quinta-feira, junho 17, 2021

JOHN UPDIKE, ARLETE SALLES, THOMAS CAMPBELL & XIRUMBA

 

 

TRÍPTICO DQP –- Uma vez e tantas... - Ao som dos Twelve Preludes for piano (1953), da Galina Ustvolskaya (1919-2006), na interpretação do pianista estadunidense David Arden. – Esta a minha vida, aqui o meu lugar. Das experiências de tenra idade ao quase desespero com o desgoverno do Fecamepa e a inação pandêmica, entre mortos e vivos, o espelho e o travesseiro. Se inusitadas ou inúteis, guardei o que me disse John Updike: São as ideias por trás do meu país, os conceitos de empreendimento e liberdade individual e como isso funciona na atualidade, que me interessam. Além do mais, foi o poeta britânico Thomas Campbell (1777-1844) quem me deu o estalo: Compreender que há outros pontos de vista é o início da sabedoria. Viver nos corações que deixamos para trás é não morrer. Sim, isso mesmo, o plural e o heterogêneo, o que sou e a outra. Certa feita, no íntimo da minha solidão, ouvi Sebastião Salgado: Minha maior esperança é provocar um debate sobre a condição humana do ponto de vista dos povos em êxodo de todo o mundo. Constatamos que o mundo está dividido em duas partes: de um lado a liberdade para aqueles que têm tudo, do outro a privação de tudo para aqueles que não têm nada. Isso me fez repensar tudo que já havia feito e o por fazer. Deparei-me com a minha própria carta de gratidão para quem tem uma história que dá para outra história sobre quase nada ou tudo, o que for. E sempre o meu convite braços apertos, mãos espalmadas: venha, junte-se.

 


Duas de uma (Que dizia: Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o derradeiro; e o que vês, escreve-o num livro...) - Imagens do premiado fotógrafo e poeta Xirumba Amorim. - Mesmo que tudo se parecesse mesmice a cada dia, um sim outro não, algum talvez, quem dera ou sabe-se lá, nunca é a mesma coisa. Já passei por muitas e boas, sempre adiante. Teve uma vez, entre lá e loa, lá estava João, homem comum que saiu das grades depois da queda das drogas e tornou-se asceta pelas ruas, a discernir o duelo entre o bem e o mal. Dele pude perceber a perdição e que o pior não está por vir, já degenerou faz tempo e agora tudo está perdido no meio da loucura, quanto não de sórdido e escatológico, entre ladainhas religiosas e licenciosas risadagens: o grotesco nos espreita, o horror gratuito e ninguém sabe o que fazer da vida nem de nada, apenas mergulha a alma corrompida na lama da vileza escancarada. Ninguém é inocente. E não mais o vi, perdeu-se e me deixou no redemoinho do Apocalipse do Fernando Bonassi que me Sorria: Deposite aqui. Aguarde. Ficha no caixa. Leve três. Aceitamos todos os tíquetes. Só com RG. Não pise na faixa. Pague dois. Por quilo. Facilite o troco. Até o vencimento. Débito automático. Fila única. Não tem chave. Não insista. Crédito obrigatório. Confira. Buzine. Conforme instruções. Relaxe. É lei. Digite a senha. Silêncio. À vista. Visite nossa cozinha. Senha não confere. Obrigado. Atenção. Em jejum. Fale com nossas operadoras. Não desligue. Por favor. Não perfure. Cuidado. Não rasure. Pare. Não amasse. Bloqueado. Deseja salvar? Sorria! Você está sendo filmado. E só me restasse o dia estrada afora.

 


Três das muitas faces de Arlete... - Primeiro a radialista que começou como locutora na Radio Jornal do Comércio, isso depois de ter sido instrumentadora num consultório odontológico. Passou para os Diários Associados, trabalhou nas rádios Tamandaré e Clube de Pernambuco. Depois a atriz consagrada que integrou a companhia teatral de Barreto Júnior, sendo logo premiada como revelação na peça A cegonha se diverte – ou seja, aos 16 anos de idade. Estava dado o pontapé, integrando o elenco da TV Tupi e, daí, para a Manchete e Globo. Transitou pelo cinema, começando com Terra sem deus (1963) até Amigos de sorte (2021), muitos outros. Também pelo teatro, desde o prêmio de revelação em 1958, até a temporada de O que o mordomo viu (2014-2015), tantas mais. E fiquei maravilhado quando pude ver Evangelina no Todo mundo sabe que todo mundo sabe, a Rita em Veneza, a Velma Von Tussle em Hairspray, a Maria Lúcia em A Partilha e Mirta no O que o mordomo viu. Coisa de fã ficar muito mais tiete. Por fim, a mulher que saiu de Paudalho para o hiperestrelato: Eu adoro estar viva. Tenho pavor da velhice e da morte. E deu aquela gaitada nordestina: Tô tinindo! Hehehehehe! Em depoimento na tevê ela se mostrou: Eu até fico meio constrangida de falar, porque eu tenho boas condições pra fazer o isolamento. Eu moro numa casa, uma casa ampla. Tenho espaço pra me deslocar, pra evitar o tédio. Mas há quem mora num lugarzinho quatro por quatro, com seis pessoas – como já vi uma senhora que mora com 16 pessoas – e sequer tem água. A gente fica falando ‘lavem as mãos’, mas tem comunidade que nem tem água. Como é que a gente vai ficar falando ‘lave as mãos’? Espero que as autoridades, depois de tudo isso, prestem atenção nessa desigualdade imensa, esse descaso com a população mais carente, e corrija isso, que é muito cruel. Esta a maravilhosa Arlete. Até mais ver.

