domingo, abril 05, 2026

CLAUDIA PIÑEIRO, HELEN HEATH, DOLORES HUERTA & JOÃO PERNAMBUCO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum Avant l’Aube (Timespan Recordings, 2022), da violonista italiana Cristina Galietto.


 

Reduto da migração... - À beira do rio vagava gente: a dança do imprevisível noitedia. Uns desafinavam descompassos; outros, valsavam torvelinhos intérminos. Prestativo, desde menino, Zé Calunga por ali - não tinha instrução, mas tirocínio. E ajudava quem chegasse pro embarque, avisava o horário da travessia do caudal ou da condução pela rodagem. Para isso ajeitava tamborete em troca de moedas ou do que dispusessem, evitando quem arrastasse as malas e perdesse a viagem das águas ou dos caminhos. Oxe! Perdeu a hora? Ora, ora. Captava bigus para desprovidos, carregava malas dos precisados, levava recados distantes, conduzia enfermos às emergências, servia de moletas pros pernetas e guia para cegos, ensinava destinos, dava a direção aos perdidos, servia de companhia para desencontrados, dava jeito em tudo que desafiasse resolução. Será o absurdo? Mas, tá! Assim cresceu enquanto as pessoas surgiam como coisas inventadas na hora: iam e vinham aos borbotões, migravam como lagartixas tontas fugitivas de suas incógnitas inexatidões. Eita, lasqueira! Motivo do alvoroço? Havia guerra remexendo os restos das ninharias, aos ensurdecedores pipocos: o mundo enorme se apequenava, todos proutras paragens na outra margem. E já! Deu o créu! Maior vexame! Foi assim que ganhou a simpatia do jangadeiro Caronte, que ia de Alagoinhanduba pelo Una, para alcançar Opará, Estige, Aqueronte, até o abismo profundo do Tártaro, nos confins do mundo. O navegante cobrava uma dânaca pelo traslado, bastava pagar ao seu vigilante escudeiro, o cachorro Cérbero, que as guardava permitindo acesso. Quando não, virava um feroz demônio do poço, acaso alguém contrariasse seu dono: com raiva tornava-se tricéfalo, fogo saindo pelo pescoço com serpentes cuspidoras e cauda de dragão. Que desgraceira é essa? Até comia gente: era uma vez Pirítoo. Valha-me! Era tratado na mão firme do dono, bastava jogar um bolo de farinha e logo se aquietava manso – o curioso era que o cão dormia com olhos abertos e andava de olhos fechados, ô danado, no geral era uma criatura adorável, fazendo festa balançando o rabo pra quem chegasse. Havia outra possibilidade: Lá vem Tua Mãe Bigoduda! Ela vai até o fim do mundo? Ora, se! E o cata-corno do severo Maalik, cara fechada de quem nunca sorriu, entupido até o tampo levava dessa pra melhor, ou do ruim pro pior, quem sabe, estradafora, todos que vinham das redondezas e dali queriam sair às pressas. E eram muitos os viajantes: Dioniso procurava por sua mãe Sêmele, Psiquê atrás do Asno de Ouro de Apuleio; Orfeu buscando por Eurídice que foi picada por uma cobra; Enéas ansiando pelo reencontro do pai, Ulisses segurava Tirésias para voltar pra casa na Odisseia de Homero; Rimbaud à cata de toda vidência poética; Otto escapando da Noite dos Cristais dos nazistas pelas páginas de Boschwitz; os passageiros de Agualusa, os seguidores da Katábasis de Kuang e espiões do bode verde da ISI paquistanesa. Ufa! Ainda havia Pedro, o porteiro do paraíso, inviabilizando aquela entrada: ou correnteza redemoinhada, ou os catabís das trilhas pelo itinerário aos pés dos morros, mais nada. E enchia a pança obesa com a farofada, mangando da magreza de Calunga: Pronto! O diabo foi pro céu! Que foi? Ivan