domingo, maio 03, 2026

DAVI KOPENAWA, DARIJA ŽILIĆ, NISHI SINGH, CELINA DE HOLANDA & SEMANA ASCENSO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum Transparente (Fina Flor, 2015), da cantora e compositora Fátima Guedes. Veja mais aqui, aqui & aqui.


 

Galardão do revés exótico... - Naquele instante, ela nostálgica revivia o idílio de seu deleite virginal: o primeiro beijo e ele chegava possessivo de ciúmes, não se cansava de tê-la tão bela aos seus olhos de senhor das horas. Dela, a revista das cartas íntimas trocadas, discórdias, pormenores, adivinhando o que queria a precipitar-se previdente, até das suspeitas injuriosas de ter que pagar na mesma moeda, enquanto os anos a consumia numa devastadora paixão. De repente, o amor restava excomungado, desde quando o marido invadiu o oitão da casa espaventoso, aos gritos, sucedendo o susto, porta abaixo, dele ter acabado de chegar, um endríago desembestado, olhos cinzentos, a face inexpressiva na agonia dos odores de acender e apagar, ao que cegava carrancudo no martírio de ser atingido por relâmpago certeiro e perdia a sombra, o chão sumia, esvaindo-se estouvado e morria em pé, a se dissolver com últimos suspiros, imodesto nas distorções do vulgo, expirava no último fôlego das ventas e sucumbia à glória dos valentões finados, a morte injuriosa no pó que fez-se poeira invisível para nunca mais, a sorte o tratava bem dagora em diante. Ruborizada, franzia o cenho diante daquilo tudo, assustada com a cena perturbadora. Compungida, restava uma vela ao inusitado e a futura lembrança. Nisso o papagaio despencou do poleiro espatifando o porta-retrato do casal. Só faltava essa: o bicho de estimação socorrido era a única coisa viva que restava dos momentos inesquecíveis. Seguia pelas horas longas dos ritos funerários e um deserto nauseabundo vinha de longe, deixando-a desguarnecida supérstite, com a fulminante compreensão: a morte áspera crucificava a ambos pela mesma dose, no que restava de troços e destroços todos, o que durava da alvorada ao pôr do sol, a noite pra espreme-la indefesa. Deixou-se levar por um momento pelas distrações ao poente e purificou-se aos olhos mortais durante o sepultamento. Chegava a noite de lua, as pálpebras cansadas ávidas por repouso, ainda não, a impaciência de viver: o que é ser vivo? A herança e a descoberta pelo avesso e inverso, por toda parte e a todo momento: só o tempo era mensageiro. Até que a fome corroeu a madrugada com a crise passional. Desabou, caiu no sono e sonhou com um sapo tagarela prometendo alvíssaras. Oxe! Despertava e o louro próvido trouxe logo espalhafatosamente um véu de seda branca para cobri-la e grasnava como quem contava hestórias complicadas e intermináveis. Que é que foi? Empinava, demostrando que estava afeiçoado à viúva, meiguice na ponta do bico. Logo ela assustou-se horrorizada com o coaxado dum cururu robusto ao pé da cama. Vôte! Como é que pode? E tudo começou onde menos previa e duma hora qualquer, à revelia do sensatos. Nem se dava conta do que tramavam deliberadamente a tagarela ave e o batráquio, astúcias alcoviteiras dum quase conto de fadas. É macumba! Sapo de fora não chia, mas esse é turrão. - Só me falta um vampiro pra chupar minha carótida! Eita! Quase meia dúzia de noites e dúvidas, muitos luares remavam sentimentos impúberes revividos, vogava a desordem emotivas, regia impetuosas carências e quem acudia não soube, o coração na mão pulou esperançado, esvoaçante, com admoestações, persuasões nas suas obstinadas aspirações, até perceber no anuro os olhos sinceros, a boca torta, e a mais não se atreveu: ele a lambia com as vistas. Ih! Decerto, sobrevivente que era e a abstinência dela, o inverossímil, talvez afortunada heresia e as sombras cuspiam verdades da solidão e se multiplicavam nas zis silhuetas oníricas e espantosas, como uma assombração. Deslumbrou-se mesmo assim com as mais de quinhentas vontades veementes nas dores do desejo lá dela e aos mimos, a rendição, um e outro, nenhum asco nem desdém, a companhia dupla e o beijo estalou, afeto carecido, a frouxidão das primeiras nuvens e chuvadas largas, miúdas danações e trechos vagarosos, olhos suspirados como quem andasse de costas e viesse de frente, ardente ventania, parecia até quase sempre Sol de paraíso, labaredas na fogueira do prazer, o anfíbio na sua caranguejeira e da perereca um rapazola emergira intrépido e viril, e entregou-se sem temor de qualquer risco ao exercício diário de desbragada luxúria, arrependimento ou culpa, porque a pernalta grulha ressuscitara achegada prima inseparável de afogamento cruel pretérito. O resto era com Deus, as núpcias de insólito triunvirato no encanto de incrédula magia. Até mais ver.

