sábado, setembro 19, 2026

TATIANA DE ROSNAY, VERONIKA KIVISILLA, NIALL FERGUSON & MARIA LAURA LOPES

 

Imagem: Fluxo dos devires, da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM.



 

Fábula porcina na cabeça!... -  Piau ali, viola ao peito, alentava: Vou ser artista! E foi. Logo amealhou a simpatia da Tannakin Skinker, que estava louca pra casar - foi maior puxa-encolhe, óinc-óinc, teibei! Depois, os mimos da rubicunda e endeusada Varahi do Nepal. E disso, ora, foi um salto para a tietagem de farroupos, leitãozinhos, leitoazinhas, varrões, matrizes, cerdos, chanchos, perdigotos, marrãs, javalis, chacins, catetos e queixadas. Fez sucesso até como minipig entre os simpatizantes suínos e a Henwen pelas Tríades Galesas. Engrossou o grunhido da vara com os achegamentos da perfumada Marie Darrieussecq. Daí vieram mais com Ceridwin, quando foi ungido pela reencarnada Dorje Pakmo que era Sera Kandro, a gloriosa Durga, aos guinchos dos aplausos efusivos de Bola de Neve e do gordo Piggy de Golding. Foi tomado por Artemis, no meio do maior ronar espalhafatoso da suinaria. E foi eleito pelo Landrace como o maioral da porcada toda! O Large White levou-o para a oferenda de Ceres e o Pietrain além dos alfeires, para ser embalado pela Demeter nas Tesmoforias. Logo recebeu elogio do Marcial: Esse irá proporcionar uma grande Saturnália! Logo passou a ser cultuado pelos sino-vietnamitas, sagrado pelos de Creta e representante lídimo da ataraxia e aponia do rebanho de Epicuro. No meio do maior persigal, o Velho Major dava as ordens, organizando o teitei. Tornou-se o roliúde mesmo, quando o agalegado Duroc estrondou com veemência com seus abastados sifrões saindo dos bolsos: Você é meu e será o maior do mundo! Êêêêêê! Agora vai. Em confidência com o Moura, no meio do tumulto, Piau segredou: Nunca tinha visto mais gordo! É o manda-chuva, sempre esteve aqui! Mesmo? Ora, se. Foi quando descobriu o que era escorregar por ter levado rasteira numa passada de perna, cama-de-gato, enrolações, maracutais, falcatruas. O que virá pela frente, hem? Só Deus sabe... E lá vinha a puxada da corda-de-guaiamum, o enterro voltando. E aí, xará? Ficou para amanhã ou depois. Vixe! Que é que é isso? Ninguém é inocente! E escapou da piara pelo erudito Learned de Bisset: Precisamos fazer alguma coisa! Hem? Logo foi surpreendido com a companhia nababesca da imperatriz de Blandings de Wodehouse: foram sequestrados. Mas que porra é essa? A ameaça em riste, a emboscada. Nas paradas, o fã clube histérico - não faltava mais doido neste mundo! Oxe, tem mais estúpido esborrando por aí. O tempo foi passando no cativeiro e o Zhu Bajie chamou a todos pra jornada de Wu Cheng'em! Ora, vamos é pra cidade de Platão, aqui não tem segurança alguma! Sonhavam com Grizedale, Swilland, Swindon e Swineford. É uma fraude! Todos caíram na lábia do grulha Garganta e a mentira venceu. Era o golpe de Napoleão: a repressão e o terror, uma ditadura medonha. A coisa degringolou mesmo quando baixaram o 1º Ato Institucional antes doutros 5 e Jude tentou matar a criação de Thomas Hardy: Que brutalidade! E piorou com a punição de Twrch Trwyth e do guru sábio Brihaspati. Como é que pode! Tudo comunista! E o julgamento e a condenação do de Pont-de-l'Arche ao enforcamento. Lascou. Bola de Neve foi banido, o Sucio sequestrado e o trio Alexander, Pigling Bland e Pig-wig foram pegos. Ué, num foram só no mercado? Ora, foram trancafiados, subversivos! Eita! Robinson também, as tias de Beatrix às lamúrias. O demônio Hiranyaksha, com seus olhos verdes, foi jogado nas profundezas do mar, sob o pretexto de salvar o Mundo, o que não era, de fato era trapaça, na verdade. Ah! E as pocilgas ficaram abarrotadas por muitos canastras de Saint-Hilaire e os tantos que chegavam aos milhares de Etrúria - todos amaldiçoado pela Odisseia dos amantes da feiticeira Circe, a maga, no lodo dos fragmentos de Heráclito. E agora? Do lado de fora Nut amamentava sua prole, engolia os astros matutinos e os cuspia ao crepúsculo. A vida seguia com a esperança no espinho do dilema de Schopenhauer, o inventor do fogo dos kikuyus e dos poderes divinatórios dos ekois da Nigéria do Sul. Ouviram zunzunzum: Pigs on the Wing... Voam o céu de Clazomenae? Se voam é sinal de perigo às escondidas. Estamos no ponto cego? A oracular Hen Wen de Lloyd Alexander deu o tom da tragédia: Depois da engorda, cevados serão todos abatidos, a festa comensal do sacrifício: a matança! O mata-bicho da cabeça aos pés, tudo aproveitado: o sangue para morcelas, gordura para conservas, carnes para defumação; imobilizados, sangrarão e serão chamuscados para raspá-los e preparar a desmancha: as linguiças de Nuremberg, as tortas de Melton Mowbray, a mortadela de Bolonha e Modena, na acrasia do ceticismo pirrônico pelos bacons, presuntos, salsichas, salames, torresmos, pururucas. Que situação! Columela gritou: Se deixá-los beber água, a carne estraga! E serviram a Manannan, como se fossem Saehrimmir das Valquírias, que os tornava mágicos para serem ceifados todos em um só dia e, no dia seguinte, renasciam e estavam prontos de novo para serem abatidos e consumidos, com uma maçã na boca para a celebração do Yuletide e pros banquetes de Alexandre Grande, a fortuna dos Matarazzos e findarão apenas efígies de moedas da Gália antiga ou nos cofrinhos do Euricão ou de Java, da Cosa coreana, ou do Feng Shui. A lavagem entupia os chiqueiros abominados pelos quirquizes, a maior porcaria. Ficaram para trás. Vale a pena viver? Alguém reclamou: É tudo muito horrível, todos são detestáveis, como achar qualquer coisa ótima neste estado de coisas? Piau fez um muchocho e ouviu: Você é quase uma boa risada, mas, na verdade, você é de chorar, Pink Floyd! Que Elédè de Obaluaiê nos redima! Olha a hora do Bagá! A vida passa, a Terra em transe, pálin!... Até mais ver.

