segunda-feira, julho 08, 2024

MARTHA NUSSBAUM, CECILIA LAGE, MARIELA TULIÁN, ÁGNES SOUZA & MATA SUL INDÍGENA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som Piano Concerto nº 2. Op. 18, do compositor, pianista e maestro russo Sergei Rachmaninoff (1873-1943), na interpretação da pianista russa Maya Oganyan & Orchestra del Teatro La Fenice di Venezia Direttore: Damiano Binetti Registrato il 28 aprile 2024 al Teatro Malibran di Venezia dalla galleria. Veja mais aqui e aqui.

 

POEMA ESCRITO NA PAREDE: AQUELA ERA A HORA... - Outonera inauguramanhã e tempalaridos. Sabia nada e tudo via escancarada porteira do mundo: aprendia subservivo encurralado e escorregava na meleca, o estouro da queda: no meu chão todas as razões pra chorar - a escravidão se perpetuava e o país em chamas: iniquidade sempre foi privilégio, tudo era tão cruel. E não se contava o que houve, só a fábula cheia de caos e poluição, degradação, decadência. Persuadia Colleen Hoover: Você é apenas humano. E como humanos, não podemos esperar arcar com toda a nossa dor... Sim, demandas e diásporas, um fio desencapado na travessia. Cá comigo, o que era do outro lado se estava deste: quem lá estava e me via muitos que não dou conta de tantos, nem podia trezentos e sessenta graus. E sequer alcançava o que de possível seria. Melhor Wisława Szymborska: Quando pronuncio a palavra \ Futuro, a primeira sílaba já pertence ao passado. \ Quando pronuncio a palavra \ Silêncio, \ Eu destruo isso... Outroutra e o mundo sempre foi mesmo muito injusto: equidade que me fiz no desequilibrio, total descontrole - o reino da outridade e o heterogêneo, porque o outro do outro era eu e serei a comungar e viver. As dores dos outros também sempre foram minhas e fui o tempo; a vida, quase uma viagem clandestina, voava livre na disposição abissal. E fui o vento e o que poderia ter sido, derramei meus versos e enlouquecia: duas vezes morri e recolhia as folhas do silêncio. Não fosse Lauren Kate: Às vezes, coisas bonitas surgem em nossas vidas do nada. Nem sempre conseguimos entendê-los, mas temos que confiar neles... Amarei você de todo o coração, em cada vida, em cada morte... Era ela e eu atravessava espelhos e tantos baobás por caminhos insidiosos, as inumeráveis coisas anônimas e os labirintos fractais, ouropéis e quasicristais, areias outras e o que não quis por noites verticais. E era ela o entardecer: uma rainha louca, com o estardalhaço de arrancar suas roupas, nua ave desvelando segredos. E não bastava o que era da madrugada e a coincidência da estrela parecia remissão: era ela que voltava com seu perfil grego e a fúria de furacão Beryl, revirando tudo num plenilúnio rosazul: os fartos seios de prata de Capéi pelo Atol das Rocas. Ali me ensinou a solaridade e repetia interminavelmente: somos sóis vivos! E refulgimos por todo invernescuro semeando festestival. Até mais ver.

 

TRÊS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

A VOZ DE UM PÁSSARO - Não consegui preservar minha especie \ foi por isso que morri, \ três humanos olham para mim quando passo \ com o espanto que as coisas mortas têm. \ Hoje, depois da caça, desapareci, \ Um cachorro passa por mim e leva meu espírito, \ Eu permaneci calmo, \ Meu espírito será preservado em outra espécie, finalmente.

PALOMANCIA URBANA - Pombos, parem de falar comigo! \ Pare de me confundir com como você sabe voar! \ e eles vão possuir o mundo! \ Uma mera migalha não os torna onipotentes, não é mesmo?

VIVA ENTRE AS PESSOAS - Viva entre as pessoas \ e não atormente \ o pulso vital \ é dado à morte passiva, \ tolerância não é extrema \ e o corpo cansa \ e a fumaça dos carros \ eles são poeira inimiga \ e tudo é peido \ e tudo é ar que polui \ e tudo é nulo, \ tudo é blasfêmia \ tudo é um corpo cercado, \ toda asfixia sobre-humana, \ o tempo todo para tras \ tudo está vivo, mas de cabeça para baixo, \ e tem uma criança que morre de rir \ e outro que ri de tontura \ e penso em ficar tonto. \ Mutação de mundo para mundo.

