quinta-feira, outubro 03, 2019

LAURA DE PETRARCA, RŪMĪ, ROUGEMONT, ANNIE LEIBOVITZ, PLÍNIO MARCOS & AMIGOS DA BIBLIOTECA


LAURA DE PETRARCA - Nem sempre sincero, escrevo com sinceridade: esta mulher eu amei mais que o desespero. Quando a vi naquela manhã de abril, sexta-feira santa na catedral de Avinhão, cabelos aos ventos e a aura do amor, entre a epidemia da peste e a minha temporada solitária, era o oásis, refrigério do meu viver. Nela nenhum dia nem nenhuma noite era igual. O desejo de toda a gente e de todo o lugar, era a mulher dos meus sonhos real e viva entre portas abertas, trilhas desbravadas, todas as formas e cores do amor: o verde da Natureza, a chuva de flores, o murmúrio das águas, a sua serenidade de céu maior que a expressão dos raios solares, mais fascinante que as profundezas oceânicas, mais tentadora que os mistérios ocultos de tudo, maior que a grandeza infinita das galáxias. Era ela, a madonna Laura com seus jovens olhos resplandecentes, casta, modesta, gentil, láurea. Olhava nos meus olhos e eu todo deserto incendiado, insubmisso a me revirar pela ânsia de tomar sua mão, tocar-lhe as faces, ouvir a doçura de sua voz, afetos que me eram e são de uma alegria indescritível e toda derramada nos meus versos exclamatórios, minha prosa incontida, meu testamento antecipado, o meu desejo de glória: possuí-la e tê-la entre os meus braços e cantá-la por trezentos e dezessete sonetos inventados, vinte e nove canções com toda minha inquietude, dissabores, crises espirituais - o amor a queimar perene no Rerum vulgarium fragmenta, Il Canzoniere, e celebrada nas Rime sparse, tudo fiz para ela. Nem mesmo a coroação no Capitólio podia aplacar esse amor, a minha desgraça e as ruinas do mundo. Eu me retirei da vida e na clausura de Vaucluse, galguei até o Mont Ventoux e a paisagem alpina era ela amada e rodeada de primavera, a passear pelas ruas da cidade encarcerada, como se distribuísse felicidade, restituísse a longínqua pátria e apaziguasse a distância do tempo entre os que chegaram e os que partiram para nunca mais. Era ela e sempre o alento para meu coração asceta, vencedor e vencido, prisioneiro do passado, pioneiro do futuro, até me esquecia da corrosão do tempo, da contingência da morte, tudo ao mesmo tempo, nas lamentações de todas as vicissitudes do amor. Nada humano me era, então, mais estranho. E tudo isso perto dela podia e nem quer dizer nada, nem representar nada e eu revia pela milésima vez a cor do seu sorriso sobrevoado por toda maravilha vital, estonteante na minha fé inabalável e a maldição da descrença no reino dos vivos. Era a sua luz difusa que suavizava as tentações do meu coração atormentado, o que me fazia valer de todo entusiasmo amoroso entre o gozo de tê-la e o sofrimento de perdê-la, oh, obra-prima do Universo, me refugiava nessa Mulher sem véus, linda e assimétrica escultura viva, Vênus da carne pecaminosa do meu prazer, a alma da minha comunhão, que despertava desejos simultâneos e poderosos, maiores que a mim mesmo, irrefreáveis, indomáveis. E mais eu deveria louvar perseguindo suas pegadas no pântano do meu peito e ela era aquilo que será e sugeria coisas de outras coisas, sabe-se lá, o que possui e o que esconde por trás daquela formosura, a transpor plagas e eu que a vi, jamais esqueci e permanece na memória com a mesma vitalidade do primeiro dia, rara e bela enquanto se penteia à janela, para I Trionfi, tudo para ela, o Lamento do Mago e o meu apelo de paz diante de um mundo de aventureiros, a minha dor desse mundo no ser reluzente da amada, que traduzia os ruídos dissonantes de que a verdade não se encontra por aí, mas na profundeza da alma. Não tenho a capacidade de esquecer, vivi e vivo desde então o drama do grande amor: vivo nela e para ela na minha solidão com todos os seus fantasmas e sombras, titubeante diante do simulacro da realidade, enamorado eterno da mulher amada que habita viva todo meu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] A paixão é essa forma de amor que recusa o imediato, foge do próximo, quer a distância e inventa-a de acordo com as necessidades, para melhor se ressentir e exaltar. Esta definição abrange a maior parte dos verdadeiros romances, embora eu não aceite de modo nenhum as melhores obras que foi estabelecido incluir neste género literário, pois, independentemente da sua qualidade enquanto arte, da sua notoriedade ou do seu alcance humano, incluo apenas obras onde transparece, dominador, o arquétipo medieval de Tristão. [...]. Trecho extraído da obra Os mitos do amor (Horizonte, 2001), do escritor e ambientalista suíço Denis de Rougemont (1906-1985). Veja mais aqui.

DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA – [...] II ATO (Pano abre, vão entrando Tonho e Paco. O primeiro traz um par de sapatos na mão nos bolsos, as bugigangas roubadas. Está bastante nervoso. Paco traz um porrete na mão e está alegre.) PACO— Belo serviço. TONHO— Você é um miserável! PACO— Não começa a encher o saco. TONHO — Não precisava bater no cara. PACO — Bati e pronto. TONHO — Agora a polícia vai pegar no teu pé. PACO — Os tiras não sabem quem foi. TONHO — O sujeito que levou a porrada sabe. PACO — Ele está estarrado. TONHO — Vai sarar e te entrega. PACO — Que nada! Aquele se acabou de vez. TONHO — Deus queira que não. PACO — Poxa, meu! Naquele nem Deus dá jeito. Mandei o desgraçado direto pras picas. TONHO — E a mulher? Esqueceu da mulher? PACO — Que tem ela? TONHO — Ela também viu seu focinho. PAGO — E daí? Eu também vi o dela. TONHO — Ela te entrega pros tiras. PACO — Eu quero que ela se dane. Ela não sabe onde eu moro. TONHO — Ela descreve o seu tipo e a polícia te acha. PACO — Poxa, tira não é bidu. Não acham ninguém. TONHO — Não, é? Quero ver quando eles te pegarem. PACO — Não me aporrinha, seu! A mulher tinha cara de fuinha, deve ser uma burrona. De corpo ainda quebrava um galho. Mas de cara era um bofe. Não vai descrever ninguém. TONHO — O único sabido é você. PACO — Eu sou mesmo. TONHO — Espera pra ver. Vai em cana direto. PACO — Se eu for em cana, quem se estrepa é você. TONHO — Quem dernibou o cara é que se dana. PACO — E foi legal pra chuchu. Poff... E o cara caiu que nem um balão apagado. TONHO — Podia ser muito fácil. Não precisava bancar o valente. PACO — Bancar o valente, o cacete! Dei pra valer. Sou mau paca. Pra mim, não tem bom. Você viu no parque. O cara se fez de besta, tomou o dele. TONHO — O cara não fez nada. Tomamos o que queríamos, era só vir embora. Não precisava bater. PACO — Bati. E daí? Vai se doer por ele? TONHO — Eu, não. Mas a polícia vai. PACO — Você me torra o saco com essa história de polícia. TONHO — Natural. PACO — Natural o quê? Você está é cagado de medo. TONHO — Claro. Eu não quero ser preso. PACO — Cadeia foi feita pra homem. TONHO — Não pra mim. PACO — Você é rôelhor que os outros? TONHO — Eu estudei. PACO — Bela merda! Pra levar a vida que você leva, tanto faz estar preso ou solto. (Pausa.)E tem um negócio: Se um cara fresco como você vai em cana, está perdido e mal pago. A turma se serve às tuas custas. Logo vira a Boneca de todos. Mas disso acho que você vai até gostar, porque é bicha mesmo. TONHO — Tomara que a polícia te pegue logo. PAGO — Já te falei que se me pegarem o azar é seu. TONHO — O meu negócio é leve. Uns três meses. Agora você fica apodrecendo lá. PACO — Não sei por que eu vou ficar mais tempo que você. TONHO — Eu sei. Você usou violência. É perigoso. Fica guardado. PACO — Você é o chefe. TONHO — Quem tem chefe é índio. PACO — No assalto do parque você era o chefe. TONHO — Não era chefe de coisa nenhuma. PACO — Claro que era, poxa! Você ficou aí berrando um cacetão de tempo: (Imita Tonho.) Eu é que mando! Eu é que mando! Na minha terra quem manda é o chefe. T0NHO — Canalha! PACO — É a mãe. TONHO — Nojento. PACO — Nojento é você, que quer tirar o ló da seringa. (Pausa.) TONHO — Deus queira que você não tenha machucado muito o cara. PACO — Não fica secando. Aquele morreu e fim. TONHO — Você quer que o cara morra? PACO — Claro, poxa! A porrada que dei foi pra matar. TONHO — Você é um animal. PACO — Vá à merda! [...]. Trecho do segundo ato da peça teatral Dois perdidos numa noite suja (Global, 2003), do dramaturgo, ator, escritor e jornalista brasileiro Plínio Marcos (1935-1999), escrita em 1966 e adaptada para o cinema por duas vezes, a primeira em 1970, dirigida por Braz Chediak, e, a segunda, dirigida por José Joffily, em 2002. O texto é inspirado no conto O terror de Roma, do escritor italiano Alberto Moravia. Veja mais detalhes aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A ARTE DE ANNIE LEIBOVITZ
O que você vê nas minhas fotos é que eu não tinha medo de me apaixonar por essas pessoas. Deve haver confiança no que se acredita. Se você se divide e tenta agradar a todos, é impossível. Não acredito na ideia de que você captura as pessoas quando as fotografa. O que faço é tirar um pedacinho delas. Se não tivesse a minha câmera para me lembrar constantemente que estou aqui para fazer isto, teria descarrilado, penso eu. Teria esquecido a minha razão de existir.
ANNIE LEIBOVITZ - A arte da fotógrafa estadunidense Annie Leibovitz, companheira da escritora Susan Sontag que se notabilizou por realizar retratos cuja marca é a colaboração íntima entre a retratista e retratado. Veja mais aqui.