 

T.S. Eliot: Somente aqueles que se arriscam a ir longe demais podem descobrir até onde se pode ir... Não cessaremos de explorar, e o objetivo final de toda a nossa exploração será chegar ao ponto de partida e conhecer o lugar pela primeira vez... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Cherríe Moraga: A passagem é através, não por cima, não ao lado, não em torno, mas através... Lembre-se de que você vive em uma comunidade. Você tem a responsabilidade de prestar contas à sua família, à sua comunidade e a si mesmo... A revolução começa em casa... Veja mais aqui.

William Faulkner: Nunca tenha medo de levantar a sua voz em defesa da honestidade, da verdade e da compaixão contra a injustiça, a mentira e a ganância. Se as pessoas em todo o mundo fizessem isso, o mundo mudaria... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

[ESTOU EM CASA À ESPERA DE UM DEUS]

Imagem: Acervo ArtLAM.

Estou em casa à espera de um deus \ à espera junto a uma janela aberta \ o meu próprio pequeno deus \ que deve estar chegando em casa agora mesmo \ os cômodos estão arejados \ uma refeição simples, feita de quase nada, solta fumaça sobre a mesa \ à nossa espera \ (é fim de mês e minha carteira \ também foi efetivamente arejada) \ mas sei que \ o vazio é muitas vezes uma bênção \ e o pouco é tudo \ e lá vem o meu deus pequenino \ com tudo esvoaçando ao seu redor \ em alegre despreocupação \ abas do casaco, cadarços do tênis, cachecol, mochila \ aberta e escancarada \ ele arrasta um graveto pelas estacas da cerca \ e elas cantam \ e só um deus pequenino \ sabe fazer tal música \ ele entra \ e vejam só: traz uma casquinha de sorvete \ enfeitada com agulhas tenras de pinheiro \ diz que é porque sabe: \ é bom quando algo não é apenas doce \ mas também um pouco azedo e amargo \ e então ele me conta \ sobre esquilos, gaios e tico-ticos \ e sobre como brinca de um jogo secreto \ que eu também brincava \ lá quando eu era uma deusa pequenina: \ se você vir um pica-pau \ será um bom dia \ contamos um ao outro exatamente as mesmas  histórias \ repetidas vezes \ e nunca nos cansamos delas \ "mamãe, conta de novo \ como foi segurar o dom-fafe \ quando ele bateu na janela da cozinha, aquela vez, \ e ficou caído no chão, inconsciente" \ Eu o observo e penso: \ meu deus cresceu \ jogou as meias num canto \ e, sozinho, tenta tirar com determinação \ lascas do dedão do pé usando uma pinça \ mas esse deus ainda não gosta de lavar os pés \ vejo isso à noite, quando ele dorme \ as solas arranhadas despontando debaixo do cobertor \ mas isso não me impede \ de me curvar e beijá-las \ meu deus encolhe os dedos dos pés por um instante quando faço isso \ e depois continua dormindo profundamente \ enquanto eu permaneço na beleza desse movimento divino \ por um longo \ longo \ longo tempo.

Poema da poeta, cantora, instrumentista e crítica literária estoniana Veronika Kivisilla, autora de obras como Kallis kalender (2011), Cantus Firmus (2015), Kuni armastus peale tuleb (2018) e Salutatio (2019).

 

FLORES DA SOMBRA - [...] De que são feitas as nossas vidas? De um mosaico de ternura, desejos, arrependimentos, momentos fugazes e os vestígios que este mundo deixa nas nossas emoções, na nossa intimidade, nos nossos sonhos. [...] A seus pés, um abismo colossal se abria, delimitado por prédios destruídos. As poucas paredes que ainda restavam estavam cobertas de pedaços de papel de parede, portas rangentes davam para o vazio e degraus levavam diretamente para lugar nenhum. Aquele imenso campo de ruínas a abalou profundamente. Da vizinhança pacífica que ela conhecia tão bem, dos amplos bulevares ladeados por tílias e castanheiros, restavam apenas entulho no fundo de um enorme fosso. Ao longe, os restos da Torre da Tortura pareciam se contorcer em agonia sob o céu chuvoso. [...] Toda a vida sentira esse desconforto, a sensação de não pertencer a uma pátria, de não poder reivindicar uma origem. Ela era dual. Tinha duas línguas maternas, dois mundos, dois países. [...] Pessoas de todas as idades, origens e nacionalidades postaram vídeos de seus suicídios. Era um desfile frenético, um reality show horripilante, incompreensível. A literatura não tinha mais lugar nesse bombardeio de transmissões ao vivo; a imagem reinava suprema, obscena e sempre insatisfatória. Quando escritores tentaram abordar os ataques, seus livros permaneceram praticamente inéditos. As pessoas podiam assistir a palestras ou apresentações, mas comprá-los era outra história. Ler não oferecia mais conforto. Ler não curava mais. [...] Ler livros levava tempo. E escrevê-los também. E agora ninguém parece ter tempo nem para ler nem para escrever. [...] A maioria das pessoas não lia mais. Ela já havia percebido isso há algum tempo. Estavam grudadas em seus celulares, em seus tablets. As livrarias estavam fechando uma após a outra. [...] As pessoas tiram fotos bonitas de livros e as postam nas redes sociais com as hashtags certas, mas ninguém os lê. Ou muito poucos leem. Os livros se tornaram objetos decorativos. [...]. Trechos da obra Les Fleurs de l'ombre (Pocket, 20021), da escritora francesa Tatiana de Rosnay, também autora de livros como Elle s'appelait Sarah (2007). Veja mais aqui.

