sábado, outubro 24, 2026

NÊGO BISPO, IA GENBERG, JOUMANA HADDAD & FUXICO CULTURAL

 

Imagem: Acervo ArtLAM.



Bródio na pareidolia do perdulário pendular... - Alagoinhanduba estava em polvorosa com os estardalhaços causados pelo aparecimento dum visionário taumaturgo. Outro? Ora, se! De novo? Pois é. Correria da muita aos cochichos, de boca e ouvido nos cantadores de cordel e providenciassem acordes pros motes e glosas, pipocando o assanhamento do povo pruma ineivada procissão. É mesmo? Mas, tá! Cadê o curandeiro? Ah, já foi arrastado pra casa do Barão caga-raio! Foi mesmo? Rapaz, nunca se viu aquele palacete tão iluminado! Aff! Oxe, tinha gente até de um olho só! Num diga! Dizem que pra lá foram os Rothschilds, os Rockefeller, os Wallenberg, os Walton, os Koch, os Mars, os Brenninkmeijer, os Bardi, Médici, Gondi, Fugger, Welser, Baring, Schröder, Goldman-Sachs, Contarini, Cornaro, Dandolo, Giustinian, Loredan, Mocenigo e Morosini e uma ruma de gente empaletozada de num acabar mais. Vixe, quanto nome difícil, patavina de entender quem são esses! Num sabe? Não! Ah, são os donos do mundo todo, bestão! Ricaços? Iapois! Igi! Até o papa estava pra chegar, mas deu um problema lá no teco-teco dele e foi representado, de última hora, pelo padre Quiba e um o bispo lá que nem sei quem é, nem nunca vi! Danou-se! Destá. Foi um festaço de arromba: o venerável da Maçonaria foi encasacado com meio mundo de urubu e com os caras lá do Rotary, mais os do Lions, da LBV, da Federação Espírita, da Assembleia de Deus e da Aliança Evangélica, até a extinta LBA ressuscitou lá! Eita! Tinha grã-fino até umas horas, gente casacuda como a praga! Pra quê mesmo, hem? Num tais sabendo? De quê? Do tal Doctor ZêZê Rasputin! Quem? Um danado dum peregrino klystys que veio dum lugar longe como a droga, lá das bandas da Sibéria, e que é ele na Terra e Deus no céu, somente! E que medonho é isso de, como é mesmo o nome? Klystys? Sim, nunca ouvi nem falar! Sei lá, tô só repetindo o que dizem dele e decorei, deve ser coisa boa, senão é malefício dos brabos. É mesmo. O cara é o fodão! Tais brincando? O hômi lá é sábio, véi! Como é? Pelo boato sabe-se que ele estudou muito, chega anda de peito inflado: Fiz num sei quê lá, desarnei num sei quê diga, essas coisas. Arreda! Oxe, até o padre Quiba se ajoelhou amoquecado aos gritos: Jesus voltou! Desmunhecou muito, foi? Só. E o convidado do além? Já tão chamando ele de xodó da Baronesa. Vixe! Tão dizendo por aí dos muitos milagres e que era só ele embeiçar uma talagada de cachaça-de-cabeça com pimenta malagueta, aí estralava a língua e os dedos, todo arrepiado, bulindo lá nele, uns muxoxos cheio dos pantins, caretas assombrosas e batia os pauzinhos nas coisas do outro mundo, invocando num sei quem numa novena e, pronto, desmanchava as ingresias lá, desenvultava e curava, tanto as câimbras da imperatriz, como qualquer moléstia dos enfermos, da coisa resolver-se tudinho na horinha mesmo! Valei-me, estuporado! A Madama Puxa-Encolhe mesmo saiu alardeando com as sinhás amigas dela lá: Ele me confortou, santa cura! É coisa escalafobética, meu! E num é! Ontem de noite mesmo armaram o palanque assim do lado e o milagreiro apareceu lá com meio mundo de gente no arousal, ele todo lisonjeado começou a falar mansinho num discurso, como se diz, anódino e teve até quem visse uma aureola angélica brilhar naquela cabeça santa. Deu o créu! Deus, mesmo! E depois, o bruxo lá ostentou na cipoada e, de repente, falava como quem trovejava, dos olhos dele saíram relâmpagos assustadores. Tanto é que, na hora, se eu tivesse bosta pronta, cagava de melar tudo, mas que torei aço do chicote deixou ficar o frosquete fazendo biquinho, com as pregas rapando tudo que viesse! Larga de ser frouxo! E num é! Ufa! O cabra é culto mesmo, né? O homem é de sete-ciências e bote lá mais, sabe tudo! E teve uma hora que gravaram o que ele disse, ouça, veja: Há mais de 100 anos, quando os interesses mais uma vez se amesquinharam, potencializando rivalidades para perpetuar a miséria humana, espoucou a mortandade e, ciclicamente, supostos heróis e vilões se digladiavam para a catástrofe. E quem pagou o pato dessas invectivas disparatadas? Sempre o povo miserável que é levado pelas ondas dos oportunismos, sucumbindo à gangorra dos dissabores! Em cada século a Lenda do Grande Inquisidor se repete... Os vilões, na verdade, somos cada um de nós; e os traidores pagarão nas mãos do inimigo celebrado, tenho dito! Foi aplauso do estopô calango de quase num acabar mais! Vixe! A coisa é séria! O que achou do discurso do forasteiro? Entendi nada, mas achei muito bonito e encorajador. Reconheceu, não? Nada. Num viu direito! Como? Aquilo é José Zon, só – dito ZéZon! Quem? Aquele, ora! Mesmo? Num lembra dele não? Não. Era ainda menino quando deixou de ser ajudante nas presepadas do Doro e, bandoleiro que só, seguiu os passos nebulosos de Tó Zeca: Esse tinha mais futuro, claro, era neto daquele barão que ninguém sabia soletrar o nome, né? Sim, sim! De anão encruado virou um varapau donzelão do bilau grande. Tá c’a gota! E num foi? Sei disso não! Ele aprendeu com o mentiroso e, segundo seu próprio juízo, foi muito mais além, pois, na maioridade, ele assuntou na aprumada e foi pras bandas do Padre Bidião: Muito melhor! Lembrou? Aaaah! Foi ele que decorou o Evangelho do reverendo, seguiu ao pé da letra na liturgia das beatas e sacerdotisas, comungou, tornou-se neófito e, na primeira iniciação, ousou um voo solo. Cabra sabido, hem? Vamos tirar a limpo isso: O doutor Zé Gulu já leu algum livro desse sabichão? Isso é um embusteiro, cagador de regra! Cuma? Tá ignorando os diplomas do letrudo, meu? Ora, ninguém nunca viu sequer um risco que fosse num taco de papel com o nome desse impostor! Oxe! Procure, vá! Será que é pinoia? Nada, dizem que ele está casado com uma princesa dita Sakina, filha duma tal de matriarca Begum Wilayat Mahal! Ah, foi assim que ele fez fortuna e passou a ser o bicho-papão das ciências e filosofias, então! Quem contou isso? Ele mesmo, ué? Quem já viu a princesa? Hum? Isso é um enrolão! Quem é doido de tirar a prova dos 9? Cá pra nós: o escroque parece que agora é conselheiro, ou coisa parecida, do Barão e da madame dele! Pronto, lascou! De que adiantou desmascarar? Deixa de tua apofenia, cara! Jamais vu! O povo é todo credo, paga no mesmo tanto pela leseira, sempre. Deixa quieto! Eu, hem? Até mais ver.

