segunda-feira, abril 22, 2019

LYGIA FAGUNDES TELLES, HILDA HILST, LEO BROUWER, MAURIZIO BARRACO & EPÍSTOLA SOLITÁRIA


EPÍSTOLA SOLITÁRIA – Olha a dida, 1 real! Não era isso, só personagem. Vestiu-se da bermuda vermelha, suspensórios, blusa branca de algodão, meião e sapatilha, boné, foi pro mundo, carregado. A máscara, a própria face nua: fisionomia do desassossego, premência da vida. Um curioso: Tem de quê? Morango, cajá, coco, sabores... O sonho de escritor distante, talento algum entre frases desconexas. Cometia versos esdrúxulos, enchia o peito entoando dores: voz estival no negrume invernoso: erros de alvo, talhos da alma. Suportava o escárnio, miséria calamitosa e suicida. Olha a dida, 1 real! Hem? Graviola, araçá, mangaba... O calor capaz de degelar tudo, até seu coração de rio. Também sangrava no mormaço, arrastando os ferros da chacota entre centavos e engulhos, cuspe escasso na consideração. Tem esfirra? Cavaco? Lágrimas no picolé. Gente, muita gente, 2 para 500, ofertas, liquidações, jogo, chamamentos, toldas, parques de diversão, praça entulhada de rostos vazios, duas de quinhentos no pátio da igreja, músicas de radiola de fichas, o cabaré do meio dia. Arrodeava, as ruas cheias de pernas. Fim da tarde, a mão alisa o queixo, vergonha é coisa sem vigência. Não havia lenda na situação tão sisuda. Ao banheiro, porta aberta, entrou, a micção. Pronto, novo fôlego, higiene pessoal, o trinco, cadê? Mãos molhadas, nenhum ferrolho, maçaneta, trancado. E agora? Sábado, todo mundo já largou, 36 horas de espera, a fome, a sede, pensando, o passado envelhecido, ressentimentos redivivos, frustrações, mágoas, fazer o quê? Só faltava essa! As didas que sobraram dava para molhar o bico pela noite, outro dia inteiro, domingo mais sem jeito, mais uma noite longa, madrugada infinda, amanhecer vazio. E se a segunda fosse feriado? Faça isso não! A sorte por um triz. Nenhuma dida, a pia, o espaço da cela, o estuque de mármore, a água do vaso sanitário, o buraco do chuveiro tapado com um toco de madeira, o chão frio, o calor de lascar: Vou morrer, ninguém dará conta. Pagar todos os meus pecados: Quem mandou errar tanto na vida? Bem empregado. Esperar, esperança longínqua. Vozes. Tem alguém aí? Tem. Vai demorar? Estou preso! E beibeibei, pesadas, pé de cabra, arrombamento. Finalmente, o alivio, o frio do mundo se libertara. E ele, com tanta gente, sitiado exangue na sua solidão. Era só voltar para casa, dar conta do sumiço, aguentar o resto de vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Então ressoaram os passos dele num andar atribulado. A chave deu uma volta quase completa na fechadura. A maçaneta preta girou. Ficamos um defronte do outro. Ele estava mais magro, a barba crescida. Os olhos tinham um brilho de febre. [...] Debruçou-se na mesa, apanhei um lápis e comecei a desenhar distraidamente numa folha que tinha um borrão de tinta. Como dizer-lhe que ele também representava? E tão mal. Decorara o papel e agarrava-se a ele sem talento, sem vocação. O que aconteceria quando descobrisse que a solução era rasga-lo? [...] Limpei na saia as palmas úmidas das mãos. Só porque não era proibido? Quis perguntar-lhe. Tirei os sapatos. [...] Sorri para mim mesmo. Não? Se o amava, estava condenada. Se não o amava, estava condenado ao castigo maior de viver sem amor. Não havia mesmo por onde escapar. Ajoelhei-me diante dele. [...] Tomei-lhe as mãos. E vi no seu pulso uma cicatriz de bordas franzidas como uma boca que se nega a falar. [...].
Trechos extraídos do romance Verão no aquário (Presença, 2006), da escritora premiada e membro da Academia Brasileira de Letras do Brasil e de Lisboa, Lygia Fagundes Telles. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.  

A MÚSICA DE LEO BOUWER
A música do violonista, compositor e regente da Orquestra de Cuba, Leo Brouwer. Veja mais aqui e aqui.

A A ARTE DE MAURIZIO BARRACO
A arte do artista visual italiano Maurizio Barraco. Veja mais aqui.
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A OBRA DE HILDA HILST
Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas
escomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te
sôfrega
Como se fosses morrer colado à
minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do
amanhecer.
A obra da poeta, dramaturga e ficcionista Hilda Hilst (1930-2004) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