 


Naomi Klein: Democracia não é apenas o direito ao voto, é o direito de viver com dignidade... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Marina Vlady: Frequentemente tentamos analisar o significado das palavras, mas somos facilmente desviados. É preciso admitir que não há nada mais simples do que aceitar as coisas como certas... Nos meus sonhos, eu costumava sentir que estava sendo sugada para um buraco... Veja mais aqui.

Nnedi Okorafor: O silêncio é a melhor resposta para um tolo... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

O ALFABETO DO AMOR

Imagem: Acervo ArtLAM.

Começamos do início todos os dias. De manhã \ tenho que desenhar a tua boca, marcar com migalhas \ o caminho para casa, repetir novamente letra \ por letra. \ Isso diverte-me. Estudo-te como uma analfabeta. \ (A língua dissipa-se prontamente, mostra \ a sua origem florestal). \ Quando à noite repetimos as frases \ de amor, realizamos o ato de casamento que \ não lembramos.

Poema da escritora, crítica literária e tradutora croata Darija Žilić, editora da revista literária Tema. Veja mais aqui.

 

PÉROLA DA IMORTALIDADE - [...] Não se esqueçam das Areias Sagradas... [...] Os grãos que passam pelas mãos ancestrais do Tempo! [...] O planeta depende de você, Cavaleiro dos Anos Antigos! [...] O ouro, a lâmpada, Xerxes, é provavelmente a coisa mais importante da sua vida. [...]. Trechos extraídos da obra The Pearl of Immortality (Author's Channel, 2019), da escritora sul-africana Nishi Singh (Nishi Chandermun), volume 2 da trilogia composta pelos romances The Sands of Time e The Curse of Ice.

 

SONHOS DAS ORIGENS - [...] Os espíritos xapiripë dançam para os xamãs desde os tempos mais remotos e continuam a fazê-lo até hoje. Eles têm aparência humana, mas são tão minúsculos quanto partículas de poeira brilhante. Para vê-los, é preciso inalar o pó da árvore yãkõanahi muitas e muitas vezes. Os xapiripë dançam juntos em grandes espelhos que descem do céu. Eles nunca são cinzentos como os humanos. São sempre magníficos: seus corpos são pintados com urucum e contornados com desenhos pretos, suas cabeças são cobertas com penas brancas de urubu-rei, suas pulseiras de contas são repletas de penas de papagaio, cujubim e arara vermelha, suas cinturas são envoltas em caudas de tucano. Milhares deles vêm dançar juntos, agitando folhas de palmeiras jovens, soltando gritos de alegria e cantando sem parar. Seu caminho parece um fio de aranha brilhando como o luar, e seus enfeites de penas se movem lentamente ao ritmo de seus passos. É uma alegria ver como são belos! Os espíritos são tão numerosos porque são as imagens dos animais da floresta. Tudo na floresta tem uma imagem utupë: aqueles que caminham sobre a terra, aqueles que sobem nas árvores, aqueles que têm asas, aqueles que vivem na água. São essas imagens que os xamãs invocam e trazem à Terra para se tornarem espíritos xapiripë. Essas imagens são o verdadeiro centro, o verdadeiro interior dos seres da floresta. As pessoas comuns não conseguem vê-las, apenas os xamãs. Mas não são imagens dos animais que conhecemos hoje. São as imagens dos pais desses animais, são as imagens de nossos ancestrais. No Tempo Primordial, quando a floresta ainda era jovem, nossos ancestrais eram humanos com nomes de animais e acabaram se tornando presas. São eles que matamos com flechas e comemos hoje. Mas suas imagens não desapareceram e são eles que dançam para nós como espíritos xapiripë. Os brancos extraem suas palavras porque seus pensamentos estão repletos de esquecimento. Nós guardamos as palavras de nossos ancestrais dentro de nós por muito tempo e continuamos a transmiti-las aos nossos filhos. As crianças, que nada sabem sobre os espíritos, ouvem os cânticos dos xamãs e então desejam ver os espíritos por sua vez. É assim que, mesmo sendo muito antigas, as palavras dos xapiripë sempre se renovam. São eles que ampliam nossos pensamentos. São eles que nos fazem ver e conhecer coisas distantes, as coisas dos antigos. É o nosso estudo que nos ensina a sonhar. [...]. Trecho extraído do texto The words of Davi Kopenawa Yanomami (Survival International, 2026), do escritor, ator, xamã e líder yanomami, Davi Kopenawa Yanomami, presidente da Hutukara Associação Yanomami, uma entidade indígena de ajuda mútua e etnodesenvolvimento. Veja mais aqui.

