domingo, fevereiro 22, 2026

MARIANA ENRÍQUEZ, NILGÜN MARMARA, MARIANA MAZZUCATO & NEGRITUDE SEM IDENTIDADE

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos concertos Suíte Brasileira (2023) e Cantata Ayabás (2025), da maestra, pesquisadora, compositora e pianista Andréa Huguenin Botelho.

 


As viúvas do sobrado... - Adélia se sentia uma das Little Women de Alcott – a caçula entre as 4, antes 5, meninas órfãs do sobrado de Hermilo, a viver oniricamente vestida de flores, mansidão de pássaros, delicada juventude. E crescia viçosa, aformoseando-se a tal ponto de cair nas graças dum mulato estranho, logo apresentado como banqueiro Benedito. Desde então passou a suspirar pelos cantos e a ter sonhos com todo tipo de bicharada. Era vigiada pela centenária Viscondessa e a sua inseparável ama Bernarda, ocupando muito mais a matriarca que vivia tal Penélope de Ulisses – o marido combatente no Paraguai nunca mais voltou. Não demorou muito e logo o casal se estreitou de papel passado em ruidosa cerimônia e, a partir de então, o festivo foco das atenções naquela família de enlutadas. Com o matrimônio, o que mais a envaidecia era se tornar duas vezes Silva ao seu extensíssimo sobrenome aristocrático – ela reunia a extensa linhagem dos germânicos Guimarães, dos florentinos Cavalcantes, dos lusitanos Alves e agora senhora Silva dos ibéricos e mais um Silva acrescido: o do Biu banqueiro. Pouco mais de um mês depois da lua de mel, a tragédia: a matrona consolava a viuvez de todas as suas irmãs – escapou apenas Amélia, que faleceu antes de contrair núpcias. Lá estavam chorosas Amália, Anália e Adália abraçadas com Adélia, arrimadas pela genearca. As primeiras solidárias a chegarem para engrossar o plangente momento foram as amigas próximas da progenitora e lá estavam ao vivo e em cores no recinto, segurando os lencinhos e vestes escuras: a Catarina de Lencastre, Ana Plácido, a da Luz, a de Arcozelo e a de Cavalcanti. Logo providenciaram o velório ajudadas por inúmeras serviçais. Fraquejava ali Adélia sentindo na pele a árdua tribulação da Pelágeya de Gorki. E passou mal, logo a Bernarda chamou outra empregada: Pegaí o picão-do-padre! Foi um Deus nos acuda! Oxe! Trouxeram o chá calmante de cravo-de-defunto e as pálpebras destilavam prantos por seu saudoso marido. Mantinham os preparativos pro funeral e um entre e sai de gente, cochichos, horas de espera. De repente o alvoroço, a pompa fúnebre transformou o salão da casa numa câmara-ardente, repleta de flores e velas acesas, numa decoração religiosa. O corpo estava desfigurado e foi preciso quase dois dias para recompô-lo e, de tão remendado, teve de ser exposto num caixão lacrado – Ora, por que? Respeitava-se a dignidade do falecido, os presentes e, sobretudo, a garantia de segurança sanitária: ninguém sabia do que ele tinha morrido até então. E era pra enterrar logo, no mesmo dia; mas a Viscondessa determinou que só sepultaria no dia seguinte: Vai que ele ressuscita, hem? Mas já havia passado mais de 48 horas, exigência inútil, ela bateu o pé e assim foi. Adélia debruçou-se ao esquife, enquanto as madames iniciavam as exéquias como salvaguarda dum lugar especial no céu pro cadáver putrefato. Começava a vigília das orações, com mortificadas novenas, penitências, as excelenças ao pé do morto para que ele recebesse o perdão dos pecados e sua alma recomendada ao melhor lugar do paraíso: Uma incelença preste que se foi, duas pra onde irá... As cantadeiras imploravam clemência: Já é uma hora e ele vai, ele vai, vai ganhar a salvação... Duas horas e ele vai, vai, vai salvo pela extrema-unção...  Três horas... Era tudo muito enfadonho, as ladainhas, os pêsames para lá, choramingados para cá e lá pras tantas decidiram todas fazerem quarto ao defunto, de sentinela com tudo pronto para renderem as últimas homenagens, que, inclusive, logo foram suspensas com a invasão de autoridades que exigiam a necrópsia policial no IML, o boletim de ocorrência, o protocolo e todas as medidas de praxe, incluindo um furioso legista que queria abrir a fim da força o caixão para confirmar o corpo: era que o FBI, com agentes engravatados ali presentes, suspeitava de atentado comunista. Como pode? Ele foi encontrado quase-morto, de morrer no hospital. Não e pronto! Um impasse resolvido na marra, quando um agente grandalhão da CIA passou às mãos da anciã madrinha, o volumoso calhamaço capa dura com as inscrições: Ex Libris – Private/Top Secret. E foi chegando gente e uma situação bizarra foi tomando conta porque ali dava as caras o execrável vampiro golpista Miguelilulia – mais conhecido como o marido da Marcela, que logo topou com o Barão de Drummond e, com ele, a corriola toda  capitaneada pelo Pedro II, os Marechais das Alagoas, os generais da Velha e Nova Repúblicas, todas as patentes das Forças Armadas, Ministros das Supremas Cortes, coronéis de fitas e de mandos, desembargadores, deputados, senadores, chefes de Executivo, cardeais e arcebispos do Vaticano, integrantes disfarçados da Ndrangheta, Cosa Nostra, Yacuza, Los Zetas, Camorra e todos os COT, desde os albaneses, do cartel de Sinaloa, da tríade chinesa, da Bratva russa, mais os encapuzados da Klu Klux Klan, comandos da capital e vermelho, magnatas do Epsteim, das  Americanas e do Banco Master, até o Barão de Alagoinhanduba – que a Viscondessa detestava -, de abraços com o juiz Teje-Preso, que foram saudados pelo prefeito Zé Peiúdo, dedicando a eles sua vitória na eleição e, no meio do discurso, não só foi esnobado como barrado do velório. Como é que pode? Enxotaram-no. Tinha muita gente mais um tanto. Adélia asfixiada com o aglomerado de embecados no salão, recolheu-se sozinha e ficou debruçada na janela dos fundos, olhando pro nada, quase adormecendo e, num cochilo, sentiu-se grávida, barriga pela boca, prestes a dar a luz. Repentinamente ouviu um choro de criança e despertou, quando, subitamente, testemunhou a chegada de verdadeira fauna invadindo o quintal, todos, cada um, com os olhos fixados nela. Arregalou-se. Conferia ali desde potoquinhas invertebradas quase imperceptíveis aos estrondosos vertebrados de darem susto e medo em qualquer um, reunindo tudo que existisse de eucariontes, multicelulares e heterotróficos, ali espremidos naquele imenso horto. O que era de quadrúpedes, bípedes, avoantes, rastejadores, peludos e pelados, não estava no gibi. Destemida, ela foi ver mais de perto e conferiu todo tipo de selvagens e mansos, quando se deparou com um bebê entre eles. Tomou-o pela mão, agarrou-se com ele e foi depressa pra dentro de casa, deu-lhe banho, perfumou e com a melhor veste se fez regozijada: era seu filho e o menino se chamaria Pavel; não, melhor não. E mais pensava: agora teria de definitivamente protagonizar o seu destino. Precisava providenciar, tão logo ocorresse o sepultamento, o batizado do neném e foi pras irmãs e a Viscondessa para acertarem os detalhes anunciando a boa nova. O infante de braço em abraços e a mãe viu-se na obrigação de seguir sua vida como os cem anos de solidão de Úrsula Iguarán: estava resolvida, resignada. Aí anunciou que o filho se chamaria como o pai: Benedito. Nessa hora, a Viscondessa ciosa logo insinuou as secretas práticas escusas do morto e, evitando anátema, Benedito que seja, Pavel não, mas preferiu chamar o bruguelo por Zeca e assim ficou Zeca Biu. Ocorria no salão a liturgia das horas, com o ofício de defuntos, terços e rosários no rito da última encomendação e despedida, contritos na maior taciturnidade e, ao presenciarem a chegada dela com o garotinho no braço, o padre Quiba logo proclamou salves e vivas, propondo canonizar Benedito como o Benfeitor que patrocinaria muita Festa no Céu – e o epíteto foi incorporado na hora ao sobrenome da viúva e do filho: os Silva e Silva Benfeitor. Era a hora da bênção da sepultura e seguiram todos para o cemitério local, acompanhados por diversas agremiações futebolísticas e carnavalescas puxando a multidão com um samba-frevo composto especialmente pro evento. Chegando lá, a maior comoção popular pro cerimonial sob a marcha fúnebre de Chopin. E entre salves, tiros e vivas, sacudiram o ataúde na cova mortuária e meteram cimento pra cima e pra baixo. Mal fechavam a catacumba, Uiraçu pousou no topo do mausoléu como um agouro, grasnando pela chegada das Harpias que levariam a alma do de cujus pras Fúrias Ctônicas da vingança. Arrepiou geral e foi pernas-pra-que-te-quero pra todo lado. Ninguém se atreveu por mais tempo homenagear aquele suposto benfeitor santificado de última hora, que foi esquecido lá para sempre. E não era só uma vez... Até mais ver.

