sexta-feira, setembro 28, 2018

FLORBELA ESPANCA, ÉRICO VERÍSSIMO, CAPRA, ŽIŽEK, AL JARREAU & KARIN LAMBRECHT


NEGÓCIO FECHADO - Imagem: arte da pintora, desenhista, gravadora e escultora Karin Lambrecht. - Quem na terrinha boa de Alagoianhanduba não conheceu Dudé Costa, aquele que recebeu de batismo o nome de Dermmevaldito Constantinácio Costa, figura do rol dos comerciantes de abastança, de longas eras, gordo para mais de duzentos quilos, numa estatura prá lá de disforme? O dito cujo era tido por todos como pirangueiro, espirituoso, mulherengo e de um senso de humor mordaz, capaz de desequilibrar qualquer sujeitinho metido a besta e de nariz empinado, dissolvendo com sua astúcia peculiar qualquer pronúncia doctilóquia da empáfia pedante alheia, deixando o interlocutor mais rasteiro que sombra de cobra. Sim, este era o Dudé Costa, homem de muitas loas e embustes jocosos, não dispensando de seu astuto tirocínio, uma resposta afiada bem no cachaço da inquirição atrevida, desbancando idiota, imbecil, retardado ou quejando que seja. Brincasse com ele não, o inclemente boi lambido saía de pavio apagado, diziam e com veemência para não se ter dúvida alguma. Lembro-me de tantas contadas, narradas, assoletradas, inventadas, relatadas e mangadas por amigos, inimigos, simpatizantes e prejudicados do ar intrépido do bonachão que, ao longo dos anos, de serem repetidas às bocas e ouvidos nas mais impróprias ocasiões, viraram folclore do lugar, tornando figura tão impar no seio de uma sociedade em formação e com o seu maldizente jeitão de desmoralizar qualquer folgado do tipo diferencial de Rural ou que só boca de sino. Assim era. O distinto obeso era um daqueles típicos personagens da província, de extrema riqueza lendária, possuidor de uma paranóia de que estava sendo roubado e ao redor de toda mendacidade universal, atribuindo-lhes acontecidos nunca dantes possíveis no trâmite da sua vida tão recheada de lorianismos quanto de esperteza. Mais que isto, Dudé Costa virou fonte do anedotário local como referência de austeridade, pirangagem, vivacidade e sabedoria: Enrolão comigo é na base do tacão!, repetia ele na maior gozação. Apesar de comerciante era um homem de bem, incapaz de ofender um pinto, principalmente se fosse dele. Mantinha ele um enorme armazém na praça principal da cidade, que era, ao mesmo tempo, um depósito entupido de produtos e mantimentos de toda espécie, armazenados do piso ao teto, de frente aos fundos, vendendo de tudo que se imaginasse existir. Se se quisesse alguma coisa, fosse lá que tinha o peso e o preço exato. Precisava-se disso, ele tinha; necessitava-se daquilo, prontinho na hora. O que mais? Isso, aquilo, daqueloutro, agora mesmo! Daquele ali, naqueloutro, mais desse, nesse, esse, tudo arrumado, embrulhado, empacotado, embalado, ajeitado em conformidade com o pedido referenciado. Fosse o que fosse, na hora! Pronto, exato. Medido e contado: pague-se. Ninguém sabia o verdadeiro nome da loja, diziam apenas do Armazém do Dudé. Sabiam apenas que aquele estabelecimento se estendia por quatro portas estreitas de frente, em cor desbotada entre paredes esburacadas que iam dar numa marquise que segurava uma placa com algumas palavras já indecifráveis no tempo. Eram quarenta metros de frente por uns duzentos de fundos, tudo dividido apenas por um balcão comprido, de um lado a outro, no interior do pavimento, para recepcionar os fregueses assíduos, requerentes das coisas mais inusitadas. E o resto? Tudo amontoado no interior do vão, numa desordem indescritível, não obstante encontrado à primeira procura, visto já saber onde se encontravam todas as encomendas requeridas. Verdade! Adivinhava mesmo o fi'o da peste. Decifrou-se depois de muito malabarismo intelectual que a inscrição grotesca da placa na sacada da loja, misturada a mofo, poeira e tinta velha, seria o nome jurídico da empresa em questão: Dermmevaldito Constantinácio Costa & Filhos & Cia. Ltda., nome este escolhido por ele próprio, com o objetivo de se inscrever no Cadastro Geral do Contribuinte do Ministério da Fazenda. Era a razão social esta escolhida depois de insistentes visitas de fiscais fazendários e, muitas e muitas noites de sono, dedicadas pelo contador Tabosa, encarregado da escrita daquele empreendimento comercial. Inclusive, quando se definiu tudo, Tabosa tirou três meses numas férias das boas, vez que se encontrava estressado com tanto puxa-e-encolhe do bonachão. Na placa ainda se via, apesar da dificuldade legítima imposta pelo desgaste, a figura de um jacaré, responsável pelo patrocínio do negócio e, ao mesmo tempo, representando o maior símbolo de prosperidade turística do município. É que na praça central, a prefeitura fez construir um tanque de proporções agigantadas para abiscoitar os munícipes, onde se mantinha a criação de um aligatorídeos. Era um jacaré-de-óculos, afeição maior das crianças e da população em geral, que possuía uma aresta transcendental, unindo, pela parte dianteira, as duas margens salientes das órbitas oculares, parecendo-se o aspecto de estar usando um piscinez. Apresentava o réptil fluvial uma cor escura no dorso meia que esverdeada com manchas amareladas e, apesar de manso, o crocolídeo, vez por outra, aprontava das suas, a exemplo do fato de jantar o braço de João Noé, o pé do filho de Abinadab dos bichos, o dedo de Natálicia Dulcemena, a caçola de Cremildita-fudedora, a vergonha de Terêncio, o escapulário da beata Prazeres do Céu, um disco de Taiguara do Jabão Campos, o velocípede de Nininhozinho, filho do tabelião do cartório único de notas, Osvaldinito, entre outros transtornos de somenos importância. O emidossário era o centro das atenções e todos os dias o povinho corria vexado, arrudiando o tanque o dia e a noite inteiros. Peiticavam o tempo todo em busca de um bote certeiro no atrevimento dos curiosos. E olhe que de vez em quando, o bicho abocanhava tudo e, algumas vezes, vomitava o indigesto longe. O nó cego todo é que ele gostava mesmo era de mastigar dureza, deixando um buliçoso aos prantos para felicidade geral da populaça. O espetáculo só era completo, quando ele atiçado tascava o revestrés respondendo com um fatídico susto de torar aço em destemidos que incomodavam. Tal movimentação na praça fazia com que o armazém do Dudé também prosperasse, já que alguns desavisados perdiam ou tinham por perdido alguma coisa e precisavam recorrer a ele objetivando fazer retornar o perdido, adquirindo algo similar. O próprio comerciante mantinha o réptil onicarnívoro de tudo com uma boa alimentação regada a carne de mamíferos, aves e insetos. Essa atitude do avarento era o símbolo da sua gratidão para com o animal, principalmente pelo lucro constante nos negócios. Um dia, o jacaré sumiu. Remexeram tudo, os cafundós de Judas, as entranhas das grutas, os deltas do rio, as botijas perdidas, os bolsos dos ricos, os arquivos da justiça, as curvas dos ventos, os limites dos mares, os pólos norte e sul, e nada. Ninguém sabia, ninguém viu; apenas arribou. Desaparecera. Mesmo assim, curiosamente, Dudé vendia de tudo; de agulha do que se pensasse à bomba do que se imaginasse. Tudo ali. Era só chegar, pedir ao proprietário que vivia sentado em frente a uma máquina registradora que repousava sobre um birôzinho pequeno do tamanho dela e de onde jamais se afastava, logo atendido exatamente nos conformes da solicitação. Uma coisa curiosa: nada de fiado, era imperiosa a necessidade de pagamento certo e líquido, a vista em papel ou moeda corrente no país, no exato momento da recepção do pedido. Cheque, nem vê, - num é dinheiro, dizia. Fiado! Ninguém nunca usara dessa modalidade de prestação, parcela, valsa, crediário ou consignações ao mão-de-figa. Esta atitude rendeu-lhe a chacota de judeu, de turco, de Tio Patinhas e de outras nominações que representassem o repúdio à sua sovinice, além de insinuações de que o desaparecimento do jacaré devia-se ao fato dele criar o sequestrado a modos pessoais, embaixo da sua cama. Rumor ainda hoje suspeitável. Porém, certa feita recebera Dudé o requerimento de um conterrâneo de infância, o Rudinaldo Veloso, por cartuchos de espingarda, um punhado de pólvora, uma faca peixeira de doze polegadas e vinte balas de revólver calibre trinta e oito, visto que o mesmo tencionava caçar por mata virgem, cabendo precaução, ao que foi atendido com exatidão, na ponta do lápis conferido, tirado a prova dos nove, e tudo certo. Ambos eram figuras de uma infância passada e de uma intimidade que não se reduzia aos limites da convivência. Durante o atendimento zombaram um do outro, trocaram insultos visando menosprezar as virtudes imodestas de cada um, pabulagens fúteis de dois aprontadores das maiores arteirices juvenis, quando, tantantantan, somado número por número em algarismos graúdos duma caligrafia esmerada num papel grosso de enrolar carne de boi, checado com o material já embrulhado, o proprietário, após o somatório competente, exibiu a conta e cobrou do requerente, a quantia exata de trinta e seis cruzeiros e cinquenta e quatro centavos. O visitante se fazendo por dissimulado requereu descontos o que levou negativa peremptória na lata. Com a posição determinada, teve então de sacar dos bolsos, isso depois de muita lengalenga, trinta e cinco cruzeiros que os fez jogar no balcão recolhendo o embrulho de suas compras, quando recebeu a recusa do gordão, dando início a mais inflamada das discussões. Faltava, portanto, para concluir a transação, o correspondente a um cruzeiro e cinquenta e quatro centavos, o que permitia a apreensão da mercadoria requisitada. Rudinaldo que era amigo de muitos anos do lojista, exigiu os descontos convenientes recebendo mais uma negativa veemente nas fuças: Se quer descontos, vá comprar na puta que o pariu!  