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terça-feira, janeiro 08, 2019

LELOUP, DALI, EM NOME DE DEUS & CARTA DE JANEIRO


CARTA DE JANEIRO – Aonde quer que eu vá, vou só. Esquinas, becos, trilhas, o inopinado. A cada dia um Cabo das Tormentas, naufrágios, derivas, gangorras, tobogãs, devires. Ah, santa sorte, o que virá não se sabe, que seja, na base do carteado: servindo-se de paus, copas, espadas, ouros; se deu, deu; se não deu, não deu, vale-se dos naipes, a cartomancia: a Roda da Fortuna, o Louco, o Enforcado, a Morte, o Diabo. Aha! O erro do carteio pra quem não sabe jogar, só se vive. Assim, percorrer o território por toda jornada: a sabedoria é próxima da loucura, ou vice-versa. Foi, não foi, a precisão de ir. Andarilho livre no incansável perambular. Onde vai dar? É só dançar como uma criança até tornar-se viajante maduro, se puder. As surpresas que pregam suas peças, o engano dos bufões: primeiro de abril. O farol, os monstros, os temporais. Encolher os ombros quando nada mais resta da escuridão adâmica, lembrar-se de não esquecer nada. Recorrer ao amor? Além de cego, muitas vezes é surdo, senão incompreensível. Amigos? Todos pularam fora quando não se esconderam: nem sempre a amizade é mútua, quando não covarde. Qual destinatário entre os arcanos vicariantes, epístolas sem correspondência, apelos sem recepção, prólogo sem trama, ninguém a quem possa interessar: rabiscos nas paredes, troncos, folhas, o tempo apagará. Manuscritos bilhetes que se esvairão inúteis, perdidos no fundo das gavetas. Palavras inauditas, gestos aos interditos paralisados no ar. Pra quem vai só, a companhia dos ventos, da escuridão, das estradas sem fim: a expectativa estrangeira de nenhuma chegada, não há porto para ancorar, nem fim da linha, eternamente seguir, recomeçar. A cada dia uma nova estrada, voo por aí. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Partimos em um movimento ascendente: a libido, a paixão, a compaixão. É a mesma energia que ascende e nos atravessa. Observem que os problemas sexuais, algumas vezes, são modos de misturar as formas de amor. [...] Em grego, há diferentes palavras para falar destas etapas do amor. A primeira etapa é Pornéia, o amor voraz e devorador, o amor do bebê por sua mamãe, o amor de consumo. Amo o outro, portanto como-o. [...] Traduzimos a palavra Pathé por paixão e ela está na origem da palavra Patologia. [...] algumas formas de amor são formas de patologia, são formas de possessão, de Manía. [...] Éros, que expressa não somente um amor de solicitação e necessidade, mas também de desejo. [...] Storghé pode ser traduzida como ternura e Harmonia que é uma palavra muito bonita para se falar de amor. É uma maneira de harmonizar o seu ser com o ser do outro. [...] Philia – o amor aos seres humanos. [...] Énnoia quer dizer o dom, a doação e, às vezes, o devotamento. É uma qualidade de amor que manifesta uma grande generosidade do coração. É a libido, a energia vital que se manifesta ao nível do coração. Kháris significa gratidão. [...] Agápe. Podemos traduzi-la como a graça e a gratuidade. [...] A palavra amor tem sentidos diferentes. Não é preciso opô-los uns aos outros. [...] Há em nós uma abertura para todas as outras cores. Mesmo se, para algumas cores, só nos reste sonhar. Há porem sonhos premonitórios e um dia nós amaremos. Não apenas como animais bem vivos, não somente como amantes apaixonados, mas também como deuses apaziguados. [...].
Trechos de A escada dos níveis de amor, extraído da obra O corpo e seus símbolos (Vozes, 1999), do PhD em Psicologia Transpessoal, doutor em Teologia e professor de Filosofia, Jean-Yves Leloup. Veja mais aqui e aqui.

ESCULTURAS DE SALVADOR DALI
 [...] Acreditam vocês que seja devido ao acaso que a força dos grandes místicos apresenta-se muitas vezes conjugada à defecação e ao peido? É que o ânus, exaltado por Quevedo no seu Elogio ao buraco do cu, é sobretudo um símbolo que purifica nossos atos de canibalismo. Tudo o que pertence ao humano, transcendido pela espiritualidade da morte, torna-se místico [...].
Trecho extraído da obra As confissões inconfessáveis de Salvador Dali (José Olympio, 1976), do pintor e artista surrealista catalão Salvador Dali (1904-1989) que assim se expressava sobre si próprio: “Todas as manhãs, ao me levantar, experimento um prazer supremo: ser Salvador Dali. Eu me pergunto maravilhado: que coisas prodigiosas ele fará hoje, este Salvador Dalí”. Veja mais aqui, aqui e aqui.

EM NOME DE DEUS
O drama Em nome de Deus (Captive, 2012), dirigido por Brillante Mendoza, conta a história ocorrida em 2001, no sul das Filipinas, em que um grupo de separatistas islâmicos armados toma cerca de 100 pessoas como reféns, arrastando-as por vários locais por cerca de um ano. O destaque fica por conta da atriz francesa Isabelle Huppert que interpreta a missionária cristã Thérèse Bourgoine, voluntária francesa em missão humanitária e na luta pela sobrevivência. Veja mais aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quarta-feira, setembro 26, 2018

ELIOT, MATILDE CAMUS, HEIDEGGER, MOACIR SANTOS, LORCA, DALI, GEORGE SANTAYANA & SÉRGIO VALLE DUARTE


A CULPA NA SINA DE LORCA – Imagem: Face of Garcia Lorca in the Form of a Fruit Dish with Three Figs (1938), do pintor surrealista espanhol Salvador Dali (1904-1989). - Valdequinicio queria ser padre desde pixote, achava os paramentos, a liturgia e tudo da igreja era, para ele, a coisa mais linda do mundo, até imitava os gestos e a fala do pároco. Tanto é que um dia, ainda pirralho, chegou perto da mãe e disse: Mãe, quando crescer quero ser vigário! Oh, Quinho, meu filho! Ao dar ciência ao pai sobre o seu desejo, a coisa ficou braba: Tá doida, é? Ele vai ser médico. E providenciou tudo para que ele não se desviasse disso, coisa que não gostou muito, pois o genitor havia substituído a leitura da Bíblia e as idas à missa por Literatura e afins. Não demorou muito e estava ele aboletado em leituras ficcionais, até afeiçoar-se por poesia. Vigilante, o olhar paterno não desgrudava das predileções do menino, até chegar a hora do vestibular: ele queria fazer Letras. Como é? Ah, foi empurrado pra Medicina na marra. Começou então uma sucessão de acontecimentos desagradáveis, apesar de não poder ver uma seringa que já desmaiava, passou quase todo o curso arrumando um jeito de encarar aquilo que mais o incomodava: ver sangue. Entre chiliques e troços na faculdade, uma pesquisa e outra aula, residência e estudos, as leituras indispensáveis dos seus preferidos poetas. Como era um aluno brilhante, muitos professores se voltaram para conduzi-lo da melhor maneira possível, visando superar seus dramas; alguns até dispensavam atenção, antecipando a residência e poupando de vexames. Ao descobrir a poesia de Lorca, ficou encantado: o cante jondo, as canções, o romacero gitano, os poemas galegos, os poemas sueltos, os cantares populares, o teatro & La Barraca, e tudo que se referisse ao andaluz, beirava ao encantamento. E foi num estágio de final de curso que, chamado às pressas, deu de atender um paciente. Logo viu tratar-se de um religioso que não conhecia, identificou pela vestimenta e aquilo o fez recordar seu antigo desejo. Colocou o livro no sovaco e começou o atendimento ali mesmo. Notou logo que o assistido não tirava os olhos do livro, todo agoniado e que não conseguia dizer uma só palavra. Ele então providenciou a internação, acompanhando passo a passo as ações dos enfermeiros. Chegando à enfermaria, depôs o livro sobre uma mesinha ao lado da cama e continuou os exames, enquanto não aparecesse profissional formado para tal. O padre inquieto fazia questão de se virar para ver a capa do livro estampando a foto do poeta com os tiros e sangue, sem conseguir balbuciar muito menos expressar verbalmente o que o afligia. A insistente olhadela do adoentado fez com que ele perguntasse: O senhor também gosta de Lorca? O enfermo mais se agitava, fechando os olhos até uma lágrima descer-lhe pelo canto do olho. Era assim todos os dias que o via entrar no ambiente: Quer que eu leia Lorca pra você? O combalido agitava-se, engolia seco, apertava os olhos e novas lágrimas desciam pelo canto dos olhos. Ele então recitava poemas ou lia techos de Yerma, Bodas de Sangue, Bernarda Alba, e ele relaxava, enfim. Sempre que podia, passava por lá para vê-lo e levava outros livros e antologias com obras do espanhol, até à tarde em que o perturbado convalescente, no meio do recital improvisado, pôs suas próprias mãos à goela, parecia querer se matar. Foi preciso uma aplicação de tranquilizante para adormecê-lo. Quinho saiu dali consternado e sem entender, pensava consigo ter encontrado alguém que, como ele, adoraria o autor. No dia seguinte, finalmente, o acamado havia falecido na madrugada. Foi aí que soube o nome do frei – um nome de rua e de escola na cidade -, e a razão das suas agonias com Lorca: a culpa fizera a sina acompanhar até a morte. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o saudoso arranjador, maestro, compositor e multi-instrumentista Moacir Santos (1926-2006): Coisas, Ouro Negro, Carnival og the spirit & Maestro & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais dela aqui, aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS – [...] aqueles que não conseguem lembrar o passado, estão condenados a repeti-lo. [...]. Extraído da obra Life of reason (Scribner, 1905), do filósofo, poeta, ensaísta e romancista espanhol George Santayana (1863-1952). Veja mais aqui.

