Ao som dos álbuns The Road... (Shanachie Records, 2011), Soul
Quest (Shanachie Records, 2013) e Journey to the Heart (Shanachie
Records, 2016), da cantora, compositora e pianista japonesa Keiko Matsui.
A viúva do bestiário... - Estava
correndo bicho! Sabiam, medrosos cochichos, temores ao pôr-do-sol. Às horas
noturnas o agouro, coisas medonhas pela madrugada: partes com o coisa ruim, só
sendo. Alívio, só ao amanhecer. Isso é lá coisa que se faça? E tome zunzunzum:
quanto mais se tentava esclarecer, mais dúvida se valia. Vogava era espanto,
eventos vários e sucessivos, viravam tudo de pernas pro ar. Como é que pode?
Fechava a boca pra não topar malefício. Não visto, não sofrido, só pelo sabido:
esperar sua vez. Desesperados, quem acudiria? Findava tudo aos risos e sustos,
desordens às caçoadas, motejos: a coisa pelo logro, embustes de última hora. O
tinhoso cercas rondava, pelas brenhas fechadas, capoeiras, brejos, chãs, o bafo
da ameaça oculta, fugiam até os espíritos dos trechos de mata devastada, nada
bulia nas trilhas na vegetação, estradas de barro, estalidos pelas benditas
lonjuras, êpa, às caretas, o fôlego das ventas, segurando as fivelas, premiam a
volta das arreatas, as astúcias na caixa dos peitos: Venha, não! Quem viu
rastro de cobra? Destá. Do que disseram que era, nem sinal! Desaforo. Feitiço,
trabalho de encruzilhada. Ora, se. No amiudado, o canavial quieto. Ih, pé
adiante, só se sabia no outro dia de estraçalhadas vacas, carneiros, cabras, porcos,
patos, galinhas - ferrava presa às traições, dente chupa sangue, suga tudo até
o ar dos bofes, só estendido no oitão. Cadê sinal de sangue? Valei-me! –
Mexeram na gadaria daqueles ricaços? Nada, só dos que juntavam poucos pra
sobrevivência. Ara. Vigiavam. Faziam serão, penosa tocaia, as paredes do
casebre, o bafejo ruidoso, foices, facas, a face da fera na miragem, olhela!
Facões afiados, o pé-de-vento, corridas a cortar mato, pé atrás, queriam o
couro do bicho, esfolá-lo! A fama. Remexia a sorte: Pra donde ela pendia? Aos
arredores, espreitava-se; andavam de costas pelas próprias pegadas, tarde
demais, media-se, calculava-se às funduras, fio-de-prumo, mira no alvo, o
extraordinário, ventania e desenredo, cercados intactos: Isto é uma tiborna!
Peça licença e não olhe pra trás, não responda chamado nem assobio! Isso não
tem cabimento! Era coisa de dar medo, só pavor: Os olhos em brasas vermelhas da
Medusa, as feições horríveis, feiosas, o despovoado, as cascas destroçadas,
sacudidas vantagens nas lonjuras, suspeitas, celeumas, triunfar embaraçoso,
receios pueris. Frescura, cara! Tudo nos conformes. O sapo coaxou, ou a
borboleta voou, escorpiões arrastavam, a adivinhação: Vai fazer medo a outro!
Uma anomalia que se deu fé em El Yunque, passou por Varginha, parece, e foi
bater lá pras bandas de Craíbas, um teratismo sui generis. Isso é
pinoia! Era não. Diziam do predador de pele cinza e fedor horrível, drenando a
vida dos animais – sugavam o sangue até a última gota e o seu distintivo nas
cauterizadas perfurações dentárias cravadas no pescoço ou nas axilas da
vitimada, hemorragias internas, sem outras marcas além da mordida e o sangue
não jorrava. Ué? Ora, era uma criatura bípede de quase um metro e meio de
altura, olhos grandes arregalados, espinhos nas costas e longas garras, saído
do fundo dos lagos ou pantanais, em terras distantes ou dos confins das
florestas; ora, outros dizquês, era sem pelos por conta da sarna sarcóptica e
locomovendo nas quatro patas, aparecia às janelas aterrorizadas, não era
coiote, nem guaxinim, nem cachorro selvagem. Que droga que era? Dizem do vampírico
Chupacabras. Hem? Nada, deve ser a Tarya do Caribe. Que é isso? Quem sabia! Uns
mustelídeos, coisa de doninhas, visons e martas-pescadoras, que também bebem o
sangue de presas grandes demais para serem carregadas. Nada, é lorota.