 


Gayatri Spivak: Sempre de olho no futuro que já está conosco, à vontade, em algum lugar ao nosso redor... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Judith Butler: A vida precisa ser protegida. Ela é precária. Eu diria até que a vida precária é, de certa forma, um valor judaico para mim... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ann Leckie: O luxo sempre vem à custa de alguém. Uma das muitas vantagens da civilização é que, geralmente, não precisamos ver isso, se não quisermos. Somos livres para desfrutar de seus benefícios sem perturbar nossa consciência... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

SIMILE DE CALIDOSCÓPIO OTIMISTICAMENTE

Imagem: Acervo ArtLAM.

A dor do afastamento estabelecido. \ Seus próprios inimigos, sem amor ou compreensão, \ e uma frase negra acorrentada por mariscos impiedosos. \ Uma razão para um estranho? \ Uma razão para o estabelecimento? \ Uma razão para um estranho estabelecido? \ Enquanto silenciavam a linguagem do infinito, \ delineando a verdade de fora com a \ linha grossa, grande e imunda da precisão. \ Ao olhar através do caleidoscópio, \ a possibilidade de colorir as partículas \ no fundo \ nega e seca as expectativas estéreis, \ os deuses tradicionais, a realidade árida dos rebanhos \ e a obtenção de asas para viver na dispersão de cada um... \ Deslize suavemente a mão para a direita e observe \ como ela se move levemente para a direita \ (Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa). \ Agora, a distinção de cores renovada é visível. \ Dê quatro passos, gire o querido \ objeto vermelho quatro vezes (vermelho foi o primeiro e único) \ Olhe para o que você vê com paixão \ Quatro vezes diferentes, quatro efeitos diferentes... \ Abrace, toque aqueles que são como você... \ Alegria sensorial de uma qualidade desconhecida, \ semelhante à identidade de pequenas divisões coloridas, \ tão bonitas, tão organizadas, tão bagunçadas, \ mudanças tão inimagináveis nos espaços! \ Sequencie seus versos de poesia espontaneamente, por conta própria. \ Vire seu brinquedo e aproxime seu olhar. \ Não seria a sequência de fragmentos apropriada \ para palavras que surgem espontaneamente? \ Não pergunte! Oh, será que nunca há sombra, \ mas sempre uma luz para a escuridão estagnada e desordenada \ que flui da janela para o seu coração? \ Temendo a fratura de objetos translúcidos, \ a perda de partículas, à deriva no poderoso \ vento confiscador do distante, \ em direção a outras geografias. \ Afaste a possibilidade carregada de emoções sombrias com o \ poder da sua consciência, \ sem deixar que suas formas façam incisões em sua alma — \ Encontre novos caleidoscópios após a desilusão. \ Se estiver oculto de você, estabeleça a autocriação \ da sua inocência. \ Tão capaz quanto seu coração, \ crie seu simulacro. \ Seres mais poderosos e distinções autênticas \ o aguardam em seus esforços. \ Você se surpreenderá com seu coração delicado \ e com seu talento elegante. \ Não espere um instante, deixe que sua libertação venha \ de cores vibrantes e \ sonhos com migalhas de prazer na escuridão abstrata, \ encontrando paz na consciência das ruas. \ Expectativas que não podem se dar conta da infantilidade \ que se embriagou sorrateiramente e através de funis, \ pela astúcia daqueles que espalham \ a influência contra a resistência... \ Lancem sentenças de carrasco com todas as suas células! \ E depois gritem orgulhosamente para a posteridade \ com as bolinhas de gude únicas que vocês jogam!