O PENSAR – [...] O pensar, contudo, é poematizar, e não somente no sentido da poesia e do canto. O pensar do ser é a maneira originária de poematizar, somente nele, antes de tudo, a linguagem se torna linguagem, isto é, atinge sua essência. [...] Estamos tão próximos ao fosso que não podemos tomar nenhum impulso suficiente para o salto e amplitude do salto, por isso saltamos facilmente muito curto [...] Ora, a partir daquilo do qual a geração é para as coisas, também o desaparecer para dentro disto se engendra segundo o necessário; pois eles se dão justiça e penitência reciprocamente pelas injustiças, segundo a ordem do tempo. [...] os homens e as coisas produzidas pelos homens e os estados produzidos pelo agir humano e as circunstâncias provocadas fazem parte do ente. Também as coisas demoníacas e divinas fazem parte do ente. Tudo isto não apenas é também, mas é mais ente que as simples coisas. [...]. Trechos extraídos da obra Conferências e escritos filosóficos (Nova Cultural, 1989), do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976). Veja mais aqui e aqui.

A VERDADE – [...] se alguém se queixar de que não defini a verdade, ou o fato, ou a realidade, só posso dizer, apologeticamente, que não constituía parte de meu propósito fazê-lo desse modo, mas apenas descobrir um esquema no qual, quaisquer que fossem aqueles conceitos, eles se encaixariam, caso existissem [...]. Trecho extraído da obra Ensaios (Art Editora, 1989), do poeta, dramaturgo, crítico literário inglês e Prêmio Nobel de 1948, Thomas Stearns Eliot (1888-1965). Veja mais aqui e aqui.

DOIS POEMAS - VOCÊ CHEGOU ATÉ MIM - Você veio a mim como um milagre / Floresceu de alegria na neve. / Seu amor deslumbrante, vivo e autêntico / focalizou a luz na minha testa. / Eu vi nas fronteiras do espírito / as pétalas de um beijo que é oferecido / ouvindo músicas, duplicadas, / em misteriosas luas todas verdes. / Eu pensei que sonhava com tanta felicidade / vendo que minhas artérias estão perdidas / e acreditando morrer, ao lado do seu peito, / Eu abençoei a morte mil vezes. / Que não é morte morrer em seus braços / morte fora viva, se você não me ama, / arrancado de você, de suas raízes; / desse tronco viril que me protege / desfazendo minha feminilidade / todo um mar transbordando de louros. CALA - Cala a boca / Não fale comigo esta noite. / Deixe as sombras passarem / entre o seu corpo e o meu. / Vamos formar um mundo à parte. / Cala a boca / que amor é o silêncio. / Carregue a loucura do sangue / e seu canto é tão nosso / que não queremos ninguém / Cala a boca / que o peixe dorme. / Silêncio que passa o ar / e no nosso tempo quieto / Sua presença é suficiente. Poemas da poeta espanhola Matilde Camus (1919-2012).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo e artista multimídia Sérgio Valle Duarte
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segunda-feira, outubro 15, 2012

RUMI, GOLDSWORTH, GÉRARD VINCENT, SURREALISMO & CRÔNICAS PALMARENSES

Foto: Givanilton Mendes, na quadra do Colégio Diocesano, Dia Mundial da Poesia, em 1976.



GRATIDÃO AOS PROFESSORES




Ilustrando o que eu já contei aqui, tudo, então, começa com minha tia-prima saudosa Sonia Cabral Ferraz, responsável por minha alfabetização ainda criança peralta, afastado que fui por causa do achocolatado no recreio do Grupo José Bezerra. Toda tarde, lá na casa de Pai Lula & Carma, ela se dedicava a me ensinar as primeiras letras e administrando minha inheta algazarra e a mania de grandeza já revelada de gastar cadernos por dia. É que ela tão dedicada me apresentava as vogais e consoantes, e eu, com a minha já desastrada forma de me expressar maior que meu próprio tamanho, usava a página inteira do caderno para exercitar na escrita. Quer dizer, para copiar cada letra eu me expandia cheio das pregas a desenhá-la ocupando a página inteira do caderno. Imagine quantos cadernos eu consumia por dia, mesmo tendo ela a preocupação de pacientemente me fazer apagá-las, vez que, não fosse isso, meu pai e parentes teriam que comprar uma fábrica de cadernos para dar vencimento ao meu disparate.

Daí, ao ser matriculado na Escola Fraternidade Palmarense, deu-se os ensinamentos com a maravilhosa professora Hilda Galindo Correia, aquela mesma responsável pela minha iniciação literária descabida, resultando na publicação das minhas primeiras quadrinhas no suplemento Júnior, do Diário de Pernambuco.

Dos exames de Admissão até repetir o segundo ano no Ginásio Municipal dos Palmares, tive excelentes professores. Os de Português: Elias Sabino de Oliveira, João José do Nascimento, Mariazinha Quaresma e a responsável por minha formação intelectual, afetiva, humana e que dedicou momentos preciosos do seu tempo para me encaminhar pra ser gente que preste pra alguma coisa, a professora e bibliotecária Jessiva Sabino de Oliveira. Também Brivaldo Leão de História, Edson Matos de Francês, bem como os demais que testemunharam minhas presepadas saindo da infância pra adolescência.

Os terceiro e quarto anos do ginasial eu concluí no Colegio José Ferreira Gomes que funcionava no horário noturno, no mesmo prédio do Ginásio Municipal. Lá encontrei o meu amigo Tininho, o Joventino de Melo Filho, que apesar de ser professor de Matemática, foi uma das pessoas mais importantes na minha vida e que foi responsável por minha formação educacional, literária e musical. Além dos outros professores, destaco a figura humana e boníssima de Lael Borba de Carvalho, o King, meu professor de Inglês, figura das mais queridas na minha estima.

