domingo, abril 12, 2026

CRISTINA GARZA, STELLA NYANZI, CAROL GREIDER & ARAMIS TRINDADE

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Debussy: La fille aux cheveux de lin (2025), My European Journey (2021) e Letters from Paris (2016), da violonista britânica Alexandra Whittingham. Veja mais aqui.

 

Memória visceral, segredo intersticial... - Era maio, foi. E em plena primavera, il Prete Rosso imprimia os acordes do Allegro em fá maior, terceiro concerto Le quattro stagioni, um anúncio outonal do vindouro solstício de inverno. Fora do tempo, a vida era brisa mansa fagueira nos olhos orvalhados, criança risonha, arteira: o quintal era o paraíso e se estendia às fugidas pela beira do rio, o reino encantado de todas as coisas. Mais dias, temores e pirraças: vingava na fruteira, legumes ou verduras; aos puxões de orelha e bra bre bri bro bru, crás! Tome! Pronde ia, a pele na parede rebocada, com as travessuras: menino traquino subia muro pra saber do depois. E só quando a noite, piongo se escondia arregalado pelo papa-figo e outras abusões sinistras. Assim crescia na correnteza de Valuna e mais. Até que adolesceu ousadia estival no meio do proceloso quarto concerto em fá menor e era pra si próprio: Il cimento dell'armonia e dell'inventione. Quase rapaz na invernada, um bigodinho ralo encorajador na cabeça de vento, imberbe idiossincrasia nos incipientes pelos das axilas e púbis, o punho solitário desbossulado pelas efígies coloridas, erotomania medonha estava escrita na testa. Tudo voava sem antes, o dia no idílio e as ideias tempestuosas pelas cachoeiras de sonhos. Se houvesse lonjura passava perto do fim do mundo, nada era demais no fastio das léguas engolidas, de audaz singrador pelos avessos e às voltas com a feiúra ocrídia, daquelas de quebrar espelhos. E vieram reveses, pisado curto: dava-se prazo. De resto, tinha coragem: vozes escuras insólitas e as funduras da vida. Podia fazer melhor: se acomodar ao vulgo ou alheio, acovardar-se; mas, não, ia. A mãe vestia branco e olvidava sua angústia impulsiva: medos e culpas, pseudologia fantástica e irrecuperável mitomania narcisista. O pai distante, idolatrava. Era mais um pendurado na ponta da corda. Mesmo assim, quando adulteza outonal chegou, não era mais que uma peraltice guilhotinando a hora no primaveril equinócio do barroco primeiro concerto, em mi maior. Houvesse quentura mormaçada, lavado de suor e lágrimas, segurava o teitei na pisada larga. Mais trovejasse e o raio era o salto com afinco sobrepujando percalços, recorrentes revertérios e o podium desmoronava pelo cimento mole, adivinhando o buraco escondido sob o aguaceiro. Precauções inúteis e escorregões nas escadarias, no asfalto, pedras falsas, a queda e a cara no tolote, sossega-leão, nada poupava risadas vindouras. Havia sempre fritura em ponto de exaustão, coisa de quase fora-da-lei. Nada não. Houvesse premência, nada mais que dedos estalando para acender provisão: segundos por semanas vencidas, meses por anos devorados. Piorava com a própria disgrafia disléxica e a doença de escrever na disortografia: tudo misturado, desconexo, mal inventado, a graforréia crônica, caráter anancástico e a aritmomania, o desarrazoado e a calamidade hipotética. Teibei! Endoidou? Intuía reconciliação: escrevia como se salvasse do autoexílio, ah, as ruminações mentais, as alucinações, coisa de louco. E o cúmulo: bandeira branca a meio pau, topava, aguçava as vistas e as ouças, rasteiro, apurava: agora vale imediato, nem seguintes nem antes, da vez, onde ou longe. Avaliava sobras e privações, não batia o desconforme e destilava seus próprios venenos. O que não dava jeito, inéditas coisas, feições demudadas. Então, peraí! Era a vez do melodioso segundo concerto em Sol menor, como se revivesse os versos da primavera de Neruda, o verão no aquário de Lygia, o outono de Knausgård e o inverno de Torga. Aprendia: do abismo, os ósculos da sorte; dos dias, o ritual dos renascimentos; e das noites: o segredo das constelações invisíveis. Assim, na sua vetustez, atinou das rugas e pelancas: a vida era plena no solstício de verão. Ué! O traquejo do sonâmbulo cavanhaque grisalho, quase abstêmio, tão e quão, nada tão sério quanto um chiste pra gaitada débil: história de muito assunto, sobre o mofo das coisas emborcadas, puídas, arriadas. Passou, passaram. Amplexos ocasionais, desapegos - túmulos, desesperos, niilismo, tudo muito póstumo e embalado pela primeira sinfonia em sol menor, de Tchaikovski, aos ecos do salmo: Todos os homens são mentirosos... E uma legião de impostores rondando pesadelos: um bando de sátiros, pinóquios, titeriteiros, espantalhos, duendes, mascarados, desfilavam espectrais, talvez avistasse assombrações desarrumadas de olho aberto. Mantinha a munheca trêmula em riste - previa o rasgado, proveito dos remendos: coincidência é retrato falso, sabia, o urdido se consumia, cogitava desengancho, havia de desfiar tudo no oco da mão surrada, premido pelo que se foi e escapuliu pela culatra aos demasiados. Se desde muito estafermo, não dava noutra: se a Terra dançava, a vida seguia. E tudo ia, foi atrás. Até quando? Ora. Até mais ver.