 

RUÍNA: A POLÍTICA DA CATÁSTROFE - [...] Até o momento, cerca de 99,9% de todas as espécies que já habitaram a Terra foram extintas. [...] A realidade, como veremos, é que a história é um processo complexo demais para ser modelado, mesmo pelas formas informais defendidas por Turchin e Dalio. Além disso, quanto mais sistemática for a modelagem de fenômenos históricos — notadamente pandemias, mas também mudanças climáticas ou degradação ambiental — mais fácil se torna passar de uma previsão aproximada para uma previsão precisamente errada. [...] O advento da internet ampliou enormemente o potencial de disseminação de informações falsas e enganosas, a ponto de podermos falar de duas pragas gêmeas em 2020: uma causada por um vírus biológico, a outra por concepções errôneas e falsidades ainda mais contagiosas. Esse problema poderia ter sido menos grave em 2020 se reformas significativas nas leis e regulamentações que regem as grandes empresas de tecnologia tivessem sido implementadas. Apesar das amplas evidências, após 2016, de que o status quo era insustentável, quase nada foi feito. [...] Reconheça que você está em crise, seja você um indivíduo ou uma nação. Aceite sua responsabilidade pessoal/nacional de fazer algo a respeito da situação. Construa uma cerca [não necessariamente física] para delimitar os problemas individuais/nacionais que precisam ser resolvidos. Envolva-se nos aspectos materiais e emocionais. [...]. Trechos extraídos da obra Doom: The Politics of Catastrophe (Penguin, 2021), do historiador escocês Niall Ferguson (Niall Campbell Ferguson). Veja mais aqui.

 

MARIA LAURA LOPES

[...] A vida não é só ciência, o que vale mais é a realização como ser humano. E isso, felizmente, eu consegui. [...] Eu errava muito nas contas, ficava até com dor de cabeça [...] as meninas falavam francês desde o primário e tinham aulas de latim. E eu, coitadinha? Onde é que eu podia me salientar? [...] Vocês pensam que a Matemática é aquela coisa imutável? Não é não! A história da matemática é muito cheia de conquistas e diferenças, há uma evolução muito grande [...] E hoje, o que temos? Computador que levamos no bolso. Mas e o ensino? Será que evoluiu na mesma escala? [...] Mas se por um lado houve esse movimento a favor da pesquisa, por outro lado houve uma desvalorização muito grande do ensino de graduação e, em particular, das licenciaturas [...] Porque se o professor não é competente, não adianta. E não há varinha de condão: é um processo longo e dinâmico. [...] A alma do aluno não é um vaso que se deve encher, mas uma lareira que se deve acender [...] Aceitem os desafios, porque só a partir deles é que vocês poderão realmente ser grandes pessoas [...].

Trechos do depoimento (Notícias do Academia Brasileira de Ciências – ABC, ‘2011), concedido pela matemática e professora Maria Laura Lopes (Maria Laura Moura Mouzinho Leite Lopes ou Maria Laura Mouzinho Leite Lopes – 1917-2013), a primeira doutora em matemática do Brasil, especializada em Educação Matemática. Ela combateu a ditadura e articulou a criação de instituições de pesquisa, fazendo parte da articulação e fundação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM). Em 1969 foi aposentada compulsoriamente pela ditadura militar, o que a forçou ao exílio. No exterior, ela passou por universidades nos Estados Unidos e na França, onde redirecionou seu foco de pesquisa de matemática pura para a educação matemática. Retornando ao Brasil, dedicou-se à formação de professores e fundou o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Matemática (GEPEM), além do inovador Projeto Fundão na UFRJ, revolucionando o ensino básico de matemática através da união entre a universidade e a escola pública no estado do Rio de Janeiro. Vários estudos dão conta da relevância da professora, a exemplo do Ditadura, repressão e resistência: o caso de Maria Laura Mouzinho Leite Lopes: 1919-2013, (Revista de Ciências Humanas, 2024) e Ditadura militar e educação: a trajetória de Maria Laura Lopes (Nexo Acadêmico, 2025), ambo de Lucas Barroso Rego. Também Um elo perfeito: Maria Laura Mouzinho Leite Lopes e a educação matemática Vida y obra (Revista Científica, Bogotá, 2015), de Pedro Carlos Pereira; e A organização do arquivo pessoal de Maria Laura Mouzinho Leite Lopes: desafios e perspectivas (OFFICINA: Revista da Associação de Arquivistas de São Paulo, 2022), de Lorena dos Santos Silva. Veja mais aqui.



O QUE É CAOSMOSE? – (Imagem: Pulsações do efêmero, da série Caosmose & o poema nasce do visinvisível, acervo ArtLAM). – Trata-se de um conceito que foi popularizado a publicação da obra Caosmose: Um Novo Paradigma Estético (Ed. 34, 1992), do filósofo e psicanalista francês Félix Guattari, obra esta que se tornou um marco fundamental para se repensar os processos de produção de subjetividade, em um mundo cada vez mais marcado por fluxos de informação, mutações tecnológicas e rearranjos políticos. Trata-se de um chamado para o engajamento com o caos criativo do mundo, utilizando-se dessa energia para criar novas formas de vida, novas subjetividades e novas maneiras de nos relacionar com o planeta. Veja detalhes aqui.


 

A ARTE DE SILVIO TENDLER – Trajetória do premiado e aclamado cineasta, documentarista, historiador e professor Silvio Tendler (1950-2025), que ficou conhecido como "o cineasta dos vencidos" ou "o cineasta dos sonhos interrompidos", relacionando os seus longas, médias e curta-metragens, que tanto registraram a vida do Brasil e do povo brasileiro, relativos a personagens e personalidades de relevo dos períodos históricos entre as décadas de 1950 e 2010. Confira aqui.




WYNA & GABRIELE SAPIO – Entrevista com o escritor, advogado e professor italiano radicado no Brasil, Gabriele Sapio, autor do livro de ficção científica, Wyna, daqui a três estrelas (Dialética, 2023), no qual explora as fronteiras entre o conhecimento científico e a espiritualidade, com uma escrita que privilegia a sensibilidade e a profundidade dos sentimentos humanos frente ao desconhecido. Na entrevista ele fala sobre o processo de criação e a motivação que levou à publicação da obra. Confira aqui.



