sexta-feira, janeiro 22, 2021

KOBO ABE, JORGE IBARGÜENGOITIA, GRAMSCI, STRINDBERG, CHIHARU SHIOTA & JULIANA NOTARI

 

 

TRÍPTICO DQC: PAISAGENS DO SILÊNCIO - Ao som de Tout un monde lointain...(1967/70), do compositor francês Henri Dutilleux (1916-2013), inspirada na poesia de Charles Baudelaire, na interpretação performática da violoncelista alemã Konstanze von Gutzeit & Orchestra of the University of Music, conductor Nicolás Pasquet (Weimar, 2016). – A minha solidão e todo um mundo distante... Todas as belezas e a paixão... Todo universo...  e a vida sempre por um triz... A esta hora as cores do poente ardem nos meus olhos e o mundo que a morte e o azul e a ausência em si resume no vivo clarão das horas estivais. Os sonhos partiram em caravana e estou daqui a ver os que se matam no tédio cruel de singulares jogos. Sou hóspede da noite que já se avizinha num país sem igual, o Sol morre no céu nebuloso e o egoísmo humano é descoberto no paroxismo dos seus concretabstratos invadindo todos os meus sentidos entre ruinas e desgraças, como quem órfão paterno não perdoa a mãe pelas segundas núpcias e odeia os credores infames da minha saúde debilitada. Fui deserdado e passo por todas as farsas ímpias, abrindo caminho ao coração e perplexo com a degradação ultrajante das cidades com suas fachadas de banheiro para descaracterizá-las em nome do moderno dos submersos em seus labores desumanos e os excluídos que nadam nos horrores. É tudo muito deprimente, enquanto os remorsos roem como vermes a vida dos donos insaciáveis que saem dos seus suntuosos escritórios como uma manada de demônios com força e virulência para a todos com a espuma do ódio envenenado e assim beberem todo sangue do mundo que é para eles a infame carcaça da carniça. Para minha surpresa aparece Gramsci que parecia mais ler meus pensamentos: Somos criadores de nós mesmos, da nossa vida, do nosso destino e nós queremos saber isto hoje, nas condições de hoje, da vida de hoje e não de uma vida qualquer e de um homem qualquer. Do outro lado, Strindberg: A verdade é sempre desaforada. Com o amor não se brinca sem castigo. Logo desaparecem para que minha alma seja um sepulcro em que habita um reles cenobita e anseio flor nova no chão estragado por chuvas e trovões dos infernos no castigo do orgulho a quem despenca da vergonha e da glória. E quando eu me perder na universal memória saberei que o tempo é curto, a arte é longa, nas fundas solidões do meu coração tambor.

 


DOIS: O TESOURO DA PEDRA, O SIMULACRO DO RISCO - Imagens: Wall (2010), da artista japonesa Chiharu Shiota, ao som do álbum Finding Gabriel (Nonesuch, 2019), do pianista estadunidense Brad Mehldau Noite alta e na parede das profundezas erguerei os meus clamores e ninguém me livrará do maldito cativeiro. Sou mártir sem culpa, dócil condenado, o meu suplício choca os mortos e a farsa que sou se ocupa com tolices e culpas, erros e sovinices que sequer tenho. O escritor japonês Kobo Abe (1924-1993) me chama a atenção: A liberdade não consiste só em seguir a sua própria vontade, mas às vezes também em fugir dela. O mais assustador do mundo é descobrir o anormal naquilo que está mais próximo de nós. Sim, eu sei do homem livre amigo do mar espelho da alma, a desvendar o fundo sorvedouro humano, são meus irmãos com seus fogos de diamante e no íntimo tesouro guardado nos segredos de cada um. Sim, eu sei com a minha índole libertina, talvez ouse além do destino humano e me embebedo a arder de essências confundidas de óleo de coco, almíscar e alcatrão, florão das minhas noites. Quando não estou aqui encerrado, lá estou acenando para ciganos em viagem num céu sem destino, quisera poder segui-los, outras são as condições. Só não quero encontrar rosas frias, só a flor vermelha do ideal. Ao poeta das anemias as graças de hospital e o inferno de amigos povoado, não poderão jamais satisfazer um sonho como o meu do fundo do abismo em que agora sucumbo no nosso penoso holocausto. Mesmo que eles se indignem comigo pelos repudiados hemistíquios dos meus versalexandrinos, porque doído sou cru e maldito, caí na esbórnia afogueado pelo que comi e bebi, o absinto, o haxixe e o ópio, santa boemia na melancolia de Paris, porque o poeta é o albatroz exilado na terra e impedido de voar na ambição de decifrar o segredo da dor da vida anterior, me ensina a arte de evocar as horas mais ditosas. Mas o final do episódio apenas eterniza que quem ama corre o risco de não ser feliz.


 

TRÊS: ELA DENTRO D’ÁGUA, A POESIA DE TUDO – Imagens: Becoming Light (2005), do videoartista estadunidense Bill Viola, ao som Alcaline, le concert (2016), do trompetista, pianista, compositor, arranjador e professor franco-libanês Ibrahim Maalouf, no Trianon, em Paris. - Quando ela vem do céu ou do inferno dentro do vestido ondeante e nacarado, chega como quem dança lânguida amante tonada luz incandescente nos meus olhos sequiosos dela. Ela chega pro meu voo ascensional pelos límpidos espaços para entender a linguagem da flor e da matéria bruta. Leva-me ao templo das cores, sons e perfumes no regaço do linho e do cetim, a natureza toda é ela bela como um sonho de pedra e inspira o poeta e nem sei o que é rir ou chorar. Ela sorri sem medo, solitária e calma ao meu amor profundo e a sua beleza é sua e sempre quase vinho, beleza de Fortuna encantada, joia fulgente dos meus poemas, verdadeiro desacato e a persigo como um cão, recitando Jorge Ibargüengoitia (1928-1983): Ó doce luxúria da carne! Refúgio dos pecadores, conforto dos aflitos, alívio dos doentes mentais, diversão dos pobres, diversões dos intelectuais, luxo dos idosos. A arte de amar se reduz a dizer exatamente o que exige o grau de embriaguez do momento. E ela sorri mergulhando fundo todas as águas oceânicas para me guardar ao seio generoso de Cibele, a loba terna que afaga o meu coração abismado por florescente dama com seus olhos de fogo, o seu ser dotado de realeza, blasfêmia da arte, divina mulher. Sou cativo da sua face sincera que vive o que será amanhã como agora, amanhã e depois e sempre; na sua nudez que me diz não ser vedado amar, súcubo encanto e foi lá que vivi volúpias e mergulhei na imagem que o olhar beija e o coração abraça, sua voz é música, seu hálito é perfume e o amor para meus olhos, ação para meus braços, e percorrer devagar seus flancos espreguiçada no meu peito aos pés de uma colina, confidente de sonho infinito. Para o meu amor ela está sempre nua e faíscam joias do seu corpo recostado para que eu a possua repetindo Sed non satiata e a sua carne de tigresa domada e olhar fixo e contemplo seu esplendor de graças, o sorriso esguio: a volúpia me chama, a paixão me coroa na minha solitude a levar meu nome aos mais longínquos anos. Enfim, sobre seu ventre danço amorosamente para nela infundir o meu veneno com as frases roubadas das Flores do Mal. Até mais ver.

