da água e que podem ser movidas conforme a ação dos ventos, réplica/versão da escultura que fez em 1966, para participar da Bienal em Veneza, onde ela espalhou 1500 esferas espelhadas e as vendia por 2 dólares. Entre as bolas, havia placas com os dizeres “Seu narcisismo à venda”, uma forma que ela encontrou para criticar o sistema das artes. Ela era considerada louca e, na sua loucura e em seus desvarios, ela encontrou na arte a fuga e o tratamento da sua doença. Como ela mesma diz: Se não fosse sua arte, já teria me matado há muito tempo. No caso dela, além das alucinações, muitas vezes suicidas, ela ainda passou a ter TOC, ou seja, as bolinhas e pontos se tornaram uma verdadeira obsessão, que se reflete em tudo que venha da artista, não só em sua arte como também no seu visual, que chamou muita atenção. Veja mais aqui & aqui.

 


LEITURAS: JORGE LUÍS BORGES – (Imagem do pintor italiano Stefano Davidson) - Reunião de algumas das leituras de obras do escritor argentino Jorge Luís Borges (Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo – 1899-1986), por quem nutro profunda admiração, tornando-me compulsivo em devorar seus livros, incluindo-se aí releituras reiteradas e feitas até hoje. Confira aqui.

 


O TEATRO DE AUGUSTO BOAL – Homenagem ao dramaturgo, escritor e compositor Augusto Boal (Augusto Pinto Boal - 1931-2009), tendo em vista a sua indispensável importância na minha formação teatral, influenciando, evidentemente, a minha atuação na área, inclusive na escrita dos meus textos. Muito aprendizado que foram recolhidas de suas obras, notadamente Técnicas Latino-Americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário (Hucitec, 1975), 200 exercícios e jogos para o ator e não-ator com vontade de dizer algo através do teatro (Civilização Brasileira, 1983), além de Teatro do oprimido e outras poéticas políticas (Civilização Brasileira. 1975), entre outras. Tenho em os livros de minha predileção o seu Teatro Completo (Hucitec, 1986, 2 volumes). Confira aqui.

 


SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – Reunião de temáticas que abordam a diversidade dos debates na sociedade contemporânea, envolvendo desde a questão do futuro da humanidade, a arqui-violência, o cristofascismo, o capitalismo, o racismo, agrotóxicos, a responsabilização política, as tecnologias e as neurociências, entre outros, refletidas pelos mais diversos pensadores, neurocientistas, filósofos, psicólogos & outros profissionais estudiosos dos mais diversos campos do saber. Confira aqui.

 


O CAMINHO DOS VENTOS - Este é o terceiro episódio das aventuras do Nitolino no Valuna, em que os protagonistas chegam no toré xukuru e são levados ao sabor dos ventos. Confira aqui.

 


GENTAMIGA ATELIÊ – Livro-catálogo & exposição que ocorrerá neste mês de setembro, reunindo as obras dos artistas integrantes do Gentamiga Ateliê, formado por Rubens da Cunha Lima, Cibele Sarkis, Ricardo Aidar, Márcia Gebara.  A coletânea conta com apresentação dos professores da USP, Evandro Nicolau & Renata Sant'Anna. Confira aqui

 

ISTO É PERNAMBUCO

Arte do Mestre Vitalino. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 



sábado, agosto 22, 2026

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

 


Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinador - a cada obra adivinhava futuro ou passado, era. E diziam dele ser o profeta tebano reencarnado: Ora, se; tá na cara! Só faltava virar mulher, se num já foi uma vez na vida. Quando não dava forma obrando verdadeiros milagres no barro, nos tocos de madeira, tecidos, metais, fibras ou vidros, moldando, costurando, ajeitando, cortando, entalhando ou pintando, era o bulício das expectativas de entusiastas coscuvilheiros, o que é o que é, e ele, na ponta da língua, tome! Mão na massa só saía coisa bonita de se ver, enchiam mesmo os olhos, chega dava gosto: os bonecos escritinhos gente, só faltavam falar; os bichos tudo em ponto de andar, de quase ouvi-los barulhando no oitão. Ora, se. Bicho danado esse Tirésia, hem? E não faltava quem queria saber da sorte, cura ou desejo, aos muitos: pais ansiosos se menino ou menina no bucho e quem ia nascer dos dois, se ia ganhar litígio na justiça, se o negócio ia dar certo, se a safra ia ser boa, se ia ganhar a eleição, ora, afora outros tantos, cada qual com sua pendenga desvendada por antecipação. Mesmo assim, solitário invisual, valia-se da companhia de Maricota, sua assistente dedicada, que um dia fora uma órfã perdida no meio do mundo. Ele abrigou-a e, por gratidão, ela lavava, passava, cuidava, administrava a casa e as finanças. Sim, ela não escapou de vultosas propostas de noivados e casamentos, mas todas recusou: não tenho nada nem ninguém e, ao mesmo tempo, tenho tudo: este velho bondoso que nem precisa de mim, foi quem me deu guarida desde menina, a me servir por generoso pai até agora. Assim era. E um dia lá, no meio da lida, ele assuntou e saiu de casa desembestado. Que foi que houve? Quem sabe! Pronde ele foi? Ora. Dali um tempo retornou com uma chorosa menina – Juremilda, dita filha enjeitada dum tal de Zé Broco, abastado comerciante, que queria um filho homem para herdar sua fortuna; mas, por ironia do destino, só lhe vinham filhas encarreadas e já havia abandonado duas outras antes, agora mais uma, todas repelidas, lavado de desgosto. Aí ele recolheu e trazia pela mão a garotinha abandonada, deu guarida e dela passou a cuidar: Achei-la perdida na rua, coitada! Doutra feita, pouco tempo depois, ocupado que só, ouviu do nada um choro longínquo e aguçou as ventas, saiu sem dizer nada e, ao cabo de algumas horas, lá vinha ele trazendo um maltrapilho menino – Dioguito, filho duma viúva que durante a gravidez teve seu marido assassinado e repudiou o filho assim que deu à luz, porque seu sonho era uma menina para lhe acompanhar a sina. Mais um desamparado, agora tidos por seus netos, assim criados, mantidos, educados, crescidos e viraram gente, seguindo seus passos e, por artes do destino, proutras profissões, ganharam mundo, cada qual pro seu lado, foram-se. A vida seguia, quando, certa noite, ele chamou a inseparável Maricota e arrumou-se todo, como há anos não havia. Todo paramentado no seu cavalo-marinho, o agora capitão surgiu à porta e foi só alvoroço na rua: um bombo apareceu no improviso da batida