domingo, julho 26, 2026

MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

 

Imagem: Acervo ArtLAM.


 

Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet. Nem a astronauta patrulheira Barbarella do Vadim de Forest. Nem a poeta Akhmadulina, muito menos outra qualquer matusquela, era só e simplesmente ela, aquela menina Rainha do Milho de todas as festas juninas da escola; aquela que era miss do ginásio e colegial, a mais celebrada Miss Alagoinhanduba, irradiando o frescor juvenil de sua fulgurante lindeza. Ah, chega a cidade se iluminava toda com seus passeios, flores e presentes, deslumbrantemente pudibunda, escorreita, a escolhida para noivados, a preferida esponsal das núpcias engalanadas. Não havia marmanjo que não se inquietasse ambicionando o mínimo que fosse de sua graciosa atenção. Ela sempre gentil sorridente, amável com tudo e todos. Foi no fuzuê desse seu reinado que reapareceu assim do nada o Barãozinho, aquele mesmo – lembra? – que ainda ontem era um pirralho mimado, que cresceu de quase envergar-se e deu na vista: pior que o pai! Morreu uma vez, foi; todo endeusado numa barroada medonha, valha-me! Não, rapaz, foram duas: teve a do paraquedas, doido! Eita! Foi mesmo! Melhor: três, a do submarino que explodiu com ele dentro, se esqueceu? Vixe! Ainda está vivo? Ressuscitou! Glória a Deus! Ora, foram tantas e muitas, renascia não se sabe como. Milagre! Era adorado pelas fanáticas donzelas soçaites, pelos caboetas de todas as hierarquias, por toda população do lugar. E dessa vez quando ele deu as caras, logo soube dela e enrabichou-se todo, com mundos e fundos, tudo pra ela. Bailes, efemérides institucionais, o par perfeito, ele desfilava ao lado dela, lindo casal para os mais simpatizantes. Aí, certa noite, depois de tantas festanças e torcida pelo casório deles, ele foi, criou coragem e falou namoro: ela bambeou, desculpou-se, floreou os argumentos e desconversou: só queria sua vida e compromisso com ninguém. Ah, isso não! Sim. Faça isso não! Isso sim. Tá certo, fazer o quê? Ele não arredou pé. Continuou acompanhando-a aos lugares nas comemorações e convidando-a pra casa grande do Barão todo final de semana. Ela assentia, não se furtava entretenimentos. Aí ele soube dela se engraçando pras bandas da rapsódia do Zé Bunito, que andava taciturno roendo unha aos telengotengos na sofrência pela perdição da Lampioa. Ela, todo dia, dispensava momentos de longo papo com ele, conversa solta, cumplicidade de afetos. Oxe, deram com a língua nos dentes e o enciumado cismou do abilolado de quase desarranjá-lo, capá-lo e deixá-lo inválido pro resto da vida, escapou fedendo – condoído que tivesse fosse se lascar com sua paixonite horrorosa pros quintos dos infernos, ora! Nossa! Foi por pouco. Não fosse a intervenção dela, já estava mortinho da silva. Mas, passou o tempo, quase esquecido dessa, de repente, ficou feia a situação de mesmo: um boato corredor de que ela andava aos idílios com um outro sujeitinho qualquer, que foi colega dela de escola. Ih, essa não! Ah, o coração do enervado possessivo estremeceu, ferveu o sangue: Vou botar isso em pratos limpos; se não é minha, não será de ninguém. Foi lá meio jeitoso dá uma prensa nela: Quem é? Nada, não. Desconfiou sem dar na vista e botou a cabroeira no encalço. Confirmaram: ela aos amassos com o talzinho. Ah é? Ela me paga tudo que me deve e já! Armaram uma cilada, tramaram tudo direitinho no absoluto sigilo. Seguiram seus passos, ligados, noitedias. Depois de um tanto de flagra, deu-se o sequestro: encurralados - ela foi caçada, perseguida, capturada. Três veículos cercaram, fecharam a estrada e dois encapuzados, fortemente armados chegaram, abriram a porta do veículo violentamente e deram uma coronhada no motorista, jogando-o pro banco de trás, desacordado. Nem deu tempo, ela indefesa foi puxada do assento e jogada no porta-malas doutro veículo. E partiram em disparada. Num matagal sinistro, jogaram os dois próximos a um pântano deletério. Eram muitos, todos de arma em riste. Amarraram-na e ficaram atiçando o parceiro. Quando ela viu a chegada doutro veículo, era seu fiel apaixonado e sentiu um alívio: era a salvação. Ele conversou reservadamente com um deles e logo a viu. Ela teve um pressentimento e logo se retraiu ao vê-lo irreconhecivelmente transtornado em sua direção. An-hã! Os dois pombinhos... Ele então deu ordens e uma movimentação estranha começou. Ouviu ironicamente: Ó Belladonna – nem passava pela cabeça dela a tragédia de Jennie do Michelet e Yamamoto. Segurada forçosamente por dois brutamontes assistiu a sessão de torturas: esfolaram até emasculação, seviciaram e, ao vê-lo desmaiar, a sentença: mata! Muitos disparos e sacudiram o corpo dele de volta ao assento do motorista, dentro do automóvel. O desalmado então gritou: Cambada, todo mundo de costas, plantão de vigilância, ninguém se vira! Os capangas se afastaram um pouco, formaram um círculo enorme e se postaram vigilantes protetores, de costas, prontos para ceifar qualquer metido invasor. Um mau presságio escureceu o coração ingênuo dela e o antigo sonho romântico se dissipou quando ele chegou perto, desamarrou-a e obrigou-a a ajoelhar-se diante dele – ali não previa: era a sua vez de tortura. Ela chorou e tentou clemência, o dominador irredutível, parecia fora de si, dionisíaco. Ousou conciliação: Você sempre tão bonito, amável, bondoso, não combina com esse jeito impiedoso. Foi esbofeteada pela astúcia, inclemente: Ajoelhe-se! E mesmo que suplicasse pela fé cristã dele, pelo amor da família e por tudo que fosse de mais sagrado no seu coração, mais inexorável sádico a castigava com requintes de crueldade, degradando-a, ultrajando-a: Sabe o que é amor de verdade, sua quenga chupona, sabe? E mais se irava espancando-a. Ela relutou, resistiu o tanto que pode, mas foi truculentamente vencida. Ele arrancou suas vestes e exigiu dela: Continue a felação, vá! Pressionada rispidamente por duas coronhadas à cabeça e ela cedeu, submissa, quase desnuda, supliciada, às puxadas de cabelos, estapeada, o abuso do ato, os murros nas costas, os socavões, quase sufocada com a invasão garganta adentro, a ânsia de vômito, a violação: Vai, engole, chupa! Ele impaciente e bruscamente arrastou-a para jogá-la sobre o capô do carro, completamente nua na frieza e em decúbito ventral, mais martirizada. Sentiu a brutalidade de ser flagelada em carne viva, violentada. Era o pacto de morte: Não é minha, nem será de mais ninguém. Ouviu a maldizente voz embrulhada de furor e um estampido na nuca, tudo escureceu de vez. Jaziam dois corpos no amanhecer friento, um sonho de casal esquecido no tempo. Até mais ver.

 

Pierre Bourdieu: A menos que seja salvo por um talento excepcional, ele inevitavelmente paga o preço da clareza... A mente é uma metáfora do mundo dos objetos... Veja mais aqui.

Wislawa Szymborska: Este mundo aterrador não é desprovido de encantos, de manhãs que fazem o despertar valer a pena... Eu sou quem eu sou. Uma coincidência tão impensável quanto qualquer outra... E tudo o que eu fizer se tornará para sempre o que eu fiz... Veja mais aqui.