Fui então pro Colégio Diocesano e lá Inalda Cavalcanti, Erivan Félix, João da Silva e José Duran y Duran, além do bispo que era diretor, Dom Acácio Rodrigues Alves, deram asas à minha imaginação, proporcionando espaço para que eu e minha trupe pudéssemos fazer recitais de poesia, shows musicais, apresentações de teatro e melodramas, enfim, foram eles que muito contribuíram para que eu me dedicasse às artes. Culpa deles mesmo. Também o professor Pedro Victório Paiva que era meu professor de Física e substituto no cartório da mãe dele, Dona Dulce, que foi outro que nos momentos de fuga nos afazeres do Fórum e nos espaços da escola, me iniciou na Filosofia com seus ensinamentos científicos, afora aprofundar meus conhecimentos na música erudita. Além disso, devo contar as tardes de finais de semana na casa do amigo José Duran y Duran que dedicou atenção especial para minha formação na arte espanhola, sobretudo a Literatura, Teatro e Artes Plásticas.

Foto: Wilson Fotografias, durante apresentação de show musical no auditório do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, em 1977.

Depois de três anos no Diocesano, fui concluir o 2º grau no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, depois até me tornando professor de Literatura, Filosofia e Sociologia. Lá, enquanto estudante concluinte do científico, a Madre Maria do Espírito Santo manteve a abertura de todo espaço para comentimento das minhas aspirações artísticas, possibilitando que eu e minha trupe fizéssemos shows, recitais e exposições de poemas e pinturas. Entre os professores, destaco a figura estimada e folclórica do professor e vizinho Barbosa que era professor de Desenho, mas que atuou ministrando aulas de Matemática, Física, Química, OSPB, Moral e Cívica, Religião e que, um dia, abriu a porta e sapecou na maior animação: “Vamos aprendê ingrês qui portugueis nós já sabe!”.

Daí fui pro curso de Letras na Famasul onde, ainda estudante, fui incubido pela professora titular da cadeira, de ministrar aulas de Literatura Brasileira e Portuguesa aos sábados, fato que me levou a ser mesmo antes de concluir o curso, professor em diversas escolas de Palmares, Novo Lino e Joaquim Nabuco. Lá aprendi Latim com o professor Helmut Raimundo Gress. Fui, então, concluir o curso em Recife, depois fazer Relações Públicas na Esurp e Jornalismo na Unicap, cursos não concluídos. Mas foi na Faculdade de Direito que conheci um professor que me influenciou positivamente: Ivan Brandão, de Sociologia. Pude privar da sua amizade dentro e fora da faculdade, o que me valeu ter tino e discernimento para melhor me aprumar artística e profissionalmente.

 Foto: Luiz Gulú Santos Braga, na varanda da sua casa, em 1975.

Claro que não foram somente os professores da educação formal quem contribuíram de verdade. Além deles, devo colocar no rol dos gurus as pessoas do meu parente poeta Afonso Paulo Lins, do meu parente e figura das mais queridas que é o advogado Paulo Roberto Cabral de Souza, o saudoso poeta e advogado Eliseu Pereira de Melo, o empresário Gilsádio Santana que dias e noites dedicava seu tempo para me falar das atividades teatrais palmarenses, sobretudo de Hermilo Borba Filho, bem como dos da minha a trupe de birita e vida, com quem aprendi e, consequentemente, ensinamos uns aos outros, como Fernando Bigodinho Melo Filho, Marquinhos Cabral, Vavá de Aprígio, Mauricinho Melo Júnior, Luiz Gulu dos Santos Braga, Célio Carneirinho, os compadres Javanci Bispo e Sandra Lustosa, Ozi dos Palmares, Zé Ripe, Chico Âneglo Meyer, Mazinho Jucimar Siqueira, Marco Hippie, Juareiz Correya, Wilson Fotografias, Paulo Profeta, o saudoso Givanilton Mendes, o pianista Sérgio David e, principalmente, meu pai, Rubem que era um boêmio poeta que vivia a dar colorido a tudo que eu queira de Literatura e Música.

A todos esses mestres, a minha gratidão. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

A arte do pintor russo Viktor Lyapkalo.

 

DITOS & DESDITOS - Muitas vezes esquecemos que NÓS SOMOS NATUREZA. A natureza não é algo separado de nós. Então, quando dizemos que perdemos nossa conexão com a natureza, perdemos nossa conexão com nós mesmos. Pensamento do escultor, fotógrafo e ambientalista britânico Andy Goldsworth.

 

ALGUÉM FALOU: Fugi do homem para morar na floresta. Não pertenço a movimentos. Os únicos movimentos são os dos astros, marés e ventos. A Natureza é a minha arte! – Como posso fugir desta realidade?... Pensamento do pintor, escultor, gravador, fotógrafo e artista plástico polonês Frans Krajcberg (1921-2017).

 

DE GATOS & SENTIMENTOS - Eu cresci tão acostumado a ter um gato mal-humorado, mas bonito que eu preciso alertar os visitantes sobre. Ela sobreviveu a todos os gatos que eu amava e todos os gatos que eu me liguei. E eu acho que ela cresceu se aproveitando de mim. Quando Zoe morreu, foi muito fácil de explicar às pessoas o quanto dói você perder um gato doce, gentil, que não passava de uma bola de amor total. Eu vou ter muito mais dificuldade em um dia, meses ou mesmo anos explicando a falta que me faz a perda da gata grumpiest mais perigosa e mais malvada que eu já encontrei... Depoimento do quadrinista, escritor e roteirista britânico Neil Gaiman. Veja mais aqui aqui.

 

UM GATO CONTA – [...] Aos gatos, que os intrigam e inquietam, os homens consagraram inumeráveis obras... [...] O homem atira-se aos títulos e às coisas. O gato satisfaz-se com o que é, contenta-se com o que tem. Ignora a inveja. A grama é sempre mais verde na margem fronteira, diz o japonês. Nossa própria margem nos basta. Sabemos que a idade de ouro não está atrás de nós, que o eldorado não está adiante. Não somos desesperados. Não esperamos nada, senão repetição... [...]. Trecho extraído da obra Akhenaton, a História do homem contada por um gato (Siciliano, 1995), do sociólogo, historiador, escritor e artista francês Gérard Vincent (1922-2013).

 

DESDE QUE CHEGASTE AO MUNDO DO SER, UMA ESCADA... - Desde que chegaste ao mundo do ser, / uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses./ Primeiro, foste mineral; / depois, te tornaste planta,/ e mais tarde, animal. / Como pode isto ser segredo para ti? / Finalmente, foste feito homem, / com conhecimento, razão e fé. / Contempla teu corpo - um punhado de pó - / vê quão perfeito se tornou! / Quando tiveres cumprido tua jornada, / decerto hás de regressar como anjo; / depois disso, terás terminado de vez com a terra, / e tua estação há de ser o céu. Poema do poeta, jurista e teólogo sufi persa Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī (1207-1273). Veja mais aqui e aqui.