 

Lygia Fagundes Telles: Quando na realidade o amor é uma coisa tão simples... Veja-o como uma flor que nasce e morre em seguida por que tem que morrer. Nada de querer guardar a flor dentro de um livro, não existe nada mais triste no mundo do que fingir que há vida onde a vida acabou... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Cressida Cowell: Lembre-se: não há nada de errado em ter um senso saudável de autoestima... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Claire Wineland: A morte é inevitável. Viver uma vida da qual possamos nos orgulhar é algo que podemos controlar... Veja mais aqui & aqui.

 

É PRECISO ENLOUQUECER PRIMEIRO?

Imagem: Acervo ArtLAM.

Neste país abandonado por Deus \ as bocas dos homens estão caladas. \ O medo paralisa-os. \ A coragem das mulheres, esmorecida. \ Os seus filhos, mortos ou presos. \ Dizem que sou louca \ por dizer publicamente verdades \ que os anjos não ousam sussurrar. \ Dizem que sou perturbada \ por combater assassinos armados \ com posts no Facebook e poemas. \ Eles olham-me e abanam as cabeças. \ Perguntam-se quem me terá enfeitiçado. \ Olho-os de volta e suspiro. \ Fomos todos reduzidos a isto? \ Será preciso enlouquecer primeiro \ para dizer a verdade ao poder \ neste país abandonado por Deus?

Poema da poeta, antropóloga, médica e feminista ugandense, Stella Nyanzi. Ela é ativista, defensora dos direitos humanos, dos direitos queer e da sexualidade, do planejamento familiar e saúde pública. Veja mais aqui.

 

O INVENCÍVEL VERÃO DE LILIANA – [...] Viver em duelo é isso: nunca estar sozinho. Invisível, mas patente de muitas formas, a presença dos mortos nos acompanha nos minúsculos interstícios dos dias. Por sobre o homem, a um lado da voz, no eco de cada passo. Arriba das janelas, no fio do horizonte, entre as sombras das árvores. Sempre está lá. e sempre estás aqui, con y adentro de nós, e afuera, envolvendo-nos com sua calidez, protegendo-nos da intempérie. Este é o trabalho do duelo: reconheça sua presença, decirle que sim a sua presença Sempre há outros olhos vendo o que vejo e imagina esse outro ângulo, imagina o que uns. sentidos que não meus filhos poderiam apreciar através dos meus sentidos, bem mirado, uma definição pontual de amor. O duelo é o fim da solidão. [...]. A liberdade não é o problema. Os homens são o problema — homens violentos, arrogantes e assassinos. [...]. Trechos extraídos da obra Liliana's Invincible Summer (Hogarth, 2023),da premiada escritora, ensaísta e poeta mexicana, Cristina Rivera Garza. Veja mais aqui & aqui.