Karamazov devolveu o bilhete: Não há retorno, só os despojos do Ozymandias de Shelley, crianças empaladas e um maltrapilho Jesus condenado pelo vazio de todos os crucificados pelo livre-arbítrio e pelas múltiplas opções consumistas do paradoxo da escolha de Schwartz, o Se questo è un uomo de Primo Levi. Num diga! A coisa piorou quando Héracles saltou da jangada trazendo Teseu e queria levar Cérbero para Euristeu. Aí não! Como assim? Conversa vai, toma lá, dá cá, desavenças - cada qual sua catábase. Quem apartou a briga e acordou tudo no tom apaziguador foi Maalik, que deu uma freada de levantar poeira e desceu com os Zabaniyah que todo dia eram levados pra Jahannam. E como passava por muitas entradas, levava mais quem quisesse. Entre eles, o profeta Muhammad que ia pra Meca pegar o Buraq pra Isra e ser guiado por Gabriel até chegar em Masjid al-Aqsa e ascender para Mi’rai, também interveio engrossando o buruçu, ampliando o deixa disso que, finalmente, chegou a bom termo: resolvido, tudo certo. Foi no meio disso e de muitas outras, que Zé Calunga foi tomando jeito: tornou-se cobrador, vendedor de passagens, recebia e entregava encomendas, passava o pule do jogo do bicho pros apostadores, fazia triagens e dava norte pras coisas, atendendo avexados párias, imigrantes, exilados, nômades, refugiados, estrangeiros, metecos, degredados, expatriados, proscritos, banidos; os que queriam visitar os Moais de Rapa Nui, os que iam brincar na flora alienígena da Ilha de Socotra do Iêmen, outros que iam ver as cores do Fly Gleyser, os que desejavam virar estátua no Lago Natron da Tanzânia, ou iam pro deserto do Salar de Uyuni, ou mesmo pra Ilha Sentinela do Norte, ou bisbilhotar os arquivos secretos do Vaticano, os gigantescos geoglifos das linhas de Nazca; as cidades fantasmas de Chernobyl e Priapyat, as ruínas apocalípticas da Ilha Hashima, a fantasmagoria da colina de Craco, a submersa Kolmanskop no deserto da Namíbia, a ruina das pedras de Kayaköy, as labaredas eternas de Centralia, as bonecas velhas de Xochimilco, os ossos da capela de Évora; o suicídio na floresta Aokigahara, as assombrações noturnas do Bhangarh Fort, o Triângulo das Bermudas e lá vai teibei! E havia até quem queria ir pro fervedouro do Jalapão e os cânions de Cambará do Sul, pra Serra da Capivara, pros Lençóis Maranhenses, pro portal da Serra do Roncador, pra solidão do abandono de Fordlândia, pra vila ferroviária de Paranapiacaba, pra Ilha das Cobras da Queimada Grande, ou mesmo pra Planolândia! Eita, coisa medonha! Desde que ficasse longe dali! Danou-se tudo! E tinham os que procuravam pelo porteiro de Jackson Ribeiro, os que queriam ir pela Les Portes de l'Enfer de Rodin, os que passaram pela agonia do passageiro Lúcio Flávio – apareceu até o porteiro Maximiliam na noite de Liliana Cavani à procura da sobrevivente Lucia Atherton, afora os desejosos pela descida de Ishtar ou do descensus ad inferos de Oyá e o escambau. Quem é doido de esperar por tempo ruim? Pé na bunda! O certo era que os que iam nunca voltavam, pareciam mais que desapareciam na neblina da noite de Resnais. Ou raramente, retorno minguado, gente estranha sem saudade, mulheres esquisitas, homens sombrios - cada qual sua sordidez. E ele desde menino insone testemunhava a emigração e recreava, às horas vagas que eram brevíssimas, catando mensagens no fundo das tantas garrafas jogadas e assim entretinha de nem se dar conta que o tempo passou e nele se foi. Até mais ver.