 

UM CÃO ANDALUZ & O SURREALISMO – O filme surrealista Un chien andalou (1928), dirigido e escritor por Luís Buñuel & Salvador Dali, passa de "era uma vez" direto para "oito anos depois", utilizando a lógica dos sonhos, baseado na psicanálise de Freud, sobre o inconsciente e as fantasias. Representa uma reunião de imagens oníricas, encadeadas como se fossem um pesadelo, repleto de cenas metafóricas. A primeira cena mostra uma mulher que tem seu olho cortado por uma navalha por um homem. O homem com a navalha é interpretado pelo próprio Buñuel. Numa cena seguinte aparecem formigas saindo da mão do ator, uma possível alusão literária à expressão francesa fourmis dans les paumes (formigas nas mãos) que significa "um grande desejo de matar". A ideia do enredo seria uma viagem à mente perturbada de um assassino e as suas confissões traduzidas em imagens, porém, o propósito passa pelo senso e a ordem natural das coisas ausentes, constituindo-se numa importante tentativa de rompimento com toda a lógica e linearidade narrativa com forte apelo e referência à dimensão onírica. A ideia derivada dos próprios sonhos dos autores, complementada pela justaposição de imagens apontadas pelos dois, criou um curta cheio de imagens desconexas, e algumas até chocantes, como a do globo ocular sendo seccionado. Em se tratando de Surrealismo, Maurice Nadeau, na sua Histoire du Surréalisme (Seuil, 1958), assinala que "O surrealismo é concebido por seus fundadores não como uma nova escola artística, mas como um meio de conhecimento, em particular de continentes que até então não tinham sido sistematicamente explorados: o inconsciente, o maravilhoso, o sonho, a loucura, os estados alucinatórios, em resumo, o avesso do que se apresenta como cenário lógico”. Foi por esse período que foi adotada a experiência da escrita automática d’Os campos magnéticos (1920), de Breton e Philippe Soupault, enquadrando o movimento como sendo: “Automatismo psíquico em estado puro mediante o qual se propõe exprimir, verbalmente, por escrito, ou por qualquer outro meio, o funcionamento do pensamento. Ditado do pensamento, suspenso qualquer controle exercido pela razão, alheio a qualquer preocupação estética ou moral”. Neste sentido, Sarane Alexandrian, na obra Le surréalisme et le rêve (Gallimard-Littérature, 1974) observa que: O Surrealismo repousa sobre a crença na realidade superior de certas formas de associação desprezadas antes dela, na onipotência do sonho, no desempenho desinteressado do pensamento. Tende a demolir definitivamente todos os outros mecanismos psíquicos e a se substituir a eles na resolução dos principais problemas da vida. Segundo ela os surrealistas foram precursores do psicodrama de Moreno, tendo-se a perspectiva embasada nos depoimentos dado por Aragon, Baron, Boiffard, Breton, Carrive, Delteil, Desnos, Éluard, Gerard, Limbour, Malkine, Morise, Naville, Noll, Péret, Picon, Soupault e Vitrac. Na obra Lambeaux maudits d'une phrase absurde", in Folie et psychanalyse dans l'expérience surréaliste (Z'Éditions, 1992), de Fabienne Hulak, encontra-se que: "As atividades de escrita automática serão constantemente a prática deste `ser cortado em dois'". Para conhecer melhor o Manifesto do Surrealismo (Nau, 2001), acesse aqui, aqui, aqui e aqui.

A arte do pintor russo Viktor Lyapkalo.

 


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Segunda nova, Gilles Deleuze, Manuel Puig, Mário Quintana, Paulo Freire, Pérsio, Juan de Mena, Pupi Avati, Vanessa Incontrada, Fulvio Pennacchi, Walasse Ting & Sarinha Freitas aqui.

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Quando o amor é azul aqui.
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Crônicas palmarenses: as presepadas de Marquinhos e Marcelo aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: 
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quinta-feira, julho 02, 2009

HESSE, QUINTANA, JULIA LEMOS, MARX, FLORENCE NIGHTINGALE, DALI, BIDÚ SAYÃO, MAQUIAVEL, BIBLIOTERAPIA & VIOLÊNCIA NA ESCOLA

A arte do escultor e artista plástico israelense Yaacov Agam.

O QUE SE FAZ PELO JÁ FEITO – (Imagem: do escultor e artista plástico israelense Yaacov Agam) – UMA: DOS QUE SÃO & OS QUE NÃO SÃO – Existe gente para tudo! Seja para compartilhar e contribuir, seja para atrapalhar e destruir. Deu-me Maquiavel o tom de certos tipos: Há três espécies de cérebros: uns entendem por si próprios; os outros discernem o que os primeiros entendem; e os terceiros não entendem nem por si próprios nem pelos outros; os primeiros são excelentíssimos; os segundos excelentes; e os terceiros totalmente inúteis. Evidentemente que de lá dos tempos dele até agora, muitos outros tipos de cérebros, mais brilhantes ou peçonhentos resolveram dar as caras pra gente, mudança dos tempos. Aliás, dessas transformações ele mesmo previu: Uma mudança deixa sempre patamares para uma nova mudança. E outras tantas se processarão daqui pra frente, não se sabendo para o melhor ou pior, quem sabe. DUAS: DOS ALTOS & BAIXOS NÃO SE SABE O QUE PREVALECE, AFINAL - Pois sim, transformação é a lei da vida; tudo se altera com o correr dos tempos, desde mudança de pele aos pensamentos mais esdrúxulos e até aqueles tidos por definitivos. Há sempre uma onda majoritária, o tal zeitgeist, e todo mundo vai na leva, depois, com o tempo, é que se vê se boa ou não. Tenho sempre o pé atrás, Marx que vaticinou: O caminho do inferno está pavimentado de boas intenções. Depois é que a gente vê o tamanho do equívoco. E agora? O que fazer? Quintana que o diga: A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas. Agora sim, tenho que aprender a perguntar. TRÊS: NÃO HÁ RESPOSTA, TUDO ACONTECE! - Valho-me agora de indagar disso, daquilo, daquiloutro e o mais surpreendente é que as respostas pulam aos borbotões. Não mais uma resposta, muitas. Então, tudo que a gente fez e faz é que faz o labirinto de nossas vidas. Por isso vou de Florence Nightingale: Eu atribuo o meu sucesso a isto: eu nunca desisto ou dou alguma desculpa. Sigo sempre em frente, o que passou, passou; e o que virá, vou pronto ou não. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.


DITOS & DESDITOS - Você tem que criar a confusão sistematicamente, isso liberta a criatividade. Tudo o que é contraditório cria vida. O palhaço não sou eu, mas sim esta sociedade monstruosamente cínica e tão ingenuamente inconsciente que joga ao jogo da seriedade para melhor esconder a loucura. Pensamento do pintor e artista surrealista catalão Salvador Dali (1904-1989). Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: Eu não tinha voz alguma quando comecei. Os professores me disseram que eu era muito nova ainda, que minha família ia gastar dinheiro à toa. Mas eu insisti, chorei muito, garanti que não me importava com bailes, namorados, festas. E comecei a cantar. Expressão da célebre cantora lírica soprano brasileira Bidú Sayão (1902-1999). Veja mais aqui.

DEMIAN – [...] O acaso não existe. Quando alguém encontra algo de que verdadeiramente necessita, não é o acaso que tal proporciona, mas a própria pessoa; seu próprio desejo e sua própria necessidade o conduzem a isso. [...]. Trecho extraído da obra Demian (Civilização Brasileira, 1975 ), do escritor alemão Hermann Hesse (1877–1962). Veja mais aqui.

TRÊS POEMAS - VIRÁ ESTE AMOR: Virá este amor / assim como depois da noite / vem o dia / e a água / encontra o seu caminho / pelas vertentes. DESEJO: Alguém me beijará / esta noite. / Beijos pelo corpo / que adentrarão a alma. / Arquejo / o cavalo salta o arco / à hora final da madrugada. / Eu sou o orvalho / a umidade me lava / e me desperta úmida / na manhã ensolarada.  MARCAS: Quero-me bela / quando amanheço: / brilho na face, / brinco de turmalina. / Mas como livrar-me / dos saltos imprevisíveis? / Sim, / as marcas redesenham meu corpo / e outra beleza / em mim vem surgindo: / a que vem da luz / que sobre mim se acende / ao sair para viver o mundo. Extraídos da obra A casa estrelada (CEPE, 1997), da poeta e atriz Julia Lemos.