Poema da poeta turca Nilgün Marmara (1958-1987).

 

NOSSA PARTE DA NOITE - [...] O primeiro que se perdeu dos ausentes é a voz [...] Renunciar é fácil quando você tem muito, pensei. Ele nunca teve nada. [...] Quando não se pode pelejar, a única maneira de estar em paz é render-se. [...] Não há maior decepção do que acreditar ser o escolhido e não ser. [...]. Trechos extraídos da obra Nuestra parte de noche (Anagrama, 2020), da premiada escritora, jornalista e professora argentina Mariana Enríquez. Veja mais aqui & aqui.

 

MISSÃO ECONÔMICA – [...] Compreender melhor as estruturas organizacionais que incentivaram a resolução de problemas, a tomada de riscos e as colaborações horizontais é, portanto, fundamental para entender a onda de mudanças radicais que virá a seguir. [...] A inovação e a comercialização de ideias não acontecem porque você quer: elas acontecem no processo de resolução de problemas maiores. O programa Apollo foi um exemplo do que pode ser feito se a ambição for inspiradora e concreta. [...] Aplicar o pensamento orientado por missões em nossos tempos exige não apenas adaptação, mas também inovações institucionais que criem novos mercados e reformulem os existentes. E, principalmente, exige também a participação cidadã. [...]. Trechos extraídos da obra Mission Economy: A Moonshot Guide to Changing Capitalism (Penguin, 2023), da economista italiana Mariana Mazzucato, autora de obras como O valor de tudo: produzir e apropriar-se na economia global (2020) e O Estado empreendedor: desmistificando os mitos do setor público e privado (Porfolio/Pengoin, 2014).

 

NEGRITUDE SEM IDENTIDADE, DE ÉRICO ANDRADE

[...] A negritude não é uma condição ontológica, mas uma experiência estética de se inscrever na resistência de uma identidade colonial. É um contraponto à categoria de raça. [...] Não há maior insubmissão do que nossos corpos viverem a singularidade de nossa existência [...] A negritude não é uma linha ou um ponto, mas sobretudo uma roda. [...]

Trechos extraídos da obra Negritude sem identidade: sobre as narrativas singulares das pessoas negras (n-1, 2023), do filósofo, psicanalista e professor da UFPE, Érico Andrade, na qual o autor realiza uma análise profunda da temática da identidade, empregando ferramentas do discurso filosófico, da narrativa autobiográfica e da psicanálise, destacando o conceito de branquitude, explorando o papel crucial da filosofia na sua construção e examinando como a identidade negra foi moldada por um projeto da modernidade. Criticamente a obra aborda a tradição filosófica, não excluindo-a, mas utilizando-a para fundamentar sua posição, contribuindo para a consolidação de um parâmetro de valor vinculado às identidades, com a brancura representando a humanidade, enquanto a negritude é relegada a um lugar de exclusão. O autor é pesquisador do CNPq, possui doutorado com estudos na Sorbonne e atua no Departamento de Filosofia da UFPE. Veja mais aqui.

 

Joaquim Cardozo aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Nínive Caldas aqui.

Francisco Brennand aqui & aqui.

Kamila Cidrim aqui.

Nelson Ferreira aqui, aqui, aqui & aqui.

Tila Chitunda aqui.

Mestre Baracho aqui.

Fátima Quintas aqui, aqui & aqui.

Sebastião Vila Nova aqui & aqui.

Christina Machado aqui.

 


domingo, fevereiro 15, 2026

LEÏLA SLIMANI, JANICE REBIBO, NARGES MOHAMMADI & AGUINALDO SILVA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do Piano Concerto In E Flat Major & Violin Concerto in G Minor, da compositora, pianista e violinista britânica Alma Deutscher (Alma Elizabeth Deutscher), com a Orchestra of St. Luke's, sob a regência da maestrina Jane Glover, no Carnegie Hall (2019).

 