 

A ARTE DE JULIANA NOTARI



“Na cidade, imersos nesta conjuntura de sociedade neoliberal e neste mundo precário onde todos lutam pela sobrevivência e o tempo se torna dinheiro, me emocionam gestos e pequenas atitudes de pessoas que eu não imaginaria que teriam tal sensibilidade, a gente vive tão pressionado por este sistema capitalista que a sensibilidade vira essa poesia que há no ser humano. Na natureza, ela vem dos animais e das árvores, principalmente quando estou só”

A arte de Juliana Notari, doutoranda e mestre em Artes Visuais pelo PPGARTES/UERJ, graduada em Artes Visuais pela UFPE (2003) e que trabalha com as mais diversas linguagens (instalações, performances, vídeos, fotografias, desenhos e objetos) com abordagem multidisciplinar. A sua pesquisa visual tem criado um corpo de trabalhos que encaram suas singularidades, transitando por entre a biografia, o confessional, a catarse ou práticas relacionais, com ênfases e modos de operação diversos, traumas, desejos, fantasias e medos que são recolocados em suas obras instaurando relações entre subjetividades que, por sua vez, configuram o eixo central da obra da artista. Veja mais aqui e aqui.


 


quinta-feira, janeiro 21, 2021

SANDRO PENNA, TCHEKHOV, PIRANDELLO, TERRY RICHARDSON, NEWTON MORENO, SUZANA SALLES & AS GRAÇAS

 

 

TRÍPTICO DQC: CONTISTÓRIA - Ao som de Frevo, no álbum Solo (ECM, 1978), de Egberto Gismonti. - Entre os pariceiros do Biritoaldo estão os cavernosos carne-e-unha Rolivânio & Penisvaldo. Eles são do tipo: aonde um vai, o outro vai atrás e vice-versa, se é que me entendem. No meio da dupla uma única concessão: o primo deles Urinácio. E isso só foi possível por conta do enrabichamento deles pras bandas de duas irmãs que tinha uma terceira caçula e que eram do tipo das meninas do sobrado de Hermilo. Para que ela não atrapalhasse acendendo vela no chambrego deles, fecharam o time com o primo, pronto e só por isso mesmo, mais nada. Assim fizeram par com as três sonhadoras e inseparáveis irmãs Bucetildes, Vaginalda e Buceleta – como se fossem as três de Tchekhov, apesar dos distintos temperamentos e do ódio mútuo e tácito entre elas. A coisa entre os três casais rolou bem e tanto que ninguém sabe, ao certo, quem é namorado de quem. Ou seja, rola uma salada na base daquela: onde come um, comem todos, mas só entre eles mesmos. Além do mais, como dizem todos, parece mais que Deus fez e o diabo ajuntou: o que há de peculiar na extravagância egoísta em cada um deles, há de, não sei como, confluírem harmonicamente: todos se completam mesmo que se estranhem uns às outras e os mesmos reciprocamente e em todo momento. Um círculo fechado em que cada um tem um rei na barriga e os outros de súditos: muita soberania para pouco reino. Vá entender. Curiosamente, no final das contas, se entendiam mesmo entediados um com a cara da outra e os demais. Mas vamos ao que interessa. Primeiro, deixando esses cuecas fedorentos para depois, o que importa agora são as dondoquinhas: filhas do sargento Tampinha, um metro e meio de impudência e bafo de brabeza. Tudo na rédea, benzidas e guardadas. Desabrocharam para a vida e com o entre-e-sai de meganha, elas vidravam pelos comandados e sonhavam desposadas em cerimônia engalanada na matriz. Assim se deu, os três recrutas se candidataram e, por falta de coisa melhor, elas se engraçaram e entabularam namoro sério, noivado para o devido casório e tudo o mais, como manda o figurino. No dia de marcação da sonhada data, os caras deram de farrapar. Elas caíram em si: SantAntonho me enganou. E eles: Isso são umas megeras, meu! E quem mandava no sexteto? Elas. Chamaram na grande e, depois de todo tipo de expediente sobrenatural, souberam dum divino Sapo. Quem? Era ele o último recurso, o milagreiro. E cada qual conseguiu convencer seu parceiro às bordoadas e foram embaixo de beliscões, tapas e chutes resolver essa pendenga. Assistia a tudo quando o escritor russo se aproximou de mim, balançando a cabeça ironicamente e me confidenciou: Nada une tão fortemente como o ódio - nem o amor, nem a amizade, nem a admiração. As mulheres nunca perdoam os fracos. O amor mostra ao homem como ele deveria ser sempre. Um homem é aquilo em que acredita. Bateu com uma das mãos às minhas costas e se foi. Por conta disso, perdi o espetáculo gratuito dos casais pelas ruas. Recolhi-me ao de sempre, solidão amena repassando as situações risíveis: como é que pode, hem?

 