 

A POESIA DE CELINA DE HOLANDA

Neste parque imutável \ até hoje passeiam \ estes homens de escuro \ e estas frágeis mulheres \ Até hoje as flores, os cristais \ e as toalhas \ são sem mácula \ nas salas de esperar \ o amigo, o amado \ ou a chuva passar. Nada \ de apocalipse \ a terrível Besta e poços \ insondáveis. Nada \ a relembrar o abismo \ que somos.

Poema Passeio no Parque, da jornalista e poeta Celina de Holanda (Celina de Holanda Cavalcanti de Albuquerque – 1915-1999), autora dos livros O Espelho da Rosa (1970), A Mão Extrema (1976), Sobre Esta Cidade de Rios (1979), Roda D'água (1981), As Viagens (1984), Pantorra, o Engenho (1990) e Viagens Gerais (1995). Juntamente com Jaci Bezerra e Alberto da Cunha Melo, ela criou em 1979 as Edições Pirata. Veja mais aquí.

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SEMANA ASCENSO FERREIRA

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José Condé aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

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domingo, abril 26, 2026

HILDA TWONGYEIRWE, NANCY TUCKER, LUIZ RUFFATO & LUCILA NOGUEIRA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som da performance musical da flautista Tahyná Oliveira (Instrumental Sesc Brasil, Teatro Anchieta do Sesc Consolação, 2024), acompanhada de um quarteto de cordas, homenageando Wanessa Dourado, Heitor Villa-Lobos, Altamiro Carrilho e Radamés Gnattali.


 