Cogita-se oriundo de experiências científicas ultrassecretas malsucedidas pelos
algozes colonizadores imperialistas – ah, isso mesmo: exagero da mídia,
ansiedade cultural e histeria coletiva! Danou-se, doutor! São híbridos coydogs
sarnentos. Quem já viu, de mesmo? Ninguém. Tó Zeca desconfiou da leseira e como
era gente de peleja foi atrás da desgraça. Quero ver a cor dessa chita, ah, se
vou! Coisas de grotas longes, ladeiras sem fim, de barro batido. Seguiu as
pegadas no faro e tirocínio, o rastro escondido parecia brilhar na escuridão,
adivinhava. Persistia no encalço. Logo a catinga foi crescendo, tomando vulto
e, de repente, desvencilhou-se dum golpe repentino. Eita! Quase me pega
desprevenido. De novo, outro golpe devastador. Aí: A-rá! Peguei-te, besta fera!
Agarrou o tornozelo da maligna e sustentou-la de vê-se arrastado pelas pedras,
matos, rios e mar, até o fim do mundo, quando bateu dela exaurir-se no cansaço
de tanto espernear. Peguei-la. Solto não, desgraça! O monstro arfava, a poeira
baixou. Encolheu-se, em decúbito ventral. Oxe! Aberração ardilosa, sabia: Quer
me pegar na virada, né? Precauções, vigilante, teratologia em dia. Deixou-la
quieta, nem ousou soltar o calcanhar dela: Tá doido? Um facho de luz e ali uma
mulher nua, indefesa, quase desmaiada. Vôte! Ouviu-a: Sou Filínia de Anfípolis,
a Noiva de Corinto do Goethe e da De Mirabilibus de Flégon de
Trales. Vá, converse mais, não me ganha, não. Ela fugira do Livro das Bestas
para ser prisioneira de Labatut, na Chapada do Apodi – aquele desalmado
dos pés redondos, mãos compridas, cabelos longos e assanhados, o olho insone na
testa, os dentes de elefante, o mais sanguinário general francês, mercenário
cruel, abusava de mim, comia os filhos que paria e saía à caça em noites de
ventos e lua cheia. Havia enfrentado todo tipo de acusação de bruxaria e
incontáveis julgamentos e censuras, até o dia da fuga quando o amazônico peixe
vampiro candiru – entrou-lhe pela uretra e sugou seu sangue, parasita
hospedeiro incruado lá dentro dela. Era a primeira morte. Depois a lampreia – uma
enguia dentada do mar e dos rios, convívio com morcegos, sanguessugas,
artrópodes e insetos – mosquitos, pulgas, carrapatos, percevejos, monstros
invisíveis que vieram da febre do Nilo Ocidental, a sua hematofagia. Deram-na
pela fugitiva filha do Drácula de Stocker: Marya Zaleska. Mais disse-lhe
da sabença dos mistérios no fundo das coisas, o que esconde e o que aquieta,
ele só esperava o bote no intervalo, deduzia o estopim, o assombro, a culpa de
quem, ao que ela mencionou ser ele da linhagem do grego Carpophorus, que se
tornou o venador de Sêneca e abatia feras no Amphitheatrum Flavium. Acreditou? E ela prometeu para ele a vida
eterna, desde que a poupasse e vivesse com ela. Como é? Mais precaveu-se: era Lâmia
e quantas mais? E só dele o poder de desencantá-la, ciente do amor e seus
mistérios. Até mais ver.
Gayle Forman: Não leve a vida muito a sério. Você nunca vai sair dela viva... É melhor manter a boca fechada e deixar que as pessoas pensem que você é um tolo do que abri-la e remover toda a dúvida... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Hélène Cixous: Pensar é
tentar pensar o impensável: pensar o pensável não vale o esforço... Censurar o
corpo é censurar a respiração e a fala ao mesmo tempo. Escreva sobre si mesmo.
Seu corpo precisa ser ouvido... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui
& aqui.
Marie NDiaye: Quando eu era adolescente, esperava que a literatura,
tanto a que eu lia quanto a que eu escrevia, me salvasse de uma vida comum, da
monotonia do dia a dia com um emprego assalariado, ou de um casamento, etc. A
vida real me deixava ansiosa. A literatura me permitiu transformar minha
profunda inadaptação ao mundo em algo socialmente aceitável e até gratificante
– porque, felizmente para mim, a aposta valeu a pena, e isso poderia muito bem
não ter acontecido... Veja mais aqui, aqui,
aqui, aqui & aqui.
DOIS POEMAS
Imagem: Acervo ArtLAM.
UM SONHO - Eu
vi-te dançar \ aquele verão \ antes da guerra \ seu rosto pintado \ orgulhosamente
celebra \ suas habilidades de caça \ mulheres em sussurro de admiração \ atrás
de suas mãos \ de sua força \ e bravura \ o cocar que você usa \ reflete seu
lugar de direito \ de liderança \ e sabedoria \ Isto foi antes \ o homem branco
veio \ e assassinou-te.