DOIS: DAS GRAÇAS DO SAPO - Imagens das Graças, dos escultores Antonio Canova, Jean-Jacques Pradier, Thorwaldsen e autor desconhecido, ao som do álbum Concerto Cabaré – do espetáculo homônimo de Bertolt Brecht & Kurt Weill (Dabliu, 1996), da cantora da vanguarda paulista, Suzana Salles. - Dias depois soube do desenrolar imbróglio, foi assim: lá foram os três casais encherem as ruas de pernas por dias incontáveis, até definitivamente se apresentarem sequiosos pelas resoluções do famigerado milagreiro. Estava lá Aderbal, viola na caixa dos peitos todo metido a Bandeira: Foi, não foi, foi... Vivo nas estrelas porque é lá que brilha a minha alma. A existência é uma aventura, de tal modo inconsequente. Uns tomam éter, outros cocaína. Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria. Elas se entreolharam: É isso? Os cabras já se arrumavam para saírem fora, quando elas enganchou-los nelas e tomaram de atrapalhar os devaneios do poetanuro, enquanto ele lá suspirava: Ah, Nalah, também sofri de mal de amor... Elas, então, indagaram curiosas: Mas está curado? Sim, estou; e cada vez mais apaixonado. Ah, assim não serve. Servirá, verão; mas o que querem as distintas e simpáticas jovens? Aí as gasguitas depuseram um lero longo, cada uma escalpelando seu amado, tintim por tintim, e que desenganadas foram orientadas a procurá-lo, por se tratar de afamado consertador de casos e que fizesse a história delas lindíssimas como aquelas dos contos de fadas. Ele ouviu atento e pacientemente suportou não sei quantas horas de descascadas, até ser cobrado por elas: Resolvo se cada uma dormir comigo! As três? Não. E eles? Primeiro as damas: vamos fazer um cronograma! E saiu distribuindo os dias para cada uma delas. E eles? Primeiro salvo vocês, depois vejo qual a bronca deles. E cumpriu-se o acordado. No final de semana, depois que cada uma pernoitou com o poetanfíbio, viu-se logo a mudança: não eram mais aquelas três filhas do sargento, agora eram as Graças: Tália das flores, Eufrosina da alegria e Aglaia da claridade, as Cárites da paróquia. Rapaz, o negócio é sério! E foram os três malamanhados ter com o providente divinizado: E aí, véi, e com a gente? Vocês o quê? Você transformou as megeras em graças, e a gente? Ah, vocês já trocam cavalo-mago demais, vão aprender a domar mulher, seus brocos! E foi-se embora para Pasárgada. Ficaram com uma mão na frente e outra atrás: E agora, gente? Vamos atrás das meninas, ora! Vambora. Como não havia mais nada para engraçar, apareceu Pirandello com um sorriso no canto pelos seis personagens à procura de um sapo: A culpa é dos fatos, meu amigo. Somos todos prisioneiros dos fatos. Eu nasci, logo existo. Não há uma estrada real para a felicidade, mas sim caminhos diferentes. Há quem seja feliz sem coisa nenhuma, enquanto outros são infelizes possuindo tudo. Surpreso, sorri. E ele foi pro palco que escureceu, as cortinas fecharam, não havia mais público e eu esperando nem lembro o que poderia ser, de tão entretido com o desfecho parcial do rolo e a surpresa do encontro. Nada não... ah, tenho mais o que fazer.

 


TRÊS: ELA, O REENCONTRO FORTUITO - Imagens: a arte do fotógrafo estadunidense Terry Richardson, ao som da talentosíssima pianista e arranjadora israelita Yuval Salomon. – Na calçada da esquina quase não a vi, só ao chamar-me: Ei, quero falar com você, vamos ao meu apartamento. E fomos conversando sobre o que eu estava fazendo, enquanto a empolgação débil com o que me aguardava. Lá chegando: Sente-se. Aboletei no divã e ela, mão no interruptor, apagou a luz. O silêncio reinou e pensava o que ela estaria aprontando agora, repassando cada momento vivido ao seu lado e as nossas peripécias. Fui surpreendido com a luz do abajur, ela nua a depor Francesca Woodman: Minha vida neste momento é como antigos sedimentos que ficam numa xícara de café e prefiro morrer jovem deixando várias realizações ao invés de apagar todas essas coisas delicadasEu mostro o que você não consegue ver – a força íntima do corpo. Como não vê-la iluminada e radiante contornando cada canto da sala e ao meu redor, linda&nua como nunca, a recitar do poeta italiano Sandro Penna (1906-1977): Eu amava cada coisa do mundo. E não tinha senão o meu branco caderno sob o sol. Na noite profunda consomem-se as estrelas. Um odor me inunda um amor de coisas belas. E dos seus braços fez-se Terra para me abrigar. E do seu corpo fez-se mar para embalar todos os meus dias. E da sua boca fez-se vida, inteira e infinita, para que eu tenha a paz do seu perfume e nunca mais morrer. Até mais ver.

 

A ARTE DE NEWTON MORENO

Recife tem dois lugares de produção. Um ligado à tradição, porque existe uma cultura popular muito forte e enraizada, e é bonita em cena. O outro, da metrópole, à questão mais urbana que se comunica com o mundo e faz todas as pontes "internáuticas"...

A arte do premiado autor, ator, pesquisador, educador e diretor teatral Newton Moreno, que é bacharel em Artes Cênicas pela Unicamp (1995) e mestre, também, em Artes Cênicas pela USP, integrante do grupo Os Fofos Encenam. Veja mais aqui, aqui e aqui.


 


quarta-feira, janeiro 20, 2021

ERNESTO CARDENAL, QURRATULAIN HYDER, JACQUES MONOD, KARINE SAPORTA, KAMILLE CARVALHO & AS FILHAS DA DOR

 

 

TRÍPTICO DQC: O SEGREDO DO ENCONTRO - Ao som de Stravinsky: Petrouchka (Universal/Decca, 2019), com a pianista e compositora francesa Yvonne Loriod (1924-2010) & Orchestre Des Cento Soli, Rudolf Albert. - Seja bem-vinda, pode entrar sem bater. Eis-me aqui, em carne, ossos e fracassos. Sou porta ao escancaro e não repare a bagunça, a anárquica arrumação e o lastimável desamparo. Não sou bem assim, levo a vida e nem sei direito, sinto além do que consigo suportar. Celebro meus defeitos, não posso negá-los, nem ser diferente do que sou: vou muito além do que posso. Sou um homem comum e qualquer, não guardo mágoas nem rancor; asseguro de antemão: não tenho a menor coerência. Não desafio a sabedoria das ruas, ando sempre apressado e de sorriso aberto, muito embora ninguém tenha me avisado como foi que dormiu a noite anterior. Saúdo os vivos e os mortos, que os tenha em bom lugar. Carrego a culpa de sonhar demais e, invariavelmente, quebrar a cara: sou mais onírico que real; quando não, patético. Sei que o que é ruim inevitavelmente tende a piorar como se não tivesse mais jeito, mas sou refratário a resmungos - para ter o que tenho tive que levar na marra, sangue e suor à beça e desconfio que se escapar com vida farei tudo que penso e desejo. A vida, como soube de Deleuze & Guattari: A vida está sempre em aberto: seu impulso não é alcançar um fim, mas continuar seguindo em frente. A planta, o músico ou o pintor, ao seguirem em frente, arriscam uma improvisação. Assim voo, como a jornalista indiana Qurratulain Hyder (1926-2007), com: Estudos em uma cultura agonizante. Minha preocupação com os valores da civilização sobre os quais continuo escrevendo pode parecer ingênua, confusa e simplista. Mas então, talvez, eu seja como aquele passarinho que estupidamente levanta suas garras, esperando que isso impeça o céu de cair. Sim, satisfeito ninguém está, nem dou crédito ao que se fala por aí, pro gasto exilado lá estou por aí, até lá.