 

Anne Lamott: A idade me deu o presente de mim mesma; me deu o que eu sempre desejei, que era me tornar a mulher que sempre sonhei ser. Alguém que sabe descansar, trabalhar duro e ser uma companheira constante, uma esposa carinhosa e dedicada a mim mesma... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Jennifer Esposito: Às vezes, tudo precisa explodir para ser reconstruído... Se você não apostar em si mesmo, quem diabos vai apostar em você?... Me dê civilização. Não quero ser mimada... Veja mais aqui & aqui.

Shiori Teshirogi: Minhas oscilações de humor eram praticamente insuportáveis para todos ao meu redor. Peço desculpas porque foi um período muito difícil da minha vida... Veja mais aqui.

 

O TOQUE

Imagem: Acervo ArtLAM.

da sua mão no meu \ seio traz pequenas agulhadas e \ primeiro deixo cair uma gota, depois outra, e \ então, quando estou sentada em você, sobre você, \ o fluxo é constante e o leite está por toda parte. \ Acho que não é bem um desperdício, porque \ sempre tem mais, mas eu te ressinto um pouco porque \ não é seu e você acha engraçado, e \ acho que é mesmo, e eu só preciso deixar ir. \ Você checa se eu tenho dentes lá embaixo e \ se consegue passar para o outro lado. \ Você acha que eu sou uma deusa e \ as crianças nos separam, eu na terra, você \ no ar, ou será o contrário? E \ nossas pontas dos dedos mal conseguem se tocar e eu choro em você, \ ou você chora em mim? \ As crianças me pisoteiam, ou \ é você? \ Vale, colinas, rios e cavernas.

Poema da poeta neozelandesa Helen Heath.

 

QUEM NÃO GOSTARIA? - [...] Assim, cada um tinha seu mérito, e méritos são muito difíceis de dividir. [...] Criado para encobrir uma dor ou resolvê-la para sempre. [...] Você nunca imagina que aquilo que deixa para trás se transforma. No exílio, os conhecidos não envelhecem, as casas não se deterioram, as árvores não crescem. [...]. Trechos extraídos da obra Quién no (Alfaguara, 2019), da escritora, roteirista e dramaturga argentina Claudia Piñeiro. Veja mais aqui.

 

LIÇÕES ATIVISTAS - Quando há um conflito, significa que existem verdades que precisam ser abordadas por ambos os lados. E quando há um conflito, o processo de resolvê-lo é educativo. Para isso, é preciso envolver as pessoas de ambos os lados para que possam dialogar... Cada momento é uma oportunidade de organização, cada pessoa um ativista em potencial, cada minuto uma chance de mudar o mundo... Se as pessoas não votarem, tudo continua igual. Você pode protestar até o céu ficar amarelo ou a lua ficar azul, e nada vai mudar se você não votar... Pensamento da ativista estadunidense Dolores Huerta (Dolores Clara Fernández Huerta), ex-líder sindical cofundadora da Associação Nacional de Camponeses, que mais tarde se juntou ao Sindicato Geral de Camponeses (United Farm Workers), atuando na defesa dos direitos dos trabalhadores, dos imigrantes e das mulheres. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE JOÃO PERNAMBUCO

Livro João Pernambuco – clássicas e inéditas (Legato, 2022), álbum de partituras reunindo a obra de João Pernambuco (João Teixeira Guimarães - 1883-1947), pesquisa e texto de Jorge Mello, prefácio de Flávia Prando e curadoria de Celso Faria. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

Álvaro Lins aqui.

Renata Santana aqui.

João Câmara aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Zabé da Loca aqui.

Fábio Xavier aqui.

Maria Oliveira aqui.

Adelmo Arcoverde aqui, aqui & aqui.

Oriana Duarte aqui & aqui.

Daniel Aragão aqui.

Marilourdes Ferraz aqui & aqui.



domingo, março 29, 2026

NORA NADJARIAN, LAUREN WEISBERGER, CAROLINE DEAN, MAGDALE ALVES & CARMEN CAMUSO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum The Changing Sky (2025), da violonista e premiada compositora britânica Laura Snowden.