 Amorarte de Sabicaná... – O cantador violeiro, Ze Canário, vivia de xotes e toadas, na companhia de sua inseparável cadela, Caralâmpia, sua exclusiva ouvinte e vocal de apoio – enquanto ele se esgoelava blem blem, ela uivava uhuuu -, formando um duodeceto diuturno com a Lua – sua inquestionável Selenita - e o coral dum punhado de estrelas refulgentes. Assim, como um príncipe de poa, ensaiava com fibra a sua cantata narrando hestórias de alertas aos gases tóxicos e baixos níveis de oxigênio, dos quais alguns não resistiam finando emborcados. Porém, naquela noite, a despedida: Vou ganhar o mundo! Terras por conhecer, paisagens por explorar. Saudava a todos com o forró da dupla Carvalho & Zapata: Não precisa de dinheiro \ Pra me ouvir cantar \Eu sou canário do reino \ E canto em qualquer lugar... Presentes ali os sobreviventes de sempre: o Mineiro, DuReino, o Belga, Guirá-nheengatu, Turuna, Mutuca, incluindo o Azul Rejeitado da Fábula de Ledo Ivo e o seu primo que veio do estrangeiro, Harzer Roller, trazendo notícias do parente Cinzento: escondia-se da gata que ameaçava devorá-lo, mas não teve sorte, infelizmente foi capturado e preso numa gaiola, sofrendo muito de adoecer e morreu. Valha-me! Lamentaram a alma perdida e, logo em seguida, foram embalados com sua cantoria às batidas, trinados e rolos alternados. Muitas palmas e folia folgada. Ao final da seresta confessou ser aquele da antiga lenda celta do The Torn Birds da Colleen McCullough: cantaria pela última vez, a única na vida. E taciturno: Vou procurar um espinheiro alvar onde houver, para me empalar no acúlio mais comprido e agudo, no qual vou lançar meu lamento superlativo entre os galhos selvagens e um espinho cravado no peito sublimando a agonia para descansar em paz. Assim, pagarei meu preço, o mundo inteiro me ouvirá a pulso e Deus sorrirá no céu, quitando minha existência. Efusiva salva de palmas aos abraços solidários e tão abatumados com o frio da madrugada. Antes do nascer do Sol, ele partiu saudando o dia como um passarinho do açúcar. O último aceno no terminal rodoviário e, decidido a seguir em frente, ele a viu: olhos dela nele e vice-versa, fixados. Cruzaram mútuos, fisgados às passadas, viraram-se convergentes, ambos voltaram, um ao outro, defrontaram-se espantados, um sorriso recíproco. A iniciativa dela: Conheço você de algum lugar... E ele: Você também me é familiar. De onde? Nenhuma exatidão, especulavam e nisso ficaram: Será que... Não era. Por acaso... Nem, também. Checavam, nenhuma constatação plausível, nada batia. Nela o útero se revolvia; nele, um frio na barriga subindo pela coluna vertebral assanhando ideias. Aí, um verso de cá, uma rima de lá, ele dali e ela dacolá às estrofes e quadras. Ela puxava o mote, ele glosava, perguntas e respostas, vírgulas e pontos. E nisso iam tentando conversar. Mas eis que chegara a hora dele ir e dela ficar. Ele: Tenho de ir; e ela: Preciso prosseguir. Ele antecipava a saudade: Sua presença me trouxe bons presságios, quero escutá-la mais vezes pra valer a primavera. Ela: Será que ainda nos veremos? Quem sabe! É, quem sabe... Lamentaram a sorte, cada qual seguiu seu caminho, a sua sina: ela reconstruindo o passado, ele errando mundo afora. E se foram. Ele cantarolando: Sabiá canta na mata, descansa no pau agreste, um amor longe do outro, não dorme sono que preste! E invocou Catulo da Paixão Cearense: Sabiá lá no alto, da ingazeira serena, chorava como se fosse, uma viola de pena... E dizia pra si que precisava aprender a comer pimenta que nem sabiá. Ele se foi com suas perspectivas pelos 4 cantos do mundo; ela revolvendo memórias, desenterrando raízes, outros rizomas. Cada qual muitas noites e dias solitários, pensamento um no outro, inarredável, arrastavam-se esticando lonjuras. Batia a saudade nele e era Tom&Chico: Eu hei de ouvir cantar uma sabiá... Mas quem era ela? Menina achegada às pimenteiras, agarrada aos enviuvados passos da mãe carpideira, adolesceu no coral da igreja, enturmou-se no canto orfeônico, cantora lírica no conservatório, Diva estrelando espetaculares palcos de plateias estrangeiras. Nossa! Prali retornara para rever vivências antigas esgarçadas no tempo, os que se foram e o que restaria de seus laços íntimos, revolvendo ossos nas catacumbas das lembranças de seus entes queridos, desenterrando monturos no afã dum piso firme para sustentar seu lastro combalido. Nos baques da vida, fora iludida por um enrolão abastado, escapando de um aborto. Assim, um ano se passou e, num piscar de olhos, uma ou quase duas décadas, já era 5 de outubro de novo, aniversário dela, surpreendida pela reunião presencial de parentes longínquas de sabe-se lá quanto mais tempo: a Ponga, a Cavalo, Coca, Barriga-vermelha, Guaçu, Laranjeira, Una, Piranga, Gongá, Sabiacica, Sabiapiri, Sabiapoca, Sabiaúna, a do Peito-Roxo e a Da-Praia, todas as Túrdidas, até a prima Tordo-zorzal que veio da Patagônia. Ali juntaram transbordantes lágrimas emotivas e restos mortais, revivendo tempos de plantio e colheita, num culto à fertilidade, em louvor da Deusa-Mãe. Ao amanhecer, o momento zorzal: invocaram as ancestrais deusas Zoryas, as servas de Dazbog. A Utrennyaya logo abriu os portões celestiais da alvorada, era a estrela da manhã protegendo o mundo do escatológico cão Simargl. E delataram confidências ao meio dia e revelaram escondidos segredos ao entardecer. Ao crepúsculo, Vechernyaya, a estrela da noite, fechou os portões com o sexteto de Julian Cochran, enclausurando-as em sua festa noturna. Logo soaram as doze badaladas noturnas e trouxeram Polunochnaya, a Estrela da Meia Noite de Neil Gaiman, anunciando o regresso do amado. Ele ali retornara com os versos da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias: Minha terra tem palmeiras, onde canta a sabiá... Ela sorriu felizarda, estava coroado seu presente de aniversário. E se atraíram exultantes e foram embalados pelo júbilo de uma sonata triunfal, um ensaio à dança nupcial. Suas mãos pegaram-se, seus corpos ascenderam estreitados e, agarrados cúmplices, levitaram aos ventos, flutuaram às alturas de nuvens oníricas e se deitaram entre árvores de folhagens densas na Lua minguante, como se reunissem arbustos, gravetos, flores, capim e cachos de banana para o ninho. Assim amaram e renasceram desejando o mesmo de Philemon e Baucis, nas Metamorfoses de Ovídio: seriam assim um carvalho e uma pessegueira entrelaçados de pé no terreno pantanoso da convivência a dois, voluntariamente consentidos pelos devires. Até mais ver.