EU TE CONTO
VERDADE - Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Desde que eu vi
minha filha perecer \ Ela queimou até a morte dentro de um carro \ Perdi o que
mais prezo \ Vi os anjos segurá-la \ Enquanto eu gritava com uma esperança
inútil \ Eu não posso parar de beber Eu te digo verdade \ É a única maneira que
eu lido! \ Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Desde que
encontrei a minha irmã morta \ Ela se enforcou para impedir os estupros \ Encontrei-a
no barracão \ Aquele cabrão de violador ainda vive aqui \ Impune nesta cidade \
Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Desde que a cortei \ Eu não
posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Desde que a minha mãe faleceu \ Encontraram-na
maltratada pelo riacho \ Sinto mais a falta dela a cada dia \ A minha família
culpou-me pela morte dela \ Suas palavras me tornaram selvagem \ Eu não posso
parar de beber \ Eu te digo verdade \ Porque eu era apenas uma criança \ Então,
se você vê alguém como eu \ Quem está bêbado e alto e xingando \ Não julgue
muito ‘porque você não sabe \ Que tristezas estamos amamentando.
Poemas da poeta Yankunytjatjara australiana Ali Cobby Eckermann. Ela, sua mãe e sua avó foram todas roubadas, enganadas e adotadas, afastando-se de suas famílias biológicas e tornando-se parte das Gerações Roubadas, foi abusada sexualmente por um amigo da família quando tinha 7 anos e sofreu abusos e racismo contínuos durante a infância e adolescência. Aos 17 anos, saiu de casa com um homem com quem viveu por dois anos, mas de quem se separou devido à violência. Ao retornar para casa, descobriu que estava grávida e deu à luz aos 19 anos. Seu filho foi adotado. Após completar 18 anos, Eckermann começou a procurar sua mãe biológica, Audrey, mas só a encontrou aos 34 anos, depois que informações foram divulgadas com o relatório Bringing Them Home, em 1997. E 4 anos depois, ela encontrou seu filho Jonnie. Sobre sua experiência ela diz: "Aprendi a viver de duas maneiras diferentes ao longo da minha vida. Aprendi um bom exemplo de trabalho árduo e bondade crescendo com minha mãe e meu pai na minha família adotiva. E sou extremamente grata por minha família tradicional ter me acolhido de volta com tanto amor e honestidade. Ganhei uma segunda chance de viver em um mundo honesto". Ela é autora de livros como Little Bit Long Time (2009), Kami (2010), His Father's Eyes (2011), Love Dreaming & Other Poems (2012), Too Afraid to Cry (2012), Inside My Mother (2015) e She Is the Earth (2023), entre outros.
RETRATO DO CASAMENTO – [...] Perder a
calma é perder a batalha. [...] A tristeza continua tentando amarrar
pesos em seus pulsos e tornozelos, portanto ela precisa continuar se movendo,
precisa ser mais rápida que ela. [...] Ela sempre teve uma predileção
secreta por essa parte do bordado, o lado "avesso", repleto de nós,
estrias de seda e torções de linha. Como é mais interessante, com sua exibição
franca do trabalho necessário para alcançar a perfeição da peça finalizada.
[...] Ela está aqui agora, fora dos muros da vila, onde a noite pintou sua
própria versão do vale, em pinceladas ousadas de índigo; onde o vento anima
esta misteriosa paisagem sombreada, pondo as árvores em movimento, lançando
pássaros noturnos para o ar azul-escuro, espalhando manchas raivosas pela face
ilegível do firmamento. [...] As palavras se imprimiam em sua memória,
como a sola de um sapato na lama macia, que secava e solidificava, a pegada
preservada para sempre. [...]. Trechos da
obra The Marriage Portrait (Tinder Press, 2022), da escritora irlandesa Maggie
O'Farrell, autora dos livros Hamnet (2020), The Hand That First
Held Mine (2019), I Am, I Am, I Am (2017), This Must Be the Place
(2016), The Vanishing Act of Esme Lennox (2006) e After You'd Gone
(2000).
CONTRA A NATUREZA - [...] O artista
não se destaca em nada além de si mesmo. [...] Cultivei minha histeria
com alegria e terror. [...] É de mau gosto prolongar a vida
artificialmente. Já fiz a minha parte, é hora de partir. Deixarei para trás o
máximo de imagens possível; então, de repente, me fecharei como uma crisálida.