Poemas da poeta uruguaia Cecilia Lage, autora dos livros Verlo Todo Con Ojos Animales (Gran Vida, 2014) e Llévame al agua (Astromulo, 2022).

 


ANCESTRALIDADE – A ancestralidade nos diz que somos seres de amor. Não há justificativa para o que está acontecendo... Pensamento expresso em uma entrevista (CDM Notícias, 2019) concedida pela escritora e professora argentina, Mariela Tulián, que é uma casqui curaca da comunidade indígena “Tulián”, do povo da nação Comechingón, das Serras de San Marcos, província de Córdoba. É Vice-Presidente da Coordenação de Comunicação Audiovisual Indígena da Argentina (CCAIA) e Secretária da Região Sul do Conselho de Anciãos, Anciãos e Guias Espirituais do Continente. É autora dos livros Zoncoipacha: desde el corazón del territorio – El legado de Francisco Tulián (Ciccus, 2016) e La Pequeña Francisca (A Capela, 2020), além de integrar a antologia De la tierra floreciente: Poesía de Abya Yala (A Capela, 2020), de Dora Aguavil Aguavil. Na entrevista concedida ao Centro Argentina para Mídia Independente (2017), ela expressa sobre o conceito de território: [...] Este conceito faz parte da minha memória oral e faz parte também de uma convivência com o território, porque não são só palavras, é ação, é viver num quadro de vida, onde se entende que o espiritual é muito importante. Todas as ações que realizamos na defesa do território reafirmam constantemente esse sentimento profundo, esse amor e esta necessidade de proteger este modo de vida que é a nossa cultura. Somos filhos da mãe terra. Temos o tacu, a alfarrobeira, como um dos elementos mais importantes, é o nosso alimento e é, ao mesmo tempo, um medicamento muito importante, temos até a cor da alfarrobeira na pele, os nossos músculos ficam fortalecidos por aquela farinha de alfarroba e Para nós o tacu significa árvore da vida, nessa grande teia da vida o tacu tem um lugar predominante. [...]. Sobre as mulheres ela explicita: [...] Nossa visão de mundo apresenta a mulher como um complemento, mas ao mesmo tempo em igualdade de condições com o que se vê na sociedade atual. Por exemplo: ancestralmente e atualmente, a mulher pode ocupar qualquer cargo; Na verdade, sou um casqui curaca da comunidade. E isso era muito mais comum do que você pensa; O que aconteceu é que a colônia trouxe o machismo. O machismo é outro legado da conquista e que está comprovado em diversos arquivos. Existem muitos caciques, lideranças femininas que foram muito maltratadas, estigmatizadas, mas ao mesmo tempo permaneceram na história de diferentes povos indígenas. Posso citar, por exemplo, Juana Azurduy, ela é um exemplo claro. Há uma líder, chamam-na de Gaitana, que ficou na memória da Colômbia e da Venezuela, ela era cacique e era a líder da comunidade quando os espanhóis chegaram ao território. E como ela existem outros líderes ancestrais que eram desconhecidos da história, que não chegaram aos nossos ouvidos e esse silêncio não é uma simples omissão; É um plano para sustentar o machismo, o patriarcado que não tem justificativa. Em outras cidades, os homens são filhos do sol e as mulheres da lua; Somos filhos de Inti Puka, do Sol Vermelho do povo Comechingón, é um Sol que é pai e mãe, construído com o barro da nossa mãe terra, é um símbolo que une o feminino e o masculino, o grande pai não poderia ter forma sem o barro da nossa mãe terra, desta forma os homens são filhos do sol e nós, mulheres, filhas da luz desse sol. Vemos que atualmente o homem genérico assumiu a posse da mãe terra, da mesma forma que acredita que pode possuir as mulheres como propriedade privada. O machismo é uma extensão da ideia de propriedade privada [...].