 


Hestorinha da cantoria de passarinho... Não havia tempo ruim para Fulô – Florilândio de batismo e papel passado. Foi assobiando escorreito a revelação do seu talento canoro: sacou dum apito, despertava sua curiosa habilidade. – Simbora no arrasta-pé! Triunfou ajeitando meticulosamente uma folha de papel enrolada jeitosamente num pente, aos assopros de predileto repertório musical das paradas de sucesso, parampampã! - Isso é bom, doido! Segura o trupé! Arroxa baião! De um pífano, um botão de rosa pra paquera timorata: ganhou dela um gracioso sim, sem precisar sequer falar namoro pra ela. Duma corneta, um ramo de lírio branco pra mãe dele: era o dia dela, regozijada. E era sempre cedo na hora pra ele que ia ladeira acima, morro abaixo, no embalo chistoso. - Olha o forró, gente! Tornou-se assim corneteiro, dando as horas certas, convocando o povo pras cerimônias viandeiras, alertando pirraças ou maracutaias, chamando atenção pra isso ou aquilo, com toda sua alacridade. – É hora do xaxado, vambora! Das lições de Zé da Justa foi expulso e reprovado. Procurou outro: Cadê o maestro? O canto mais limpo: queimou as pestanas aprendendo sozinho cifras e partituras, solava desajustado. Por onde ia o mato brotava no chão esturricado, árvores floriam, relva no meio do asfalto, o sertão virava rio e dava pro mar: entrava de sola na vida de músico meio-lá-pra-cá e nos arranjos florais ineivados de plantão, puxando da flauta de Pã, Orfeu das mundividências, qual flautista de Hamelin. Foi buscar emprego na famigerada banda de Mané de Preto, findou quase tição eletrocutado. Levou um toque da vaca dos Assassinos do Frevo. – Ih, fui limado! Esgueirou-se pros Bitus, ajeitou-se Sibito entre rebitos e outros priquitos – Aí, me dei bem! Aprendeu a remexer os quadris com Dermeval, animando o dançado dos fantasmas da biblioteca. – O galope só é bom quando é à beira-mar! Aí, duma flauta doce, uma flor de Quipá; da gaita, uma Estrela da terra; da ocarina, Maracujá do mato; do uruá, uma Rainha do abismo; do berrante, uma Chanana; dum didjeridu, um molho de Erva fantasma; do clarinete, um maço de Planta queijo; do saxofone, um feixe de Boca de leão d’água; do fagote, um galho de Íris da praia; do trompete, um tufo de Enxerto de passarinho; do trombone, uma braçada de Alface d'água; da trompa, um cacho de Rabo de tatu; do oboé, um arranjo de Bredo-da-praia; da tuba, uma Coroa-de-frade-da-praia; e assim distribuía coroas, buquês, guirlandas, grinaldas, ramalhetes, florilégios, até um tussie-mussie de orquídeas, de pequis, cambarás, mangabas, vincas, salsa-da-praia, paqueviras, helicônias, parasitas, antúrios, alpínias, sorvetões e capim-agulha! Era flor na lapela, flores nos penteados, nos decotes, penduradas nas orelhas, ornando espalhafatosas e embecados. Assim, caía de boca desde os toques da alvorada logo cedo e os de se recolher tarde da noite: o Sol sorria, a Lua se exaltava enamorada, a Natureza em festa e o impossível de estrepitoso festejo abanando o calorão, diante das caras carrancudas que carpiam suas dores e flagelos, zoando acenos, vapores de saracoteados, cantoria de passarinho, coral da bicharada. - Houvesse hoje e onde se sacudia ao andar -, trazia chuvada boa, juntava separados, afáveis e enfadonhos. Desdantavante frevava e a cada batida de tom esqueletos saracoteavam e sacudiam seus anjos-da-guarda. Ele só regência no meio da rua, puxando o coreto. Sacudia o braço como se passasse marcha e rompia lonjuras, atravessava funduras e o povo atrás serpenteando num ziguezague. – Eita, que ele vai virado na peste! Era assim, tinha de existir e assim o queria solto na buraqueira das rodagens, moita adentro, estrada fora. – Foi-se! Oxe! Parecia ter ido pros fins da Terra, nem notícias mais, nunca mais voltou. Vôte!  Onde andará? Quem lá sabe! Ó. Pois é, foi. Até mais ver.