BIBLIOTERAPIA – A função terapêutica da leitura admite a possibilidade de a literatura proporcionar a pacificação das emoções. Remontando a Aristóteles, observa-se que o filósofo analisa a liberação da emoção resultante da tragédia – a catarse. O ato de excitamento das emoções de piedade e medo proporcionaria alívio prazeroso. A leitura do texto literário, portanto, opera no leitor e no ouvinte o efeito de placidez, e a literatura possui a virtude de ser sedativa e curativa. [...] A biblioterapia constitui-se em uma atividade interdisciplinar, podendo ser desenvolvida em parceria com a Biblioteconomia, a Literatura, a Educação, a Medicina, a Psicologia e a Enfermagem. Tal interdisciplinaridade confere-lhe um lugar de destaque no cenário dos estudos culturais. É um lugar estratégico que permite buscar aliados em vários campos e um exercício aberto a críticas, contribuições e parceiras. A terapia ocorre pelo próprio texto, sujeito a interpretações diferentes por pessoas diferentes. Tanto é o texto que "cura", que já foi sugerido, inclusive, o uso do termo literapia, unindo literatura e terapia, com ênfase no literário e no ficcional. Permanece, entretanto, o uso do termo tradicional, biblioterapia. Vale destacar que não é a designação o mais importante na atividade de terapia da leitura, mas, o resultado obtido. Trechos extraídos do artigo A leitura como função terapêutica: biblioterapia (Revista Biblioteconomia, 2001), da professora da UFSC, Clarice Fortkamp Caldin, que em uma entrevista concedida à Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina (2018), à jornalista Carla Sousa, expressou que a Biblioterapia: [...] Passa primeiro pelo gosto de ler. Se o bibliotecário não gosta de ler ele não vai fazer essa atividade. Quando eu entrei para o curso de Biblioteconomia achava que ser bibliotecário era a coisa mais maravilhosa do mundo, porque poderia ler muita coisa, porque ia ler todos aqueles livros que ia catalogar e classificar. Mas teve uma coisa que me chocou muito. Uma professora disse: ‘vocês nem precisam ler o livro, basta ler a ficha catalográfica, ou a orelha do livro e dali fazem tudo’. E vejo que, muita gente, que ainda trabalha em biblioteca acha que é assim. Mas, é importante que leia mais que isso, o livro às vezes trata de mais de um assunto e ele tem de decidir qual é o mais relevante, pois o livro só pode ficar em um lugar da estante. Se o bibliotecário gosta de ler e, especialmente, gosta de literatura, isso já é um primeiro passo. Depois disso, é uma luta e nada vem de graça. Tem que tentar influenciar o diretor da instituição para que ele entenda o valor da literatura. Conseguindo isso, já é metade da luta ganha. E é preciso conquistar aliados, parceiros, porque sozinho ele não vai conseguir o trabalho neste universo temático. Ele precisa saber que vai enfrentar desafios. E, também tem que se apropriar da teoria para ficar mais claro o que vem a ser a Biblioterapia. Existem os artigos online, mas é necessário muita cautela e direção nessa pesquisa porque tem muito trabalho copiado. Às vezes, fico me perguntando se fazem isso por má fé ou má formação. Infelizmente, a maioria que escreve sobre Biblioterapia é aluno de Biblioteconomia, mas não usa corretamente a norma de citação, isso é recorrente. Hoje tem muita coisa escrita, mas não quer dizer que todas são boas. [...]. Pelo visto, a biblioterapia é a prescrição de materiais de leitura com função terapêutica, utilizada como um importante instrumento no restabelecimento psíquico de indivíduos com transtornos emocionais. Ela admite a possibilidade de terapia por meio da leitura, contemplando não apenas a leitura de histórias, mas também os comentários adicionais a ela, e propõe práticas de leitura que proporcionem a interpretação do texto. É também definida como o processo entre a personalidade, a realidade e os problemas do leitor, com a identificação com um personagem ou uma história. Essa identificação causa uma relação entre a literatura e o leitor, que incorpora traços dessas histórias para o seu mundo, permitindo ao leitor, conhecer suas emoções, conhecer emoções parecidas e ajudá-lo a superar seus problemas pessoais.