Rebecca Solnit: A esperança não é um bilhete de loteria que você pode segurar no sofá, sentindo-se com sorte. É um machado com o qual você arromba portas em uma emergência. A esperança deve te empurrar para fora, porque será preciso tudo o que você tem para direcionar o futuro para longe de guerras intermináveis, da aniquilação dos tesouros da Terra e da opressão dos pobres e marginalizados. Ter esperança é se entregar ao futuro – e esse compromisso com o futuro é o que torna o presente habitável… Veja mais aqui.

 

POBRE POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu escrevi um poema horrível! \ É claro que ele queria dizer alguma coisa... \ Mas o quê? \ Estaria engasgado? \ Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura mansa como a que se vê nos olhos de uma criança doente, uma precoce, incompreensível gravidade \ de quem, sem ler os jornais, \ soubesse dos sequestros \ dos que morrem sem culpa \ dos que se desviam porque todos os caminhos estão tomados... \ Poema, menininho condenado, \ bem se via que ele não era deste mundo nem para este mundo... \ Tomado, então, de um ódio insensato, \ esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável \ verdade, dilacerei-o em mil pedaços. \ E respirei... \ Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?

Poema do poeta, jornalista e tradutor Mário Quintana (Mario de Miranda Quintana – 1906-1994), conhecido como "o poeta das coisas simples", sua obra poética é marcada pela linguagem simples e pela abordagem de temas cotidianos e contemplativos. Ele tentou por três vezes uma vaga à Academia Brasileira de Letras, mas em nenhuma delas foi eleito; as razões eleitorais da instituição não lhe permitiram alcançar os vinte votos necessários para ter direito a uma cadeira. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A IMORTAL – […] Suponha, por um momento, que as afirmações sobre a inefabilidade da dor sejam historicamente específicas e ideológicas — que a dor seja amplamente declarada inarticulável justamente porque não se espera que compartilhemos uma linguagem para expressar como realmente nos sentimos. [...] Os exaustos são os santos da vida desperdiçada, se é que um santo é alguém que sofre melhor do que os outros. O que os exaustos sofrem melhor é o modo como corpos e tempo entram tantas vezes em conflito na nossa era de cronicidade avassaladora e confusa — quando cada hora é amplificada para além dos ritmos circadianos, quadruplicada na agenda de intervalos de quinze minutos, submetida ao método Pomodoro, hackeada, marcada pela ansiedade do *FOMO* e tornada produtiva. Os exaustos são a prova viva de cada minuto erroneamente visto como um império para as finanças, de cada corpo humano erroneamente visto como um instrumento que deveria tocar mil melodias dóceis ao mesmo tempo. [...] A doença nunca é neutra. O tratamento nunca é ideológico. A mortalidade nunca está isenta de sua política. [...] Meu trabalho é habitar os silêncios com os quais convivi e preenchê-los com a minha própria presença, até que adquiram os sons do dia mais luminoso e do trovão mais estrondoso. [...]. Trechos extraídos da obra The Undying: Pain, vulnerability, mortality, medicine, art, time, dreams, data, exhaustion, cancer, and care (Farrar, Straus and Giroux, 2019), da escritora estadunidense Anne Boyer, autora de obras como The Romance of Happy Workers (2008), The 2000s (2009), My Common Heart (2011), Garments Against Women (2015) e The Handbook of Disappointed Fate (2018).

 

GORDOFOBIA – [...] O corpo não é um objeto de correção, colonização ou consumo. [...] No fim das contas, a neutralidade em relação ao corpo parece, na melhor das hipóteses, um recuo precário diante do julgamento, e não um porto seguro e estável. É como oferecer um zero em vez de um número positivo ou negativo, quando o que se faz necessário é dispensar completamente os números. [...] Quando a positividade corporal é imposta ou parece exercer controle, ela pode minar o senso de agência e autonomia e, consequentemente, gerar o efeito oposto... Enfatizar a positividade enquanto se ignoram sentimentos e experiências negativos cobra um preço da autenticidade e da integração do eu — isto é, da necessidade de sentir-se fiel a si mesmo (e em consonância consigo mesmo). [...] Filósofos citam frequentemente o princípio de que "o dever implica o poder": a ideia de que temos a obrigação moral de fazer algo apenas se formos capazes de fazê-lo ou, de forma equivalente, de que não somos obrigados a fazer algo que não podemos realizar. Segundo uma adaptação plausível desse princípio, a quase impossibilidade de alguém realizar uma ação também torna inútil e injusta a exigência de que ela a execute. Assim, o fato de que a maioria das pessoas gordas não consegue, de forma realista, emagrecer a longo prazo por meio de dieta e exercícios traz implicações morais de grande alcance: não podemos, portanto, ser culpados por não realizar o que é praticamente impossível. [...] Quando se trata da nossa saúde, portanto, há evidências consideráveis de que é o condicionamento físico e não o excesso de gordura que mais importa, e de que esse condicionamento atenua muitos, se não todos, os riscos à saúde associados a viver em um corpo maior. E, no entanto, muitos continuam a confundir o excesso de gordura com o maior problema. [...]. Trechos extraídos da obra Unshrinking: How to Face Fatphobia (Penguin, 2024), da filósofa australiana Kate Manne (Kate Alice Manne), autora de obras como Entitled: How Male Privilege Hurts Women (Penguim, 2020) e Down Girl: The Logic of Misogyny (Oxford Press, 2017).

 

DEBATE: POLÍTICA & VIOLÊNCIA

[…] Cada brasileiro vive muito o seu Estado como uma espécie de mini-pátria, pouco antenado – com exceção do momento da eleição presidencial – com o destino do País como um todo. Isso é fundamental no sistema de dominação vigente no nosso Brasil. [...] Porque a partir do momento em que você está dizendo que o racismo se expressa fundamentalmente na esfera da cultura, da subjetividade e da institucionalidade, é natural que o programa de superação disso esteja focado na cultura, na subjetividade e na representatividade das instituições públicas e privadas. Então o problema da questão racial no Brasil seria um problema de integração da parcela negra, “as oportunidades”. Ou seja: é dizer que uma grande parcela da classe trabalhadora brasileira vai ter seus problemas resolvidos com uma modernização capitalista das oportunidades, em que cada um vai disputar seu espaço de uma maneira igualitária dentro de um mercado capitalista sem barreiras raciais. Isso precisa ser combatido e superado para ontem, se a gente quiser ver realmente uma revolução no Brasil. [...].

Trechos recolhidos da entrevista É um absurdo falar de política sem falar de violência (Opera Mundi, 2024), concedida pelo historiador, professor, comunicador, escritor, militante e político, Jones Manoel, autor dos livros A negação do Brasil negro: imperialismo, dependência e questão racial na obra de Guerreiro Ramos (Autonomia Literária, 2024) e A batalha pela memória – reflexões sobre o socialismo e a revolução no século 20 (Baioneta e Ruptura, 2024). Veja mais aqui.



CURUMIM NO MEIO DA TARDE - Imagem: arte de Lú Karyry. – Este é um texto extraído da publicação 11.645 indígenas e diversidade pela paz (Thydewa – Escola Livre Abya Yala, 2024), que reúne o trabalho e o ativismo dos movimentos de retomada indígena no Brasil e na América Latina, voltados para a Educação Infantil e Ensino Fundamental das escolas das redes pública e privada. Confira aqui.


 

ARTEXPRESSÃO - O projeto ArtExpressão: trabalhando arte para a criatividade nos alunos dos anos finais do Ensino Fundamental, foi desenvolvido como atividade de Arte na Escola, realizado desde 2023, no Observatório de Linguagens, da Semed-Palmares (PE). O projeto tem contemplado inicialmente os professores de Língua Portuguesa e de Artes, com formações e oficinas que versam sobre a arte e os gêneros artísticos. Veja detalhes aqui & aqui.