Estranhou, de propósito, a avareza dele. Desde crianças, segundo relatos deles mesmos por mim presenciado, que investiram muita dedada no cheira-peido deles mesmos, muito cavalo-mago trocado, muita bronha coletiva pelos mesmos fundilhos da piniqueira alheia, avistado muitas bundas-ricas de beatas, das donas dos casarões, além de esbofeteado um bocado de puta na coréia, armadores que eram das maiores estripulias e agora, estavam ali, trocando ofensas. Conversa vai, conversa vem, Dudé cobrando o devido senão a mercadoria não arredaria dali um só centímetro. E a nossa amizade por quantia tão irrisória? Irrisória é a cabeça da minha rudia! Rudinaldo com o intuito de enrolar voltou a contar histórias da época de maloqueiros quando estupraram uma mocinha no escurinho atrás da prefeitura e ambos caíram às gargalhadas. Foram assacadas piadas, situações jocosas, soltas e faltava um cruzeiro e cinquenta e quatro centavos. O devedor abufelou-se e jogou, com raiva, no balcão, a cédula de um cruzeiro e já ía tomando o pacote, quando foi interpelado para depositar, às vistas do mão-fechada, as moedas equivalentes aos centavos devidos, senão sustaria a entrega da mercadoria: Sem isso, o embrulho não sai nem com ordem judicial! Parecia uma quebra-de-braços das ineivadas, os dois segurando o invólucro, um puxava do lado, o outro arrastava para dentro e, nesse vai-e-vem, o comprador exaltou-se, meteu dois dedos na algibeira, expondo as moedas relativas àquela quizília, contados e conferidos ali mesmo, alegando, aos esporros, que situação era aquela em que não poderia mais se dar ao luxo de uma amizade sadia onde alguns centavos determinavam a irredutibilidade numa transação o que, o gorducho, sentenciou que dali só sairia alguma coisa dele com pagamento certo e fim de papo: Vá cortar cu-de-cobra, Zé Bostinha! -, arremedou Dudé. Brigas como esta eram constantes e registradas nos anais da gaiatice popular. Pois assim era Dudé, extravagante no peso, exagerado em tudo e quando se falava de dinheiro perto dele, necas, nada de gastar! Até os filhos eram tratados na lei do cão. Para se ter idéia, com os empregados, somente meninos de dez anos de idade, ou até isso. Segundo ele, depois dos dez anos, os maloqueirinhos ficam sabidos e, menino sabido, é um perigo para qualquer negócio. Dos onze filhos apenas um gozava da simpatia dele. Dos outros, tudo para a puta-que-os-pariu, no relho, cabresto justo. Mas não dava folga para nenhum, tudo regrado na avareza. Sizenandilson, não, este era o único que Dudé botava pra ele simplesmente simpatia e nada de dinheiro. Isso porque Sizenandilson era obediente, fazia tudo o que o pai queria, pau-mandado mesmo. Numa certa tarde de sexta-feira, em meados de outubro, um representante comercial de certa multinacional, aportara no balcão do estabelecimento, objetivando uma entrevista com o possuidor daquela loja, Levado pela apresentação de produtos da mais nova extensão tecnológica, lançados, recentemente, no mercado, o visitante queria fechar negócios promissores para atender sua meta. Dudé que se encontrava tomando sua bicadinha de cachaça de cabeça, raiz de pau das boas, trazida do longínquo engenho Tumberado, aperitivo do bom, segundo o gosto dele, pois é só derramar a bicha no chão, bastando um risco de fósforo, para a danada pegar fogo, álcool puro. Inflamável. Isso era toda sexta-feira, bicadinha na mão, lorotas e peidos ao vento e muita pacutia. Chegasse quem chegasse depois do meio dia, Dudé só se interessava em atender a freguesia e mais ninguém. Nem Jesus Cristo descendo da cruz era atendido se quisesse conversar pela sua salvação. No meio de um gole, fora cientificado pelo filho da presença do profissional de vendas nas dependências do seu compartimento o que, de pronto, na ponta da língua, emitiu a resposta de que ele não queria ser incomodado, nem ver porra nenhuma de vendedor lhe amolando o saco para comprar merda nenhuma. O jovem teve de explicar ao genitor que, por educação, deveria recepcionar o visitador porque ele poderia apresentar algum objeto do interesse dele para venda no depósito, o que ele insistiu em não receber porque aquela não era hora nem dia de se comprar nada: Sexta-feira é dia da bicada e do raparigal, mais nada, porra! E o rapaz voltou a dizer pacientemente que não ficaria bem o distinto voltar sem ser recebido justo porque se tratava de uma negociação que poderia ser lucrativa com os possíveis dividendos em curto prazo e dinheiro não se despreza, nem um bom negócio: Ih! Nisso aí, tem cu no meio! - reclamou rejeitando a insistência. De colhão inchado, Dudé estalou, falasse em dinheiro seus olhos brilhavam. E já dava para notar os cifrões mexendo com a sua sensibilidade. Sizenandilson futucava o coração dele, sabia arrancar-lhe a compreensão. E já irado por ter de ceder aos argumentos do filho, vociferou que não tinha saco para tratar nada com ninguém naquela hora e que fosse ele, o representante para a casa do cacete voador, que não queria nada e parasse de atanazá-lo e se quisesse comprar que comprasse, e tomasse no cu do jeito que quisesse e vá prá porra! Depois de muita amolação e enchessão de saco, Dudé, enfim, mais a contragosto que compreensivo, concordou em levar um dedinho de prosa com o esconjurado intrometido que aparecia numa hora daquela para inflar seus colhões. Já no interior do armazém, o indistinto apresentou-se perfilado militarmente, com uma cotinência exagerada e abrindo o verbo, isso ao mesmo tempo em que expunha um catálogo por cima da máquina registradora, ficando em pé mesmo porque ali não existia cadeira ou acento para que os empregados não ficassem ociosos, e explicando o funcionamento e particularidades, vantagens e proveitos de cada máquina, motor, bomba, extrator, soldador, cantoneira, betoneira, diafragma, compressor, vergalhão, bigorna, propulsor e exaustor. Dudé sequer olhou para os catálogos, só com desdém no semblante do condenado. E eram catálogos, folders, prospectos, releases, instruções, lay out, bula, atlas, cartografias, plantas, revistas, gibis, alternativos, informativos, tomos, atas, opúsculos, livretos, traslados, certidões, termos, formulários, minutas, nada. Dudé nem-seu-silva-de-dar-bola. E tome pedras preciosas, cristalografias, cosméticos, perfumarias, boticários, esoterismos, bagulhos, bugigangas, dedais, agulhas, alfinetes, refrigeradores, condicionadores de ar, fogões, panelas, pitisqueiras, utensílios, abajús, lampiões, candeeiros, nada. E Dudé nem aí para quem pintou porca. Mas, instigado pela ironia, largou escárnio certeiro: Esse cabra parece mais o gênio de Aladim, vai ter coisa assim no raio que o parta! A certa altura da exposição incansável dele, Dudé interrompeu as amostras, sugerindo, ao intrometido, ingerir alguma bebida alcóolica, o que com a expressão de espanto, um riso largo no rosto, respondeu espalhafatosamente de forma afirmativa. Enquanto vasculhava os copos e a bebida, ele ainda asseverou na munganga: Eu queria era ver você trazer isso tudinho que me mostrou nas suas costas ôcas, desgraçado. Queria ver esse carregamento na cacunda de um corno! Héhéhé, que é isso seu Dudé? Todo castigo para corno é pouco! Dois copinhos miúdos na frente, encardidos, duas lapadinhas para se animar a conversa, ou seja, o monólogo e veio o ritual; ofereceu uma pro santo, benzeu-se e ingeriram juntos o queimor absoluto da aguardente. Tá cá gôta, essa arrepia até o retrato!, bafejou o estranho. Caretas, doses, o palavrório teve reinicio com explicações detalhadas sobre o funcionamento de bombas hidráulicas e da margem de lucro oferecida pelo produto, da rentabilidade prosperando no comércio, da exclusividade de exposição com uma expositora bem boazuda de shortinho persuadindo o infeliz do cliente a comprá-la já, uma promotora de merchandising escolhida a dedo por ele proprietário, quando o tinhoso arregalou os olhos e pensou: Mulher? Ah! Mulher, mulher sim, teve boceta no meio eu gosto! -, e conversa vai, conversa vem, já se falava de fossas, lajes, ripas, caibros, tijolos, telhas, cimento, areia, o homem se ingicando com tanta coisa do insistente, nada: Ô, seu home-da-cobra, quando é que vai voltá o conversê de boceta de novo, hem? Vamo, fale do que é bom, seu cabra! O sujeito ficou desconcertado com essa enquanto Dudé amolegava a pêia imaginando uma gostosa no seu colo: Tô já cumendo o cu desse veado besta! Cu de bêbo num tem dono, aviso logo! Duas novas lapadinhas e talagadas certeiras goela adentro, seguidas de novas explicações, fuxicos, miolo de pote, disparates, mentiras, arrazoados, imposturas, petas, potocas, fraudes, nada: Num tem foto de mulher nua nisso não? O inarredável vendedor sacou lá do fundo do baú um calendariozinho com aquelas maravilhosas pin-ups, do nego velho ficar zarolho com uma mulher arreganhada na foto. O inchado agarrou-se ao presente, deu uns beijos demorados nos arreganhos da fotografada, fazendo juras de amor. Quase que o visitante perde a cabeça com aquela baboseira. Mais duas talagadas, respirou fundo e tome explicações e mais tubos de PVC, satélites, sivam, corrupções, inox, chaleiras, alumínio, corda, ferro, tralhas, grampos, jamps, miséria, impeachment, juros, correções, siderurgia, leilões, metalurgia, privatizações, CPIs, ônibus, mixórdia, interesses, manchetes, dentifrícios, shoppings, pão, circo, eletrodomésticos, inflação, eletroeletrônicos, sonegações, sequestro, violência, baixaria, hipocrisia, revelações, notícias, calúnias, colmeias, latifúndios, desterrados, expatriados, cidadania, fome, solidariedade, utopias, liminares, injustiças, sentenças, reparações, desaparecidos, indenizações, cobranças, delinquências, inadimplências, crimes, impunidades, sequelas, aids, vitrines, vibriões, cauções, esbravejamentos, liquidações, intervenções, greves, mobilizações, gols, torturas, cacetes, modernidade, progresso, democracia e caralho a quatro, nada. Dudé só embromando, virando os olhos com as boazudas das folhas. Suor caindo no rosto, pescoço enxaguado, gravata afrouxada, cansaço nas pernas, duas lapadas, meio mundo de portfólios explicativos, nada. Dudé arremedando a leseira dele, cafungando com as páginas de suas gostosas, insinuando punhetar-se. Quando então aparece um cliente, o pesadão se levanta, derruba tudo e deixando o outro a falar sozinho. Tudo no chão, espalhado, agonia para arrumar tudo. Freguês atendido, mais duas doses da tirana, novas colocações persuadindo o velho, nenhuma resposta, nenhum sinal de interesse, todas as máquinas, assinaturas, pedidos, bíblias, santinhos, tipografias, cordões, relógios, securitários, consórcios, capitalizações, carnês, artesanatos, planos, orçamentos, previsões, planilhas, posições, relatórios, borderôs, listagens, projetos, procurações, autorizações, contratos, formulários, nada. Dudé sapecando enrolação. Já cansado e tentando empolgar o impassível comerciante, o ousado recebeu mais duas bicadinhas, ocasião que solicitou, delicadamente, da existência de qualquer tiragostinho para melhor digerir a quente, o que, riso cheio, vencedor e feliz, Dudé, ritualísticamente, pôs uma das mãos num dos seus bolsos longos joelho abaixo, remexeu, saculejou, trazendo, da empreitada, dois confeitinhos de mel de abelha no meio de um riso reprovador para satisfazer o desejo do corajoso: Taí, seu merda! O cara teve um troço, foi levado às pressas para uma emergência e nunca mais deu as caras por ali. Num disse! Demorasse mais, eu envergava o gogó desse fresco! Ora se. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do saudoso cantor estadunidense Al Jarreau (1940-2017): Live in Italy, Newport Jazz Festival, Live at Montreux Jazz Festival & Leverkusener Jazztage & muito mais nos mais de 2 milhões & 700 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS – [...] até mesmo a defesa neoconservadora de valores tradicionais aparece sob nova luz: como uma reação contrária ao desaparecimento de uma normatividade legal e ética, gradualmente substituída por regulações pragmáticas que coordenam os interesses particulares de grupos diferentes. Esta tese pode parecer paradoxal: não vivemos nós na era dos direitos humanos universais. [...] não vivemos nós na era dos direitos humanos universais, que se afirmam até mesmo contra a soberania estatal? O bombardeio da Iugoslávia pela OTAN não foi o primeiro caso de intervenção militar realizada em decorrência de pura preocupação normativa (ou, pelo menos, apresentando-se como assim realizada), sem referência a qualquer interesse político-econômico “patológico”. Essa nova normatividade emergente para os ‘direitos humanos’ é, entretanto, a forma em que aparece seu exato oposto. [...]. Trechos extraídos de Direitos humanos e ética perversa (Folha de S. Paulo, 1º/jul./2001), do filósofo, professor, teórico crítico e cientista social esloveno Slavoj Žižek. Veja mais aqui.

