segunda-feira, junho 27, 2022

HUMBERTO MATURANA, SAMANTA SCHWEBLIN, NÚRIA AÑÓ & LÍVIA FALCÃO

 

 

TRÍPTICO DQP: Sobrevivo... – Imagem: AcervoLAM: Antes do Verbo havia o antes e era Néstogas, ao som do Concert Barbakan Festival Bratislava, Slovakia Nova Cvernovka (Open air Park De Palma, 2021), da pianista, compositora e cantora polaca Hania Rani. - Meia década ou mais anos, nem sei quanto, perdi a conta e o tempo: o negrume perpassa ainda hoje, noit&dias. Durante toda minha vida despendi esforços inúteis, desperdicei demais, restou o que sobrevivi do tanto que arrastei degraus abaixo ou acima, quedas e errâncias. Sobrevivi ao que fui arrebatado pelo desencanto, quase condenado à podridão e resistindo à queda livre. Não fosse uma mão amiga, assim do nada, me acolher toda vez no desamparo, não saberia o que foram amores contrariados, arroubos litigantes da juventude às paixões cáusticas, nem que não precisava me penitenciar do que sobrou de relações tóxicas, das sombras do passado, das urgências dos venenos, dos nãos, dos cataclismos da reputação, nem de mais nada... Sei, sobrevivi inválido como quem se extraviou entre duas quedas de quase quebrar o pescoço, e um atropelamento. E era como se a sobrevivência resultasse vir probus sobre toda bufonaria de quantas tormentas e latomias. Algumas vezes perdi a mais completa noção, noutras passei despercebido, sequer ouvi Samanta Schweblin: O que o mundo vive é uma grande crise de amor porque, afinal, estes não são bons tempos para pessoas muito sensíveis. Agora sei o muito que chamei pelo nome coisa mais sem cabimento e o diabo a quatro, a vida ao rés do chão no pátio de nenhum lugar, qual o propício jamais escolhido ou achado, se é que já passei pelo pior ou pelo que mais merecia. Sobrevivo agora mais do que nunca e se sucumbi a minha salvação é uma quimera, inquietações da centelha ao incêndio. Jamais deixarei de ser grato pelo que vi e passei, tinha de aprender a lição e me vali do que sou mesmo que nada mais seja.

 


Não era Ennasin nem Cocanha, o que era... – Imagem da artista visual estadunidense Helen Frankenthaler (1928-2011). - Para onde fui não sabia onde, de fato a paisagem Brea-zill era do éden. Porém, a ganância de quem chegou para ver de perto, fez do que era mapa do Fabliau de Cocagne, ambições e toleimas: o terror entre nuvens de poeira pelo caminho. Eita! Por trás dos ouropéis se falava da guerra e a derrocada prevista. E se era mesmo o paraíso eu quase dei fé, não fosse o medievalista Hilário Franco Júnior, com toda facúndia, pôr tudo a perder a graça. Pois o que antes era placidez, tornou dóceis nativos em abrasados vermelhos mais canibais foderosos, o que viria a ser mesmo Ennasin de Rabelais desenhado por Doré. Apurando a vista, o ócio, a gulodice e a usura escondiam o flagelo da fome, nada mais que um pândego encaralhamento - na verdade Vidas Secas de Graciliano, ensinando pra gente o que um cachorro faz com o osso. Ah, um mico, paguei de tudo até o último vintém que restara ao bolso. Por causa disso não fui rumo ao Ocidente do Primo Levi, porque me perdi em naufrágios pelos mares das trevas de Conrad. Era como se eu tivesse de ser perseguido a todo instante a ler o trecho da Minima moralia de Adorno: Para quem não tem mais pátria, é bem possível que o escrever se torne sua morada. Não havia mais nada a fazer, senão contar hestória: o que era o meu país, outras versões nem tão simpáticas.

 


Entre teres e haveres... – Imagem da artista australiana Mere Langmaid. – Tudo se parecia onírico e era Cocaigne, o reino de Anaitis, a Dama do Lago: Faze o que parece bom para ti. Quando a vi era a atriz Lívia Falcão se passando no cenário pela Boieira reluzente da minha vida, apontando o dedo para uma placa no cemitério do Butantã: Os meus olhos choram por dias amargos. Não entendi porque ela se parecia aquela da Vênus de Ille do Merimée no meu quintal: pele deslumbrante, vestido decotado de alças, translúcida, e se desfazia ataviada pelas águas, com a sua espantosa e empalidecida cútis, a me dizer: doravante o prazer não tem preço, sou sua polaca. E mais se fez Naná de Zola com sua vulcânica sexualidade, mais tarde a Bola de Sebo do Maupassant no que me deu de seu, e logo amanhecia Anita Ekberg para me levar na La Dolce Vita de Fellini – eu o seu Mastroiani naquela cena, quando escondeu embaixo da saia molhada o segredo de Matrona de Êfeso. Ali me beijou plenamente como se fosse pela última vez e me recolheu em seu regaço para nunca mais. Depois de tudo, disse-me Núria Añó: Qualquer um poderia ver que esta mulher está vivendo um pesadelo. Exceto que ela passa por sua vida diária bem acordada, sabendo que pode cometer um erro a qualquer momento. Nada entendia e com ela o fio de todos os enredos difíceis, caminhos aos solavancos, os passos saldados nos autos da existência. Nela eu tive paz e nem sabia. Até mais ver.