 

Sylvia Plath: Se você não espera nada de ninguém, você nunca está desapontada... E, a propósito, tudo na vida é gravável se você tem a coragem de sair para fazê-lo, e a imaginação para improvisar. O pior inimigo da criatividade é a autodúvida... Veja mais aqui.

Ezra Pound: Guerras são feitas para fazer dívidas... Um escravo é aquele que espera que alguém venha libertá-lo... Ou se move ou é movido... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Graciliano Ramos: É fácil se livrar das responsabilidades. Difícil é escapar das consequências por ter se livrado delas... Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, ídolos que depois derrubo. Uma estrela no céu, algumas mulheres na terra... Se a única coisa que o homem tem certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

EU SOU UMA MULHER

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ninguém consegue adivinhar \ o que digo quando me calo, \ quem vejo quando fecho os olhos, \ como me deixo levar quando me deixo levar, \ o que procuro quando estendo as mãos. \ Ninguém, ninguém sabe \ quando tenho fome, quando parto, \ quando caminho e quando estou perdida. \ E ninguém sabe \ que minha partida é um retorno \ e meu retorno é uma abstinência, \ que minha fraqueza é uma máscara \ e minha força é uma máscara, \ e que o que está por vir é uma tempestade. \ Eles pensam que sabem, \ então eu os deixo, \ e eu aconteço. \ Eles me colocam em uma gaiola para que \ minha liberdade seja um presente deles, \ e eu tenha que agradecê-los e obedecer. \ Mas sou livre diante deles, depois deles, \ com eles, sem eles. \ Sou livre em minha opressão, em minha derrota \ e minha prisão é o que eu quero. \ A chave da prisão pode ser a língua deles. \ Mas a língua deles está enrolada nos dedos do meu desejo, \ e meu desejo eles jamais poderão controlar. \ Sou uma mulher. \ Eles pensam que são donos da minha liberdade. \ Então eu os deixo, \ e eu aconteço.

Poema da escritora, jornalista e ativista cultural libanesa Joumana Haddad.

 

PEQUENO CONFORTO - [...] Eu queria escrever um livro sobre dinheiro e considerei diferentes maneiras de abordar o assunto. No fim, escrevi várias histórias que giravam em torno do dinheiro. Para este livro, pesquisei muito mais — li livros e conversei com pessoas. Por exemplo, tentei entender o que o dinheiro realmente é, infelizmente sem sucesso. Não acho que o valor, quando se trata de dinheiro, e o valor, quando se trata de pessoas, sejam a mesma coisa, exceto em um sentido puramente semântico. Mas é interessante como nossa linguagem é invadida por termos econômicos — como falamos sobre investir em um relacionamento ou ter "credibilidade" em certas situações. Também é estranho que meçamos o tempo em termos de dinheiro e deixemos essas duas unidades circularem juntas, mesmo que nosso tempo seja muito limitado e o dinheiro seja algo essencialmente fictício. [...]. Trecho da entrevista From fever dreams to fiction: the unscripted world of Ia Genberg (Al Majalla – Culture & Social Affairs, 2026), concedida pela escritora e jornalista sueca Ia Genberg (Ia Gabriella Genberg), sobre o seu livro de contos Small Comfort (2026), no qual reúne 5 contos, todos conectados com personagens recorrentes e tematicamente, expandindo as questões atinentes ao papel do dinheiro em uma sociedade que está passando por crises financeiras. Como resultado, ela também examina a ética e a moral em torno das finanças, o que faz da obra algo diferente e inovador. Os contos, a exemplo de Framgång Greger (uma entrevista com um ex-ator mirim que virou um ladrão fracassado) é um relato sobre um mensageiro de suborno farmacêutico desaparecido. O conto Tal vid ett bröllop / A Speech at a Wedding (um ator contratado para dar um discurso no casamento de um desconhecido); o Loser's Claustrophobia (notas sobre um experimento manipulado de Monopoly) e Klen tröst / Small Comfort (um casal divorciado fingindo viver em harmonia conjugal por causa de uma herança). Já no seu livro The Details (‎Harpervia, 2023), ela expressa que: [...] Vivemos tantas vidas dentro de nossas vidas — vidas menores com pessoas que vêm e vão, amigos que desaparecem, filhos que crescem — e nunca sei qual dessas vidas deve servir como moldura. [...] É só isso que compõe o "eu" — ou o chamado "eu": vestígios das pessoas com quem convivemos. [...] Alguns livros permanecem em seu íntimo muito tempo depois que seus títulos e detalhes já se apagaram da memória. [...]. Veja mais da autora aqui.