 

DISLEXIA - Quando criança, eu me achava burra porque precisava de reforço escolar. Só muito mais tarde descobri que era disléxica e que minha dificuldade com ortografia e pronúncia não significava que eu era burra, mas essas primeiras impressões ficaram comigo e influenciaram meu mundo por um tempo... No ensino fundamental, descobri que podia me sair bem na escola. Lembro-me de gostar da liberdade de escolher as disciplinas e do prazer de aprender e ter um bom desempenho. Minha perseverança e meu amor pela leitura, de alguma forma, me permitiram superar muitas das desvantagens da dislexia, e eu lia muitos livros por prazer... São necessários anos para perceber os múltiplos benefícios da ciência; sem financiamento adequado e contínuo para a pesquisa, a carreira de muitos jovens cientistas brilhantes pode ser interrompida abruptamente... A ciência pode promover a compreensão entre as pessoas em um nível realmente fundamental... Pensamento da bióloga molecular estadunidense Carol Greider, que descobriu a telomerase em 1984. Suas pesquisas relacionadas à proteção dos cromossomos através do telómero, juntamente com Elizabeth Blackburn Jack Szostak renderam-lhe o Nobel de Medicina/Fisiologia de 2009.

 

A ARTE DE ARAMIS TRINDADE

Nós temos uma ferramenta muito importante na educação – é o teatro. Ministra o conteúdo e facilita o aprendizado. É muito didático, através da encenação passamos muita informação...

Trecho da entrevista (Ciranda de Palavras, 2018), concedida pelo ator, produtor, diretor e humorista, Aramis Trindade (Aramis Marques de Trindade Sobrinho), conhecido por suas atuações em filmes como O baile perfumado (1997) e O auto da compadecida (2000). Ele começou sua trajetória artística aos 13 anos de idade, num circo em Fazenda Nova (PE). Daí foi pro teatro e, a partir de 1982, atuou em espetáculos como Lisbela e o prisioneiro (2000-2002) e Não vamos pagar (2016), entre outras peças teatrais. No cinema, além dos mencionados, participou de Bandeira, Bandeiras (1986), Tainá 2 - A Aventura Continua (2005), Árido Movie (2006), Zuzu Angel (2006), Gonzaga - de Pai pra Filho (2012), totalizando mais de 60 filmes. Na TV participou de séries, novelas, programas, entre outras apresentações, afora produzir curtas metragens. Veja mais aqui.

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ABRIL ÍNDIGENA

Acontecerá no dia 15 de abril, o Abril Indígena da UFPE, ocasião em que o Mata Sul Indígena tratará sobre a experiência do Museu do Povo Marikito Tapuyá, do artesanato Anuará e exibição do doc. Matapiruma, retratando o trabalho dos cortadores de cana no Engenho Matapiruma, em Escada (PE). O evento contará ainda com atividades culturais, valorização de direitos e saberes dos povos originários e o Acampamento Terra Livre (ATL), integrando-se ao cenário nacional a ações da FUNAI, com a temática "Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós".

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ESCRITORES DA MINHA TERRA

Dia 14 de abril, 14h, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto (Palmares-PE).

 

Nelson Rodrigues aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Lívia Falcão aqui & aqui.

Naná Vasconcelos aqui, aqui, aqui & aqui.

Paula Berinson aqui.

Alberto da Cunha Melo aqui, aqui & aqui.

Janete Maria Lins de Azevedo aqui & aqui.

José Barbosa aqui & aqui.

Gio Simões aqui.

Marcelino Freire aqui, aqui & aqui.

Joana Liberal aqui.

 


domingo, abril 05, 2026

CLAUDIA PIÑEIRO, HELEN HEATH, DOLORES HUERTA & JOÃO PERNAMBUCO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum Avant l’Aube (Timespan Recordings, 2022), da violonista italiana Cristina Galietto.