 

SEM FINS LUCRATIVOS: POR QUE A DEMOCRACIA PRECISA DAS HUMANIDADES - [...] Os problemas que a globalização e a automatização criam para a classe trabalhadora são reais, profundos e aparentemente intratáveis. Em vez de enfrentarem essas dificuldades e incertezas, as pessoas que sentem o declínio do seu padrão de vida podem, em vez disso, agarrar-se aos vilões, e uma fantasia toma forma: se “nós” pudermos de alguma forma mantê-los fora (construir um muro) ou mantê-los “no seu lugar” ”(em posições subservientes), “nós” podemos recuperar o nosso orgulho e, para os homens, a sua masculinidade. O medo leva, então, a estratégias agressivas de “alteração” em vez de análises úteis. [...] “E o que é “o Ocidente”? Não é uma entidade geográfica, uma vez que inclui a Austrália e a Polónia e exclui nações como o Egipto e Marrocos, que estão mais a oeste do que algumas das nações incluídas. [...] Basicamente, é um apelo à religião partilhada e à identidade racial partilhada: ao cristianismo (com alguns judeus incluídos) e à branquitude (uma vez que a América Latina não parece estar incluída) [...] O medo tende muitas vezes a bloquear a deliberação racional, envenena a esperança e impede a cooperação construtiva rumo a um futuro melhor. [...] Os problemas reais são difíceis de resolver e resolvê-los exige muito tempo de estudo aprofundado e de trabalho cooperativo com vista a um futuro que nunca deixa de ser incerto. Assim, pode ser muito fácil transformar esse sentimento de pânico e desamparo em culpabilização e numa “alteração” de grupos “diferentes”, como os imigrantes, as minorias raciais e as mulheres. “Eles” tiraram-nos os nossos empregos. Ou, se não: a elite opulenta roubou-nos o nosso país. [...] Em vez de analisarem seriamente a questão e ouvirem os argumentos do outro lado, tentando compreender plenamente os vários aspectos da realidade, tendem a demonizar nada menos de metade do eleitorado americano, descrevendo esses eleitores como monstros e inimigos de tudo o que é bom. Como no livro do Apocalipse, estaríamos, segundo eles, no fim dos tempos, no momento em que alguns justos, ainda de pé, deverão lutar contra as forças de Satanás. [...] É fácil que o medo venha antes do pensamento reflexivo. E é essa debandada que nos leva a agir precipitadamente, causada pela insegurança, que encaro com grande cepticismo. Esse tipo de medo mina a fraternidade, envenena a cooperação e nos leva a fazer coisas das quais nos envergonhamos profundamente mais tarde. [...] Pensar é difícil; é muito mais fácil temer e culpar. [...] Tendemos a pensar melhor e a nos relacionarmos de forma mais eficaz quando nos distanciamos do cotidiano, que é onde nossos medos e desejos mais imediatos provavelmente estarão centrados. [...] Quando sentimos medo, estamos utilizando uma herança animal comum, não exclusiva dos primatas ou mesmo dos vertebrados. O medo volta diretamente para o cérebro reptiliano. [...]. Trechos extraídos da obra The Monarchy of Fear: A Philosopher Looks at Our Political Crisis (Simon & Schuster, 2018), da filósofa estadunidense Martha Nussbaum. Veja mais aqui.

 

BULA

todo dia \ sempre que puder\ de doze em doze horas\ o médico recomendou caminhar\ de oito em oito horas\ tá doze por oito eu acho\ de seis em seis horas\ a rezadeira disse que era olhado\ de homem e de mulher\ de três em três anos\ colocar dois dedos no pulso\ para lembrar que ainda se está vivo.

Poema da poeta e professora Ágnes Souza, autora dos livros re-cordis (2016) e Pouso (2020), que também se expressa: [...] Eu comecei a ter um olhar mais curioso acerca dessa poesia que tem como centro o pequeno, o miúdo, e é o que eu hoje em dia mais prezo nos meus poemas, esse debruçamento sobre o que passa, muitas vezes, despercebido, por estar presente o tempo todo, por ser muito próximo e que, às vezes cega [...] Esse movimento de descrédito às artes, sem nenhuma intenção de romantizar, acaba fortalecendo essas poéticas que não deixarão de existir por conta de um plano político, é como disse Gilberto Gil no documentário Refavela 40, ‘a poesia é uma substância fraca... vale pouco na construção de vida material, mas vale muito na construção de vida subjetiva’, eu, como poeta, acredito que o ofício do poeta também. [...]. Veja mais aqui.