 

A TERRA DÁ, A TERRA QUER... – [...] O que é a cidade? É o contrário de mata. O contrário de natureza. A cidade é um território artificializado, humanizado. A cidade é um território arquitetado exclusivamente para os humanos. Os humanos excluíram todas as possibilidades de outras vidas na cidade. Qualquer outra vida que tenta existir na cidade é destruída. Se existe, é graças à força do orgânico, não porque os humanos queiram. [...] “O mundo é grande e tem lugar para todo mundo. O mundo é redondo exatamente para as pessoas não se atropelarem. [...]. Trechos extraídos do livro A terra dá, a terra quer (Ubu, 2023), do escritor, professor, sindicalista, ativista e líder quilombola, Nêgo Bispo (Antônio Bispo dos Santos – 1959-2023), que desenvolveu o conceito de contracolonização por meio de seus livros Quilombos, modos e significados (2007) e Colonização, Quilombos: modos e significados (2015). Veja mais aqui.

 


TUNGA – Em 2023 realizou-se a Semana Tunga na Biblioteca Fenelon Barreto – Palmares (PE), uma homenagem ao artista performático, escultor e desenhista Tunga (Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão – 1952-2016). Por resultado ocorreu durante o evento exposições, palestras, oficinas, vídeos e pocket show, resultando na publicação do livro Tungando a vida (CriaArt, 2024). O evento foi uma realização da Biblioteca Fenelon Barreto, Amigos da Biblioteca, Gabinete de Arte e zineblog Tataritaritatá, contando com apoio do Instituto Tunga, Usina de Arte & Semed-Palmares/Observatório de Leitura. Veja detalhes aqui.


 

LAJEDO – Este é 9º episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna, desta feita no agreste meridional, em Lajedo, Pernambuco, contando da festa no céu e o cágado que despencou de lá, caiu na pedraria da Volta do Canhoto e escorregou pelos rios Quatis, da Chata e do Retiro, pelos riachos Bonito, Doce e do Serrote, até o pé do lajeiro onde a onça mora. Confira aqui.

 


NEUROEDUCAÇÃO & PRÁTICAS PÉDAGÓGICAS NO ENSINO-APRENDIZAGEM – Resultado do projeto acadêmico sob a temática Neuroeducação: relação escola, professor e aluno na Educação Pública de Maceió, apresentado no Grupo de Pesquisa Neurofilosofia & Neurociência Cognitiva, em 2015, envolvendo alunos e professores do Ensino Médio, bem como gestores de duas escolas do Centro de Estudos e Pesquisas Aplicadas (CEPA), notadamente na Escola Estadual Moreira e Silva, por meio da gestora Ely Quintela Lisboa Carvalho, e na Escola Estadual Princesa Izabel, com as gestoras Sônia Suely Araújo Ferreira e Valquíria Balbino da Silva, em Maceió – AL, destacando o papel da neuroeducação no processo de ensino-aprendizagem e na qualidade de vida de docentes e discentes. Confira aqui.

 


LITERATURA LAM – Reunião que incorpora desde a publicação da antologia poética Primeira Reunião (Bagaço, 1992), às publicações do Nitolino no reino encantado de todas as coisas (Nascente, 2010), O lobisomem zonzo (Nascente, 1998-2011), Trâmite da Solidão (1992-2010), Crônica de amor por ela (edição limitada, capa dura – 2010), Vers&prosa à menina azul (2006), Rol da paixão (2008), Ao redor da pira onde queima o amor (2009), As trelas do Doro, o bacharel das chapuletadas (2006), Proezas do Biritoaldo (2009), Tolinho & Bestinha (2009), Big Shit Bôbras (2008) e Fecamepa (2000). Confira aqui.

 


REENCONTRO MARCADO – Conta a hestória do menino Auquê que encontra o Senhor da Lua para realizar seus sonhos. Transformado no adulto Anteu, passa a viver nua paisagem onírica, em que se vê envolvido com Catxerê, Daumília, Merca e Alcionélia, numa persistente decisão de escolhas que, ao serem tomadas, malogram indefinidamente, numa trajetória de idas e vindas intermináveis. Trata-se do projeto de um romance ainda inédito que, em seguida, foi transformado em roteiro cinematográfico para curta metragem. Confira aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO

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sábado, outubro 17, 2026

ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

 

 Imagem: Pulsações caósmicas, da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM.

 