 

Reduto da migração... - À beira do rio vagava gente: a dança do imprevisível noitedia. Uns desafinavam descompassos; outros, valsavam torvelinhos intérminos. Prestativo, desde menino, Zé Calunga por ali - não tinha instrução, mas tirocínio. E ajudava quem chegasse pro embarque, avisava o horário da travessia do caudal ou da condução pela rodagem. Para isso ajeitava tamborete em troca de moedas ou do que dispusessem, evitando quem arrastasse as malas e perdesse a viagem das águas ou dos caminhos. Oxe! Perdeu a hora? Ora, ora. Captava bigus para desprovidos, carregava malas dos precisados, levava recados distantes, conduzia enfermos às emergências, servia de moletas pros pernetas e guia para cegos, ensinava destinos, dava a direção aos perdidos, servia de companhia para desencontrados, dava jeito em tudo que desafiasse resolução. Será o absurdo? Mas, tá! Assim cresceu enquanto as pessoas surgiam como coisas inventadas na hora: iam e vinham aos borbotões, migravam como lagartixas tontas fugitivas de suas incógnitas inexatidões. Eita, lasqueira! Motivo do alvoroço? Havia guerra remexendo os restos das ninharias, aos ensurdecedores pipocos: o mundo enorme se apequenava, todos proutras paragens na outra margem. E já! Deu o créu! Maior vexame! Foi assim que ganhou a simpatia do jangadeiro Caronte, que ia de Alagoinhanduba pelo Una, para alcançar Opará, Estige, Aqueronte, até o abismo profundo do Tártaro, nos confins do mundo. O navegante cobrava uma dânaca pelo traslado, bastava pagar ao seu vigilante escudeiro, o cachorro Cérbero, que as guardava permitindo acesso. Quando não, virava um feroz demônio do poço, acaso alguém contrariasse seu dono: com raiva tornava-se tricéfalo, fogo saindo pelo pescoço com serpentes cuspidoras e cauda de dragão. Que desgraceira é essa? Até comia gente: era uma vez Pirítoo. Valha-me! Era tratado na mão firme do dono, bastava jogar um bolo de farinha e logo se aquietava manso – o curioso era que o cão dormia com olhos abertos e andava de olhos fechados, ô danado, no geral era uma criatura adorável, fazendo festa balançando o rabo pra quem chegasse. Havia outra possibilidade: Lá vem Tua Mãe Bigoduda! Ela vai até o fim do mundo? Ora, se! E o cata-corno do severo Maalik, cara fechada de quem nunca sorriu, entupido até o tampo levava dessa pra melhor, ou do ruim pro pior, quem sabe, estradafora, todos que vinham das redondezas e dali queriam sair às pressas. E eram muitos os viajantes: Dioniso procurava por sua mãe Sêmele, Psiquê atrás do Asno de Ouro de Apuleio; Orfeu buscando por Eurídice que foi picada por uma cobra; Enéas ansiando pelo reencontro do pai, Ulisses segurava Tirésias para voltar pra casa na Odisseia de Homero; Rimbaud à cata de toda vidência poética; Otto escapando da Noite dos Cristais dos nazistas pelas páginas de Boschwitz; os passageiros de Agualusa, os seguidores da Katábasis de Kuang e espiões do bode verde da ISI paquistanesa. Ufa! Ainda havia Pedro, o porteiro do paraíso, inviabilizando aquela entrada: ou correnteza redemoinhada, ou os catabís das trilhas pelo itinerário aos pés dos morros, mais nada. E enchia a pança obesa com a farofada, mangando da magreza de Calunga: Pronto! O diabo foi pro céu! Que foi? Ivan Karamazov devolveu o bilhete: Não há retorno, só os despojos do Ozymandias de Shelley, crianças empaladas e um maltrapilho Jesus condenado pelo vazio de todos os crucificados pelo livre-arbítrio e pelas múltiplas opções consumistas do paradoxo da escolha de Schwartz, o Se questo è un uomo de Primo Levi. Num diga! A coisa piorou quando Héracles saltou da jangada trazendo Teseu e queria levar Cérbero para Euristeu. Aí não! Como assim? Conversa vai, toma lá, dá cá, desavenças - cada qual sua catábase. Quem apartou a briga e acordou tudo no tom apaziguador foi Maalik, que deu uma freada de levantar poeira e desceu com os Zabaniyah que todo dia eram levados pra Jahannam. E como passava por muitas entradas, levava mais quem quisesse. Entre eles, o profeta Muhammad que ia pra Meca pegar o Buraq pra Isra e ser guiado por Gabriel até chegar em Masjid al-Aqsa e ascender para Mi’rai, também interveio engrossando o buruçu, ampliando o deixa disso que, finalmente, chegou a bom termo: resolvido, tudo certo. Foi no meio disso e de muitas outras, que Zé Calunga foi tomando jeito: tornou-se cobrador, vendedor de passagens, recebia e entregava encomendas, passava o pule do jogo do bicho pros apostadores, fazia triagens e dava norte pras coisas, atendendo avexados párias, imigrantes, exilados, nômades, refugiados, estrangeiros, metecos, degredados, expatriados, proscritos, banidos; os que queriam visitar os Moais de Rapa Nui, os que iam brincar na flora alienígena da Ilha de Socotra do Iêmen, outros que iam ver as cores do Fly Gleyser, os que desejavam virar estátua no Lago Natron da Tanzânia, ou iam pro deserto do Salar de Uyuni, ou mesmo pra Ilha Sentinela do Norte, ou bisbilhotar os arquivos secretos do Vaticano, os gigantescos geoglifos das linhas de Nazca; as cidades fantasmas de Chernobyl e Priapyat, as ruínas apocalípticas da Ilha Hashima, a fantasmagoria da colina de Craco, a submersa Kolmanskop no deserto da Namíbia, a ruina das pedras de Kayaköy, as labaredas eternas de Centralia, as bonecas velhas de Xochimilco, os ossos da capela de Évora; o suicídio na floresta Aokigahara, as assombrações noturnas do Bhangarh Fort, o Triângulo das Bermudas e lá vai teibei! E havia até quem queria ir pro fervedouro do Jalapão e os cânions de Cambará do Sul, pra Serra da Capivara, pros Lençóis Maranhenses, pro portal da Serra do Roncador, pra solidão do abandono de Fordlândia, pra vila ferroviária de Paranapiacaba, pra Ilha das Cobras da Queimada Grande, ou mesmo pra Planolândia! Eita, coisa medonha! Desde que ficasse longe dali! Danou-se tudo! E tinham os que procuravam pelo porteiro de Jackson Ribeiro, os que queriam ir pela Les Portes de l'Enfer de Rodin, os que passaram pela agonia do passageiro Lúcio Flávio – apareceu até o porteiro Maximiliam na noite de Liliana Cavani à procura da sobrevivente Lucia Atherton, afora os desejosos pela descida de Ishtar ou do descensus ad inferos de Oyá e o escambau. Quem é doido de esperar por tempo ruim? Pé na bunda! O certo era que os que iam nunca voltavam, pareciam mais que desapareciam na neblina da noite de Resnais. Ou raramente, retorno minguado, gente estranha sem saudade, mulheres esquisitas, homens sombrios - cada qual sua sordidez. E ele desde menino insone testemunhava a emigração e recreava, às horas vagas que eram brevíssimas, catando mensagens no fundo das tantas garrafas jogadas e assim entretinha de nem se dar conta que o tempo passou e nele se foi. Até mais ver.