Fecamepa: caraminholas na raiz do tempo... - No primeiro momento do Fecamepa, ali tudo era apenas dia no Vale do Una. A balbúrdia nativa fora surpreendida pelo alvoroço invasivo de naus alienígenas. E delas achegaram-se morigerados caras pálidas imponentes, que se passavam por íntimos folgazões. Não demorou muito e logo se fizeram descomedidos imprevisíveis, com a sanha escravocrata preando as posses dos autóctones indefesos. Fez-se conflito com o chicote do capataz e a ameaça de suas garruchas cuspindo fogo. Lanças, arcos e flechas jamais seriam páreo, puro erro de cálculo: a resistência foi surpreendente por sucessivos embates. Entre as perdas muitas e ganhos módicos, dos invasores proliferaram esquálidos homúnculos com seus sobrenomes bastardos, que soltavam fogo pelas ventas na captura dos inviáveis. A mamelucagem macunaímica prosperava, penderam pro outro lado e, num piscar de olhos, se empanturraram com a combustão setentrional. Reforçados, então, era a hora de trazer o meridional a reboque, desgraçados com o insucesso da catequese dos originários. Não deu, de novo. Aí traficaram e subjugaram pretos d’África, para sua laboriosa empreitada: patrulhas para as emboscadas no canavial e tiros pelas costas de supostos denegridos ou foragidos. E se de um lado eram abençoados pelo bom deus deles; de outro, pactos com o capeta – comiam dos dois lados, sabidos. Assim deu-se o segundo e lustros se acumulavam por décadas passadas quantas bodas de rancor e disputas. E se tornaram faustosos donos de engenho, abastados fornecedores de cana, todos montados dalguma patente bufada pela ordem açucarocrata, a capitanear jagunços metidos a caubóis, capangas sicários, cavaleiros que se dignavam corajosos e que recreavam a digladiar, uns contra os outros, para ver quem deles matava mais aborígenes e fujões negreiros. Reinavam dos seus casarões sobre os miseráveis, posto que, desde que foram todos abençoados pela batina cristã, os destemidos heróis da ignominia bufavam vogar o juramento de fidelidade a si próprio e tudo o mais submetido ao jogo de gatilho e munhecas, quando não facadas, foiçadas, mortandade. Aí deu no terceiro, quase mais de dois séculos engolidos virando páginas, na soberba dos que agiam por conta própria com suas leis exclusivas, puxando briga e, diante de qualquer óbice, pronto a desfeitar honra e implicâncias de pouca monta que, no final, resultavam numa bala cravada no peito alheio, como sinal de sua mandonista rubrica. Era o nascedouro de politiqueiros da verdade absoluta e vontade patenteada. E assim, no quarto, mais de meio milênio e todos os vícios por demais arraigados para serem extirpados, envenenavam a tudo e todos. Contagiavam virulentos. Rezava a lenda que se tornaram mais astutos que o rei dos falsários Smolianoff, com mais personalidades falsas que o Abagnale, mais golpistas que o Voigt na leva dos trocentos golpes por minuto; mais ousados que o criador do Esquema Ponzi, mais artísticos que o Meegeren, mais trambiqueiros que o Lustig, mais furiosos que o grande inquisidor Torquemada, mais apocalípticos que os Savonarolas do século 21. E sob seu poderio reuniam mais súditos seguidores que todos os tiranos infames, todos os execráveis líderes religiosos e a maior besta apocalíptica. Astuciosamente invadiram as delegacias e quartéis, prefeituras e câmaras de vereadores, afora as varas judiciais das comarcas; e se apossaram da assembleia legislativa, dos tribunais e órgãos governamentais; assaltaram a câmara dos deputados e o senado, invadiram a suprema corte e todo executivo, e promoveram a maior esculhambação: assumiram serem os 144 mil selados com as 7 dispensações dos cavaleiros do apocalipse e falsos profetas para varrer todas as falsidades do fim da habitabilidade, do colapso atmosférico e do risco existencial – coisas tratadas como roteiro de desenho animado e quem fosse do contra que fugisse para Ushuaia! E dane-se. Ou se engasgue com o enganchado do Doomsday Clock. Eita, boba torreiro! Afinal, tudo foi levado para a conta do duvidoso, de somenos. Ora, o que aconteceu era como se nem tivesse ocorrido, ignorado, ou pura invenção de falastrões indignados, anedotas de fim de dia, piadas de sala de aula. O que foi e será de hoje? Pinoia. Ontem nunca existiu, pura invencionice; amanhã, a esquina, viu? Já dobrou e lá vem outra. E o Fecamepa. Até mais ver.

 

Nélida Piñon: Só envelhece quem vive. Se a memória simula esquecer os mortos, o amor, albergado no coração e sempre à espreita, a qualquer sinal açoita quem sobrevive às lembranças. Se essas frases tocaram você, os livros vão marcar...  Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Alejandra Pizarnik: A melancolia é, creio eu, um problema musical: uma dissonância, uma mudança de ritmo. Enquanto por fora tudo acontece com o ritmo vertiginoso de uma catarata, por dentro reina o adágio exausto de gotas de água que caem de tempos em tempos. Por essa razão, o exterior, visto do interior melancólico, parece absurdo e irreal, e constitui 'a farsa que todos devemos representar. Mas por um instante – por causa de uma música selvagem, ou de uma droga, ou do ato sexual levado ao clímax – o ritmo muito lento da alma melancólica não apenas se eleva ao do mundo exterior: ele o ultrapassa com uma exuberância inefavelmente feliz, e a alma então vibra, animada por novas energias delirantes... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Mary Wollstonecraft: O começo é sempre hoje... Ninguém escolhe o mal por ser mal; simplesmente o confunde com a felicidade, o bem que busca... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

CÍRCULO DE MULHERES

Imagem: Acervo ArtLAM.

Sua cabeça é uma colmeia, \ você não tem certeza se vai sobreviver. \ Mulheres formam um círculo ao seu redor. \ Em seus olhos, suas histórias fluem como o Nilo. \ Elas as recolhem \ e lhe entregam a taça. \ "Vá em frente", dizem, \ mas você hesita. \ “Está tudo bem", dizem, \ e você aceita. Você leva a taça aos lábios, \ passa-a para a próxima mulher \ e todas bebem um gole, uma de cada vez. \ É um juramento de não perturbar as normas sociais em nome da veneração. \ Você passa o cordão com mais força para a próxima geração \ de mulheres que conhece, \ para mulheres que não conhece, \ até perceber que é um esquema \ e o cordão \ começa a cravar na pele. \ Você o deixa cair \ e quebra o círculo.

