quarta-feira, setembro 30, 2020

A DANÇA DE TERPSÍCORE, ARMORIAL, TERRAMAR & FANATISMO

 

 


TRÍPTICO DGF – AQUELA DE... UMA HISTÓRIA E OUTRA... Para tudo que possa ocorrer ou já tenha acontecido, há sempre duas versões, afora os boatos e outros disse-me-disse sei lá se foi ou terá sido mesmo assim e assado, sacumé? Pois é, deu no que deu no Fecamepa. O que de vera é vigente já desde algum tempo atrás é a prática de um conservadorismo vetusto e fanático que me leva a impressão de que este filme eu já vi na história e ao vivo e em cores, vôte déjà vu! Quem não se lembra dos Torquemadas, dos Savanarolas, os do Templo do Povo de Jin Jones, o Templo Solar de Origas, a Verdade Suprema de Asahara, o Cerco de Waco do Koresh, ou os Mengele e Goering do Führer e outros “cumpridores de ordens” e muito mais e mais! Enfim, o que deixa claro que uma coisa é certa: a religião, desde os tempos mais remotos que levaram aos cruzados medievais e aos fundamentalistas atuais, passando pelo nazismo, kamikazes, macarthismo e Ku Klux Klan, fascismo, terrorismo e neonazismo, sempre se serviu de pretexto para perseguições, torturas e matanças. Suas bandeiras são as mesmas de sempre: racismo, misoginia, homofobia, machismo patriarcal e outras tão bem conhecidas do direitismo de agora, todas praticadas por intolerantes fanáticos e extremistas com sua encenação exaltada num púlpito voador a molestar, discriminar e excluir uns e outros, em nome de um Jesus só deles e tão poderoso acima do erro e do mal, a se considerarem para si a santidade e, para os seus, os detentores dos céus e da verdade, salvadores de devotados incondicionais e obedientes sectários, utilizando-se de quaisquer meios lícitos e, sobretudo, ilícitos, para impor a primazia da sua fé sobre todas. Pelo que sei desde menino, desdantigamente muitos combateram as aberrações destes arrogantes donos da verdade, a exemplo de Cícero em Roma, o antigo entusiasmo fanático pela aparição que captura a mente de Shaftesbury (1671-1713), Leibniz, Kant, Hegel, Voltaire, a obra Além do bem e do mal de Nietzsche, o caso Schreber de Freud, o buraco no Nome-do-Pai lacaniano, a Genealogia do fanatismo de Cioran, a Crítica da razão cínica de Sloterdijk, A paranoia da autodestruição de Enzensberger, Desistir de pensar? Nem pensar! de Hilton Japiassu, e O fanatismo religioso entre outros – breve ensaio (Espaço Acadêmico, 2002), do professor psicanalista Raymundo de Lima, que apresenta o método de doutrinação fanática do psicólogo francês J-M. Abgrael. Para quem esqueceu ou nunca ouviu sobre isto: Shazam! Então, nunca é demais levar em conta Voltaire: Quando o fanatismo gangrena o cérebro, a enfermidade é incurável. Ou Diderot: Do fanatismo à barbárie não há mais do que um passo. Ou ainda Nietzsche: As convicções são piores inimigas da verdade do que as mentiras. O fanatismo é a única forma de vontade que pode ser incutida nos fracos e nos tímidos. Para ficar só nisso, olho aberto & vamos lá! Prest’enção, gente!

 


DUAS: VOO NO ROKE DE TERRAMAR - (Imagem: Mapa de Terramar) - Aqui está muito difícil de respirar. Então, aproveitei um convite e voei para Terramar (que lugar é este?) Segundo o primeiro bildungsroman premiado O feiticeiro de Terramar (A Wizard of Earthsea - Arqueiro, 2016), da trilogia publicada pela escritora estadunidense Úrsula. K. Le Guin, é um Arquipelágo composto de centenas de ilhas, algumas desabitadas, outras constituindo importantes comunidades comerciais e agrícolas. Terramar é mais ou menos circular [...] uma grande variedade de culturas, indo da simplicidade dos montanheses de Gont à sofisticação dos moradores de Havnor, para não falar dos habitantes de Roke, para os quais a magia faz parte da vida cotidiana. [...] em todos os lugares é a cerimônia mágica na qual uma criança recebe seu nome. [...] Como toda magia do arquipélago se baseia no conhecimento do nome verdadeiro das coisas, quem conhece o verdadeiro nome de uma pessoa tem sobre ela poder de vida e morte. [...] Para a vida social normal, adota-se um nome de uso. A magia permeia todos os aspectos da vida em Terramar. [...] Em Roke, a magia não consiste simplesmente em encantar e enfeitiçar: é uma maneira de estudar e dominar o mundo, ou seja, uma filosofia e uma forma de sabedoria prática. [...]. Foi em Roke que me deram um impronunciável nome e lá o Mestre da Mão me disse: Você não deve mudar uma coisa que seja, um seixo, até saber qual bem e mal resultará daquele ato. O mundo está em Equilíbrio. O poder de um mago de Mudar ou de Invocar pode abalar o equilíbrio do mundo. É perigoso, este poder. Altamente perigoso. Ele deve caminhar junto do conhecimento e servir à necessidade. Acender uma vela é lançar uma sombra. Foi ali que pude desfrutar de um grande amor nos passos da longa dança...