sexta-feira, abril 19, 2019

EUGENIO MONTALE, MARITAIN, QORPO SANTO, AYSSA BASTOS & OS HEBREUS DE JOSEFO


OS HEBREUS DE JOSEFO - Às voltas com questões religiosas durante a adolescência, dei de cara com a coleção História dos Hebreus (Americas, 1956), do historiador e apologista judaico-romano Flávius Josephus (37-100), que forneceu importante panorama do judaísmo no sec. I, reunido em nove tomos que são divididos em três partes, compreendendo as Antiguidades judaicas, a Guerra dos judeus contra os romanos e o apêndiee com a resposta de Flávio Josefo a Ápio, o martírio dos macabeus e o relato de Filon. Ao iniciar a leitura pensei comigo: Ué, estou relendo a Bíblia cristã? Não, não era bem o Velho ou o Novo Testamento, era um relato histórico importante acerca do judaísmo. Tanto é que no primeiro volume estavam os quatro livros da primeira parte dedicada às Antiguidades judaicas, com a criação do mundo até a vitória dos hebreus sobre os madianitas, tornando-se senhores de todo o seu país, constituindo Moisés a Josué para ser o guia do povo, na construção das cidades e lugares de asilo. No segundo volume, o Livro Quarto sobre o discurso de Moisés ao povo e as leis que lhe dá, seguido do quinto ao sétimo livro, da passagem de Josué pelo Jordão com o exército por um milagre, até as últimas instruções de Davi no leito de morte ao seu filho Salomão, que o enterra com magnificência extraordinária. No terceiro volume, o oitavo livro das antiguidades judaicas, com a ordem de Salomão de mandar matar Adonias, Joab e Semeu, tirando a Abiatar o cargo de Grão-Santificador, desposando a filha do rei do Egito, seguindo-se até o livro décimo segundo, quando Tolomeu Filadelfo, rei do Egito, liberta cento e vinte mil judeus que estavam escravos no seu reino, mandando vir setenta e dois homens da Judeia para traduzir em grego as leis dos judeus e, ao mesmo tempo, mandar riquíssimos presentes ao templo para tratar os deputados da melhor maneira possível. No quarto volume começa a parte do décimo segundo livro das Antiguidades judaicas, com os favores recebidos pelos judeus dos reis da Ásia, até o décimo quinto livro,quando Herodes fala com tanta generosidade a Augusto que conquista a sua amizade, acompanhando-o ao Egito e o recebendo em Tolemaida. Já o quinto volume começa com o décimo quinto livro da primeira parte das referidas Antiguidades, com Mariana recebendo Herodes com frieza ao seu regresso da visita a Augusto, até o décimo nono livro com o imperador Claudio confirmando o reino a Agripa e acrescentando-lhe a Judeia e Samaria, dando o reino de Cálcida a Herodes, irmão de Agripa e promulgando éditos favoráveis aos judeus. O sexto volume compreende o décimo nono livro da primeira parte, quando o rei Agripa parte para seu reino e coloca na sacristia do templo de Jerusalem as cadeias que eram um sinal da sua prisão. Nesse volume dá-se inicio a segunda parte, compreendida como a História da guerra dos judeus contra os romanos, do livro primeiro com Antioco Epifanio, rei da Síria, tornando-se senhor de Jerusalem e suprimindo o serviço de Deus, até Herodes ter arrancado de si uma águia de ouro consagrada sobre a porta do templo, e a morte de Antipatro com os serviços funerais prestados por Arquelau. O sétimo volume conta com o livro segundo da segunda parte, compreendendo a ida de Arquelau ao templo, depois dos funerais do seu pai, Herodes; até o livro quarto, com revolta de Vindex nas Gálias contra o imperador Nero e tomada de direção de Vespasiano depois dos estragos na Judeia para invadir Jericó sem resistência. No oitavo volume, o quarto livro da segunda parte, a partir da descrição de Jericó sobre a fonte nos arredores do lago Asfaltite e dos espantosos restos do incêndio de Sodoma e Gomorra, até o sétimo livro, com a horrível maldade de Catulo, governador da Línia Pentapolitana, para se enriquecer com os bens dos judeus e a morte de Jônatas, queimado vivo por ordem de Vespasiano. O nono volume com a segunda parte da Guerra dos judeus contra os romanos, com a captura de sicários que se haviam refugiado nos arredores de Cirene, tendo a maior parte deles cometido suicídio. Como apêndice desse volume, a terceira parte que compreende a resposta de Flávio Josefo a Ápio, o martírio dos macabeus e o relato de Filon. O trabalho histórico deste autor registrou a destruição de Jerusalem, em 70dC, pelas tropas do imperador Vespasiano e entre as suas obras encontram-se ainda Contra Apião, sobre a religião e filosofia judaica, e a sua autobiografia. Trata-se de historiador bem instruído nas culturas judaica e grega, e que falava perfeitamente o latim e o grego. Filiou-se ainda jovem ao grupo religioso dos fariseus, quando a sua terra e o seu povo estiveram sob o domínio romano. Com a revolta dos judeus contra os romanos de 66 d.C, ele foi enviado para dirigir as operações contra os dominadores, na turbulenta Galileia. Nos embates logrou algumas vitórias, mas logo foi derrotado, rendendo-se ao exército romano. No final da guerra, foi conduzido à Roma, onde lhe conferiram a cidadania romana e também uma pensão do Estado, época em que lhe foi dado o nome romano de Flávio, lá vivendo até a morte. É considerado pelos judeus como um oportunista por suas ligações com os romanos, sendo sua obra preservada e divulgada pela igreja cristã, por conter minuciosas descrições de personagens dos Evangelhos e de Atos dos Apóstolos, com inúmeros pormenores do mundo greco-romano relatados, alcançando credibilidade destacada. Por conta disso, posso dizer que com a leitura da coleção pude ter uma visão mais ampla sobre o judaísmo e o cristianismo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] o ser humano está metido entre dois polos: um polo material, que não diz respeito na realidade, à pessoa verdadeira, mas antes à sombra da personalidade ou o que chamamos, no sentido estrito da palavra, a individualidade; e um polo espiritual, que diz respeito à personalidade verdadeira [...] O fim da sociedade é o bem da comunidade, o bem do corpo social. [...] O bem comum da cidade não é nem a simples coleção dos bens privados, nem o bem próprio de um todo(como a espécie, por exemplo, a respeito dos indivíduos, ou a colmeia a respeito das abelhas) que dirige só para si e sacrifica as partes. É a boa vida humana da multidão, duma multidão de pessoas; é a sua comunhão no bem viver; é, portanto comum ao todo e às partes, sobre as quais se derrama e que devem beneficiar dele; com risco de se desnaturar si mesmo, implica e exige o reconhecimento dos direitos fundamentais das pessoas [...] comporta como valor principal a mais alta acessão possível (isto é, compatível com o bem do todo) das pessoas à sua vida de pessoa e à sua liberdade de expansão, - e às comunicações de bondade que, por sua vez, daí procedem. [...] O que constitui o bem comum da sociedade política não é, pois, somente o conjunto dos bens ou serviços de utilidade pública ou de interesse nacional (estradas, portos, escolas, etc.) que supõe a organização da vida comum, nem as boas finanças do Estado, nem o seu poder militar, não é somente o conjunto de leis justas, de bons costumes e de instituições capazes que dão a sua estrutura à nação, nem a herança das suas grandes recordações históricas, dos seus símbolos e das suas glórias, das suas tradições vivas e dos seus tesouros de cultura. O bem comum compreende todas estas coisas, mas muito mais ainda, e mais profundo, mais concreto e mais humano [...] envolve a soma ou integração sociológica de tudo o que há de consciência cívica, de virtudes políticas e de sentido do direito e da liberdade, e de tudo o que há de atividade, de prosperidade material e de riquezas do espírito, de sabedoria hereditária inconscientemente posta em ação, de retidão moral, de justiça, de amizade, de felicidade e de virtude, e de heroísmo nas vidas individuais dos membros da comunidade, enquanto tudo isso é, numa certa medida, comunicável, e recai numa certa medida sobre cada um e auxilia assim cada um a completar a sua vida e a sua liberdade de pessoa. É tudo isso que faz a boa vida humana da multidão [...] O bem comum é coisa eticamente boa. E no próprio bem comum está incluído como elemento essencial o máximo de desenvolvimento possível hic et nunc das pessoas humanas, daquelas pessoas que constituem a multidão unida, para constituir um povo, segundo relações não somente de força, mas de justiça. [...].
Trechos extraídos da obra A pessoa e o bem comum (Morais, 1962), do filosofo francês Jacques Maritain (1882-1972). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