 

Elif Shafak: As vozes da nossa terra natal não param de ecoar em nossa mente. Nós as levamos conosco aonde quer que vamos... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Camille Paglia: Precisamos aceitar nossa dor, mudar o que pudermos e rir do resto... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Wangari Maathai: Consegui perceber que, se eu tinha uma contribuição a dar, eu devia fazê-la, independentemente do que os outros dissessem. Que eu estava bem do jeito que eu era. Que não havia problema nenhum em ser forte... A geração que destrói o meio ambiente não é a geração que paga o preço. Esse é o problema... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

MILAGRE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu olho para o horizonte por um trilhão, trilhões de anos. \ Vai acontecer, talvez, e eu serei testemunha. A Terra será milagrosamente \ curar-se a si mesma. A água vai se transformar em gelo. Hipnotizado, verei as esculturas brancas, \ lembrar o Ártico e sua magnificência, e tremer na costa. O sol vai jogar \ truques em minha mente, gravura no gelo branco puro a sombra de um longo talo. \ Uma única tulipa vermelha. \ Parabéns, esta flor é para você: o único humano ainda vivo, o único que \ ainda acredita em milagres.

Poema da escritora cipriota Nora Nadjarian.

 

QUANDO A VIDA TE DÁ - [...] Como posso explicar que ter a oportunidade de dar uma pausa no meio da vida e avaliar tudo é mais raro do que um arco-íris duplo? [...] Neste momento, tudo está exatamente como deveria estar. [...] Eu jamais puniria a filha pelos crimes da mãe. [...] Vaginas feitas sob medida são as novas bolsas Birkin. [...]. Trechos extraídos da obra When Life Gives You Lululemons (Simon & Schuster 2018), da escritora estadunidense Lauren Weisberger, autora de obras como Revenge Wears Prada: The Devil Returns (2013), Last Night at Chateau Marmont (2010), Chasing Harry Winston (2008), Everyone Worth Knowing (2005) e The Devil Wears Prada (2003). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

CIÊNCIA DAS PLANTAS - [...] Levou muito tempo para desvendar como o inverno estimula a floração, mas partindo de um ponto inicial de quase nenhum conhecimento molecular, agora temos uma boa ideia do mecanismo regulatório. [...] É tão importante que a comunidade internacional de plantas se concentre em uma espécie como organismo de referência. Triagens prospectivas, clonagem baseada em mapas, os extensos recursos de genótipo e sequenciamento, além de descobertas importantes quando grupos que estudam coisas diferentes convergem para um mecanismo – tudo isso é essencial se realmente quisermos entender a base mecanicista de características complexas das plantas. [...] como as plantas usam sinais sazonais para sincronizar seu desenvolvimento. Nessa época, o fenômeno da Arabidopsis estava acontecendo – geneticistas de plantas haviam descoberto a utilidade de se concentrar em uma espécie como organismo modelo, e agora podíamos clonar genes importantes para características complexas por meio de clonagem baseada em mapeamento. Então, quando abri meu próprio laboratório, escolhi abordar a base molecular da vernalização em Arabidopsis. [...] Sinto-me privilegiada por fazer ciência todos os dias – é maravilhoso poder seguir uma paixão e ser pago por isso! É flexível e absorvente. Eu recomendaria a todos [...]. Trechos da entrevista (New Phytologist, 2025), concedida pela premiada bióloga e acadêmica britânica, Caroline Dean, integrante do grupo de estudos que determinou a base mecanística de como as plantas usam sinais sazonais de temperatura para determinar quando vão florescer.

 

A ARTE DE MAGDALE ALVES

[...] polarização é uma bobagem, porque cada um tem o seu pensamento e o respeito deve ser mútuo [...].

Pensamento da atriz e bailarina Magdale Alves, que estreou na dramaturgia com a peça Guarani com Coca-cola (1980) e fez carreira tanto no teatro, como no cinema, atuando em filmes como Quer Tapioca com Manteiga, Freguesa? (1985), Amarelo Manga (2002), Árido Movie (2005), Baixio das bestas (2006), Deserto feliz (2007), Gonzaga de pai pra filho (2012), entre outros. Atuou ainda em novelas televisivas, minisséries e curtas metragens, bem como dubladora, humorista, comediante, locutora, performer e apresentadora de TV. Veja mais aqui.