Quando dizemos que amar educa, o que dizemos é que o amar como espaço de acolhida ao outro, que o deixamos aparecer, no qual escutamos o que diz sem nega-lo desde um preconceito, suposto ou teoria, vai se transformar na educação que nós queremos. Como uma pessoa que reflete, pergunta, que é autônoma, que decide por si mesma. Amar educa. Se criamos um espaço que acolhe, que escuta, no qual dizemos a verdade, respondemos as perguntas e nos damos tempo para estar ali com o menino ou a menina, essa criança se transformará em uma pessoa reflexiva, séria, responsável que vai escolher desde si mesma. O poder escolher o que se faz, o poder escolher se se quer o que escolheu ou não. Quero fazer o que digo que quero fazer? Gosto de estar onde estou? Essas são algumas das perguntas que surgem. Para que o amar eduque há que amar e ter ternura. O amar é deixar aparecer. Dê-lhe espaço ao outro para que nossos filhos, amigos e familiares mais velhos tenham presença.

Pensamento do neurobiólogo chileno e criador da teoria da autopoiese e da biologia do conhecer, Humberto Maturana. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.


 


domingo, junho 19, 2022

JAIME BATEMAN, KRENAK, ARNE NÆSS, MARCO BOBBIO, DOMENICO UHNG HUR & DAVI KOPENAWA

 

 

TRÍPTICO DQP: Insone insânia... - Ao som das obras Di-stances (Sistrum, 2006), Memórias Abstratas e Abstraídas (Funarte, 2012) e Karysma (Funarte, 1987), da compositora, pianista, professora e regeste Vânia Dantas Leite (1945-2018). - Onde estou quase não sei, nem consigo dormir e quem poderia depois do alarme 24/7 de Jonathan Crary. Já me sinto enterrado vivo, talvez restem sonhações: apenas pesadelos distópicos, Sidarta Ribeiro. E cada vez mais os piores povoados por ressurretos abomináveis e estúpidos dagora. Entre eles topo O doente imaginado (Bamboo, 2014), do médico italiano Marco Bobbio: A medicina obteve muitos sucessos ao salvar vidas humanas, mas poucos para garantia de vida sadia aos sobreviventes. Ninguém sabe que o céu caiu e quase nem ouço Davi Kopenawa: Tanta destruição nos deixa muito preocupados... Sei apenas que a Terra é mais sólida do que nossa vida e que não morre. Sei também que ela nos faz comer e viver... A constatação que fica é a de Domenico Uhng Hur: Estamos desterrados, com a sombra da morte, e sem modelos pressupostos a seguir. Sim, já é detectável o fim dos nossos mundos, Ailton Krenak, posso ver em cada olhar, em cada esquina, em cada gesto. Precisávamos saber o que diz Maffesoli: A vida só existe porque a morte tem nela seu papel. Melhor quem sabe seria o que diz o filósofo norueguês Arne Næss: A Terra não pertence aos homens. Sim, aqui tudo se parece com aquela nigeriana de Tremearne, o país todo se tornou o Vale do Javari. Como é doloroso amar em tempos de ódio...

 


Funâmbulo na corda bamba... - Imagem da artista, dramaturga e escritora russo-estadunidense Svetlana Boym. - Desperto no meio de uma tempestade onírica como se eu tivesse que reler as lições dos Cadernos de Rilke: viajar por muitas cidades e ver seres e coisas como o voo dos pássaros, as flores desabrochando, as regiões desconhecidas, as noites de amor, ter de acompanhar moribundos e ouvir os ruídos da rua pela janela, até que as lembranças se tornem sangue, olhar e gesto. Já me condenei a ousar previamente cônscio da lapada inexorável que virá depois: aqui se faz, aqui se paga. Sei que não é bem assim, essa a voz do povo; sou responsável por tudo que cometi e traço. Do que aprendi das leituras, às vezes um soco no estômago – o melhor é quando me defronto com o colombiano Jaime Bateman (1940-1983) cantando: Você tem que dançar e você tem que cantar. E não só para a morte, nem cantar só para as derrotas. Você tem que cantar para a vida, porque se você vive baseado na morte, você já está morto. As pessoas que vivem só de memórias estão mortas, a memória sem futuro a única coisa que traz é a tristeza, e a tristeza nunca gera briga, nunca... Há um fiapo de vida pela fresta do que flagro. E isso me basta, disso faço a imensidão do Universo...