A POESIA DE MONTALE
Se me afasto dois dias
os pombos que bicam
na minha sacada
começam a se agitar
seguindo as instruções corporativas.
Ao meu regresso a ordem se refaz
com suplemento de migalhas
e para desapontamento do melro que faz a naveta
entre o respeitado vizinho de frente e eu.
A tão pouco se reduziu minha família.
E há quem tenha uma ou duas, que esbanjamento meu Deus!
Solidão, poema do poeta, prosador, jornalista e tradutor italiano Eugenio Montale (1896-1981), Prêmio Nobel de 1975. Veja mais aquiaqui.

A ARTE DE AYSSA BASTOS
A arte da poeta, ilustradora, fotógrafa e designer Ayssa Bastos, autora do livro de poesia visual Aguardados (2012), que possui formação em cinema e desenho industrial e tem realizado exposições de artes plásticas, ilustrações, poesia visual. Veja mais aqui.
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A OBRA DE QORPO SANTO
Cruzes! Estou hoje tão científico que até pelos calcanhares sinto entrarem-me pensamentos, ideias e não sei que mais.
A obra do dramaturgo, escritor e jornalista José Joaquim de Campos Leão, mais conhecido como Qorpo Santo (1829-1883) aqui.


quinta-feira, abril 18, 2019

WALT WHITMAN, ENRIQUE DUSSEL, NELSON NUNES, THÉRÈSE PHILOSOPHE & (IN)JUSTIÇA DA CIA. HELIÓPOLIS


THÉRÈSE PHILOSOPHE – Quase uns trinta anos atrás me deparei com um volume impresso jogado no lixo, assim, sem as capas, folhas de rosto, nem sumário, algumas páginas soltas e outras arrancadas. Não dava para saber que livro era aquele, contudo, como sempre fui achegado às leituras, deu-me uma curiosidade para saber do que se tratava. Tive que organizar, pois, faltavam mesmo algumas páginas, o que dificultava a minha empreitada de recuperá-lo. Depois de muito trabalho, consegui identificar uma introdução, uma primeira parte denominada Thérèse philosophe; a segunda, Histoire de la Bois-Laurier; e a terceira, Suite de l’histoire de Thérèse philosophe. Havia entre as páginas, algumas delas ilustradas com gravuras eróticas. Isso aguçou ainda mais o meu interesse e, mais ou menos organizado, folheei. Ah, gostei do que vi, li e reli, pudera. Guardei-o entre outros alfarrábios esquecidos por trás das fileiras numa das minhas estantes. Só muito tempo depois soube que se tratava da obra Thérèse philosophe ou Mémoires pour servir à l’histoire du P. Dirrag et de Mlle Éradice, uma publicação de 1748, com ilustrações do gravador francês François-Rolland Elluin (1745-1810), e de autoria controversa. Explico: o jornalista, escritor e dramaturgo Charles Monselet (1825-1888), apelidado de O rei dos gastrônomos, foi quem, por volta de 1870, atribuiu ao Marquês de Sade (1740-1814), a narrativa libertina sobre a cortesã anafrodita ou a empregada libertina, anunciado como publicada em uma edição clandestina em Avignon, em 1787. Já segundo inscrição em uma das obras do próprio Sade, é dada a autoria como sendo do escritor e filósofo francês Jean-Baptiste de Boyer (1704-1771), o marquês d’Argens, como um romance libertino do século XVIII, que relata as cenas místicas de Mademoiselle Eradice com o reverendo Dirrag, contando com raciocínios metafísicos e lascivas conduções entre a Madame C e o abade T. Entre outras inscrições, uma delas dá conta de ser o escritor francês Louis-Charles Fougeret de Monbron (1706-1760) o verdadeiro autor, aumentando a controvérsia. Bem, o que consegui apurar de mesmo, foi que o livro em questão, foi inspirado no ruidoso julgamento do casal Marie-Catherine Cadière e Jean-Baptiste Girard, ocorrido de fato em 1731, no qual o pai de Boyer d'Argens foi Procurador Geral no Parlamento de Aix, tendo, assim, o suposto autor alterado o caso usando anagramas, como a troca das nomeações de Cadière para "Eradice" e Girard para "Dirrag". Na real, o caso se deu por conta da bela jovem Cadière, filha de um comerciante arruinado, protegida pela mãe e irmãos eclesiásticos, ter se envolvido com os sermões de sensibilidade mística excessiva do carisma espiritual do padre jesuíta Girard, apresentando-a como santa. Tal fato levou o religioso a constantes visitas, resultando por abusá-la sexualmente. Com as denúncias de corrupção contra o sacerdote Girard, ajuizadas pelo padre jansenista Nicolas, ela foi enclausurada no convento de Santa Claire d’Ollioules, em 1730, para ser