 

Anne Lamott: A idade me deu o presente de mim mesma; me deu o que eu sempre desejei, que era me tornar a mulher que sempre sonhei ser. Alguém que sabe descansar, trabalhar duro e ser uma companheira constante, uma esposa carinhosa e dedicada a mim mesma... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Jennifer Esposito: Às vezes, tudo precisa explodir para ser reconstruído... Se você não apostar em si mesmo, quem diabos vai apostar em você?... Me dê civilização. Não quero ser mimada... Veja mais aqui & aqui.

Shiori Teshirogi: Minhas oscilações de humor eram praticamente insuportáveis para todos ao meu redor. Peço desculpas porque foi um período muito difícil da minha vida... Veja mais aqui.

 

O TOQUE

Imagem: Acervo ArtLAM.

da sua mão no meu \ seio traz pequenas agulhadas e \ primeiro deixo cair uma gota, depois outra, e \ então, quando estou sentada em você, sobre você, \ o fluxo é constante e o leite está por toda parte. \ Acho que não é bem um desperdício, porque \ sempre tem mais, mas eu te ressinto um pouco porque \ não é seu e você acha engraçado, e \ acho que é mesmo, e eu só preciso deixar ir. \ Você checa se eu tenho dentes lá embaixo e \ se consegue passar para o outro lado. \ Você acha que eu sou uma deusa e \ as crianças nos separam, eu na terra, você \ no ar, ou será o contrário? E \ nossas pontas dos dedos mal conseguem se tocar e eu choro em você, \ ou você chora em mim? \ As crianças me pisoteiam, ou \ é você? \ Vale, colinas, rios e cavernas.