 


No seio de Ixchel... - Imagens do artista conceitual argentino León Ferrari (1920-2013). - Entre acordormir sonhadiço, efialtas sobrevêm por entre dandões e quase me sinto esvair pelas espirais da loucura. Só me salvei porque daquela vez ela era Malinche e me contou desde quando menina e era Malintzin que cresceu Doña Marina até ser acusada de traição. Foi condenada e só conseguiu escapar porque era uma feiticeira de Trobriand, e se envultando dacolá pra depois, enfim, tornar-se a incólume deusa lunar Ixchel. Foi quando me chamou de Itzama e nem olvidei porque me levou para a ilha de Dcuzamil, na província de Ecab. Lá eu vi chegarem canoas de peregrinos, enquanto me mostrava manequins manuscritos com meus versos e canções. Entre um atrativo e outro chegou a me dizer que conheceu pessoalmente o lendário violonista e compositor conterrâneo, Normando Marques dos Santos – aquele mesmo professor que se apresentou em 1962, no histórico show bossanovista do Carnegie Hall, em New York – e que muito apreciou os álbuns de Siba – principalmente Avante (2012) e Coruja muda (2019) -, desde que ele fazia parte do Mestre Ambrósio e da Fuloresta do Samba. Não podia ser! E estalou os dedos e ouvi a música rolando no ar. Só tempos depois embalado pelos ritmos foi que me vi só, não estava mais ali. Ao procurá-la dou pra janela a surpresa: levantou a saia e mostrou-me as belas nádegas arredondadas e a sorrir safada de linda. E virou-se mantendo a saia levantada enquanto se tocava sedutoramente... Não sabia o que fazer, apreciava atento seus gemidos e mexidas. Ela saiu correndo, arrodeou o terreiro, adentrou ofegante e me encontrou priápico aceso para envolver-me com um beijo astucioso. Não, ela era humana demais para ser deusa. E mais cavalgava em meu ventre, recitando ao meu ouvido um poema de Cristina Peri Rossi: Nenhuma palavra / nenhum discurso / – nem Freud, nem Martí – / serviu para deter a mão / a arma / do torturador. / Mas quando uma palavra escrita / na margem na página na parede / serve para aliviar a dor de um torturado / a literatura tem sentido. E arreou exaurida sobre meu peito depois das faíscas do gozo extremo. Foi então que esticou o braço, pegou num banco perto e me entregou dois volumes: o livro do Popol-vuh e o códice de Dresden. Já anoitecia quando me disse TÚmiPoema e era María de España. Vê-la assim e em mim, talvez ainda seja possível sonhar mesmo. Até mais ver.

 

A meta fundamental da educação holística é promover uma educação integral, que permita à pessoa conectar-se consigo mesma e com tudo aquilo que a rodeia. Isso inclui o meio social e o meio natural. A vida na cidade, a vida moderna, altamente tecnicizada, afastou cada vez mais a pessoa do meio natural, sendo este um cenário distante, incompreendido e, portanto, não sentido. Perde-se, assim, a noção de que nossa vida depende dos recursos que nos são proporcionados por ecossistemas que não estão na cidade, normalmente muito longe, que são esgotáveis e cuja extração e transporte muitas vezes causam danos. Perdemos também a noção de que, embora os recolhamos diariamente, nossos resíduos, próprios de nossa forma de vida, produzem danos em ecossistemas mais ou menos próximos. Com esse conhecimento, o certo é adotar um comportamento pessoal e coletivo que minimize esses danos e não esgote os recursos para que as gerações futuras de nossa espécie e de outras espécies em geral habitem um planeta limpo e com recursos suficientes para viver. Por isso, a educação holística inclui a educação ambiental ou a educação para a sustentabilidade.

Pensamento do pedagogo e entomologista espanhol Rafael Yus. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.


 


domingo, junho 12, 2022

MARIAMA BÂ, BORIS VIAN, LAURA RIDING, PEPETELA & JOSÉ BARBOSA

 

 

TRÍPTICO DQP: Viver arte... - Ao som da obra musical do compositor, regente, poeta e artista plástico Jorge Antunes. - Sou um grito noite afora, as luzes distantes da cidade alheia, inaudito sonho de contar nos dedos quantos dias eu teria a cada passo: pedras e charco. Não saberia dizer das horas e medições, talvez lembranças ateias que se esvaíssem entre os tremores indizíveis e sem alarde aparente. Do nada aparecesse Gianni Vattimo na minha desolação: ...significa que hoje temos laços comunitários menos fortes, enraizamentos menos profundos na família e com a comunidade do território, não acreditamos mais na raça... Dele tive então a ciência de que o frio ameaçava chover e quantos desapareceram nas emboscadas amazônicas pela violência armada, pela fome endêmica, pelo tráfico de tudo, pela omissão nos casos de coronavírus ou da varíola dos macacos e de outras sequer inimagináveis na nossa desgraça. Procuro inutilmente pelos imprescindíveis de Brecht. Todos dormem porque não ouviram Boris Vian: O trabalho é o ópio do povo, e eu não quero morrer drogado. E quantos não trocam os pés pelas mãos, sem saber qual direção. Não tenho mais que esperança de um dia ensolarado, um dia sei lá, do inexistente à criação e o existir, o que se realiza na outridade. A vida assim é bem melhor... Acho...

