sexta-feira, março 20, 2009

HERTA MÜLLER, CIORAN, AGAMBEN, ANTONIO RUIZ SULAYEZ, JURACY RIBEIRO & LITERÓTICA.

 
A arte do artista mexicano Antonio Ruiz Sulayez.


LITERÓTICA: PERFUME DE MULHER - É dela todo perfume que emana da vida. E vem dela, ah, mulher nua, linda e cheia de graça, o bálsamo do sol no sexo pra gosto nenhum botar defeito ou achar pouco porque é a fragrância caudalosa na sedução da carne de todos os sabores mais apetitosos de todo paladar aguçado de fome. Vem dela o sândalo do amor, mulher nua, linda e cheia de graça que aquece estirada com o nascedouro a dar passagem e faz de mim iluminado deus todo-poderoso a sentir o primeiro cheiro de rosa silvestre de suas entranhas ao embalo dos gemidos manhosos rente ao coração além do universo. Vem dela a alfazema que me faz hóspede no movediço lençol alvacento da poesia, a me ofertar o baú de suas posses secretas com todas as maçanetas arrancadas, todos os trincos destrancados, todas as portas escancaradas para que extremamente amada e querida tanto quanto a minha própria vida possa em sua mágica dádiva seguir abrindo, fechando, prendendo, soltando, tudo disparando a nossa peleja prazerosa no fogo da felicidade. Vem dela nua, linda e cheia de graça, todas as lanternas acesas do seu desejo vigoroso na sua secreta fogueira, de onde me nascem asas e vôo amparado pela égide de sua devotada oferenda. É nela que vou como chama a sua boca, como querem seus braços, como desejam suas perversas coxas erguendo o véu e colhendo as horas no ar da tarde demasiada no mormaço do querer. É nela que vou como um rei apaixonado com todos os versos fesceninos imersos no gozo, adestrando o seu impetuoso desejo até a bifurcação dos destinos da nossa dança perfumada, a me satisfazer com o cheiro gostoso da mulher amada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


A arte do artista mexicano Antonio Ruiz Sulayez.

DITOS & DESDITOS - Os pessimistas não têm razão: vista de longe, a vida não tem nada de trágico, ela só o é de perto, vista em detalhe. A visão de conjunto a torna inútil e cômica. E isso vale para nossa experiência íntima. Pensamento do filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995). Veja mais aqui e aqui.

ARQUIVO & TESTEMUNHO – [...] A respeito de que tal língua dá testemunho? Porventura de algo – fato ou evento, memória ou esperança, alegria ou agonia – que poderia ser registrado no corpus do já-dito? Ou da enunciação, que atesta no arquivo a irredutibilidade do dizer ao dito? Não é nem de uma nem de outra coisa. Não enunciável, não arquivável é a língua na qual o autor consegue dar testemunho da sua incapacidade de falar. Nela, uma língua que sobrevive aos sujeitos que a falam coincide com um falante que fica aquém da linguagem. [...] A relação entre a língua e sua existência, entre a langue e o arquivo, exige, por sua vez, uma subjetividade como aquilo que atesta, na própria possibilidade de falar, uma impossibilidade de palavra. Por tal motivo, ela se apresenta como testemunha, pode falar por quem não pode falar. O testemunho é uma potência que adquire realidade mediante uma impotência de dizer e uma impossibilidade que adquire existência mediante uma impossibilidade de falar. Os dois movimentos não podem nem identificar-se em um sujeito ou em uma consciência, nem sequer separar-se em duas substâncias incomunicáveis. Esta indivisível intimidade é o testemunho [...] Que Auschwitz seja aquilo de que não é possível dar testemunho e que, ao mesmo tempo, o muçulmano seja a absoluta impossibilidade de dar testemunho. Se a testemunha dá testemunho pelo muçulmano, se ele consegue trazer à palavra a impossibilidade de falar – se, dito de outro modo, o muçulmano é constituído como testemunha integral – então o negacionismo é refutado no seu próprio fundamento. No muçulmano, a impossibilidade de dar testemunho já não é, realmente, uma simples privação, mas tornou-se real, existe como tal. Se o sobrevivente dá testemunho não da câmara a gás ou de Auschwitz, mas pelo muçulmano; se ele fala apenas a partir de uma impossibilidade de falar; então seu testemunho não pode ser negado. Auschwitz – de que não é possível dar testemunho – fica provado de modo absoluto e irrefutável [...]. Trechos extraídos da obra O arquivo e o testemunho (Boitempo, 2008), do filósofo italiano Giorgio Agamben. Veja mais aqui e aqui.