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MANTO MULHER, DE CARMEN CAMUSO

Recebi alguns mantos da vida \ Que se incumbiram de me fazer mulher \ Uns, enlaçados em fios de proteção \ Outros, treliçados, amarrando minhas mãos \ Mãos desatadas no desejo revelado \ Desnudam-me lentamente \ A pele sensível não mente \ Ao retirar cada manto \ Encontrei minha originalidade escondida \ A espontaneidade pra vida \ Agora, embalada pelo canto \ Pássaros livres que se alimentam em meu ombro

Poema extraído do livro de poesias Manto Mulher (2026), da poeta, psicóloga e feminista Carmen Camuso, integrante do Movimento Cultural Alvorecer. O livro reúne 48 poemas agrupados em dois capítulos: “O Manto” e “As Palhas”. O primeiro reúne poemas que expressam a relação mulher-mundo a partir das vivências da autora em seus diversos papéis sob o manto do gênero. No segundo capítulo, o que aparece é a relação mulher-outro que, sob palhas, simboliza o que dói ou cura. Veja detalhes aqui.

 

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Ana Santiago aqui.

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Renata Pinheiro aqui.

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Aoruaura aqui.

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&

 

ARTEXPRESSÃO – TRANSVERSALIZANDO ARTE NA ESCOLA

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domingo, março 22, 2026

IRMA PINEDA, SOFI OKSANEN, PETER TURCHIN & BÁRBARA DE EXU

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do concerto Live at Philarmonie Luxembourg (2025), oriundo do álbum Sonicwonderland (2023), da pianista e compositora japonesa Hiromi Uehara, com a Philarmonie Luxembourg, no Grande-Duchesse Joséphine-Charlotte Concert Hall. Veja mais aqui & aqui.


 