PERTENCENDO AO UNIVERSO - [...] No velho paradigma, acreditava-se que em qualquer sistema complexo a dinâmica do todo poderia ser compreendida a partir das propriedades das partes. No novo paradigma, a relação entre as partes e o todo é invertida. As propriedades das partes só podem ser entendidas a partir da dinâmica do todo. Em última análise, não há partes, em absoluto. Aquilo que chamamos de parte é meramente um padrão numa teia inseparável de relações. [...] No velho paradigma, acreditava-se que a soma total dos dogmas (todos, basicamente, de igual importância) acrescentava-se à verdade revelada. No novo paradigma, a relação entre as partes e o todo é invertida. O significado de cada dogma só pode ser entendido a partir da dinâmica das revelações como um todo. Em última análise, a revelação como processo constitui-se num bloco único. Os dogmas focalizam momentos particulares da auto manifestação de Deus na natureza, na história e na experiência humana. [...] No velho paradigma, pensava-se que havia estruturas fundamentais, e também que havia forças, e mecanismos por cujo intermédio estas interagiam, dando, dessa forma, nascimento ao processo. No novo paradigma, cada estrutura é vista como a manifestação de um processo subjacente. Toda a teia de relações é intrinsecamente dinâmica. No velho paradigma, pensava-se que havia um conjunto estático de verdades sobrenaturais que Deus pretendia nos revelar, mas o processo histórico pelo qual Deus as revelou foi visto como contingente e, portanto, de pouca importância. No novo paradigma, o processo dinâmico da história da salvação é, ele próprio, a grande verdade da auto manifestação de Deus. A revelação, como tal, é intrinsecamente dinâmica. No velho paradigma científico, acreditava-se que as descrições eram objetivas, isto é, independentes do observador humano e do processo de conhecimento. No novo paradigma, acredita-se que a epistemologia - a compreensão do processo de conhecimento - deve ser incluída explicitamente na descrição dos fenômenos naturais. A esta altura, não há consenso a respeito do que seria uma epistemologia adequada, mas há um consenso emergente de que a epistemologia terá de ser parte integrante de cada teoria científica. No velho paradigma teológico, presumia-se que os enunciados eram objetivos, isto é, independentes da pessoa que crê e do processo de conhecimento. No novo paradigma, sustenta-se que a reflexão sobre modos não-conceituais de conhecimento - intuitivos, afetivos, místicos - deve ser incluída explicitamente no discurso teológico. A esta altura, não há consenso quanto à proporção em que os modos de conhecimento conceituais e não-conceituais contribuem para o discurso teológico, mas há um consenso emergente de que modos de conhecimento não-conceituais constituem parte integrante essencial da teologia. A metáfora do conhecimento como construção - leis fundamentais, princípios fundamentais, blocos de construção fundamentais, etc. - tem sido usada na ciência e na filosofia ocidentais por milênios. Durante as mudanças de paradigma, sentiu-se que os alicerces do conhecimento estavam se desagregando. No novo paradigma, essa metáfora está sendo substituída pela metáfora da rede. Na medida em que percebemos a realidade como uma rede de relações, nossas descrições formam, igualmente, uma rede interconexa representando os fenômenos observados. Nessa rede, não haverá hierarquias nem alicerces. A mudança de construção para rede também implica o abandono da idéia de que a física é o ideal por cujo intermédio todas as outras ciências são modeladas e julgadas, e a principal fonte de metáforas para descrições científicas. A metáfora do conhecimento como construção - leis fundamentais, princípios fundamentais, blocos de construção fundamentais, etc. - tem sido usada em teologia por muitos séculos. Durante as mudanças de paradigma, sentiu-se que os alicerces da doutrina estavam si desagregando. No novo paradigma, essa metáfora está sendo substituída pela metáfora da rede. Na medida em que percebemos a realidade como uma rede de relações, nossos enunciados teológicos formam, igualmente, uma rede interconexa de diferentes perspectivas sobre a realidade transcendente. Nessa rede, cada perspectiva poderá produzir introspecções válidas e únicas no âmbito da verdade. A mudança de construção para rede também implica o abandono da idéia de um sistema monolítico de teologia como sendo aquilo que constitui a ligação para todos os que crêem e como fonte única para a doutrina autêntica. [...] No novo paradigma, se reconhece que todos os conceitos, todas as teorias e todas as descobertas são limitadas e aproximadas. A ciência nunca poderá fornecer uma compreensão completa e definitiva da realidade. Os cientistas não lidam com a verdade (no sentido de correspondência exata entre a descrição e os fenômenos descritos); eles lidam com descrições limitadas e aproximadas da realidade. [...]. Trechos extraídos da obra Pertencendo ao universo: explorações nas fronteiras da ciência e da espiritualidade (Cultrix, 1991), do físico e escritor Fritjof Capra. Veja mais aqui.