 


VALUNA – Esta iniciativa compreende um conjunto de projetos que envolvem desde a publicação de uma ficção de viagem, tanto para o público infanto-juvenil, como para o público adulto, pautadas nos objetivos proposto pelo projeto Bacia Artístico-Criativa do Rio Una (Bacuna) e do roteiro de curta-metragem Valuna. As informações a respeito estão aqui, aqui & aqui.

 


PROEZAS DO BIRITOALDO – Trata-se de uma narrativa humorística acerca das presepadas e doidices do personagem Biritoaldo, desde o seu estranhíssimo nascimento, sua adolescência perturbada e o seu desarrumado casamento com uma dondoca ricaça extravagante. Confira essa aventura aqui.

 


E veja mais Pernambuco aqui.

 


sábado, julho 18, 2026

CECÍLIA MEIRELES, BERNARDO ATXAGA, SUZANA HERCULANO-HOUZEL & SANTANNA O CANTADOR

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.


 

As guinadas de chué ao nababo de findar amundiçado pastafari... - Desde nascença Jeremulino apostava tudo pra dar certo. Fazia força, fincava pé e quanto mais pelejava, menos saía do lugar. Era voluntarioso, mas pé-frio, coitado. Décadas de miséria nos costados. Tudo isso durou até o dia em que conheceu Mary, que se dizia Butterworth e tratada por Mãe do Ouro: Ih, estrangeira, é? Sei lá. Tá lavando a jega, hem? E tanto afeiçoou-se, de segurar no cós da saia dela de não mais largar, pegado. Tão atarantado, enrolou-se de paixão. Estava um tanto deslumbrado: bem vestido, altas rodas, lugares granfinos, gente nos trinques - ela tinha muita grana e amigos, parecia -, a partir de agora, também eram seus nas portas escancaradas, recepções acaloradas, abraços efusivos, nunca tinha visto nada daquilo na vida: Ora, tô enturmado, meu! Agora vai! Logo no primeiro jantar associaram-se a uma dupla de magnatas, tratados por Charles e Bernie - pelo jeito estrangeiros e inseparáveis: agora era internacional, visse! E não muito tempo depois, o casal foi acompanhado por Frank, um fino médico que também era piloto de aviação. Que chique! Compadre, meu! E almoçavam num requintado restaurante com os achegados do dia, ou jantares, chás, encontros. Doutra vez era Alfred, um que descobriu um medicamento que era uma verdadeira panaceia pra cura da AIDS, câncer, lúpus e qualquer tipo de doença. Brindaram o futuro Prêmio Nobel de Química dele. Oh! Tamos juntos! E recepcionaram um ricaço hindu, o Mithilesh, recém-chegado duma negociação no Taj Mahal. Olha o requinte! Sua vida dera um giro estratosférico de 360 graus, desde que ela apareceu, pra ele se empanzinar no sofisticado, a se empolgar com os drinques, da cabeça nas nuvens e a vida no mundo da Lua, todo apurado. Foi. Apegou-se à tal largadona, os modos enxutos dela, toda recente e esvoaçante, inaugurava felicidade jamais vista: ela fascinante nos seus olhos, cativante no coração dele. Ao lado dela se sentia maior do que nunca foi. Autoconfiança ganha, dedicando a ela mais do que nem tinha. E assim foram dias movimentados, semanas agitadas, efemérides por meses ininterruptos, quase dois anos inesquecíveis, quando, de supetão e sem causa aparente, viu-se na clausura da solidão: liso, fodido e mal pago. Que foi que houve? Perdeu a boquinha: foi despejado do paraíso. Não tinha mais guarda-roupa para as ocasiões, nem comes e bebes, ninguém mais pra chamá-lo de doutor – que nem era, mal conseguira findar o ginasial, a pulso, avalie. Estava empalado pela escassez: Vida madrasta, essa, se eu fosse de passar a perna, ainda ia, embrulhava; mas perdi o crédito, soltaram os demônios pra festa do inferno. E com uma mão na frente e outra atrás, desvalido. Reparou melhor: Por que foi mesmo? Assuntou, a extravagância da punição bissexual. Como pode? Fosse gente ou bicho, assim era. Mas isso nem ligava, duas de quinhentos que fosse, nem aí; ser corno era pouco, vá lá; o pior mesmo era sentir-se rejeitado: a tragédia foi ter nascido -, só agora se dava conta disso. Passava mal, zonzo, claudicante, à beira da loucura, roendo unha de ressentimento pela dor de cotovelo: As gaias pesam fodendo tudo na cachola! Insistia em reatar a relação com ela, mas cadê-la, pronde foi, perdeu o contato. Foi-se. Bateu de porta em portão, todas sisudamente fechadas, havia ninguém pra recebê-lo: Destá, todos se passavam por amigos e agora? Quebrou a cara, lascou; alisou, fim de tudo e, sem ela, era ninguém, invisível desconhecido. Dobrava capenga a esquina da amargura e, inadvertidamente, trombou com um estranho, desculpou-se. Já seguia se escorando na parede, quando ouviu em alto e bom som: Rapaz, é você mesmo? Levantou a vista e era Marcelo, um amigo de infância que o reconhecera na hora. Como vai? Escapando. Que é que falta? Tudo. Vambora colocar o papo em dia, diga lá o que aflige! Jeremulino acompanhou o amigo, agora já bem de vida, elegante, nem parecia o maloqueiro com quem convivera na miséria décadas atrás. Agora não, arrotava contando que a mãe enviuvou e casou-se com um ricaço que o tratava por filho, herdeiro de uma companhia aérea e outros tantos bens e posses. Está precisando do quê? Rapaz. Diga! Tô f-o-fo-d-i-di-d-o-do! Ah, reencontrar e reatar com a namorada? Piongo. Como é o nome dela? Mary Butterworth! Ela? Sim. E você numa pindaíba dessa? Ela foi pior que a Rita: levou tudo, até a minha vida. Ora, tenho um amigo detetive aí que localizará ela na hora. Mesmo? Você está hospedado aonde? Na rua. Vamos pro meu hotel, vou ligar agorinha pro nosso investigador. E seguiram, atravessaram o saguão, entraram no elevador, subiram e foram bater numa suíte real, com múltiplos quartos, sala de jantar, cozinha compacta, segurança redobrada e serviços altamente personalizados. Este aqui é o meu quarto, escolha o seu, vá! Eita, agora sim, voltava a ventar favorável, sabia: a vida não ia deixá-lo na mão. Chega regozijou-se folgado, renovava as esperanças. Lá estava de novo revivendo nas alturas as coisas recém passadas. Foi se banhar e ouviu: O agente está chegando, vou ter que ir a uma reunião, fique à vontade, viu? Tá. Poucos minutos depois bateram insistente à porta. Já vai! Enrolou-se na toalha e abriu: Polícia! Ôpa! Você está preso! Eu? Algemaram-no do jeito que estava e arrastaram-no porta afora. Deram numa delegacia e, de lá, vamos por parte: chegou e foi logo empurrado pra uma sala com várias pessoas, sentaram-no à cadeira e um bafo na moleira: Vá, abra o bico? Sobre o quê? Fala! O quê? Foto! Quem é essa? Mary, minha ex-namorada. Quem? Mary Butterworth, não sei pronunciar direito! Desembucha! E contou que ela deu as costas pra ele, hoje de madrugada, num bar e sumiu. Fui na casa dela, bati, ninguém atendeu. Onde ela mora? No Sítio Groenlândia, Switzland. Hum, ricaça! Vão lá. E esses? Charles e Bernie, são estrangeiros. De quê? Não sei, são amigos dela, conheci o ano passado, só sei dos nomes. E esse? Frank. De quê? Também não sei, é amigo dela, disse ser médico e piloto, conheci pelos outros dois. E esse? Alfred. De quê? Não sei, ele está pra ganhar a qualquer momento o Prêmio Nobel pela descoberta de um medicamento aí. E esse? Ah, esse é Mithilesh, um bilionário hindu. De quê? Também não sei e é amigo dela. Todos são amigos e você no meio sem saber de nada? Sim. Fazia o que entre eles? Festas, passeios, viagens. Leve ele pra cela! Estava nu. Os outros presidiários comiseraram e já arrumaram umas vestes que foram entregues pelo carcereiro: Tomaí, porra! Era uma camisa já um tanto esfarrapada, um resto de bermuda e um par de meias furadas. Pronto, vestiu-se e quase sentiu um fiapinho de dignidade. No primeiro cochilo foi picado por uma aranha-armadeira, acometido por priapismo doloroso: Vou morrer! E ficou aos gritos. Que é que tá acontecendo? Foi levado às pressas pra enfermaria, logo levando fisgada de injeção por todo lado. Vou morrer que nem tábua de pirulito! Ê, furado! Lá pras tantas, ao sentir-se melhor, logo foi assolado por uma diarreia braba: Oxe, ele tá se acabando pelo fundo feito panela! Eita, caganeira macha! E fedorenta, meu! Catinga da peste! E tornou-se a diversão: o Zé Cagão. Nos dias seguintes foi levado pro delegado e um brabo agente mostrou uma foto e disse: Essa é sua ex-namorada? Sim, a Mary. Sabe quem é ela? Não, senhor. Passou a saber na hora: uma foragida balzaquiana, falsificadora de libra esterlina, que lavava o dinheiro num suposto bufê supostamente de sua propriedade. Esses são amigos dela? Sim. Eram Charles Ponzi e Bernie Madoff que criaram um sistema golpista, que ludibriaram muitos investidores com promessas de lucros astronômicos. Esse também amigo dela, né? É Frank. Era o mestre dos disfarces, Frank Abagnale, trambiqueiro que se passava por médico, piloto e até advogado. Esse? O Alfred. Era o curandeiro herbalista, Alfredo Bowman, picareta mais conhecido como Dr. Sebi, criador do O Cell Food e cultor de uma filosofia extravagante de vida. Esse? Mithilesh. Era o lendário caloteiro indiano, Mithilesh Kumar Srivastava, famoso por vender marcos históricos com documentos falsificados, inclusive o Taj Mahal. Minha nossa! E você não tem a ver com isso? Nem sabia quem eram! E esse? Ah, um amigo de infância. É? Sabe quem ele é? Não o via desde uns 15 ou 20 anos atrás. Era o trapaceiro Marcelo Nascimento da Rocha, piloto do crime, se passou pelo filho do dono da Gol, por VJ da MTV, por guitarrista do Engenheiros do Havaí, dono de edifícios e propriedades, está preso agora em Avaré, cumprindo pena de 16 anos. Minha nossa! E agora? Deus tenha pena de mim. O sonho de caça ao tesouro, era uma vez. Tudo vigarista e eu alesado, no meio da enrolação. Se liga no caô aí, véi! Tô frito! Anos se passaram e cumpriu pena. Ao sair da prisão não tinha pra onde ir, só tinha a roupa do couro e o terreno baldio por guarida. Fazer o quê? Juntar as bandas da bunda e sair uma rebatendo na outra. E calar a boca: quando penso, peido; quando falo, cago. E aos reclamos: Porra, fedeu, hem! Bagunçava a porratoda! Lá ia se arrastando. As horas demoravam, comovida mudez: Por onde recomeçar, não sabia. Solidão: Sou entre os que foram abandonados por Deus! Cuspiu sua palavra, seu dialeto próprio, sabia: sua hora ainda vai chegar, ah, se vai. Sua pele coriácia encorajava-o: Não foi a primeira vez, nem a última. E nem morri! Essa sua terrível sorte. A tristeza cansava no durado de semanas, sabia: a alegria tem seus perigos de vigia, convinha precaver. Amanhã ninguém sabe, tanto faz cair pra qualquer lado, a queda é uma só, até o dia em que o diabo levanta os braços, aí, já era, babau. Tá bom. É com o escorregão alheio que o povo se diverte. No mais, tudo era sempre depois de amanhã. Nas contas do dia, um perito em identificar pontos de fuga. Qual indulto naquela hora? Deu-se em estado de bicho, néscio instintivo, intensas sensações, a cólica dos intestinos, entortou-se às cuspidas, acossado por todas as culpas, pensou alto: precisava se perder para chegar aos lugares que não se acham! Ah, não há de ser nada, disse-lhe alguém. Hem? Perdido ou escorraçado? Uma e outra. Ah, tenho um santo remédio, venha! E foram até um recinto ali perto, deram-lhe banho, vestimentas e apreço. Ao redor, todos os presentes com uma caneca à mão, ofereciam: Cerveja? Já sai a comida sagrada pro nosso ritual. Animou-se com a travessa farta de espaguete. Uma ovação: Viva! Ramém! Encheu a pança e, depois das comemorações, deitaram-no numa espreguiçadeira num quarto do quintal, nem notando a presença de outros arranchados por ali. Ao amanhecer ouviu os 8 mandamentos do Evangelho do Monstro do Espaguete Voador. Meteu-se na risadagem, era sua redenção. Um escorredor de macarrão na cabeça e vestimenta de pirata: Ramén! Goles na rodada de cerveja. Ramém! Toda sexta é dia santo e feriado! Ramém! E assim simpatizou-se com os pastafari, mais um neófito, entre eles, na senda, sobrevivendo de bicos, cama e comida garantida. E toda sexta pirateando: Viva Ching Shih! Ramém! Viva o Barba Negra! Ramém! Viva Anne Bonny! Ramém! Viva Black Bart! Ramém! Viva Mary Read! Ramém! Viva o capitão bucaneiro Morgan! Ramém! E tome virada de copos, empanzinamentos com as massas e lambuzado pelos molhos e espumas. Foi assim que aprendeu o riscado, assoletrando: quem na vida muito quer, finda no baú de Davy Jones. Cuidado: se salve de andar na prancha. Aprenda: pegue o que puder, não devolva nada - os mortos não contam histórias. Até mais ver.

