terça-feira, novembro 24, 2020

ARUNDHATI ROY, TOULOUSE-LAUTREC, JULIETA VENEGAS, PARK CHAN-WOOK & NHÔ CABOCLO


  

TRÍPTICO DQC: POEMÁTICA – Ao som de Appello - I. Quietly, and with a cruel reverberation - II. A vague chimera that engulfs the breath - III. ...a perhaps hand (which comes carefully out of Nowhere) - e.e. cummings - IV. And I remembered the Cry of the Peacocks - Wallace Stevens, da compositora estadunidense Barbara Kolb, for solo piano, played by Jay Gottlieb. - A minha solidão de Toulouse: Não era Saint-André-du-Bois, nem Paris, nem Alagoinhanduba. Noite alta madrugada adentro, nenhuma estrela no céu e o dia amanhecerá logo logo. Sei e ouço lá longe o alvoroço do pau-de-arara levando os ticoqueiros para o corte da cana. Esse o anúncio de que o dia já se avizinha. Não sei como eles vivem de safras e entressafras aqui e acolá pelas estradas sazonais. Sei das famílias penduradas nos morros e eles lá da botada à pejada, da aurora ao anoitecer, chova ou faça Sol. Ouço pegadas, alguém se aproxima da janela. É Toulouse-Lautrec: O amor é uma doença que nos enche com o desejo de ser desejado. Ah, sim, o amor, sempre o amor. Sinto o seu ar de Moulin Rouge, um aperto de mão e um brinde. Não estou escondido em Montmartre, apenas no meu próprio casulo. Não tenho nenhuma Carmen Gaudin para posar, nem ouvi Yvette Guilbert, nem vi a dançarina Louise Weber, a La Goulue, nem a Jane Avril. Faço hoje apenas colagens imitando o que fez de design gráfico e revolucionou os cartazes litográficos para a Arte Nouveau. Nenhuma revolução nas minhas pretensões. Toparia tomar o seu Terremoto, embora só me reste a Teibei! – Deus me livre, quem é doido, hem? Outro brinde, mudo como chegou assim permaneceu até seguir pela trilha do horizonte e a solidão é maior que a noite.

 


O REINO DA LOUCURA – Ao som da Symphonie de Printemps (1986) – 1. Spring – Incantaion, Autum – Poetic, 3. Winter – Unrealistically, 4. Summer – Finale, da compositora e pianista francesa Ida Rose Esther Gotkovsky. - Este quarto é a minha prisão. Não sei que horas são, nem que dia é hoje, perdi a noção de tudo. Ainda é noite na solidão, só o que posso distinguir à janela. Nenhuma culpa, nenhum crime, se me privo é por conta do risco, apenas o estar só a esta hora e manter-me vivo, o que importa. Tento sair e não consigo. É como se estivesse protagonizando o premiado drama de mistério Oldeuboi (2003), o segundo da Trilogia da Vingança, do cineasta sul-coreano Park Chan-wook, baseado num mangá homônimo japonês, de Nobuaki Minegishi e Garon Tsuchiya. Mas eu não sou Dae-Su para ser mantido em cativeiro por longos anos num quarto de hotel e sem qualquer contato com o mundo lá fora. Muito menos tenho uma missão obsessiva por vingança nem sou acusado de assassinar ninguém, nunca! Longe de mim o suicídio e não entendo porque seria perseguido pela justiça ou por quem quer que seja, numa rede de conspiração violenta. Para minha surpresa me chega a atriz sul-coreana Kang Hye-jung que me fala coisas em um idioma que sou incapaz de entender, repetindo insistentemente Mi-do e se desnuda aproximando-se sedutora e a me cativar com sua expressiva beleza.

 


A REDENÇÃO DA CHEGADA DELAImagem: arte do escultor dinamarquês Kai Nielsen (1882–1924). - Chegou com o amanhecer toda Julieta Venegas de Primer Día. Um beijo ensolarado e já nem me lembrava do que passei solitário durante toda noite. Dormiu bem? Agora já nem sei. Quer brincar de quê? De viver. Que tal eu virar uma estátua e você Pigmaleão descobrir em mim a sua Galatéia? E fez poses a se desnudar cantarolando Andar Conmigo: Dime si tu quisieras andar conmigo, oh-oh-oh / Cuéntame si quisieras andar conmigo, oh-oh-oh / Dime si tu quisieras andar conmigo, oh-oh-oh / Cuéntame si quisieras andar conmigo, oh-oh-oh. Depois de muito encher o ambiente com seus zis encantos, achegou-se íntima a se esfregar em mim, ousada, atrevida, deliciosa. Venha! Sou apenas um , não possuo talento de artesão, mas hei de amá-la mais e mais para sempre: sou seu; você, minha. E riu e ria com seus beijos picantes incendiando minha alma e libido. E me disse Arundhati Roy: Nós não pertencemos a nenhum lugar. Navegamos sem âncora em mares turbulentos. Podemos nunca ter permissão para desembarcar. Nossas tristezas nunca serão tristes o suficiente. Nossas alegrias nunca são felizes o suficiente. Nossos sonhos nunca são grandes o suficiente. Nossas vidas nunca são importantes o suficiente... para importar. Sim, eu sei. Esta vida é uma passagem, só o amor faz imortal. Até mais ver.

 

A ARTE DE NHÔ CABOCLO

Não conheci ninguém, nasci só. Não gosto de coisa de loja. Gosto de trabalhar peça para museu: museu de matuto. Gosto de fazer peça de penas e guerras. É muita luta e o derradeiro a ficar vivo sou eu mesmo.

A arte do escultor, carpinteiro e sapateiro Nhô Caboclo (Manuel Fontoura 1910–1976), descendente indígena, representante da arte popular e explorador de matérias-primas como o barro, a madeira, o metal e as folhas de flandres, imprimindo em suas obras os sentidos de luta, guerra e escravidão. Veja mais aqui e aqui.

 



MÓNICA OJEDA, BORA CHUNG, AZA NJERI & DÉBORA LAÍS FERRAZ

  Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos concertos Nights from the Alhambra (2007), A Mediterranean Odyssey (2010), Troubadours On The Rhine...