O REI SE CURVA E MATA - [...] Conheço de casa, entre os colonos, um modo de vida que não tinha por costume o emprego de palavras. [...] Cada frase só tem sua vez quando a anterior se foi. No calar tudo vem de uma vez só, tudo se acumula ali, o que por muito tempo não é dito e até mesmo o que nunca é dito. [...] Como devo explicar com palavras que a dália me dava uma atitude interna quaseestável frente aos arrepelos de fora, que em uma dália assenta um interrogatório quando se vem do interrogatório, ou uma cela, quando uma pessoa de quem se gosta está na prisão. Que em uma dália está sentada uma criança quando se está grávida e não se quer ter essa criança de modo algum, porque não se tem a cara de pau de oferecer essa vida de merda a ela, mas que, caso seja descoberta, se vai para a prisão por aborto. [...] O falar sai voando, o calar fica e fica e cheira. Cheirava como o lugar na casa em que eu ficava ao lado de mim mesma, junto dos outros. No quintal,o calar cheirava a florescência de acácia ou a trevo recém ceifado, no quarto, a veneno de traça ou a uma série de marmelos sobre o armário, na cozinha, a massa ou a carne. Cada um carregava seus degraus na cabeça, sobre os quais o calar subia e descia. A pergunta “Em que você está pensando agora?” teria sido como um assalto. Era óbvio que se estava cheio de segredos. [...] O vivido enquanto acontecimento não está nem aí com a escritura, não é compatível com as palavras. Os acontecimentos reais nunca podem ser apreendidos equitativamente com palavras. Para descrevê-los, os acontecimentos precisam ser modelados em palavras e completamente reinventados. Aumentar, diminuir, simplificar, complexificar, mencionar, passar por alto – uma tática que segue seus próprios caminhos e que tem o vivido apenas como pretexto. Quando se escreve, arrasta-se o vivido para outro metier. [...] O acontecimento real insiste enquanto aparição periférica; com palavras se lhe dá um choque após o outro. Quando ele mesmo não se reconhece mais, o acontecimento volta ao centro. Precisa-se demolir a presunção do vivido para se escrever sobre ele, desviar-se de cada rua verdadeira para uma inventada, pois só esta pode parecer-se com ela novamente. [...]. Trechos extraídos da obra O rei se inclina e mata (Carl Hanser, 2003), da escritora e ensaísta alemã Herta Müller. Veja mais aqui.

TRES POEMASLENÇOL FLORIDO: leoa dilacerando a caça / colocando com a boca / em sua boca / libélula / levitando / com a libido / transparente
de suas asas. IGNEA: me faça magma / esculpe de vez / essa estátua sem sal / plasme-a / lambe-a / não se preocupe / não se desculpe / não olho pra trás. NAS NUVENS NO CHÃO - nunca tive chão / estou sempre voando / no entanto / estávamos ali / o chão falando mais alto / nunca o chão / foi tão macio
. Poemas da poeta, arte-educadora, contadora de história, professora e terapeuta holística paranaense Juracy Ribeiro. Veja mais aqui e aqui.


A arte do artista mexicano Antonio Ruiz Sulayez.




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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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quinta-feira, março 19, 2009

MANOEL DE BARROS, STEVENSON, ANTONIO DAMÁSIO, GAGNEBIN, CAMILLE PISSARRO, LITERÓTICA & CORDEL



A arte do pintor francês Camille Pissarro (1830-1903).

LITERÓTICA: TEU NOME – Se me quiseres, tudo será como o céu na plenitude da minha vida. Por isso, tudo o que me deres será como um passeio por Belvedere onde serei o seu garboso alferes pronto para servir tudo que não tiveres. E tudo o que puderes será verdadeiro halteres nos meus quereres mais ávidos de ti. E se souberes o quanto vou te venerar e tudo o que me houveres dar será lautamente servido além das colheres, com todos os talheres da minha cobiça. E se me disseres que me queres na lua de abril ou no sol do dia e me puseres entre os teus seios até que teu corpo me seja como um poema de Cecília Meirelles, eu juro que farei com que sejas a mais que premiada entre todas as mulheres. NA TABA DA VENTA - Quando fisga o olho no olhar, ela faz um reclamo: será que a amo? É sua indagação. Fecho questão e solto pilhéria. Aí, fica séria e levo na esportiva. Não me dá alternativa e me beija demais, demonstrando ser capaz de ir além do que diz: remexe em mim, revolve o confim de toda dimensão. Vai além da tesão, dilatando o poder, engole meu querer e tudo o mais. E muito sagaz manha uma arenga, ameaça pendenga e só me depena. Ela muito bem encena com todo talento pelo meu tegumento a invadir. Me dá um banho de chantili e encontra todas as respostas ocultas e dispostas no meu olhar. É quando devagar, na taba da venta, pra lá de 8 a 80, além do radar e mais pra cá que pra lá ela flagra o que sinto pra mais de infinito, muito mais que amar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