chamando o povo. Foi juntando gente. Para onde fosse, o povo ia atrás. Pronde ele vai? Oxe! Num terreiro plano parou, deu dois apitos e, do meio da multidão, emergiu o banco da orquestra, com os tocadores de rabeca, pandeiro, ganzá e reco-reco. Tome função, o trupé na pisada solta. Foi na toada de chegada, a de Alevante, com os toadeiros na saudação: Viva Mestre Salustiano! Viva! Viva Mestre Duda Bilau! Viva! Viva Mestre Biu Roque! Viva! Viva Mestre António Teles! Viva os Filhos de Salú! Viva! Vamos barrer! E dava início ao mergulhão, sapateado no galope dos cavalos, passos rasteiros, saltos rápidos, levantava poeira. Vamos bater mergulho! E fizeram a roda do samba, entrou Ambrósio, o mercador das figuras: no pé da roda, saudou o capitão com mesuras, às pilhérias e pulhas, danou-se a dançar – Ô boca podre! Logo veio Mateus, o Caroca, pra fazer par no arrastado dos pés. Desorganizavam tudo e, no achegado da coisa, Bastião tomou conta pra aprontar das suas, às mungangas e caretas, a bexiga batendo nas canelas. Atrás dele, a feiosa Catirina toda assanhada, tocando fogo de arrepiar: Lá vem o soldado da Gurita! Bota ordem: Respeite a farda, seus folgados! E o bafafá seguia azeitado no balanço dos cacoetes, vícios e mazelas: Ô, seu guarda, o senhor fique quieto! Pode se mandar, somos donos do fuzuê! Se dane, vá! Tá presa a banca do som, Mateus, Bastião, Ambrósio, Catirina e os agaloados tão tudo parados e se bater eu furo! Calma, seu guarda, ordem de capitão! Tá tudo liberado! Despacharam-se todos e recomeçaram os Galantes, uma guarda de honra, dançavam com suas damas, maior galantaria. Mateus, Bastião e Catirina só atiçando o povo assistente. Aí o Empata Samba batia lata na toada, atrapalhando a festa. Sai-te pra lá, desgrama! Vou vadear! E o Mané do Baile: Sou Véi Barbaça e tudo resolvido. Abriu-se a eira pro baile na dança do magui: esvoaçavam saias, fitas e espelhos, chapéus com pingentes dourados, gingado. Bora, brincantes! Isso é que é assustado! Hora das loas e das toadas, o cangaceiro e o vaqueiro, o matuto da goma, o Mané Joaquim. A Véia do Bambu puxou maracatu pro povo de Itambé, Condado, Aliança e Itaquitinga. Segura a onda! Tem mais samba? Muito baião! E o Caboclo de Arubá: Olhaí o Caboclo de Pena, da linha de Jurema! Vamos forrozear! Lá vem o boi! – Leva pra vagem, hora da farra! Olha o apito! Do nada entrou Juremilda glosando motes. Eita! Apareceu, foi? Mas, menina! Atrás dela, Dioguito deu o ar de sua graça e batia palma no rastapé, um desafio no mourão, dela arremedar com quadrão; ele puxou gabinete, ela respondeu com martelo e vai e volta, a coisa se solta no maior festão. O truvuque ficou bão demais! Vamos pro maguião, a dança dos aicos e coco de despedida: o bailarico dos arcos das baianas. Ambrósio de volta imita todos da festa: o boi já morreu e ressuscitou, vamos rear! Simbora, gente, a noite se foi, o dia já veio! E o cego Tirésia se não via, sentia no mais fundo da alma e em família toda sua obra e feito, nem sabia o amanhecido que já era outro acumulando os tantos passados. Até mais ver.

