
DITOS & DESDITOS: [...] Eu fui criada fechada em casa, quando saí
foi para ir à escola e foi quando, pela primeira vez, na escola, a criançada
começou: negrinha, negrinha. Quando eu estava em casa, eu nunca tinha ouvido.
Então eu levei um susto. [...] Eu me interessei muito cedo por esse lado
social. Não foi por acaso que procurei psicanálise e sociologia. Veja bem o que
fiz: eu fui buscar defesas científicas para o íntimo, o psíquico, para
conciliar a pessoa de dentro com a de fora. Fui procurar na sociologia a
explicação para questões de status social. E na psicanálise, proteção para a expectativa de
rejeição. Essa é a história. [...] Olha, a ideia de meu pai era que as pessoas
valem pelo estudo, pelo preparo que têm estudando, isso era meu pai. Então, meu
pai pôs todos na escola. [...] Lá na USP eram os grã-finos e eu não era
grã-fina. Pensa que eu era boba? [risos] Eu sabia escolher. Eu vi lá, tudo era
filho de papai, Almeida Prado e eu não. A Escola de Sociologia é gente
operária, é lá que eu vou. É isso. Sabe, a gente tinha esse feeling. […] Eu disse: “Lá não era o meu lugar”.
[...] desenvolvi um programa de divulgação de princípios de
higiene mental segundo a Psicanálise, através da dramatização de textos que eu
compunha, e eram levados ao ar semanalmente. Esses textos foram publicados no
livro Nosso Mundo Mental em 1955. [...]. Era a hora da Higiene Mental se apresentar.
Eu estava sentada e todos os médicos de pé, todos gritando: “Absurdo! Psicanalistas
não médicos!” Foi horrível! Olha que eu quase me suicidei por isso. Você ouvir
outras pessoas dizendo: você é charlatã! Ah! Você não fica de pé! Você vai pra
casa e quer morrer [...]. Trechos de entrevistas
concedidas e da obra Nosso
Mundo Mental (IBDC, 1956), da socióloga e psicanalista Virginia Bicudo
(1915-2003), que também é autora de estudos como Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo (Sociologia
e Política, 2010), Comunicação não-verbal como expressão de onipotência e
onisciência (Revista Brasileira de
Psicanálise, 2003) e Incidência da
realidade social no trabalho analítico (Revista Brasileira de Psicanálise,
2014), afora entrevistas concedidas aos jornalistas Cláudio João Tognolli, Marcos Maio,
Ana Paula Musatti Braga, Anna Verônica Mautner e Luiz Meyer. Ela foi
pioneira no estudo das relações sociais e primeira não médica a ser reconhecida
como psicanalista.
SANTA PELONHA
[...] Antes de ser
queimada viva, tiraram-lhe lodo todos os dentes com seixos e lhe martirizaram
todo o rosto [...] Depois do
suplício: os seus dentes principalmente foram ajuntados como santas relíquias,
e foram logo dispersos por diferentes igrejas da cristandade. [...] Pode-se dizer que logo depois do seu
martírio é que os fieis têm tido recurso a ela em muitas enfermidades, e
singularmente nas dores de dentes. [...] Estava senhora santa Pelonha em sua cadeira de ouro sentada, com a mão
posta no queixo, passa Nosso Senhor Jesus e perguntou: - O que te doi, Pelonha?
– Um dente, senhor! – Pois, Pelonha, do sul ao norte e do nascente ao poente,
ficará esta criatura libre, sã e salva de dor de dentes, pontadas, nevralgia,
estalicídio e força de sangue. Padre-nosso, ave-maria, oferecido às cincos
chagas de Nosso Senhor Jesus. [...].
SANTA PELONHA - Trata-se de santa Apolônia virgem e mártirque também é
conhecida por Polonha ou Pelonha – tratando-se de Apolônia de Alexandria que fez parte de um grupo de virgens
mártires que padeceram em Alexandria, no Egito, durante um levante contra o
cristianismo, antes da perseguição de Décio. De acordo com a lenda, durante sua
tortura, teve todos os dentes violentamente arrancados e quebrados – padroeira dos
dentistas e dos que sofrem com dores de dentes, conforme recolhido da obra Folklore médico-religioso: Santa Apolonia,
abogada de la dentadura (Madrid, 1943), de Castillo de Lucas e personagem
da comédia La Celestina, do século XV, de Fernando de Rojas, registrada no Dicionário do folclore brasileiro
(Global, 2001), de Luis da Câmara Cascudo, e que possui oração corrente em todo
o nordeste brasileiro. Veja mais aqui.
PINDORAMA, DE LIA RODRIGUES
Como abordar, ainda uma vez, as possíveis relações do
estar junto? Misturando-se até a diluição? Afirmando limites e singularidades?
Quais rituais, sacrifícios e acordos seriam necessários para a constituição de
um coletivo, ainda que temporário? Que paisagens criar para Pindorama - nome
indígena dado às terras brasileiras antes da chegada dos europeus? Ciclos de
morte, transformação, vida.
PINDORAMA – O espetáculo Pindorama (2013), da Lia Rodrigues Companhia de Danças,
criação da coreógrafa e artista Lia Rodrigues, que tem seu trabalhado
reconhecido no Brasil e no exterior. Em entrevista ela expressou. Infelizmente nunca deixou de ser complicado
trabalhar com arte e educação no Brasil. A situação melhorou bastante no início
do governo Lula, mas ficou muito difícil no último ano, desde o golpe que
colocou no poder um presidente deplorável, o Temer. Temos um ex-prefeito e um
ex-governador na cadeia, para você ter ideia do desastre econômico e social que
estamos vivendo. A ministra da Cultura disse que não vai mais dar dinheiro para
festivais que mostram o nu. No Brasil, essa onda da direita é terrível, atinge
todas as áreas, é uma situação seríssima, mas tem muita gente se mobilizando
contra isso, o que é muito importante – é preciso estar muito atento e
vigilante o tempo inteiro. É um boato que segue, que coloca artistas e pessoas
que estão trabalhando há tantos anos em posições muito frágeis, muito difíceis.
Veja mais aqui e aqui.
A OBRA DE VIRGÍLIO
Há vários lobos dentro de mim, mas todos eles uivam para a mesma lua. Talvez
um dia seja bom relembrar este dia.
A obra do
poeta e filósofo romano clássico Públio Virgilio Maro (70aC-10aC) aqui, aqui,
aqui e aqui.