 


TRÊS COMPASSOS DA LONGA DANÇA - Foi exatamente ali que celebrei a Longa Dança que se realiza na noite mais curta do ano e eu, por madrugadas infindas, acompanhei as pessoas que descem pelas ruas dançando ao som de tambores, flautas e gaitas, segui com o povo das Jangadas na dança universal que é o elo simbólico de união de todos que se encontram separados pelo mar, até a festa do Retorno do Sol cantando antigas canções e epopeias. Ali reapareceu Terpsícore que chegava do império Kargad, aquela mesma do livro de Heródoto e da prosa machadiana, ou da tela de William Frost ou a da Firedance de Van Renselar. Ela dançava solta Cristina Moura do Like an idiot e se transformava a cada rodopio na coreografia da Balangandança da Georgia Lengos e eu levado por sua onírica expressão me entregava aos seus feitiços, enquanto se desnudava entre nuvens e estrelas. O amor assim me dera e mais vivo que nunca amei além da conta. Até mais ver.

 

DESLOCAMENTOS ARMORIAIS

[...] Na relação entre dança e literatura, vimos as abordagens mais atuais sobre o corpo aparecerem com mais força quando o modo de a dança relacionarse com um texto prévio não tendia a estar subordinada aos conteúdos desse discurso anterior, mas deixava que seu próprio discurso se formulasse a partir da pesquisa corporal. [...].

Trecho extraído da tese de doutoramento Deslocamentos Armoriais: da afirmação épica do popular na “Nação Castanha” de Ariano Suassuna ao corpohistória do Grupo Grial, da professora e pesquisadora Roberta Ramos Marques, que serviu para a publicação do livro Deslocamentos armoriais: reflexões sobre política, literatura e dança armoriais (EdUFPE/Reviva, 2012), estudo sobre o Movimento Armorial, criado na década de 1970, pelo escritor paraibano Ariano Suassuna, reunindo reflexões sobre literatura, políticas públicas e danças armoriais, numa abordagem crítica do movimento, que tem ampla repercussão no imaginário cultural de Pernambuco e do Brasil, por meio de análise dos princípios estéticos e ideológicos, com reflexões críticas com base teórica nos Estudos Culturais. A partir da tríade política-literatura-dança, ela multiplica as discussões sobre o estatuto do corpo, sobre as relações entre arte e experimentação, e entre arte e intervenção social, aprofundando tanto as contradições inerentes ao projeto armorial – que teve como objetivo criar uma arte brasileira erudita, com base na cultura popular nordestina de raízes africana, indígena, ibérica e moura e, com isso, fortalecer a ideia de uma identidade cultural brasileira – quanto às formas que o legado desse projeto foram adquirindo em diversas representações posteriores. A obra traz ainda um apanhado histórico, discussões sobre as propostas estéticas e ideológicas, análises do discurso teórico e literário de Ariano Suassuna na construção de uma identidade brasileira e das tentativas de se realizar uma dança armorial. Veja mais aqui, aqui & aqui.


 


terça-feira, setembro 29, 2020

NERUDA, LILIANA SULZBACH, ALMODÓVAR, PAIGE BRADLEY, BRENNAND, CATARINA ABI-EÇAB, ORSON SCOTT CARD & ERATO


  


TRÍPTICO DGF – AQUELA DA... ENTRE A ESCOLHA & O ARREPENDIMENTO - Das escolhas as minhas culpas, carrego o mundo e sem resmungar. Já havia aprendido com Neruda: Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências. No rádio a barulhada do reporte instando Doro: Candidato, você compra voto? Sou um liso, faço, viro e mexo, dou nó em pingo d’água! Mas se tivesse bufunfa, compraria todos os votos e seria o maioral, aí você veria o que é governar, oxente! E ao votar, o senhor vende seu voto? Só voto em quem pagar mais! Não dou meu voto de graça, nunca, ora se! (Ploft! Pausa pros nossos comerciais!). Doro nunca ouviu Kant: Se o homem faz de si mesmo um verme, ele não deve se queixar quando é pisado. Muito menos Sílvio de Almeida: Não é a politica que transforma homens em corruptos, é votar em bandidos que torna a politica suja! Sei o que é um voto moral e a praga do voto vendido, porque sempre soube do que dizia Orson Scott Card: Se os porcos pudessem votar, o homem com o balde de comida seria eleito sempre, não importa quantos porcos ele já tenha abatido no recinto ao lado. Mas acontece que no Fecamepa tudo é possível, ora! Na dúvida, a descarga.