julgada pelo Parlamento de Aix, transferida para o convento dos Visitandines, passando a ser defendida pelo advogado Chaudon e aos interesses jansenistas, por ser transformada no processo, ao mesmo tempo, acusadora da corrupção jesuítica e acusada de feiticeira. No primeiro veredicto foi condenada à forca. No segundo julgamento, foi inocentada. O pároco também foi absolvido, mas perdeu a reputação. Por sua vez, o romance traz como narradora a jovem Thérèse que descobre seu corpo e seus desejos, tornando-se zelosa penitente do padre Dirrag e em companhia da sua jovem amiga Eradice, também sua rival na busca pela santidade, quando é surpreendida com uma cena indecente de estupro entre a devotada amiga e o seu confessor, durante uma oração. O livro segue com discussões filosóficas e cenas extraordinárias de sexo e religião. A aura lendária do romance o fez tornar-se num clássico erótico proibido, de autor perdido, que ameaçava a tríplice ordem da religião, do Estado e do rei, a moral e a reputação das pessoas, levando à repressão policial. Trata-se, portanto, de uma sátira anticlerical de representação erótico-pornográfica com questionamentos religiosos e morais da realidade social e política da época. Desde então está entre os meus preferidos para releituras e indicações. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] O outro, como outro livre e que exige justiça, instaura uma história imprevisível. O outro como mistério é para onde, o mais além de meu mundo, que o movimento dialético não pretenderá compreender como totalidade totalizada, uma vez que, por sua estrutura finita, sabe que jamais conseguirá. A totalidade, como o visto feito sistema, opõe-se a infinitização (infinicion) de um movimento dialético histórico que se abre para ouvir a palavra do outro, que se revela a partir de um exterioridade insondável e imprevisível. [...] O outro para nós é a América Latina em relação à totalidade europeia; é o povo pobre e oprimido da América Latina em relação as oligarquias dominadoras e, contudo, dependentes. [...] A aceitação do outro como outro significa já uma opção ética, uma escolha e um compromisso moral. [...] O saber-ouvir é o momento constitutivo do próprio método. [...] A América Latina é o filho da mãe ameríndia dominada e do pai hispânico dominador. O filho, o outro, oprimido pela pedagogia dominadora da totalidade europeia, incluindo nela como bárbaro, o bom sauvage, o primitivo ou subdesenvolvido. O filho não respeitado como outro, mas negado enquanto conhecido. [...] A filosofia latino-americana é o pensar que sabe escutar discipularmente a palavra analética, analógica do oprimido, que sabe comprometer-se com o movimento ou com a mobilização da libertação e, no próprio caminhar, vai pensando a palavra reveladora que interpela à justiça; isto é, vai acendendo à interpretação precisa de seu significado futuro. A filosofia, o filósofo, desenvolve ao outro sua própria revelação como renovada e recriadora, crítica, interpretante. O pensar filosófico não aquieta a história expressando-a pensativamente para que possa ser arquivada nos museus. O pensar filosófico, como pedagogia analética da libertação latino-americana, é um grito, um clamor, é a exortação do mestre que faz reincindir sobre o discípulo a objeção que antes havia recebido; agora, como revelação reduplicadamente provocativa, criadora. [...] estrategicamente o que se deve alcançar é a libertação dos oprimidos em seu sentido forte e inequívoco; o que se deve buscar é a libertação das ‘classes trabalhadoras’, camponesas, operárias ou de qualquer outro tipo de trabalhador assalariado [...] O oprimido é o pobre na política (pessoa, classe, nação); a mulher na erótica machista; a criança, a juventude, o povo na pedagógica da dominação cultural. Todos os problemas e temas [...], assumem nova luz e novo sentido a partir do critério absoluto e contudo concreto (o contrário do universal), de ser a filosofia a arma de libertação dos oprimidos [...].
Trechos extraídos da obra Método para uma filosofia da libertação (Loyola, 1986), do filósofo argentino radicado no México, Enrique Dussel, para quem o Bem Comum da Humanidade visa assegurar a produção, a reprodução e o desenvolvimento de cada sujeito ético. Veja mais aqui.