TERRA DA AMIZADE – Este é o 5º episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna. Desta feita, a meninada, guiada por Pai Lula, vão conhecer a Terra da Amizade e, ao mesmo tempo, o lugar da abelha zangada, em que a vaca amarela pulou a janela pra ir pro rastapé da quadrilha na praça, comendo queijo com leite. Mas que lugar é este? Confira aqui.



POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS – Reunião CoLAM (colagens), sob a temática de Poemagens & outras versagens, com o tema musical autoral Quando te vi. Veja aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO

A arte do pintor, escultor, entalhador, compositor e músico Pedro ÍndioVeja mais aqui.

 

GENTAMIGA EXPOSIÇÃO & LANÇAMENTO

Veja detalhes aqui.




 


sábado, setembro 12, 2026

SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

 


Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou por baixo da ponte. Enxurrada braba, foi: chega o rio estava apressado e sem margens, pra todo lado. Despencou dos céus o maior temporal, deslizamentos, inundações: a Terra se desmanchava. Quem escapuliu, subiu no telhado que deu pra se salvar, um aguaceiro de danar a paciência: assim também já é demais, né? É mesmo! Até a saparia atônita arregou com súplicas de clemência! Fodeu! De repente, ao cabo de meses, quase ano, estiou de vez e esturricou. A temperatura subiu e, em alta voltagem, o termômetro derreteu: bombas de guerras no gozo das BT&DC, vulcões em erupção, terremotos, tornados, maremotos, tsunamis, lixo & a barbárie cristonazifascistada, poluição geral. Eita! É pouco? E, não muito longe dali, os anfíbios resignados e espremidos na beira do que restou duma poça chocha, croc, croc, o que era de ribeirão, córregos, lagoa e brejo, ih, só aluviãozinho, poin, poin, tudo por uma peínha de nada, foi, foi. Vamos pra lá! Pra onde, ora? Pra qualquer corredeira! Vá você: quem quer se perder, é só mergulhar, mas só se for no chão. Ah, não! O Sol amadurecia e, aos psalmos, só bufotoxina no ar: S’ajeite na beldroega, prefiro taioba. O calorão tá de lascar. Será que chove? Lá vem ela! Isso não é chuva é cabelo de jia, chuvisquinho besta! Vamos apelar pra Amana-manha: Ô Amanhamanha! Essa rã não vai mais nos atender! E ela veio cantando, ajuntou todos e começou a bactromancia, catando varinhas, gravetos e bastões: Se caírem duas vezes seguidas mostrando o lado da casca, é mau presságio! Valha-me! Não deu outra. Foi nada! Ah, se... E Frineia desconsolada lançou-se nua às águas, a heterófila anadiômena, para servir Afrodite nas festas de poseidonia, em Eleusis. Eita, danou-se tudo! Aí o Dardo-verde-e-preto chamou o Amazônico-listrado, que puxou o Arlequim-escarlate e veio o Fantasmagórico: Larga de ser palerma! Sai pra lá, papudo! Ora, tiborna! Aí o Dardo-granular-da-flecha-granulada: Vamos timbungar no Paraopeba! O Dardo-morango: Menos esse tanto, Ludugero! O Dardo-azul: An-ham! O Dourado-da-Costa-Rica: Nem existe mais, bestões! E o que não era regra dele, levou a Dardo-dourada irritada: Coisa mais fora de hora! O Janelo-titicaca, todo posudo falando difícil: O inabitual! A de Schuencas-Romeu-&-Julieta, segredou: Areja, véi! E os pândegos Harlequins, só folia, nem sabiam que estavam fazendo ali. Era pra ser reunião séria: Como é que é? A coisa enfeiou! Para espanto de todos chegou o gigante Tiddalik australiano, riu-se de soluçar, verteu toda água, um santo adjutório pra crise. Pronto, resolvido. Está melhorando, só! Evaporou, deu pra nada. Depois o Tsathoggua de Cthulhu, doutra galáxia, em socorro! Coisa de outro mundo é? Só sendo, na causa. E hibernou. Ah, agora é tarde! Veio Ōgama do Japão, com mais de mil anos como yōkai! Vixe! E foi crescendo, aumentando, até ficar feito uma montanha, a língua longa de fora, o hálito de arco-íris. Que danado é isso? É o fim do mundo! Olha a Pipa Pipa! A Aru, pé-de-pato-surinã! Pra quê? Ah, meu, chama logo o garçom Luzantonho pra servir a gente! Ô Pula-pula vem cá! Minchou, meu! Qual é a bronca? Inesperadamente, deu-se um eclipse e a Ch'an-chu devorou a Lua! Valha-me! E depois o Sol! Maior escuridão. Ouviu-se trovejar: O rei está mal! Como assim? Indagorinha ele estava bonzinho da silva! Gente, o rei tá morrendo! Óóóóóóóó! E todos se renderam plangentes, contando disso e daquilo das façanhas do governante. Alguém lamentava: Logo ele que resgatou a bola de ouro da princesa, em troca de promessas de companhia, ela, a rainha; e, ele, o sapo-rei, agora velho, à beira da morte! Como é que pode? Ouviu-se logo - Como gostais, Shakespeare: Doces são os frutos da adversidade; \ que, como o sapo, feio e venenoso, \ carrega, no entanto, uma joia preciosa na cabeça... É vero, um aviso: só querem a crapaudine. É, a bufonita feita amuleto pros outros, desgraça da gente. Isso mesmo, dizem: a batracita cura de venenos, qualquer picada, a forma perfeita que enriquece a joalheria. E tome anel, talismã. Só quem nos pegar vivos poderá extraí-la, senão a pedra apodrecia sem valor. É. Viu aquele sobre um pano vermelho pra vomitá-la? Esse ainda se banha, eu mesmo fui colocado em um pote perfurado em cima de um formigueiro, quer pior? Servi de graça pro Medici seduzir a Graciosa, filha do Baltazar de Cabell. E quem não foi pra joia mágica da Deltora Quest da Rodda? E quantos pras joias da Catedral de Aachen? E eficaz contra os sortilégios e poderosa contra os venenos, por que malvadam tanto com a gente, hem? Nisso, a tarde recuava na boquinha da noite, quando deu as caras, do trapézio dos dias, Aderbal! Esse veio de encomenda: chorou na barriga da mãe! Vinha de Pasárgada, malas arrumadas de saudades - de caçarola a penico, de gargalo a pinguelo, das ouças aos focinhos, os de casa e os de fora, ije! Que é que tá pegando? O rei está esticando as pernas, tá todo mundo borocochô! Ah, não é segredo de abelha! Meu, mesmo não! -, disse o Flecha-abelha-faixa-amarela. Quer semear sisânia, é? Aqui num vale, só: Sapientis est mutare consilium! Não adianta nada xingar com nome feio! Tem que desentocar a causa disso tudo! Ah e não sabia? Tagarela de sempre, o seu fraco era puxar conversa e, arrebatado pela emoção do reencontro, esfriou: Ah, por isso que tá todo mundo agora aqui, né? Foi então que a perereca Kambô trouxe a vacina. Curou? Oxe, o cabra teve náusea, vômito, diarreia, rejeitou o laxativo. Vá na onda de sapeiro, viu! Deixe de marmota! Ora, é revigorante, estimulante! Taís pensando que é a aquela Pimenta que encaipora é? Ah, vou pro buraco da Gia, Fortaleza. Eita, fandango! Vamos pro sarrabalho, dancê a serra-baile! E o que era falta de jeito e fealdade, às interjeições com as façanhas glosadas. Alguém arengou: Vá lá pro jieiro Tito, o homem da jia. Ah, o ladrão! E o Sapo-boi mugiu: Sapo de fora não chia! A Rã-Golias se armou: Quem vai na garupa, não mexe na rédea! E o que era anuro virou Mirão, o outro Espião, que trouxe Xagueta, Ferreiro e Martelo: Sapo não lava o pé, taí o chulé! E o De-vidro, translúcido, venenoso: Quando se ama, parece amar-se a Lua. Aí o De-chifre, ô pacman, o folha: O óleo perfura a pedra! Eita, Moché! Moxé! Uma tuia de girino e era Pingo-de-ouro, De-rabo e Ponta-de-flecha! E pulou o que estava no ombro da bruxa, vestido de veludo escuro, chamou na grande: A coisa é séria, gente, rezem todos pra chamar chuva! Mais? Quase tudo morre afogado instantinho atrás. Bora. Aderbal, tome jeito, folgado! Aí a Rã-chorona: Olha só, minha gente, o rei foi acometido de enfermidade letal e, por causa disso, todos vamos morrer! Nossa, batráquios! Como assim? Tão culpando a comadre Unha Africano. Hum? Sim, um patógeno. Que é isso? O fungo critídio. Deixe de falar grego, esclareça! Um tal de maligno DB, até as salamandras, cecílias, tritões, axolotes, perigam todos extintos, incluindo nós aqui. É mesmo? Até a cobra-cega? Infelizmente, pandemia. A desconsolação bateu geral: Cadê meus girinos? E a vacina? Não tem. A desesperação caía cada vez mais perto. Vão apostar no pior? As perdas ensinam. E já era noite sem Lua. E Aderbal: Mãe Natura endoideceu, Jayme? Que pinoia é essa, hem? Aderbal, Aderbal, toma tino! Vão desertar? Pronde tu vai, abestado? Ué, escapulir, sou lá de esperar tempo ruim! Pra onde, fulustreco? Ah, fuga, babau... Fui! Até mais ver.