Da noite pro dia, gente, malacatifas... - De repente Tlaltecuhtli engoliu o Sol e anoiteceu: fez-se a maior escuridão. Do inesperado ao regozijo, Tó Zeca, então, aguardou Jaci reluzir no horizonte. O tempo passava e, pacientemente, mantinha-se à espera. Ela não apareceu. A demora e uma interrogação: Onde fui parar? Não tinha a menor noção. Só se deu conta das chamas pálidas azuladas flutuando lá ou acolá, intermitente fogo fátuo, sabia: Ah, Boitatá. Hesitou, pois temia ter de encarar aqueles olhos flamejantes, não era um bom sinal. Bastou uma leve fagulha alhures e viu-se diante do serpentário do chão à constelação equatorial de Ofiúco. Um sobressalto: o guizo advertia, um arrepio e o sinal do sangue frio de répteis poiquilotérmicos ao redor, o espavento de ver-se de cara com aquela rastejante bocarra 180º e a dilatação corporal. Xiii... Logo viu: era a noturna suaçuboia – Ô jiboia, que é que tu tais fazendo aí, mulher? Ah, senta-espera, peidona, isso é cobra-de-veado pronta pro bote! Ôpa! Logo a escura Boiúna emergiu Mãe do Rio bem fundo: Que é que há? Ao seu lado, logo notou a presença dos olhos de mel da Sofia, a filha do boto e da índia: tremia a terra. Olha lá! Por um instante deu-se conta da movimentação e êpa: lá ia a cavadora Ubijara, a mãe-de-saúva, anfisbena, com suas duas cabeças - Vai pra lá, ibicara; sai pra lá, licranço! Num átimo, o assombro com a perigosa jararacuçu, depois a surucucu, a áglifa araramboia, a camuflada jararaca-da-mata, a boipeva cabeça-chata. Ih! E ali se enroscavam a azulamboia, a periquitamboia, a delgada parda bicuda, a muçurana, preta, pendurada no cipó; a sucuri, muçurana; as três irmãs Jararacuçu, Urutu-cruzeiro e Caiçara, cada qual com seu veneno botrópico para inchar, necrosar e sangrar; a cascavel boicininga, a maracaboia de-quatro-ventas, a coral, a peçonhenta surucucu-pico-de-jaca e outro susto: era anaconda! Alto lá! E juntas: a amarela, a verde, a malhada, a akayima e a da-bolívia, danou-se! Eita, viborões! A canibal sucuri devorava seu macho depois do coito. E Norato com a sua irmã, a cruel Maria Caninana, a arabóia, que subiu na árvore e ficou de tocaia. Se era ou não cobra mandada, não se sabia. Mas se atrevia a chupar o seio da mãe adormecida, com o rabo na boca da criança para que ambas não acordassem. Tô frito! Reunidas, iam beber e antes escondiam a peçonha para não se envenenarem. Que coisa! E rastejavam nas próprias costelas, ondulando lateralmente, com seu movimento de sanfona ou concertina, em zigue-zague, mudando de pele, quando em vez. Se não era a jararaca venenosa, era uma sucuri com seus mais de 9 metros caçando na água. Na névoa um arco-íris e apareceu a mítica Naga de 7 cabeças para o Batismo do Oceano de Leite. E com ela os pigmeus de Baka, que vinham do sul de Camarões, com o Códice de Dresden, anunciando o egípcio Atum que emergia do caos primordial com o Livro dos Sarcófagos para formar a Enéade de Heliópolis. Aí subiu a Python que havia abandonado o Oráculo de Delfos na perseguição por Leto. Logo atrás a criocéfala celta, seguida da víbora-áspide que acabara de envenenar Cleópatra, todas acompanhadas pela híbrida Erictônia, a terimórfica Tibre-cornu de Virgílio e o emplumado Quetzalcóatl. O circo estava pronto, ameaça em riste. Tentou olvidar: Sou lá ofidiófilo! Há quem ofidiófobo, até herpetólogo. Nem, nem. Viu-se em apuros, procurou saída. Deu-se então o imprevisível: Tlaltecuhtli cuspiu o Sol e Tatewari, o Avô do Fogo, acendeu o dia. E Coaraci deu vazão à prática dum pajé de 9 fôlegos: o futuro nas mãos, curava à distância, tornava o animal que quisesse, ficava invisível, aparecia aqui, ali, acolá, o que bem quisesse: Vai encarar? Nem podia, porque Asclépio ergueu-se com o caduceu de Hermes para dar conta da teoria do relojoeiro do Deus otiosus. E aí o feitiço da Naja: a deusa Wadjet era a Kundalini se enroscando 3 vezes e meia na base da coluna vertebral dele, enroscando-se em suas botas e agigantando-se diante de si. Ofertou-lhe o wixárico Tsikuri, Ojo de Dios, ornado por opúncias e peiots, o que lhe deu a coragem de proclamar: Toda cobra do caminho arreda que vou passar! E uma nuvem cintilante rasgou as trevas e tudo clareou, nítida paisagem: o ninho de Ledo Ivo e já era a cidade com a multidão alvoroçada às idas e vindas, com suas expectativas, dolos e angústias. Ali aprendia Ouroboros: tudo é um. Até mais ver.

 

Pilar Quintana: Se você tem alguma dúvida de que o racismo sistêmico existe, é só olhar para lá. A maioria da população, que é negra e indígena, está vivendo na pobreza absoluta. É uma realidade muito dolorosa... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Linda Sue Park: Um erro cometido com boas intenções continua sendo um erro, mas é um erro pelo qual você deve se perdoar... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Shirin Neshat: Todo artista, de uma forma ou de outra, é político. A política define nossas vidas... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

UM POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

O tempo conquistou o amor \ Isto mistério de nós impiedosamente \ e agora o que faço com a indiferença \ com essa solidão \ que os caras me abraçam gentilmente \ e me sufoca. \ Amor \ minha barriga agora é uma árvore seca \ que onze queriam florescer estrelas para suas noites. \ Minha barriga agora é uma montanha dura \ não mais espantado com o passar do tempo \ pelos dias sem vida. \ Nós ganhamos nosso tempo amor \ misericordioso, o mistério nos tirou \ e hoje não sei o que fazer com aquele desgosto \ com essa solidão \ que às vezes me abraça suave \ e às vezes ele me sufoca. \ Amor \ A minha barriga é uma árvore seca hoje \ que um dia ele queria florescer estrelas para suas noites. \ A minha barriga é uma montanha dura hoje \ que não se admira mais com a passagem do tempo \ para os dias sem vida.

Poema da escritora, editora, tradutora e educadora mexicana Irma Pineda Santiago.