DITOS & DESDITOS - Conforme as experiências vividas são reconstruídas e reencenadas, seja na reflexão consciente, seja no processamento inconsciente, sua substância é reavaliada e inevitavelmente rearranjada, modificada em menor ou maior grau no que respeita à sua composição factual e acompanhamento emocional. Alguns quadros da recordação são extirpados na sala de cortes da mente, outros são restaurados e realçados, e outros ainda são tão habilmente combinados por nossas necessidades ou pelo acaso que criam novas cenas nunca realmente ocorridas. É assim que, com o passar dos anos, nossa história é sutilmente reescrita. Pensamento do médico neurologista e neurocientista português Antonio Damásio. Veja mais aqui.

O ATO DE ESCREVER – [...] Escrevo sim, para enterrar e honrar os mortos, sobretudo se eu for historiador. Escrevo também para enterrar talvez meu próprio passado, para lembrá-lo e, ao mesmo tempo, dele me livrar. Escrevo então para poder viver no presente. Escrevo, enfim, para me inscrever na linha de uma transmissão intergeracional, a despeito de suas falhas e lacunas. [...]. Trecho extraído da obra História e narração em Walter Benjamin (Perspectiva, 2013), da professora, filósofa e escritora suíça Jeanne-Marie Gagnebin.

ILHA DO TESOURO - [...] Todos tivemos uma boa parte do tesouro, para dela fazer uso prudente ou impensado, conforme a natureza de cada um. O capitão Smollet está agora reformado. O Gray não só poupou o dinheiro mas também, num desejo repentino de progredir, estudou o seu ofício e é hoje imediato e sócio de um belo navio de quatro mastros. Além disso está casado e é pai de família. Quanto ao Ben Gunn levou mil libras, que gastou ou perdeu em três semanas ou, para ser mais preciso, em dezenove dias, pois no vigésimo já andava outra vez a pedir esmola. Depois arranjaram-lhe um lugar de porteiro, tal como havia receado enquanto estava na ilha, e ainda vive, em grande simpatia, ainda que por vezes tratado com o bobo pelos rapazes do campo, e faz-se valer como cantor de igreja aos domingos e dias santos. [...] A prata em barra e as armas ainda estão, tanto quanto sei, onde o Flint as enterrou, e por mim certamente que lá podem ficar para sempre. Nunca seria capaz de voltar àquela ilha maldita, nem que fosse amarrado e arrastado, e os piores pesadelos que tenho são quando oiço o trovejar da ressaca naquela costa ou me sento na cama em sobressalto, com a voz aguda do Capitão Flint ainda a retinir-me nos ouvidos: “Peças de oito! Peças de oito!” [...]. Trechos extraídos da obra A ilha do tesouro (Ática, 2001), do escritor britânico Robert Louis Stevenson (1850-1894). Veja mais aqui.