 

Luis Cernuda: Não anseie por um destino mais fácil... Contarei como nasceram os prazeres proibidos, como um desejo nasce sobre torres de terror... Tudo que é belo tem seu momento e depois desaparece... Veja mais aqui, aqui & aqui.

William Golding: O que um homem faz o contamina, não o que os outros fazem... Estive em muitos países e neles encontrei pessoas examinando seu próprio amor pela vida, seu senso de perigo e seu próprio bom senso. A única coisa que elas não conseguem entender é por que esse mesmo amor pela vida, esse mesmo senso de perigo e, sobretudo, esse bom senso, não são invariavelmente compartilhados por seus líderes e governantes... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ursula Karven: Envelhecer é uma jornada empolgante que leva a ainda mais independência e liberdade... Nenhuma tempestade dura para sempre... É exatamente nesses momentos que reside a força na paz e na serenidade... Veja mais aqui & aqui.

 

NAUFRÁGIO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Quero soltar a âncora e velejar nesse mapa desconhecido, \ e se o mar ficar bravo, \ assobiarei aos céus para negociar a rota direta à lua, \ e se os ventos forem fortes, \ aguentarei firme nas coordenadas dessa viagem da vida.

Poema da premiada poeta e artista visual maçambicana Sónia Sultuane, autora do livro Walking Words (2021), entre outros. Veja mais aqui.

 

PALAVRAS HERMÉTICAS ENAUSEADAS - [...] Em um tempo no qual a intimidade é perpassada por todos os códigos de IA, a maneira de se proteger é simular uma linguagem hermenêutica, que não o é. Antes, é náusea que brota incontivelmente, com o mínimo de filtros e revisões. Vai do ato incontrolável da escrita relaxada à publicação não revisada num ato contínuo que desconsidera a liturgia que segrega o sagrado do profano. [...] Não entender nada pode ser tomado como uma tradução ao ato de discordância radical de quem prefere rotular de nonsense a fala alheia, bárbara, evitando a possibilidade de diálogo. Mas se há a possibilidade de diálogo, a concordância se dá como ponto de fuga, isto é, busca-se o entendimento como repulsa ao monólogo, da linguagem unidirecional. Decidimos concordar sobre a disposição de nos lançar ao diálogo, mormente com quem discordamos radicalmente. [...] Tudo que escrevo em textos resultante da náusea é um transbordo deste tempo em que os limites do diálogo são rompidos e a violência e a mentira tomam o lugar da discordância. [...] De fato, apelo a uma linguagem estranha, na qual há o apelo para que o lobo e o cordeiro vivam juntos (a despeito dos sábios). Mas como, se o leão amando o cordeiro faz dele sua refeição? Isto é um mistério. [...]. Trechos extraído do texto Palavras herméticas enauseadas (2025), do escritor samarinês Marco Nicolini, autor de Sottacqua (Aiep, 2020).