(IN)JUSTIÇA DA CIA. HELIÓPOLIS
A peça teatral (In)Justiça, texto coletivo da Companhia de Teatro Heliópolis, dirigida pelo fundador do grupo, Miguel Rocha. A TRAMA: Trata-se da história de Cerol que é exímio empinador de pipas e vive com sua avó, pois a mãe morreu no parto e o pai, assassinado. Depois de uma briga por conta do alto volume da música na vizinhança, Cerol foge e acaba disparando involuntariamente um tiro em uma mulher, que morre em seguida. Ele acaba preso e é submetido ao julgamento da lei e da sociedade. A encenação reflete sobre a justiça brasileira ao narrar a história de um jovem que comete um crime involuntariamente: o que os veredictos não revelam? A partir desse questionamento surgem diversas concepções sobre o que é justiça, seja a praticada pelo Poder Judiciário ou aquela sentenciada pela sociedade. Permeado por imagens-sínteses e explorando a performance corporal, o espetáculo coloca em cena a complexidade da justiça no país, deixando a plateia na posição de júri em um tribunal. O embate entre os dois lados da justiça – da vítima e do criminoso – se estabelece em um jogo contundente que expõe com originalidade a crua realidade dos jovens pobres e negros. Veja mais aqui, aqui e aqui.

LIMIAR DE NELSON GOMES
A série Limiar, arte do fotógrafo, pintor, professor, designer gráfico e artista visual português Nelson Nunes. Ele foi coordenador do projeto de teatro Ar(e)s D’ensaio, tendo sido integrante do grupo de artistas plásticos que criaram o “Atelier 16” – Coimbra 1997/2001 e do terceiro ciclo de exposições no Museu do Vinho Bairrada – Anadia em 2006, com o projeto de pintura e instalação “Visões de um Milésimo de Segundo”. Já realizou as exposições O ritmo dos dias (2012), a premiada 10 anos Olhares (2013) e Estradas de Portugal – um outro olhar (2013), entre outras. Veja mais aqui.
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A OBRA DE WALT WHITMAN
Contradigo a mim mesmo porque sou vasto.
Eu sou contraditório, eu sou imenso. Há multidões dentro de mim.
A obra do poeta, ensaísta e jornalista estadunidense Walt Whitman (1819-1892) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e aqui.


quarta-feira, abril 17, 2019

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ, BEM COMUM & MARIA DA GLÓRIA GARCIA, JACQUELINE GIMENES, OS QUATRO RABINOS & O QUE SOU DE TODAS AS COISAS


O QUE SOU DE TODAS AS COISAS – Convivo com a indiferença pelo mundo das muitas paisagens e o Sol faz o espetáculo cada vez mais lindo e maravilhoso a cada dia. É a vida e se ninguém se dá conta com seus afazeres e compromissos cotidianos, nada demais. E se a Natureza e o Universo com seus extraordinários esplendores não são o foco nem chamam atenção à sensibilidade dos tantos que seguem apressados com seus umbigos pra cima e pra baixo, não tenho nada que lamentar, sou apenas feliz ao meu modo, saudando a todos que dormem enquanto tantas maravilhas, muitas paragens, me extasiam e me ensinam viver: a correnteza pras quedas dos rios, as ondas dos mares, as flores dos jardins, as folhas dos quintais, o canto dos pássaros, o voo das borboletas, a brisa nas varandas, os montes do crepúsculo, o horizonte das manhãs, tudo em mim, paratodos. Eu sigo e se ninguém me vê eu abraço a alma de todos a todo instante: é quem passa que me faz existir, mesmo que nem queira sequer saber quem sou, nem o que sinto, sou ninguém na multidão e alegre por ser-me. Se acaso acordarem, estarei junto na viagem. E mesmo que nem despertem ou mantenham a sonolência dos seus sonhos nos mais altos níveis de seus prazeres e satisfações individuais, estarei insone a mostrar do visinvisível que aprendi e me delicia viver: é a vida. Enquanto reduzem sua existência à cata do ouro da Terra pra viver, eu persigo o ouro do coração das gentes e que é muito maior e mais valioso, porque sou e todas as coisas. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] se com a fragmentação da sociedade, de um lado, e a globalização, de outro, o bem comum adormece como força propulsora da sociedade, um dos pilares do Estado deixa de preencher a sua função e o Estado como um todo e, em especial, o Estado de Direito, ressente-se. Esta a situação que hoje se vive. Despertar para o bem comum é, por isso, indispensável, se se quiser recuperar a continuidade histórica do nosso viver em sociedade jurídico-política, com os contributos civilizacionais que o tempo longo lhe foi acrescentando e sabendo que a proximidade do cidadão à solução, a sua participação nela, é razão da força com que essa solução será concretizada. Para este despertar torna-se necessário reatar o momento anterior ao adormecimento, sem que tal signifique um retorno nostálgico a um qualquer tempo perdido. Acompanhado da mundividência entretanto adquirida, este reatar reflete uma busca do tempo futuro, uma procura feita de inventiva, porque em causa está descobrir a melhor forma de assegurar a dignidade da pessoa na sua projeção futura, numa sociedade que aprendeu culturalmente a identificar-se e a autonomizar-se e na qual os cidadãos, na sua liberdade/responsabilidade, se sentem participantes na resolução dos problemas que lhes dizem respeito. [...] E é o dever de incorporar a incerteza do futuro na ação presente e garantir a sustentabilidade do desenvolvimento com dignidade que se torna no desafio à participação fundamental dos cidadãos na coisa pública, na construção renovada do bem comum. É, pois, necessário despertar para o bem comum ou, usando a metáforado relógio, é necessário pôr em marcha o relógio que parou. Porque, parado, o relógio tem certa a hora duas vezes ao dia, mas ninguém sabe, ao certo, em que momento tal acontece.
Trechos extraídos de Despertar para o bem comum!, da jurista e professora portuguesa Maria da Glória Garcia, extraído da obra Bem comum público e/ou privado? (ICS, 2013),organizado por João Pato, Luísa Schmidt eMaria Eduarda Gonçalves. Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE JACQUELINE GIMENES
A arte da bailarina, coreógrafa e professora Jacqueline Gimenes. Veja mais aqui.