 


DUAS: A VERGASTA DO ERRO - Quando soube de Catarina Helena Abi-Eçab, lembrei-me de Labibe, aquela mesma que foi abatida num primeiro de abril & as que são esmagadas no Bom Pastor. Era sessão de estreia do premiado drama documentário O cárcere e a rua (2004), da cineasta, cientista política e jornalista Liliana Sulzbach, que conta a história de presidiárias da Penitenciária Madre Pelletier: Meu interesse não era mostrar a rotina de uma cadeia feminina, mas a capacidade do ser humano de se adaptar às adversidades, independentemente da idade. A diretora também dirigiu os curtas A cidade (2012), A invenção da infância (2000), O branco (2000), Continuidade (1997), O pulso (1997) e Batalha naval (1992), além de ter trabalhado na Spiegel TV Alemanha, como autora e diretora de documentários, e na Hamburger Kino Kompanie/Hamburgo como assistente de direção e montagem de longas-metragens, entre outras atuações na área. Lembrei mais do que ouvi de Beauvoir: O presente não é um passado em potência, ele é o momento da escolha e da ação. Sigo adiante com almãos à obra, pé na estrada.

 


TRÊS: A REMISSÃO NO AMOR – Imagem: Erato, arte da escultora estadunidense Paige Bradley. - Ah, o amor serenou e brotou em mim como se fora a Flor de lis: a pureza corpalma na comunhão sagrada do Tao. Olvidei de Almodóvar: Existe a necessidade absoluta de se sentir desejado e neste círculo do desejo é muito raro que dois desejos se encontrem e se correspondam o que é uma das grandes tragédias do ser humano. Sim, porque é mutual: eu a amo e ela a mim. O meu desejo acende a gula com a sua sedução amável de Erato e me dá a lira para que o canto seja sempre entoado e todas as canções e poemas sejam meus para ela. E me chega nua coroada de mirto e rosas, a dispensar o arco e se armar do meu sexo para suas façanhas urgentes e prazerosas, a me dar o que de céu é o paraíso na minha vida infernal. Sou-lhe grato e súdito, beijo-lhe os pés, as pernas, coxas e sexo, enquanto sou hinos em seu louvor da música das esferas cosmogônicas, para saborear da vida como quem ama e é amado. Até mais ver.

 

OFICINA CERÂMICA FRANCISCO BRENNAND

Não interrompam este silêncio, não interrompam este sonho. Ausente das regras: não pinto como um bom pintor; nem como um pintor antigo, nem como pintor moderno. Não pinto também como um mau pintor, seja ele um louco que pinta, ou um pintor enlouquecido. Nada disso: não pinto mal nem bem, pinto às vezes como Francisco Brennand.

Trecho extraído da obra Oficina cerâmica Francisco Brennand (AIP-Perfis Pernambucanos, 1997), da jornalista, historiadora, professora e escritora, Marilourdes Ferraz, tratando sobre a vida e a obra do artista, escultor e ceramista Francisco Brennand (1927-2019), autor da Oficina Cerâmica e do Parque das Esculturas, observando-se na obra o guerreiro, as peculiaridades de mestre em cerâmica, o diário de um artista quando jovem, o mestre dos sonhos, depoimentos e fotografias. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 



segunda-feira, setembro 28, 2020

SASKIA SASSEN, OCEAN VIVA SILVER, PAULA TROPE, MOACIR SANTOS, EVELYN HALL, VICTOR JARA & NURIT BENSUNSAN


  

TRÍPTICO DGF – AQUELA DA... UMA GARAPA DO BAGAÇO - O meu diário perdeu as linhas revoltas da pauta e não quer ser apenas página em branco. Sim, tudo porque o meu país é o caos, quando não anomalia: assimetria troncha de rotundo varapau. Pois é, se não parou em ponto morto, vai à tona desenfreado ladeira abaixo na maior desabalada carreira: pra onde, hem? Sabe-se lá, ora! O que não se pode é ultrajar a tresloucada razão econômica dos plutos de todos os cifrões, só puxa-tapete e a cangalha pro ar, no bate-cabeça dos bumbos e bumbuns! Eita, coisa boa! Melhor, não há. Qualquer empenada, chama lá o juiz que ele resolve e ninguém decide, fica por isso mesmo e todo mundo no rastapé. Então, queima tudo na remarcação! Falar nisso: já viu o preço do arroz? Pela hora dos que arribaram na estatística da pandemia e nem são levados mesmo em conta pelos apelos e desditas das jaculatórias dos que se benzem entre lúmpens e videotas na farofa de zeros e uns, Jesus-amém! Isso enquanto tantos complacentes invisíveis que torraram o auxilio emergencial estão na solidão do mundo sob o império dos gritos patéticos e conquistas secretas na latrina. Benzodeus, meu. Tudo é possível e ninguém sabe ainda o que pode ser feito, nem o que é pra fazer! Pra quê, deixa rolar! E para não passar em branco, dizem que não foi Voltaire, mas Evelyn Beatrice Hall: Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las. Eu lá sei, mas vale! E viva o engodo no desgoverno do Fecamepa. Estou só tomando garapa do bagaço, gente!