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4º ENCONTRO MATA SUL INDÍGENA

 
 

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segunda-feira, julho 01, 2024

ROSA LIKSOM, FIONA SZE-LORRAIN, ROBERT SAPOLSKY & LUZ DO ABISMO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum Brazilian Landscapes (OUR Recordings, 2017), da flautista dinamarquesa Michala Petri, da percussionista Marilyn Mazur e do violonista Daniel Murray. Veja mais aqui.

 

PEDAÇO DE CHÃO, CORAÇÃO ESTELAR... - Julho abriu-se como uma carta secreta que não escrevi e o espelho refletia outra face puxando conversa, era Edna St. Vincent Millay: Para a escuridão eles vão, os sábios e os amáveis... Nem nenhoutro era, apenas como se revivesse o primeiro poema que cometi feito de cinzas sobre meus músculos e uma dor aguda coração boca afora, voz da manhã de outro dia que não sei se ainda virá ou se já passou tarde demais. No segundo verso uma estrela caiu no rio com uma chuva de meteoros e exoplanetas, o Sol do futuro aos meus olhos era o espetáculo do presente. Não era mais menino nem sentia saudade alguma, Deus morava logo ao lado e parece, não sei, que se mudou anteontem. Era o que diziam os meus mortos que sorriam ao aceno da outra margem, quando eu desacreditava de tudo e não sabia nada ao crepúsculo das queimadas chãs. A fumaça me fez nuvem no pico da montanha à deriva dos ventos por todos os abismos dos devires. Restava a neblina e Jean Stafford: Apaixonar-se não é um mergulho abrupto; é uma descida gradual, raramente em linha reta, mais ou menos como a descida de um paraquedas. E a expressão é imperfeita porque embora alguém possa cair, também levita... Me apaixonei por Calígula e agora sou casada com Calvin... Sorria uma e mais três coisas me dizia: que eu era um beco sem saída no fim do mundo daqui, desregrados sentidos nas clandestinas paisagens de dar voltas mundafora e a morte ao fim do dia. Pisei o assoalho de pedras falsas e era para quem chegou antes ou depois e o jamais visto. Era ela no quarto como se um barco fosse o arco das ondas e os farrapos de sonhos entroutras e mais uma - prolegômenos para quem teve arrancada a raiz, a se equilibrar espremido por nenhuma multidão de medrosos, interesseiros, realizados individuais em torno da amnésia geral, talvez censores fantasmas que jogavam pra lá quando não havia mais utilidade ou findasse servil de vez, cada qual uma ilha distante, isolada, saqueada. Ouvia na solidão Nancy Farmer: O objetivo é nunca desistir, mesmo se você estiver caindo de um penhasco. Você nunca sabe o que pode acontecer no caminho para o fundo... Era cartoutra e se deu certo ou não, sonhos se realizaram ou, melhor, viraram pesadelos, perdi tempo ou valeu a pena, ou só se queria demais e o aprendizado na cegueira: aprendia antes de sonhar – a vida é como um murro em ponta de faca e nas garras dos carcajus. Cinco palavras a mais e quantas cartoutras se perderam na mulher musipoesia, restava meus monosticáusticos com indagações do que é a água para quem na Groenlândia ou no sertão nordestino, evaporada, negociada. Estava de volta sem nunca ter ido, avalie. Até mais ver.

 

ELEVADO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Você está interessado em roubar \ instintos? Ou na explicação \ dos segredos de um mundo \ que governa com a idade e a equidistância? \ Camada por camada, o vento \ busca uma mensagem, \ uma voz para o Destino. O sol, \ seus mares, \ até mesmo os pássaros que passam, \ ditam a ciência ao comando da vontade. \ Uma existência \ não afetada pelas estações. \ Tanta coisa sobre uma vida insondável. \ Um universo redondo com planos para amanhã, \ nunca a palavra final. \ Não posso falar de acidentes em outros lugares, \ apenas de formas, linhas — \ pensamentos que se estendem ao diálogo \ nas cartas ou na água. \ Acredite, \ as respostas são pequenas \ mesmo que um dia você viaje \ em anos-luz, \ mesmo quando a luz se torne infinita \ enquanto uma estrela morre, outra \ surge, com espanto \ e sem motivo.

Poema da escritora, musicista, tradutora e editora francesa Fiona Sze-Lorrain.