OS QUATRO RABINOS
Uma noite quatro rabinos receberam a visita de um anjo que os acordou e os levou para a Sétima Abóbada do Sétimo Céu. Ali eles contemplaram a sagrada Roda de Ezequiel. Em algum ponto da descida do Pardes, Paraiso, para a Terra, um rabino, depois de ver tanto esplendor, enlouqueceu e passou a perambular espumando de raiva até o final dos seus dias. O segundo rabino teve uma atividade extremamente cínica. “Ah, eu só sonhei com a Roda de Ezequiel, só isso. Nada aconteceu de verdade!. O terceiro rabino falava incessantemente no que havia visto, demonstrando sua total obsessão. Ele pregava e não parava de falar no projeto da Roda e no que tudo aquilo significava... e dessa forma ele se perdeu e traiu sua fé. O quarto rabino, que era poeta, pegou um papel e uma flauta, sentou-se junto à janela e começou a compor uma canção atrás da outra elogiando a pomba do anoitecer, sua filha no berço e todas as estrelas do céu. E daí em diante ele passou a viver melhor.
Extraído da obra Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Rocco, 1994), da escritora e psicóloga Clarissa Pinkola Estés. Veja mais aqui.
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A OBRA DE GABRIEL GARCIA MARQUEZ
Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza.
A obra do escritor colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