Em rota de colisão, a sorte fecha a cara & teibei!... – Jesus Zé enganchou-se na porta giratória: Ó mata-burro! Opa! Ele retrocedeu ao perceber outra pessoa engatada, do outro lado, recuando também. Foi necessária intervenção do vigilante, enfim, desembaraçando a passagem. Aí ele entrou; ela, saiu. Pronto, resolvido. Lá dentro, ambiente lotadíssimo: Ué, como coube tanta gente aqui? Puxou a ficha de atendimento e apurou: Vixe, a senha do fim do mundo, nunca serei atendido! Ora. Lá na expectativa, maior lentidão, os olhos às voltas com os ponteiros do relógio e a morosidade emperrada no expediente abarrotado. Zanzou impaciente espremendo-se entre um e outro, ia e voltava, tudo na mesma, já mais de meia hora, a fila na mesma e ele secando os cambitos, quarando, empachado. Num ímpeto aborreceu-se, quase deixa tudo pra lá, não fosse a porta bloquear: De novo? Esse troço não foi com a minha cara! Ao sacolejar aos empurrões, quase causou um acidente na outra pessoa entrante. Coincidência: era a mesma pessoa que havia saído anteriormente, quando ele tentou entrar. Eita! Duas vezes? É sinal... Afastou-se, nova intervenção do segurança, porta desenguiçada. Ufa! Tácita repreensão geral pesou no ar. Desculpe, minha senhora, está bem? Não foi nada. De soslaio, a aguda e unânime reprovação: A coisa aqui tá pesando pra minha banda. E ele só queria ali mesmo era um buraco no chão pra se socar e sumir. Desconfortavelmente indeciso, tentou sair de vez, hesitou; foi prestar assistência à quase vitimada, foi dispensado. Ficou ali encostado, contando carneirinhos entretido de nem se dar conta de 1, 2, 3 horas, naquele impasse: Argh! Ah, flagrou uma cadeira vazia, correu pra se aboletar brincando consigo: Foi passear, perdeu o lugar; daqui não saio, ninguém me tira! Um milagre! Olhou do lado, ela, desculpou-se reiteradamente. Não foi nada. Essa espera dá nos nervos. É. E nos muitos guichês apenas 3 funcionárias se desdobravam: A população do mundo todo tá aqui para ser atendida, só sendo! Ela sorriu: Pelo jeito não seremos atendidos nunca! Ficaram sem jeito: nunca tinham se visto, nem se falado, ao menos. Na dele, passou um rabo de olho e viu-lhe ataviada. Hum... Nela um ar confiante, obstinada, os olhos alados e brandos, podia-se dizer, meigos; havia um quê de remota simpatia. E ele na sua angústia: Que morrinha! Ah, mas entre trombadas e empurrões de corpo, finalmente a fortuna poderia lhe sorrir ali: Será que dá cloro? Meditou apreensivo. E abriu o badalo, adiantando-se desenrolado: Com licença, sou escancha-parente de ninguém, de Jesus só o nome, na verdade sou apenas Zé, um faz-tudo, broco O pagador de promessas. Um vozerio enorme atrapalhou a conversa, logo amainou. E ela: Sim, o senhor ia dizendo mesmo o quê? Foram envolvidos por nova insatisfação generalizada. E virou-se ao ouvido dela: Aqui tá difícil. As funcionárias faziam o que podiam. Ela fitou-o esticando a conversa: As duas vítimas se confrontam! Como assim? Não vê? O quê? De um lado, 3 atendentes dão o sangue, a empresa devia contratar mais, todos se vingam nelas quando deveriam era amaldiçoar a empresa. Ah, é mesmo. De outro, todos nós queremos ser atendidos e já, não há solidariedade. Sim. Vamos mudar de assunto? Pode ser. O que você faz da vida? Sou um estornado! Estamos aqui no mesmo barco, mas não sou tão pessimista. Fazer o quê? Saindo daqui a vida flui. Sim, você está certa: é que já levei demais no espinhaço. E quem não? Riram. Prazer, Jesus Zé. Dália. Novo tumulto, uma funcionária mais altiva e experiente, jeitão de gerentona ou chefe dali, chamou a atenção de todos: Nós estamos aqui todas compenetradas e tentando atendê-los da melhor forma possível, pedimos paciência, tão logo atenderemos a todos. Óóóóóó! Aí ele aproveitou o deixa disso e falou pra ela das escolhas desastrosas: Veja só a minha vida, diga, quem eu julgava amigo me traiu; quem eu tinha por irmão, me negou 3 vezes; fui discriminado pelo sotaque de matuto dos cafundós e só se referem a mim com mangação; então, sigo os passos do pai que nunca tive, desenrolo; nasci dum parto fugitivo: mãe que nunca vi; fui criado por uma suposta avó que jamais foi; cresci fujão; o que via, aprendia; nunca fui ouro 18, aos solavancos levei tudo na caixa dos peitos, escapando, sempre à mercê da ventania e na pedra de Drummond: Tome, uma topada da porra, meu! Afora tudo isso: Uma fila enorme pra todo lado; e pulei muro, desci pelo esgoto, entalei no arame farpado e sempre empurrado portão afora. Ela arregalou-se e ele desembestou-se no tirinete. O tempo passava e a coisa mais que imobilizada, ele no blábláblá, esperava que ela bendissesse a sina dele e, ela, ele que juntasse os cacos do que sobrou e desse a cara à tapa. Não era outra a sua inacessível missão. Nem deu pra ver o ar de repugnância dela com a tagarelice dele, desajeitada, incomodada: Como é mesmo seu nome? Aí ela desanimou: Ele não era louro nem tinha os olhos verdes, do contrário, era pardo e com uns olhos amarelados e fundos; só podia: o destino quer mesmo me pregar uma peça, contraste cômico. Deu-lhe logo um fastio e, a cada pinoia dele, se assustava. Claro, teria muito do que se queixar, a espera na fila, a fadiga, o horror às baratas e muriçocas, indagaria, com certeza: Por que tanta coisa ruim, tanto bicho feio na face da Terra? Ele, mouco. Deus existe mesmo? Olvidava. Aí ele ficou destreinado, todo sem jeito, cheio de pernas, com remorso pelo que pudesse ter feito ali. Mais de 4 horas se passaram. E, de repente, a ficha deles: que coincidência! Graças, cada qual num guichê, falsos sorrisos mútuos pra todo lado. O atendimento de ambos, mesmo em guichês separados, foi concluído. Na saída, emparelharam-se. Primeiro, as damas. Não, pode ir. Não tenho pressa. Também não. Deu certo? Não, terei que voltar depois com outros documentos. E você? Esperar mais até não sei quando para retornar. Curioso: saíam igualmente, titubearam aos balbucios. O senhor vai ou não? Pode ir. Pronde a senhora vai? Morrer! E danou-se porta afora deixando-o com cara de alesado que perdeu a condução. Ele teve um choque com o que ela disse e, no apavoro, engasgado com tudo pela goela, viu-se desenganchar dentro de si: Não vou fazer nada? Cadê-la? Ela sumira mais que apressada para nunca mais... Até mais ver.  

 

Arthur Rimbaud: Transformei silêncios e noites em palavras. O que era indizível, eu escrevi. Fiz o mundo giratório parar... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Elif Shafak: Tente não resistir às mudanças que surgem em seu caminho. Em vez disso, deixe a vida viver através de você. E não se preocupe se a sua cabeça der uma volta de ponta-cabeça. Como você sabe que o lado a que você está acostumado é melhor do que o que está por vir?... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Alaa Murabit: Eu sempre serei a garota que acreditava que podia chegar à lua, em um mundo que ainda debate se as garotas devem ter educação e se as mulheres devem ter direitos reprodutivos... Veja mais aqui.