 

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quarta-feira, junho 16, 2021

JAMES JOYCE, BERENICE ABBOTT, A DANÇA DA FILHA & DIA LÁ DE ALAGOINHANDUBA

 

 

TRÍPTICO DQP – Diário de lembranças - Ao som do álbum Bloomsday (Cult, 2018), do produtor musical instrumental estadunidense Esbe. - Era madrugada, cabeça ao travesseiro estrelado e nos meus olhos entreabertos e sonolentos o onírico amanhecer dublinense de Eveline. Lá estava ela com Nora e contávamos os mortos porque o jovem artista ainda brincarte de sonhar, não saberia o que da vida fora feito. Não sabia onde estava Ulysses, só ouvia o Monólogo de Molly porque estávamos todos exilados no meu país em que tudo se perdia e se esfacelava. Nem ouvíamos o aviso de que não se devia confiar nas aparências: é que pensávamos ser aqui o éden e não passava de uma lenda do Hy-Breazil. Perdíamos a festa, Bloomsday, só do Finnegans Wake: … Primeiro falamos. Depois falimos. E que ela chova agora se quiser. Brava ou leve, como ela queria. Restavam leitoras de James, leituras de Joyce. Tão logo evaporou o devaneio, sumiram... Sem ao menos qualquer despedida, foram embora, e eu estava condenado aqui, fazendo o meu diário de lembranças: andanças pelo país para conhecer melhor a indigência e os perigos do Brasil: armadilha de bumerangue – todos gritam e ninguém se ouve, mãos vazias e chorar por nós mesmos.

 


Dois passos & a dança da filha - Imagem: The dancer Lucia Joyce (1927), da fotógrafa estadunidense Berenice Abbott (1898-1991) & Bloomsday – Dublin & Ao som de Bloomsday, do álbum I Guess We Live Here Now (Independent, 2021), da compositora e cantora estadunidense Samantha Crain. – Mal despertei e ela dançava pelo quarto, pés descalços e túnica, passos euritmicos de Dalcroze e imersão da Akademia, como se fosse da comuna de Neuilly, o coração aberto e a vida solta uma nova era. Quem aquela? Não havia como saber, só quando ela falou da sua vida enquanto rodopiava o seu fascínio no meu coração. Era a filha perdida, tornou-se a dançarina notável Lúcia: Sou eu quem é o artista. E eu embalado pela vanguarda dos seus gestos, a me dizer que foi enterrada no meio de uma história conturbada de incesto e extravagâncias. Era ela a musa trágica de Trieste - Carl Jung que o diga: ele e o pai dela protagonizaram farpas e raios que abalaram o planeta. Do outro lado surgiu o enamorado Samuel Beckett agitando as mãos enlouquecidamente: A mulher irlandesa! Um pouco de justiça, senhores! E mostrava para guardar a foto da sua performance de peixe prateado yeatsiano pelo resto da vida. E mais hipnotizado com a sua dança grega, mais me dizia das lições do movimento livre de Margaret Morris, o treinamento físico com Kitten - Kathleen Neel e a recusa da oferta de emprego da irmã de Duncan, a Elizabeth, para lecionar na escola de Darmstadt, perto de Frankfurt. E dançou La petite marchande d'allumettes (The Little Match Girl, 1928), do cineasta Jean Renoir (1894-1979), enquanto se desmanchava pela série de namoricos e noivados rompidos e o idílio com Mary Wigman. Desabou desconsolada, o colapso nervoso quando o irmão Giorgio a levou para ser encarcerada em manicômios, camisas de força e soro bovino. Não sabia da morte do pai dela, seu único defensor – aquele mesmo que mantinha reservas, considerava impróprio dançar no palco. A mãe nunca a visitara e o irmão apenas uma única vez, aprisionada no asilo de St Andrew, em Northampton. Vi quando o sobrinho Stephen guardou seu romance, poesia e correspondências com o pai e destruiu tudo da Biblioteca Nacional da Irlanda. Os amigos seguiram os passos e destruíram sua correspondência, silenciando-a, roubando-lhe o arbítrio e tornando-a um espaço vazio supino. Revi tudo dela no livro Lucia Joyce: To Dance in the Wake (St. Martins, 2003), da escritora Carol Loeb Shloss, e no curta-metragem Lucia Joyce: Full Capacity (2020), da cineasta Deirdre Mulrooney, estrelado por Evanna Lynch. Nunca imaginara aquilo tudo, não era sonho, o travesseiro revelara.

 


Três dias lá... – Levantei-me assustado, o que estava acontecendo comigo? Sei lá! Se não me livrara do espelho de Wang Tu, agora, cada vez mais, refém do travesseiro de Chen-Tsi-Tsi. Onde estava? Quem sabe... Fui ver: em Alagoinhanduba era Dia Lá, aquele que se comemorava dia 29 de fevereiro ou 31 de abril. Eita! Às vezes se esqueciam do evento e folgavam de novo no segundo semestre num dia que desse na veneta, emendando outros feriados, na farra de correr bicho, desenvultar assombração e gente se envultar na força da Teibei. O Dia Lá era tão arrepiado que teve uma vez começou às vésperas do carnaval e só terminou na sexta-feira santa, isso porque Jesuisis do Jegue passou da conta nos birinaites e bateu as botas assim do nada: o choro foi tamanho, morreu de novo aquele que nasceu no alinhamento dos planetas do dia 5 de fevereiro de 1962. Como é? Sim. Foi mesmo? Tais brincando! Na vera, tal como o Giro, lembra? Eita, quem o Anticristo? Sei lá. Ninguém nunca mais viu o Giro. Olha lá, o Jesuisis ressuscitou de novo. Foi mesmo? Agorinha, olhelelá! Benzodeus. E agora? É Dia Lá, vambora que ainda tem muita festa para comemorar! Tome cipoada para cima: Simbora putada! Até mais ver.

 

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terça-feira, junho 15, 2021

MARGARET DELAND, BALMONT, PAUL RUSESABAGINA & MESTRE NOZA

 

 