A NOITE – [...] Ele observava a mulher com um misto de admiração e inveja, enquanto ela, com um copo na mão, andava dum lado para outro, de grupo em grupo, soltando risadas, como se a dona da casa a tivesse encarregado de animar a festa. Com que facilidade fazia amigos, com que envolvente encanto tratava a todos! Era indiscutivelmente a pessoa mais popular do grupo. Ele, entretanto, não podia deixar de sentir um mal-estar quando a via cercada de homens. Sim, porque a consciência de suas falhas como marido o havia levado implacavelmente à conclusão, à certeza de que mais tarde ou mais cedo ela acabaria tendo um amante. Era evidente que os homens a admiravam e desejavam. Até mesmo os amigos mais íntimos do casal a cortejavam. Era natural que a considerassem presa fácil, pois decerto interpretabam mal sua fraqueza, sua alegria, sua familiaridade... Não poderia ela ser menos expansiva? Não tinha idade suficiente para saber que as pessoas são perversas, maliciam tudo? E que mania irritante, aquela de tocar sempre o interlocutor! Lá estava ela a dar palmadinhas na mão dum homem... [...] A música parou. Ela correu para o garçom que passava com uma bandeja, apanhou um copo e bebeu um gole largo. Três homens a cercaram. A orquestra rompeu uma rumba. Todos pareciam querer dançar com ela. disputavam-na. Um segurou-lhe o braço, outro enlaçou-lhe a cintura, o terceiro pôs-se a dançar na frente dela, rebolando despudoradamente as ancas. (Do fundo do casarão três velhas secas viam tudo e comentavam: “Bem como uma cadelinha cercada de cachorros”). [...]. Trechos extraídos da obra A noite (Globo, 1995), do escritor Érico Veríssimo (1905-1975). Veja mais aqui.

DOIS POEMASEU - Eu sou a que no mundo anda perdida, / Eu sou a que na vida não tem norte, / Sou a irmã do Sonho, e desta sorte / Sou a crucificada ... a dolorida ... / Sombra de névoa ténue e esvaecida, / E que o destino amargo, triste e forte, / Impele brutalmente para a morte! / Alma de luto sempre incompreendida! ... / Sou aquela que passa e ninguém vê ... / Sou a que chamam triste sem o ser ... / Sou a que chora sem saber porquê ... / Sou talvez a visão que Alguém sonhou, / Alguém que veio ao mundo pra me ver / E que nunca na vida me encontrou! DESEJO - Quero-te ao pé de mim na hora de morrer. / Quero, ao partir, levar-te, todo suavidade, / Ó doce olhar de sonho, ó vida dum viver / Amortalhado sempre à luz duma saudade! / Quero-te junto a mim quando o meu rosto branco / Se ungir da palidez sinistra do não ser, / E quero ainda, amor, no meu supremo arranco / Sentir junto ao meu seio teu coração bater! / Que seja a tua mão tão branda como a neve / Que feche o meu olhar numa carícia leve / Em doce perpassar de pétala de lis.../ Que seja a tua boca rubra como o sangue / Que feche a minha boca, a minha boca exangue!... / Ah, venha a morte já que eu morrerei feliz!... Poemas da poeta portuguesa Florbela Espanca (1894-1930). Veja mais aqui.

A ARTE DE KARIN LAMBRECHT
A arte da pintora, desenhista, gravadora e escultora Karin Lambrecht.

