Imagem: Acervo ArtLAM.
Fábula
hodierna... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas.
Assim: Prometeu brechava fascínio por Pandora que se assanhava toda
por Epimeteu que paquerava Io que sonhava com o primeiro. O vértice do
quarteto oscilava circulante, quem o alvo virava e o outro alheio girava a roda
viva vagava e demorou pra dar certo a dança do amor. Não foi bem assim, mais ou
menos, o resumo da ópera. Os irmãos eram ferreiros empregados na oficina do
poderoso tirano Barão. E pelo façanhoso labor, eles conquistaram tanto a
estima do déspota, como da população sempre agraciada por ações levadas e tidas
por heroicas. As irmãs órfãs de mães diferentes carregavam o materno luto de terem
sido ceifadas misteriosamente, suspeitando-se remoção de óbices diante das
ameaças que representavam para o próprio desumano Barão. Nem se conheciam
direito: uma fugiu quando a outra ainda crescia. Por conta da situação de
abandono das meninas, elas foram providentemente apadrinhadas pelo influente, deixando-as
no convívio da distinta Baronesa Puxencolhe, um álibi, afastava qualquer
suspeita. Até aí, tudo bem. A mais velha, Io, ao debutar ganhou uma festa
dionisíaca, Beltane – um carnaval fora de época e sem data fixa em Alagoinhanduba,
realizada conforme a veneta do autocrata, no qual premiava homenageados,
anunciava decisões e benfeitorias, condenava desafetos (quem caísse na antipatia
de suas raivosas psicoses era introduzido num manequim de vime, o famoso crematório
e saudava queimadas), às brasas escaldantes, aos ruídos atroadores do corifeu aeropagita
dos horríveis rituais dos Bitus com todos os Sibitos, Rebitos &
outros Priquitos animando a função estrambólica, entoando solfejos regados
a urros, espasmos, tosses, esturros, estaladas de língua, peidos, arrotos, sovacadas,
toc toc, marcação de pés nas pisadas e fricção dos instrumentos inusitados e
fumegantes: Vamos tocar fogo! Foda-se! O evento infernal era colorido com a dança
das parcas, das fúrias, das ninfas e das harpias. As erínias atiçavam os
esponsais levados pelas eumênides, as moiras conduziam a maratona das lampadofórias,
as górgonas abriam as narrativas de Hesíodo, os espetáculos de Ésquilo
encenando a titanomaquia e o confronto olímpico, os louvores do centauro Quirão,
os plangentes e denunciadores ditirambos de Frínico, e o povo ouriçado com
as atrações de suas ordálias, Panem et circenses, tudo presidido pelo
convidado juiz, o eminente famigerado doutor Teje-preso, gestor das
pendengas. Era o maior regabofe e os dois acoloiados combinavam: Qual o
crime deste? Não fui com a cara. Sacrifiquem! Em polvorosa, a multidão embriagava-se
com o festival de horrores. Posso sacrificar todos? Deve! E enquanto o juiz
sentenciava, o Barão dava uma escapulida, livrando-se da vigilância ciumenta da
consorte e, às escondidas, encontrava Io na penumbra, prometendo-lhe presente
desejado, pelo qual ela se viu ultrajada, maculada pelo asqueroso abuso,
condenada a ser perseguida e tão marcada de jamais esquecer em toda sua vida de
fugitiva eterna. A mais nova, Pandora, também de mãe apedrejada por suposta ordem
do próprio Barão, tornara-se a queridinha da madrinha. Ao debutar, os olhos do
usurpador caíram sobre sua graça, malogrando a cada investida. E ao flagrá-la
receptiva com um sujeito desconhecido, logo interviu: Ah, minha afilhada
preferida! Ô padrinho. Quem é esse? Sou, Epimeteu, seu servil, majestade. Ah,
tenho que lhe premiar pelos bons serviços; por isso, você terá a mão dessa
minha protegida e a cerimônia será amanhã na abertura dos festejos de Beltane, meus
presentes de núpcias! Epimeteu não cabia em si e logo correu para dar as boas
novas ao irmão, Prometeu: Cuidado, nunca aceite presentes do Barão, são de
grego, todos. Está com ciúmes, você tem uma caidinha pela Pandora! Não é isso. Quase
se estranharam às ofensas, mas deixaram pra lá, porque logo amanheceria e era o
dia da festa. Feliz Epimeteu dava tudo que tinha até ficar de mãos vazias, o
coração inchado de amor. No final da tarde, ele lá, os esponsais foram
convocados ao tablado nobre, o juiz os declarou marido e mulher por força da
sua lei, e o Barão os presenteou: para ele, uma salamandra de fogo – Que coisa
mais bonitinha! E, pra ela: um jarro hermético para sacralizar o matrimônio eterno
e que nunca deveria ser aberto. Quando os dois felicitaram os presentes aos
beijos, o Barão cobrou: A jus primae noctis. Hum? Desconsolados, depois
dessa noite o casal perdeu paz. Foi durante o cerimonial que o Barão já refeito
de sua arrogância flagrou a aproximação de Prometeu e Io e partiu para desavença.