TRÍPTICO DQP – Talentos das estrelas... - Ao som do Concerto in A minor, Op 16, de Edvard Grieg, na interpretação da pianista Khatia Buniatishvili & Orchestre National du Capitole de Toulouse, conductor Tugan Sokhiev. - A vida segue, deito a cabeça ao travesseiro de Chen-Tsi-Tsi e logo a cena: flagro o tratamento desumano com os nossos idosos nas filas do banco, nas emergências, nos pontos de condução. Yeats sussurra ao meu ouvido: Espalhei meus sonhos aos seus pés. Caminhe devagar, pois você estará pisando neles. Tomo um susto, procuro evitar, mas nada identifico. Procuro por ele e me deparo com Proust: Acontece com a velhice o mesmo que com a morte. Alguns enfrentam-nas com indiferença, não porque tenham mais coragem do que os outros, mas porque têm menos imaginação. Mediante sua fala, reflito sobre envelhecer: o que sei é que nãoé o fim do mundo. E me perco na fumaça da ideia, lembrando logo o tempo da faculdade em que estudei a Terceira Idade e a sexualidade. Dessa época, guardei comigo a frase da escritora estadunidense Margaret Deland (1857-1945): ... assim que você se sentir muito velho para fazer alguma coisa, faça essa coisa. Também aquela que me foi repetida um tanto de vezes da economista & estilista belga Diane von Fürstenberg: Meu rosto carrega todas as minhas lembranças. Por que eu deveria apagá-las? E ainda teimava em recitar os versos do poeta russo Konstantin Balmont (1867-1942): Procure, com meu coração, o que se foi e se desvaneceu, sem deixar vestígios. Eu sei: é o sol, com seu perfume infinito, Cante músicas comigo e eu canto também. O que sei é que quanto mais o tempo passa, se a pandemia ou o genocídio do Fecamepa ceifam nossa gente, sobretudo nossos idosos, sei que os avós são os mestres do passado, envelhecem para brilhar, não para a cruel violência e o preconceito: direitos da luta pela vida.

 


Duas lágrimas no Hotel Rwanda... - Não sei se despertei de fato ou se foi dentro do pesadelo, uma coisa assim, sei que era tudo diferente. Pareceu-me que era Kigali em pleno genocídio depois do atentado a Habyarimana, quando se rasgou o acordo de paz. Era mesmo, agora tinha certeza. Era a guerra civil, a maioria hutu atacava promovendo a matança: caçavam as baratas tutsis, foi o que disseram, nem sei quem. Estava eu no hotel de refugiados e, cá com meus botões: só me faltava essa! E Paul Rusesabagina, um homem comum, para lá e para cá. Dirigiu-se a mim com um gesto, nenhuma palavra. Ousei mencionar: Sim, Paul. Quantas vezes não ouvimos: A política é poder e dinheiro. E repetem entre si: Temos todas as razões para crer que atos de genocídio têm ocorrido. E nada fizeram, não fazem, nem farão nada, talqualmente aqui. O pior é que sabemos: Sinceramente, acho que as pessoas que virem essa gravação dirão ‘Oh, meu Deus, que horror’, e continuarão jantando. É sempre assim: como se nada acontecesse. E farram e dançam e pulam e vão e voltam. Quem diria, Paul, uma casa confortável no subúrbio, a bela mulher, o filhos. De repente, quantos mortos, estamos desamparados: os cemitérios esborram, corpos apodrecem. Nenhuma ajuda chegará, a deterioração da humanidade, a milícia, o preconceito, a corrupção, a estupidez, a ganância, o massacre, a indiferença. A história se repete em cada parte do mundo. Resta-nos socorrer os desamparados, os dessemelhantes, somos todos um. E: Sempre há lugar! E que não seja apenas o Hotel des Mille Collines. Sim, Paul, As palavras são as melhores armas jamais vistas. A arma mais potente do indivíduo é uma crença teimosa no triunfo da decência comum. Sim, Paul, é como nos sentimos quando o genocídio é vigente: somos um lixo, não valemos nada, a vida não vale nada para genocidas que pisam crânios e promovem mortes. Não sei, cenas do Hotel Rwanda (2004), em que Terry George foca Don Chedle na pele de Paul. Mas, uma coisa é certa: é preciso tomar alguma atitude! Aqui também é Ruanda.

 


Três luas no olhar... – De repente tudo muda novamente, não dá para acompanhar direito. Tudo por um triz. Agora era como se fosse uma sala de cinema. E passava a animação capixaba Mestre Vitalino e nós no barro (Marlin Azul, 2008): um boneco de barro ganha vida e sai para Vitória participar de um baile. Logo em seguida, o Tudo em homenagem ao Mestre Vitalino. Mal dei dois passos para o lado e de cara com a obra de Mestre Noza. Quem? O escultor, gravador e santeiro de Taquaritinga do Norte, Inocêncio Medeiros da Costa (1897-1983), também tratado por Inocêncio da Costa Nick ou Niquel, coisassim. Nunca ouvi falar. Agora estava vendo tudo: xilogravuras, pinturas, esculturas em madeira, artesanato, Luis Gonzaga, o padre Cicero Romão Batista, cambiteiros, caçadores, santos e santas aos milhares, ou quase, dos mais variados estilos e tamanhos. Era de se ver o grande artista do Vale do Cariri com a mão na peixeira rasgando o pedaço de umburana-de-cheiro, a palestra boa, a palavra amiga, as frases picantes, ou histórias inventadas na hora. Isso para quem viu aquele que andou a pé mais seiscentos quilômetros para chegar por ali. Está lá no Juazeiro do Norte, Ceará. Até mais ver.

 

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domingo, junho 13, 2021

EINSTEIN, HARRIET STOWE, QUINTETO D’ELAS, CAPIBA & PHILIP GALINSKY

 

 

TRÍPTICO DQP – O que não foi nem nunca aconteceu... - Ao som dos álbuns Louise Farrenc (Paulus, 1999) & Vol. 2 (Paulus, 2001), do Quinteto D’Elas, composto pela violinista Betina Stegmann, a violista Adriana Schincariol Vercellino, a violoncelista Marialbi Trisolio, a contrabaixista Ana Valéria Poles e a pianista Helena Scheffel. – Em plena vigência do genocídio duplamente sindêmico do Fecamepa, tudo isso era real e lá estava eu às voltas com as insólitas aventuras no espelho de Wang Tu. Pelo menos, ao me encontrar envolto pelos labirintos da loucura, aliviava a crueldade premeditada da trágica realidade do cotidiano. Passei por tudo: desde a descarga de um raio no cocuruto até o esfacelamento de veias numa transfusão vampírica do mandatário Coisonário. E toda vez que ele passava a trupe dele gritava: Mico! Mico! Mico! Fico na qual é ou será outra a piada? Não foram poucas e o pior: a constatação de que o país não aconteceu nunca, a reboque do umbigocentrismo dos mamelucos sesmeiros que implicam suas questiúnculas coloniais, uns aos outros, para ver quem mais poderoso na preação fedorenta, só para depois barrunfarem desavergonhados os coprólitos de legítimos cucarachas entre os primeiro-mundistas. Triste constatação e maior cara lisa. Estaria eu pior, não fosse, certa feita, assim do nada, emergir a compreensiva observação de Einstein: Todos somos muito ignorantes. O que acontece é que nem todos ignoramos as mesmas coisas. Eita! Que coisa! Chega arriava entre escombros noitadentro, maior desalento. Vez em quando assediado pela esperança quando quase amanhecia com a presença inopinada da novelista e abolicionista estadunidense Harriet Beecher Stowe (1811-1896): A primeira hora da manhã é o leme do dia. As lágrimas mais amargas derramadas sobre os túmulos são pelas palavras que não foram ditas e coisas que não foram feitas. Uma mão amiga no meio da escuridão em pleno raiar do dia. Ao despertar percebi algo tão estranho e não conseguia identificar. Paredes, teto, cama, lençóis, móveis, objetos, tudo muito familiar. Ah, inadvertidamente percebi, estava lá: era o Travesseiro de Chen-Tsi-Tsi.