AGENDA
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Quem anda de noite que vê muita coisa, também cala a boca, Robert Louis Stevenson, Celso Furtado, J. Borges, Oswaldo Goeldi, Bóris Trindade, Amaro Matias Silva, Meio Ambiente & Educação, Beto Guedes, Miriam Ramos, Álvaro Henrique & Cris Braun aqui.
&
Lingua falou, cu pagou!, Thiago de Mello, Hans Bellmer, Sérgio Augusto, Mario Sette, Ronildo Maia Leite, Sidney Wanderley, Ivan Lins, Viviane Hagner, Nando Lauria & Julya Cristal aqui.
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A segunda do Padre Cícero, Ralf Waldo Emerson, Monteiro Lobato, Sérgio Valle Duarte, Paulo Caldas, Generino Batista, Paulo Santos & Genésio Cavalcanti, Elomar Figueira de Mello, Tomoko Mukaiyama, Ricardo Silveira & Ná Ozzetti aqui.


quinta-feira, setembro 27, 2018

HILDA DOOLITTLE, LAFCADIO HEARN, SILVIANE BELLATO, IBERÊ, WALTER BENJAMIN, DANIELLE CARCAV & ANCLOTINATO


POR ONDE ANDA ANCLOTINATO? – Imagem: arte da artista visual Danielle Carcav. – Daquele dia em diante nada dava certo para Anclotinato, o que fizesse só dava errado. Como é que pode? A chaleira esquentando no fogão, foi pegar o bule e o pipoco deixou-lo todo cheio de queimadura: Rapaz, a coisa estava quente mesmo! Ao fechar a porta do que fosse, esquecia o dedo machucado: careta medonha abanando a mão dolorida. Calçava o sapato sem se lembrar do calo no calcanhar: Vôte, parece mais que o calçado enconlheu, ora! Fechando o zíper da calça, prendia a piroca por ais e uis: Agora, casar já era! Fazendo a barba, cortava-se todo, haja talhos e esparadrapos na fisionomia, todo remendado: Será a múmia dum faraó fuleiro? Se ía sair de casa em dia ensolarado, logo trovejava de cair temporal: pegava o guarda-chuva, agasalhava-se todo, dava uns dois ou três passos, o Sol abria o quenturão. Se estava disposto a resolver problemas pendentes, tudo se enganchava: Foi mesmo? Findava com cara de anteontem sem entender direito o que havia acontecido. Perseverante, inventou de arrumar uma namorada, todo embecado de ficar nos trinques. Ao se aproximar dela: Que perfume catingoso esse seu, hem? Caríssimo, mandei buscar nos estrangeiros. Pois pra mim, fede da pior inhaca! Vixe! Outra reclamou do seu bafo: Mas eu escovo os dentes seis vezes ao dia! Deve ser com bosta, só sendo. Danou-se. Uma terceira o achou muito feio, aí não teve jeito: jurou que morreria solteiro. Para ele tudo passa e indo para uma festa, se o traje era a rigor, chegava a passeio, ou vice-versa: Você não leu o convite? Que convite? Ah, penetra, pra boca de ponche aqui só tem barrada na cara, viu? Saía se rindo: Ué, vai que cola! Na fila de um banco, chegasse a sua vez, tudo saía do ar, só no outro dia: Como é que pode, três horas na fila? Guichê encerrado – os outros também, fazer o quê? Ao pagar em dia, o código de barras estava errado: Como assim? Não passou na máquina, resultado: só pagava atrasado. Eita, tiborna! Dia de pagamento, saía remuneração de todo mundo, menos a dele: E é? É. Ao pegar condução, estava entupido de ficar esperando a próxima: Tem nada não, ainda volto pra casa um dia. No metrô, ficava pra trás. Cansado da embromação do transporte público, resolveu comprar um automóvel para não perder o ponto: se não ficasse empancado num engarrafamento o dia inteiro, restava retido numa blitz policial: só pra resolver os documentos e pagar as multas, três dias. Emprego que era bom, não tinha mais, nem que quisesse. Resolveu pela informalidade, profissional autônomo e trocou o carro por uma motocicleta: se não levasse trancas de findar desmantelado num hospital, aparecia o dono do alheio que a levava de deixá-lo a pé: Num é que levaram mesmo? Pois é. Optou por uma bicicleta: quando não era a corrente enganchando entre a catraca e a coroa, dele se esborrachar relando a venta no chão, era a ausência de faixa de ciclista dele ficar feito num mata-burro. Dá não. Fazer meu próprio negócio em casa mesmo. Anúncios e faixas, ninguém aparecia: Vai ver que estou sendo engalobado de novo. Jogava na loteria, acertava os números do concurso anterior: Hem, hem, devia de ter jogado na semana passada, num era? Pronto para vencer no bingo, passava batido: Ah, foi? Se vestia uma roupa limpa e ia caminhar, findava melado de lama – não se livrava nunca dos pneus nas poças. Na hora do voto, errava o número do candidato escolhido: Esqueci o número do fidapeste! No café da manhã, a comida já vinha queimada; no almoço, tudo passado; jantava qualquer coisa para enganar o bucho: Do jeito que vai, findo morrendo de fome. Pra visitar a família ia a pé, porque ou o ônibus ou o trem atrasavam de deixá-lo secando os cambitos o dia todo: Será o Benedito? Taxado de pé frio, não tinha amigos, parentes nem aderentes, todos diziam: O cara é um azarão. Vai que a sorte dele vira pro lado da gente, maior urucubaca, meu! E ele só rindo. Sozinho para onde fosse, resolveu não fazer nada na vida: se faço, dá tudo errado; não vou fazer nada para ver o que acontece. E aconteceu: da primeira vez, um raio acertou-lhe o cocoruto, quase lhe tosta a alma numa enfermaria por quase seis meses; da segunda, não teve jeito, findou torrado de nunca mais ninguém se lembrar dele. Coitado, ainda dizem que raio não cai duas vezes no mesmo lugar, ora, ora. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da diva da ópera brasileira, a soprano lírico spinto Silviane Bellato: Lo Schiavo de Carlos Gomes, Nel di dela vittoria – Machbeth, Pace Pace Mio Dio – La Forza del Destino & Tosca de Puccini & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja a entrevista dela aqui & mais dela aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS – [...] Nós somos como tartarugas, carregamos a casa. Essa casa são as lembranças. Nós não poderíamos testemunhar o hoje se não tivéssemos por dentro o ontem porque seríamos uns tolos a olhar as coisas como recém-nascidos, como sacos vazios. Nós só podemos ver as coisas com clareza e nitidez porque temos um passado. E o passado se coloca para ajudar a ver e compreender o momento que estamos vivendo. [...]. Extraído da obra Gaveta de guardados (Edusp, 1998), do pintor Iberê Camargo (1914-1994). Veja mais aqui e aqui.

PASSAGENS - [...] o alegorista pega uma peça aqui e ali do depósito desordenado que seu saber põe à sua disposição, coloca-a ao lado de uma e outra e tenta ver se ambas combinam: aquele significado para essa imagem ou esta imagem para aquele significado. O resultado nunca pode ser previsto, pois não existe uma mediação natural entre os dois. Dá-se o mesmo com a mercadoria e o preço. [...] Nunca se poderá saber ao certo por que tal mercadoria tem tal preço, nem no curso de sua fabricação, nem mais tarde quando ela se encontra no mercado. Ocorre exatamente o mesmo com o objeto em sua existência alegórica. Nenhuma fada determinou em seu nascimento qual significado que lhe atribuirá a meditação absorta do alegorista. Porém, uma vez adquirido tal significado, este pode ser substituído por outro a qualquer momento. [...] De fato, o significado da mercadoria é seu preço; como mercadoria, ela não possui outro significado. Por isso o alegorista está em seu elemento com a mercadoria  [...] Tornar cultiváveis regiões onde até agora viceja apenas a loucura. Avançar com o machado afiado da razão, sem olhar nem para a direita nem para a esquerda, para não sucumbir ao horror que acena das profundezas da selva. Todo solo deve alguma vez ter sido revolvido pela razão, carpido do desvario e do mito. É o que deve ser realizado aqui [...] nada a dizer. Somente a mostrar. Não surrupiarei coisas valiosas, nem me apropriarei de formulações espirituosas. Porém, os farrapos, os resíduos: não quero inventariá-los, e sim fazer-lhes justiça da única maneira possível: utilizando-os [...]. Trechos extraídos da obra Passagens (UFMG/IOESP, 2009), do filósofo, ensaísta e critico literário alemão Walter Benjamin (1892-1940). Veja mais aqui e aqui.