 


DOIS: ARDISTÃO & A CIDADE DOS MORTOS – Ao som de Inori, adorations for one or two solists and orchestra (1973/1974), de Karlheinz Stockhausen, com Elizabeth Clarke e Alain Louafi, solisti Suzanne Stephens, Japanese rin Maria Bergmann, pianoforte The Symphony Orchestra of the Southwest German Radio. – Despertava no meio da noite, um lugar estranho: que lugar é este, não sei. Olhei em volta e ao longe uma cidade aos pés de um morro, parece, não dá pra ver direto. Observei intrigado. Ao tentar me levantar do chão, toquei a mão em dois volumes do Ardistan und Dschinnistan (1909 - IGEL Verlag Literatur & Wissenschaft, Hamburg, 2013), do escritor alemão Karl May (1842-1912). Hem? Ao folhear um dos volumes, um mapa escapuliu ao vento. Fui pegá-lo e era a reprodução de um outro que se encontrava impresso no livro. Comparei os dois, a mesma dimensão. No do livro, apenas indicava o nome Ardistan e tudo o mais em branco; enquanto no mapa avulso, Takistan, com nomeação de outras partes. Mais adiante encontrei uma foto tirada da mesma posição onde eu estava. Intrigado, comecei a ler: Quando o rio Suhl secou, a cidade ficou deserta e uma nova foi construída. Durante séculos, a velha capital ficou vazia, tendo apenas um ou dois prédios usados como prisão. Poucas pessoas, além dos líderes religiosos, visitavam-na e ela nunca foi completamente descrita. Indaguei novamente: que lugar é este, ainda não sei. Nas páginas adiante: A cidade dos Mortos contém muitos segredos importantes, alguns dos quais conhecidos somente do alto clero de Ardistão. Passagens subterrâneas e antigos canais oferecem meios de acesso escondidos à cidadela. Caminhei até me deparar com um lago que, pelo mapa, deveria ser o Maha-Lama, cercado por paredões íngremes de pedra. Ah, isso mesmo, o que vi e a foto. Foi aí que constatei ali ser a Cidade dos Mortos mesmo: A área é temida e evitada pelas poucas pessoas que visitaram a cidade, talvez porque está ligada a antigas lendas demoníacas. Diz-se que o lago foi criado pelo diabo que teria dito a um antigo sumo sacerdote de Maha-Lama que ele viveria mais cem anos se afogasse no lago todos os que o insultassem. Embora fosse outrora amado por seu povo, o Maha-Lama tornou-se impopular. Centenas de pessoas foram afogadas no lago, que ficou tão entupido de cadáveres que o sacerdote não pôde mais cumprir sua promessa e foi finalmente levado pelo diabo. Fiquei estarrecido com a leitura do relato. Além do mais fui surpreendido com a presença inesperada do bioquímico francês Jacques Monod (1910-1976) que me disse com ar de intimidade: Neste momento não temos motivos legítimos para afirmar ou negar que a vida teve um único começo na terra, e que, como consequência, antes de aparecer, suas chances de ocorrer eram quase nulas. … O destino é escrito simultaneamente com o evento, não antes. O universo não estava grávido de vida, nem a biosfera do homem. Nosso número surgiu no jogo de Monte Carlo. É surpreendente que, como a pessoa que acabou de ganhar um milhão no cassino, nos sintamos estranhos e um pouco irreais? Sem saber o que dizer, dei de ombros e segui seus passos até vê-lo desaparecer diante dos paredões íngremes de pedra. O reinado da Lua confirmava que eu estava perdido, ainda restava muito para saber dali.

 


TRÊS: ELA BAILAVA ENTRE AS ESTRELAS - Imagem: a arte da coreógrafa, dançarina, fotógrafa e diretora de curtas-metragens francesa Karine Saporta, ao som do Brasil Guitar Duo, formado pelos violonistas João Luiz Rezende Lopes e Douglas Lora. – Olhava o céu naquela paragem insólita, quando a vi bailando entre as estrelas e levitava dançando por toda imensidão, até lindamente tocar o chão e se aproximar com seu olhar firme em mim: Sou Anatália, a potiguar Anatália de Souza Melo Alves (1945-1973). E o meu trabalho com os trabalhadores rurais da Zona da Mata de Pernambuco, me levou para Recife, Campina Grande, Palmeira dos Índios e Gravatá, até ser presa pela repressão. Disseram que ateei fogo ao corpo, me suicidando com uma tira de couro. Mentira. Naquele dia, descalça, trajava um estampado vestido de algodão vermelho e calças de jersey cor de rosa, que foram parcialmente queimados por eles mesmos. Fui vitima de violências sexuais quando me encontrava psicologicamente abalada pelas torturas e pelo clima de terror no cárcere, por isso queimaram-me a região pubiana para que meu corpo não denunciasse as sevícias sofridas e me enforcaram. Sou mais uma entre as filhas da dor. Ao término da encenação, suas lágrimas lavaram meu ombro enquanto o nosso abraço solidário era a expressão da paixão mais que vivida. Assim, um tanto desolada, recitou-me Ernesto Cardenal: Ao perder-te eu a ti / tu e eu teremos perdido. / Eu, porque tu eras / o que eu mais amava; / tu, porque era eu / que te amava mais. / Mas, de nós dois / tu perdes mais do que eu. / Porque eu poderei amar a outras / como amava a ti, / Mas a ti não te amarão mais / do que te amava eu! E foi ali na Cidade dos Mortos que celebramos a vida com o amor que nos fez unos em nós e com tudo e todas as coisas. Até mais ver.

 

A ARTE DE KAMILLE CARVALHO



A arte da bailarina, dançarina profissional, professora, coreógrafa, personal dancer e dancing coach, Kamille Carvalho. Veja mais aqui e aqui.


 


terça-feira, janeiro 19, 2021

FRANCISCO JARAUTA, EMIR KUSTURICA, CÍCERO D’AVILA & KATIA MESEL

 

TRÍPTICO DQC: O LADO SOMBRIO DAS MEMÓRIAS - Ao som de Pure Comedy, do álbum homônimo (2017), do cantor, compositor, musicista e produtor musical estadunidense John Misty, pseudônimo de Joshua Michael Tillman. - Em primeiro lugar, a pergunta de Gauguin diante da resposta do Trimegistus Hermes e era um segundo em ponto apenas da zero hora, madrugada escura diante da porta onde deixei toda esperança e os fantasmas ressuscitaram faz tempo na terra antes mágica, agora ameaçada e minha angústia diante do milagre na lembrança de que quando nasci quase minha cabeça não passava engasgada na porteira do mundo e era uma coisa tomada por centro no show dos horrores, no meio da confusão de certezas idolatradas num horizonte para lá de viciado - como se de nada valesse a luta pela sobrevivência que mais valia acima de tudo e era nada mais que ossos e medulas, dores de lesões, negaceios de reputações caídas, tantos traidores com os mostruários de déjà-vu e quem ufano depois da goleada alemã na paixão do ouvinte com a desmoralização de grande que nunca passou de peladeiro, porque a farsa já estava lá instalada e ninguém via no jogo de cintura o que não se diz e o que não se escreve fora do dicionário de bolso com tantas pachouchadas para desvirtuar o que se passa por solene e não era e nem será mais que imundícies que se acham aproveitáveis e não são. Ah, como tudo é tão disforme. E Paul Klee insistia: A forma é o fim, a morte; o dar forma é movimento, ação. O dar forma é vida. E só porque havia lido demais além da conta, nove vezes soube que a comédia era ali muitas cabeças deitadas sobre mesas e travesseiros como se fossem cadafalsos para todos os déspotas e todas as suas as vítimas porque não escapa ninguém, nem eu. Foi aí que o filósofo espanhol Francisco Jarauta dispôs esclarecer o que em mim jamais buscou a certeza de nada: A essência do viajante é sua história. Corresponde a pensar em abrir as portas do território do possível, mesmo quando está sempre protegido pela cortina opaca. É preciso pensar com os olhos fixos em duas margens: a das transformações e mudanças que deixam um mundo e aquela em que as características de um novo mundo já estão adivinhadas. Só o poeta estraçalhado sabe da selva escura.