 

RACISMO - Não se pode olhar para uma pessoa e julgá-la pela cor da sua pele... O racismo é uma doença de adultos, e devemos parar de usar nossas crianças para propagá-lo... O racismo é uma forma de ódio. Nós o transmitimos aos nossos jovens. Quando fazemos isso, estamos roubando a inocência das crianças... As escolas precisam ser diversas se quisermos superar as diferenças raciais... Acredito que odiar não te faz bem nenhum... Talvez não sejamos todos igualmente culpados. Mas todos somos igualmente responsáveis por construir uma sociedade decente e justa... Pensamento da ativista estadunidense Ruby Bridges (Ruby Nell Bridges Hall), que é autora da obra Through My Eyes (Scholastic Press, 1999) e presidente da Fundação Ruby Bridges, criada em 1999, para promover "os valores da tolerância, do respeito e valorização de todas as diferenças."

 

A ARTE DE JOÃO FALCÃO

[...] Eu vi que o teatro era fácil, era só juntar algumas pessoas e ter uma boa ideia [...] Trabalhei com monstros consagrados, mas também com muita gente iniciante [...] O Asdrúbal me despertou o fascínio pelo trabalho de grupo e pela temática contemporânea. Quando vi Macunaíma, descobri a figura do diretor, inventei que queria fazer aquilo [...].

Trechos extraídos da entrevista João Falcão: De mansinho, a consagração - Como a carreira do diretor foi construída sobre percalços que se confundem com os dos personagens de sua peça 'Clandestinos' (Continente, 2010), do roteirista, diretor e compositor musical, João Falcão (João Barreto Falcão Neto), que atua no teatro com quase quatro décadas de trajetória e dezenas de peças encenadas, criador da famosa peça A Máquina (1999), que revelou atores como Wagner Moura, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta, e que transformada em filme em 2004.. Também dirigiu sucessos como Gonzagão – a Lenda e Clandestinos, com também participou de produções de grande destaque na Rede Globo, como A Comédia da Vida Privada, Sexo Frágil e Clandestinos. No cinema, colaborou nos roteiros de filmes como O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro. Começou sua trajetória como ator na peça Morte e vida Severina (1980), de João Cabral, e em Toda Nudez será castigada (1980). Dirigiu Flicts, a cor, de Ziraldo e Aderbal Freire Filho. É autor das peças Muito pelo contrário (1981), Xilique Peba Piriquito Xique (1983), Cara Metade (1983), O Pequenino Grão de Areia (1983), Esse Estranho desejo (1984), A ver estrelas (1985), Palmas pra que te quero (1986), Criadas da Glória (1986), Mamãe não pode saber (1993), A História do Homem (1996), A Dona da História (1998), Uma noite na lua (1999), Marilyn, Marilyn (2000), As aventuras de Zé Jack e seu Pandeiro... (2005), Dhrama (2007), Clandestinos (2008), Gonzagão, a Lenda (2012), Dorinha, meu amor (2017), Que Deus sou eu (2020) e Ensina-me a Viver (2022). Atuou com roteirista e diretor em diversos audiovisuais da TV Globo, entre participações na direção e roteiro de filmes, shows e especiais. Veja mais aqui & aqui.

 


A MÚSICA DE MILTON NASCIMENTO - Perfil & trajetória, com toda discografia e participações cinematográficas, do cantor, compositor, ator e multi-instrumentista Milton Nascimento (Milton Silva Campos do Nascimento, 1942), que aos 4 anos ganhou uma sanfona de 2 baixos e, aos 13, cantava no conjunto Continental de Duilio Riso Cougo, um grupo de baile. Com a música Travessia, parceria com Fernando Brant, ocupou o 2º lugar no Festival Internacional da Canção, em 1967, gravou 34 álbuns registrando as suas mais diversas parcerias, hoje, com 84 anos, os aplausos para este cidadão do mundo. Confira aqui.

 


A ARTE DE GUITA CHARIFKER – Destaque para a arte da pintora, desenhista, gravurista e escultora, Guita Charifker (1936-2017), pela relevância de sua trajetória no cenário das pinturas, aquarelas e desenhos desta grande artista. Veja a homenagem aqui.

 


MUNDO DA DIVERSIDADE – Reunião de temas que caracterizam a diversidade de ideias da contemporaneidade, tratando sobre cultura, sexualidade, racismo, gênero, identidade, inclusão, relacionamento, entre outros, fazem parte das discussões na reflexão ampla de pensadores da atualidade. Confira aqui.

 


TORÉ XUKURU – Trata-se do 4º episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna. Desta feita, a garotada se depara com o Toré Xukuru, em Pesqueira, terra do doce e da renda renascença, a terra da amizade. Confira aqui.

 


CANTARAU TATARITARITATÁ – Registro de realização do cantarau Tataritaritatá, um projeto iniciado em 2002 como como zine impresso, depois transformou-se em zineblog, programa radiofônico, folheto de cordel, show poético-musical e, agora, em livro. Dá-se aqui a reunião de informações do portfólio, repertório, playlist de vídeos e fotos do projeto, a exemplo da apresentação no Sopa de Letrinhas do Clube Caiubi, em São Paulo. Veja detalhes aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO!!!

A arte do escultor, artesão, mamulengueiro, dançarino, escritor e artista Mestre Saúba (Antônio Elias da Silva), apelidado por conta de uma façanha da juventude: conseguiu retirar um relógio de dentro de um formigueiro. Veja mais aqui.

 


sábado, setembro 05, 2026

MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

 