 

Elias Canetti: Todas as coisas que se esqueceram clamam por socorro nos sonhos... Não consigo ser modesto; muitas coisas ardem em mim; as velhas soluções estão ruindo; nada foi feito ainda com as novas. Por isso começo, em toda parte ao mesmo tempo, como se tivesse um século pela frente... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Joacine Katar Moreira: Andei sempre contra a maré que nos indicava quais as nossas hipóteses, até onde é que podia ir. E eu olhava para isso não como uma limitação mas como algo que eu iria provar que não era bem assim... Veja mais aqui.

Cassandra Clare: Leia tudo! Não basta ler coisas que estão em sua zona de conforto ou coisas que você acha que já vai gostar. Experimente; experimente coisas novas e experimente novos gêneros. Se você ler muito romance, então comece a ler mistério. Se você ler muito mistério, comece a ler fantasia... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ROMANCE X OU DA DONZELA POBRE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Donzelinha, donzelinha \ dos grandes olhos sombrios, \ teus parentes andam Longe, \ pelas serras, pelos rios, \ tentando a sorte nas catas, \ em barrancos já vazios! \ Donzelinha, donzelinha, \ mira os santos nos altares, \ que apontam, compadecidos, \ para celestes lugares, \ onde são de ouro e diamante \ quantas lágrimas chorares! \ Donzelinha, donzelinha, \ fecha esses olhos sombrios. \ As montanhas são tão altas! \ Os ribeiros são tão frios! \ O reino de Deus, tão Longe \ dos humanos desvarios!