 


Meia Noite... – Imagem: A ideia de tudo de todos num sentido só, do escultor, pintor, ilustrador, gravador e entalhador José Barbosa. - Os ponteiros se encontraram, perdi o relógio e todas as certezas, sou só desencontro: ângulos desfeitos na quase nenhuma surpresa da esquina. A vida pelas paralelas e transversais, resta o quase silêncio dos barulhos noturnos que se misturam e quase nem ouço Pepetela avisando: Todos devemos ter percepção das nossas responsabilidades. Não se deve morder a mão que nos dá a comida. É isso o amor. Manter a ternura pelo mesmo homem, embora se deseje outros a momentos diferentes. Se é tudo tão incerto, o que seria de mim não fosse acertar, pelo menos uma vezinha que fosse, depois de tantos erros recorrentes. Quase não lembro nada vezes nada, fizesse o contrário seria celeuma na alma. Daria o céu fosse diferente, haveria o que fazer não fossem as errâncias quase insuplantáveis.

 


Dez para as cinco... – Imagem da artista visual argentina Ornela Spadaro. - Os raios do dia no horizonte e minha cabeça é dela, Olympia de Manet que eu queria levar para o almoço na relva. Só de lembrá-la meu sexo se insinua: dos seus lábios sedentos entreabertos para se aninhar em mim recém-amanhecida, sua nudez inteira e tão descalça quanto servil no gozo da paixão... E depois do amor ela sussurrava um verso de Laura Riding: Não ultrapasse, ou em minha boca, meus olhos, você vai despencar. Chegue perto, encare e olhe bem através de mim, fale enquanto você vê... E mais queria que eu usurpasse seus limites escancarados, não precisava mentir Victorine Meurent nua na pose dos meus desejos, e por que não dizer a verdade das tantas vezes que se passou pela Vênus de Urbino do Ticiano ao meu lado por dias perdidos, para quê esconder sobre quantas vezes não foi a Vênus adormecida de Giorgione nos braços da minha insônia e quantas vezes não foi todas elas da Crônica de amor por ela na minha vida mais que erradia. A memória é pouca para tantos momentos que nela estive em claroscuros de entregas. Se faltam cinco pras nove ou seis pras dez, tanto faz, é o que menos importa agora depois de tantos anos ao deus dará. Ela deveria saber o quanto eu estava perdido no labirinto sem saber que saída ou qual entrada, só sei que fui devorado porque decifrei. Agora nenhum olhar, nem afago das mãos que me buscavam pelos lençóis de nuvens nos cenários dos prazeres – com ela qualquer lugar era paraíso. Hoje o olhar dela e o meu destino, o que se evita ou já é tarde demais, e se retomo parece que passou, porque não sou mais que uma paisagem desbotada e esquecida nos quadrões do passado, nem quisera. Ah, até mais ver.

 

Deformar uma alma é tão sacrilégio quanto matar. Os professores - tanto do jardim de infância quanto da universidade - formam um nobre exército de façanhas diárias, nunca cantadas, nunca decoradas...

Pensamento da escritora senegalesa Mariama Bâ (1929-1981). Imagem da artista visual francesa Claire Gaudriot. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


domingo, junho 05, 2022

JUDITH MALINA, MARIE NDIAYE, MARION ZIMMER BRADLEY, LUCIANO GARBATI, HÉLÈNE CIXOUS & PEREIRA DA COSTA

 

 

TRÍPTICO DQP: Uataçara uatá rame uataçába... (Imagem: AcervoLAM) - Ao som dos álbuns For Organ and Brass (Subtext Recordings, 2017) e Chords (Subtext Recordings, 2019), de Ellen Arkbro. – Despertei asfixiado por uma bomba de gás lacrimogêneo. Meu nome era outro e morria de tarde sacudido de cabeça pra baixo num buraco bem fundo, só as pernas de fora... Quem me reconheceria assim jamais. O que era de mim na grande indignação com as emboscadas dos nativos nas veredas da floresta, o meu povo morria comigo a cada instante. Por isso ressurreto entre claroscuros e quase nada ao entardecer na pele de ninguém autá, como se dizia na modinha popular de lá dos setecentos do Vocabulário de Pereira da Costa: Caranguejo anda ao atá / procurando sua estrada / vem seu mestre titio / faz dos caranguejos cambada... Outras eram as chuvas e trovoadas antes dos invernos das burundangas e, por incrível que pareça, me apareceu Gayle Forman para avisar que: Há uma diferença entre perder algo que você sabia que tinha e perder algo que você descobriu que você tinha. Um é uma decepção. O outro parece perder um pedaço de si mesmo. Era mesmo eu e meus muitos pedaços, um deles Barbara Pym: As pequenas coisas da vida eram muitas vezes muito maiores do que as grandes coisas. Era só o meu poente e antes que anoitecesse na pele de Reynaldo Arenas: Sempre considerei desprezível rastejar como se a vida fosse um favor. Se você não pode viver do jeito que você quer, não há sentido em viver... O que meu país se tornou, ah, o que sempre foi: um palmo a menos, um passo a menos na vida de cada dia. O caminheiro segue errante...