Poema da escritora e editora ugandense Hilda Twongyeirwe, autora de obras como Fina, the Dancer (2007) e Summoning the Rains (2012), entre outros.

 

VERÃO TARDIO – [...] Uma fraca luminosidade azulada desenha um retângulo imperfeito na poeira do piso. Tiro a calça e os óculos, ajeito o virol, deito. Em outros tempos, a essa hora, talvez fosse feliz. Às vezes, despertava apenas para, suspirando, me mover para o canto e dormir mais um pouco, satisfeito, a certeza de que ali ao meu lado encontrava o João Lúcio, na parede-meia ressonavam a Rosana a Lígia a Isinha, no outro aposento o pai e a mãe descansavam. O passado são ruínas [...]. Trecho extraído da obra O verão tardio (Companhia das Letras, 2019), do escritor Luiz Ruffato, contando a história de um homem abandonado por mulher e filho, Oséias, que depois de mais de vinte anos, decide regressar a sua cidade-natal, Cataguases, em Minas Gerais. Durante seis dias suas andanças, visitas a familiares, encontros com velhos personagens locais, a sombra do suicídio de uma de suas irmãs, Lígia, e a comunicação falha com praticamente todos a sua volta, persistindo nas suas tentativas de reatar os fios do passado. A obra propõe uma reflexão sobre uma sociedade em que as classes sociais romperam completamente o diálogo, prontos para entrarem em rota de colisão e se destruírem. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

O PRIMEIRO DIA DA PRIMAVERA – [...] Mamãe sempre gostou de Deus, mesmo quando não gostava de mim. [...] Quando alguém que você conhecia morria, você não morria com essa pessoa. Você seguia em frente, passando por fases e capítulos tão diferentes que pareciam vidas completamente distintas, mas em todas essas vidas a pessoa morta continuava morta. Morta, quer você estivesse triste ou feliz, morta quer você pensasse nela ou não, morta quer você sentisse falta dela ou não. Se não durasse, não era uma morte de verdade, era apenas alguém que se importava tão pouco que desapareceu. [...] Você não conseguia entender o que era justo e injusto quando tinha uma mãe que fazia cones e um pai que escrevia seu nome em canções [...] Sentir falta dele era como uma queimadura de fumaça no meu corpo: um pequeno buraco redondo, preto nas bordas. [...] Eu fiz muitas coisas ruins. Era bom ser abraçada. Eu gostava de ficar mole nos braços deles e ouvi-los dizer: 'Pronto. Muito bem por se acalmar. Boa menina, Chrissie. Boa menina.' Era quase como se eu não fosse má de verdade. [...] Se você quiser, você dá um jeito. Na maioria das vezes é muito difícil e chato, mas não é impossível. Você só precisa querer muito fazer isso. [...] Na manhã seguinte, prometi a mim mesma que machucaria alguém, qualquer um, quantos eu quisesse. Peguei um pedaço de travesseiro na boca e rugi. [...] Liberdade não era o mesmo que se sentir livre. [...] estou longe de casa, quase ninguém por família e nunca matei ninguém, mas sinto que perdi tudo que tive e foquei no meio do caminho. [...]. Trechos extraídos da obra The First Day of Spring (Riverhead, 2021), da psicóloga e escritora inglesa, Nancy Tucker, autora dos livros The time in between (Icon Books, 2015) e That was when people started to worry (Icon Books, 2018).

 

A POESIA DE LUCILA NOGUEIRA

E se inda houver amor eu me apresento, \ E me entrego ao princípio do oceano, \ E se me atinge a onda, úmida eu tremo \ esquecida de insones desenganos. \ E se inda houver amor eu me arrebento \ feliz, atravessada de esperança \ e mesmo lacerada inda assim tento \ quebrar com meu amor todas as lanças. \ E se inda houver amor terei alento \ para aguentar o inútil destes anos. \ E não me matarei, sonhando o tempo \ em que me afogarei no seu encanto \ E se inda houver amor, ah, me consente \ ser pasto de tua chama, astro medonho. \ e se inda houver amor, eu simplesmente \ apago esta ferida do meu sono.