A OBRA DE RUMI
Nossa maior grandeza está na suavidade e ternura de nosso coração...
A do poeta, jurista e teólogo sufi persa Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī (1207-1273) aqui e aqui.
&
LAURA DE PETRARCA
Bendito seja o dia, o mês, o ano,
A sazão, o lugar, a hora, o momento,
E o país de meu doce encantamento
Aos seus olhos de lume soberano.
E bendito o primeiro doce afano
Que tive ao ter de Amor conhecimento
E o arco e a seta a que devo o ferimento,
Aberta a chaga em fraco peito humano.
Bendito seja o mísero lamento
Que pela terra em vão hei dispersado
E o desejo e o suspiro e o sofrimento.
Bendito seja o canto sublimado
Que a celebra e também meu pensamento
Que na terra não tem outro cuidado.
LAURA NOVES – A bela e jovem condessa Laura Noves (1310-1348), foi o grande amor da vida do poeta italiano Francesco Petrarca (1304-1374). Para ela, ele inventou o soneto e escreveu mais de três centenas deles e mais de duas dúzias de canções, reunidos nas suas obras Canzoniere e Trionfi. Veja mais aqui, aqui & aqui.

AMIGOS DA BIBLIOTECA
Nesta quarta teve realização mais uma reunião de andamento do grupo associativo Amigos da Biblioteca. Desta feita, debateram o professor e poeta Janilson Sales com o diretor da Biblioteca Fenelon Barreto, João Paulo Araújo, acerca da criação da comissão provisória que comandará o processo instituidor para constituição estatutária. Veja mais aqui, aqui e aqui.


EMMA LAZARUS, NADINE GORDIMER, LAGERLÖF, YOURCENAR & JOAN RODRIGUEZ

    Ao som de Pavane por une infante défunte (1899), de Maurice Ravel , com a Orchestre National de France, sob a regência da maestrina fin...