 

Rebecca Goldstein: O que é o amor? Quando você ama alguém, quero dizer, todos nós queremos que coisas boas aconteçam conosco e que as ruins fiquem longe. Quando você ama alguém, você quer isso tanto para essa pessoa, ou até mais, do que para si mesmo... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Helen Fielding: Está comprovado por pesquisas que a felicidade não vem do amor, da riqueza ou do poder, mas sim da busca por objetivos alcançáveis...Veja mais aqui, aqui & aqui.

Toni Morrison: Em algum momento da vida, a beleza do mundo se torna suficiente. Você não precisa fotografá-la, pintá-la ou mesmo se lembrar dela. Ela basta... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

PREPARANDO-ME PARA O ROSH HASHANÁ

Imagem: Acervo ArtLAM.

O que estou perdendo\ Uma porta de banheiro, \ um vidro \ na porta do box, \ um varão de cortina de chuveiro, \ a janela entre minha cozinha e a área de serviço, \ uma lâmpada fluorescente, \ painéis solares , \ um terço \ do trilho da porta de correr da varanda da frente, \ um apêndice e duas amígdalas – uma velha história \ (exame do útero) \ (e dois seios), \ um carinho , \ as crianças, \ dinheiro, \ um cartão de crédito… \ o enfeite da grade, \ minha antena, \ minha tampa de gasolina.

Poema da escritora israelense Janice Rebibo (1950-2015). Veja mais aqui.

 

SEXO & MENTIRAS - [...] Tornar-se mulher é uma jornada repleta de humilhações. Diante da polícia, do sistema judiciário e da esfera pública, ser mulher é uma desvantagem. [...] Um fardo pesado, de fato, para metade da população carregar. Idealizada e mitificada, a virgindade é claramente uma ferramenta de coerção concebida para manter as mulheres em casa e submetê-las à vigilância constante. É um objeto de preocupação coletiva, e não uma questão privada. Também se tornou uma dádiva econômica para aqueles que realizam dezenas de reconstruções de hímen todos os dias e para certos laboratórios que comercializam hímenes artificiais, supostamente projetados para sangrar durante a relação sexual. A miséria sexual, como veremos, é uma forma de capitalismo como qualquer outra. [...] Não se trata apenas de os direitos sexuais fazerem parte dos direitos humanos: sabemos que foi explorando a falta deles que os homens chegaram a dominar tantas civilizações. [...] Uma mulher cujo corpo é submetido a tal controle social não pode desempenhar plenamente seu papel como cidadã. [...]. Trechos extraídos da obra Sexe et mensonges: La vie sexuelle au Maroc (Les Arenes, 2021), da escritora e diplomata marroquina Leïla Slimani, que no seu livro Le parfum des fleurs la nuit (Stock, 2021), ela expressa que: […] Na minha opinião, nem o discurso que glorifica a riqueza da herança mista, nem aquele que se preocupa com ela, capta a complexidade de uma identidade dupla. Ela é, simultaneamente, um desconforto e uma liberdade, uma tristeza e uma fonte de exaltação. [...] As pessoas me perguntam de onde sou, e às vezes respondo que, não sendo nem um pedaço de carne nem uma garrafa de vinho, não tenho uma origem, mas uma nacionalidade, uma história, uma infância. Nunca exatamente daqui, nem exatamente de lá, por muito tempo me senti como se tivesse sido despojado de toda a minha identidade. Como um traidor, também, porque nunca consegui me integrar completamente ao mundo em que vivia. Eram sempre os outros que decidiam por mim quem eu era. [...] A dominação colonial —que acabou sendo entendida— não moldou apenas as mentes, mas também os coerpos, os constriñes e os encierra. O dominado não ousa mover-se, rebelar-se, ultrapassar os limites… ou os do seu bairro. Para expressar. [...]. Ela também é autora das obras La Baie de Dakhla: Itinérance Enchantée Entre Mer et Désert (Malika, 2013), Dans le jardin de l'ogre (Gallimard, 2014), Chanson Douce (Gallimard, 2016), Le diable est dans les détails (Éditions de l'Aube, 2016), Paroles d'honneur (Les Arènes, 2017) e Simone Veil, mon héroïne (Éditions de l'Aube, 2017). Veja mais aqui & aqui.

 

ATIVISMO CIVIL - Continuarei meus esforços até que alcancemos a paz, a tolerância à pluralidade de opiniões e os direitos humanos... Como ativista civil, sou uma das milhares de vítimas dessas torturas horríveis. Cheguei a esta conclusão: o objetivo do confinamento solitário é a lavagem cerebral, para que os prisioneiros, privados de condições normais de vida, percam suas características humanas únicas, seu raciocínio e suas ideias, e sua saúde física e psicológica. Tenho fé no caminho que escolhi, nas ações que tomei, assim como nas minhas crenças. Estou determinado a tornar os direitos humanos uma realidade e não me arrependo de nada. Se aqueles que dizem estar propagando a justiça são firmes em seu julgamento contra mim, eu também sou firme na minha fé e nas minhas crenças. Não vacilarei diante de punições tirânicas que limitam minha liberdade às quatro paredes de uma cela. Suportarei este encarceramento, mas jamais o aceitarei como legítimo, humano ou moral, e sempre me manifestarei contra esta injustiça. Não perdi a esperança, nem a motivação. Não podemos desistir. Ainda tenho esperança e acredito profundamente que os esforços incansáveis ​​dos nossos ativistas da sociedade civil acabarão por dar frutos... Pensamento da ativista iraniana Narges Mohammadi, Prêmio Nobel da Paz de 2023 e vice-presidente do Centro de Defensores dos Direitos Humanos (DHRC). Em 2016 ela foi condenada a 16 anos de prisão em Teerã, por sua campanha pela abolição da pena de morte, contra a opressão das mulheres no Irã e pela sua luta na promoção dos direitos humanos e a liberdade para todos. Foi libertada e novamente presa em meados de dezembro de 2025, durante uma cerimônia fúnebre em Mashhad, quando iniciou uma greve de fome em protesto contra a detenção, denunciando ter permanecido em isolamento absoluto e sem qualquer contato externo. Agora, em 2026, um tribunal do Irã condenou a mais sete anos e meio de prisão, ampliando a série de sentenças impostas à ativista desde 2021. A nova condenação ocorre em um contexto de repressão intensificada após protestos registrados no país entre dezembro e janeiro, desencadeados inicialmente pela desvalorização da moeda iraniana e que evoluíram para manifestações contra o regime. Veja mais aqui.