 


DUAS & SERÁ MAIS OU QUASE NEM TANTAS ASSIM? - Curtindo a arte da Ocean Viva Silver, da performática artista e compositora experimental francesa Valérie Vivancos - Não era a confusão do Grande Hotel Abismo na Escola de Frankfurt, não, não era. E a minha cabeça girava ao contrário do mundo, porque não me sinto aqui nem sou mais daqui, sou um ex-humano com Nurit Bensunsan: Diante dos descalabros da nossa espécie, desisti de ser humana e agora quero me tornar uma libélula, mas continuar bióloga e seguir escrevendo, criando jogos e inventando moda. Vou manter meus solilóquios ao pé do fogo com meus rabiscos num poemópera interminável, sem que saiba da parede por trás da porta falsa, sempre quase ou talvez nas minhas inquietações agudas pelas horas tardes da noite, bem perto de lugar nenhum, porque sei de agora e que ainda há gente boa por toda parte. Entre deslumbramentos e vacilações, Saskia Sassen insiste que Os que não têm poder, podem fazer história sem tomar o poder, os momentos mais dramáticos, a longo prazo, são esquecidos. Talvez as pequenas cidades que existem em todo o mundo nos permitam sobreviver. Estamos matando a Terra! Não sei como meus disparates decifram na tampa do vaso tudo que não escrevi, sinto como se fosse submetido a uma trepanação louca e ela me chama atenção sobre O declínio do homem público, de Richard Sennett, mais acerca da cidade global e da imigração na sociologia urbana, desestabilizando os conceitos estáveis: O momento da expulsão é o momento de uma condição familiar que se torna extrema. Você não é simplesmente pobre, você está com fome, perdeu sua casa, vive em barraco. Ou com a terra e com a água: não são simplesmente degradadas, terras ou águas insalubres. São mortas, acabadas. Nós tendemos a parar no extremo. Não entrar nele. O extremo é muito, muito feio e não temos conceitos para capturá-lo*. Quase já nem sei quem sou ou o que posso com tudo isso, esperança e temores entre o que é da vida no meio de gases fétidos e nauseabundos, só sei que é cada vez mais difícil respirar. *Em tempo: trecho da entrevista Não é imigração, é expulsão (Ponto e Vírgula, 2015), concedida a Jorge Félix.

 


TRÊS VEZES & TRECHOS OUTROS - Imagem: Arte da artista visual Paula Trope – A esquina do corredor em polvorosa era só arte e Victor Jara cantava para dizer que: Nossa vida não foi feita para cercá-la de sombras e tristezas. Minha canção é uma corrente sem começo nem fim, e em cada elo está a canção dos outros. A vida é eterna em cinco minutos. No meio do quiprocó pro bota pra quebrar, Melpômene mais que linda com seus coturnos e vestida com sua grinalda das folhas de videira, sua coroa de cipreste e máscara trágica, empunhando o bastão de Hércules no embalo dos nossos beijos, não conteve a empolgação e expôs seus seios apetitosos para que eu redivivo saísse do marasmo enlouquecedor. Irrompe Adorno com seus olhos esbugalhados naquele flagra, chama a polícia que a reprime e a todos da multidão, e uma bala abate desamparada Labibe no primeiro de abril da nênia. Nossa dança rechaçada levou-a dos meus braços e eu na escolta como a um endríago demudado, recolhidos na infecta cela do presídio Brasil. Não há como sorrir, o amor sucumbe ao ódio para que eu seja a voz de canção nenhuma. Até mais ver.

 

MOACIR SANTOS, O OURO NEGRO DO PAJEÚ



No beabá, na cartilha, aí eu voo; talvez ninguém mais possa voar. Aí, eu vou ser condor... A música é como a rosa, tudo tem que ser perfeito. Você encontra tudo com um desenho. É uma beleza. É uma coisa... quem souber venerar uma rosa, é uma beleza, como a música popular. A música erudita é compara com um jardim, no sentido que tem o festim, tem a garça, tudo... Você vê de longe assim, e quando vai se aproximando, vai enchendo de coisas. É preciso coisas que o compositor tem que gravar...