 

PARQUE PARA CÃES - […] Eu me arrastava para o trabalho apenas para retornar a um apartamento que ecoava de saudade, onde as xícaras de café estavam sempre exatamente no mesmo lugar em que eu as havia deixado de manhã e onde nunca havia cheiros de outras pessoas, nunca a bagunça de ninguém além da minha. Eu não sabia que podia sentir falta de tais coisas. [...]. Trecho extraído da obra Koirapuisto (WSOY, 2019), da escritora e dramaturga finlandesa Sofi Oksanen, que ressalta: A memória é parte crucial da humanidade, composta por histórias... Veja mais aqui & aqui.

 

FIM DOS TEMPOS – [...] Nossa análise aponta para quatro fatores estruturais de instabilidade: a miséria popular que leva ao potencial de mobilização em massa; a superprodução das elites, resultando em conflitos intraelitistas; a saúde fiscal precária e a legitimidade enfraquecida do Estado; e fatores geopolíticos. O fator mais importante é a competição e o conflito intraelitista, que se configuram como um indicador confiável da crise iminente. [...] Os livros de história nos dizem que a Guerra Civil Americana foi travada por causa da escravidão, mas essa não é toda a história. Uma maneira melhor de caracterizar esse conflito é dizer que ele foi travado por causa da "escravocracia". [...] Como a escravidão fornecia a base econômica para o domínio do Sul, um ataque político aos proprietários de escravos poderia ser fortalecido por um ataque ideológico à escravidão. [...] Quais são as características das teorias da conspiração que as distinguem das teorias científicas? Primeiro, a teoria da conspiração costuma ser vaga quanto aos motivos dos líderes nos bastidores ou lhes atribui motivações implausíveis. Segundo, pressupõe que eles sejam extremamente inteligentes e conhecedores. Terceiro, coloca o poder nas mãos de um líder forte ou de uma pequena conspiração. E, finalmente, pressupõe que planos ilegais possam ser mantidos em segredo por períodos indefinidamente longos. Uma teoria científica, como a da dominação de classe, é muito diferente. [...] Mentes coletivas são resultado de discussões e esforços coletivos para alcançar um consenso, que pode ser ouvido (ao contrário de uma mente ilegível). Chegar a um programa de ação comum geralmente deixa rastros físicos, como atas de reuniões e documentos programáticos. É claro que alguns grupos são bastante reservados quanto aos seus processos internos de tomada de decisão. É aqui que denunciantes como Julian Assange e Edward Snowden se tornam essenciais para um sociólogo do poder. [...]. Trechos extraídos da obra End Times: Elites, Counter-Elites, and the Path of Political Disintegration (Allen Lane, 2023), do antropólogo russo Peter Turchin. Veja mais aqui.

 

BÁRBARA DE EXU, INIMIGA DO REI

É Bárbara, tenho certeza \ É Bárbara, sei que é ela \ Que de dentro da fortaleza \ Por seus filhos e irmãos \ Joga gemidos, gemidos no ar \ Que sonhos tão loucos, tão loucos, tão loucos \ Tão loucos foi Bárbara sonhar...

Trecho da música Passeio público (Berro, 1976), do cantor e compositor cearense Ednardo (José Ednardo Soares Costa Sousa), em homenagem à revolucionária pernambucana Bárbara Pereira de Alencar (1760-1832), primeira presa política do Brasil e heroína da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador. Sobre ela encontram-se as obras: a biografia da coleção Terra Bárbara (Demócrito Rocha, 2017), da jornalista e escritora Ariadne Araújo; A guerreira do Brasil (Universidade de Indiana, 2001), do escritor Roberto Gaspar; A heroína do Crato (Bazar do Tempo, 2022), da socióloga e roteirista Antonia Pellegrino; e a dissertação de mestrado Relações de gênero e poder no Cariri Cearense (UECE, 2015), de Kelyane S. de Sousa. Veja mais aqui & aqui.

 

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CLAUDIA PIÑEIRO, HELEN HEATH, DOLORES HUERTA & JOÃO PERNAMBUCO

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som do álbum Avant l’Aube ( Timespan Recordings , 2022), da v iolonista italiana Cristina Galietto .   ...