 

Julio Cortázar: Somente vivendo de forma absurda é possível escapar desse absurdo infinito... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Iris Murdoch: A educação não nos faz felizes. Nem a liberdade. Não nos tornamos felizes apenas por sermos livres – se é que somos. Ou por termos sido educados – se é que fomos. Mas sim porque a educação pode ser o meio pelo qual percebemos que somos felizes. Ela abre nossos olhos, nossos ouvidos, nos mostra onde as delícias se escondem, nos convence de que existe apenas uma liberdade que realmente importa, a da mente, e nos dá a segurança – a confiança – para trilhar o caminho que nossa mente, nossa mente educada, nos oferece... Veja mais aqui & aqui.

Camilla Läckberg: A literatura é vida e morte. As pessoas vêm e vão. Vivemos. Morremos. Mas a literatura que criamos continua viva... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALÉM DA ESTRADA DO RIO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Era preciso olhar de perto, tão perto quanto a palma da mão. E era preciso olhar muito além para vê-los. Eles não se assemelhavam a nenhum tipo de Senhor: o Tempo, saltitante ou não — contudo, percorriam dimensões. Era preciso vê-los percorrendo a Estrada do Rio, aparando suas bordas; lançando à sombra todos que chegavam e todos que partiam — os que voltavam para casa, os que partiam sem rumo, os desgarrados, os perdidos; silenciando os pombos irreverentes e o bater de asas inerte das crianças correndo para a escola, com o leite da mãe ainda pingando em suas bocas abertas, maduras demais. Eles suavizavam as linhas borradas dos turistas, sorrisos tão tensos quanto cordas de orçamento, e reprimiam os motoristas de van que (mais uma vez) não se importavam com a própria segurança, tentando transformar uma confusão em briga — nenhum policial à vista — e o sol, o vilão em sua própria festa, incitando palavrões e rancor. Como se estivesse seguindo um roteiro. Um deles carregava um bastão, esculpido — ou talvez fosse um pedaço de cana. Era preciso olhar com atenção para ver as cabeças inclinadas em raciocínio; em cálculo. E eles se moviam como um só através daquele palco instável, os dreadlocks se fundindo aos torsos, aos braços e às pernas: dois irmãos cheios de conhecimento e recursos abarrotados em suas mochilas; Jedi africanos, samurais negros saindo diretamente de seus próprios segredos e sonhos. E pareciam estar tramando algo. E parecia a trama de uma demolição de muros. Mas parecia a construção urgente, primeiro, daqueles muros predestinados; ou antes disso, o plantio de árvores para se encontrarem embaixo e travarem campanhas para queimar os tijolos que construiriam esses mesmos muros. E parecia um sangramento. E parecia uma onda gigante de rio-mar-oceano-riacho. E parecia vislumbres de floresta esquecida, colina distante e campo que desaparece; e uma mistura, mistura de terra, argila, calcário coral, areia e pele. E parecia a luz nítida e Falernum da aurora ou o desvario de um sol em uma van, depois do meio-dia; a densa névoa da tarde. Parecia pores do sol flamejantes e um sacramento de luas de sangue e luas azuis e sem lua e meia-noites — tudo isso, infiltrando-se nas ruas para tingir os ventos. E pareciam estar prontos. E pareciam prestes a se impregnar no solo diante de nossos olhos. Mas era preciso ter boa aparência, porque eles não se demoravam. Moviam-se como aparições de sangue, de carne, de tendão. Não roubavam a cena, apenas a dominavam por um instante, lançavam alguma sombra sobre nós e silenciavam o palco. Um deles carregava um bastão. Talhado, talvez. Ou talvez apenas um pedaço de cana, para brandir. Tecendo feitiços. Ou afiando arestas. Difícil dizer com aquele passo solto e sem pressa, sem parecerem, como pareciam, senhores do tempo ou ladrões de holofotes, ou portadores de um silêncio frio e cristalino para congelar o sol. Nunca saberemos… Porque não estamos enxergando muito bem de perto e muito menos além da River Road.

Poema da premiada poeta, editora e contadora de histórias de Barbados, Linda M. Deane, cofundadora do fórum editorial e cultural ArtsEtc, coeditora de Shouts from the Outfield: The ArtsEtc Cricket Anthology e ativista literária.

 

BELLADONA – […] Não mude nada de si mesmo de que você gosta para deixar os outros confortáveis. Não tente se moldar para se adequar aos padrões que outra pessoa estabeleceu para nós. [...] Você não deve permitir que a morte o consuma tão completamente. Viver não é egoísmo. [...] Pare de se preocupar com a sociedade e de jogar o jogo dela, na esperança de ser bom o suficiente. Não existe essa coisa de verdadeira bondade; existe apenas a percepção. [...] Para mim, você é uma canção para uma alma que jamais conheceu a música. Luz para alguém que só viu a escuridão. Você desperta o que há de pior em mim, e eu me torno vingativo com aqueles que o tratam de maneiras que não me agradam. No entanto, você também desperta o que há de melhor em mim — quero ser melhor por sua causa. Melhor para você. [...]. Trechos extraídos do livro Belladonna (Plataforma 21, 2023), da escritora estadunidense Adalyn Grace, autora de obras como: Fluch der sieben Seelen (All the Stars and Teeth, 2020) e Erbe der sieben Inseln (All the Tides of Fate, 2021).

 