O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto na área! Vasculhou-se de onde era que vinha aquela catinga horrível incomodando todos dali. Caçaram, pelejaram, vasculharam e só deram conta do sucedido quando avistaram uma tuia de urubu-de-cabeça-preta atrepado aos giros sobre uma casa, a última do arruado do Barão, só pessoas dele moravam naquela redondeza. E depois delas, temores quando anoitecia, a rodagem dava pro cemitério. Vixe! Mau agouro! Oxe, larga de ser frouxo! Quem mora aí? Ah, um que era tido por estranho mudo, há décadas perdidas na memória. Ninguém sabia o seu nome, nem parentes, nem conhecidos, apenas que era cheleléu do Barão. E que saía de casa antes do amanhecer e só retornava tarde da noite. Isso até a morte do influente poderoso – há uns 10 ou mais anos atrás. Depois do desencarne do onipotente, via-se ele toda noitinha, aboletado na cadeira à porta de casa. Não conversava com ninguém e só saía de casa para comprar mantimentos, logo retornava e se trancava novamente. Viam-no vez em quando na padaria, no açougue, no supermercado, ou pela beira do rio. E davam-no por álalo, porque ao ser saudado, apenas balançava a cabeça anuente com um sorriso receptivo. É aí mesmo a fetidez! E agora? Chutes e mãozadas botaram a porta abaixo: a inhaca tomou conta. Danou-se! Foi difícil adentrar, o corpo jazia no chão escuro, ao lado da cama, envolto por várias folhas de papel e outras espalhadas pelo chão. Era uma casa simples, sala, quarto, cozinha e banheiro, poucos utensílios: um fogão de duas bocas, acoplado a um diminuto botijão de gás, um prato, talher, uma garrafa térmica, uma cadeira de balanço e outra plástica, uma foto do barão na parede, um rádio de pilha e um amontoado de volumes, com encadernação artesanal, lendo-se na capa: Diário do Barão. Eram muitos tomos pelos cantos da sala, pelo quarto e empilhados na parede da cozinha, às centenas. Todos iguaizinhos e com a mesma inscrição na capa. Ao folheá-los, manuscritos com uma caligrafia bem desenhada, datas – dia, mês e ano - e narrativas registrando o dia-a-dia. Eita! Ninguém estava interessado em saber o que continha naqueles rabiscos. Saíram procurando por parentes ou conhecidos, vasculharam documentos, nada. Por fim, sacudiram-no numa cova rasa no canto do muro lá do cemitério. Pronto. E a casa dele? Deixa pra lá, os que ficaram para herdeiros do barão a qualquer momento vão arrumar um jeito. E a casa abandonada ali ficara. Um ou outro curioso surrupiava um exemplar para saber o que tinha. Logo o converseiro nasceu, a curiosidade aguçou. Rapaz, tu lesse aquele? É bronca! O barão era virado, hem? Oxe, meu pai contava muitas e boas dele! E em pouco tempo a coleção  sumiu. E a arenga: Quem tem um livro daquele? Quem sabe! Rapaz, é mesmo? Tudinho aos detalhes! Tá doido? Quero nem saber! Os anos se passaram e de boca em ouvido, dizem, toda a hestória das coisas tidas e idas em Alagoinhanduba. Valha-me!.. Até mais ver.

 

Georges Bataille: A necessidade de se desviar, de ser destruído, é uma verdade extremamente íntima, distante, apaixonada, turbulenta... Um beijo é o começo do canibalismo... Na verdade, temos apenas duas certezas neste mundo - que não somos tudo e que morreremos... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Heather Thomas: Aprendi a me ouvir, a prestar atenção ao que meu corpo dizia e a respirar conscientemente. Eu também estava lidando com uma doença crônica. Lutei para aceitar tudo o que fazia parte da minha vida, dentro e fora da narrativa oficial. Assim como eu, essa narrativa estava sempre em revisão, assumindo novas formas... Veja mais aqui & aqui.

Jared Diamond: É impressionante que os nativos do continente americano não tenham desenvolvido nenhuma doença epidêmica devastadora para transmitir aos europeus, em troca das muitas doenças epidêmicas devastadoras que receberam do Velho Mundo... Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

OS USOS DA TRISTEZA - Uma vez, alguém que amei me deu \ uma caixa cheia de escuridão. \ Levei anos para entender \ que isso também era um dom.

EXCETO PELO CORPO - Com exceção do corpo \ de alguém que você ama, \ incluindo todas as suas expressões \ em privado e em público, \ As árvores, em minha opinião, \ são as \ formas mais belas da Terra. \ Embora, reconhecidamente, \ se isto fosse uma competição, \ as árvores ficariam em \ um distante segundo lugar.

Poemas da premiada poeta estadunidense Mary Oliver (Mary Jane Oliver – 1935-2019). Veja mais aqui.

 

RACISMO & RESILIÊNCIA - […] Atenção: este livro contém material que os leitores podem considerar perturbador e chocante, podendo causar tristeza, angústia ou desencadear memórias traumáticas, especialmente para os povos aborígenes e para aqueles que sobreviveram a abusos, violência ou traumas na infância. [...] Quando você apanha, isso te afeta profundamente. Tira sua autoestima, sua confiança, seu amor-próprio e sua autovalorização. Mas, mais importante ainda, tira sua voz. [...] Entrei para a polícia por vários motivos: primeiro, para ver se conseguia entrar, e mais importante, porque tinha visto como a polícia maltratava o meu povo e ingenuamente pensei que, se entrasse, conseguiria acabar com isso. [...] Quando entrei para a polícia, tinha a ideia de que poderia mudar a atitude da comunidade aborígine em relação à polícia. Mal sabia eu que só conseguiria fazer isso depois de mudar a atitude da polícia em relação aos aborígenes [...] A dor e o sofrimento das gerações roubadas são transmitidos de geração em geração. Minha avó viveu esse medo, meu pai experimentou o medo e eu temi a experiência. [...]. Trechos extraídos da obra Black and Blue: A Memoir of Racism and Resilience (Bolinda, 2022), da escritora aborígene australiana Veronica Gorrie (Veronica Heritage-Gorrie), autora de trabalhos como When Cops Are Criminals (2024) e Nullung (2021).