 


Duas badaladas do sonho múltiplo... - Os sonhos vinham e se misturavam uns aos outros atravessados por pesadelos terríveis do dia-a-dia, acompanhando a trilha sonora agradabilíssima, até ser interrompida por alguém apressado que nunca vira. Era o maestro estadunidense Julius Fifer: Não precisamos de alguém balançando os braços para entendermos uma frase! Não entendi, mas dizia como se aplaudisse a eloquente apresentação do quinteto. Logo saiu para me sacudir numa espiral vertiginosa de tombar estendido no matagal de uma chã. Em meu socorro apareceu Che Guevara (1928-1967): Sonha e serás livre de espírito... luta e serás livre na vida. Derrota após derrota até a vitória final. Ofereceu-me a sua mão, puxou-me e ajudou-me a ficar de pé. Apontou-me ladeira abaixo alguém que confidenciava para uns presentes. Quem era? O jornalista e advogado francês Jules Ferry (1832-1893): O importante é aprender verdadeiramente aquilo que não se pode ignorar. Prestei atenção e logo notei a presença de alguém querendo saber o que se passava. Dei de cara com Dalton Trevisan: O que não me contam eu escuto atrás das portas. E abri o jogo: a viagem onírica compensava a dolorosa ciência de existir naquele momento tão nefasto, para mim, como para todos os meus. Em todo planeta já se começava a respirar; aqui, não, roubavam o oxigênio e nos empurravam para as emergências indigentes e lotadas, quando não para o sepultamento em covas anônimas. É tudo muito triste.

 


Três tons para enganar a dor... – As surpresas não foram poucas: sobre o travesseiro repousava o volume Maracatu Atômico: Tradition, Modernity, and Postmodernity in the Mangue Movement and New Music Scene of Recife, Pernambuco, Brazil (1999), tese de doutoramento do etnólogo estadunidense Philip Galinsky, tratando sobre o movimento dos mangueboys Chico Science & Cia inspirados no Josué de Castro & a lama recifense & a poeira das faces matagrestelitor&sertão. Se o coração inchava satisfeito, logo passou a bumbar retumbante: os tons familiares e efervescentes que buliam nas veias, vísceras e interstícios. Era o cantor Gonzaga Leal com o seu E sentirás o meu cuidado (Autor, 2004) com os tons de Capiba noutras vozes especiais: Naná Vasconcelos, Teca Calazans, Francis & Olívia Hime, Dalva Torres, Kelly Benevides, e eu só solfejando Lá vai na serra Quando se vai um amor Cem anos de choro Depois Relembrando Nazareth pela Valsa Verde e Azul, Sem pressa de chegar no Cais do Porto ou na Nação Nagô Cantando sem saber cantar Duas janelas da Casinha pequenina porque Tu que me deste o teu cuidado. Isso me faz crer que vale a pena viver. E lá vou eu aos expulso do paraíso aos trancos e barrancos entre inferno e purgatório. Até mais ver.

 

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sexta-feira, junho 11, 2021

KAWABATA, CRISTINA AZUMA, LIA LETÍCIA, FELIPE VASCONCELLOS, PRIYA & CALEIDOSCÓPIO.

 

 

TRÍPTICO DQP – O que é e não mais... - Ao som do álbum Contatos (GSP Records, 1995), da violonista, compositora, professora e pesquisadora musical Cristina Azuma. – Nos últimos dias, como já havia vivenciado aventuras no espelho, a exemplo da experiência inicial com os relatos de Joãodito, pensei haver chegado a hora de uma trégua na loucura. Nada, Wang Tu apareceu assim do nada para esclarecer: Outora, o imperador Huang-ti mandou forjar quinze espelhos. O primeiro tinha a largura de um pé e meio e simbolizava a lua cheia. A largura dos demais ia aumentando, de um para outro, de uma polegada. O nosso é, pois, o oitavo dos espelhos de Huang-ti. Eita! E contou-me da família Yang que, premiada com anéis mágicos, prosperara assim do nada. Também a de Tchang que contemplada com uma espada enfeitiçada e, ao perdê-la, também perdeu a vida. E mais: certa noite de uma quinta de lua do ano sete de Tai-yei, uma linda escrava o recepcionara na pousada de Tchen Yong. Achegando-se a ela e mostrando-lhe o espelho, ela atirou-se trêmula e aos prantos para que fosse poupada. Atendendo ao seus pedidos, ela confessou ser uma velha raposa que, quando moça, desposou um camponês que a levou por uma vida infeliz e a abandonou ali, por isso suplicou clemência e que a deixasse, pelo menos por mais algumas horas, pela última vez, se embriagar entre os homens. Direito concedido, ela começou a cantar: Viver é felicidade; morrer não é tão lamentável assim... Então, interrompeu o canto, cumprimentou a todos e caiu morta em forma original. Como? Sim. Assustei-me com o relato e, ao fitá-lo, era ele Yasunari Kawabata: O tempo flui da mesma maneira para todos os seres humanos; cada ser humano flui através do tempo de uma maneira diferente. Talvez o sentimento do mal tivesse ficado anestesiado, confundido com costumes e ordens sociais. Depois de sua fala, não sei o que aconteceu: vi-me enredado por uma força que emanava do velho espelho, a me levar por situações nunca dantes experimentadas.