 

BREVE PALESTRA SOBRE O HOMO SAPIENS

Imagem: Trâmite da motilidade espermática, da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM.

Com pequenos cortes, o homem de Cro-Magnon registrava \ as fases da lua nos cabos de suas \ ferramentas, pensando nela enquanto trabalhava. \ Animais. Horizonte. Rosto em uma panela d'água. \ Em toda história que conto, chega \ um ponto em que não consigo enxergar mais nada. \ Odeio esse ponto. É por isso que \ chamam os contadores de histórias de cegos — uma provocação.

Poema da premiada escritora canadense Anne Carson. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A ESPOSA DA STARTUP - […] Todas as grandes histórias de amor são sobre duas pessoas que unem a história de seus passados e a história de seus presentes em um poema épico entrelaçado — e é isso que querem dizer quando falam que o raio cai. [...] Os professores são as pessoas com quem convivemos mais intimamente durante uma fase da vida, mas a relação é voltada para nós; eles se deixam em segundo plano para servir de canal para o nosso crescimento. [...] A tecnologia nos permite deixar de fazer coisas que não queremos mais fazer. Como chamar um táxi na rua ou enviar faxes. Ninguém quer encarar a morte. E agora não precisamos mais. [...] Não posso deixar de sentir que cada pequeno sucesso é um pequeno foda-se para todas as pessoas que olharam feio para minha mãe em seu sári no Walmart, ou pronunciaram meu nome incorretamente, embora tivesse apenas quatro letras, ou disseram algo casualmente racista e depois disseram: “Mas não me refiro a você”. [...] Ele espiona você. Ele extrai seus dados. Ele arranca sua alma e depois a revende para você. Ele foi projetado para fazer você gastar dinheiro, de modo que fique ocupado demais comprando para perceber que o mundo está pegando fogo. […] Será que eu lamentava o fato de Cyrus ser branco? Para dizer a verdade, às vezes sim. Se Cyrus fosse bengali, eu não precisaria explicar por que roer a ponta de uma coxa de frango era talvez a melhor parte da refeição, ou por que existiam roupas de sair, roupas de ficar em casa e aquelas roupas intermediárias que a gente vestia ao chegar, sem estar pronta para ir para a cama. Eu não teria de explicar todas as regras complicadas sobre onde se pode ou não colocar os pés, nem que ele até podia me beijar na frente dos meus pais, mas não na boca e, certamente, jamais com língua. Mas o que eu achava infinitamente pior era tentar avaliar se um homem tinha a dose certa de "marrom" em si. Ele precisava entender de coxas de frango e de sapatos e não odiar a si mesmo, mas também não podia ser apaixonado demais pela mãe, nem imaginar que eu trocaria mais fraldas do que ele, ou jamais — em hipótese alguma — se sentir atraído pela ideia de me ver de hijab. Ele tinha de ser três partes Tagore, uma parte Drake e uma parte e. e. cummings — isso sem nem entrar no mérito de eu sentir um arrepio só de sentir o cheiro do rosto dele. Então, não: eu não queria ficar pensando na brancura de Cyrus; eu só queria aproveitar o cheiro dele, o pau dele de tamanho perfeito e o fato de que, entre todas as pessoas que conheci na vida, ele era quem mais me passava a sensação de estar em casa. [...]. Trechos extraídos da obra The Startup Wife (Scribner, 2022), da escritora e jornalista de Bangladesh, Tahmima Anam, autora de livros como The Bones of Grace (2016), The Good Muslim (2011) e A Golden Age (2008).

 

FEMINISMO DECOLONIAL - [...] A missão do feminismo civilizacional é clara: as mulheres europeias estão embarcando em uma cruzada contra a discriminação sexista e os símbolos de subordinação que persistem em sociedades fora da Europa Ocidental; elas se apresentam como um exército defendendo o continente de uma invasão de ideias, práticas, mulheres e homens que ameaçam suas conquistas. Essa narrativa é patentemente falsa. Ela serviu para despolitizar as lutas das mulheres da década de 1970, para ofuscar as mulheres do Terceiro Mundo e para apagar as conquistas do feminismo negro. A liberdade individual — eu me visto como quero (mas não posso usar véu) — torna-se o símbolo das lutas da década de 1970; isso é um claro insulto às lutas das mulheres trabalhadoras, imigrantes e refugiadas políticas. A luta do feminismo civilizacional é elevada a uma batalha universal entre o bem e o mal. [...] Para se tornar um movimento consolidado e não uma ideologia marginal, para entrar nos corredores do poder, para convencer o Estado e o capital de que existe um feminismo que não só não representa uma ameaça para eles, como também pode se tornar sua arma ideológica e política, o feminismo civilizacional teve que se transformar no feminismo militante, substituindo seus oponentes da época (o patriarcado branco, o Estado e o capital) pelo Islã. [...]. Trecho extraído da obra Un féminisme decolonial (‎Fabrique, 2019), da cientista política e ativista francesa Françoise Vergès. Veja mais aqui & aqui.

 


TEATRO & CINEMA: O PAGADOR DE PROMESSAS - A peça teatral O pagador de Promessas (Agir, 1961), do escritor, dramaturgo, autor de telenovelas e membro da Academia Brasileira de Letras, Dias Gomes (Alfredo de Freitas Dias Gomes – 1922-1999), foi escrita em 1959 e estreou nos palcos brasileiros em 1960, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em São Paulo. Embasou o filme O pagador de Promessas (1962), escrito e dirigido pelo ator, roteirista, escritor e cineasta, Anselmo Duarte (Anselmo Duarte Bento – 1920-2009), tornando-se o primeiro sul-americano a vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes (em 1962) e o primeiro indicado brasileiro ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (em 1963), um marco para as artes cênicas e o cinema brasileiro. Confira detalhes aqui.