Estava furioso porque Prometeu desconfiava do seu fatum e tinha caído nas
graças de todos dando com a língua nos dentes, a ponto de ser mais bem quisto
que o próprio absolutista, o que seria um desagravo funesto, e, ainda por cima,
Io era desertora: Aquela vaca me paga! E veio o traiçoeiro golpe: Hefesto
aprisionou Prometeu no rochedo do Cáucaso, lá no monte Etna na inóspita Cítia,
estraçalhando aos poucos seu fígado de herói decaído, enquanto Argos Panoptes vigiava
com seus 100 olhos, e assumia a paternidade da prisioneira sacerdotisa Io,
martirizando-a num cativeiro com o ataque de insetos picantes. Foi preciso a
intervenção de Heracles na agonia dos vitimados e fuga dos casais pelo Bósforo,
Ilíria, Trácia, Micenas, Eubeia, Síria afora até sumirem para lugar incerto e
não sabido e serem esquecidos pela fúria do ditador. Anos se passaram e no
apogeu doutra festa, fez-se escuridão: Pandora abriu o jarro. Curiosa: será o
fim do mundo? O diabo veio cobrar a conta. A praga e a revolta da pilombeta, a
escuridão contaminava, atormentados pelo beijo homicida do amor letal. O tempo
passa rápido e o esquecimento, a vida muda muito, as histórias ficam. Até mais
ver.
Martha Nussbaum: Ao contarmos histórias sobre a vida de outros, aprendemos a imaginar o que outra criatura poderia sentir em resposta a diversos acontecimentos. Ao mesmo tempo, identificamo-nos com essa outra criatura e aprendemos algo sobre nós mesmos... Veja mais aqui, aqui & aqui.
Charles Bukowski: Todos nós vamos
morrer, todos nós — que circo! Só isso deveria nos fazer amar uns aos outros,
mas não faz. Somos aterrorizados e esmagados por trivialidades; somos
consumidos pelo nada... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,
aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Fernando Arrabal: À luz
da questão chamei imagens/fantasmas - o que estava vendo e me senti apaixonado
pelo resultado final... Turbulência mais uma vez me cercou tanto que eu poderia
ter algumas utopias... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,
aqui & aqui.
DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO
Se te pareço noturna e imperfeita \ Olha-me de novo.
Porque esta noite \ Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. \ E era como se a
água \ Desejasse \ Escapar de sua casa que é o rio \ E deslizando apenas, nem
tocar a margem. \ Te olhei. E há tanto tempo \ Entendo que sou terra. Há tanto
tempo \ Espero \ Que o teu corpo de água mais fraterno \ Se estenda sobre o
meu. Pastor e nauta \ Olha-me de novo. Com menos altivez. \ E mais atento.
Poema extraído da obra Júbilo, memória, noviciado da
paixão (1974), da escritora e dramaturga Hilda Hilst (Hilda de
Almeida Prado Hilst – 1930-2004), destacando em sua lírica o amado e a amada,
dos quais nasce o encontro e as expectativas direcionadas um ao outro. Veja
mais aqui.
MOMENTO
CERTO - […] A beleza da escrita é que você compete consigo mesmo, não com outra pessoa. [...] A inveja é algo
muito feio e muito perigoso. Você precisa se proteger dela todos os dias. [...]
Ele queria todos os prêmios e elogios para si, mas não queria trabalhar para
conquistá-los. Ela se perguntava quantas pessoas como ele existiam no mundo,
invejando os outros pelo que tinham e não podiam... […] A angústia é algo maravilhoso para os escritores e levará você a escrever
seus melhores livros. Mas a felicidade o deixará preguiçoso e acomodado. Você
se esquecerá de suas prioridades e ficará aí parado, sem fazer nada... [...]. Trechos
extraídos da obra The Right Time (Palgrave Macmillan, 2017), da
escritora estadunidense Danielle Steel (Danielle Fernandes Dominique
Schuelein-Steel), autora de obras tais como: The Duchess (2017), Against
All Odds (2017), Steel, Friends Forever (2012), Happy Birthday
(2011), The Wedding (1997), The Gift (1994), No Greater Love
(1991) e Wanderlust (1986), entre outros.