Poema extraído do Romanceiro da inconfidência (Nova Aguilar, 1997), da poeta, jornalista, pintora, escritora e professora Cecília Meireles (Cecília Benevides de Carvalho Meireles – 1901-1964). Dela o verso: Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda... que inspirou curta-metragem dirigido por Jorge Furtado em 1989. O documentário utiliza esse trecho do poema épico Romanceiro da Inconfidência para encerrar sua crítica ao sistema capitalista e à desigualdade. O curta-metragem acompanha o ciclo de vida de um tomate, desde a colheita até ser descartado em um lixão na Ilha das Flores (1989), dirigido por Jorge Furtado, em Porto Alegre. O objetivo da obra é escancarar a desumanidade social ao mostrar que, no local, porcos têm preferência de consumo sobre os restos de lixo antes que estes sejam destinados aos seres humanos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

CASAS & TÚMULOS - [...] Feliz é aquele que, como Ulisses, viu cem paisagens. [...] Não existem palavras que sejam como água destilada, insubstanciais, alheias à vida e ao mundo. [...] Existem dois tipos de literatura: uma que propõe uma jornada para fora (crimes em Norlândia, paixões na corte chinesa do século XII, traições mortais em um campus americano…) e outra que inclui uma jornada adicional, aquela que o leitor deve fazer dentro de si. [...] Sei que os laços do amor não são iguais, e que um deles, o que vai de mãe para filha, deve ser mais forte do que o que vai de filha para mãe. [...], Trechos extraídos da obra Casas y tumbas (Alfaguara, 2019), do escritor espanhol, Bernardo Atxaga (Joseba Irazu Garmendia), autor de obras como The Accordionist's Son (2003), Memorias de una vaca (1991) e Obabakoak (1988), entre outros.

 

ALGUNS SÃO IDIOTAS MESMO!... - [...] Algumas pessoas SÃO idiotas e continuarão sendo, não importa o que você faça. Isso inclui os Mansplainers; pessoas de todos os gêneros que são tão convencidas de si mesmas que não ouvem (portanto, não é possível ter uma conversa); supremacistas de todos os tipos. Meu conselho? Se eles forem reincidentes, exponha-os, chame-os a atenção - mas com o idiota desconhecido ocasional que VAI incomodá-lo sempre que você começar a brilhar, não perca seu tempo tentando educá-los. Aprenda o que puder com eles: seus "argumentos" favoritos, sua "lógica", seus padrões de retórica - depois acene com a cabeça "obrigado" educadamente enquanto eles ainda estão bajulando sua superioridade intelectual sobre você e, em seguida, livre-se deles. Aprenda com a experiência, assim como você pode aprender ao assistir a uma palestra ruim. Algumas pessoas, entretanto, NÃO são idiotas (ainda), mas podem, ocasionalmente, agir como tal. Essas são salváveis e merecem seus esforços, SE você estiver disposto a isso. Você pode tentar perguntar educadamente: "Você percebe que está parecendo que está dizendo Y em vez de X e me insultando? Você realmente quis dizer isso? Porque você está parecendo um idiota, e eu não acho que você seja um" - ou algo nesse sentido. A parte importante é enfatizar como a pessoa está agindo como um idiota, quando você não acredita que ela seja um. As pessoas não esperam a franqueza, portanto, se não forem idiotas, a franqueza educada, não agressiva, não defensiva e puramente informativa as desarmará. E se, no fim das contas, elas forem idiotas... melhor que fiquem longe, não é mesmo? [...]. Trecho do artigo Algumas pessoas SÃO idiotas, e isso não vai mudar (Escritos em Neurociências,), da neurocientista e professora Suzana Herculano-Houzel, que noutro artigo, Todo mundo precisa ter problemas (Neurociências da vida comum), ela expressa: [...] Só com sensação de controle sobre a própria vida se deixam os outros em paz. [...] Eu hoje, neurocientista, entendo perfeitamente. Aprendi que a chave para o bem-estar está na sensação de controle sobre a própria vida, e que, por definição, só há “controle” onde existe algo a ser controlado: um problema ao alcance da nossa competência. Por isso os tempos de calmaria, teoricamente ideais, nem duram, nem são ideais de fato. Se não há problemas para resolver, criamos um, e ainda chamamos de “propósito”. Pode ser chamado de hobby, projeto de aposentadoria, mas também neto, nora, vizinho – ou imigrantes e outras pessoas estranhas em aparência, ideias ou religião. Acho que agora entendo a obsessão de cada vez mais gente mundo afora em controlar a vida dos outros, num flerte global com o autoritarismo que já descamba para a execução. Quem vive cronicamente estressado com subemprego e exploração socioeconômica, apanhando da vida, precisa da sensação de controle de poder baixar o cacete em alguma outra coisa ou alguém ainda mais na miséria. Para quem vive cheio de problemas, ir às redes sociais se meter nos direitos alheios oferece o alívio temporário tão necessário à sensação de impotência. E quem vive no estado oposto de afluência descansada precisa igualmente de um novo problema para resolver. Com a vantagem de gozar de tempo e dinheiro, parte dessas pessoas vão se meter a controlar os outros que vivem situações de merda tão profunda que requerem aborto, emigração ou novas chances, negando-lhes tudo apenas porque elas podem. Como fazer com que as pessoas parem de se meter na vida alheia? [...] Alguns problemas são insuperáveis, mas a vida é feita de todos os outros. [...]. Ela é autora da obra The Human Advantage: A New Understanding of How Our Brain Became Remarkable (The MIT Press, 2016). Veja mais aqui.

 

SANTANNA O CANTADOR

Eu acho que devemos ser eternos aprendizes, para podermos evoluir com mais consciência do que somos e do que queremos... Você tem que acreditar no seu jeito de fazer as propostas. Quando a coisa é verdadeira as pessoas notam e sentem. A verdade será sempre moderna e bem aceita, mesmo que doa...

Pensamento do parceiramigo, cantor e compositor Santanna, O Cantador. Veja a entrevista que ele concedeu pra mim e outras coisas a respeito do seu talento e carisma aqui.

 

LER BEM – O concurso Ler Bem 2026, iniciativa da Associação Pernambucana de Atacadistas e Distribuidores (ASPA) objetiva incentivar a leitura entre estudantes do 4º ano do Ensino Fundamental de escolas municipais. Este ano o Observatório de Leituras da Semed-Palmares, acompanhou o estudante Zeus Vinícius Barbosa Holanda, da Escola Municipal Professora Maria Elizabete de Oliveira Calado, em Palmares, Pernambuco, em 3 encontros, contando com o apoio do professor Emerson José Oliveira da Silva e dos técnicos da Semed, comandados pelo professor Valmir Melo. A obra estudada foi A volta ao mundo em 80 dias (Le tour du monde en quatre-vingts jours - FTD, 2013), do escritor francês como Júlio Verne (Jules Gabriel Verne – 1828-1906), considerado o inventor do gênero de ficção científica. Veja o ocorreu durante os encontros e treinamentos aqui.

 


ARTE NA ESCOLA – O professor Emerson José Oliveira da Silva apresentou o artigo científico sob a temática A arte na educação infantil e desenvolvimento da criança na pré-escola, no Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia, da Faculdade de Formação de Professores da Mata Sul/PE (Famasul), de Palmares (PE), orientado pela professora Vanessa Ferreira dos Santos. Veja na íntegra aqui.