A VIOLÊNCIA NA ESCOLA - A violência é um fenômeno que tem ocorrido nos mais diferentes níveis sociais, profissionais, ambientais e culturais, entre outros, atingindo desde as camadas mais pobres da população, como as mais abastadas. Em razão disso, a violência tem se configurado por meio de uma multiplicidade de formas, ocorrendo no interior dos lares, no trânsito, no trabalho e em todas as relações humanas, notadamente na escola. A violência escolar tem assumido uma dimensão que vai desde os ataques ameaçadores e físicos, até o tráfico e consumo de drogas, bem como o envolvimento de estudantes das mais diferentes faixas etárias no crime organizado. Em razão disso que o presente artigo é destinado para abordagem da violência e seus reflexos na organização educacional, considerando ter a educação assumido papel fundamental na vida de qualquer pessoa, quando passou a ser desenvolvida para a promoção da dignidade humana e preparação para vida e para o trabalho.
A VIOLÊNCIA - A etimologia da palavra violência tem sua raiz, conforme Cavalcanti (2010), no prefixo latino vis significando força e traduzindo as idéias de vigor, potência, impulso e excesso. Para o autor mencionado, a palavra vem do latim violentia e do verbo violare com o significado de violento, bravio, profanação, transgressão. Tais idéias traduzem o sentido de violência, na expressão de Cavalcanti (2010, p. 29), como “[...] um ato de brutalidade, invasão, ofensa, proibição, sevícia, agressão física, psíquica, moral ou patrimonial contra alguém, e caracteriza relações intersubjetivas e sociais definidas pela ofensa e intimidação pelo medo e terror”. Com essa idéia, a violência seria o próprio abuso da força. Neste sentido, no entendimento de Michaud (1989, p. 11): [...] há violência quando, numa situação de interação, um ou vários atores agem de uma maneira direta ou indireta, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou mais pessoas em graus variáveis, seja em sua integridade física, seja em sua integridade moral, em suas posses, ou em suas participações simbólicas e culturais. Assim, o significado de violência, para Zimerman (2001), deve considerar o processo de uma agressividade sadia para o de destruição, em razão da ocorrência de transição identificada de um estado mental de vigor para o de uma violência. A conceituação de violência dada por Chauí (1998, p. 80) traduz o entendimento de “[...] conversão de diferença e assimetria numa relação hierárquica de desigualdade, com fins de exploração, dominação e de opressão”. É, segundo ela, a desigualdade de relação entre superior e inferior, uma ação que trata o ser humano não como sujeito, mas como uma coisa. Para Carvalho (2002, p. 137), a violência é “[...] uma agressão, de ordem física ou moral, voluntária, desferida contra um indivíduo ou contra um grupo, podendo ser legítima ou ilegítima”. Já para Sodré (1996, p. 207), o conceito de violência deve considerar a agressividade que é: [...] uma força resultante da disposição espontânea do ser vivo, como uma espécie de "pulsão motora" para o controle necessário do meio ambiente ou para as ações competitivas recorrentes na existência cotidiana e, neste sentido, enraíza-se tão profundamente quanto a propensão amorosa ou sexual na composição psicobiológica do ser humano. Porém, observa Silva Filho (2003, p. 32) que “O conceito de violência se instaura e ganha significado a partir da humanidade”, considerando que o homem rompe para transformar o mundo e a sua existência, implicando a capacidade de avaliar, escolher e atuar. Por isso, a violência se distingue de agressividade, extrapolando a noção de dano físico e incluindo o complexo caráter das interações sociais, assumindo, assim, uma multiplicidade de formas e intensidades, sejam de caráter moral, social, físico, psíquico, cultural, político, entre outros. Nessa direção Benevides (1983, p. 103) assinala que a agressão tanto é a ação como o efeito de agredir, atacar, ofender uma coisa ou pessoa, ou seja, um bem juridicamente protegido: [...] agredir significa atacar alguém na sua pessoa física ou moral ou em um dos seus bens juridicamente protegidos, que implica em hostilidade destrutiva, ou seja, a forma conflitiva investida por violência. [...] psicopatologicamente, a violência e a agressão não podem ser considerados patognomônicos de nenhum estado psicopatológico particular. Psicodinamicamente, a agressão deve ser considerada à luz da conjuntura sóciocultural. [...] a fisiopatologia da agressão e violência é um vasto campo por onde deverão desfilar infindáveis hipóteses e pesquisas. Além disso, as circunstâncias existenciais a que se submete o indivíduo durante sua trajetória de vida tendem a inviabilizar uma sistematização mecanicista acerca deste tipo de comportamento motivado. Já para Morais (1981, p. 25), a violência é entendida como “[...] tudo que possa agredir a integridade pessoal ora incluir desde o latrocínio até o trabalho de um operário em uma linha de montagem, passando pela especulação imobiliária e outros absurdos permitidos ou não pela lei”. Sob o ponto de vista pragmático, arremata, então, Cavalcanti (2010, p. 25) que a violência “[...] consiste em ações de indivíduos, grupos, classes, nações que ocasionam a morte de outros seres humanos ou que afetam sua integridade física, moral, mental ou espiritual”. No entendimento de Machado (2010) a violência é recorrente e sistemática na história da civilização: “[...] quando se visualiza todo sacrifício humano num sisifismo perene, provando, inclusive, a completa falta de compreensão, tolerância e solidariedade do próprio homem que se posiciona pela dominação e pela acumulação”. Nesta condução, Cavalcanti (2010, p. 30) assinala que a violência se apresenta “[...] em suas mais variadas formas de manifestação afeta a saúde porque representa um risco maior para a realização do processo vital humano: ameaça a vida, produz enfermidade, danos psicológicos e pode provocar a morte”. Por isso, a autora assinala que ela ocorre em inúmeros contextos, tanto na esfera pública quanto no âmbito privado. Percebe-se, mediante o exposto, que a violência possui sentidos diversos e diferenciados, que vão desde os atos de agressão física, desrespeito, hostilidade, discriminação, preconceito, insulto, abuso, lesão, assassinato, humilhação, indiferença ante o sofrimento alheio, pressões psicológicas nas interações opressivas, decisão política que produz conseqüências sociais nefastas, desvalorização sistemática dos filhos por seus pais ou das mulheres por seus maridos, negligência com os idosos e deficientes, orientação econômica que se abate sobre setores da população como um desastre da natureza e a própria natureza, quando transborda seus limites normais e provoca catástrofes. Por essa razão, de um modo geral, a violência se define como ações, atos e comportamentos que atingem os outros com danos, humilhações ou desrespeito, caracterizado pelo o uso injusto e abusivo de poder, representando tanto uma agressão física, como negligência, omissão, desvalorização, como transgressões e violações culpáveis ou dolosas.
AS CAUSAS DA VIOLÊNCIA - As causas que levam à violência são muitas e diversas que se manifestam de forma complexas que, para Cavalcanti (2010, p. 29): [...] é percebida de forma heterogênea e multifacetada, a partir da própria estrutura simbólica vigente na sociedade. [...] a percepção contemporânea da violência foi ampliada não apenas do ponto de vista de sua intensidade, mas igualmente na perspectiva de sua própria extensão conceitual. Com isso, pode-se identificar as causas da violência numa série de fatores que, conforme Pedrosa (2005), podem estar na pobreza, na miséria, na desigualdade, na distribuição de renda, entre outros. Para Machado (2010, p. 1), as bases da violência: [...] estão mesmo na insatisfação, na incompreensão e na falta de solidariedade. [...] no desenvolvimento da humanidade a insatisfação e a ganância, a incompreensão e a intolerância, o sectarismo e a imposição, a dominação e a servidão, e toda essa cultura fez eclodir a violência, a partir da demonstração da necessidade de dominação do homem. É o que deduz Cavalcanti (2010, p. 25) ao mencionar que a violência: [...] a violência seria própria da essência humana (do estado da natureza). [...] os homens são governados por um desejo gerador de conflitos e rivalidades que apresenta uma estrutura mimética: algo é desejável para alguém exatamente na medida em que também é desejado pelos outros, advindo daí um conflito. Esta atitude instintiva apenas pode ser contida quando a organização social substitui a violência de todos contra todos pela violão de todos contra um. Tal substituição é proporcionado pelo sacrifício, mecanismo que tem um papel social fundamental na medida em que funciona como instrumento de absorção da violência particular e de prevenção da violência futura. [...] a violência é uma possibilidade sempre presente, pois sua emergência depende, na verdade, dos próprios mecanismos de interação social [...] a constatação de que a organização social humana encontra-se marcada pelo fenômeno da violência. Os fatores contribuintes da violência, segundo Vasconcelos (2010), são inegavelmente a pobreza, a ausência do Estado no espaço de regulação do poder, a concentração de renda, entre outros, tornando com isso a violência um fenômeno com diversas causas. Salienta Machado (2010) que entre os fatores de promoção da violência, estão a impessoalidade das relações nas grandes metrópoles; na desestruturação