A CIÊNCIA DO TRABALHO COLETIVO - [...] Nossos cérebros produzem 20 watts de potência a qualquer
momento. Em todo o mundo, isso representa mais de 155 bilhões de watts de
capacidade humana para resolução de problemas, conexão e inovação. Imagine o
que poderíamos alcançar se pudéssemos acessar esse poder coletivo? Imagine os
projetos que poderíamos realizar, as criações que poderíamos conceber, os
problemas que poderíamos resolver, como poderíamos transformar nossos mundos
para melhor? Como espécie, nunca nos deparamos com problemas tão complexos ou
difíceis quanto os que enfrentamos agora. Recorrendo à neurociência, podemos
identificar estratégias que nos permitam reunir nossa capacidade cerebral e
desenvolver soluções à altura desses desafios – juntos. [...]. Trecho do ensaio The Science of Collective Working - The
interconnected working methods of the future and how we can harness the power
of collective intelligence (Selfridges Group, 2023), da neurocientista,
escritora, radialista e pesquisadora britânica Hannah Critchlow, que sobre
inteligência coletiva e o pensamento de "nós" expressa: […] Quando fazemos a
transição do pensamento centrado no 'eu' para o centrado no 'nós', nossa visão
de mundo se transforma, nossa imaginação se liberta e cada um de nós é capaz de
contribuir com sua perspectiva única para o acervo de inteligência da
humanidade. [....]
Estamos em um momento crucial de nossa evolução. A abrangência e a
complexidade dos problemas que enfrentamos... exigem o engajamento de todas as
mentes. Sobre o cérebro, o destino e o livre-arbítrio: As pessoas nascem
com um cérebro que molda sua percepção e aquilo que estão biologicamente
programadas para considerar gratificante... Nossos cérebros apresentam
falhas que levam a suposições e erros... Sobre o cérebro no século XXI e a
incerteza: É fundamental encararmos a incerteza e a ambiguidade com uma
mentalidade voltada para as possibilidades — em vez de medo ou pessimismo — e
enxergarmos oportunidades nessas situações... Embutido em nossos
cérebros, existe um mecanismo extraordinário conhecido como plasticidade
sináptica.... Ela é autora das obras Consciousness: A Ladybird Expert
Book (2018) e The Science of Fate: The New Science of Who We Are - And
How to Shape our Best Future (2019) e sua
pesquisa acadêmica tem se concentrado em neurociência celular e molecular.
A ARTE DE ONILDO ALMEIDA
[...] Eu costumo dizer que toda cidade tem feira e
toda feira é igual. Mas, na verdade, não é. A de Caruaru, quando você procura
uma coisa no comércio que não encontra, vai para a feira. É uma feira que tem
tudo [...].
Trecho da matéria entrevista da jornalista Cibelle
Tenório, Conheça Onildo Almeida, o homem que levou a Feira de Caruaru ao
mundo (Agência Brasil, 2025), com o compositor, poeta, músico e radialista Onildo
Almeida, que lançou os álbuns A feira de Caruaru nº 2 (1957), Casamento
antigo (1957) e Zé Dantas e Vaquejada (1962), autor de mais de 530 canções
escritas e gravadas por diversos artistas, com gêneros que vão desde o forró,
xaxado e xote, interpretadas por Luiz Gonzaga, Marinês, Jackson do Pandeiro,
Chico Buarque, Gilberto Gil, entre outros. Veja mais aqui.
TUNGA,
TUNGANDO A VIDA – Destaque da trajetória do premiado O escultor, desenhista
e artista performático Tunga (Antônio José de Barros Carvalho e Mello
Mourão – 1952-2016), um dos artistas mais emblemáticos e representativos da
arte contemporânea. Trata-se de uma síntese de sua vida, principais obras,
prêmios nacionais e internacionais, exposições no Brasil e no mundo. Confira
aqui.
O
PLANETA & A QUESTÃO AMBIENTAL – Os debates atinentes à temática do
planeta e a questão ambiental na contemporaneidade transitam entre as reflexões
que incidem sobre crescimento econômico e a sustentabilidade socioambiental, a
governança global, as mudanças climáticas e a transição energética, justiça
socioambiental e a conservação, a biodiversidade e o desenvolvimento
sustentável, notadamente a respeito da sobrevivência humana, o equilíbrio
ambiental e as projeções escatológicas de extinção diante ação predatória
humana. Nesta postagem reflexões de Lorraine Daston, Alexandria Villaseñor, Tim Marshall, Carlo Rovelli, Caroline Dean, Carolyn Porco,
Sophia Kianni, Jamie Margolin, Xiye Bastida, Kaka Werá, entre outros. Veja
aqui.
CONSTISTÓRIA,
POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS (Imagem: Acervo ArtLAM) – Da série Colam,
uma reunião do meu trabalho autoral, unindo arte visual e musical, por meio de
poemagens & versagens construídas com as obras O Livro das Janelas e
da Crônica de Amor, com o tema musical Nênia de Abril. Verifique
aqui.
AS TRELAS DO DORO (Imagem: arte de Rollandry Silvério) –
Reunião das principais presepadas do arteiro Doro, dando conta de suas
iniciativas mais extraordinárias, situações mais periclitantes e propósitos
malabaristas, ocorridos desde a sua participação no Big Shit Bôbras, no Fecamepa
com sua candidatura a presidente e do seu exótico cotidiano na cidade de Alagoinhanduba.
Observe aqui.
E veja mais Pernambuco aqui & aqui.






































