terça-feira, outubro 15, 2019

MICHEL FOUCAULT, ZÉ GALDINO, SIMONE SPOLADORE & SUDOESTE, LOUIS TUAILLON, MARY KINGSLEY & AUTO DO COISONÁRIO


AUTO DO COISONÁRIO – Vivia Alagoinhanduba, naquela tarde, a maior sensaboria. A rapaziada de sempre na virada de copo, entupia o bar do Dudé, quando uma dupla estranha adentrou no recinto. Estranha? Sapecaram: um agalegado sardento e um africano musculoso, nu da cintura pra cima. Os dois sentaram à mesa, deitaram um par de peixeiras de não sei quantas polegadas com a parte afiada para cima e começaram a maior quebra-de-braço. O perdedor teria seu sangue cscorrendo, com certeza. Todos se voltaram para conferir a disputa. Até doutor Zé Gulu, entretido com a sua leitura, aboticou os olhos. Para lá e para cá, vai num vai, suspense da gota, de repente pararam, apertaram as mãos e pediram uma cerveja. Ué, não vai sangrar ninguém não? Os dois se riam com os abestalhados na maior expectativa e logo, na maior munganga, aos empurrões um no outro, beliscadas, dedadas, punhos cerrados esmurrando o tórax do outro, pantins de boxe, capoeira e outras lutas duvidosas, logo desconfiaram: tem cavalo-mago no meio! Ah, se tem. Um mentia, o outro confirmava. O agalegado falava pelos cotovelos. E com um detalhe: conseguia gaguejar, arrotar e peidar, tudo ao mesmo tempo em que se esgazeava no maior estrilo, exibindo um taco de golfe. Logo se viu: não era de trato fácil. Chamava todo mundo de rufião, para lá e para cá. Alguém se virou e inquiriu: Ô, Coisonário, você joga golfe, é? Não, arma de autodefesa. Como é a sua graça, hem? Temujim. Isso lá é nome! Taí, gostei do apelido: Coisonário. Esse aqui é meu fiel escudeiro, Enkidu-Jamuga! A trupe de soslaio se perguntava: Quem o Bagoas dos dois, hem? A gente veio caçar por essas bandas. Caçar o quê? E desconversavam, contando casos inflados de disputas, insultos, pisoteios, escaramuças: Deus está do meu lado! Estava convicto o branquelo, regalava-se. O outro nem falava, só apoiando, riso largo. E foi com essa pabulagem toda, nas tardes, noites e dias em que reapareciam, um encangado no outro, no maior blá blá blá. Foi assim que o Coisonário, aos trancos e barrancos, se envolveu com os habitantes dali, berrando aqui e acolá, entre trapaças e desmantelos, até sair destronando uns e outros, e ganhar notoriedade. O cara ia da brandura à ferocidade em fração de segundos, o que levava todo mundo a ficar ora de cabelo em pé desconfiado, ora se cagando de rir, descontroladamente. Regateador no papo e nos negócios, conseguiu eleger-se vereador, ninguém sabe como. Da tribuna da casa legislativa, mandava ver nas provocações mais cabeludas, desancando reputações e primando pelos disparates, quase quatro anos nessa pisada. Já tinha virado piada. Mas, empenou. Entrou candidato a prefeito, o que restou num grande desaforo: nenhum entre os eleitores da comarca votou nele, porém, ele não só venceu o pleito, como cingiu a coroa, chamando todo mundo de súdito pigmeu, vassalanão, no meio do maior ora ora. Botou as manguinhas de fora com seus talentos predatórios e no dia da posse, discursou que teve um sonho ao atravessar o rio dali: contava que estava copulando com uma distinta boazuda e quando terminou o serviço, olhou para ela e era a própria mãe dele, dona Olimpia que Deus a tenha em bom lugar e que ele mesmo dizia tratar-se de uma religiosa fiel que engravidara dele, ainda virgem, por obra divina, o que levou o pai irresponsável incrédulo a arribar por não engolir uma história desta. Por essa razão, ele era um mensageiro de Deus para dar jeito naquela província. E foi com esse papo que ele engalobou todo mundo na conversa e sem fazer um só comício. Logo assumiu com providências, tidas por ele como urgentíssimas e compromissadas nos palanques que nunca existiram, nomeando secretários estranhos, editando leis jamais ousadas, como, só para ter uma ideia, cobrança de tributos sobre os sentidos: quem estivesse vivo tinha de pagar imposto, se andasse na cidade, se respirasse e por aí vai, todos pagariam tanto pelas necessidades fisiológicas, como pelos gestos e comportamentos. Cagou, pagou; peidou, recolhe o tributo, ora! Como é? Endoidou, só sendo. O povo foi ficando de cabelo em pé, assustado. E quando deu fé, o cara meteu as mãos pelos pés, usando do expediente da intriga e traições, tudo virou rivalidade e agressões, o maior pandemônio. Em poucos meses Alagoinhanduba virou o reino da discórdia. E agora? Rapaz, isso é um estrupício! Ora, isso é só o começo, depois conto mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: A melhor parte de mim é... dúvida, desconfiança e melancolia, e dor de cabeça por outras pessoas. Por que devo mostrá-lo a pessoas que não me importo e não sabe? Coloquei uma armadura e uma inteligência... quando saio para batalha. Eu sucumbi ao encanto do lugar. Vi mais do que o suficiente durante aquela viagem para me fazer reconhecer que havia qualquer quantidade de trabalho para mim que valha a pena fazer. Por isso, avisei a todos que eu novamente voltei. Depoimento da etnógrafa, escritora e exploradora britânica Mary Kingsley (1862-1900), das suas viagens pelo continente africano com pesquisas sobre as pessoas e as diferentes espécies de flora e fauna, difundindo uma visão esclarecida do lugar.

SUDOESTE
O drama Sudoeste (2011), dirigido por Eduardo Nunes, conta história de uma cidade pacata e perdida no mapa do litoral brasileiro, enquanto uma jovem vê sua vida se desenrolar de maneira circular, da morte ao nascimento, e depois à velhice mais uma vez. Ela observa as pessoas ao seu redor, que não envelhecem, e que não entendem sua existência. Esta mulher deve compreender a importância de temas fundamentais como a vida, a morte, a maternidade e a violência. O destaque fica por conta da interpretação da atriz Simone Spoladore. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A ARTE DE ESCULTURA
A arte do escultor prussiano Louis Tuaillon (1862-1919). Veja mais aqui.
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ARTE DE ZÉ GALDINO
A arte do ceramista, xilogravurista, mamulengueiro, poeta popular e clown Zé Galdino.

A OBRA DE MICHEL FOUCAULT
Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo.
A obra do filósofo, historiador, filólogo, teórico social e crítico literário francês Michel Foucault (1926-1984) aqui, aqui, aqui & aqui.


EMMA LAZARUS, NADINE GORDIMER, LAGERLÖF, YOURCENAR & JOAN RODRIGUEZ

    Ao som de Pavane por une infante défunte (1899), de Maurice Ravel , com a Orchestre National de France, sob a regência da maestrina fin...