familiar em razão das condições mínimas de afeto e convivência, sendo esta última causa e efeito; o subemprego que é um fato relevante porque afeta a auto-estima e provoca a busca por reconhecimento e sucesso a qualquer custo ou oportunidade; o tráfico de drogas ilícitas; a disseminação das armas de fogo; a desigualdade social,  a discriminação; a exclusão social; entre outros fatores. No dizer de Machado (2010) as desigualdades sociais aumentaram a pobreza e a miséria, tornando-se enormes por causa da concentração de renda que favorece apenas alguns setores. Com isso, nasce a crise social e econômica que aumenta a carência de oportunidades de trabalho, de saúde, de habitação, de ensino e de vida. Essa desigualdade é constatada por estudiosos como produtora da violência que é determinada por valores sociais, culturais, econômicos, políticos e morais de uma sociedade. E arremata que tais fatores resultam na violência e na criminalidade que se expressam desde os ataques morais, lesões corporais e éticas, abuso, seqüestros, roubos, impunidade, processualística ultrapassada, conivência e outros práticas violentas em geral. Neste sentido, identifica-se uma tipologia variada de violência que, segundo Maldonado (1997), pode ser estrutural, sistêmica e doméstica. A violência estrutural, no entendimento de Maldonado (1997, p. 9), é aquela “[...] referenciada ao estado e condições de extrema injustiça e adversidade sobre a parcela mais pobre da população”, esta identificada como de risco e expressada pela miséria e pobreza, pela falta de condições mínimas de dignidade humana, desigualdade pela má distribuição de renda, falta de assistência em educação e saúde, exploração nas relações de trabalho, crianças abandonadas, entre outros, como um efeito trágico da violação dos direitos humanos. A violência sistêmica, segundo Maldonado (1997), é aquela que se expressa por meio do autoritarismo do Estado, por meio da violência policial, da ação de grupos de extermínio e dos maus tratos e tortura aos encarcerados, violando os direitos humanos. Verifica-se, mediante isso, que existem além desses tipos outros tantos que são identificados por Santos (1995, p. 16), sugerindo que a violência é “[...] heterogênea, ou seja, varia de acordo com os grupos e espaços sociais, assumindo, pois, um caráter polissêmico e complexo”. Em vista disso, assinala Carreira (2012, p. 5) que “A violência é traduzida, hoje, como um fenômeno preocupante, pois é  presença marcante nas diversas sociedades de todo o mundo nas mais variadas culturas”, isso pelas formas variadas, sutis e camufladas perversamente das manifestações violentas nas relações sociais. Assim sendo, a violência está expressa de varias formas, como sendo nas guerras, na fome, na miséria, no desemprego, nas precárias condições de moradia, saúde e transporte, na injustiça, na impunidade, na destruição do meio ambiente, na corrupção, no racismo, na homofobia, na discriminação das mulheres, na tortura, nas chacinas, entre outras tantas formas de manifestação.
A VIOLÊNCIA NO BRASIL - A violência no Brasil, segundo Machado (2010), vem desde o primitivo enfrentamento tribal indígena e, principalmente em maiores proporções, desde o primeiro dia da invasão portuguesa para o processo de colonização em 1500, quando se deu o genocídio indígena e a escravidão que se prolongam disfarçados até o momento presente. Neste tocante, assinala Cavalcanti (2010, p. 30) As populações indígenas, vitimas iniciais desse processo, foram escravizadas ou exterminadas pelas guerras empreendidas pelo conquistador português. O segundo alvo da violência colonizadora foi a população negra. Como se sabe, entre os séculos XV e meados do século XIX, aproximadamente 30 milhões de negros foram violentamente retirados de seu continente de origem, traficados, mortos e transformados em escravos. Depois disso, conforme Cavalcanti (2010, p. 30), “No século XX a historia mundial foi marcada pela violência praticada por duas grandes guerras que vitimaram milhões de pessoas”. Nesse período, no entendimento de Adorno (1991, p. 66) que a violência endêmica alcançou níveis assustadores ampliada pelo envolvimento de policiais civis e militares na criminalidade, pelo fato da delinqüência e os crimes violentos terem aumentado, como também porque “[...] as políticas econômicas neoliberais aprofundaram as desigualdades de um sistema de relações sociais já bastante assimétricas e condenaram milhões de pessoas a viverem na pobreza e na exclusão social”. E isso mesmo com a promulgação da Constituição Federal de 1988 consolidou direitos e garantias ao cidadão. No presente se constata na realidade brasileira, segundo Cavalcanti (2010, p. 30) que: No inicio do século XXI, em que se tinha a expectativa de que a sociedade estaria tão evoluída a ponto de conviver em harmonia e paz, a mídia continua a denunciar o aumento sem precedentes de várias formas de violência, seja pela pratica de crimes, como assassinatos, seqüestros, roubos, estupros, ocorridos nos mais variados rincões brasileiros. [...] a face menos visível continua escondida e pouco reconhecida. São dados sobre o aumento do desemprego, da prostituição infantil, da diferença salarial entre homens e mulheres, entre pessoas brancas e negras, da pratica da violência domestica, etc. Esconde-se naquilo que se chama senso comum. Com isso, entende Cavalcanti (2010, p. 34), que a sociedade brasileira é marcadamente excludente: [...] Ela impede, sistematicamente, que uma grande parcela de seus cidadãos tenha acesso aos bens essenciais a sua nutrição, preservação da saúde, defesa da vida, entre outros. [...] Por isso é que os excluídos são ao mesmo tempo vitimas e autores dessa violência.  [...] o crescimento da violência criminal encontra-se associado à própria desorganização das instituições responsáveis pela manutenção da ordem publica, bem como à violência praticada pelas instituições, como nos casos de violência policial. Nesse cenário, Cavalcanti (2010, p. 33) detecta no Brasil: [...] diversas formas de violência, como a violência urbana, a violência praticada pela discriminação contra as minorias (negros, índios, mulheres, crianças e idosos), a violência social em virtude dos altos índices de desigualdade social e pobreza, a violência doméstica, entre outras. O crescimento da violência no Brasil não é composto de uma única explicação. Certamente se encontra associado à lógica da pobreza e da desigualdade socioeconômica. [...] não há como negar a relevância da desigualdade socioeconômica na explicação do crescimento da violência. [...] exige analise dos vários aspectos da denominada exclusão social. A violência com ocorrência no recinto escolar no Brasil, por exemplo, é fruto de processo histórico marcado pela opressão e pela desigualdade social, entre outos fatores contribuintes.
A VIOLÊNCIA NA ESCOLA - Na escola, segundo Cunha (2009), a violência é multifatorial e está relacionada com o comportamento, tendo um impacto considerável no sistema educacional brasileiro, tornando-se um dos principais problemas de saúde pública no país. A violência escolar, segundo Vasconcelos (2010) possui diversas formas diferentes de manifestações, seja por roubo, depredações, agressões, vandalismo, ameaças, tráfico de drogas, entre outras, envolvendo professores e alunos por meio de situações conflituosas e violentas. É o que contextualiza Carreira (2012, p. 6) ao assinalar que “[...] tem sido palco de manifestações agressivas, variando desde depredações até agressões verbais e físicas”, por meio de ações nefastas como vandalismos, incivilidades, ferimentos, violência sexual, agressões verbais, roubos, bullying, crimes, entre outros, formando um manancial de relações conflituosas. Isso sem contar, conforme Abramovay (2009), com casos de homofobia, racismo, obstáculos nas relações entre professores e alunos, formas diversas de violências físicas e simbólicas. As causas da violência na escola, segundo Marra (2004), são indefinidamente variadas, considerando desde as causas sociais identificadas na ausência de políticas públicas inclusivas que permitem a exclusão social, inibem o acesso a uma educação de qualidade e trabalho digno, até as causas psicológicas que incidem na sobrevivência, aceitação e autoafirmação, a exemplo da formação do poder paralelo do narcotráfico. No ambiente escolar, Abramovay (2009) identificou três tipos de violências, quais sejam: a dura, a simbólica e a microviolência ou incivilidade. A violência dura, segundo Abramovay (2009), é aquele que se refere aos atos enquadrados como crimes ou contravenções penais, tais como ameaças, lesão corporal, furto, roubo e tráfico de drogas, entre outras. A violência simbólica, para Abramovay (2009), é aquela que se caracteriza pela forma de dominação e poder estruturada na sociedade permitindo que as pessoas não percebam a violência. Observa Silva Filho (2003) que a violência simbólica que ocorre dentro do universo educacional converge para a violência tipificada na ocorrência policial, tais como pichações, ameaças, agressões, estupros, homicidios, explosões, depredações, tráfico e consumo de drogas, compondo o as normas, os valores, a visão de mundo e processos sociais. Isso se deve ao fato do afastamento do Estado da arena social, quando as escolas passam a ser destituidas de seu carater agregador para seguirem à propria sorte nas ações administrativas e políticas. Já a microviolência ou incivilidade, na visão de Abramovay (2009), é aquela violência não contradiz os