 

A ARTE DE AGUINALDO SILVA

[...] Meus pais eram pobres. Meu pai trabalhava num posto de gasolina da cidade, onde vendia peças para carros. Era um homem de pouca cultura e educação, mas tinha uma preocupação muito grande com a minha educação [...] Quando nos mudamos para o Recife, no bairro Aflitos, ao lado de minha casa morava um senhor. A filha dele, uma moça chamada Gleice – eles tinham uma biblioteca enorme que era possível ver do meu quintal –, um dia me notou e perguntou se eu gostava de ler. Quando respondi que sim, ela disse que me emprestaria os livros do pai dela. Foi aí que li tudo que se possa imaginar, inclusive coisas que não eram para a minha idade. Daí comecei a escrever [...] Fui preso no dia 5 de novembro de 1969 e solto no dia 10 de fevereiro de 1970. Daí, voltei para O Globo e fui aceito como se nada tivesse acontecido. Fizeram até uma feijoada numa sexta-feira esperando que eu contasse alguma coisa, mas não contei merda nenhuma. Fiquei traumatizado durante muito tempo [...] Mas não tenho a ilusão de que influencio de alguma maneira o universo, de que estou ajudando a mudar o mundo. Não, não é nada disso. Faço o meu trabalho, sou um profissional e dou tudo de mim. Sempre! [...].

Trechos da entrevista Do brincar de escrever na infância ao sucesso na TV: 80 anos de Aguinaldo Silva (Itaú Cultural, 2023), concedida pelo dramaturgo, escritor, roteirista, jornalista, cineasta e telenovelista Aguinaldo Silva (Aguinaldo Ferreira da Silva), autor de obras como Redenção para Job (1960), Cristo partido ao meio (1965), Canção de sangue (1968), Geografia do ventre (1972), Primeira carta aos andróginos (1975), O crime antes da festa: a história de Ângela Diniz e seus amigos (1977), República dos assassinos (1979), A história de Lili Carabina (1983), Inimigo público (1984), 98 tiros de audiência (2006), Turno da noite: memórias de um ex repórter de polícia (2016) e Vendem-se corações despedaçados (2021), entre outros. Veja mais aqui & aqui.

 

Osman Lins aqui.

Beth da Matta aqui.

Tunga aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Marilourdes Ferraz aqui, aqui & aqui.

Paulo Cavalcanti aqui.

Maíra Erlich aqui.

Maestro Duda aqui.

Juliana Cunha Barreto aqui.

Valdemar de Oliveira aqui.

Rebeca Gondim aqui.


 


domingo, fevereiro 08, 2026

FRANCES HARDINGE, KATHERINE FREESE, ANNEMARIE JACIR, SAMICO & SETIGONISTAS

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns reEncanto - Live at Union Chapel (2024), Manga (2019), Lovely Difficult (2013), Studio 105 (2010), Stória, stória... (2009) e Navega (2006), da cantora e compositora cubana Mayra Andrade.

 