 


Duas no espelho de Priya – Perdido no tempo e no espaço, logo apareceu uma mulher para me recepcionar. Era Monica Singh, uma jovem que fora vitimada por ataque de um motoqueiro passante, jogando-lhe ácido às suas faces. O que houve? Contou-me em detalhes: ela tinha 19 anos e um amigo que lhe queria namorar, diante de sua recusa, tramou tudo. Por conta deste fato, tornou-se estilista e empresária, fundando a Mahendra Singh Foudation, com o fito de trabalhar no empoderamento de mulheres sobreviventes da violência. Reunida com Paromita Vohra e Ram Devineni, mais a ilustração de Dan Goldman, criou a HQ Espelho de Priya, em 2014, inspirada em uma das tantas filhas do rei Daksha, que tinha seu nome significando amada e, como qualquer mulher hindu sakti, expressava a mãe divina Terra. A história conta de uma adolescente que foi expulsa de casa depois de ter sido estuprada. Vagando sozinha, foi salva pela deusa e ganhou um tigre, afora superpoderes para combater estupradores capitaneados pelo rei-demônio tirânico Ahankar, salvando as vítimas. A segunda história é a de Anjali, que passa por situações cruéis e se revolta para luta contra o rei endemoniado cuspidor de ácido. Ao tomar conhecimento de seu trabalho, ela fitou-me e disse: Uma mulher vence seus medos e descarta o ridículo, falando como uma sobrevivente e tornando-se inspiração para milhares de mulheres na Índia que enfrentaram a mesma experiência – uma super-heroína feminina dos dias modernos. A sua dor fez eco dentro de mim, remexendo tudo a um ponto revoltante. Baixei a cabeça e pensei comigo como é que é possível ter a capacidade para atos tão abomináveis. Ao dirigir-me a ela, solidário, não mais ali e era a Barbara Bodichon: Para as mulheres, o casamento envolve uma grande mudança legal. Passou-me um dos braços sobre meus ombros e saímos cabisbaixos, assumindo as feições de Bertha von Suttner, a me dizer frases soltas do seu Abaixo as armas: A guerra é a negação da evolução em todas as direções... Uma imensa ofensa cometida pelo homem de hoje contra o homem de amanhã!... A organização militar da nossa sociedade foi fundada sob a negação da possibilidade de paz, desprezando o valor da vida humana e aceitando o desejo de matar... Abaixem suas armas: falem para todos, para todos! Já era tempo, eu mesmo já havia deposto há muito todas as armas das mãos e coração. Lá longe um brilho intenso e eu não sabia o que era.

 


Três caleidoscópios e um reflexo do vazio – Imagem: Espelho d’água, da artista performática Lia Letícia – O que é aquilo, um homem-espelho? Apertei a vista e se aproximava. Lá estava eu diante do ator e artista visual Fe Vas - Felipe Vasconcellos com o seu Reflexos: Ensaio sobre o vazio (2013), uma proposta da pesquisa Corpos poéticos: a relação entre a obra, o espectador e o ambiente urbano. Com a sua aproximação tentei me esquivar e me alcançou em cheio: vi-me num Espelho d’água. Temi me afogar, mas tudo parecia uma ilusão de águas, ondas e correntezas. Ou um Caleidoscópio: o experimental, o gesto, o lúdico, trajetórias, experiências, similitudes, distâncias, experiências, múltiplas visões - obras de Daniel Santiago, Gil Vicente e Marcelo Silveira. Onde estou, não sei, sigo adiante: reinvento a vida e o mundo, se for possível viver neste genocídio, todas as formas de amar. Até mais ver.

 

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quinta-feira, junho 10, 2021

GROTOWSKI, BIA LESSA, HELIA SCHEPPA, TEATRO & O ESPELHO DE WANG TU

 

 

TRIPTICO DQP – A vida segue adiante... - Ao som de Guinga Instrumental (2 Vls - Galeão, 2018), do compositor e músico Guinga. - Hoje dei de cara com um espelho que não era aquele que estava desde sempre afixado ali. Era outro e não era nada comum. Como foi parar ali, não sei. Como é que pode? Explico: este parecia ser de bronze, acho. Possuía, mais ou menos, umas oito polegadas de largura, com um suporte traseiro em forma de unicórnio agachado e, nos quatro cantos da parte anterior, havia lá figuras pintadas de quatro animais. Depois de muito rever, identifiquei: um dragão, uma fênix, um tigre e uma tartaruga. Isso mesmo. E mais: cada um desses animais estava cercado de oito diagramas que, por sua vez, estavam cercados pelos símbolos, ao que me parece, com certeza, das doze constelações do zodíaco. Tudo muito estranho. Virei e revirei. Na parte da frente dava para se ver vinte e quatro caracteres por mim não identificáveis, numa caligrafia de traços abruptos. Danou-se! Bote estranhice em tudo. Fui pesquisar, aqui e ali, vixe! Com o tempo identifiquei um a um dos diagramas: era do Yi-king, isso conforme acesso às publicações Yi-king – Le livre des transformations, um livro em capa dura que achei sem data e editora, traduzido pelo sinólogo e teólogo alemão Wilhelm Richard (1873-1930), e também um outro, Yi King: Les essentiels du bien-être (Grund, 2005), uma edição ilustrada realizada por Gary G. Melyan e Wen-kuang Chu. Repara só, estão pregando uma peça comigo, só sendo. A caligrafia só identifiquei ao me apossar de uma tuia de tomos e enciclopédias antigas, dando-me a constatação de se tratar do estilo Li-Chu, ou seja, do tempo de um certo imperador chinês lá dos anos 727-729 dC. Queimei noites e dias as pestanas e os neurônios de tanto encará-lo e percebi que, ao colocá-lo contra a luz, dava para distinguir que, contra a superfície metálica, havia desenhos no verso. Que é isso? Só faltei arrancar os cabelos, descobrindo, finalmente que eu estava diante do velho espelho de Wang Tu, um objeto estranho. Ah, tá. Sim, mas como foi parar ali? Não queiram nem saber: o que passei depois que dei fé dele, as coisas estranhas é que começaram mesmo a ocorrer ao meu redor. Primeiro foi uma aparição repentina do Saul Bellow para jogar, assim do nada, na minha cara: Ah, é uma praga, a vida que se exibe, uma verdadeira praga! Estamos numa época em que todos os ridículos filhos de Adão desejam evidenciar-se perante os outros, com todos os seus ditos espirituosos, esgares e tiques, toda a glória da fealdade auto-adorada, afirmando aos restantes - num transbordar de narcisismo que os outros interpretam como benevolência - 'Aqui estou para dar testemunho. Vim para lhes servir de exemplo'. Pobres espectros tontos! Fiquei mastigando aquilo na ideia e ao tentar expressar minha opinião a respeito do que dissera, não era mais ele ali, era a Bia Lessa mais que reveladora: Vivemos uma desconstrução. Valores fundamentais estão sendo derrubados. E sorriu diante da minha estupefação: Venha. E fui, claro.