 

CORONEL - […] A alegria de uma vida passada é que ela nunca mais volta. [...]. Trecho extraído da obra Everstinna (Like, 2017), da premiada escritora, fotógrafa e artista plástica finlandesa Rosa Liksom, que ainda assim se expressa: Alguém diz que quando neva há luz no meio da escuridão. Eu não baseio isso na luz. É o suficiente para mim se o sol brilha durante todo o verão, dia e noite... Eu definitivamente teria colocado um ponto final em tudo isso, mas pela manhã quebrei a potência da hora do café novamente... Tente fazer isso, é isso... Veja mais aqui.

 

COMPORTE-SE – […] Você não precisa escolher entre ser científico e ser compassivo [...] O cérebro é fortemente influenciado pelos genes. Mas desde o nascimento até à idade adulta jovem, a parte do cérebro humano que mais nos define (córtex frontal) é menos um produto dos genes com os quais começamos a vida do que daquilo que a vida nos lançou. Por ser o último a amadurecer, por definição o córtex frontal é a região do cérebro menos restringida pelos genes e mais esculpida pela experiência. Deve ser assim, para sermos a espécie social extremamente complexa que somos. Ironicamente, parece que o programa genético de desenvolvimento do cérebro humano evoluiu para, tanto quanto possível, libertar o córtex frontal dos genes. [...] Porque é que as pessoas numa parte do globo desenvolveram culturas coletivistas, enquanto outras se tornaram individualistas? Os Estados Unidos são o exemplo do individualismo por pelo menos duas razões. Primeiro há a imigração. Actualmente, 12 por cento dos americanos são imigrantes, outros 12 por cento são filhos de imigrantes e todos os restantes, excepto os 0,9 por cento de nativos americanos puros, descendem de pessoas que emigraram nos últimos quinhentos anos. E quem eram os imigrantes? Aqueles no mundo estabelecido que eram excêntricos, descontentes, inquietos, heréticos, ovelhas negras, hiperativos, hipomaníacos, misantrópicos, coceira, não convencionais, ansiando por ser ricos, ansiando por sair de seu maldito e chato vilarejo repressivo, ansiando. Junte isso à segunda razão - durante a maior parte da sua história colonial e independente, a América teve uma fronteira móvel que atraiu aqueles cujo optimismo extremo e espinhoso tornou a mera reserva de passagem para o Novo Mundo insuficientemente nova - e temos a América individualista. Por que o Leste Asiático forneceu exemplos clássicos de coletivismo? A chave é como a cultura é moldada pela forma como as pessoas tradicionalmente ganhavam a vida, que por sua vez é moldada pela ecologia. E no Leste Asiático tudo gira em torno do arroz. O arroz, que foi domesticado lá há cerca de dez mil anos, exige uma enorme quantidade de trabalho comunitário. Não apenas o trabalho árduo de plantio e colheita, que são feitos em rotação porque toda a aldeia é necessária para colher o arroz de cada família. Historicamente, os Estados Unidos não ficaram sem uma agricultura intensiva em mão-de-obra. Mas em vez de resolver isso com o coletivismo, resolveu-o com a escravatura. [...] A moralidade é simplesmente a atitude que adotamos em relação às pessoas de quem não gostamos pessoalmente. [...]. Trechos extraídos da obra Behave: The Biology of Humans at Our Best and Worst (Penguin/Harper, 2022), do cientista, professor e escritor estadunidense Robert Sapolsky. Veja mais aqui.

 

LUZ DO ABISMO

[…] Passaram-se muitos dias – não faço ideia de quantos – desde aquela tarde do crepúsculo e do canto. Não tornara a avistá-la. Nada tinha a dizer-lhe, mas pensava continuamente em revê-la. Mergulhada em meus abismos, não procurava encontrá-la, dando pouca atenção ao que acontecia por aqui... {...].

Trecho extraído da obra Luz do abismo (A Girafa, 2005), da escritora e médica Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque. Veja mais aqui e aqui.

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DO CEEPA À EREM: ANOS DE LUTAS, RESILIÊNCIAS E VITÓRIAS

[...] Por tudo isso que é necessário engajamento, sentimento de pertencimento, pela constante busca de dar sempre o melhor. [...].

Trecho extraído da obra Do CEEPA à EREM: Anos de lutas, resiliências e vitórias (Rascunhos, 2022), do professor Jadiel Barbosa de Lima. Veja mais aqui.