UMA PROMESSA QUEBRADA – [...] — Eu não tenho medo de morrer – disse a esposa agonizante —; só há uma coisa que me inquieta neste momento. Gostaria de poder conhecer quem tomará meu lugar nesta casa. — Minha querida — respondeu o marido desolado —, ninguém jamais tomará seu lugar em minha casa. Nunca mais me casarei. No instante em que disse isso, ele falava do fundo de seu coração, pois amava a mulher que estava prestes a perder. — Palavra de samurai? — indagou a esposa, com um débil sorriso nos lábios. — Palavra de samurai — respondeu ele, acariciando seu rosto pálido e magro. — Então, meu querido — disse ela —, você deixará que eu seja enterrada no jardim, próxima daquelas ameixeiras que plantamos lá no fundo? Faz muito tempo que eu queria pedir isso, mas achei que, caso você se casasse novamente, não ia querer meu túmulo tão perto. Agora, você prometeu que nenhuma outra mulher tomará meu lugar, e não preciso mais hesitar em pedi- lo… Eu quero tanto ser enterrada no jardim! Acho que, no jardim, poderei ouvir sua voz de vez em quando e serei capaz de ver as flores na primavera. — Sua vontade será feita — anuiu o esposo. — Mas não fale de enterro: você não está tão doente a ponto de termos perdido toda a esperança. — Eu perdi — retrucou ela —, vou morrer hoje de manhã… Mas você me enterrará no jardim? — Enterrarei — disse ele —, sob a sombra das ameixeiras que plantamos; e você terá um belo túmulo. — E você me dará um pequeno sino? — Um sino? — Sim… Quero que ponha um sino dentro do caixão, um daqueles pequenos sinos que os peregrinos budistas carregam. Posso ter um igual? — Você terá seu sino e o que mais desejar.— Não desejo mais nada — disse ela. — Meu querido, você sempre foi muito bom para mim. Agora posso morrer feliz. Em seguida, ela fechou os olhos e morreu serenamente como uma criança sonolenta que adormecesse. Estava linda quando morreu; e havia um sorriso no seu rosto. Ela foi sepultada no jardim, sob a sombra das árvores que amava; e um pequeno sino foi enterrado com ela. Sobre o túmulo foi erguida uma linda lápide decorada com o brasão da família, com o kaimyo: “Grande Irmã Anciã. Sombra-Luminosa-da-Flor-da-Ameixeira, que reside na Mansão do Grande Mar da Compaixão.” [...] Todavia, 12 meses após o falecimento de sua esposa, os parentes e os amigos do samurai começaram a insistir que ele deveria se casar de novo. “Você ainda é jovem”, disseram, “filho único e sem filhos. É o dever de um samurai se casar. Se você morrer sem deixar filhos, quem estará aqui para fazer as oferendas e recordar seus ancestrais?” Depois de tanta insistência, ele foi enfim persuadido a casar-se novamente. A esposa tinha apenas 17 anos; e ele achou que poderia amá-la ternamente, não obstante a muda repreensão da sepultura no jardim. [...]. Trecho da obra do escritor japonês Lafcadio Hearn (1850-1904).

DOIS POEMAS - EM BAIA: Eu devia ter previsto / que num sonho você teria trazido / alguma coisa adorável, perigosa, / orquídeas empilhadas num belo estojo, / como alguém diria (num sonho), / “Eu lhe envio isto, / alguém que deixou as veias azuis / da sua garganta imbeijada.” / Por que foi que suas mãos / (que nunca tomaram as minhas), / suas mãos que eu pude ver / vagar em pétalas de orquídeas / com tanto cuidado, / suas mãos, tão frágeis, prontas para levantar, / tão gentilmente, a essência frágil da flor  / – ah, ah, como foi isso / Você nunca enviou (num sonho) / a mesma forma, o mesmo cheiro,/ não denso, não libidinoso, / mas perigoso — perigoso — / das orquídeas, empilhadas num belo estojo / e dobradas sob um brilhante pergaminho, / algumas palavras: / “Flor enviada para flor; / para alvas mãos, a menos alva, / menos adorável das folhas de flor,”  / ou / “De amante para amante, sem beijo, / sem toque, mas para todo o sempre assim.” OS QUE DORMEM AO VENTO: Brancos / mais que a crosta / que a maré arrasta, / ardem-nos a areia revirada / e as conchas partidas. / Não dormimos mais / ao vento / — / despertamos, fugindo / ao portão da cidade. / Arranquem — / arranquem um altar pra nós, / puxem os rochedos, / empilhem-nos com pedras brutas — / não dormimos / mais ao vento, / propiciem-nos. / Entoem um ululuar / que nunca cessa, / tracem um círculo e homenageiem / com uma canção. / Quando o rugir da vaga em queda / a interromper, / jorre medido o verbo / de águias-marinhas e gaivotas / e aves marinhas clamando / discórdias. Poemas da poeta estadunidense Hilda Doolittle (1886-1961).

A ARTE DE DANIELLE CARCAV
A arte da artista visual Danielle Carcav.

AGENDA
Seminário de Antropologia Indígena em Pernambuco -10 e 11 de outubro, PPGA Programa de Pós-Graduação em Antropologia - UFPE, organizado e realizado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Etnicidade (NEPE) & muito mais na Agenda aqui.
&
Dois tempos de Anclotinato aqui & aqui.
&
Lá vai Tomé escapando das suas, Jiddu Krishnamurti, Rainer Maria Rilke, Boaventura de Sousa Santos, Ladislau Dowbor, Alberto da Cunha Melo, Anselm Kiefer, Biblioteca Fenelon Barreto & Paulo Profeta, Peter Gabriel, Tatjana Vassiljeva, Edson Zampronha & Karyme Hass aqui.


quarta-feira, setembro 26, 2018

ELIOT, MATILDE CAMUS, HEIDEGGER, MOACIR SANTOS, LORCA, DALI, GEORGE SANTAYANA & SÉRGIO VALLE DUARTE


A CULPA NA SINA DE LORCA – Imagem: Face of Garcia Lorca in the Form of a Fruit Dish with Three Figs (1938), do pintor surrealista espanhol Salvador Dali (1904-1989). - Valdequinicio queria ser padre desde pixote, achava os paramentos, a liturgia e tudo da igreja era, para ele, a coisa mais linda do mundo, até imitava os gestos e a fala do pároco. Tanto é que um dia, ainda pirralho, chegou perto da mãe e disse: Mãe, quando crescer quero ser vigário! Oh, Quinho, meu filho! Ao dar ciência ao pai sobre o seu desejo, a coisa ficou braba: Tá doida, é? Ele vai ser médico. E providenciou tudo para que ele não se desviasse disso, coisa que não gostou muito, pois o genitor havia substituído a leitura da Bíblia e as idas à missa por Literatura e afins. Não demorou muito e estava ele aboletado em leituras ficcionais, até afeiçoar-se por poesia. Vigilante, o olhar paterno não desgrudava das predileções do menino, até chegar a hora do vestibular: ele queria fazer Letras. Como é? Ah, foi empurrado pra Medicina na marra. Começou então uma sucessão de acontecimentos desagradáveis, apesar de não poder ver uma seringa que já desmaiava, passou quase todo o curso arrumando um jeito de encarar aquilo que mais o incomodava: ver sangue. Entre chiliques e troços na faculdade, uma pesquisa e outra aula, residência e estudos, as leituras indispensáveis dos seus preferidos poetas. Como era um aluno brilhante, muitos professores se voltaram para conduzi-lo da melhor maneira possível, visando superar seus dramas; alguns até dispensavam atenção, antecipando a residência e poupando de vexames. Ao descobrir a poesia de Lorca, ficou encantado: o cante jondo, as canções, o romacero gitano, os poemas galegos, os poemas sueltos, os cantares populares, o teatro & La Barraca, e tudo que se referisse ao andaluz, beirava ao encantamento. E foi num estágio de final de curso que, chamado às pressas, deu de atender um paciente. Logo viu tratar-se de um religioso que não conhecia, identificou pela vestimenta e aquilo o fez recordar seu antigo desejo. Colocou o livro no sovaco e começou o atendimento ali mesmo. Notou logo que o assistido não tirava os olhos do livro, todo agoniado e que não conseguia dizer uma só palavra. Ele então providenciou a internação, acompanhando passo a passo as ações dos enfermeiros. Chegando à enfermaria, depôs o livro sobre uma mesinha ao lado da cama e continuou os exames, enquanto não aparecesse profissional formado para tal. O padre inquieto fazia questão de se virar para ver a capa do livro estampando a foto do poeta com os tiros e sangue, sem conseguir balbuciar muito menos expressar verbalmente o que o afligia. A insistente olhadela do adoentado fez com que ele perguntasse: O senhor também gosta de Lorca? O enfermo mais se agitava, fechando os olhos até uma lágrima descer-lhe pelo canto do olho. Era assim todos os dias que o via entrar no ambiente: Quer que eu leia Lorca pra você? O combalido agitava-se, engolia seco, apertava os olhos e novas lágrimas desciam pelo canto dos olhos. Ele então recitava poemas ou lia techos de Yerma, Bodas de Sangue, Bernarda Alba, e ele relaxava, enfim. Sempre que podia, passava por lá para vê-lo e levava outros livros e antologias com obras do espanhol, até à tarde em que o perturbado convalescente, no meio do recital improvisado, pôs suas próprias mãos à goela, parecia querer se matar. Foi preciso uma aplicação de tranquilizante para adormecê-lo. Quinho saiu dali consternado e sem entender, pensava consigo ter encontrado alguém que, como ele, adoraria o autor. No dia seguinte, finalmente, o acamado havia falecido na madrugada. Foi aí que soube o nome do frei – um nome de rua e de escola na cidade -, e a razão das suas agonias com Lorca: a culpa fizera a sina acompanhar até a morte. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o saudoso arranjador, maestro, compositor e multi-instrumentista Moacir Santos (1926-2006): Coisas, Ouro Negro, Carnival og the spirit & Maestro & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais dela aqui, aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS – [...] aqueles que não conseguem lembrar o passado, estão condenados a repeti-lo. [...]. Extraído da obra Life of reason (Scribner, 1905), do filósofo, poeta, ensaísta e romancista espanhol George Santayana (1863-1952). Veja mais aqui.