 

ANCESTRALIDADE NOS TEMPOS ATUAIS – O tema da ancestralidade tem permeado debates e discussões, trazendo reflexões por meio de depoimentos e poemas de personalidades, tais como Wole Soyinka, Jones Manoel, Nelly Sachs, Conceição Lima, Sónia Sultuane, Marco Nicolini, Augusto Boal, Malika Mokeddem, Vanessa Martínez Rivero, Sinéad Gleeson, Cindy Sheehan & Ruby Bridges. Confira aqui.


 

CANTO & SOU XEXÉU – O livro autoral Canto & sou xexéu (CriArt, 2023) foi lançado com tiragem limitado e feito em homenagem à memória de Gercino Gonçalves de Lima e à convivência de infância e adolescência, durante a trajetória de passagem do distrito a Município, articulando ancestralidade a partir do passarinho e sua convivência com marimbondos e vespas durante período pandêmico, a trajetória de seu êxodo por Macaco e Aurora, atravessando acontecimentos históricos que permearam as litas pernambucanas durante a passagem dos séculos, até alcançar a sua transformação em humano no século 20. Veja detalhes aqui.


 

JUPI – Este o 8º episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna, contemplando desta feita, Jupi e as Mulheres Fulni-ô, contando da história triste de um beija-flor no olho d’água dos Ouricury - sigilo yaathe e sagrado Fulni-ô -, da palmeira e o jardineiro, dos sítios Catonho, Miné, Pau-Ferro, Raposa e Xícurus, dos rios da Chata e o do Retiro, dos riachos do Estreito e da Volta do Rio, desde o Peri-Peri, das missangas e das gentes de Areias, Barro Vermelho, Lagoa da Pedra, Marmeleiro, Miné, Pau-Ferro, Rio da Chata, Saco-dos-bois, Santa Rosa, Serrinha e Várzea da Raposa. Veja mais aqui.

 


PINTANDO NA PRAÇA & IBAVALEUNA – O projeto Pintando na Praça é desenvolvido pelo Instituto de Belas Artes Vale do Una (IbaValeUna), desde de 2010, comandado pelo poeta e artista visual, Paulo Profeta. Nesta postagem registra-se as edições de 2017 a 2023, culminando com a publicação do catálogo Pintando nas Praças de Pernambuco (Funcultura, 2025). Confira aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO

Feira de Literatura & Artes dos Palmares (FLIARP), de 19 a 23 de outubro, no Complexo Esportivo Portelão, Palmares – PE. No dia 21, às 20h, com o lançamento do livro Setígono: Teoria, história e poesia, de Admmauro Gommes, José Durán y Durán e Luiz Alberto Machado, na Plataforma Rio Una do evento. Veja mais aqui, aqui & aqui.


 


sábado, outubro 10, 2026

RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

 

Imagem: Contornos da ubiquidade, da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM.

 


Ressaca aluada de panaceia insólita… - Zeca Biu chegou em casa avexado de sede e foi logo pra geladeira, pegou uma garrafa, sacudiu no copo e tomou de vez, de quase cair pra trás! Ah, bá! Não se sentiu lá assim muito bem, pois, logo a vista embaçou, uma tontura redemoinhada levou-lo aos giros do planeta, cambaleou, segurando-se como podia de tão grogue que ficou e, aos tombos desmazelados, arreou pesado no canto, arrastou-se à porta do quarto, jogando-se na primeira cama que encontrou: buft! Maior ronco. Eita! Logo deu de cara com um vetusto nigromante, no meio duma estrada perdida. Onde estou? Pronde vai? Ora, não sei! Prum menino atilado, parece ainda tão donzelão!? Oxe! Tome tento, rapaz! Quem é você? Digamos: YHWH! Hum? Deixa pra lá, alesado. SOS! Olhe: saia dessa anemoia, dessa monachopsis, torne-se você! Eu? De súbito o ensolarado nublou, raios e trovões, coisa de procela medonha logo estiada na percepção do cenário: A vida dele era um horripilante sorriso de Glasgow. Vôte! Ele enocegou apalermado e viu uma perna enganchar-se na outra, os braços esticarem-se às avessas, os dedos envergados na palma da mão desmunhecada, o braço dando volta, o muque amolecendo, as canelas entortadas, a corcunda inchar-se, os olhos destrambelharem-se, a boca entronchada nos beiços virados, a língua enrolada pra dentro da garganta, venta espragatada de tapar a respiração, os ossos crescendo, o quengo pesando, o peito abrindo-se, o bucho inchando, os pés se encolhendo, a bunda esticando, desmanchando-se numa autocalosotomia involuntária, aos peidos de cagar-se todo: Tô virando bicho, socorrrrrr...! Póim! E quase comeu-se a si mesmo, ouroboros. Tá doido? Nisso agitou-se desnorteado com seu imobilismo bizarro e só via o mundo rodando de pernas pro ar, e quanto mais corria, não saía do lugar, cansou-se e cambotou desabado: Ploft! Não se sabe quando, enfim, despertou ofegante de tão agoniado. A mãe do lado: Calma, meu filho! Onde estou? Na enfermaria do quartel! Como assim? Você pegou a folga e teve um piripaque lá em casa! Em casa? Sim. Há quanto tempo estou aqui? Mais de 6 meses em coma. E os bichos do quintal? Tudo sadio. Ah, bom, tive um pesadelo. Agora relaxe. Não lembro de nada! Vieram médicos e levaram-no pra exames: foi revirado, esmurrado, sacudido, estapeado; no final: jogaram pra cima e deixaram-no estatelar-se ao chão: Tá curado, pronto! Isso levou umas 8 horas de tetei e, depois, empurraram-no de volta, na marra. Cadê minha mãe? Já vem. Pouco tempo depois a genitora reapareceu enxugando os olhos. Que foi? Você está de alta, vamos pra casa já. Como? Foi uma correria. Ali mesmo já tramou escabroso, como quem pegou asa e mergulhou profundamente nas suas visagens tresloucadas. Foi obrigado a manter-se de resguardo, por um bom tempo acamado, o que não o deteve de suas neuroses estapafúrdias: danou-se a trocar pinto por hipopótamo, gogo por rinoceronte, fazendo conta cantarolando: Um pra eu, um pra tu, um pra eu!... Pagava 5, levava 10. De novo! Tais ligado, Anselmo? Nessa hora a mãe trouxe uma bombástica nova pro seu ganhador aberto: uma polpuda herança a que tinha direito do espólio de seu falecido genitor e do inventário da matriarca: Tava de cu pra lua, né? Regozijou-se: Pudera, pra compensar a dispensa da corporação militar, invalidez de biruta. A reserva chegou bem na hora: a ideia do zoo e ampliação do jogo já transmunicipal, bufunfa da muita: comprou um sítio, que queria como chácara, mas dizia ser parcela, na verdade, era um baita fazendão de zis hectares: Tais enganando a quem, hem? Oxe, logo as doidices de todo-poderoso pra risadagem de festa: Comigo ou vai, ou racha! Só faltam 3 dedinhos de nada, chego já lá! E partiu passando gato por lebre aos solavancos e, mesmo assim, caiu nas graças do povo e já sonhou vereador desbancando êmulos na defesa dos animais, prefeito mais votado que foi, antes de concluir o mandato, levado pelos braços do povo para Assembleia Legislativa, combativo eleito para a Câmara dos Deputados, pródigo Senador da República, conduzido a próspero governador do seu estado e, quiçá, presidente do Brasil, tudo na base da veniaga! Destá! Se achasse que estava do lado errado, saltava de banda, pinotava pro outro: o que era quilômetro, virava palmo e meio, só! Pra isso já se dispunha a virar a casaca, fiel ao perjúrio pra engalobar clichês, abjurar de contratos possivelmente avençados, dando saltos soltos no ar de tão sabido, desde que fora o Juquinha dos meninos, aprendiz de feiticeiro que foi pra cabeça da mesa, o Camonge da peitada, o Malasartes das jogadas, criando boatos, tudo só no pé pule, crime besta, sabe? Era só chegar com a dinheirama e tudo certo! Ô, zerola, peraí, pronde vai tão apressado? Ôpa, quem falou? Ih! Ô mãe! Que foi? Tô ouvindo coisas! Ligue não! O que foi mesmo que aconteceu comigo? Ora, não sei: você entrou azogado em casa, foi pra geladeira, agarrou-se na garrafa, encheu o copo, virou dum gole só e se envultou! Que água era aquela? Ah, meu filho, foi uma garrafada que comprei dum moço que passou vendendo na porta, um elixir para tomar em jejum, uma colher chá, todo santo dia. Como é o nome dela? Sei lá, o rótulo despregou-se! Ah, preciso encontrar essa milagrosa! E saiu e zanzou que só à procura, logo soube: era a Oráculo Teibei dum tal de Doro! Oxe, é com essa que eu voo!... E foi, parece que deu tudo certo, parece. Até mais ver.