Poema E se inda houver amor, da escritora, professora, crítica literária e tradutora Lucila Nogueira (1950-2016), autora de obra como Almenara (1979), Peito Aberto (1983), Quasar (1987), A Dama de Alicante (1990), Livro do Desencanto (1991), Ainadamar (1996), Ilaiana (1997), Zinganares (1998), Imilce (1999), Amaya (2001), A Quarta Forma do delírio (2002), Refletores (2002), Bastidores (2002), Desespero Blue (2003), Estocolmo (2004), Mar Camoniano (2005), Saudade de Inês de Castro (2005), Poesia em Medellin (2006), Poesia em Caracas (2007), Poesia em Cuba (2007), Tabasco (2009), Casta Maladiva (2009), Mas Não Demores Tanto (2011), Poesia em Houston (2013) e Imilce (2014). Veja mais aqui & aqui.

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PANORAMA DO TEATRO: DE PERNAMBUCO PARA O MUNDO

Formação nos dias 28 (tarde) e 29 (manhã) de abril, no Centro de Formação Douglas Miranda Marques, em Palmares (PE). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

Roberto Benjamin aqui & aqui.

Roberta Guimarães aqui & aqui.

Cláudio Bezerra aqui & aqui.

Isa Pontual aqui.

Jaci Bezerra aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Adriana Lima – a Adriana do Frevo aqui.

Leidson Ferraz aqui, aqui & aqui.

Maíra Passos aqui.

Flávio Gadêlha aqui

Christiana Ubach aqui & aqui.

 


domingo, abril 19, 2026

JENNIFER WONG, JANET EVANOVICH, CARLO ROVELLI, LUZILÁ GONÇALVES & CIBELE SARKIS CARNEIRO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Reencuentros (2023), Lejos de Casa (2023) e Guitar Recital (2016), da violonista espanhola Andrea González Caballero.

 


Gesta do espantalho... - O instante e que dia era, pouco importava: ontamanhães emaranhados e o que desse na telha ignorava o calendário que se perdeu noutras datas. O que via ou vivesse, às enxurradas, davam nos seus trocentos versos pelas suas duas mil e duas vontades adiadas nos milênios de solidão, um fantoche contando o que viveu como se fossem hestórias inventadas no eterno suspense, nada a ver com quem nunca fez uma pirâmide, muito menos biscoitos, ninharias. Quem era, nada. Trôpego bajoujo cheio de esperança pelos pântanos apodrecidos dos que se esfolavam uns aos outros, todos uns dogabobados por extenso, incapazes como ele de discernir entre o erro e o fatal. Escapava badameco a se confrangir com o escarro letal da exclusão, palúrdio cegueta que não distinguia o crível do irônico, as pedras falsas da cama de gato, o blefe da ameaça. Entre sins e nãos, relíquias e macabros, o que havia de escondido por trás da fumaça, ah, deixava pra lá, se o espantoso e o estarrecedor faziam o cotidiano. Dava pé e se ria de oligofrênicos e outros pacóvios, dos taroucos que mantinham o já obsoleto da ideia, dos atoleimados que se esqueciam do recém-acontecido, dos paspalhos que reenterravam equivocadamente seus mortos, de nem sequer lembrar de tão já apagados definitivamente; e dos estafermos marias-vão-com-as-outras porque não havia outra coisa a fazer na sua pálida existência, a não ser torcer pelo horror desgrenhado a disparar o espantoso estarrecedor para bulir no sangue das veias e na tentativa desembaçadora de lembrar do kitsh veemente das hibridizações na recompensa do crástino que restava. Nem era tão tarde e, se vivia, ali era tudo tão mórbido, o passado perdido e o que não fazia o mínimo sentido: e se não fosse, seria outro. Como assim? Tantas que perdeu a conta e dava de cara com o mundo dos simulacros, suas mentiras e soberbas. Restava perguntar-se a si mesmo: por que tanto ódio? Descobria: torpezas, abjeções e indignidades. Mas se aquele que matava também morria, por que, então, matar? E o assassino lia a notícia às gargalhadas. Estava confuso, sentia-se desastrado, quando revolvia toda vitalidade e saiu errante para o mais longe possível: em toda parte a deterioração. Viu-se quase soterrado pelas avalanches das distopias. Não é possível! Era. As crenças invalidadas, os pactos malogrados, as certezas aos farrapos, os laços esgarçados. Lançou mão dos anseios, esbarrou na estupidez. E viu-se um cretino a mais no turbilhão das horas. Foi mais além e onde qualquer, um simples dado biográfico a mais: andejo. Então, deu em Nagoro, na ilha de Shikoku, kakassi no sato, e viu-se à beira do abismo e da extinção. Olhos arregalados e a cena teratológica no quengo: as cabeças embalsamadas, as lápides mortuárias, a Virgem de Nuremberg estarrecedora, os gritos lancinantes de suicidas incógnitos, os brinquedos auditivos, os sabores da língua, a pele dos toques, os cheiros, as paisagens e, enquanto via, inventava pra si o seu mundo: ninguém tinha nome, a maravilha anônima, a ubiquidade inapelável. Aí, a abrupta salvação: deparou-se com sorridente Tsukimi de braços abertos e suas mãos artesãs espalmadas deram-lhe a razão do agora feito para a luz do futuro: ali escreveria sua própria vida antes enovelada e, quase logoteta, desenrolava com as pestanas nos cílios umedecidos. O coração batia, a emoção das lágrimas, as trêmulas mãos: sentia-se, enfim, vivo e não era, estava: memória visceral, segredo intersticial... Até mais ver.