 


A trinitita da tragédia... - E se mortovivo era ou nem tanto, quase, algo me ofuscava: o caleidoscópio das tragédias no brilho atomsita achado no deserto de Trinity. E me assombrava com o vidro de alamogordo que não era nada mais que um resíduo vítreo que me deram de Hiroshima ou Nagasaki, e com os plastigomerados de Corcoran&Moore&Jazvac. Mas de repente, no meio de tanta incandescência, era ela que eu nem sabia para me dizer da Lemúria de Cervé: Na verdade, nem todos se perderam e jamais se perderão porque a continuidade da vida lhes veio em socorro e salvou para eles um remanescente da maior e mais nobre das raças que já existiram... Quem era? Só sei que se parecia com o Sol de tão brilhante, impressionantemente corpulenta e pele bronzeada, cabelos pretos, traços refinados, olhos castanhos claros e grandes, penetrantes e agudos escondidos num véu de fibra vegetal a proteger-lhes a face. Retirou o véu e pude ver a sua beleza realçada numa pequena protuberância no centro da fronte: ela fechava os olhos. Achegava-se acesa e fez uma incisão carinhosa no dedo indicador da minha mão direita e na dela, e atou-nos, mãos juntas, para que seu sangue fluísse no meu e nos tornássemos um só. E me ensinou ali a Lei do Sagrado Quatro e as lições do Livro de Dzyan. Foi preciso algum tempo para que eu tomasse pé da situação, ao sabê-la uma chumash, Gu Oficial, feita rainha Califa que governava ilha distante e queria que eu visse os escritos nas cataratas de Klamath e fôssemos para o cone do vulcão extinto do monte Shasta para encontrar os maias do Iucatão. Aí como se fosse a dramaturgatriz poeta teuto-americana Judith Malina (1926-2015) confidenciou: Não deixar esquecer, não contemporizar com o que não pode e não deve ser atenuado pelo passar dos anos... Nada entendia e ela rodopiava no ar e já era a escritora estadunidense Marion Zimmer Bradley (1930-1999): Nunca foi nem nunca será fácil trabalhar! Mas a estrada que está construída sobre a esperança é mais prazerosa ao viajante do que a estrada construída sobre o desespero, mesmo que ambas levem à mesma destruição... E cada vez mais rodopiava e mais e não me deixava esquecer o passado que queimava dentro do meu peito e mente como uma ferida aberta e sangue jorrando dos meus poros. As pedras estranhas luziam como uma ameaça pronta para me destruir. Ao que me fora dado, apenas segurei a mão dela com força, precisava me salvar. Ela virou-se para mim e mergulhei na sua imensidão.

 


O nome da maldição... - Imagem do artista argentino Luciano Garbati. - Quando dei por mim estava num imenso salão vazio. Ouvi passos e fiquei atento. Apareceu-me irresistível Eve Babitz como quem vinha pronta para o icônico xadrez de Duchamp: inebriante e gloriosa com balouçantes seios orgulhosos de festeirescritora nua que não tinha a mínima vergonha da luxúria e o sexo como uma forma de arte nos seus livros. Sentou-se à mesa feita Mathilde ReumauxO alsaciano está morto, viva o alsaciano! A Alsácia mudou, a elasticidade deve mudar com ela -, no jogo de Arrabal: o xadrez levou séculos para atingir as alturas da inteligência humana. E em apenas quatro horas mexendo as peças, seguindo as jogadas dela passei da ignorância absoluta ao domínio do jogo. Não sabia como, ela me enfeitiçava e o feitiço me ensinava. Era ela, disse-me: simplesmente, Medusa da Silva, órfã de nascença que havia vivido com a madrinha e fora, ainda jovem e bela, estuprada pelo tio desalmado. Por conta disso fora expulsa: a vaidade é um veneno. Nem a culpa sabia, maculou o nome da família e fora amaldiçoada. Nada entendia e a vida tornou-se uma balsa insuportável. Na sarjeta fora recolhida por Hesíodo que lhe restituiu a dignidade para ser louvada em frente ao Tribunal no Collect Pond Park. Foi nessa hora que inflou o peito para me dizer Hélène Cixous: Basta olhar diretamente para a Medusa para vê-la. E ela não é mortal. Ela é linda e está rindo... Os homens cometeram o maior crime contra as mulheres. Insidiosamente, violentamente, eles os levaram a odiar as mulheres, a serem seus próprios inimigos, a mobilizar sua imensa força contra si mesmos, a serem os executores de suas necessidades viris. Disse-me entre lágrimas. Era certo que havia dado a volta por cima e se tornado a ginasta campeã risonha Katelyn Ohashi para me contar nua Marie NDiaye: Parecia-me que meu talento estava gradualmente enfraquecendo. Por que eu não poderia ser uma bruxa decente?, eu me perguntava em tais ocasiões. Faltava-lhe vontade, entusiasmo, coragem? Era ela ali e a nudez da alma entre a alvorada e o crepúsculo o meio dia, tarde e meia, alta noite, madrugada: ontem nunca será amanhã. Eu sentia: era a minha cabeça que ela segurava. Se ela sempre fora a vítima de toda farsa, eu também inocente carregando culpas que jamais soubera. Simplesmente culpados por viver. Outrora soubesse a vida que se foi, se não sei claro qual escuro, já era tarde demais. Até mais ver.