 


DOIS: O OLHAR NO HORIZONTE DA VIDA - Ao som de Miracle of Life (Mark Mancina/Trevor Rabin), do album Union (1991), do Yes. - E o que mais além do desespero de deambular no exílio depois de escapulir da cloaca e a montanha redentora não mais ali ou nunca tivera e era o caos e o Bib Bang para que eu fosse a Origem da Vida e estivesse no meio do Milagre de Emir Kusturica. E antes que me pergunte, eu não sei e posso mudar de opinião sobre tudo e qualquer coisa; afinal vivo e viver tem disso. De repente, ao meu lado, língua de fora, Einstein sorria: Só há duas maneiras de viver a vida: a primeira é vivê-la como se os milagres não existissem. A segunda é vivê-la como se tudo fosse milagre. A dúvida e a angústia para despertar na despedida do poeta, a ascensão. E veio o Sol na prosa infinita do dia.

 


TRÊS: SEGREDOS DA PAIXÃO – Imagem: arte do escultor Cícero D’Avila, ao som de um concerto ao vivo no Teatro Colón de A Coruña (2014), do premiado violonista Carles Trepat. – O tempo passou e não percebi. Meu coração errabundo cansado da solidão se espalhou, abjurou dos segredos e tropeçou diante da porta. E era ela ali, Beatrice nuamada, a me levar pelo que não mais via nem sabia, porque era dela apenas a luz da vida. E eu qual Dante a recitar da Vita Nuova: Tão longamente me reteve Amor / E acostumou-se à sua tirania, / Que, se a princípio parecia rude, / Suave agora me habita o coração. / Assim, quando me tira tanto as forças / Que os espíritos vejo me fugirem, / Então a minha frágil alma sinto / Tão doce, que o meu rosto empalidece, / Pois Amor tem em mim tanto poder / Que faz os meus suspiros me deixarem / E saírem chamando / A minha amada, para dar-me alento. / Onde quer que eu a veja, tal sucede, / E é coisa tão húmil que não se crê. Eros rondava o doce sabor da vida. E isso me fez com que eu não tivesse mais palavras para falar dela porque ela é o convite da luz e muito de mim em cada beijo exilado em Ravena e guardei nela a obra póstuma. Até mais ver.

 

RECIFE DE DENTRO PRA FORA



O documentário curta-metragem Recife de dentro pra fora (1997), da premiada cineasta e artista Katia Mesel, desvenda o olhar do rio Capibaribe para suas margens, tendo por base o poema O Cão sem Plumas, de João Cabral de Melo Neto, e a trilha sonora de Geraldo Azevedo. De forma poética mostra as agressões ao meio ambiente, sofridas pelo rio, na sua trajetória, até as águas ficarem limpas, de novo. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.


 

 


domingo, janeiro 17, 2021

TIM INGOLDI, KATHLEEN NORRIS, NINA MORAES, ANGELINA SILVA & YLANA QUEIROGA

 

 

TRÍPTICO DQC: TUDERODIDO - Cantarolando Movimiento (Recorded Live – Paste Stúdios, 2018), de Jorge Drexler: Eu não sou daqui / Mas nem você / Em lugar nenhum e / De todo lugar um pouco / Mesmo com canções, pássaros, alfabetos / Se você quer que algo morra, deixe pra lá. - Gente noitalta & diameno, a erosão e nenhum sossego: faróis roncam & ecocos luminosos, noticiário do inferno logo ali e, quase aqui, uma letra de música rascunhada, acordes quase perdidos, poemas inconclusos, laudas e páginas, telefone mudo, lupas nos livros, agenda e adereços, vidavessa e o olho do furacão. O olholhado por outroutras entaladas no labirinto e a voz de Anthony Giddens repete insistentemente Fundamentalistas afirmam: só há um modo de vida válido, e os demais têm de sair da frente. Pobres coitados aqueles das mentes aprisionadas, até não sei, nada não, vou em frente e não importa se corro risco da incompreensão, sou reincidente dos passos e descompassos pelo fio da navalha, porque já queimei largadas e etapas até a encruzilhada, em ponto morto, com meus pensentimentos a dar conta da sobrevida no zero exemplar. Outro pontapé inicial e o que resta é o que estou fazendo aqui como se decifrasse a roseta dos portais, quando não há mais perdão nem vice-versa: sou disfuncional entre os que cultuam pratos feitos, contraproducente entre os de fórmulas casuísticas. Sim, se sou desassombrado que seja na esteira do politicamente errado com as personas em baixa ou quase nenhum motivo para festejos. Tim Ingoldi avisa: A vida é a capacidade geradora do campo englobante de relações dentro do qual as formas surgem e são mantidas no lugar. Em suma, não pode haver vida num mundo onde o céu e a terra não se misturam. As coisas estão vivas porque elas vazam. Certo ou não, tanto faz, nenhum passo atrás: o novo e o excesso sempre me atraíram. Só tenho futuro e o que perdi da pretérita loucura foi tão somente má gestão de divergências e contradições ou intermináveis procrastinações do ajuste de conta nada plausível. Tudo, afinal, serviu de pretexto para o que podia vir a ser do que ficou congelado ou se pareceu estático. O que sei, tudo está sempre adiante e lá voo eu com o dito dos Evenkis: Sou a soma de toda peregrinação. Sou todos os lugares por onde andei. O mundo é dos que sangram.

 


DOIS: DIÁRIO DE UM BECO DO MUNDO - Imagem: Cabide, da premiada artista plástica, cenógrafa e professora, Nina Moraes e Castro Santos & ao som dos Cantos de la Creación de la Tierra (1972), da compositora colombiana Jacqueline Nova Sondag (1935–1975), realizada nos laboratórios de acústica da Universidad Nacional de Buenos Aires, dirigido por Francisco Kropfl. - Não olvidei de nada. O que aprendi ou não, está valendo: da Terra as minhas entranhas. No mundo só, sou irreconhecível. Apostei todas as fichas com minha rouquidão e estiquei a corda para ir além do que me fosse permitido. Nunca calei a boca mesmo que ameaçassem arrebentar a cara e bastava virar as costas e sair para choverem injúrias, desdém, cusparadas, repulsas e sarcasmos, brincadeiras de mau gosto e outras falsídias. Antes de ficar cabisbaixo com tudo isso, ouvi da jornalista e escritora estadunidense, Kathleen Norris (1880-1966): A vida é mais simples do que a gente pensa; basta aceitar o impossível, dispensar o indispensável e suportar o intolerável. Aí esfreguei a nódoa de sangue no peito e juntei os restos da esperança estilhaçada. Não finjo e creio às escuras e sem prumo enquanto caretas díspares e antípodas se escondem pelas coxias do inconcebível aniquilamento. O que se esgarçou e não era, tinha lá razões, não há como escapar do silêncio profanado, a façanha da ousadia.