 

Hilda Hilst: Estou convencida de que o amor é a única coisa a se viver. Minha infraestrutura é completamente amorosa. Eu queria viver sempre na paixão. Isso pode custar anos de vida, esse ‘viver’ unicamente em função da paixão … Eu daria com muito prazer anos da minha vida para só conhecer esse estado... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Rachel Corrie: Siga seus sonhos, acredite em si mesmo e não desista... A morte tem cheiro de purê de maçã caseiro cozinhando no fogão. Não é a sensação sufocante da doença. Não é medo. É liberdade... Veja mais aqui & aqui.

Malalai Joya: Eu não temo a morte, eu temo ficar calada frente à injustiça... Veja mais aqui.

 

CHAMANDO OS MORTOS

Imagem: Acervo ArtLAM.

Em certas noites eles voltam, \ Fragmentos de histórias de fantasmas alojados na minha cabeça \ de corridas de táxi à meia-noite. Quase sempre \ uma mulher de vestido vermelho, riso oco \ e uma bola quicando em um parquinho, \ almas perdidas atravessando o rio enevoado onde Meng \ Oferece-lhes sopa para esquecerem, antes de sua próxima vida. \ E naquelas tardes em que minha mente divagava \ Com histórias sinistras, cada escola em Hong Kong \ um cemitério. Imploramos para que nos chegassem a nossa vez. \ ir ao banheiro juntos, acreditavam mãos fantasmagóricas \ brotariam das torneiras para nos trazer de volta \ para uma colônia em tempos de guerra onde soldados japoneses \ competiam entre si para ver quem decepava mais cabeças. \ A menina da minha turma tinha um álbum de recortes. \ de histórias de fantasmas: aprendi que vampiros \ Na dinastia Qing, as vestes não se movem lateralmente; \ Alguns atores nunca voltaram das filmagens. \ E crianças descuidadas desaparecem a cada OVNI. \ Nos reunimos em volta de um prato de molho de soja que tremia. \ ver a carta se mover pelo tabuleiro Ouija. Seria difícil... \ fazer os espíritos da comida irem embora.  E outros mitos da terra. \ dos desaparecidos; meu primeiro amigo no ensino médio, \ Nossos aniversários eram com um dia de diferença, costumava me mostrar \ As linhas da palma da mão dela, uma linha mais curta que as outras. \ O que você acha do lugar onde você está agora? \ Seremos amigos em nossas próximas vidas?

Poema da escritora honconquesa Jennifer Wong, autora das obras Letters Home (Nine Arches Press, 2020), Goldfish (Chameleon Press, 2013) e Summer Cicadas (Chameleon Press, 2006). Ela possui mestrado em escrita criativa pela Universidade de East Anglia e o doutorado em escrita criativa sobre poesia da diáspora chinesa pela Universidade Oxford Brookes.