 

CENTENÁRIO DE DAREL VALENÇA LINS – Em 2024 comemorei o centenário do gravurista, pintor, desenhista, ilustrador e professor, Darel Valença Lins (1924-2017), com a publicação do livro Dareladas, lançado tanto em Palmares, sua terra natal, como também no Rio de Janeiro. Confira como ocorreu aqui.

 


SEMANA HERMILO BORBA FILHO - Em homenagem ao advogado, escritor, crítico literário, jornalista, dramaturgo, diretor, teatrólogo e tradutor Hermilo Borba Filho (1917-2017), acontecerá a Semana Hermilo, entre os dias 28 e 31 de julho, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto, em Palmares (PE). Confira detalhes & muito mais aqui.

 

E veja mais Pernambuco aqui.

 


sábado, julho 11, 2026

DRUMMOND, DAD SQUARISI, LENINE & STELLA MARIS REZENDE

 

Imagem: Acervo ArtLAM.


 

Interlúnio do inominado marupiara pé-frio... - Insosso não tinha nome, só sobrenome e duplo: os finados pais, Maria Combreia e Zé Caralâmpio, compuseram, às turras, o batizado: Caralâmpio Combreia; vingou-lhe o apelido desenxabido, colecionando remoques, outro Zé à toa. Isso há muito tempo, até tinha perdido as feições avoengas, desconhecia até então qualquer parentesco. Era amanhecido vistoso quando aventou, na curva da ideia, névoas oníricas, repisando pretéritos; se duvidava, segurou o espirro, escamoteava, acocorado matutando, tanto retardava coisas de sua, nem podia do dever. Cismava sozinho no mundo, ressuscitando olvidadices, o protelado na urgência da hora, irrespondível. Sentia-se viver noutras situações nunca vista, coisas estranhas que nem eram suas, de quem seria, ignorava; só que passava com ele, destá. Providenciou tirar a prova dos 9 fora e acelerou a ida. Foi a pé, mochila ao sovaco pendurada nos redondos ombros, água na moringa, toda pressa no dia arejado de um céu da rotina, pelo capinzal das ervas, a poeira do chão na areia dos pés, as alpercatas nos vestígios de passagens, as folhas e a passarada, sombreada jaboticabeira, as flores na brisa que vinha dos morros limítrofes, as moitas pelas nuvens dos arredores. Saboreava serelepe vasta fruteira farta pelas beiradas da estrada, ah, jaboticabas, chupava, se enchia. Subiu a serra, desceu o morro, esticou as orelhas: o ermo longe ia pelo demais. Deu em Catuama, o portão. Naquela instância as lápides, benzeu-se, cerrou os punhos, quanto tempo, nenhuma data, jaziam no sacrilégio do seu quase esquecimento. Deteve-se com gastura, tossiu seco, prosternado no primeiro batente, serôdio, soçobrava. Puxou do bisaco um par de velas, acendeu-as e o tempo amoitou nas escurezas de Deus, instantaneamente. Cegou paradeiro e um redemoinho medonho, danou-se! Aos giros, perdia-se, de cabeça pra baixo; de tanto rodar, foi jogado, estendido. Onde estou? Diante da Pedra Letrada: Já estive aqui? Parece. Deu fé de recorrentes anemoias: Será que só sou eu que tenho esses pantins, ou essa paranoia é geral? Cada qual sua loucura. Era seu paradoxo do ônibus: Vou ou não vou, lascou. Viu-se aos trocentos pedaços, desassossegado. Coçava a palma da mão: Sarna da moléstia, essa; será que estou com mau-olhado? Subitamente a coisa mudou de figura: o céu atroou, trovões ribombaram aos raios e o diabo pintou assombração. Estarrecido, comediu-se. O chio das coisas. Era o tempestuoso Bicho do Vau: Leia! Lufadas de tornado iminente. E agora? Leia, vá! A ameaça, o alerta. O prenúncio de um ciclone, já quase tragado e alguém o puxou pela beca. Volteava desgovernado, derreou. Pisou o chão ignorado, apaziguou-se e, ao levantar a vista, outro susto, de escorregar desajeitado em fuga afora. Peraí. De novo? Torou aço, um frio na coluna, arrepiou-se: Ave! Era gente ou bicho mesmo? Sou teriana! E fala? Vamos, aqui não é seguro. Hem? Vem logo! Foram rasgando matadentro: ela ágil rojava aos voos pelos galhos e troncos, ele amedrontado seguindo-a, aos pinotes, pés na bunda. Deram numa clareira e ela atrepada, na copa dum eucalipto gigante, gesticulava, como sinais de avisos aos apitos e guturais. Obrigou-o a esconder-se. Refugiou-se no medo e esperou arfante. Logo apareceram muitos outros seres esquisitos: Que é que é isso? Ela desceu ladina: Venha, são aliados. Aí foi tomando pé do que pra ele era maior bizarrice, uma tropa interminável de furries, kingêneros, queers, cosplays, goblincores e otherkins - fadas, goblins, elfos e duendes, mesmo? -, licantropos, vampiros, nefilins, nunca tinha visto do tanto, ora. Mais tulpamancistas, zentais, otakus, kawaiis, clowncores divertidos, pastafarianos da Igreja do Monstro do Espaguete Voador, haul girls, biohackers – Eita! Gente com antena na cabeça, smartwatches, pitocos nos dedos -, vaporwaves, neo-tribalistas, plankings, Barbies e GothLolis, tecktoniks, sílfides, ironistas – Ué, passadores radicais de roupa? -, esportistas de quadribol, skinheads, hardcore punks, metaleiros, grunges, emos, bod-mods – Vôte! Tem até com implantes de chifres, língua bífida, tatuagens e piercings! -, sneakerheads, caçadores de fantasmas, dândis, fetichistas, colecionistas estranhos – do tipo colecionador de escova de dentes usada, avalie -, sugestionados, adeptos da pneuteologia, sobreviventes afetivos, retrôs – preservacionistas do passado, pode? -, imperadores das cócegas, mergulhadores de lixeira, fashionistas, Toy Voyagers, fantasistas disfuncionais, delirantes, disforistas, paleoterios, fictórios, teriomíticos... Deu o créu! Havia quem incorporasse o Kholstomér do Tolstói, ou o urso-polar da Tawada, o polvo da Despret, a sardinha do Bill François, maior piração! Seria coisa de outro mundo que estava metido ou falseamentos, tudo perdido, modelos com figurinos excêntricos, cada qual mergulhados na sua sandice, ora! Boba da peste! Plantassem batatas, penteassem macacos, lambessem sabões nos seus folguedos exóticos, dislates, tinha de tudo! Eita, pêga! Logo um boi solene mugia Guimarães Rosa: O homem é um bicho esmochado, que não devia haver. Depois recitava o de Drummond quando se deparava com humanos. E lá estavam Quidim & marquês Rabicó, quem Orlando de Woolf, o furacão da Hilda, as diminutas criaturas de Lilipute de Swift, quem falasse do Magnum Opus nos portais de Tlön, do Mutus Liber, do poema celta do Graal, de Atlântida, até personagens de Arantza Sestayo. Quem? Que carnaval é esse? Agora sabia: bicho gente é um bocado de doidices arrodeado de perigo por todos os lados. Céus, em que fui me meter? À caça, aos gritos, muitos correram, alguns pouquíssimos ficaram. Tremia: Pronde foram? Caçar, já já voltam pra comilança, fica aí. Ela tinha ido com os outros, hem hem. Sozinho cismou: Com certeza era mais fácil entender a razão áurea ou a sequência de Fibonacci, do que sacar maluquice dessa. Não dava pra entender essa gente. Com o tempo foi se acostumando, quase pariceiros íntimos. Ela retornou da caça com os que foram e sorria na chegada. Aí ele virou-se do lado, ao mais próximo, puxou conversa para enturmar-se: Como é mesmo o nome dela? Sei-que-lá-de-tal! Fodeu! Ouvindo a conversa, ela soletrou: Meu nome é N-o-no-r-i-ri-e-l-a-la, Noriela Hentai, euzinha aqui, muito prazer, de novo! E o seu? Ih!... Ela riu-se do insípido, contida. É mesmo? Alcunha. E como se chama de mesmo? Uh!... Gracejou irônica: Também, com um nome desse, melhor o pseudônimo! Quem fala, ó, e o seu, hem? Acomodou-se relaxado ao lado dela e matutou consigo: Ela é coisa de bicho da muita estimação, maior xerimbabado, cheia das amorosidades. Mesmo insólita, a alma dela conjugava certinho com a sua, airosa no seu jeito peculiar, toda sacudida, dócil, os dentes de fora, recheada de franqueza e amabilidades. Diante dela todo inédito ímpeto, precipitava-se, saltava aos olhos, timidez dele apreciou, aliás e talvez, conjugou o verbo direitinho, zelava por ela, tomava conta, ela destinatária, ele insulso encurralado respeitoso, premente. Era o que podia fazer ali. Embevecia-se aos palmos dela, o traje, o quiasma: zilhões de anos-luz do seu sorriso, ô garapa boa! Cabeça sempre ocupada com chamegos de xodó, pouco importando se de segunda mão. Pronde vocês estão indo? Pra Pasárgada. Fazer o quê lá? Somos amigos do rei! Como assim? Ciclones devastadores se anunciam prenunciando um gigantesco tufão! O quê? Vem com a gente! Quando? Depois do repasto a gente vai zarpar, no certo, o mundo está ficando inabitável! O quê? Ora, você não sabe? Não. Vamos encher a pança logo, depois explicarei. Para quem desdenhava agouros, abolia crendices e conspirações extravagantes, estar ali no meio de tão tribais tão diversos, dava-lhe a impressão de já ter vivido ou sonhado com aquilo. Será? Além do mais: o que Deus num quis, não se deve dar ao diabo, né! Se revivia ou ressonhava, não sabia se por serendipidade entusiasmada ou desdita amaldiçoadora, só saberia no depois qual. A bem dizer, decerto, suspeitou do havido, encardiu-se, às pausas, comprava fiado o futuro. Um lampejo e decidiu-se: Vou virar bicho! Seria mais uma vazada das quantas jornadas, vezes quisesse até nenhum enfim. Já era tarde, oxe, ela partiu com muitos. Ih! Foi? Foi. Apartou-se, a ideia nascia do absurdo fortuitamente encadeada com movimento do impalpável e da ausência dela ali compondo silêncios ensurdecedores. Hem, hem. Néscio, afeiçoou-se dela à socapa e uma saudade arroxeava já dentro dele: Seria ingrata ao tanto da desconsideração, em paga devagar, sem socorro à vista, como se o dia de anteontem não passasse desde ontem até agora, o quanto pudesse suportar de se doer, mais condoía! Não era mais Pernambuco dali por diante, outro lugar que não sabia, era capaz de ser doutra banda desconhecida, uma confusão dentro de si. E ela já tinha ido, ficava só com os outros desapegados, afora o repuxo tristonho da ausência dela. E se ali o verão era longo, o inverno seria pior, precavia-se. Como proceder: este mundo dá medo, as leviandades, o verossímil, o abandono, as sobras, aos desperdícios, ninguém está a salvo, tudo do contra, a dor das coisas retine seu ricocheteado na gente mesmo. Aí desancou-se de todo, por enquanto, episódio custoso aquele, meios vãos, só faltava sair puxando a venta alheia a cada motejo pela feiúra. Cadê-la! Abscônditas evocações suas. Ela escapuliu furtiva, foi-se o que era doce. Devia a vida a ela, fujona, creditava. Roía-se por dentro, macambúzio, o que havia avinagrado em demasia sua existência tão pantagruelicamente. Ainda não seria daquela vez, que pena. Pesaroso: Era provável que as desventuras fosse só um brinquedo da sorte, era a vida e suas consequências. Reconhecia a exatidão da tristeza: Mas por quê? O futuro trazia respostas aos pouquinhos, o que haveria de vir? Por derradeiro a áspera, bis e tris, quantos mais à infinitude, dava baixa, até que a morte astuta viesse à tona das perpetuidades. Ficava o escrito pelo não dito: perdia o coração no mal resolvido. Não havia prazo pras descobertas, bastava o momento entroutros e pronto, se desvelando aos pouquinhos, o esmiuçado, só nas tristecências, o comum. Revivescente marupiara, quem dera. Ouviu longe: Vai ficar aí quarando com a morte da bezerra, ou vem com a gente! Hem? Até mais ver.