A folia de 1 dia por 5 até o ano inteiro!... – Ao soarem as 18 badaladas daquela sexta de pré alvoraçada, o céu escureceu de repente, as luzes acenderam os bombos e ao primeiro toque das baquetas, todas as almas foram sacudidas e os defuntos despertaram abrindo suas covas para atormentarem todos os vivos, atendendo ao chamado da deusa Melinoe com sua legião de fantasmas para atormentar todos os viventes da hora. Logo se viram envolvidos pelo ritmo do frevo e se deixaram levar pelo balanço das pedras do calçamento, bambeando todo o asfalto para a correria arrepiada, que logo tomou vulto aos pulos e saltos naquela noite. A cidade então entrou em polvorosa trazendo o céu de Madalena, como se pretendesse barrar tudo e suplantando juntas todas as festividades do Rio, de Salvador e Recife. Tudo seguia embalado pelas batucadas das bochechas sopradoras dos Assassinos do Frevo, logo aparecendo atrás da orquestra insidiosa a primeira agremiação carnavalesca, Buzuntões de Catuama, com o bordão: Vou com tudo! O seu desfile trouxe uma cópia monumental do Galo da Madrugada, que encantou de tão real e arrastou todo mundo com o Frevo de Rua: Se deu nó cego, bora desatar! Foi tão desproporcional que logo caíram no passo do bloco da Escola d’Os Descontentes do Fecamepa com o enredo: Antes que os USA fodam tudo! Engrossando o caldo com a ala: Todo mundo nu por Abya Yala!, seguida do Reino da Caquistocracia! Em seguida atravessou o coreto a trupe Néstogas que chegava com o tema: Entre os devires e distopias, uma alegoria dos Lábios da Sibila e a salvação da Pítia, com a ala das baianas destacando as 4 bailarinas de Opuntia & Peyotl, que os deixou ainda mais doidões, levados pelos da Musa do Grand Guignol: a mulher muitas vezes morta, pra grande estardalhaço e comoção popular! Aí veio a ala da Mulher do pôr do Sol com as Claras e Marias do Tejucupapo, puxada pelo Jesuisis do Jegue de Paul, as evoluções de Aijuna e o Amor Imortal, o Rei Momo arrodeado de arlequins com o pinto de fora, o Pierrot Vampiro atrás da Colombina sedutora para mordê-la nua cheia de confetes e serpentinas. Logo vieram cordões de caboclinhos, maracatus, folia de Olinda & o escambau! No cortejo apareceu um trio elétrico fenomenal com a cantora Kantocu dos Tasvirs puxando gente até de um olho só, para logo embocar na avenida um outro com os solos rasgados da Bia Villa-Chan, endoidando a rapaziada e mexendo com o esqueleto de tudo que houvesse. Ninguém dormia, ninguém se escorava, porque a Corja das Bombas levantou a poeira com o carnaval 2 caras, muito óleo de peroba no Bumba da Patetada, o Papa-Figo & a viúva Alma Penada, a La Ursa quer dinheiro quem não dá é pirangueiro, logo atrás a troça do Fabo, com os kamikazes Cabeças de Fósforos e um Coisonário todo presidiário e fazendo arminha: tatatatá! E gritavam: Segura a gaia, camboio de corno! E seguiam súcias, récuas, catervas, maltas e bandos. Ao dobrarem a esquina logo se anunciou a cambada do Bicho do Vau que veio fantasiada de despenteados tortos Jânios, com faixa presidencial falseada amarrando seus amarrotados conjuntos pijânios, colarinho aberto sem gravata, um sanduiche de mortadela no bolso, caspas de talco nos ombros e o refrão do Varre, varre, vassourinha, Che Guevara! & a ala: Em 2026 vamos varrer os golpistas inimigos do Brasil do Congresso Nacional! Nem deu tempo fungar ou cochilar direito, logo o bloco da Muriçoca desfilava com todo mundo nu, usando apenas um tapa-sexo e bunda inflável: Vou picar todo mundo! O negócio foi tão barulhento e tantas Alvoradas se passaram que ninguém sabia mais se já era Sábado de Zé-Pereira, Domingo-de-Aleluia, Segunda da Ressaca ou Terça-Feira Gorda. Só se via a multidão solta que nem se dava conta das bizarrices mais insólitas, como a incursão duma desorientada tripulação de um porta-avião do Turcomenistão, enganchados ao passeio de dois turistas do Kiribati, que se extraviaram da rota e deambulavam à toa, no encalço de um paciente terminal que escapuliu proibido de morrer de Longyearbyen e empurrava numa mão o suporte do soro e, na outra, o cilindro de oxigênio móvel, até quem já morreu há séculos ali ressuscitou misturando-se ao mar de foliões exaltados, acompanhados de um astronauta desgarrado à cata do foguete de resgate, um escafandrista que não sabia onde ficava o rio mais próximo, um paraquedista à procura da Base Aérea, um desenvultado dipsomaníaco agarrado aos goles da Teibei, e, no rabinho quilométrico da turba um trio de marcianos saídos dum ménage, um casal de rinocerontes empurrando às pontadas toda bagaça, sob as ordens atiçadoras do urso Wojtek com sua farda do exército polonês: Bora! Bora! Quando enfim, a troça da Tanajura Raimunda levou todo mundo pro Baile de Carnaval já tarde da noite. Foi aí que o Padre Bidão deu as caras anunciando a Santa Folia e foi saudado como sempre: Salve o homem da bimba santa! Viva!!! Atrás dele um Séquito de Vestais convocando os não foliões prum retiro, enquanto se saiam soltas na frevada. No meio delas Biritoaldo fantasiado de shiTrump, segurando uma bandeira com a inscrição USA-ME que sou teu!, a ponto de nem ouvir os apupos e questionamentos: Será o Coisonário agalegado? Os biriteiros seguiam-no: Justiça é uma só! Pra quê Tribunal Militar, só pra perpetuar as benesses das herdeiras dos generais! Também Mamão injuriado por perder a hora apaixonado pela morta, arretou-se e bancou a fantasia do Marja duodecimano xiita Ali Khamenei, ostentando o balsão tricolor islâmico: Sou pelo Irã! Que é que é isso, véi! Tô mordido do porco, sai pra lá! Nem ele sabia o que era. E veio a turma do Agente Secreto com a camisa da Pitombeiras, ostentando o lábaro: Ainda estou aqui! E os do Viva Galateia, a Vênus do Quintal!, o da Rainha de Caudales com o Anel de Giges, outros fantasiados de médico: Saúde é negócio, salvo vidas, me dá uns dólares aí! Um ou outro: Sai da frente que sou juiz! Para encurtar a hestória: o furdunço só parou de madrugada quase amanhecendo, quando o Bacalhau do Batata retomou as atividades da quarta-feira de cinzas e se estendeu alucinadamente até o amanhecer da quinta de branco, ao que todo mundo resolveu: Pernas pro ar que ninguém é de ferro. E assim o frevo comeu no centro de Alagoinhanduba e pipocou pelo ano inteiro! E bastou a certa altura do campeonato ouvirem as 18 badaladas daquele outro dia qualquer e que nem se sabia mais qual era, todos caíram no sono, de só despertarem no reino do Sol amanhecido dum dia perdido e com uma única certeza: Se houver fim será sempre recomeço!...

 

Katharine Ross: A idade é tão imaterial. Não é tudo só o piscar de olhos?... O inferno com o processo de envelhecimento. Isso acontece com todos - você apenas mantém sua mente ativa, você se mantém fisicamente ativo... O tempo é uma criação humana - nenhuma mulher jamais teria inventado o tempo... Veja mais aqui & aqui.

Åsne Seierstad: Não crescemos isolados. Crescemos em sociedade... sei que as guerras raramente resolvem os problemas... Não dizer nada significa dar o seu consentimento... Veja mais aqui & aqui.