 

JOGANDO A TENTAÇÃO - [...] Meu trabalho não é perfeito porque é um reflexo da vida. A vida não é perfeita. [...] A gente nunca sabe o que esperar das pessoas. Num minuto elas são a rainha do baile e no minuto seguinte já são completamente malucas. [...]. Trechos extraídos da obra Game On: Tempting Twenty-Eight (Simon & Schuster, 2021), da escritora estadunidense Janet Evanovich, autora das obras Fortune & Glory Tantalizing Twenty-Seven (2020), Plum Spooky (2008), Eleven on Top (2005), Hard Eight (2002), Seven Up (2001), Three to Get Deadly (1997) e One for the Money (1994). Ela também se expressa: O melhor que podemos fazer é priorizar nossas necessidades e tomar decisões de acordo com elas... Existem homens que entram na vida de uma mulher e a arruínam para sempre... É possível superar situações muito sérias, às vezes horríveis, embaraçosas e extremamente desconfortáveis ​​com humor. Ele nos dá uma saída...

 

RADICAL PERSPECTIVA – [...] Minha pergunta central sempre foi: como o mundo funciona? Temos duas teorias principais que funcionam incrivelmente bem em diferentes áreas: a relatividade geral e a mecânica quântica. Quando aprendi sobre essas teorias na faculdade, fiquei impressionado com o quão radicais elas eram. Ambas desafiam concepções muito fundamentais que temos sobre o mundo ao nosso redor [...] Todas as tentativas de refutar a mecânica quântica e a relatividade geral falharam. [...] Creio que o desafio da ciência é encontrar o esquema conceitual correto para melhor compreender a natureza como a vemos. [...] E para isso, precisamos da filosofia. Os filósofos nos ajudam não a encontrar as respostas certas para perguntas específicas, mas a encontrar as perguntas certas para melhor conceituar a realidade. [...]. Trechos extraídos da entrevista Carlo Rovelli’s Radical Perspective on Reality (Quanta Magazine, 2025), concedida pelo físico e cosmólogo italiano Carlo Rovelli, que na sua obra Sette brevi lezioni di fisica (Adelphi, 2014), expressou que: [...] Somos feitos da mesma poeira estelar da qual todas as coisas são feitas, e quando estamos imersos no sofrimento ou quando experimentamos uma alegria intensa, não somos nada além daquilo que não podemos deixar de ser: parte do nosso mundo. [...]. Veja mais aqui & aqui.

 

MUITO ALÉM DO CORPO, DE LUZILÁ GONÇALVES FERREIRA

[...] Urgia aprender a conviver com a tua ausência, fazer dela um elemento de vida, algo tranquilo, suave, presença e não imagem dolorida de uma falta. Era preciso transforma tua ausência num dado passado embora luminoso, a lançar sua incandescência sobre um presente turvo. Chorava, o lápis à mão. As lágrimas escorriam pelo rosto que eu não pensava esconder, algumas caíram sobre o texto que eu nem enxuguei. Continuei a ler, a anotar, vez em quando as letras dançavam na página, eu perseguindo a leitura. Então, me senti olhada [...] Uma mão pousou sobre a minha, compassiva, e outra mão acariciou os cabelos, deteve-se nas faces. Levantei a cabeça e vi. Um rosto. Ou antes: um olhar. [...] Aquele olhar falar você só face, eu estou vendo. E dizia: eu estou aqui [...].

Trechos extraídos do romance Muito além do corpo (Nestlé/Scipione, 1988/Cepe, 2016), da escritora, pesquisadora, feminista e professora Luzilá Gonçalves Ferreira, autora de obras como A Anti-Poesia de Alberto Caeiro (1990), Os rios turvos (1993), A Garça Malferida (1995), Em Busca de Thargélia (1996), Humana, Demasiado Humana (2000), Voltar a Palermo (2002) e No Tempo Frágil das Horas (2004), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

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A ARTE DE CIBELE SARKIS CARNEIRO

A arte da artista visual Cibele Sarkis Carneiro, que atua como professora de Artes em diversas escolas da rede pública e privada, integra o grupo Gentamiga Ateliê (SP), participa da plataforma Ubqub (SP) e participou com seus trabalhos da publicação Dareladas (CriaArt, 2024) e no zineblog Tataritaritatá. Veja a entrevista dela aqui & mais aqui.

 

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DAVI KOPENAWA, DARIJA ŽILIĆ, NISHI SINGH, CELINA DE HOLANDA & SEMANA ASCENSO

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som do álbum Transparente (Fina Flor, 2015), da cantora e compositora Fátima Guedes. Veja mais aqui , aqu...