Trechos extraídos da obra Moacir Santos: o ouro negro do Pajeú (Comunigraf, 2004), da jornalista, historiadora, professora e escritora, Marilourdes Ferraz, tratando sobre o maestro, compositor, arranjador e multi-instrumentista Moacir Santos (1926-2006) e Seara Vermelha, Ganga Zumba, Ouro Negro não brilha em casa, Os fuzis, Lamento astral, O Criador e a Criação, salsamania: el saoco latino, a estrela do nordeste, Nanã, Coisas, Saudades do Pajeú, do Rio Pajé ao Pacífico, De repente estou feliz, A Serra – Emygdio de Miranda, Hino de Vila Bela, entre outros assuntos. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


 


sexta-feira, setembro 25, 2020

FAULKNER, MARIE UNDER, FELÍCIA HEMANS, CARMELA GROSS, EOS & PAULO CAVALCANTI

 


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA (TRÍPTICO DGF) – UMA: SABE AQUELA... DA ESCALADA DA VIDA - Fui ao fundo do poço, fiz minha catábase. Sim. E com os versos de Carlos de Oliveira: pelo cascalho interno da terra, / onde o esqueleto da vida / se petrifica protestando. / Como um rio ao contrário, de águas povoadas / por alucinações mortas boiando levadas / para a alma da terra, / procuro os úberes do fogo. Dos umbrais de mim, cenas de filmes e contas nos dedos, andaços e enlevos às desoras. Quando dei por mim naquelas funduras, a perda & a desolação anoitecida. Não sabia que em toda minha vida, das idas e vindas, entre érebros e báratros. Lá nas entranhas do mundo de mim, ouvi o Auto da Alma e a barca de Gil Vicente: À barca, à barca, mortais, barca bem guarnecida, à barca, à barca da vida! Quase os mesmos efusivos alto-falantes dos protestos velados de Not about Nightingales, de Tenessee Williams. Para me proteger de não sei o quê, recitava os poemas da inocência e experiência de William Blake, sem que previsse me deparar Coleridge aos berros: Quem se vangloria de ter conquistado uma multidão de amigos nunca teve um. Vaguei na obscuridade, quis me livrar do passado, olhar para o amanhã e seguir, até ser alertado por William Faulkner: O passado nunca está morto. Nem sequer é passado. Ontem só acabará amanhã, e amanhã começou há dez mil anos. Só faltou dizer que o mundo é a Guernica de Picasso, logro da desconfiança.

 


DUAS PASSAGENS ALADAS DE UM ÚNICO AMOR - Imagem da artista multimídia Carmela GrossAonde cheguei era o último piso do fim, nada havia mais além; se epílogo ou posfácio, o derradeiro do limite. Só me restava a poemópera da anábase, como quem vai e volta, a recomeçar, tropeços na jornada, cochilos e visões. Três e tantos movimentos, pisadas e duas graças: nunca me dei por perdido, apesar de. Sucumbi ao amor, desespero da paixão: vertigens, duas ou poucas palavras, muitos textos e três passos para ascenção. Quantas inusitadas situações. Estava só no meio do caminho, muito por me sujeitar de quase não ouvir os versos de Uma canção de despedida de Felícia Hemans: Quando lágrimas repentinas caem sobre seus olhos / Ao som de uma melodia antiga; / Quando você ouve a voz de um riacho na montanha, / Quando você sente o encanto do sonho de um poeta; / Que assim seja! / Que minha memória fique com vocês, amigos! Porque ela era nua amanhecida Eos na carruagem púrpura alada dos arreios multicores para os sonhos intensos de amor infindo, até o reencontro no evento da luz.

 


TRÊS SOPAPOS NA CHEGADA - Imagem da artista multimídia Carmela Gross – Enfim, aqui estou, algum lugar dos caminhos. Eu vim de onde me fiz, a viagem de volta, tantos Brasís, quantos janeiros: trilhas desfeitas, rabiscos, recados indecifráveis, motores raivosos, céus esfumaçados, desídias, talhos, atalhos perdidos, interditos, superstições. (Dava para parafrasear Erasmo no seu Julio II excluído del reino de los cielos nos Escritos de crítica religiosa e política: Certamente não me surpreende que tão poucos cheguem aqui, se você chicotear assim eles assumem o comando da doidice. Apesar de tudo, ouso conjeturar que o país ainda tem cura de alguma forma, pois honra um esgoto tão imundo em virtude do mero título de presidente). Aqui estou e me tratam por necromante com tudo que passei, e para que transmita a verdade que querem ouvir. Apenas repito trecho dAs geórgicas de Virgílio: Não desejo abranger todas as coisas juntas em meus versos, não conseguiria, ainda que possuísse cem línguas e cem bocas, e uma voz de ferro. Prefiro invocar a Denúncia de Marie Under: Eu grito alto com a boca de todo o meu povo, / nossa terra está ferida por uma praga de medo e chumbo, / nossa terra está sombreada pela árvore da forca / nossa terra um cemitério comum, enorme de mortos. / Quem virá ajudar? Bem aqui, no presente, agora! / Porque o paciente está fraco, perdeu o controle. / Mas, como o canto dos pássaros, meu grito se desvanece / no vazio: o mundo é arrogante e frio. / O suspiro do velho, o choro do bebê - / todos correm para a areia, ilusão, falham? / Homens, mulheres gemem como cervos feridos / para aqueles que estão no poder, tudo isso é apenas um conto de fadas. /  Trevas são os olhos do mundo, seus ouvidos são surdos, / os poderosos perdidos na loucura ou na estupidez. / Compaixão só é sentida por aqueles a quem o sofrimento quebra, / e só os sofredores têm corações como você e eu. Voltei levando nos peitos, refém da viagem, vulnerável às circunstâncias, chuvas, quedas, labirintos e túneis sem fim... Quem dera fosse diferente embarque, desembarque: reificação de simulacros e sempresente. A cidade é o deserto e o difícil é chegar. Até mais ver.