 


TRES: ELA, A REMISSÃO - Imagens da artista plástica portuguesa Angelina Silva, ao som da Symphonic Impressions nº 1 (1943/52), da compositora galesa Grace Williams (1906-1977), com a BBC National Orchestra of Wales, conducted by Owain Arwel Hughes. – O sorriso contido dela com os seus esboços de arte erótica. Faz-se tímida, o canto dos olhos e a ousadia. Tintas, desenhos. E ela é linda no verão, sol nos ombros, o desejo da imensidão aos meus ouvidos e todas as sombras fogem com nossos sonhos no meio do universo: minhas mãos e seus olhos numinosos. Sou-me seu e a sua venustidade de nascença, a silhueta adornada e o vestígio dos passos na sinuosidade do vestido. E eu tateio suas curvas, seus mamilos suaves nos meus músculos, língua na pele para me dar a prece dos precipícios de sua boca, enquanto alisa minhas costas adelgaçada ao istmo, com seu cheiro de véspera no exercício hermenêutico do encontro e da entrega, a sua fonte inesgotável a me lavar. Ouso recitar ao seu ouvido Rubén Darío: Quando você começa a amar, se você não amou, você saberá que neste mundo é a maior e mais profunda dor ser feliz e infeliz. Corolário: o amor é um abismo de luz e sombra, poesia e prosa, e onde a coisa mais cara é feita que é rir e chorar ao mesmo tempo. O pior, o mais terrível, é que viver sem isso é impossível. Tudo é a um só momento e não há como evitar: não esquecer quem amamos na sede de amar. Nunca. Até mais ver.

 

A ARTE DE YLANA QUEIROGA

Comecei a trabalhar como cantora muito cedo, participava de gravação de coros infantis para jingles e discos de diversos artistas, ganhei meu primeiro cachê aos 4 anos, mas não fazia ideia de que ali já começava a exercer uma “profissão”. Tudo foi acontecendo naturalmente, até que na adolescência comecei a entender que cantar era o que eu mais amava e queria fazer na vida e decidi realmente que seria cantora.

A arte da cantora e compositora Ylana Queiroga, que já lançou os álbuns Joia moderna (2013) e Vento (2017). Veja mais aqui e aqui.

 



sexta-feira, janeiro 15, 2021

GAINES, TREFOSSA, NECHVATAL, TUNGA, NICOLELIS, PASSO TORTO & KATALIN KARIKÓ

 

 

TRÍPTICO DQC: BATENDO UMA REAL – EU & OUTROS EUS - Ao som do Concert Recorded Live Music Vault Fort Laudedale (2000), da soprano e atriz inglesa Sarah Brightman. - Às ruas vivalma alguma acena nem olá: sou paisagem desbotada - embora haja gente demais para lá e para cá, demais da conta. Recolho-me na ausência, nenhuma interlocução possível. Mesmo assim, na solidão ainda sonho muito, roncando ao sono ou olhos bem abertos. Ao despertar dou de cara: Doro, Zé Corninho, Magaiver, doutô Zé Gulu, Tolinho & Bestinha, Biritoaldo, enfim, a patota toda ali. Como é que pode? Digo pra eles: Ué, qual a de vocês aqui? Em uníssimo: Comemorar o Ano Novo, ora. Comemorar? Claro! Vocês não ouviram o Miguel Nicolelis: É uma Guerra! Que parte desta frase ainda não foi entendida pelos arautos do corporativismo de plantão que votaram no Pandemônio e não mexem um dedo para atuar no combate à Pandemia? Vocês não se solidarizam com a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado: A gente não está seguro. Não tem mais condições para artista, intelectual, professor, quem puder vai sair, porque a gente não está seguro na rua mais, não conseguimos exercer mais a profissão. Mais do que isso, as condições de minha permanência se tornaram arriscadas. Nem se deram conta do que disse a bioquímica húngara: Katalin Karikó: Nos últimos 40 anos, não tive nenhuma recompensa pelo meu trabalho, nem mesmo um tapinha nas costas. Não preciso disso. Sei o que faço. Sei que é importante. E estou muito velha para mudar. Isso não me subiu à cabeça. Não uso joias e tenho o mesmo carro velho de sempre. Num é essa a da vacina? Sim, ela mesma. Eita! Vocês não se deram conta ainda das centenas de milhares de mortos pela sindemia e pelo desgoverno do Fecamepa na estupidez coisonária ainda não, foi? Não há o que comemorar! Hora de ouvir o escritor estadunidense Ernest Gaines (1933-2019): Não tenho mais nada a dizer, exceto isto: devemos viver com nossa própria consciência. E vamos aprumar a conversa!

 


DOIS: FALA, ESCUTO; DIGA, OUÇO - Ao som de Passo torto, de Armando Lôbo, com o octeto da Orquestra Sinfônica Brasileira – Últimos dias, tantas coisas boas. Dei de lembrar: o primeiro contato com a música se deu ainda menino, ao me deparar com repentistas no meio da feira – coisa dos improvisos duma dupla na embolada e desafio. Quando soube disso, meu pai trouxe uma penca de livros, cordéis e discos de muitos cantadores, apresentou-me à obra de Luís Gonzaga e me iniciou na audição das dores de cotovelo dos boêmios e no Choro. Era ainda molecote de nem dez anos ainda, do outro lado dos parentes o ouvido pegava ligado em Bach e Mozart, sinfonias, óperas e quantos concertos. Seguia inquieto com a descoberta do jazz e do rock progressivo, não perdendo uma sequer da Bossa Nova e das músicas de protestos que saltavam dos festivais. De lá pra cá, muita coisa boa, gente! Surpreendido aqui e ali ouvia disso, adolescendo; curtia aquilo, amadurecendo; e mais daquiloutro dos vinte aos trintanos, Tom&Sons, temas e trilhas doutros acordes e notas, claves & timbres, do ouvido à pauta neo&póstudo dos oitenoventas para dois mil e lá vai teibei! O que ouvia, experimentava; e daí experienciava; cada uma melhor que a outra, vivenciava. Até que chegou o Neto – é assim que gosta de ser chamado – e me levou cabeça a mil, tortos passos & mãos inquietas num tríptico versicular, intitulado Por que não um rap/ente stravinskiano?: Quando fala, escuto; ao dizer, ouço. O preconceito não resiste ao plural. Somos um e muitos outros. Então, vamos, assim a vida, como na Gronamma/Mãe Terra, do surinamês poeta Henri Frans de Ziel (1916-1975), dito Trefossa: Eu não sou eu / enquanto meu sangue / não se misturar por ti / nas milhares de veias de meu corpo. / Eu não sou eu, / enquanto minhas raízes / não se fincarem, não se atirarem / ao seu coração, minha mãe terra. / Eu não sou eu, / enquanto eu não estiver pronto, / para esconder e para carregar, / sua efígie em minha alma. / Eu não sou eu, / enquanto você não gritar, / de prazer e dor / em minha voz. Afinal, somos um e muitos outros.