O PENSAR – [...] O pensar, contudo, é poematizar, e não somente no sentido da poesia e do canto. O pensar do ser é a maneira originária de poematizar, somente nele, antes de tudo, a linguagem se torna linguagem, isto é, atinge sua essência. [...] Estamos tão próximos ao fosso que não podemos tomar nenhum impulso suficiente para o salto e amplitude do salto, por isso saltamos facilmente muito curto [...] Ora, a partir daquilo do qual a geração é para as coisas, também o desaparecer para dentro disto se engendra segundo o necessário; pois eles se dão justiça e penitência reciprocamente pelas injustiças, segundo a ordem do tempo. [...] os homens e as coisas produzidas pelos homens e os estados produzidos pelo agir humano e as circunstâncias provocadas fazem parte do ente. Também as coisas demoníacas e divinas fazem parte do ente. Tudo isto não apenas é também, mas é mais ente que as simples coisas. [...]. Trechos extraídos da obra Conferências e escritos filosóficos (Nova Cultural, 1989), do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976). Veja mais aqui e aqui.

A VERDADE – [...] se alguém se queixar de que não defini a verdade, ou o fato, ou a realidade, só posso dizer, apologeticamente, que não constituía parte de meu propósito fazê-lo desse modo, mas apenas descobrir um esquema no qual, quaisquer que fossem aqueles conceitos, eles se encaixariam, caso existissem [...]. Trecho extraído da obra Ensaios (Art Editora, 1989), do poeta, dramaturgo, crítico literário inglês e Prêmio Nobel de 1948, Thomas Stearns Eliot (1888-1965). Veja mais aqui e aqui.

DOIS POEMAS - VOCÊ CHEGOU ATÉ MIM - Você veio a mim como um milagre / Floresceu de alegria na neve. / Seu amor deslumbrante, vivo e autêntico / focalizou a luz na minha testa. / Eu vi nas fronteiras do espírito / as pétalas de um beijo que é oferecido / ouvindo músicas, duplicadas, / em misteriosas luas todas verdes. / Eu pensei que sonhava com tanta felicidade / vendo que minhas artérias estão perdidas / e acreditando morrer, ao lado do seu peito, / Eu abençoei a morte mil vezes. / Que não é morte morrer em seus braços / morte fora viva, se você não me ama, / arrancado de você, de suas raízes; / desse tronco viril que me protege / desfazendo minha feminilidade / todo um mar transbordando de louros. CALA - Cala a boca / Não fale comigo esta noite. / Deixe as sombras passarem / entre o seu corpo e o meu. / Vamos formar um mundo à parte. / Cala a boca / que amor é o silêncio. / Carregue a loucura do sangue / e seu canto é tão nosso / que não queremos ninguém / Cala a boca / que o peixe dorme. / Silêncio que passa o ar / e no nosso tempo quieto / Sua presença é suficiente. Poemas da poeta espanhola Matilde Camus (1919-2012).

A ARTE DE SÉRGIO VALLE DUARTE
A arte do fotógrafo e artista multimídia Sérgio Valle Duarte. Veja mais aqui.

AGENDA
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terça-feira, setembro 25, 2018

FAULKNER, FELICIA HEMANS, MORIN, SCHILLER, CONSUELO DE PAULA, LILIANE DARDOT & PRAZERES DO CÉU


PRAZERES, A AMPARO DO CÉU – Imagem: arte da pintora, desenhista, gravadora e professora Liliane Dardot. - Prazeres do Céu não era filha da mãe, o pai consanguíneo assim lhe fizera: apondo-lhe o nome da consorte na maternidade em documento de registro civil. Prova viva de uma escapadela, não sofreu muito: a mãe postiça logo bateu as botas – nem deu tempo de brincar duns castigos e dela escapar duma sina nas mãos de uma madrastra. Afora isso, sua vida fora excepcional: ambidestra de nascença e possuidora de bunda pra lua, tinha o ganhador aberto: presentes e competições do que jamais se imaginasse, era sempre prestigiada, vez que o pai a tinha por meinino e a mãe por menina. E assim foi educada em casa: destemido de pular o que fosse de obstáculo, faceira de encantar a parentalha: Essa é menina-macho, a Maria Bonita da família. Exímia no tiro ao alvo de direita, de esquerda ou do jeito que fosse, até de cabeça pra baixo era certeira; escrevia e fazia tudo com as duas mãos; e se danava em rapel, enduros, trilhas de Jeep, bundacanasca, luta livre, escaladas, karatê, parapente, ciclismo, surfe, paraquedismo, futebol, capoeira, corridas e pontarias, quanto mais radical, melhor: onde botasse as vistas ou alcançava com os pés ou na mira. E era mesmo: vivia até metida no adestramento dos animais, domesticando bicho selvagem que fosse. Dia desse mesmo apareceu amontada num jacaré raivoso que findou recolhido aos de sua estimação no quarto de dormir: cobras, lacraus, onça, macacos, cágados, gansos, afora pássaros, bodes, cachorros, sapos e abelhas, tudo ensinado – dizem que até um saci Pererê ela capou e tinha amarrado ao pé da cama. Dizem. Quando era à tardinha, as amigas se reuniam cada qual com seu animal de estimação. Aí ela saía com o seu parque ecológico ambulante, tendo à frente a da sua predielação: a vaca Raínha, toda engalanada de brincos, pulseiras, chalés, cordões, laços e fitas, talqualmente a dona que não gostava nada de aparecer na granfinagem. Vale registrar que enquanto ela desfilava com o seu plantel pela praça, o povo todo se trancava de não restar um pé de gente na rua, tudo escondido. Quem era doido? O jacaré mesmo já tinha comido uns três ou quatro que inventaram de se aproximar, a cobra picou uns quinze de matar quase todos, a onça havia devorado uns duas ou três dúzias de atrevidos que se saiba, os gansos e cachorros atacavam quem tivesse pela frente e ela só dando ordem no domínio, sem poder restituir o ataque, vez que eram letais. Ninguém se atrevia de reclamar prejuízo que tivesse, seria a mais descabida petulância: Essa é os pés da doida, pega e esfola, do cabra nunca mais servir pra nada. Isso sem contar com a vingança dos bichos: arengasse com ela, era só esperar a vingança deles. Mais de uma dúzia de vezes teve gente atacada pelos maribondos do criatório dela, avalie. Não só tinha o melhor mel da região, como as abelhas dela só davam ferroadas no osso do mucumbu do desafeto, resultado: lona. Quando ela deu fé não tinha mais amigas, fã-clube, nem nada. Bateu-lhe um desespero. Pensou em mudar de vida, já que estava uma mocinha taluda, peitinhos tomando forma embaixo do primeiro sutiã, quadris ajeitando os guardados que se tornavam salientes, faces enrubecidas com os lábios de cangula pintados pelo batom, cabelos formosos caindo na testa e nos ombros, uma verdadeira perdição aos olhos dos marmanjos. Contudo, niguem tinha topete para encarar, sabiam que iam comer arroiado na mão daquela que chamavam às escondadas de Maria João: Essa engana qualquer um, vá lá e se estrepe, mô fio. Tanto ela dava mole pros desavisados e logo tomarem ciência aprumando o rumo pra casa da peste, longe dela. Chorava a coitada no colo do pai: Tem nada não, filha, é porque o seu príncipe ainda não apareceu, chegará a hora dele. E nada desse “princeso” dar as caras pras bandas dela. E assim ela comeu todo ginasial e mais da metade do colegial, quando ela caiu de amores pelo Zé Peiúdo. Isso foi quase uma fatalidade: a menina-macho virou fêmea saco de pancadas, como se a danada virada ficasse banguela – ou jogado fora as presas com dentadura e tudo -, mansa de ser domada e até achar bom levar umas lamboradas boas do bicado – é que ele só tinha coragem de enfrentá-la completamente bêbado; quando tornava a si de ressaca, tomava um susto de morrer de medo e cair fora; ela catava ele onde estivesse, de ser puxado pra casa pelos colhões. Que danado tinha ela, hem? Braba da peste, ficava mansa e dominada com o safado biritado. O amor tem cada coisa, hem? Pois é, e a salvação dela foi o Padre Bidião, foi quando ela virou Amparo do Céu. Que coisa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da cantora, compositora, poeta e produtora Consuelo de Paula: Negra, Dança das Rosas, Coletãnea, Samba, seresta & Baião & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais dela aqui, aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS – [...] No meio do reino temível das forças e no meio do reino sagrado das leis, o instinto de criação estética vai construindo, sem que dêem por ele, um terceiro reino, feliz, do jogo e da aparência, no qual tira ao ser humano os grilhões de todas as relações e o desliga de quanto seja coação tanto no físico como no moral. [...]. do poeta, dramaturgo, filósofo e historiador alemão Friedrich Schiller (1759-1805). Veja mais aqui.