CABELUDINHO - 1. - Sob o canto do bate-num-quara nasceu Cabeludinho / bem diferente de Iracema / desandando pouquíssima poesia / o que desculpa a insuficiência do canto / mas explica a sua vida / que juro ser o essencial / — Vai desremelar esse olho, menino! / — Vai cortar esse cabelão, menino! / Eram os gritos de Nhanhá. 2. - Um dia deu de olho com a menina / com a menina que ficou reinando / na sua meninice / Dela sempre trazia novidades: / — Em seus joelhos pousavam mansos cardeais... / Está com um leicenço bem na polpa / quase pedi o carnegão pra isca de rubafo... / Dela sempre trazia novidades: / — A ladeira falou pro caminhão: / pode me / descer de motor parado, benzinho...” / Era o pai dela no guidão. 3. - Viva o Porto de Dona Emília Futebol Clube!!! / — Vivooo, vivaaa, urrra! / — Correu de campo dez a zero e num vale de botina! / plong plong, bexiga boa / — Só jogo se o Bolivianinho ficar no quíper / — Tá bem, meu gol é daqui naquela pedra / plong plong, bexiga boa / — Eu só sei que meu pai é chalaneiro / mea mãe é lavandeira / e eu sou beque de avanço do Porto de Dona Emília / o resto não tô somando com qual é que foi o índio / que frechou São Sebastião...— Ai ai, nem eu / Uma negra chamou o filho e mandou comprar duzentos / de anil / — Vou ali e já volto já / Mário-Maria do lado de fora fica dando pontapés / no vento / — Disilimina esse, Cabeludinho! / plong plong, bexiga boa / — Vou no mato passá um taligrama... 4. - Nisso chega um vaqueiro e diz: / — Já se vai-se, Quério? Bueno, entonces seja felizardo / lá pelos rios de janeiros... / — Agradece seu Marcão, meu filho / — Que mané agradecer, quero é minha funda / vou matando passarinhos pela janela do trem / de preferência amassa barro / ver se Deus me castiga mesmo / Havia no casarão umas velhas consolando Nhanhá / que chorava feito uma desmanchada / — Ele há de voltar ajuizado / — Home-de-bem, se Deus quiser / Às quatro o auto baldeou o menino pro cais / Moleques do barranco assobiavam com todas as / cordas da lira / — Té a volta, pessoal, vou pra macumba. 5. - No recreio havia um menino que não brincava / com outros meninos / O padre teve um brilho de descobrimento nos olhos / — POETA! / O padre foi até ele: / — Pequeno, por que não brinca com os seus colegas? / — É que estou com uma baita dor de barriga / desse feijão bichado. 6. - Carta acróstica: / “Vovó aqui é Tristão / Ou fujo do colégio / Viro poeta / Ou mando os padres...” / Nota: Se resolver pela segunda, mande dinheiro / para comprar um dicionário de rimas e um tratado / de versificação de Olavo Bilac e Guima, o do lenço. 7. - Êta mundão / moça bonita / cavalo bão / este quarto de pensão / a dona da pensão / e a filha da dona da pensão / sem contar a paisagem da janela que é de se entrar de soneto / e o problema sexual que, me disseram, sem roupa / alinhada não se resolve.  8. - — Sou uma virtude conjugal, / adivinha qual é? / — Um jambo, / um jardim outonal? / Não. / — Uma louca, / as ruínas de Pompeia? / — Não. / — És uma estátua de nuvens, / o muro das lamentações? / — Não. / — Ai, entonces que reino é o teu, / Darling? / Me conta, te dou fazenda, / me afundo, deixo o cachimbo. / Me conta que reino é o teu? / — Não. / Mas pode pegar em mim que estou uma Sodoma... 9. - Entrar na Academia já entrei / mas ninguém me explica por que que essa torneira / aberta / neste silêncio de noite / parece poesia jorrando... / Sou bugre mesmo / me explica mesmo / me ensina modos de gente / me ensina a acompanhar um enterro de cabeça baixa / me explica por que que um olhar de piedade / cravado na condição humana / não brilha mais que anúncio luminoso? / Qual, sou bugre mesmo / só sei pensar na hora ruim / na hora do azar que espanta até a ave da saudade / Sou bugre mesmo / me explica mesmo: / se eu não sei parar o sangue, que que adianta / não ser imbecil ou borboleta? / Me explica por que penso naqueles moleques / como nos peixes / que deixava escapar do anzol / com o queixo arrebentado? / Qual, antes melhor fechar essa torneira, bugre velho... 10. Pela rua deserta atravessa um bêbado comprido / e oscilante / como bambu / assobiando... / Ao longo das calçadas algumas famílias / ainda conversam / velhas passam fumo nos dentes, mexericando... / Nhanhá está aborrecida com o neto que foi estudar / no Rio / e voltou de ateu / — Se é pra disaprender, não precisa mais estudar / Pasta um cavalo solto no fim escuro da rua / O rio calmo lá embaixo pisca luzes de lanchas / acordadas / Nhanhá choraminga: / — Tá perdido, diz que negro é igual com branco! 11. A última estrela que havia no céu / deu pra desaparecer / o mundo está sem estrela na testa / Foi o vento quem embrulhou minhas palavras / meteu no umbigo e levou pra namorada? / Eram palavras de protesto idiota! / Como o vento leva as palavras! / Me lembrar que o único riso solto que encontrei / era pago! / É preciso / AÇÃO / AÇÃO / AÇÃO / Levante desse torpor poético, bugre velho. / Enfim, Cabeludinho, é você mesmo quem está aqui? / Onde andarão os seus amigos do Porto de Dona Emília? Poema do poeta Manoel de Barros (1916-2014). Veja mais aqui.

 A arte do pintor francês Camille Pissarro (1830-1903).