 

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segunda-feira, junho 24, 2024

TABITHA KING, PILAR QUINTANA, NADEJDA TOLOKONNIKOVA & MARACATU

 

 

Imagem: Acevo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Emilia Giuliani: Opera Omnia Per Chitarra: Complete Guitar Works (Tactus Records, 2021) e Guitar Manuscripts Heitor Villa Lobos (3 cdbox, Naxos, 2016), da violonista, professora e filósofa italiana Federica Artuso.

 

SOLSTÍCIO DE INVERNO, DUO AFETO... – Chovia muito e eu estava dois anos antes de Metrópolis. Submergia entre os interlúdios dos oito minutos, quando apareceu o surpreendente brilho das duas faces de Brigitte a me dizer Alejandra Pizarnik: O sentido das coisas permanece na intensidade de seus nomes... Cara duma, face doutra. Nunca fui Freder e ela se parecia Er, o platônico da Panfília, que retornava do Reino dos Mortos, depois de atravessar o Lethé. Alertava-me não ousasse beber água demais para não esquecer. Ora, as lembranças povoavam meu habitat desde que me entendo por gente atravessando o ronco das máquinas com seus motores pelos ponteiros dos relógios, alertando as trocas de turno e o cansaço autômato pelos subterrâneos, tantos órfãos da pandemia coexistindo pelas ruínas, outrora glórias ufanas. E me dizia mais Sei Shōnagon: Se a escrita não existisse, que depressões terríveis sofreríamos... E eu tinha que distinguir entre o excremento e o adubo, as surpresas e o incerto, o intenso e o instável, o veneno do lixo e o alarme de alguém, sabe-se lá quem, pronto para apertar qualquer botão e tudo se espatifando duma hora para outra, do nada. Se me salvasse restava só seguir entre a modorra e o pútrido, a simpatia e o asco, desmoronamentos e desgraças, a voz dos documentos, e prosseguir como se tivesse sido criado às escondidas num passado sombrio e com o eco de Gayle Forman: Agora percebo que morrer é fácil. Viver é difícil... Só o instante existe e não é mais. O presente não vale nada, dou à posteridade. Tive muito amigos e cantava peito cheio aberto a canção da América de Milton/Brant – um continente só e a pátria grande, da terra somos todos um. Hoje nem tanto, pouquíssimos: o tempo roubou as amizades, afora ter andado por desertos, sucumbências e errâncias pelas noites obscuras da alma perdida. Sim, os tive e o que havia de interesses e troca de favores, ainda bem que nunca fui abastado e nem tive bajuladores. O mundo em derrocada e eu estoico, os obstáculos unem corações e nos transformam. Na solidão conto nos dedos a certidão de que amizade sempre foi e será um pomar para dividirmos os dons mais elevados da vida, quiçá. Tomara. E que não seja tarde demais. Até mais ver.

 

A GRADUAL CANTICLE FOR AUGUSTINE

Imagem: Acevo ArtLAM.

O urso mais magro é acordado no inverno \ pelo riso sonolento dos gafanhotos, \ pelo barulho dos sonhos das abelhas, \ pelo perfume meloso das areias do deserto \ que o vento carrega em seu ventre \ para as colinas distantes, para as casas de Cedro. \ O urso ouviu uma promessa certa. \ Certas palavras são comestíveis; eles nutrem \ mais do que a neve amontoada em pratos de prata \ ou transbordando tigelas de ouro. Lascas de gelo \ da boca de um amante nem sempre são melhores, \ nem um deserto sonhando sempre é uma miragem. \ O urso ascendente canta um cântico gradual \ tecido de areia que conquista as cidades \ num ciclo lento. O seu louvor seduz \ um vento passageiro, viajando até ao mar \ onde um peixe, apanhado numa rede cuidadosa, \ eis o canto de um urso na neve fresca e perfumada.

Poema da da escritora estadunidense Tabitha King, que ainda expressa: Escrever é sempre um processo restaurador. É como remar um caiaque. Quando você está escrevendo, não pode fazer mais nada. Você está no espaço em que está. Então, nesse sentido, escrever é extremamente centralizador e restaurador. Veja mais aqui e aqui.