 A OBRA DE PAULO CAVALCANTI

[...] O que nos conforta é a grandeza da nossa autocrítica, no reconhecimento dos nossos erros. E até dos crimes cometidos em nome do socialismo. Vão-se esses erros e esses crimes. Menos os símbolos.

A obra do escritor, advogado e jornalista Paulo Cavalcanti (1915-1995), fundador da Associação do Ministério Público de Pernambuco e da União Brasileira de Escritores (UBE-PE) e foi preso e aposentando compulsoriamente pelo AI-2, autor de obras como a trilogia O caso eu conto como o caso foi – memórias políticas (1978/1980/1984), Nos tempos de Prestes (1981/1982); A luta clandestina (1984/1985); Homens e ideias do meu tempo (1993); Vale a pena (ainda) ser comunista (1994); História de um governo popular e Os equívocos de Caio Prado Júnior. Veja mais aqui e aqui.

 


 


quinta-feira, setembro 24, 2020

SCOTT FITZGERALD, EDNA O’BRIEN, LIPOVETSKY, FRANÇOISE SAGAN, ELEANOR CATTON, ELZA COHEN & LUIZ MARINHO


  

DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... ANÁBASE VERTIGINOSA - No meio do caminho, escuridão vertiginosa. Tantos degraus vencidos. Um vulto irreconhecível, encostado num dos cantos, acendeu um cigarro: Subindo? Sim. E me contou que havia descido há tempo, não se sentia bem nem lá em cima, nem cá embaixo, preferia a solidão entre meios. Pude reconhecê-lo com a claridade, era Francis Scott Fitzgerald: A vida é toda um processo de demolição. Existem golpes que vêm de dentro, que só se sentem quando é demasiado tarde para fazer seja o que for, e é quando nos apercebemos definitivamente de que em certa medida nunca mais seremos os mesmos. A vitalidade é demonstrada não apenas pela persistência, mas pela capacidade de começar de novo. Nunca desejei que houvesse um Deus para invocar - desejei frequentemente que houvesse um Deus para agradecer. Ouvi-lhe cada palavra, mais ainda o seu silêncio. Afastou-se sem se despedir. Respirei fundo para retomar minha escalada e uma jovem e bela mulher pousou ao meu lado. Falou-me de sua catábase, apenas por experiência, logo voltaria. Encantado, não consegui identificá-la. Apresentou-se e era a escritora neozelandesa, Eleanor Catton: A terra era apenas para viver e amar. Todos nós queremos ser amados... E precisamos ser amados, eu acho. Sem amor, não podemos ser nós mesmos. A mente acredita no que vê e faz aquilo em que acredita: esse é o segredo da fascinação. Estranhei o tempo verbal da primeira frase, mas não havia tempo para questionar. Ela apressou-se com um beijo, e já se esgueirava na descida, anunciando que logo voltaria, se eu quisesse esperar. Deu-me um aceno de adeus, quase refiz tudo por ela. Era hora de ascender.

 


DUAS PALAVRAS & MUITOS TEXTOS – Da obra da premiada dramaturga e escritora irlandesa Edna O’Brien, conheci a peça teatral Virginia (Theatre Royal, 1981) – muito embora soubesse de uma adaptação de Ifigênia, escrita especialmente para o palco do Crisol em Sheffield em 2003, e de outras mais dum volume reunido -, como também dos romances da trilogia The Country Girls (1960), do livro de memória Mother Ireland (1976), da rumorosa biografia James Joyce: a life (1999) e da aclamada biografia Byron in love (2009). Dela, o belo pensamento: A escuridão é atraída pela luz, mas a luz não o sabe; a luz deve absorver a escuridão e, portanto, encontrar a sua própria extinção. Em nossos momentos mais profundos dizemos as coisas mais inadequadas. Todos nós nos deixamos. Morremos, mudamos - é principalmente mudança - superamos nossos melhores amigos; mas mesmo se eu te deixar, terei passado para você algo de mim mesmo; você será uma pessoa diferente por me conhecer; é inevitável... Leitura em dia, retomo meu percurso, a estrada é longa e fragal.