terça-feira, abril 16, 2019

RIMBAUD, TRISTAN TZARA, FRANÇOIS HOUTART, ZELIA SALGADO, CANTOCONTO RIMBAUD, ECOFALANTE & ESPÓLIO DA CIDADE


CANTOCONTO RIMBAUD – Eis o cantoconto da raiz de minha carnalma, de um morro escondido por trás dos quilombos ouvi a voz: a liberdade é um sonho possível. Por isso cantoconto embaixo da ponte de varólio e mergulho na profundeza do amor que transborda radículas em galhos frondosos, porque cheguei a Nod como um raio de Sol e o brilho da Lua, carregando todas as culpas no prazer de estar ali ou aqui ou ai, sem saber purificado diante do perfume sagrado. Cantoconto rouquenho dentro da minha própria historia e me perco noutra, nele me refaço com as vindas do vento que sopra detrás das pedras para me ensinar as trilhas do outro mundo. Estou no meio do caminho e cresço nas lembranças primitivas e na fome de Deus, entre os seres da névoa, para saber o que é visto de dia e o que se esconde de noite, o que se vê de noite é invisível de dia, quantos milagres. Cantoconto que é só o que é, permanente entre as frestas e portões, perpétuo no trajeto de volta ao caos. Há muito tempo proscrito, chamo e toco a porta, não importa a fumaça do instante nem as pegadas do que escuto como se outra me contasse a minha nascente, como uma conversa rotineira que se repete, o aprendizado da arte e a audição anímica em eco. Não importa aonde eu vá, ouço o canto das matas, dos espíritos noturnos e dos mortos ressuscitados de muitos nomes tudo no meu cantoconto, a minha voz. Sinto na medula a prova da natureza que viceja e os fugazes vislumbres diante da fogueira mística, o que está aqui e o que já se foi, e ver-me encurralado entre o que brota e o que fenece, acossado na pilhagem dos detratores, o esmagamento decisório de ir ou ficar, o risco de extinção na evanescência da vida. Há muitos modos de saber como as coisas são ou devem ser, abro caminho entre enredos e tramas, o fôlego na apojadura, as pegadas da dúvida pelos sete oceanos universais e o numinoso na paisagem. Osso a osso, fio a fio de cabelo, o visceral canto, o instersticial contar com a semente do mundo às mãos, rizomas no passional êxtase da recolha dos ossos da criatura que fui um dia para poder dançar com incorpóreos, se não o Sol não nascerá. Com a minha voz me torno na revelação do ermo, faço e refaço minha alma e a minha oração iluminada para saber se fico ou vou embora até o fim do mundo, o final do tempo, e mais o que vem depois, o que deve viver, o que deve morrer: morte ao que deve morrer, vida ao que deve viver. Cantoconto e voltei e colhi a única flor vermelha e segui todos os quilômetros distantes do mundo-entre-mundo e do inefável na sétima abóbada do sétimo céu. Cheguei diante da Roda de Ezequiel e comecei a cantocontar transcendendo a obrigação moral de sobreviver. Bati à porta e não abriu, subi até a caverna escura, atravessei a janela do sonho, peneirei o deserto e encontrei meus ossos no desfile dos párias e na comédia dos vivos que não sabem mortos. Senti todas as provações ao descer ao inferno pelos meandros de muitos labirintos e por mais de mil anos. E eis-me, do alto da mais alta torre a cantocontar: ah, que venha o dia em que os corações se amem! Eis a raiz de minha carnalma. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] para enfrentar os perigos que cercam o planeta e o gênero humano, faz-se necessário um novo projeto que exija não só uma ampliação dos Direitos Humanos, mas uma redefinição do Bem Comum da Humanidade (com base em novos paradigmas). [...] Será uma luta política. Porém, valerá à pena iniciá-la, pois pode inserir-se como um dos elementos simbólicos da revolução necessária para redefinir o paradigma alternativo da vida coletiva da humanidade no planeta.Portanto, é importante fazer a vinculação entre a defesa dos “bens comuns”, como a água e a restauração da prioridade do “bem comum” e a visão de uma nova construção do “Bem Comum da Humanidade”. Em primeiro lugar porque a visão holística que subjaz nesse último conceito exige aplicações concretas, como as de “bens comuns” para fugir do abstrato e traduzir-se em ações. Por outro lado, as lutas particulares devem inserir-se em um conjunto, a fim de situar adequadamente o papel que estão exercendo, não para compensar as deficiências de um sistema que tenta prolongar sua própria existência; mas, para dar prosseguimento à sua transformação em profundidade, exigindo a convergência de todas as forças de mudança para estabelecer as bases para a sobrevivência da humanidade e do planeta.
Trechos extraídos de Dos bens comuns ao bem comum da humanidade (Fundação Rosa de Luxemburgo – Bruxelas, novembro, 2011), do sociólogo belga François Houtart (1925-2017), para quem a defesa dos bens comuns é uma forte reivindicação de muitos movimentos sociais, porque inclui elementos indispensáveis à vida (água, semente), como serviços públicos, desmantelados nos dias de hoje pelas políticas neoliberais, uma vez que representam a vida do planeta e da humanidade. Para o autor a harmonia com a natureza significa definir a relação, não como a exploração da terra, enquanto fonte de recursos naturais, na forma de mercadorias, mas, como fonte de toda a vida, em uma atitude de respeito à sua capacidade de regeneração física e biológica, instaurando a interculturalidade que consiste em dar a todos os saberes, culturas, filosofias e espiritualidades a possibilidade de contribuir para o “Bem Comum da Humanidade”, implicando na promoção igualitariamente de uma interculturalidade aberta, ou seja, de culturas em diálogos, com possíveis intercâmbios. Veja mais aqui e aqui.

ESPÓLIO DA CIDADE
O documentário Espólio da Cidade (The City's Legacy, 2017), dirigido por Andre Turazzi & Paulo Murilo Fonseca, retrata a visão de seis pessoas que têm suas vidas relacionadas a edifícios tombados em São Paulo, evidenciando uma tensão entre memória e desenvolvimento urbano e a complexidade das questões ligadas à preservação e a conservação do patrimônio arquitetônico da cidade. Com isso, mapeia alguns patrimônios culturais da cidade de São Paulo com a proposta de revelar as particularidades arquitetônicas e históricas dos imóveis tombados, envolvendo questões de preservação e conservação dos patrimônios importantes para constituir uma identidade urbana. O documentário pode ser visto na Ecofalante que é uma ONG que atua nas áreas de cultura, educação e sustentabilidade, produzindo filmes, documentários e programas de televisão de caráter cultural, educativo e socioambiental. Veja mais aqui.

A ESCULTURA DE ZELIA SALGADO
A arte da escultora, pintora, desenhista e professora Zelia Salgado (1904-2009), que integrou a Comissão Nacional de Belas Artes entre 1962 e 1963, foi presidente da seção brasileira da Association Internacionale des Arts Plastiques, filiada à Unesco e deu aulas no Museu de Arte Moderna (MAM/RJ), até 1959. Veja mais aqui.
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A OBRA DE TRISTAN TZARA
Olhe para mim bem! Sou um idiota, sou falso, sou brincalhão. Eu sou como todos vocês!
A obra do poeta e ensaísta romeno Tristan Tzara (1896-1963) aqui & aqui.
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A obra do poeta Arthur Rimbaud (1854-1891) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