 


Duas vezes sob a luz do palco... – Ao som do álbum Rosinha de Valença ao vivo (Forma, 1966), da compositora e violonista Rosinha de Valença (Maria Rosa Canellas – 1941-2004). – Ao sairmos, o que deveria ser a minha sala-estar, era agora um palco com atores e atrizes seminus, que passavam entre nós. Logo não mais a vi, estava perdido e procurando onde me amparar em qualquer lugar, para presenciar ao exercício laboratório, creio. Ouvia alguém gritar para eles algo como transluminescência, em que o impulso é ao mesmo tempo a reação. Curioso. Agucei a atenção, encostei num canto e fiquei intrigado acompanhando o movimento. De repente surgiu Jerzy Grotowski: O perigo e a sorte vão juntos. Não há grande classe se não diante do perigo. No momento do desafio aparece a ritmização das pulsões humanas. O ritual é um momento de grande intensidade. Intensidade provocada. A vida então se torna rítmica. O Performer sabe ligar o impulso corpóreo à sonoridade: o fluxo da vida deve articular-se em formas. Era uma lição do seu El performer – The Grotowski Sourcebook (Routledge, 1997), que eu estudara anos atrás, a respeito do exercício de conhecimento e transformação de si, apontando para o horizonte ético do trabalho de atuação, com base na Arte como Veículo, a relação entre a vida interior e a espiritual do ser humano, por meio de uma reflexão sobre o potencial da condição humana na perspectiva do comportamento orgânico – o Teatro Laboratório. Entendi que falava de interioridade na investigação e o acesso a diferentes estágios experienciais, como ato de transformação individual por meio de uma ação e do fazer, além de qualquer função espetacular e sem vender a alma: ofício e ética. Assim, para mim, era um momento iniciático, jamais arredaria o pé dali.

 


Três avisos: não só se vive de espelho... – Imagem: arte da premiada fotógrafa Helia Scheppa. - E não arredaria mesmo, não fosse eu me render ao cansaço e o sono. Se tudo foi real, me pareceu um sonho para lá de desejável, senão aprazível. É que ao despertar, ao meu lado estava o volume O teatro moderno em Pernambuco (Desa, 1966), do ator, crítico teatral, ensaísta e professor Joel Pontes (1926-1977), livro este que eu nunca havia posto os olhos em cima. Quem trouxera? Quem ali colocou? Mistério. Mas, pelo menos, gostei de ter esse volume às mãos, contando a história do Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP) e do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), afora as atividades do autor como integrante do curso de Arte Dramática, da Escola de Belas Artes da UFPE, enfim a trajetória da atividade teatral pernambucana, analisando os principais grupos, amadores e profissionais, como o Grupo Gente Nossa (GGN), o Teatro Adolescente do Recife (TAR), o Teatro de Cultura Popular e (TCP) e o Teatro Popular do Nordeste (TPN). Além disso tudo, realiza um estudo introdutório e panorâmico dos dramaturgos pernambucanos mais expressivos, entre eles, Hermilo Borba Filho, Aldomar Conrado, Ariano Suassuna, Aristóteles Soares, Isaac Gondim Filho, José Carlos Cavalcanti Borges, Luiz Marinho e José de Moraes Pinho. Uma leitura assaz reveladora, principalmente por me dar a ciência de que ele também é autor de outras obras, como Ensaios do visitante (1970), contando da sua ida aos Estados Unidos, e O aprendiz de crítica – 2 volumes (1955-1960). Ampliei meus conhecimentos acerca das atividades teatrais no estado e guardei de bom grado entre os outros volumes que possuo da área em uma das minhas estantes. Mesmo não sabendo quem me presenteou tal volume, agradeço então à vida, a oportunidade de lê-lo. Até mais ver.

 

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quarta-feira, junho 09, 2021

LEWIS CARROLL, MARY LOU WILLIAMS, VIRGINIA LEAL & ESPELHO DANÇA.

 

 

TRIPTICO DQP – Do nada e outras... - Ao som do performático show de cabaré da lendária compositora, pianista e arranjadora estadunidense de jazz Mary Lou Williams (1910-1981), no Les Mouches em Nova York, 1978. - Ao deparar com o espelho: nem eu nem nada. Pelo menos, não tive que passar pela experiência de ter que dar de cara com um general obtuso, nem um ladrão sorrateiro, muito menos a morte inexorável. Graças! Ainda me pergunto como é que tudo isso foi acontecer justo comigo, logo comigo! Uma coisa estava certa: ou havia me tornado invisível de vez, ou seria um vampiro das costelas ocas. Só sendo. Essa a constatação. Até brinquei cantarolando: Espelho, espelho meu, afinal de contas, o que serei eu? Um delírio ou uma assombração, hehehehe. Vamos nessa. E ao chegar à sala, esta não era a minha: três vultos sentados num sofá que não era o meu. Fui ver quem. Ah, qual não foi a minha surpresa! O primeiro a se virar para mim foi Machado de Assis que logo me falou: A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito. Hem? O outro logo interveio, era Guimarães Rosa: Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo. Mal ele terminou de me dizer, logo apareceu Sacha Guitry que foi contando a história de um senhor que, ao sair às compras, virou-se da porta e perguntou à esposa o que ela queria que trouxesse: um pente. Este o pedido. No mercado, ele não se lembrava do pedido dela e adquiriu um espelho. Como ela nunca tinha visto aquilo, ao abri-lo, teve uma surpresa: pensou consigo que o marido havia comprado outra mulher. Com esta constatação, levou o objeto para mãe que também nunca tinha visto um troço daquele. Vôte! E ao fitá-lo, olhou, olhou, olhou, virou de ponta à cabeça, fez careta e... como mãe é mãe (né?): é sábia. Coisa mais sem pé nem juízo, ora. Como é? Bem, diante do trio fiquei sem saber o que fazer. O que sei é que aquela não era a minha sala de estar; era, soube por eles depois, a do deão do Christ Church College, que possuía um grande espelho sobre uma enorme chaminé. Teria eu, conforme as instruções que me foram dadas pelos visitantes, que subir o console da lareira, livrando-me dos vasos de flores secas protegidos por redomas vitorianas, e ao alcançá-lo, consequentemente, ultrapassá-lo para saber onde é que ia dar. Como é que pode uma coisa desta, hem? A minha longa jornada pelo espelho.