Judy Blume: Nossas impressões digitais não desaparecem das vidas que tocamos... Meu único conselho é: fique atento, ouça com atenção e peça ajuda se precisar.... Acredite em si mesmo e você poderá alcançar a grandeza em sua vida... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

SORVETE DE PISTACHE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Disseram-me que os \ árabes deram nomes às estrelas \ Algol, Sirius, Aldebaran… \ Os olhos em forma de azeitona da minha mãe \ os pés calçados em sandálias \ me conduziram a séculos \ de vastos impérios \ tesouros esquecidos \ Agora, só restam ruínas. \ Este foi o verão em que me banhei em azeite \ e me sentei nas calçadas de Jerusalém \ comendo sorvete de pistache \ com o velho \ cujo rosto antigo \ tentava me explicar \ que lutávamos com o coração \ e não com a cabeça \ — portanto, nunca venceríamos. \ Estou morta para a minha tribo \ nunca aprenderei \ todos os seus segredos salgados \ Então, esta noite, \ quero dormir com Vega, Deneb, Altair… \ porque eles desaparecerão \ com o sol da manhã,  e só restarão ruínas.

Poema da cineasta, fotógrafa e poeta palestina Annemarie Jacir.

 

UMA PELE CHEIA DE SOMBRAS - [...] Se alguém deixa de lado o orgulho e implora de todo o coração, e se o faz em vão, então nunca mais será a mesma pessoa. Algo dentro dela morre, e algo mais nasce. [...] Os humanos são animais estranhos e adaptáveis, e eventualmente se acostumam a tudo, até mesmo ao impossível ou insuportável. ... O terror é cansativo e difícil de sustentar indefinidamente, então, mais cedo ou mais tarde, precisa ser substituído por algo mais prático. [...] Mas, por outro lado, os mortos costumam ser mais fáceis de elogiar do que os vivos. [...]. Trechos extraídos da obra A Skinful of Shadows (Macmillan Children's Books, 2017), da escritora britânica Frances Hardinge, autora de obras tais como: Fly by Night (2005), The Lie Tree (2015), Well Witched (2007), A Face Like Glass (2012) e The Lost Conspiracy (2009).

 

MATÉRIA ESCURA - […] a matéria escura compõe a maior parte da massa do universo. Nossos corpos, o ar que respiramos, a cadeira em que estou sentado, as estrelas, os planetas, tudo… é feito de átomos, que são feitos de quarks. Mas tudo isso representa apenas 5% do conteúdo do universo. Os outros 95% são o lado escuro. São 25% de matéria escura e 70% de energia escura. Acreditamos que a matéria escura seja composta de partículas fundamentais cuja identidade ainda não descobrimos. E essas partículas fundamentais estão por toda parte, bilhões delas atravessando nossos corpos a cada segundo. É importante entender do que são feitos os 95% restantes do universo. [...] em princípio, poderíamos usar estrelas escuras para identificar a natureza da matéria escura, que tem sido um mistério por 90 anos. [...]. Trechos da entrevista QnAs with Katherine Freese (Proceedings of the National Academy of Sciences - PNAS, 2024), concedida pela física estadunidense Katherine Freese, que em seu artigo On Dark Matter Developments (Sean Carroll, 2014), acrescenta que: [...] A maior parte da massa das galáxias, incluindo a nossa Via Láctea, não é composta de material atômico comum, mas sim de matéria escura ainda não identificada. O objetivo dos caçadores de matéria escura é resolver esse enigma. [...]. Veja mais aqui.

 

A ARTE DE GILVAN SAMICO

[...] É um pouco o que acontece com alguns artistas que, abordando mais de uma técnica, são mais reconhecidos em uma, em detrimento das outras. Eu gostaria de ter o prestígio que tenho, não só como gravador, mas também como pintor. Se não tenho como mostrar minha pintura, boto cor na minha gravura. [...] Não foi um trajeto racional. Até hoje, tenho um processo de criação que escapa ao raciocínio [...] Não tinha intenção de fazer arte religiosa, mas os temas litúrgicos me atraíam. Santo é de todo mundo, e eu gravei as interpretações caboclas de todos eles [...] Pois é, eu inventei uma lenda que eu estava andando na rua, distraído, e bati a cabeça no poste, daí desandei a falar [...].

Trechos da entrevista O Ser e o Tempo de Gilvan Samico (Big Mouth Strikes Again!, 2009), do editor, professor e escritor Artur Dantas, concedida pelo gravurista, desenhista, pintor, professor e xilogravurista Gilvan Samico (Gilvan José Meira Lins Samico  - 1928-2013), destacando-se os livros Samico (Bem-Te-Vi, 2012), Samico: 40 anos de gravura (CCBB, 1997) e Samico - Do desenho à gravura (Pinacoteca, 2004). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

&

AS SETIGONISTAS AO QUADRADO: UMA DANÇA POÉTICA

Registramos o lançamento do livro As Setigonistas ao quadrado uma dança poética (2026), das poetas jaque monteiro e noi soul. Trata-se de um livro de setígonos, um novo gênero poético brasileiro criado em Pernambuco, por Admmauro Gommes, Cícero Felipe e José Durán y Durán. Veja detalhes do livro aqui & mais a respeito aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

Hermilo Borba Filho aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Bete Gouveia aqui.

Kleber Mendonça Filho aqui, aqui, aqui & aqui.

Ezter Liu aqui & aqui.

Zé Dantas aqui, aqui & aqui.

Rachel Daisy Ellis aqui.

Evaldo Cabral de Mélo aqui & aqui.

Camila Sales Luna aqui.

Newton Moreno aqui & aqui.

Inalda Xavier aquí.

&

O frevo em pesquisa: folia & carnaval aqui.



MARIANA ENRÍQUEZ, NILGÜN MARMARA, MARIANA MAZZUCATO & NEGRITUDE SEM IDENTIDADE

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos concertos Suíte Brasileira (2023) e Cantata Ayabás (2025), da maestra, pesquisadora, compositora ...