Poema da poeta neozelandesa Helen Heath.

 

QUEM NÃO GOSTARIA? - [...] Assim, cada um tinha seu mérito, e méritos são muito difíceis de dividir. [...] Criado para encobrir uma dor ou resolvê-la para sempre. [...] Você nunca imagina que aquilo que deixa para trás se transforma. No exílio, os conhecidos não envelhecem, as casas não se deterioram, as árvores não crescem. [...]. Trechos extraídos da obra Quién no (Alfaguara, 2019), da escritora, roteirista e dramaturga argentina Claudia Piñeiro. Veja mais aqui.

 

LIÇÕES ATIVISTAS - Quando há um conflito, significa que existem verdades que precisam ser abordadas por ambos os lados. E quando há um conflito, o processo de resolvê-lo é educativo. Para isso, é preciso envolver as pessoas de ambos os lados para que possam dialogar... Cada momento é uma oportunidade de organização, cada pessoa um ativista em potencial, cada minuto uma chance de mudar o mundo... Se as pessoas não votarem, tudo continua igual. Você pode protestar até o céu ficar amarelo ou a lua ficar azul, e nada vai mudar se você não votar... Pensamento da ativista estadunidense Dolores Huerta (Dolores Clara Fernández Huerta), ex-líder sindical cofundadora da Associação Nacional de Camponeses, que mais tarde se juntou ao Sindicato Geral de Camponeses (United Farm Workers), atuando na defesa dos direitos dos trabalhadores, dos imigrantes e das mulheres. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE JOÃO PERNAMBUCO

Livro João Pernambuco – clássicas e inéditas (Legato, 2022), álbum de partituras reunindo a obra de João Pernambuco (João Teixeira Guimarães - 1883-1947), pesquisa e texto de Jorge Mello, prefácio de Flávia Prando e curadoria de Celso Faria. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

Álvaro Lins aqui.

Renata Santana aqui.

João Câmara aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Zabé da Loca aqui.

Fábio Xavier aqui.

Maria Oliveira aqui.

Adelmo Arcoverde aqui, aqui & aqui.

Oriana Duarte aqui & aqui.

Daniel Aragão aqui.

Marilourdes Ferraz aqui & aqui.



domingo, março 29, 2026

NORA NADJARIAN, LAUREN WEISBERGER, CAROLINE DEAN, MAGDALE ALVES & CARMEN CAMUSO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum The Changing Sky (2025), da violonista e premiada compositora britânica Laura Snowden.

 