[...] Na literatura, como em tudo, existe apenas um significado, mas esse
significado pode assumir múltiplas formas. [...]. Trechos extraídos de Against
Nature (The MIT Press, 2019), da historiadora estadunidense Lorraine Daston, acrescentando
que: [...] Os fatos são frequentemente tênues e
fugazes. São as conquistas de investigações sutis que devem estabilizar
meticulosamente efeitos evanescentes ou combinar engenhosamente vários fios de
evidência em um cordão forte e consistente. Acima de tudo, como sugere sua
etimologia, [...] os fatos mais interessantes e
úteis não são dados, mas construídos, artefatos no melhor sentido da palavra. A racionalidade é
feita para um mundo de problemas bem formulados com respostas inequívocas; a
razoabilidade postula um mundo menos organizado, no qual particularidades
recalcitrantes muitas vezes tropeçam em universais abrangentes. A constatação
de que vivemos numa era de polarização e extremismo tornou-se um lugar-comum,
mas o historiador deve perguntar: por que agora, por que aqui? Convicções
fervorosas podem existir em qualquer época; posições extremas de clareza
cristalina sempre atraíram aqueles impacientes com compromissos incertos. Mas,
no passado, a realidade complexa, mais cedo ou mais tarde, obrigou os dogmáticos
de todos os matizes a baixar a voz e moderar suas afirmações. A novidade em
nossa situação atual é a ilusão de que o mundo pode ser regido pelas regras
mais rígidas da racionalidade: algoritmos tão inequívocos e inflexíveis que
podem ser executados mecanicamente. Embora a propaganda em torno de algoritmos
para tudo, desde dirigir um carro até escolher um parceiro de vida, tenha
permanecido, em grande parte, apenas propaganda, a racionalidade intransigente
se beneficiou às custas da flexibilidade e da razoabilidade. Mas a sociedade
civil não pode sobreviver sem o diálogo atento que a razoabilidade implica –
até porque, mais cedo ou mais tarde, a realidade se revoltará contra as
suposições simplistas da racionalidade. [...]. Ela é autora de obras como lassical Probability and the Enlightenment (1988), Wonders and the Order of Nature, 1150 - 1750 (1998), Objectivity
and the Escape from Perspective (1999), Biographies of Scientific Objects
(2000), Things that Talk: Object Lessons from Art and Science (2004), Thinking
with Animals: New Perspectives on Anthropomorphism (2005), entre outras.
A PSICOLOGIA DE
ANITA PAES BARRETO
[...] eu só, não posso fazer nada. Agora, vamos nos lembrar que
essas crianças que não têm nada e que estão passando pelas mãos da gente talvez
não tenham oportunidade na vida. [...] Não é dar coisas, é fazer elas
fazerem, fazer elas se promoverem. Porque amanhã elas podem reivindicar os seus
direitos, mudar de situação porque entenderam isso. Então vocês não deixem
nunca que a aula seja uma aula morta [...]
Depoimento (FGV/CPDOC, História oral, 1978), da professora e psicóloga Anita
Paes Barreto, que foi presa como subversiva no golpe de 1964 e desenvolveu
estudos e pesquisas sobre Educação de crianças e adolescentes. In: Movimento de
cultura popular: memorial (Fundação de Cultura Cidade do Recife/Fundação
Educar, 1986) e Ulisses Pernambucano, educador (Psicologia: Ciência e
Profissão, 1992). Em entrevista concedida à jornalista Fernanda d’Oliveira
(Diário de Pernambuco, 1982), ela expressou que: [...] acho que cada mulher
que puder ocupar uma posição onde ela firma os seus princípios e que saiba ser
coerente e autêntica na maneira de agir, estará fazendo um bem a todas nós. É
interessante que a mulher tome parte na vida política. [...] Sou
apolítica, mas tenho como educadora, o desejo da existência, no País, de uma
verdadeira democracia [...]. Sobre o seu trabalho o artigo Anita Paes
Barreto e o projeto de modernização da educação em Pernambuco (Revista Temas em
Educação, 2025) de Alessandra Maria dos Santos e Raylane Andreza Dias Navarro
Barreto. Veja mais aqui.
&
A ARTE DE RICARDO
AIDAR
&
A MENINADA DO LER
BEM
Encontro do
Observatório de Linguagens com os estudantes classificados no concurso Ler Bem,
na Semed- Palmares (PE). Veja aqui & mais aqui & aqui.
Geraldo Azevedo aqui.
Pally Siqueira
aqui.
Aguinaldo Silva
aqui.
Bárbara Pereira
de Alencar (1760-1832) aqui.
Gilvan Samico
aqui.
Lucila Nogueira
aqui.
Lourival Batista
aqui.
Magdale Alves aqui.
Arnaud Rodrigues
aqui.
Celina de Holanda aquí.





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