O PAPÉ DA RAPARIGA

Bob Motta

O amigo Dotô Cordêro,
dixe: Bob, cumpanhêro;
me istendendo a mão amiga.
Quero qui iscreva um poema,
e aqui, vô lhe dá o tema;
o papé da rapariga.

Sintonizei minha mente,
nela, prantei a simente,
do tema solicitado;
e dêsse tema porrêta,
findei fazendo a cuiêta,
de verso, p’ro magistrado.

Dotô, eu vô lhe dizê,
nuis meus verso, a vóirmicê,
cum tôda sinceridade;
qui rapariga, meu irmão,
é a mais véia profissão,
da históra da humanidade.

É um istudo profundo,
feito no início do mundo,
quando nóis nem ixistia;
bem antes de Roma Antiga,
o papé da rapariga,
todo mundo já sabia.

Trepá de noite e de dia,
era sua séivintía,
falá a verdade é preciso.
Trepando da quarta à têrça,
c’áis duas mão na cabeça,
mode num perdê o juízo.

O tempo foi se passando,
e o côipo dela virando,
uma simpres méicaduria;
a quaiqué um qui pagasse,
mêrmo qui ela num gostasse,
se intregava cum alegria.

Inté mêrmo hoje in dia,
se tem a mêrma mania,
mode tirá cuncrusão;
rapariga é coisa boa,
qui eu chamo, na minha lôa,
vendedôra de inlusão.

Êsse tipo de muié,
tombém é, no seu papé,
psicóga e cumpanhêra;
nuis moté da buiguizía,
ô quinta catiguria,
iscutando babosêra.

De côrno disconsolado,
qui num dá mais o recado,
qui cum ela vai se quêxá;
qui tem uma vontade loca,
de uví da sua bôca,
qui inda é macho prá lascá.

Mais tem vêiz qui a rapariga,
vira do criente, amiga,
faiz tão bem o papé dela;
qui ali mêrmo, na gandáia,
o sujeito se abêstáia,
e se apaixona purela.

E quando é ao cuntráro,
ali, no mêrmo cenáro,
o erotirmo vem à tona;
o cabra, amante travêsso,
rivira ela puro avêsso,
e aí ela se apaixona.

Ciúme de rapariga ?
Danô-se, deu a bixiga;
é iscandêlo, grito e murro.
Puxavante de cabelo,
é o maió dirmantêlo,
verdadêro cú de burro.

Leste a oeste, norte a sul,
ela vende o côipo nu,
posso inté fazê aposta;
qui num é só prá se vendê;
ela trepa pru prazê,
ela trepa pruquê gosta.

Quando adispôi qui inicia,
sua vida na putaria,
qui seu pudô leva a bréca;
nem à cêica se cumpara,
pois ela leva mais vara,
qui chiquêro de marréca.

Faiz feio ficá bunito,
lhe oferecendo o priquito,
dizendo qui êle é demais;
faiz o gordo irmagricê,
muribundo invivicê,
faiz véio virá rapaiz.

Do hôme, faiz o qui qué,
mostra a fôrça da muié,
e o pudê do seu tezão;
é mutivo de quêxume,
faiz véia sintí ciúme,
do seu véio sessentão.

Ôto papé importante,
eu lhe amostro nêsse instante,
numa quenga cumpetente;
juro nuis verso qui faço;
é fazê vêiz de paiáço,
alegrando o ambiente.

É sê, na sua manêra,
namorada, cumpanhêra,
sem cunvenção nem pudô;
fazê tôda istripulia,
qui o cabra tenha a alegria,
e a inlusão qui é amô.

É dá sua opinião,
p’ru criente no salão,
onde a gandáia se ispicha;
é pidí, dirmilinguida,
sua musga preferida,
na radiola de ficha.

É pidí licô de menta,
quando aiguém se apresenta,
lhe cunvidando prá mêsa;
é se imbunecá tôdinha,
paricendo uma rainha,
amostrando sua beleza.

Seu côipo é méicaduria,
de incontestáve valia,
prá quem tá triste e sózíin;
séive de porto siguro,
no quiláro ô no iscuro,
é acunchegante níin.

Tem seu papé de guerrêra,
lutadora, cumpanhêra,
e bem antes qui eu me acanhe;
acredite e faça fé,
qui essa incríve muié,
inda faiz papé de mãe.

Mais seu papé principá,
é, além de aliviá,
quem tivê cum o peito infêrmo;
lhe juro nuis versos meus,
amá sobre tudo a Deus,
e ao próximo cumo a si mêrmo...

N A T A L – R N - 2 0 0 9 Roberto Coutinho da Motta Pseudônimo Literário: Bob Motta Site:
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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