DE ANTES & HOJE - [...] Os nossos ancestrais caçadores-coletores que, ao longo de milhares de anos, desenvolveram as técnicas da pedra e, depois, elaboraram as do ouro e do metal, dispuseram e usaram, nas suas estratégias de conhecimento e de ação, um pensamento empírico/lógico/racional; produziram, acumulando e organizando, um formidável saber botânico, zoológico, ecológico, tecnológico, uma verdadeira ciência. Contudo, esses mesmos seres arcaicos acompanhavam todos os atos técnicos com ritos, crenças, mitos, magias; por isso, antropólogos do começo do século XX chegaram a crer que, fechados num pensamento mítico/mágico, esses “primitivos” ignoravam toda racionalidade. [...] Antropólogos simplistas incapazes de conceber que os seus “primitivos” moviam-se nos dois pensamentos, completamente sem confundi-los! [...] Também, ainda que nossos espíritos sejam muito diferentes daqueles dos arcaicos ou dos medievais, ainda que os dois pensamentos tenham se tornado antagônicos, vivemos não somente nessa oposição, mas também na cohabitação, na interação e nas trocas clandestinas e diárias entre eles. O problema dos dois pensamentos não é, pois, um problema original e histórico ultrapassado, mas o problema de todas as civilizações, inclusive as contemporâneas: um problema antropossocial fundamental. [...]. Trechos extraídos da obra O método 4 – as ideias (Sulina, 2005), do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin. Veja mais aqui.

O SOM & A FÚRIA - [...] Ela estava molhada. A gente estava brincando no riacho e Caddy se agachou e molhou o vestido e Versh disse: “Tua mãe vai te bater por causa que você molhou o vestido.” “Vai me bater coisa nenhuma.” disse Caddy. “Como é que você sabe.” disse Quentin. “Sei porque sei.” disse Caddy. “Como é que você sabe.” “Porque ela falou que vai.” disse Quentin. “Além disso eu sou mais velho que você.” “Eu tenho sete anos.” disse Caddy. “Então eu sei.” “Eu tenho mais de sete.” disse Quentin. “Eu já estou na escola. Não é, Versh.” “Ano que vem eu também vou pra escola.” disse Caddy. “Quando chegar a hora. Não é, Versh.” “Você sabe que ela te bate quando você molha o vestido.” disse Versh. “Não está molhado não.” disse Caddy. Ficou em pé dentro d’água e olhou para o vestido. “Eu tiro.” disse ela. “Aí ele seca.” “Duvido que você tira.” disse Quentin “Tiro sim.” disse Caddy. “Melhor não tirar.” disse Quentin. Caddy veio para perto de mim e Versh e virou de costas. “Desabotoa, Versh.” disse ela. “Não faz isso não, Versh.” disse Quentin. “O vestido não é meu.” disse Versh. “Desabotoa, Versh.” disse Caddy. “Senão eu conto pra Dilsey o que você fez ontem.” Então Versh desabotoou. “Quero ver você tirar o vestido.” disse Quentin. Caddy tirou o vestido e o jogou na margem. Ela estava só de corpete e  calcinha, e Quentin deu um tapa nela e ela escorregou e caiu na água. Quando se levantou ela começou a espirrar água em  Quentin, e Quentin espirrou água em Caddy. Caiu um pouco de água em mim e em Versh e Versh me pegou e me pôs na margem. Ele disse que ia contar o que Caddy e Quentin fizeram, e então Quentin e Caddy começaram a espirrar água em Versh. Ele ficou atrás de uma moita. “Eu vou contar pra mamãe o que vocês estão fazendo.” disse Versh. Quentin subiu para a margem e tentou pegar Versh, mas Versh fugiu e Quentin não conseguiu. Quando Quentin voltou Versh parou e gritou que ia contar para a mãe. Caddy disse que se ele não contasse eles deixavam ele voltar. Então Versh disse que não ia contar, e eles deixaram ele voltar. “Agora você está satisfeita, não é.” disse Quentin. “Nós dois vamos apanhar agora.” “Eu não ligo.” disse Caddy. “Eu vou fugir.” “Vai fugir nada.” disse Quentin. “Vou fugir pra não voltar nunca mais.” disse Caddy. Comecei a chorar. Caddy se virou e disse: “Não chora.” Então eu parei. Então eles brincaram no rio. Jason estava brincando também. Estava sozinho separado dos outros. [...]. Trecho extraído da obra O som e a fúria (Com panhia das Letras, 2017), do escritor estadunidense e ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1949, William Faulkner (1897-1962). Veja mais aqui.

O MAR PRA ONDE FOI - O mar, pra onde foi? – me despedindo, aqui estou / O meu mar azul, pra onde foi? / Com todos os seus barcos, velozes, singrando / Com suas livres brisas e bandeiras. / Saudades daquela voz de ondas, a primeira que / Da minha infância alegria despertou; / Do toque do sino a hora certa – do trovejar súbito – / Meu mar azul, pra onde foi? / Na serra do pastor um som de flauta ouço – / Da árvore o murmúrio ouço; - / De minha alma, emudecidos, os ecos – / Meu mar azul, pra onde foi? / Oh! Por mais profunda que seja a tua Murta, / Por mais suave e suave que teus ventos sejam, / Em mim, o coração enfermo de bater cessou – / Meu mar azul, pra onde foi? Poema da poeta britânica Felicia Hemans (1793-1835). (Tradução de Cunha e Silva Filho).

A ARTE DE LILIANE DARDOT
A arte da pintora, desenhista, gravadora e professora Liliane Dardot.

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Poetastro mete as catanas sem entender do riscado, William Faulkner, Roberto Piva, Pierre Bourdieu, Vitor da Fonseca, Alice Viveiros de Castro, Frank Furedi, Lia Chaia & Amanda Duarte, Socorro Durán, Gonzaguinha, Rachel Podger, Bia Sion & Mano Melo aqui.


STEVEN PINKER, NEILA TAVARES, ISADORA DUNCAN, RITA JOANA, GINÁSIO MUNICIPAL DOS PALMARES & RESSURREIÇÃO DO BARÃO

A PRIMEIRA RESSURREIÇÃO DO BARÃO - Depois da perda trágica do segundogênito, teibei! E da fuga ruidosa de sua primogênita atrepada na cac...