A primeira regra de descoberta é ter cérebros e boa sorte. A segunda regra de descoberta é sentar-se apertado e esperar até conseguir uma ideia brilhante... Onde devo começar? Comece a partir da declaração do problema. ... O que posso fazer? Visualize o problema como um todo o mais claramente e tão vividamente quanto puder. ... O que posso ganhar fazendo... Para ensinar efetivamente um professor deve desenvolver um sentimento por seu assunto. Ele não pode fazer seus alunos sentirem sua vitalidade se ele não sentir isso sozinho. Ele não pode compartilhar seu entusiasmo quando ele não tem entusiasmo para compartilhar. Como ele faz o seu ponto pode ser tão importante quanto o ponto que ele faz: ele deve sentir-se pessoalmente para ser importante.

Pensamento do professor e matemático húngaro George Pólya (1887-1985). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



sábado, maio 28, 2022

ROSA MONTERO, MARYANNE WOLF, GUILLERMO CABREIRA INFANTE, ORIDES FONTELA & BARTYRA SOARES

 

 

TRÍPTICO DQP: Era uma vez outras mais tantas vezes, pálin... – Ao som da Sonata for cello and piano (op. 65), de Chopin, na interpretação da violoncelista israelense Danielle Akta e da pianista Revital Hachamoff. - De profundis: o Sinal de Paulinho no Retorno de Nietzsche. As palavras povoam o mundo, rumores em cascata. Não é possível ter sorte, há quem diga mesmo: nascer aqui já diz tudo. Antes assim, se não era a hora, ficou para depois, não agora, não foi pra isso que nasci e viver a narrar do nada travesseiro entre jaboticabeiras, pinheiros e eucaliptos. Na curva da vida nunca precisei reter a respiração, mesmo que a turbulência deixasse claro o que era de venturoso e infortúnio, de lisonjas e rejeições – todos estamos sujeito ao logro, aos vícios do amor. Não há como não topar com parvos e esnobes, epítetos, rótulos ou assombros, dá tudo no mesmo: fisionomias desertoras que rilham os dentes e imprecam com os pés fincados no chão remoendo inquietações e de sobreaviso com os truques, sabe-se lá do quê, as hostilidades avassaladoras dos olhos que me viram e sei já estão mortos desde antes. Eis que da flor da aurora inventada alguém me diz Orides Fontela: só porque erro encontro o que não se procura. Depois, um silêncio tumular... Após alguns momentos complementa a Memória dela: A cicatriz, talvez / não indelével / o sangue / agora / estigma. / Nunca amar / o que não / vibra / nunca crer / no que não / canta. / O espelho dissolve / o tempo / o espelho aprofunda / o enigma / o espelho devora / a face. Não dá para identificar direito o vulto daquela que soa agradável aos ouvidos, mesmo que insista amanhecer no meio da noite. De mim nada mais que uma dúzia vezes mil de erros e nenhum acerto, como se fosse caronista disperso – cada qual seu papel de louco na dança de roda ou numa jornada cujo mapa construído apenas a partir de cada passo, sobrevivente de abismos pelos trunfos sucedidos aos fracassos e confundidos com as funduras das muitas profundezas. Não há nem onde começou de tão inútil, ninguém precisa saber: a loucura salva.

 


Nada & fumaça... – Imagem do artista estadunidense Bruce Neuman. – Basta um estalo, ou piscar de olhos, o triz: e nada mais. Agora mesmo não sei mais por onde anda o Doro e só me lembrei dele porque folheei Fumaça pura (Bertrand Brasil, 2003), do escritor cubano Guillermo Cabreira Infante, e logo dei de cara: Viver também faz mal a saúde. É que entre os membros da tripulação de Colombo, também chegava ao Novo Mundo, o desafortunado Rodrigo de Xerez, espantadíssimo com os homens-chaminé: os indígenas fumavam, era a descoberta do tabaco. De volta à Espanha, encheu-se de empáfia numa demonstração pública, não se dando conta de quem ausente às línguas ferinas pelas costas reputações retorcidas e findam na sina patibular, vez que a audiência, vendo-o exalar fumaça por todos os orifícios, julgava ser ele afinado com o diabo, enquanto sua própria esposa deitava denúncia ao Santo Ofício que o condenou a vinte anos de cárcere. Ufa! Por pouco não virou fumaça nas fogueias católicas. Essa não foi a sorte do Doro ao manipular a Teibei: bastava uma golada no fumegante aperitivo e logo envultava por uns três ou quatro dias desaparecido desta dimensão, pelo menos. Desta vez não, parece que abusou da dose, pelo que soube, depois de encher o tampo e virar mais de litros da tirana: faz tempo que ele não dá as caras, significa que ainda não desenvultou. É o que dizem e não estou aqui para discordar. Deixá-lo para lá, melhor...