Hestorinha da cantoria de passarinho... Não havia tempo ruim para Fulô – Florilândio de batismo e papel passado. Foi assobiando escorreito a revelação do seu talento canoro: sacou dum apito, despertava sua curiosa habilidade. – Simbora no arrasta-pé! Triunfou ajeitando meticulosamente uma folha de papel enrolada jeitosamente num pente, aos assopros de predileto repertório musical das paradas de sucesso, parampampã! - Isso é bom, doido! Segura o trupé! Arroxa baião! De um pífano, um botão de rosa pra paquera timorata: ganhou dela um gracioso sim, sem precisar sequer falar namoro pra ela. Duma corneta, um ramo de lírio branco pra mãe dele: era o dia dela, regozijada. E era sempre cedo na hora pra ele que ia ladeira acima, morro abaixo, no embalo chistoso. - Olha o forró, gente! Tornou-se assim corneteiro, dando as horas certas, convocando o povo pras cerimônias viandeiras, alertando pirraças ou maracutaias, chamando atenção pra isso ou aquilo, com toda sua alacridade. – É hora do xaxado, vambora! Das lições de Zé da Justa foi expulso e reprovado. Procurou outro: Cadê o maestro? O canto mais limpo: queimou as pestanas aprendendo sozinho cifras e partituras, solava desajustado. Por onde ia o mato brotava no chão esturricado, árvores floriam, relva no meio do asfalto, o sertão virava rio e dava pro mar: entrava de sola na vida de músico meio-lá-pra-cá e nos arranjos florais ineivados de plantão, puxando da flauta de Pã, Orfeu das mundividências, qual flautista de Hamelin. Foi buscar emprego na famigerada banda de Mané de Preto, findou quase tição eletrocutado. Levou um toque da vaca dos Assassinos do Frevo. – Ih, fui limado! Esgueirou-se pros Bitus, ajeitou-se Sibito entre rebitos e outros priquitos – Aí, me dei bem! Aprendeu a remexer os quadris com Dermeval, animando o dançado dos fantasmas da biblioteca. – O galope só é bom quando é à beira-mar! Aí, duma flauta doce, uma flor de Quipá; da gaita, uma Estrela da terra; da ocarina, Maracujá do mato; do uruá, uma Rainha do abismo; do berrante, uma Chanana; dum didjeridu, um molho de Erva fantasma; do clarinete, um maço de Planta queijo; do saxofone, um feixe de Boca de leão d’água; do fagote, um galho de Íris da praia; do trompete, um tufo de Enxerto de passarinho; do trombone, uma braçada de Alface d'água; da trompa, um cacho de Rabo de tatu; do oboé, um arranjo de Bredo-da-praia; da tuba, uma Coroa-de-frade-da-praia; e assim distribuía coroas, buquês, guirlandas, grinaldas, ramalhetes, florilégios, até um tussie-mussie de orquídeas, de pequis, cambarás, mangabas, vincas, salsa-da-praia, paqueviras, helicônias, parasitas, antúrios, alpínias, sorvetões e capim-agulha! Era flor na lapela, flores nos penteados, nos decotes, penduradas nas orelhas, ornando espalhafatosas e embecados. Assim, caía de boca desde os toques da alvorada logo cedo e os de se recolher tarde da noite: o Sol sorria, a Lua se exaltava enamorada, a Natureza em festa e o impossível de estrepitoso festejo abanando o calorão, diante das caras carrancudas que carpiam suas dores e flagelos, zoando acenos, vapores de saracoteados, cantoria de passarinho, coral da bicharada. - Houvesse hoje e onde se sacudia ao andar -, trazia chuvada boa, juntava separados, afáveis e enfadonhos. Desdantavante frevava e a cada batida de tom esqueletos saracoteavam e sacudiam seus anjos-da-guarda. Ele só regência no meio da rua, puxando o coreto. Sacudia o braço como se passasse marcha e rompia lonjuras, atravessava funduras e o povo atrás serpenteando num ziguezague. – Eita, que ele vai virado na peste! Era assim, tinha de existir e assim o queria solto na buraqueira das rodagens, moita adentro, estrada fora. – Foi-se! Oxe! Parecia ter ido pros fins da Terra, nem notícias mais, nunca mais voltou. Vôte!  Onde andará? Quem lá sabe! Ó. Pois é, foi. Até mais ver.

 

Elif Shafak: As vozes da nossa terra natal não param de ecoar em nossa mente. Nós as levamos conosco aonde quer que vamos... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Camille Paglia: Precisamos aceitar nossa dor, mudar o que pudermos e rir do resto... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Wangari Maathai: Consegui perceber que, se eu tinha uma contribuição a dar, eu devia fazê-la, independentemente do que os outros dissessem. Que eu estava bem do jeito que eu era. Que não havia problema nenhum em ser forte... A geração que destrói o meio ambiente não é a geração que paga o preço. Esse é o problema... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

MILAGRE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu olho para o horizonte por um trilhão, trilhões de anos. \ Vai acontecer, talvez, e eu serei testemunha. A Terra será milagrosamente \ curar-se a si mesma. A água vai se transformar em gelo. Hipnotizado, verei as esculturas brancas, \ lembrar o Ártico e sua magnificência, e tremer na costa. O sol vai jogar \ truques em minha mente, gravura no gelo branco puro a sombra de um longo talo. \ Uma única tulipa vermelha. \ Parabéns, esta flor é para você: o único humano ainda vivo, o único que \ ainda acredita em milagres.

Poema da escritora cipriota Nora Nadjarian.