COMO HERDAR UMA CORAGEM? – [...] muitas vezes não sabemos quem foram os nossos doadores nem de que são feitos nossos tesouros. [...]. Trechos extraídos da obra Como Herdar uma Coragem? (KKYM+P.OR.K, 2021), do filósofo, historiador e crítico de arte francês, Georges Didi-Huberman, no qual indaga testemunhos dos sobreviventes judeus do gueto de Varsóvia, enquanto constatações de uma herança com contornos que dependem da multiplicidade das memórias e das concepções do tempo histórico, evidenciando as diferenças e paralelos que decorrem entre a luta corajosa dos judeus pela liberdade no gueto de Varsóvia e as ameaças atuais do totalitarismo, do colonialismo e do fascismo, que podem emergir em qualquer horizonte. A esse respeito ele expressa que: Ninguém pode olhar pelos outros... Para definir nosso desejo de futuro, temos que saber que memória herdamos... No seu livro Ninfa dolorosa: Essai sur la mémoire d’un geste (Gallimard, 2019), ele expressa que: [...] É um conjunto de imagens onde o motivo do feminino se aproxima perigosamente da negatividade violenta e mortífera […] Das bacantes pagãs às pranteadeiras cristãs, passando pela kinah judia ou o lamento muçulmano, é todo um motivo – essencialmente trágico – de uma Ninfa dolorosa que Warburg perseguia nas pranchas do seu atlas [...] os ‘corpos de dor’ e de ‘lamentação’ se verão animados de uma totalmente nova energia: o burguês se faz linchar, as mulheres urram de cólera, um tipo de alegria selvagem se apodera de toda a multidão em luto. Revolução, de fato: revolução nos afetos, nos gestos, nos corpos, nas decisões coletivas [...] da morte e da sobrevivência, do ser perdido e do ser enlutado, do silêncio e do grito, da ausência e da invocação. Não há lamentação sem esse ritmo profundo [...]. No seu livro Ninfa moderna: essai sur le drape tombe (2002), ele aborda o erótico, a sensualidade, o desejo dessas divindades menores sem poder institucional. Como ponto de partida, como imagem e como montagem2, tomou as figuras femininas da Antiguidade e do Renascimento. Para ele a ninfa, como a aura benjaminiana, declinou com os tempos modernos, problematizando a observação de duas sutis facetas dessa imagem, desse declínio: o drapeado e a queda. Já na obra Par les Désirs - Fragments sur ce qui nous soulève (Éditions Gallimard/Jeu de Paume, 2016), observa ele que: [...] Desobedecer, veja um verbo que rima tão bem com desejar. Desobedecer é tão antigo, frequentemente tão urgente, quanto desejar […] E como não convocar, uma vez mais, as mitologias do Atlas ou de Prometeu? Ou a história de Eva? […] Desobedecer: essa seria a recusa em ato e, ao mesmo tempo, a afirmação de um desejo enquanto algo irredutível [...]. Também é autor de obras como Kore (2011), Survivance des lucioles (2009), Images in Spite of All: Four Photographs from Auschwitz (2008) e Invention of Hysteria: Charcot and the Photographic Iconography of the Salpêtrière (2004), entre outras. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE MUSICAL DE MARINÊS

[...] Eu sou uma profissional, onde for o show, eu chego lá, seja de carro, avião ou em cima de um jumento. Eu adoro estar no palco, foi uma dádiva que Deus me deu. Não saio dizendo que sou Rainha do Forró, se fosse explorar seria Rainha do Xaxado, pois foi Luiz Gonzaga que me homenageou e não saio dizendo; dizem e apenas concordo. O importante não é o trono de Rainha, mas subir no palco e abrir o gogó. Então é um orgulho e honra de cantar as belezas, costumes e necessidades do nordestino. Eu me alugo para fazer o show, ninguém me compra; pagam os meus serviços prestados. [...] Sou uma pessoa comum e singular. Não me aproveito desse nome lutado e trabalhado ao longo dos 50 anos de carreira. Gosto de receber elogios sinceros. Vivo uma vida normal, como o que todo mundo come. Quando não tenho empregada, vou para cozinha. Dou prioridade à família (filhos, irmãos e pais) e estou sempre junto deles como uma galinha e seus pintos. Quando me aborrecem, se eu puder na hora dissolver o coágulo, dissolvo para não ficar engasgada. Mas muitas vezes engulo sapo para não passar por mal educada, não ser cem por cento nordestina. [...].