 


O motor das reviravoltas... Imagem: a arte da fotógrafa e atriz estadunidense Elizabteh Lee Miller (1907-1977) - Era outro de muitos sonhos e Perséfone com a magia do olhar de quem chega, desfilava a beldade dos seus quarenta e não sei quantos anos de tanto rir, deixando à mostra o espalhafato das ancas arredondadas de seu pódice majestoso em baixo do curto roupão. De lá para cá, curvava-se para me virar as faces e deixar-me o busto ilustre de proeminentes seios soltos sob a veste amarrada na cintura, a me dar a sensação daquela frescura de frutas colhidas no quintal. Era como vê-la sair dos banhos sulfurosos pelas fontes, alheia às intrigas criadas com suas carnes de mil olhos curiosos e indecentes. Mostrou-me uma planta rara e carnívora do Camboja - uma planta-jarro – e me aparecia como quem saísse da clausura dos dias para me provocar na composição de recônditos setígonos jamais revelados aos viventes. Era tudo muito envolvente e despertei na agonia da volúpia. Para meu espanto lá adiante reluzia a estátua de Cocteau a me dizer: Havia muitas coisas comoventes, pungentes ou estranhas que eu queria... Então me aproximei e fui conferir de perto, evitou-me o olhar: Eu sou uma abetarda, a mim ninguém me apanha... É melhor partir sem pesar desta terra que rola e esmaga os que desejam dominá-la. Sim, ela encerrava a aventura da alma humana e do seu olhar distante uma ave fabulosa desprezava o caçador de quem sempre escapava e logo se tornava nas cinzas espalhadas ao redor do leito fúnebre: a alma que libertava para o voo. Algo me dizia que ela não se afastava da terra, nem era capaz de alçar altos voos. Insisti do seu lado e logo ela ergueu os braços sobre a cabeça e me contou desapontada sobre a gonorreia no estupro aos 7 anos, a foto dos absorventes menstruais, o corte no pescoço pela agressão de Man Ray, as enfermas crianças de Viena, a miséria dos camponeses da Hungria, o banho na banheira do Führer... Baixou as vistas e me falou Rosa Montero: Os homens costumam chamar destino àquilo que lhes acontece quando perdem as forças para lutar... Aí me insinuei, beijei-lhe a face fria e senti a sua carne viva crescer na minha pele sussurrando Bartyra Soares: Um dia deixei a cidade... ousei ultrapassar seus limites, fui mais longe, descobri o realismo fantástico e, assim, mergulhei noutros mistérios e labirintos, segredos e sonhos, sempre à cata de histórias que, até hoje, embora esporadicamente, nunca mais deixei de contar. Ali, abraçando-a afetuosamente, ouvi seus relatos mais íntimos e nela me revelei completamente perdido, como se nada mais soubesse, afinal, ou a coisa toda não regulava sempre lá muito bem hoje em dia ou só sou eu alvo de insuportáveis aborrecimentos: a vida toda só foi passar vergonha. Nela eu podia mais que viver e vivi. Até mais ver.

 

Normalmente, quando você lê, tem mais tempo para pensar. A leitura oferece um botão de pausa único para a compreensão e a percepção. A leitura é uma ponte para o pensamento. A leitura muda nossas vidas e nossas vidas mudam nossa leitura.

Pensamento da professora estadunidense Maryanne Wolf. Veja mais aqui e aqui.

 



domingo, maio 15, 2022

MARUJA TORRES, EMILY ESFAHANI SMITH, MARUŠA KRESE, SUSANA SZWARC & ZABÉ DA LOCA

 

 

 

TRÍPTICO DQP: Valuna, estaca zero. Imagem: COLAM, ao som dos álbuns Da idade da pedra (2002), Zabé da Loca (MDA, 2003) e Bom todo (Crioula Record, 2008), da pifeira Zabé da Loca (Isabel Marques da Silva – 1924-2017), que viveu por mais de 25 anos na loca fechada por duas paredes de taipa num sítio de Monteiro-PB. – Ao despertar Valuna era Venúsia e o outro nome secreto dela: uma ilha com duas estátuas colossais no meu deserto atlântico. Sabia que ali era o lugar onde nasci, mas se parecia outro tão estranho; ela não, realmente tão indígena quanto deusa nórdica: as duas faces de uma mesma paixão desnuda, águas pelas pernas nas proximidades do equador. Se eu me achava perdido ali, lá estava ela, de fato, recostada e nua nos jardins de Fons Belli, como se fosse a Pauline de Canova, a Vênus Victrix do meu coração: um sorriso de Sol e um troféu na mão - a maçã da vitória de Afrodite no julgamento de Páris. Reacomodou-se, abriu-me os braços como se fosse a Estrela D’Alva, mostrando o caminho pelos canais ornados por orquídeas, begônias, amazonas, bacantes e deusas. Para ela segui, até alcançá-la. Seria o reencontro? Não sabia. Abraçou-me como quem felicitasse a minha presença e me levou pelo monte até a mansão de mármore na torre de bronze, rodeada por pomares de laranjeiras e limoeiros, limítrofe do trágico vulcão Toba. Na sua alcova, sentou-se na cama e puxou-me do lado para recitar Como?, de Susana Szwarc: Vamos ver a coisa real: / por exemplo o rio / - daqui até aqui / poderíamos inventar / uma porta para a casa / mas / não - vamos ver como um vento talvez causado pelo próprio rio / não arrasta um chapéu em direção ao seu centro / Vamos ver mais tarde outra coisa: / a chuva que começa inundando o chapéu / faz com que as águas subam a tal ponto / que nos é impossível continuar vendo / porque o real que saiu de seu canal nos afoga. Olhou-me profundamente, beijou-me as faces e nada mais disse: já era Vésper porque tudo parecia malogrado e partiu na velocidade orbital do asteroide. Deixou-me ali a vida noitadentro com todos os sonhos impossíveis da felicidade ambulante e um fedor de fosfina no ar. Se era o primeiro dia eu não sei, parecia-me milênios de convivência e a solidão.