 

OS ABISMOS – [...] Todos os meus mortos, pensei. Se os do meu pai estavam em silêncio e os da minha mãe eram as plantas da selva, os meus eram as folhas prestes a cair. [...] Então eu vi isso em seus olhos. O abismo dentro dela, assim como o das mulheres mortas... uma fenda sem fundo que nada poderia preencher. [...] Os gritos pararam. Agora nada podia ser ouvido. Apenas silêncio. Apenas o abismo desse silêncio. [...] Eu tinha ouvido falar sobre suicídio e pensei que sabia o que era, mas só agora comecei a entender. Não foi que a pessoa de repente teve um ataque de loucura e se matou. Não foi algo que aconteceu apesar de seus desejos ou intenções. Não foi um jogo ou uma pegadinha que deu errado. Era que a pessoa queria seriamente morrer. [...] Resisti com todas as minhas forças, tentando quebrar o fio que me puxava de baixo, entre as folhas secas, todos os meus mortos. Então o abismo, como não podia me fazer pular nem me devorar, uma coisa deliciosa e horrível entrou em meus olhos, uma bola saltitante na minha barriga e uma náusea nojenta e fedorenta, até ficar bem enterrada dentro de mim. [...]. Trechos extraídos da obra Los abismos (Intrínseca, 2022), da premiada escritora colombiana Pilar Quintana, que na obra La perra (Random, 2017) expressou que: [...] Ela queria fugir, se perder, não falar nada para ninguém e deixar a selva engoli-la. Ela começou a correr, tropeçou, caiu, levantou e correu de novo. [...] Não havia vento. As folhas das árvores permaneciam imóveis e a única coisa que se ouvia era o mar. Parecia a Damaris que o tempo estava se estendendo e que ela estaria lá até se tornar adulta e depois velha. [...]. Veja mais aqui.

 

GUIA ATIVISTA – [...] A arte é um domínio que nos ajuda a combater forças que tentam mecanizar as pessoas, forças que vêem os humanos como coisas que precisam de instruções do usuário e que deveriam ser colocadas na prateleira de uma loja de um shopping center. [...] O ato de rebelião mais radical hoje é reaprender a sonhar e a lutar por esse sonho. [...] Por que tantas pessoas não estão se sentindo muito bem? E porque é que o objetivo do tratamento é conformar os pacientes à norma, em vez de lidar com as questões sistémicas que fazem milhões de pessoas sentirem-se infelizes? Quais são as tendências socioeconômicas que estão a levar a esta explosão de doenças? Quando a competição e a obtenção de sucesso por qualquer meio se tornaram a nossa ideologia, deveríamos realmente ficar surpreendidos com este sentimento avassalador de isolamento desesperador? A solidariedade competitiva não existe. O amor competitivo também não existe. [...] Quando nos faltam forças para agir, é preciso encontrar palavras que nos inspirem. Por isso, lembre-se de um ponto fundamental: nada de deixar sua confiança arrefecer. O poder está nas suas mãos. Juntos, como comunidade ou como movimento, podemos fazer milagres. E faremos. [...] Precisamos de um milagre para sair daqui. E os milagres são reais; eles já aconteceram comigo antes. Amor incondicional, por exemplo, ou solidariedade, ou ação coletiva corajosa. Os milagres acontecem sempre no momento certo na vida daqueles que têm uma fé infantil no triunfo da verdade sobre a falsidade, daqueles que acreditam na ajuda mútua e vivem de acordo com a economia da dádiva. Você não pode comprar a revolução, você só pode ser a revolução. [...]. Trechos extraídos da obra Read & Riot: A Pussy Riot Guide to Activism (Coronet, 2018), da artista conceitual, musicista, escritora e ativista russa Nadejda Tolokonnikova.

 

 MARACATU

[...] Ao apontar todas essas questões e variantes históricas tivemos o intuito de colocar em discussão a polissemia construída em torno da coroação das rainhas de maracatu, destacando seu caráter societário [...] a constituição de redes sociais que o ritual contribui para reafirmar ou mesmo construir. Essas redes tanto buscam vinculações históricas (no sentido de firmar uma tradição) quanto políticas na contemporaneidade, e são essenciais para a constituição de uma dada identidade das comunidades de afro-descendentes da cidade do Recife.

Trecho do artigo Rainhas coroadas: história e ritual nos maracatus-nação do Recife, da professora e pesquisadora Isabel Cristina Martins Guillén, extraídos da obra Cultura afro-descendente no Recife: maracatus, valentes e catimbós (Bagaço, 2007), dos professores Ivaldo Marciano de França Lima e Isabel Cristina Martins Guillén. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

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