 


Dois sustos no imprevisível... - Ao atravessar o espelho, ele se dissolveu como uma bruma prateada. Estava diante de mim, ninguém mais nem menos que Lewis Carroll que, por recepção, foi logo me saudando amável e enigmaticamente: A única forma de chegar ao impossível, é acreditar que é possível. Nem deu para notar direito a ponta de sarcasmo que havia no seu jeito e fui imediatamente acompanhado de uma admoestação para que eu não me espantasse, explicando que ali era a entrada para o país do Espelho (!?!), o qual, quando visto, torna-se impossível descrever o cenário com precisão. Hum? Sim, realmente, impossível ter qualquer noção em um lugar em que foram abolidos tanto o movimento no espaço como a passagem do tempo: a prova tangível da refutação do espaço de Zenão. Eita! Além do mais, ali o tempo de cada um é diferente do tempo de todos: o tempo tanto corre para frente, como para trás. Vôte! Endoidou tudo! Assim, eu podia parar o meu tempo à vontade, independente do tempo do outro e nenhum prejuízo para ninguém. Então o que eu vi e senti não deu para contar, apenas vi e senti sim, nada mais. Coisa de doido, né? Pois é.

 


Três solfejos e nenhuma canção... - Já tive oportunidade de aqui publicar poemas de Virginia Leal: a cada leitura de seus cometimentos poéticos, um prazer indescritível, uma emoção inenarrável: e isso muito me apetece. Tanto é que virei assíduo apreciador de suas postagens e, a cada uma delas, lá estou eu como devotado admirador. Prova disso é que aqui já publiquei de sua autoria o Lascivus – da série Nauta Libidinosos –, afora outros dos seus poemas. Até comecei a musicar um deles e, mal começava a descobrir canções em seus versos, logo outro aparecia e lá ia eu solfejando melodias intermináveis. Cheguei a selecionar uns dez ou doze poemas dela, já definindo a linha melódica para cada um deles e procurando superar minhas limitações musicais para alcançar a grandeza do que expressavam. Fiz, refiz, me enganchei, desenganchando e recomeçando, quem sabe, de repente, eu consiga fazer uma música à altura dos seus poemas, espero, vamos ver. Mas o que quero falar aqui não é a respeito dessas minhas tentativas recorrentes e sim de um conto dela que foi responsável pela potencialização da admiração: o A bailarina, a atriz e a canção, extraído da antologia Contos de oficina – Oficina de Criação Literária (Bagaço, 2004), organizada por Raimundo Carrero, do qual pinço o trecho: [...] O artista esculpiu a sensibilidade da menina, antes enredada pela teia do drama que a fez ameaça, ovelha negra, problema. A menina-atriz ressurgida resgatou as histórias perdidas. Agora, havia interessados em suas verdades. Descobriu que é possível fazer do trabalho diversão. Sentiu-se de volta aos brinquedos infantis, enquanto seu corpo febril descobria outros prazeres. O tempo a lapidar cumplicidade, compreensão. [...]. Pois bem, mesmo que minha teimosia em musicar seus poemas não vingue por minha completa incompetência de alcançar a grandeza de sua arte, pelo menos, vou tentando e mais me deliciando com sua maravilhosa expressão. Até mais ver.

 

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terça-feira, junho 08, 2021

BERGMAN, WILLIAM ZADIG, NOBUKO IMAI, TRILUSSA & RECIFE


  

TRIPTICO DQP – Uma: a morte no espelho... - Ao som da Harold in Italy - Symphony in Four Parts with Viola Obbligato (1834), op. 16, H. 68, do compositor francês Hector Berlioz (1803 - 8 de março de 1869), na interpretação da violista japonesa Nobuko Imai & London Symphony Orchestra, regência de Kazuki Yamada. – Que coisa! Anteontem foi um general, ontem um ladrão e hoje, imagine: a morte. Pode? Agora deu. Logo me vi naquela antológica cena do Sétimo selo - Det sjunde inseglet, do Bergman: era nada mais que Bengt Ekerot, disfarçado de monge da morte: presente por todo lado no cadáver do pastor e na dança macabra do afresco da igreja numas imagens que flutuavam por trás dele. Tinha outro espelho para invadir não? E logo me tratou como se eu fosse o quixote Block, na verdade, um ladrão de joias dos mortos, sem a presença do fiel escudeiro Jons, e que havia encabeçado a procissão dos flagelados, convencido por um decadente de que devia partir para a cruzada, agora retornando para dar de cara com o quadro desolador da sindemia: a violência nas ruas, a ira dos religiosos imprimindo medo e cura, a fumegante tortura e o desespero dos flagelados, o hecatombe com todos os malefícios da humanidade: todos matam e enriquecem em nome de um deus que nunca reconheci. Por trás dele vi o voo da águia e, logo em seguida, o som das guerras, bombas, discórdias, genocidas do agronegócio, o holocausto. Deus está longe, mas o diabo está por todo lado – foi o que ele sussurrou. O meu interlocutor sorria e diante das suas sombrias predições, propus um jogo de xadrez. Depôs o tabuleiro na hora, enquanto imaginava a minha antipatia com a escatologia cristã porque alguém - sabe-se lá quem - desatou os seus sete selos apocalípticos: a morte está caçando os vivos e algo me diz que o mundo será dizimado gradualmente pela peste. Ouvia lá longe não sei quem, nem onde e muito menos pra quê, alguém se manifestava pregando a punição em nome do sagrado. Ora, bolas! O que há de moribundo e desespero: o agouro implacável. Enquanto jogávamos falou-me do sentido da vida e da morte, como se eu fosse o cavaleiro que voltou da cruzada da fé e havia encontrado o sétimo selo e o medo: um visitante inesperado com a personificação mortal para vencê-la. Foi na vida, a experiência para enfrentá-la. Encarou, então, meu destemor como um escárnio e me expôs a imagem daquela escultura de um túmulo do Poblenou, em Barcelona: El Beso de La Muerte (1930), atribuída a Jaume Barba ou Joan Fontbernat, com um epitáfio de Jacint Verdaguer: E seu jovem coração não pode ajudar; / Em suas veias o sangue para e congela / E o encorajamento perdido a fé abraça / Cai sensível aos braços da morte. Ao recitá-lo a música me envolveu com a imagem e senti que alguém se aproximava. Era Berlioz: Na vida de um artista, às vezes um trovão segue-se rapidamente a outro... Eu acabara de receber as sucessivas revelações de Shakespeare e Weber. Agora, noutro ponto no horizonte, vi surgir a forma gigantesca de Beethoven. O choque foi quase tão grande quanto o de Shakespeare. Beethoven abriu diante de mim um mundo novo da música, tal como Shakespeare revelara um novo universo de poesia. Hem? Virei-me para vê-lo e era Bergman com um meio sorriso: Quando eu era jovem, eu tinha muito medo de morrer, mas agora penso que é muito, muito sábio se preparar. É como uma luz que se extingue. É preciso aprender a viver. Eu treino todos os dias. Todos precisam aprender a viver. A cada dia, me esforço um pouquinho. A dificuldade principal está em saber quem eu sou e onde estou. É como procurar na escuridão. Se alguém me amasse como sou, talvez, finalmente, me pudesse encontrar. Era como se toda cena fosse ao final, no qual só o casal de atores da trupe mambembe escapava, tudo o mais estava perdido: apenas o Sol brilhava no horizonte abrindo caminho para a vida. Sei não.