 


O segundo sonho de Ix... – Era o segundo dia e um rio corria no sopé da montanha das boas entradas florestais. Dali eu via as calçadas de mármore do palácio real e era ela a linda rainha Zixi, que há séculos reinava no seu trono. Achegou-se como quem traz a vida mais para perto e me contou que Guðríður havia percorrido distâncias maiores que os passos e fora levada por seu pai para se casar com o príncipe reinante. Depois da cerimônia navegou para Vinland e, por conta de um naufrágio em plena lua de mel, enviuvou. Outras viagens feitas, o tempo passava entre dores e esperanças perdidas. Dela restava uma escultura de Laugarbrekka: retratada de pé em um navio, equilibrando no ombro o seu filho, uma mão apoiada na cabeça de um dragão e o olhar fixo no futuro. Sabia que era a história dela mesma, a outra de muitas que sempre foi. Deu-me um beijo nas faces e me chamou atenção para Minha geração de Maruša Krese: Não toque nas minhas coisas. / A vida está aprendendo agora. / Não me culpe mais. / No fundo, nunca nos livramos disso. / Como gatos jovens, já nos afogamos. / Quando meninas fomos defloradas, / meninos foram levados atrás do frio. / Como papagaios em conservatórios fechados. / Junto com o leite materno, eles nos alimentaram com medo / Marcados como herdeiros de jovens heróis, / retratados como mimados. / A cultura da alma é a burguesia, a / dúvida na vida é quase adultério. / As crianças são o seu otimismo, / por favor, tudo vai bem até lá. / Não se desespere, / você nos pediu para não viver. Uma lagrimou rolou na sua face serena e ali estava dado o sinal de que estaria só e à espera da minha chegada ali em Ix, a ilha a oeste de Sem-Terra, para me contar o seu segredo: diante do espelho uma velha horrorosa. Voltou-se chorosa, abracei-lhe. Fiz uma canção na sua carne e outros poemas com as nossas travessuras impunes das noitedias de sonhação. Não sei se ela se foi mais uma vez, a sensação que tenho até hoje é de que ela ficou em mim.

 


O terceiro de poucos dias... – Imagem: Tristan and Isolde (1910), do pintor espanhol Rogelio de Egusquiza (1845-1915). - Era o terceiro dia e ali um piso de mármore verde não me deixava perceber que não havia cantos nem ângulos. As paredes brancas davam numa cúpula de teto arqueado com uma coroa adornada de ouro e pedras preciosas, e me davam a impressão de que me encontrava numa gruta redonda cortada na lisa pedra branca. Estava deitado numa cama elevada e esculpida no centro de um cristal de rocha. Dava para ver a porta de bronze, presa por duas grandes barras, uma de cedro, a outra de marfim, e que só poderia ser aberta por dentro: porque o verdadeiro amor não pode ser forçado. Todo ambiente era iluminado pelas três pequenas janelas no alto dos paredões. Ela adentrou me chamando Tristão e eu esquecido quantos dragões havia enfrentado e sucumbia mortalmente ferido, enquanto ela prisioneira na torre da solidão, e que tudo se parecia com as narrativas de Gottfried von Strassburg pela região remota e montanhosa da Cornualha, uma história recontada e totalmente perdida como o Santo Graal. Sim, isso eu sabia: ela era agora Isolda, aquela que fugira dos ciúmes de seu esposo. Era como se revivêssemos a nossa Laranja Mecânica recorrente e ouvíssemos o eco da escritora espanhola, Maruja Torres: Os homens sempre gostaram de se reunir e discutir, e fingir que tomam decisões consensuais que farão do planeta um lugar melhor. Então a realidade vem e os derrota... A vida é como café ou castanhas no outono. Eles sempre cheiram melhor do que têm sabor. Ela me olhou com o brilho de todas as manhãs para me dizer que tudo flui do inesperado entre a porta aberta da espera e o adeus. Até mais ver.

 


Nossa cultura é obcecada pela felicidade, mas vejo que buscar um sentido é o caminho mais gratificante. E os estudos mostram que pessoas que encontram um sentido na vida são mais resilientes, se saem melhor na escola e no trabalho, chegam até a viver mais...

Pensamento da escritora, psicóloga e jornalista estadunidense Emily Esfahani Smith. Veja mais aqui e aqui.

 



HUMBERTO MATURANA, SAMANTA SCHWEBLIN, NÚRIA AÑÓ & LÍVIA FALCÃO

    TRÍPTICO DQP: Sobrevivo... – Imagem: AcervoLAM: Antes do Verbo havia o antes e era Néstogas, a o som do Concert Barbakan Festival Brat...