 

PÓS-HUMANO - […] O que é necessário é uma transformação radical, seguindo as bases do feminismo, do antirracismo e do antifascismo... [...] O conceito de ser humano hoje está em discussão. Aliás, não tenho certeza se existe um consenso sobre o que significa ser humano [...] Não acredito que o pós-humanismo seja algo que virá no futuro. Não é ficção científica. [...] E também não sou um transhumanista do Vale do Silício que acredita que somos capazes de fazer o upload da nossa consciência para um computador e nos transformarmos em super-humanos. Acredito que o pós-humanismo seja, na verdade, um índice para descrever o estágio em que nos encontramos agora. Nossos valores, nossas representações e nossas formas de compreensão ainda estão ligados a conceitos antigos do ser humano [...] Estamos repensando os parâmetros da nossa humanidade. Encontramo-nos numa fase de crítica ao antropocentrismo, à ideia de uma espécie central que controla todas as outras. Pós-humano não é um conceito excelente. Pessoalmente, não gosto dele, mas, no momento, não temos um termo melhor para designar todas as pesquisas e experiências realizadas em universidades e centros culturais que se concentram em novas formas de pensar sobre o que estamos nos tornando. Desenvolvemos novas possibilidades fascinantes, como, por exemplo, a manipulação genética, mas nossos valores, nossas representações e nossas formas de compreensão ainda estão atreladas a conceitos antigos do ser humano. Precisamos ser corajosos e discutir juntos, de forma democrática e crítica, o que queremos nos tornar. O que somos capazes de nos tornar. [...]. Trechos da entrevista (CCCBLab, 2019), concedida pela filósofa e teórica feminista italiana Rosi Braidotti, que no seu livro El conocimiento posthumano (GEDISA, 2019) aborda questões contextuais acerca do retorno virulento de atitudes patriarcais e supremacistas brancas, examinando as implicações da virada pós-humana para a teoria e a prática feministas. Ela define a virada pós-humana como uma convergência entre o pós-humanismo, por um lado, e o pós-antropocentrismo, por outro, e analisa sua complexa relação e impacto conjunto, afirmando que a produção acadêmica pós-humana dominante negligenciou a teoria feminista, quando, na verdade, o feminismo é um dos precursores da virada pós-humana, por meio de diversos movimentos sociais e tradições políticas. Ela é autora de obras como Posthuman Feminism (Polity Press, 2022), The Posthuman (2013) e  Nomadic Subjects (1994). Veja mais aqui & aqui.

 

CHACRINHA, O VELHO GUERREIRO

Cheguei, baixei, saravei! Eu vim para confundir, não para explicar!...

Sentença do saudoso comunicador e apresentador do rádio e da TV, Chacrinha (José Abelardo Barbosa de Medeiros, simplesmente Abelardo Barbosa – 1917-1988), que revelou inúmeros artistas como Roberto Carlos, Clara Nunes, Raul Seixas, entre outros. Ele depois de falsificar a data de nascimento, ingressou no Tiro de Guerra, em Recife, quando atuou como baterista e percussionista do grupo Bando Acadêmico. Cursou Medicina e, depois de uma malograda turnê por conta da 2ª guerra mundial, voltou para o Rio Janeiro, onde se tornou locutor da Rádio Tupi e daí foi para a televisão. Era chamado de “Velho Guerreiro”, por conta da homenagem feita a ele por Gilberto Gil, como também de Papa da Comunicação, alcunha dada pelo filósofo francês Edgar Morin. Ele iniciou sua carreira no rádio com o programa Rei Momo na Chacrinha, em 1943, e fez muito sucesso na televisão com os programas Buzina do Chacrinha, Cassino do Chacrinha e Discoteca do Chacrinha, até o final da década de 1980. Foi homenageado pela escola de samba Império Serrano no carnaval de 1987, com o enredo "Com a boca no mundo - Quem não se comunica, se trumbica", e pela escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio, no carnaval de 2018, com o enredo “Vai para o trono ou não vai?”. Outra homenagem foi a música Roda e Avisa, de Jota Michiles e Edson Rodrigues, gravada por Alceu Valença. Ele participou de diversos filmes, entre eles Três Colegas de Batina (1962), A opinião pública (1967), Pobre Príncipe Encantado (1969), Já não se faz amor como antigamente (1976) e As Aventuras de um Paraíba (1982). Além destes, ele foi tema do documentário Alô, Alô, Terezinha! (2009), dirigido por Nelson Hoineff. Veja mais aqui.

 


A MÚSICA DE MOACIR SANTOS – Homenagem ao arranjador, compositor, maestro e multi-instrumentista Moacir Santos (1926-2006), pela sua trajetória musical iniciada ainda menino órfão e que, durante décadas, finalmente perseguiu sua arte para alcançar aplausos no exterior. Confira aqui.

 


PAULO FREIRE – O educador e filósofo Paulo Freire (1921-1997) é uma das mais importantes personalidades da educação planetária, tendo sua obra atravessado fronteiras e estudada nos mais diversos países. Sua proposta de educação dialógica e problematizadora tem sido relevante na construção de uma postura crítica ante a realidade. Veja a dimensão de sua filosofia aqui.

 


ARTE NA ESCOLA – Por iniciativa das professoras Fátima Portela & Myrelly, os alunos do 9º ano da Escola Caic - José do Rego Maciel, de Palmares (PE), realizaram atividades que envolveram a elaboração e realização de xilogravuras, trava-língua, apresentações de cordel, embolada, dança de roda, parlendas, entre outras. Confira aqui.

 


BARÃO DE ALAGOINHANDUBA – (Imagem: Acervo ArtLAM) – A personagem do Barão de Alagoinhanduba é uma das mais relevantes no território de Alagoinhanduba e arredores regionais, não só pela sua preponderante participação no desenvolvimento da cidade, como o envolvimento com a política, a ordem, segurança e desenvolvimento, responsável pelos mais inusitados e extravagantes acontecimentos da localidade. Confira aqui.

 


CAOSMOSE & O POEMA NASCE NO VISINVISÍVEL...Série ArtLAM elaborada com pigmentos naturais, acrílica e lã de aço em papel Canson A4, para a exposição coletiva Gentamiga Ateliê, realizada entre os dias 21 a 30 de setembro, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto, Palmares (PE), por ocasião de lançamento do livro-catálogo do Gentamiga Ateliê (CriaArt, 2026), com apresentação dos professores da USP, Evandro Nicolau e Renata Sant’anna. A série reúne os trabalhos intitulados Pulsações caósmicas, Fluxo dos devires, Pulsações do efêmero, Ensaio de múltiplas dimensões, Trâmite dos simulacros & platitudes, Arrostar aporias, Celebração autopoiética e Limiar da loucura poética. Confira aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO!!!

A arte do escultor Mestre Noza (Inocêncio Medeiros da Costa, Inocêncio da Costa Nick – 1897-1983).

Veja mais aqui.

 




TATIANA DE ROSNAY, VERONIKA KIVISILLA, NIALL FERGUSON & MARIA LAURA LOPES

  Imagem: Fluxo dos devires , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula porcina na cabeça!... -...