 

Vladimir Maiakóvski: Antigamente, eu acreditava que os livros eram feitos assim: um poeta chegava, entreabria os lábios e o tolo inspirado irrompia em canto — vejam só! Mas parece que, antes de poderem lançar uma canção, os poetas precisam caminhar por dias com os pés calejados, enquanto o peixe lento da imaginação se debate suavemente na lama do coração. E, enquanto eles cozinham um caldo de amores e rouxinóis ao som de rimas que chilreiam, a rua muda apenas se contorce, na falta de algo para gritar ou dizer... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Espido Freire: E sempre fora assim. Ninguém dava muita atenção... Na verdade, ninguém ouvia ninguém... Escrevemos e lemos para fugir, para viajar além dos nossos meios... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Denise Stoklos: Não dá pra fazer nada pela metade ou por três quartos ou um tanto ou se proteger de entregar. A entrega tem que ser cem por cento, que grau estiver você dos seu cem por cento. Ela tem que ser os cem por cento que você tenha... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

UM BOI VÊ OS HOMENS

Imagem: Acervo ArtLAM.

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm \ e correm de um para outro lado, sempre esquecidos \ de alguma coisa. Certamente, falta-lhes \ não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres \ e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves, \ até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam \ nem o canto do ar nem os segredos do feno, \ como também parecem não enxergar o que é visível \ e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes \ e no rasto da tristeza chegam à crueldade. \ Toda a expressão deles mora nos olhos — e perde-se \ a um simples baixar de cílios, a uma sombra. \ Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade, \ e como neles há pouca montanha, \ e que secura e que reentrâncias e que \ impossibilidade de se organizarem em formas calmas, \ permanentes e necessárias. Têm, talvez, \ certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem \ perdoar a agitação incômoda e o translúcido \ vazio interior que os torna tão pobres e carecidos \ de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme \ (que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo \ como pedras aflitas e queimam a erva e a água, \ e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

Poema do escritor Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), considerado o mais influente poeta brasileiro do século 20. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A FILHA INJUSTIÇADA, DE STELLA MARIS REZENDE

Me inspirei na história verídica de uma mocinha de 15 anos, de Dores do Indaiá, que foi internada à força no Hospital Colônia de Barbacena. Motivo: Não concordava em trabalhar escondida dos fregueses do armazém do pai machista, violento e cruel. Maria da Soledade era obrigada a trabalhar no galpão, cuidando do estoque, carregando peso, sem receber nada, enquanto os três irmãos trabalhavam na loja em frente à rua, e recebiam salário. Ela queria ser respeitada, só isso.