 


Dois beijos na princesa do escultor de Trilussa - Imagem: a polêmica escultura O idílio ou Beijo eterno (1922), do escultor sueco William Zadig (1884-1952), recolhida em 1936; instalada depois em 1956, no Largo do Cambuci e, depois, reinstalada na entrada do túnel 9 de Julho, e, finalmente, em 1966, no Largo de São Francisco, em frente à Faculdade de Direito, em São Paulo, representando um francês e uma índia, em referência à obra de Olavo Bilac. – Sardenilza é uma daquelas moças que nasceu com a bunda pra lua e para admiração de todos. Desde a hora que nasceu, seus familiares apelidaram logo de priquituda, devido descomunal desenvolvimento do seu capô de fusca: Essa menina é só boceta, gente! Mas com o tempo, ela foi tomando jeito e, na adolescência, as suas proporções corporais foram distribuídas, removendo de vez o apelido de infância. Com o tempo passou a ser a gostosuda da cidade, ganhando a simpatia dos marmanjos e se ajeitando na vida com a sua própria beleza. Muitos pretendentes gastaram fortunas para serem contemplados com o seu sim num casório, enquanto ela permanecia solteiríssima e cobiçada. Um dia lá, desfilava no seu conversível, quando perdeu o controle e achou de esfregar a face num poste. Ficou desfigurada. Era uma vez uma beldade: tornou-se a coisa mais feia do mundo. E agora? Sai pra lá, jaburu! Um admirador, o Jadonaldo, que não tinha nem onde cair morto, foi a salvação: cedeu seus glúteos para reembelezá-la numa cirurgia de horas. Em compensação, o desbundado foi contratado como seu motorista particular. Ao reaparecer, filas e alvoroços para a banda dela. Sem saber o que acontecia, procurei saber do primeiro que encontrei: Hehehehe! É fila dos machos que querem beijar a boazuda. Não havia entendido a risada dele, só com relato que coincide com a história contada pelo Trilussa – na verdade, o escritor satírico italiano Carlos Alberto Salustri (1871-1950) -, no seu conto O beijo do escultor: Fui submetido a uma operação delicada e dolorosa. Devo dizer que sofri tudo de boa vontade, para agora ter a compensação de haver retribuído pessoalmente com a conservação da beleza do rosto da minha senhora. Pois é, é do sofrimento de um que aparece a felicidade de outro e finda tudo empatado. Vá entender.

 


Três sustos nos semáforos do Recife... – Imagem de Heraldo Cunha ao som de Luiz Bandeira: Voltei, Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço... - Sempre transitei pela Pracinha do Diário, era meu caminho ao largar do trabalho no Cais do Apolo, rumo à Livro 7. Isso até os anos 1990, mais ou menos, quando arribei estrada mundo afora. Não sabia eu que 30 anos depois, a coisa mudara, e muito. A cada passada pela faixa de pedestres nos semáforos, refazendo o itinerário, eu tinha um susto. Certas abordagens não chegaram a ser de fato, mas bem que passaram para premiar outro transeunte, cuidava para estar pronto na minha hora. Hoje não tem mais a livraria predileta, nem condição de se andar certas horas pelo itinerário que eu costumava fazer todos os dias do final dos anos 1970 até quando fui embora. Para minha sorte nunca fui assaltado. Consegui chegar ileso no nono andar do Pernambuco, aboletando-me no sofá e pegando o primeiro livro que estava ao alcance: era o volume Trabalho precário no meio urbano: semáforos do Recife (Fundaj/Massangana, 2007), coordenado por Tarcísio Patrício de Araújo, flagrando esta parte do texto: [...] uma ideia das condições de vida das pessoas que trabalham nos semáforos de Recife, um contingente que tem crescido [...] uma alternativa à impossibilidade de inserção no mercado formal [...] consequência direta da insuficiência de absorção de mão-de-obra pelo mercado de trabalho formal. [...]. Fui até a janela, olhei pros lados, todos os prédios antes reconhecidos de grande movimento, todos abandonados. Bem, a Guararapes não é mais a mesma, nem a Boa Vista. Outros tempos, até mais ver.

 

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JOHN UPDIKE, ARLETE SALLES, THOMAS CAMPBELL & XIRUMBA

    TRÍPTICO DQP –- Uma vez e tantas... - Ao som dos Twelve Preludes for piano (1953), da Galina Ustvolskaya (1919-2006), na interpreta...