 

E. E. Cummings: É preciso coragem para crescer e se tornar quem você realmente é... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Carla Camurati: Existe uma sociedade que só pensa e dá valor à aparência, onde todos são considerados lindos. Há inúmeros filtros disponíveis para alterar a própria imagem. Isso leva a um adestramento e a um culto onde o valor reside unicamente na relação estética... deixando o interior vazio... Pensar na finitude nos ajuda a viver melhor!... Veja mais aqui & aqui.

Gore Vidal: Imagine a Terra como um organismo vivo que está sendo atacado por bilhões de bactérias, cujo número dobra a cada quarenta anos. Ou o hospedeiro morre, ou o vírus morre, ou ambos morrem... A genialidade da nossa classe dominante reside em impedir que a maioria das pessoas questione a injustiça de um sistema onde a maioria trabalha arduamente, pagando impostos pesados sem receber nada em troca... Veja mais aqui.

 

DESCOBERTA

Imagem: Limiar da loucura poiética, da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM.

Sempre \ como a marcha fútil de exércitos de caranguejos \ da fortaleza do mangue até a praia. \ Sempre \ como a franja de palmeiras esperando \ para ser rompida. \ Já sei, no momento em que você desembarcar, me \ tornarei uma ilha. \ Nas sombras da floresta tropical, \ espero em submissão. \ Em meio ao tremor das folhas, \ pratico um discurso hesitante. \ Sempre \ meu coração impenetrável.

Poema da premiada escritora jamaicana Olive Senior (Olive Marjorie Senior).

 

COTRABANDISTA DE LIVROS - [...] Meu xeique me advertiu contra os livros dos filósofos, pois seus autores não eram muçulmanos e, portanto, matá-los não seria pecado — e foi exatamente isso que me fez, ao cair da noite, após o círculo de estudos dele, esgueirar-me até os mercados de papel ou à biblioteca do cã em busca dos livros que meu xeique havia amaldiçoado! [...] Eu não conseguia tirar os olhos dela, como se ela fosse uma das mulheres do Paraíso, que não menstruam nem sofrem com secreções mucosas. [...]. Trechos extraídos da obra The Book Smuggler: A Novel (Hoopoe, 2021), da premiada escritora saudita Omaima Al-Khamis (Umaima Abdullah al-Khamis).

 