 

QUANDO A VIDA TE DÁ - [...] Como posso explicar que ter a oportunidade de dar uma pausa no meio da vida e avaliar tudo é mais raro do que um arco-íris duplo? [...] Neste momento, tudo está exatamente como deveria estar. [...] Eu jamais puniria a filha pelos crimes da mãe. [...] Vaginas feitas sob medida são as novas bolsas Birkin. [...]. Trechos extraídos da obra When Life Gives You Lululemons (Simon & Schuster 2018), da escritora estadunidense Lauren Weisberger, autora de obras como Revenge Wears Prada: The Devil Returns (2013), Last Night at Chateau Marmont (2010), Chasing Harry Winston (2008), Everyone Worth Knowing (2005) e The Devil Wears Prada (2003). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

CIÊNCIA DAS PLANTAS - [...] Levou muito tempo para desvendar como o inverno estimula a floração, mas partindo de um ponto inicial de quase nenhum conhecimento molecular, agora temos uma boa ideia do mecanismo regulatório. [...] É tão importante que a comunidade internacional de plantas se concentre em uma espécie como organismo de referência. Triagens prospectivas, clonagem baseada em mapas, os extensos recursos de genótipo e sequenciamento, além de descobertas importantes quando grupos que estudam coisas diferentes convergem para um mecanismo – tudo isso é essencial se realmente quisermos entender a base mecanicista de características complexas das plantas. [...] como as plantas usam sinais sazonais para sincronizar seu desenvolvimento. Nessa época, o fenômeno da Arabidopsis estava acontecendo – geneticistas de plantas haviam descoberto a utilidade de se concentrar em uma espécie como organismo modelo, e agora podíamos clonar genes importantes para características complexas por meio de clonagem baseada em mapeamento. Então, quando abri meu próprio laboratório, escolhi abordar a base molecular da vernalização em Arabidopsis. [...] Sinto-me privilegiada por fazer ciência todos os dias – é maravilhoso poder seguir uma paixão e ser pago por isso! É flexível e absorvente. Eu recomendaria a todos [...]. Trechos da entrevista (New Phytologist, 2025), concedida pela premiada bióloga e acadêmica britânica, Caroline Dean, integrante do grupo de estudos que determinou a base mecanística de como as plantas usam sinais sazonais de temperatura para determinar quando vão florescer.

 

A ARTE DE MAGDALE ALVES

[...] polarização é uma bobagem, porque cada um tem o seu pensamento e o respeito deve ser mútuo [...].

Pensamento da atriz e bailarina Magdale Alves, que estreou na dramaturgia com a peça Guarani com Coca-cola (1980) e fez carreira tanto no teatro, como no cinema, atuando em filmes como Quer Tapioca com Manteiga, Freguesa? (1985), Amarelo Manga (2002), Árido Movie (2005), Baixio das bestas (2006), Deserto feliz (2007), Gonzaga de pai pra filho (2012), entre outros. Atuou ainda em novelas televisivas, minisséries e curtas metragens, bem como dubladora, humorista, comediante, locutora, performer e apresentadora de TV. Veja mais aqui.

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MANTO MULHER, DE CARMEN CAMUSO

Recebi alguns mantos da vida \ Que se incumbiram de me fazer mulher \ Uns, enlaçados em fios de proteção \ Outros, treliçados, amarrando minhas mãos \ Mãos desatadas no desejo revelado \ Desnudam-me lentamente \ A pele sensível não mente \ Ao retirar cada manto \ Encontrei minha originalidade escondida \ A espontaneidade pra vida \ Agora, embalada pelo canto \ Pássaros livres que se alimentam em meu ombro

Poema extraído do livro de poesias Manto Mulher (2026), da poeta, psicóloga e feminista Carmen Camuso, integrante do Movimento Cultural Alvorecer. O livro reúne 48 poemas agrupados em dois capítulos: “O Manto” e “As Palhas”. O primeiro reúne poemas que expressam a relação mulher-mundo a partir das vivências da autora em seus diversos papéis sob o manto do gênero. No segundo capítulo, o que aparece é a relação mulher-outro que, sob palhas, simboliza o que dói ou cura. Veja detalhes aqui.

 

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ARTEXPRESSÃO – TRANSVERSALIZANDO ARTE NA ESCOLA

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CRISTINA GARZA, STELLA NYANZI, CAROL GREIDER & ARAMIS TRINDADE

  Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos álbuns Debussy: La fille aux cheveux de lin (2025), My European Journey (2021) e Letters from Paris...