 


TRES: ESCURANOITECENDO E ELA... - Ao som da ViralSymphOny (2006/08) & imagem de Orlando et la tempête (2020), ambas do artista pós-conceitual, compositor, poeta, teórico e crítico de arte estadunidense, Joseph Nechvatal. - Qualquintal piso folhagalhos corachão. Eleraubíqua mesmo distanciainda, quem dera SoLueclipsada. E a solidão Orlando há tempos vista Woolf: Sinto que com certeza enlouquecerei novamente. Não há passos que foram ou vão e venham, o corpespera as mãos afagamantes, como se dela Edith Wharton me desse: Vivemos em nossas próprias almas como em uma região não mapeada, alguns acres dos quais limpamos para nossa habitação; enquanto da natureza daqueles que estão mais próximos de nós conhecemos, mas as fronteiras que marcam com as nossas... para que não me seja dito Osip Mandelstan: Nós vivemos, mas não sentimos a terra abaixo de nós. Dez passos de distância e nossas palavras não podem ser ouvidas. Por isso é preciso que chegue logo e bem perto, ah, quem me dera dela a noite inteira para amanhecer em mim todos os dias. Até mais ver.

 

A ARTE DE TUNGA: RIO DE JANEIRO OU PALMARES?

O primeiro pensamento que eu coloco é que precisamos acreditar em alguma coisa ou em alguém ou em um fato. O nascimento sempre tem uma testemunha escrita ou um relato. E eu devo acreditar nessas testemunhas, certo? E se eu tiver dois depoimentos contraditórios? Posso acreditar nos dois? Onde vou parar se seguir duas pistas diferentes? Estou levando esta questão a um grau bastante consequente. Quando digo que nasci em dois lugares diferentes, estou levando estas questões a um grau bastante consequente. É paradoxal, mas pode ser uma situação interessante para se investigar. O que representa nascer duas vezes? Podemos efetivamente nascer e renascer. E este renascer não necessariamente vai significar um nascer novo, mas um nascer somado a outro anterior, e vamos continuamente renascendo em versões diversas. É expandir as experiências e a veracidade delas. Eu acredito na vida.

A arte do premiado escultor, desenhista e artista performático Tunga - Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão (1952-2016), que foi o primeiro artista contemporâneo e o primeiro brasileiro a ter uma obra exposta no icônico Museu do Louvre, em Paris, além de obras em acervos permanentes de museus, como o Guggenheim, de Veneza. Seus trabalhos são resultados de investigações literárias, psicanalíticas, filosóficas, teatrais e científicas, carregadas de simbolismo. Realizou o vídeo Nervo de Prata, em parceria com Arthur Omar, e é autor de obras, a exemplo de Preliminares do palíndromo incesto, todas reunidas em vídeo no Tunga: 100 redes e tralhas (1997), de Roberto Moreira; no livro Tunga: Barroco de Lírios (Cosac & Naify, 1997), e na caixa Tunga (2007), reunindo sete volumes de diferentes formatos que documentam a trajetória do artista. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.


 


quinta-feira, dezembro 10, 2020

JORGE LUÍS BORGES, SOLZHENITSYN, CAMUS, HENFIL, TERESA DE CALCUTÁ, SERGIO LOPEZ, LOURDES NICÁCIO & L7M


  

TRÍPTICO DQC: REINVENÇÃO DO RUMO OU NADA - Ao som de Canon & Gigue In D, do compositor alemão Johann Pachelbel (1653-1706), com a regência de Yip Wing-sie & Hong Kong Sinfonietta (2008). – Lugar distante, acho. E incerto. Ou estou perdido. Andança. Ao me aproximar do que poderia ser uma cidade, tentei ler a placa indicativa quando surgiu uma bela e sensual mulher me dando as boas-vindas: Sou Assistente Social e, cada visitante, é recepcionado, cadastrado e encaminhado para conhecer o local, pois aqui tudo é diferente! Perguntou-me uma série de coisas marcadas num formulário da prancheta apoiada no decote dos seus belos seios. Idade, nome, estado civil, etecetera e tal. Siga-me. O primeiro prédio, o da Educação: os maiores espancavam os menores, os mais velhos torturavam os mais novos; os rapazes às moças, os homens, às mulheres; as mães, aos filhos e filhas. Veja! Sim? Estão sendo educados na lei daqui. Hem? Venha. Entramos numa sala do prédio Governo: uns tomam o que é dos outros e vice-e-versa, todos são roubados e roubam entre si. Viu? Como é? Aqui aprendem a governar. Venha. E me levou a um salão de outro prédio, o Templo da Fé: uma reunião de pessoas completamente despidas e amontoadas, homens e mulheres que fossem idosos, adultos, jovens, todos numa espécie de orgia báquica, uns aos outros encangados libidinosamente e aos louvores. Esta é a religião daqui. Que lugar é este? Diante da minha surpresa, ela encaminhou-me por alguns corredores que, ao final, deram na saída da cidade: Pode ir, o senhor não foi admitido em nossos domínios. E bateu a porta. Desapontado, dei dois passos e, ao voltar-me, nada mais existia, como se tivesse sumido no ar. Ao retomar a caminhada deparei-me com Alain de Benoist: A única coisa que importa é o que as pessoas pensam de uma questão precisa, não importa como eles se posicionam (ou se recusam a) no espectro político tradicional. Vôte! Fiquei intrigado com o que ele disse, enquanto Ahmadou Kourouma me dizia em tom confidencial: Deus dá brincos de ouro a quem não tem orelhas para os usar... quando as infelicidades são muitas, Deus acaba por ficar indiferente... nenhuma oração pode alegrar um homem vazio. Mais surpreso fiquei ao ser advertido por Naguib Mahfuz: Estão querendo apagar a luz da razão e do pensamento. Cuidado! Se rejeitarmos a ciência, rejeitamos o homem comum. Você consegue saber se um homem é inteligente pelas suas respostas. Você consegue saber se um homem é sábio pelas suas perguntas. Que coisa! Parecia um bombardeio inexorável e logo apareceu Rajneesh bastante severo: A verdade não é algo do lado de fora para ser descoberto, é algo dentro para ser realizado. Largue a ideia de se tornar alguém, porque você já é uma obra de arte. Você não pode ser melhorado. Você só precisa se ir em direção a isso, saber disso e realizar isso. Como assim? Estava encurralado. De repente me vi só no descampado: todos os caminhos adiante, mas para onde?... Hei de reinventar o rumo, mesmo que não saiba como.