CONTRADIÇÕES EUROCÊNTRICAS – [...] Há dois consensos hoje entre os intelectuais europeus: a Europa só sobrevive a um conflito previsível e de dimensões desconhecidas com direitos sociais e coesão interna; e a Europa não sobrevive sem Europa. A Europa não é um continente. Não é uma moeda. Nem é a União Europeia. A Europa é acima de tudo uma ideia, que dentro dela contém dois projetos antagônicos: o Estado Social europeu e a União Europeia. Esta contradição está, entre outras coisas, na origem da votação popular no Brexit, mais do que os “populismos” (aliás, excessivamente levados ao colo pelos media). Estamos num cruzamento histórico entre dois projetos, tudo indica, irreconciliáveis. Que a rigor nunca estiveram juntos, apesar de o senso comum insistir em associar União Europeia a Estado Social. O Estado Social nasceu na Europa em 1945, de um pacto social inédito até então entre capital e trabalho. Pacto que em 1947 e 1948 estava criado e consolidado, com uma vastidão de direitos universais prestados pelos Estados nunca conhecida na história. A União Europeia (antes CEE e CECA) nasce historicamente de um acordo entre as classes sociais dirigentes dos países mais ricos, na Europa, sobretudo o motor industrial, França e Alemanha. É um pacto entre capitais. O projeto europeu começa em 1947, vai desenvolver-se muito lentamente, ter o seu primeiro ato em 1951, mas só nos anos 80, depois das crises de 1970-73 e 1981-84, é que vai consolidar-se. [...] Da mesma forma que a crise de 1970 tinha dado um impulso decisivo à criação da moeda única, o Tratado de Lisboa, que entrou em vigor em 2009 e substituiu o direito ao trabalho pelo direito a procurar emprego, pondo assim fim ao pacto social europeu, não pode ser desvinculado dos efeitos da crise de esgotamento das “novas tecnologias” de 2001, e depois da crise de 2008. Com a Europa a enfrentar a questão do mercado de trabalho europeu como um dos pontos centrais do seu programa na última década (2008-2018). A crise aprofundou-se, portanto. Menos investimento público, mais imobilização da capacidade produtiva (desemprego), salários mais baixos, desgaste cada vez maior da força de trabalho (em exaustão, burn out, sofrimento generalizado), usada ao limite cada vez mais, com um aumento brutal da intensificação dos ritmos e mesmo das horas reais trabalhadas. O que será da UE quando chegar a crise do investimento em automação, com os esqueletos no armário do Fundo de Estabilização de 2008? [...]. Trechos do artigo O Estado Social e a União Europeia: “do berço à cova” - A Europa é acima de tudo uma ideia, que dentro dela contém dois projetos antagónicos: o Estado Social europeu e a União Europeia. (Público, 2019), da historiadora, escritora e professora portuguesa Raquel Varela (Raquel Cardeira Varela), autora de obras como A História do PCP na Revolução dos Cravos (2011), História do Povo na Revolução Portuguesa (2014), Breve História da Europa (2018), Breve História de Portugal (2023), O Canto do Melro - A Vida do Padre José Martins Júnior (2024) e Do 25 de Novembro aos Nossos Dias (2025).

 


JEFTÉ & ENTREVISTA – O professor, poeta e produtor cultural, Janilson Sales, membro da Academia Palmarense de Letras (APLE), participou do XII Congresso Nacional de Educação (CONEDU) com apresentação do estudo O cordel no fazer pedagógico: estratégias lúdicas e alinhamento curricular nos anos iniciais. Ele concedeu uma entrevista em que fala de seus projetos Museu do Homem do Campo, Cordelteca e Cordeluna, entre outros, comprovando seu ativismo pedagógica na área do cordel. Confira aqui.

 


EDUCAÇÃO, TEMAS & DEBATES – Reunião de reflexões atinentes à temática dos debates da educação contemporânea, com questões sobre aprender, autonomia, leitura, contar história, racismo & diversidade, responsabilidade, política, violência, pós-humano, criatividade, entre outros, a partir do pensamento de Paulo Freire, Antônio Cândido, Kate Manne, Rosi Braidotti, Maryanne Wolf, Ana Mae Barbosa, Rubem Alves, Mia Couto, Narges Mohammadi, Beatriz Paredes Rangel, Veronica Gorrie, Stela Maris Sanmartin, Hélder Pinheiro, Jones Manoel, Ruby Bridges. Veja aqui.

 


CIRCO ITINERANTE – Uma experiência de produção cultural ocorrida em meados da década de 1980, em Palmares (PE), que durou 15 dias de muitas atividades artísticas. Foi neste evento que ocorreram shows musicais de Ozi dos Palmares, Zé Ripe, Mazinho, Everaldo Souza & Zito Arão, entre outros; exposições pictóricas de Ângelo Meyer, Rollandry Silvério & outros artistas da região, recitais de poesias, afora apresentações teatrais, de guerreiros, de caboclinhos, de dança, com lançamento inaugural da revista em quadrinhos Aventureiros do Una. Além disso, matinês e recreações para a criançada durante o dia, com o Palhaço Pirulito e apresentações circenses, como a mulher-de-borracha, engolidor de fogo, acrobacias e equilibrismo. Veja mais detalhes aqui.


 

JUCATI – Este é 7º episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna, explorando o cenário de Jucati, no Sítio Ouricuri, antes Pindorama, tomando água de coco pra saber do pau-ferro Jucá, do povo da Vila Neves, do riacho da Pracinha e das coisas dos rios Chata e Canhoto. Confira aqui & aqui.

 


SETÍGONO – Está previsto para o dia 21/10, às 20h, na Fliarp, em Palmares (PE), o lançamento da antologia Setígono – Teoria, História e Poesia – Literatura Experimental. Para mais informações acerca dessa nova modalidade poética confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


Minha infância começou depois que virei adulta. Minha forma de brincar é fazendo meus filmes...

Depoimento da jornalista, cineasta, fotógrafa, atriz, publicitária e professora, Sandra Ribeiro, que realizou diversos filmes, entre eles, os documentários Teatro e a Música de Valdemar de Oliveira (1998) e Nóis Sofre Mas Nóis Goza (1999), o ficção O Recife que Aprendi a Amar Depois (2000), inspirado na Evocação do Recife de Manoel Bandeira; o ficção A Partida (2003), baseado no conto homônimo do escritor Osman Lins; o curta-metragem ARMORiALMA de Suassuna (2010), o ficção Yara (2011), baseado no poema da escritora Cida Pedrosa, faz parte do projeto Olhares sobre Lilith; o longa-metragem ARMORiALMA (2023), entre outros.

Veja mais aqui.


 

 


NÊGO BISPO, IA GENBERG, JOUMANA HADDAD & FUXICO CULTURAL

  Imagem: Acervo ArtLAM . Bródio na pareidolia do perdulário pendular... - Alagoinhanduba estava em polvorosa com os estardalhaços causad...