Trechos de uma entrevista (Ritmo&Melodia, 2005), ao jornalista Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, concedida pela saudosa cantora, atriz, advogada e apresentadora Marinês (Inês Caetano de Oliveira – 1934-2007), a rainha do xaxado, a Luiz Gonzaga de saias, que foi casada com o acordeonista Abdias dos Oito Baixos (José Abdias de Farias – 1932-1991) e juntos atuaram juntos com Luiz Gonzaga & seus cabras da peste! Sobre ela encontra-se o livro Marinês Canta a Paraíba (2005), do sociólogo e professor Noaldo Ribeiro e a dissertação de mestrado A representação do Nordeste nas letras das músicas de Marinês (UEPB, . 2009), que redundou no artigo Representações do feminino na música do Nordeste (XII Conages, 2016), ambos de Claudeci Ribeiro. Na matéria Marinês: rainha do xaxado e dona de uma trajetória de pioneirismo na música nordestina (Jornal da Paraíba, 2022), está expresso que: [...] Não havia nenhuma tradição de mulher cantando xaxado, baião e xote. Também não era coisa de mulher essa roupa de couro que eu usava [...] sonho de criança se realizando, eu  ao lado de Luiz Gonzaga, olhando para a cara dele! [...]. a respeito dela disso o poeta, compositor e escritor Bráulio Tavares: Marinês é o grande nome, tendo criado uma escola de interpretação que é hoje seguida de ponta a ponta pelo Nordeste. Veja mais aqui.

 


TEMAS DE PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA – Os debates temáticos da psicologia contemporânea abordam as questões acerca da saúde mental na era digital, o estresse pós-traumático, os impactos da tecnologia na mente, a neurodiversidade, o esgotamento e Burnout, práticas baseadas em evidências e as novas configurações do trabalho, entre outros questionamentos. Para tanto reunimos reflexões de psicólogos, neurocientistas, filósofos e uma diversidade intelectual que se tem se debruçado sobre tais temáticas, como Elizabeth Loftus, Vera Iaconelli, Ignacio Martín-Baró, Vinciane Despret, Gloria Mark, Nancy Tucker, Rosa Mechiço, Brenda Milner, Diagne Mbengué, Diana Aurenque, Anna Lembke, Nita Farahany, Fabienne Brugère, Alice Flaherty, Elliot Aronson, Cida Bento, Florencia Abadi, Sally W. Johnston, Gabor Maté, Jaqueline Goes de Jesus, Elizabeth Blackburn, Patricia Smith Churchland, Katherine Johnson, Hal Foster, Janet Mock, Ursula Karven, Rachel Bloom, Judith Schalansky, Pamela Des Barres, Brené Brown, Yōko Tawada, Claudia Werneck, Chantal Akerman e Doris Dörrie. Confira aqui.

 


ONDE NASCE O RIO?... – O segundo episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna, ocorre exatamente quando a Turma do Brincarte parte do sítio Falange, Falanginha, Falangeta, seguindo Pai Lula que resolve descobrir: Onde nasce o rio... Acompanhe a saga quando eles chegam todos na Serra do Quati clicando aqui.

 


KID MALVADEZA – Reunião de noveletas bem humoradas contando desde a epopeia do intrépido Kid Malvadeza, os vexames do Tripa com sua fubica ineivada, a decisão futebolística do ano em Alagoinhanduba, o diálogo entre a morte e a morta, a derrocada vertiginosa de Dudanildo Pontes, as paixonites do Mamão pela jumenta e a da briga dos garotos na loucura repulsiva do cotidiano alagoinhandubense. Confira aqui.

 


REENCONTRO MARCADO – Um conto, dois; um roteiro de curta metragem. Os 3: a solidão compulsória, a lucidez escassa e o tempo devastador. Do encontro, desabou desencontro. A hora é outra, o reencontro marcado. Confira o microconto, o conto e o roteiro aqui.

 


RAÍZES & FRUTOS – O livro Raízes & Frutos (Bagaço, 1985) foi lançado primeiramente numa noite bastante festiva no Teatro Cinema Apolo, em Palmares (PE). Depois foi a vez de uma tarde ensolarada de sábado na legendária Livro 7, em Recife (PE). No volume o poeta e a sua vida; em seguida, os poemas; e, por fim, uma Carta ao pai. Homenagem ao poeta Rubem de Lima Machado. Confira aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO!!!

Arte de J. Borges. E veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...