 


DE IR ALÉM DAS AMARRAS & IMOBILISMO - Imagem: a arte do grafiteiro L7M - Luís Seven Martins, ao som do álbum Finding Gabriel (2019), do pianista estadunidense Brad Mehldau. - O justo, a equidade e a cena: o magistrado ouvia a exposição da defesa, piscando o olho para a promotoria. Resultado: décadas de litígio civil ou quinquênios de cizânia trabalhista, alguém cedeu entre as partes, a requerente-reclamante de direitos; ou condenação penal para todos os perdedores, onde houver o menor prejuízo e a absolvição sob os poderes dos vencedores. Solzhenitsyn esclarece: Justiça é consciência, não uma consciência pessoal mas a consciência de toda a humanidade. Aqueles que reconhecem claramente a voz de suas próprias consciências normalmente reconhecem também a voz da justiça. Estou confuso, que mundo é este? Camus em tom aborrecido me joga na cara: Se o homem falhar em conciliar a justiça e a liberdade, então falha em tudo. Não há sossego, impossível conciliar carências e adversidades com consumo escravocrata, ganância hipócrita e obediência acéfala, não há como! Nisso, Jorge Luís Borges se aproxima: Fazer o bem ao teu inimigo pode ser obra de justiça e não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens. É tudo muito difícil: a sindemia, o superfungo, o desgoverno do Fecamepa. Antes outras eram as indagações, a humanidade e o viver. Agora não mais, sobreviver sem que se saiba como ir cada vez mais longe, ou ficar cada vez mais perto, o horror em qualquer lugar ou tempo, se o meu mundo é todo mundo e o mundo todo, para quem a vida, quaisquer que sejam, importa.

 


ONDE A POESIA & ÊXTASE OU NADA – Imagem: arte do ilustrador e artista visual estadunidense Sergio Lopez, ao som de Le ruban dénoué for two pianos (1915), do compositor venezuelano Reynaldo Hahn (1874-1947). – A solidão e a noite. Ela chega: Sou Lola, a filha da dor Aurora Maria Nascimento Furtado (1946-1972), psicóloga e bancária, aquela que na manhã daquela quinta-feira, dia 9 de novembro de 1972, fui detida numa blitz policial em Parada de Lucas, no Rio de Janeiro, aprisionada viva dentro de um ônibus e conduzida para a delegacia de Invernada de Olaria. Submetida ao pau de arara com sessões de choques elétricos, espancamentos, afogamentos e queimaduras, aplicaram-me a coroa de cristo e não resisti. Fui encontrada jogada na esquina, com o corpo crivado de balas. Apenas no dia 11 de novembro estampou a manchete dos jornais: De madrugada, Aurora, que fora presa às 9h40m de 9 de novembro, conduzia agentes da polícia carioca a um local do Méier, onde estaria localizado um aparelho, na esquina das ruas Magalhães Couto e Adriano. Aurora pediu para descer, disse que por motivo de segurança queria dirigir-se a pé ao aparelho. Ao descer, Aurora saiu correndo e gritando em direção a um fusca que estava nas proximidades; nesse momento, começou um intenso tiroteio entre os agentes da polícia e os ocupantes do carro; ao terminar o tiroteio, Aurora, baleada, estava morrendo, caída na rua; preocupados em socorrer Aurora, os agentes deixaram o veículo fugir em alta velocidade. A certidão de óbito: mulher branca, de identidade ignorada, tendo como causa mortis dilaceração cerebral. No reconhecimento do seu corpo pela irmã: afundamento craniano, escoriações e cortes profundos nos braços e pernas, o rosto deformado pelo espancamento e coroa de cristo, hematoma nos olhos, no nariz e na boca. Os registros estão detalhados nos livros Em câmara lenta (Alfa Omega, 2000), do cineasta Renato Tapajós; Os anos de chumbo: a memória militar sobre a repressão (FGV/CPDOC, 1994), organizado por Celina D’Araújo, Gláucio Soares e Celso Castro, e Luta, substantivo feminino: mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura – Direito à Memória e à Verdade (Caros Amigos, 2010), organizado por Tatiana Merlino e Igor Ojeda. Ela silenciosa, olhos rasos d’água... Pude apenas recitar Henfil: A minha luta é tentar também ser mulher. É conseguir ser afetivo, é conseguir ser intuitivo, é conseguir sonhar, que é um dos componentes muito grande que eu acho que a mulher tem. Conseguir dar carinho! Esse é um grande problema que eu tenho, eu sou um cara treinado na guerra, eu sei ser soldado, agora não sei muito ser companheiro de uma pessoa e tal. Eu sei ser cirurgião, mas não sei ser enfermeiro. Então esse componente feminino eu realmente gostaria de ter mais. E ela, cada vez mais imensamente bela, mais bela que nunca como as outras filhas da dor, Teresa de Calcutá: Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota. E cantarolamos juntos a Mulher de Geraldo Azevedo & Neila Tavares: Eu sou a mãe da praça de Mayo,sou alma dilacerada... Sou grito que reclama a paz, eu sou a chama datransformação... Até mais ver.

 

A POESIA DE LOURDES NICÁCIO

Para outras terras / transportei a vida. / Busquei então total / a liberdade / em torno do meu ser. / Mas por que mais livre / em derredor a vida / mais dispersa / tornei-me centro de mim / e me perdi?

Poema Espaço em labirinto, extraído da obra Caminho das Águas ao Sol (2018), da escritora e professora Lourdes Nicácio, que é formada e pós-graduada em Letras, co-fundadora da editora Novo Horizonte, membro da Academia Recifense de Letras, da Academia de Letras do Brasil/PE e da UBE/PE. É autora dos livros Sinfonia de Estrelas, Cantos da Ordem do Sol, Ritmo das Águas Vivas, Ocultos na Paisagem, O Lavrador e o Templo, Caminho das águas ao sol, O Rio, Canabrava e os Homens; Os Dois Mundos de Madalena; Sobreviventes, Almeida Cunha; Os Caminhos da Palavra- Gramática e Literatura. Veja mais aqui e aqui.

 



KOBO ABE, JORGE IBARGÜENGOITIA, GRAMSCI, STRINDBERG, CHIHARU SHIOTA & JULIANA NOTARI

    TRÍPTICO DQC: PAISAGENS DO SILÊNCIO - Ao som de Tout un monde lointain... (1967/70), do compositor francês Henri Dutilleux (1916-2013...