Depoimento da autora sobre o seu recentemente lançado e elogiado romance A filha injustiçada (Faria e Silva, 2026), da premiada escritora e atriz Stella Maris Rezende, mestre em Literatura Brasileira pela UnB, que participa de feiras literárias e ministra a oficina Letras Mágicas. Ela é detentora de 4 prêmios Jabuti, afora outras tantas premiações de sua exitosa carreira. Ela concedeu uma entrevista exclusiva pra gente, falando de sua trajetória, seus livros publicados e estudados no meio acadêmico, da Fada da Palavra, da Oficina Letras Mágicas e de suas perspectivas literárias. Confira a entrevista aqui.

 

ESCREVER É MANDAR RECADO - Redigir é técnica. Pode ser aperfeiçoada. Nem sempre a atração reside no que você diz. Mas no jeito de dizer. Uma frase particularmente elegante, capaz de veicular com clareza e simplicidade a mensagem que você quer transmitir, é conquista pessoal, exercício diário de desapego e humildade. [...] Os segredos do estilo mais eficiente podem ser resumidos em dez preceitos. UM - Seja natural: fique à vontade. Imagine que o leitor esteja à sua frente. Converse com ele. Não fale difícil. Espaceje suas frases com pausas. Confira ao texto um toque humano. Você está escrevendo para pessoas. DOIS - Vá direto ao assunto: não enrole. Comece pelo mais importante. E comece bem, com uma frase atraente, que lhe desperte o interesse e o estimule a prosseguir a leitura. No final, dê-lhe o prêmio – um fecho de ouro, como inesquecível sobremesa a coroar um lauto almoço. TRÊS - Use frases curtas: a pessoa só consegue dominar determinado número de palavras antes que os olhos peçam uma pausa. A frase muito longa dá trabalho, confunde. Por isso, use sentenças de, no máximo, uma linha e meia. Lembre-se: uma frase longa nada mais é do que duas curtas. QUATRO - Prefira palavras breves e simples: vocábulos longos e pomposos funcionam como cortina de fumaça entre você e o leitor. Seja simples. Entre duas palavras, prefira a mais curta. Entre duas curtas, a mais simples. Em vez de falecer, escreva morrer; em lugar de somente, só; de matrimônio, casamento; de féretro, caixão; de morosidade, lentidão. CINCO - Ponha as sentenças na forma positiva: diga o que é, não o que não é. Quer exemplos? “Não ser honesto” é “ser desonesto”; “não lembrar” é “esquecer”; “não dar atenção” é  “ignorar”; “não comparecer” é “faltar”; “não pagar em dia” é “atrasar o pagamento”. SEIS - Opte pela voz ativa: ela é mais direta, vigorosa e concisa que a passiva (a passiva, como o nome diz, parece sem força, desmaiada). Prefira “um raio provocou o blecaute” a “o blecaute foi provocado por um raio” SETE - Abuse de substantivos e verbos: escreva com a convicção de que no idioma só existem essas duas classes de palavras. As demais, sobretudo adjetivos e advérbios, devem ser usadas com a sovinice do Tio Patinhas. Na dúvida, deixe-os pra lá: (Normalmente) ao escrever textos (informativos), use substantivos (fortes) e verbos (expressivos). OITO - Seja conciso: não diga nem mais nem menos do que você precisa dizer. Cultivar a economia verbal sem prejuízo da completa e eficaz expressão do pensamento tem dupla vantagem. Uma: respeita a paciência do leitor. Outra: poupa tempo e espaço. NOVE - Dê clareza às citações: dificultar a compreensão do texto é colocar uma pedra no caminho do leitor. Para quê? Facilite-lhe a vida. Nas declarações longas, não o deixe ansioso. Identifique o autor imediatamente antes da citação ou depois da primeira frase. [...] Nas declarações curtas, identifique o autor no começo ou no fim da fala: “Toda questão tem dois lados”, escreveu Pitágoras. DEZ - Escolha termos específicos [...]. Trechos do artigo Dez ideias úteis para usar a palavra escrita com clareza e eficiência (FilosofiaEsotérica, 2026), da escritora e professora libanesa Dad Squarisi (Dad Abi Chahine Squarisi – 1946-2923), autora do livro Dicas da Dad: português com humor (Contexto, 2003), Mais dicas da Dad: português com humor(Contexto, 2003), Deuses e heróis - mitologia para crianças (LGE, 2004), Manual de redação e estilo para mídias convergentes (Geração, 2011), Sete pecados da língua (Contexto, 2017), entre outros.

 

A ARTE DE LENINE

(Imagem: Alexandre Loureiro/Getty Images)

[...] Não tenho a mínima ideia nem ouso descrever quem é o ser humano contemporâneo. Agora, diante da contemporaneidade em que estou inserido, existe uma constatação para mim que é clara, cristalina: é uma desconstrução da realidade. Isso me causa espanto, porque, não por acaso, a primeira música do disco "Eita" vai nesse tema, da confiança. Nós perdemos a confiança. E isso é um problema, eu acho. Na minha formação, fui educado a confiar na pessoa. Se não conheço alguém, eu confio nela, até que me provem o contrário. Hoje é completamente o oposto. Hoje a gente vive numa época de dissimulação. As pessoas não têm o mínimo escrúpulo, não têm a mínima educação. Falam uma coisa, pregam essa coisa, mas agem de forma oposta, completamente oposta. É muito dissimulado, é muito mentiroso o que a gente está vivendo hoje em dia. É como se a gente tivesse voltado a uma certa Idade Média, desacreditar das coisas que a gente já tinha conquistado. Não sei quem é esse ser humano contemporâneo. Torço para que ele tenha uma tomada de consciência e volte a escolher um caminho do bem comum. [...].

Trecho da entrevista Eita! Uma conversa com Lenine sobre o espanto, o tempo e o futuro (Fast Company Brasil, 2026), concedida pelo premiadíssimo cantor, compositor, arranjador, multi-instrumentista, letrista, ator, escritor, produtor musical, engenheiro químico e ecologista, Lenine (Oswaldo Lenine Macedo Pimentel), autor de mais de 500 canções, 9 álbuns de estúdios e 4 álbuns ao vivo e em vídeo. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


 

MÚSICA: CRIANÇA - O Brincarte do Nitolino conta e canta hestórias para o público infantil e infanto-juvenil, ofertando, ainda, conteúdos de Literatura, Psicologia, Educação, Direito, Teatro, Música, contação de histórias, brincadeiras, artes dos estudantes e uma agenda de recreações, oficinas e palestras para a área. Confira a música & letra Criança & muito mais aqui.

 


TEATRO: HISTÓRIA & AUTORES / DE PALMARES (PERNAMBUCO) PRO MUNDO – No Música, Teatro & Cia um estudo sobre o que é o teatro, abordando a história desta arte milenar, desde os primórdios até a contemporaneidade, destacando autores e peças teatrais, bem como uma abordagem sobre os movimentos no decorrer dos séculos, destacando, sobretudo, a arte no Brasil, em Pernambuco e Palmares, com extensa indicação bibliográfica. Confira clicando aqui.

 


PESQUISA & CIA – No Pesquisa & Cia reflexões de célebres personalidades por meio de suas obras, pensamentos e feitos sobre temas que vão desde das Neurociências, passando por ativismo, injustiça, crise climática, sustentabilidade, violência, ecofeminismo, simbiossexualidade, entre tantos outros, que constituem o debate contemporâneo. Confira aqui.

 


REUNIÃO SETIGONAL – Levado pela provocação dos criadores Admmauro Gommes, José Durán y Durán e Cícero Felipe, cometi alguns setígonos. Gostei. E quando vi uma penca de gente da melhor cepa cultuando e dando pitaco acerca dessa novidade poética, não me fiz rogado e soltei o verbo. Quer saber como é que o setígono? Ora, confira aqui.

  

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MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet . Nem a...