regimentos e regras dos estabelecimentos, nem a legislação, identificadas nas grosserias e desordens. Nesse contexto, entende Camacho (2012, p. 8) que esse tipo de violência “[...] decorre da falta de controle sobre as condutas e da ausência da civilidade, incorpora a idéia de fundo de que é a civilização que canaliza e estabelece a contenção dos instintos”, isso porque a escola é considerada responsável pela hominização e civilização dos alunos, exercendo completo controle sobre suas emoções, condutas e impulsos agressivos. Entende Vasconcelos (2010, p. 190) que “A violência nem sempre está nos jovens pela influência do tráfico existente nos bairros onde residem. Eles podem recursar as nomeações recebidas, vindas sob a forma de nomes, olhares, atitudes para com eles”, uma vez que o descaso, injúria, discriminação e preconceito por serem moradores da favela é o que recusam, encontrando saída na violência para destruir o outro. Além do mais, observa Camacho (2012) que as medidas de repressão da violência adotadas pelas escolas são, muitas vezes, dribladas pelos alunos, por isso, intensamente perigosa porque não é controlada por ninguém, não possui regras ou freios e porque passa a ocorrer constantemente no cotidiano escolar. No contexto da violência da escola, um fator importante a ser considerado é a família e as relações familiares dos estudantes, bem como a relação destes com a escola. A família, segundo Ribeiro (2007), exerce papel fundamental no comportamento, vivência e socialização dos alunos, devendo ter a percepção na percepção do mundo envolvente e nas relações interpessoais, sendo, portanto, observada no contexto da comunidade que a integra. No seio familiar, identifica Cunha (2009), que estão as bases e causas da violência escolar, considerando a interação entre pais e filhos, na identificação de comportamentos que vão desde a autoridade, responsividade e afetividade dentro das práticas parentais. Esses comportamentos vão determinar o vinculo relacional entre os filhos e os colegas e professores no recinto escolar. Nesse contexto, seleciona Cunhar (2009) que encontram-se os pais autoritários, como sendo aqueles que controlam coercitivamente os filhos e concedem pouca autonomia a eles. Também os permissivos que são aqueles que são pouco exigentes, responsivos e envolvidos com os sentimentos dos filhos. Os negligentes que são aqueles que possuem baixo nivel de responsividade e exigência, indiferentes às necessidades do filho. E, por fim, o autoritativo que são aqueles pais que possuem altos níveis de exigências, responsividade e envolvimento por meio de controle adequado. Nesse sentido, entende o autor acima mencionado que o ambiente familiar reflete na relação escolar, uma vez que uma familia desequilibrada encaminha esse desequilíbrio para a escola. Daí ser importante o papel da familia na educação dos filhos. Há que se considerar, ainda, a observação de Cunha (2009, p. 38) de que “Embora a maior parte dos comportamentos anti-sociais protagonizados por adolescentes ocorram em contextos extrafamiliares, como na escola ou na comunidade, existem fortes evidencias de que este comportamento tem suas raizes no ambiente familiar”. Tal fato se embasa na expressão de que contribuem para a violência, segundo Ribeiro (2007), fatores sociais tais como o desemprego, a pobreza e a classe social, as relações interpessoais no seio do agregado familiar, entre outros, que afetam indubitavelmente algumas comunidades e famílias, além de sustentar a violência. É nesse contexto que se encontra a escola, quando, depois da promulgação da Constituição Federal de 1988, passou a ser a organização não só responsável pelos conteúdos acadêmicos, mas pela promoção da dignidade humana e do exercício da cidadania, bem como pela preparação para a vida e para o trabalho de todo cidadão brasileiro, conforme expresso no art. 205 da Carta Magna, regulamentado pela Lei 9394/96 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Apesar das previsões legais, a escola se encontra submersa numa série de fatores, entre eles, o da desigualdade social, pobreza, má distribuição de renda, malversação do erário público, entre outros, que coibem o cumprimento do seu papel e, por consequência, imobilizada por tal, torna-se impotente no combate à violência. A escola se encontra, segundo Ribeiro (2007) num contexto sociocultural carenciado e que recebe discentes pertencentes majoritariamente a uma classe social baixa, apresenta um ethos de baixa qualidade, se se levar em conta as percentagens elevadas de vitimação, agressão e até de insegurança, bem como exercita suas funções onde o Estado não marca sua presença institucional. Dentro desse conglomerado de fatores, ainda vem, conforme mencionado anteriormente, a situação das famílias que incidem diretamente sobre a convivência, comportamento e relação dos estudantes. Por isso, entende Ribeiro (2007), os pais devem procurar não só fomentar a comunicação com os filhos, através da partilha de momentos de lazer mas também pôr em prática um estilo autoritário-democrático pois práticas educativas demasiadas rígidas ou permissivas, perturbam o desenvolvimento psicossocial da criança, podendo até desenvolver comportamentos agressivos. Nesse cenário, defende Silva Filho (2003) que se faz necessária a adoção de políticas públicas direcionadas para a dinamização e o aparelhamento do ambiente escolar, bem como de outras políticas que devem ser ratificadas, notadamente aquelas alusivas às conquistas dos direitos sociais apoiadas no principio da dignidade humana e no exercicio da cidadania. Por fim, Guadalupe (2007), Abromavay (2009) e Magalhães (2006) defendem a necessidade de adoção de uma política articulada e integrada envolvendo os principais atores, visando possibilitar o desenvolvimento das aprendizagens indispensáveis aos alunos da escola básica, tanto no plano da autorrealização de cada criança ou jovem quanto no plano social para o exercício consciente de uma cidadania ativa, isso porque a escola hoje não tem mais apenas o papel de ensinar conteúdos acadêmicos, mas também de ensinar comportamentos e cidadania, colaborando na formação do caráter dos estudantes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS - O presente artigo abordou a questão da violência e os seus reflexos no ambiente escolar, considerando o papel da educação, a ausência do Estado, as relações familiares e as causas e efeitos que o desequilíbrio existente entre estes, possam corroborar um ambiente hostil que possibilite a violência na organização educacional. Preocupou-se inicialmente em fundamentar teoricamente a violência, suas causas, consequências, configurações e formas, para identificar a violência no Brasil, notadamente no ambiente escolar. Tendo por objetivo descrever e analisar a situação da escola diante do fator violência, observaram-se as previsões constitucionais e as regulamentações dadas pela LDB, no propósito de que a educação por ser um dever do Estado e da família, deve, por consequência, ser realizada de uma forma articulada de ações entre a escola, as autoridades e a familia. Além do mais, a educação que passou a ter o papel de promover a dignidade humana e o exercicio da cidadania, preparando o cidadão para a vida e para o trabalho, necessita, por sua vez, dessa ação articulada entre a escola, o Estado e a familia para que a escola possa cumprir o seu papel. Essa articulação, evidentemente, depende de políticas públicas direcionadas para tal, procurando estabelecer a promoção contínua do bem-estar social, da dignidade humana e do exercicio da cidadania. Por conclusão, observou-se que a violência possui um carater multiforme, complexo e global, tornando-se um fenômeno que acomete toda a sociedade nos seus mais diferentes níveis sociais. Constatou-se com esse estudo que a violência incide diretamente no desenvolvimento e nos resultados da ação educativa, tendo causado inúmeros problemas tanto para professores, como para alunos, familiares e comunidades. Essa violência que atinge diretamente professores, alunos, pais e comunidades, tem seu reflexo na sociedade em geral, contribuindo para o desequilíbrio social. As causas da violência e as suas consequencias podem ser prevenidas por meio de políticas públicas e ações de valorização do ser humano, principalmente a organização escolar que agora envolve não só seus profissionais e alunos, como toda comunidade que assiste.
REFERÊNCIAS
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BENEVIDES, Maria Victoria. Violência, povo e policia. São Paulo: Cedec/Brasiliense, 1983.
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CARREIRA, Débora. Violência nas escolas: qual é o papel da gestão? UCB, 2012.
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GUADALUPE, Thiago. Violência nas escolas: testando teorias de controle social. Belo Horizonte: UFMG, 2007.
MACHADO, Luiz Alberto. Violência. Pesquisa & Cia. Disponível em http://pesquisaecia.blogspot.com/2009/02/violencia.html. Acesso em 10 jun 2010.
MAGALHÃES, Solange. Formação de professores, educação, violência escolar e a proposta de uma educação para a paz: um estudo interistitucional das percepções e propostas produzidas pelos programas de pós-graduação da região centro-oeste. Rio de Janeiro: UERJ, 2006.
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ZIMMERMANN, David. Violência: estudos sobre psicoterapia analítica de grupo. Porto Alegre: Artmed, 2001. Veja mais aqui, aqui e aqui



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