segunda-feira, abril 15, 2019

JEAN GENET, ELSA MORANTE, SANDRO MACIEL, PAULA FAOUR & BIG SHIT BÔBRAS


ATÉ DE OLHO FECHADO – Duvido! Pronto, uma desavença no ar. Que coisa! Logo naquele dia de comemoração entre os participantes do Big Shit Bôbras, providencia da organização de armar diferente para não entornar o projeto num flagelo. A sacada de confraternização caia muito bem para acabar com as bulhas e acalmar os ânimos. Nada melhor que uma feijoada suculenta, regada por generosas lapadas e meiotas da predileta Teibei. Tudo corria bem, uns goles aqui esquentando as orelhas, uma virada de copo ali arrepiando os tuins, beiçadas largas de abrir risadagens e envultamentos. Oxe, cadê fulano? Meteu o dente na cana de virar outro e sair por aí! Isso é que tomada macha, hem? Pois bem, brincadeiras, pulhas, licenciosidades, até a constatação de um gabiru gordo boiando no refogado de tripas, linguiças, maxixes e quiabos. Um escândalo. Como é que pode? O enterro voltava. Cada um que reclamasse da desfeita. De uma lado, as mulheres na maior fuxicagem: O penteado dela parece uma arupema! Vixe! E o vestido, mulher, nem combina os bicos dos peitos arriados e o pau da venta empinada! Um horror! E aquela outra trubufu, acha que é miss, né não? Era melhor que pendurasse dois tijolos naquelas orelhas do que aqueles brincos, né não? Nem se toca, se acha. Pense no desmantelo! Ah, mas me diz da cumade, vai! Morreu engasgada. Danou-se. Foi. De outro, os homens arengavam, cada um mais parrudo que o outro: D-u-du-v-i-vi-d-o-do! Você não tem topete pra me desafiar, safado! Ah, meu, dou na sua cara só com uma mão! Pra lascar você, dou meus golpes de costas! É? Derrubo você só no bafo! Sai pra lá, corno da gaia-mole! Deixa disso. Sou muito macho, não abro nem prum trem! Venha, maloqueiro, que dou uma pisa de você perder até o nome! Comigo você caga fora do caco! Um murro que eu der, você desmunheca, seu fulustreco! Vamos parar com isso! É ele, esse cara mente que o cu apita! Eu? Você que num vale um cocô de louro! Calma, gente. E o confronto parecia inevitável, cada um arrotando brabeza de bater o pé, estufar a caixa dos peitos e bufar ruindade com risco no chão. Uma das senhoras, ao dar conta do trupé, botou fogo na lenha: da macheza de vocês, sou mais o dentista com seus oitenta anos e um fundo de garrafa nas vistas, trata dos meus dentes de olhos fechados! Esse sim, além de macho é bom no que faz! Vocês? Tudo uns pé-rapado de não valer nada! Ih, a coisa azedou. Não deu para prever quantas cenas pros próximos capítulos, o fuzuê parece que ainda nem acabou, avalie. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Que Glória é uma senhora infiel, inquieta, cheia de energia e de contradições já se sabe há séculos. Sabe-se também que ela nem sempre respeita as cortesias. Às vezes, nem sequer sente vergonha de cortejar quem não se interessa por ela, e mais frequentemente, ao contrário, despreza quem a adora, quem venderia a alma por ela, quem beijaria o chão por onde passa. Não há nada pior. [...] Da atenção, da honestidade e do desinteresse. E todo o resto será literatura. Aliás, a propósito, que tipo de linguagem precisará utilizar? Dialeto, fala mecanizada, uma koiné? Qual estilo, quais semantemas, qual característica tipográfica? Pró ou contra as letras maiúsculas? Pró ou contra a pontuação? No entanto, deixem-no escrever como queira, porque o primeiro inventor das linguagens sempre foi ele! Por que aborrecer agora um homem com tais problemas (que interessam muito mais aos linguistas, aos filólogos, e assim por diante?). Aqui, trata-se de ser pró ou contra a bomba atômica! Contra a bomba atômica está a realidade. E a realidade não tem necessidade de pré-fabricar para si mesma uma linguagem: fala sozinha. Até mesmo Cristo disse: Não se preocupem com aquilo que vocês dirão, ou como dirão. É a realidade que dá vida às palavras, e não o contrário. [...]
Trechos da obra Pro o contro la bomba atômica (Adelphi, 1987), da escritora italiana Elsa Morante (1912-1985) que expressa: A aventura da realidade é sempre outra.

A ARTE DE SANDRO MACIEL
A arte do artista plástico Sandro Maciel. Veja mais aqui.

A MÚSICA DE PAULA FAOUR
A música da pianista, arranjadora e compositora Paula Faour que estreou com o álbum Cool bossa struttin (JSR/Tratore, 2005), acompanhada dos músicos Dom Um Romão na bateria e Manuel Gusmão no baixo. Veja mais aqui.
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A OBRA DE JEAN GENET
Temos de rir. Senão a tragédia vai nos fazer voar pela janela.
A obra do controverso escritor e dramaturgo francês Jean Genet (1910-1986) aqui & aqui.
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As doidices do Big Shit Bôbras aqui, aqui, aqui & aqui.


LYGIA FAGUNDES TELLES, HILDA HILST, LEO BROUWER, MAURIZIO BARRACO & EPÍSTOLA SOLITÁRIA

EPÍSTOLA SOLITÁRIA – Olha a dida, 1 real! Não era isso, só personagem. Vestiu-se da bermuda vermelha, suspensórios, blusa branca de alg...