 


TRÊS PASSOS PARA ASCENÇÃO DO AMOR - Imagem: arte da fotógrafa, videógrafa, produtora cultural e curadora musical, Elza Cohen: Fotografar é expressar em forma de imagem a minha paixão pela diversidade humana. É praticar empatia e o ativismo social que me são inerentes. - Aos quatro cantos e ventos minha vida entre sombras, voos e interrogações: emoções indeléveis, pecados e trevas. Padeço de fome e sede, o que há em mim, vem com o apuro de Françoise Sagan: Desejo tanto que respeitem a minha liberdade que sou incapaz de não respeitar a dos outros. Para mim, a felicidade, é acima de tudo sentir-se bem. Amar não é somente querer, é sobretudo compreender. Amei até a loucura. O que chamam de loucura é, para mim, a única forma sensata de amar. Nem bem assimilo suas palavras, do outro, a inesperada consideração de Gilles Lipovetsky: Na verdade, qual idealização é capaz de se manter, qual sonho pode persistir indefinidamente, quando confrontado com a precariedade natural dos seres e a monótona cantilena da eterna repetição das coisas? Quanto mais os indivíduos são informados, mais se encarregam de sua própria existência, mais o Ego é objeto de cuidados, de autossolicitudes, de prevenções. É de se refletir... Não sei de ódio, aminimigos, perplexidades! A despeito de intolerantes, a cada qual, as trevas dos seus próprios desejos. Da minha parte, cabeça a mil e pés na terra, vivo a fonte de todas as coisas. Até mais ver!

 

CORPO CORPÓREO / A ESTRADA, DE LUIZ MARINHO



[...] Por esta porta foram-se todos os meus bens... eram simples de boa alma! Ah! Esta casa!... esta casa era uma sinfonia perpétua! Sabe?... Depois que Olívia se foi, não mais fiz sexo. O prazer da carne, já não me toca! Minha excitação, é-me absolutamente indiferente! As poluções noturnas, me são odiosas! Manifestam-se sem sonhos nem estímulos, chegam como indesejáveis e repugnantes vômitos. Eu, apenas existo, como existe uma pedra... Um argueiro... Duramos, apenas... Já não saio paraa o mundo... Meus passos limitam-se até aí nessa soleira... Todos os dias vem um mensageiro, trazer o que necessito. Sabe que não pode entrar, nem esquecer o vinho. No recanto dessa porta, fica dinheiro bastante para lhe prover. Nós não nos simpatizamos, mas, somos necessários um ao outro. [...].

O mensageiro, trecho extraído da obra Corpo corpóreo / A estrada (Comunicarte, 1995), do premiado dramaturgo Luiz Marinho (1926-2002). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 



quarta-feira, setembro 23, 2020

ELIEL WIESEL, ROSAMUNDE PILCHER, MARCIO SOUZA, NELSON MANDELA, YEBÁ BËLÓ, ZAHY GUAJAJARA, EVA YERBABUENA, TERPSÍCORE & CRONISTAS DE PERNAMBUCO


  

DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... PISADA NO MEU POBROPRIMIDO E NEM NEM! - A despeito de tudo, o inferno é o meu país desfigurado. Claro, ora, se o Coisonário no Fecamepa almejava ser super, agora está desmascarado: sempre foi especialista em dar cabo de pobroprimido. Por isso mesmo, tornou-se o anti-herói, de se juntar a outras trepeças e formar a sua Ligódio. Ele e sua abebalada trupe, formada pelos Guepaudeles, Coisamaralves a doidamares, Cristé do Agro, Pomar das Nuvens, Onçadremenan da Lei apócrifa, Jorau Desonesto, Beiromi Rilton, o cheleleu Elopato-to-to, Salerico Dendroclasta, Ferro de Engomar & outros coadjuvantes quase figurantes que se arrumam direitinho no que é dos outros, como o Faboria SS & o Enfriado, afora outros sórdidos apatetados, que mandam ver sob a leniência de casacudos e frouxas autoridades, todos cultores das vetustas ideias de Galton, Chamberlain e Gobineau. Lascou. Juntos e à socapa, batem cabeça, enfiam as mãos pelas pernas, dizem o que desdizem, desfazem o que foi feito, e, ainda por cima, mentem com suas estultices e destilam seus paroxismos sectários e contrafações temperamentais, como se salvassem de bem, quando, na verdade, tocam fogo no circo, estorvam e enlameiam qualquer restinho de dignidade que se imaginasse, montados na execração com toda estupidez, fanatismo, raiva, aversão, rancor e ira, coisa de uma história que se repete desde a mais remota antiguidade. Verdade: o ódio deles não é de hoje, desde o relato daquele personagem bíblico, o furioso agagita Hamã, que era desejoso de extermínio dos judeus, a coisa tomou pé na história da humanidade. Uma coisa que esquecem é que nenhum deles, inclusive o arrochado Hamã, não adivinhou o final da história: ele mesmo enforcado no seu próprio engenho, juntamente com seus filhos. Pois é, quantos exemplos se acumulam nos anais históricos, hem? Mesmo assim, achando-se impunes, os frenéticos odiligiosos neopetencostais agem contumazes como fanáticos vingadores da moral deles e seus maus costumes neofacistas, misturado tudo com febre nazista alemã e fúria daquele apartheid sul-africano, soltos na buraqueira e com força destrutiva inimaginável. Não sei se sobrará Brasil no fim desse desgoverno, prefiro falar doutra coisa. Por exemplo? De Nelson Mandela (1918-2013) Ninguém nasce odiando outro pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar. Eles passarão, eu sei, ficarão os coisominions com seus alaridos e eu prefiro ouvir o escritor sobrevivente do holocausto alemão e prêmio Nobel da Paz de 1986, Eliel Wiesel (1928-2016): O oposto do amor não é nenhum ódio, é a indiferença. O oposto de arte não é a feiura, é a indiferença. O oposto de fé não é nenhuma heresia, é a indiferença. E o oposto da vida não é a morte, é a indiferença. Indiferença, para mim, é a personificação do mal. Tome partido. Neutralidade ajuda o opressor, nunca a vítima. Silêncio encoraja o torturador, nunca o torturado. Por isso não me rendo e persisto com minha Nênia de Abril por todos os cantos do meu país, porque uma farsa histriônica tão repulsiva como esta não era para se assistir, era ser erradicada. Vambora

 


DUAS GRAÇAS DE YEBÁ BËLÓ - Imagem da atriz Zahy Guajajara – Euzilene Prexede do Nascimento Guajajara, da Reserva Indígena Cana Brava e que atuou na minissérie Dois Irmãos (Globo. 2017), no drama longa Não Devore Meu Coração (2017), dirigido por Felipe Bragança, do média-metragem Sociedade da Natureza (2017), do português Pedro Neves Marques e da peça de teatro, Jamais ou Calabar (2018), do Jorge Farjalla. – [...] No começo foi o nada e o primeiro momento intenso de luz. Quando Yebá-Beló surgiu das coisas invisíveis. A menina virgem nascida das coisas sagradas, em sua morada de quartzo, em sua morada de luz. Yebá-Beló, a não criada, aquela que se faz e se refaz e que é todos os dias igual, desde o começo antes do começo do começo do mundo. Yebá-Beló, avó do mundo. Em seu trono de quartzo branco, navegando em sua morada de luz. [...] Ela que tinha o poder de mandar, precisava dos que sabem fazer. Yebá-Beló começou a chamar, o que o leve vento foi trazer, seus irmãos os trovões do ar. [...] Venham, venham todos os quatro trovões, venham fazer o mundo surgir de mil explosões, venham fazer o mundo surgir de mil explosões. [...] Ah! mas isto foi antigamente, no começo antes do começo. Quando o mundo ainda era novinho em folha e todos sabiam que a vida não passa de um sonho. [...]. Trechos da peça teatral Dessana, Dessana, ou o começo antes do começo, extraído da obra Teatro (Marco Zero, 1997), do escritor Marcio Souza, tratando sobre a deusa criadora do mundo Yebá Bëló, figura principal no mito de criação dos índios Dessanas. Segundo os índios, ela mora em uma morada de quartzo, e ela criou os seres humanos a partir do ipadu (folha de coca) que ela mascava e, enquanto fumava, criou um ser de fumaça, que chamou de Yebá Ngoamãn, ao qual ela lhe deu um bastão chocalho com sementes masculinas e femininas e o elevou até a torre do grande morcego. Na torre, o bastão assumiu um rosto humano que virou o sol. Trata-se de uma lenda que também foi tratada na obra A origem da noite e como as mulheres roubaram as flautas sagradas (FUNARTE/EDUA, 2002), na obra Antes o mundo não existia - A mitologia heróica dos índios Desâna (Cultura. 1980), de Umúsin Panlõn Parokumu e Tolamãn Kenhíri, e tema do artigo O elemento feminino no mito de origem em Dessana Dessana, de Marcio Souza (Revista Decifrar, 2014), de Sideny Pereira de Paula (UFAM)

 


TRÊS MOVIMENTOS PARA ANÁBASE NOS BRAÇOS DA DEUSA - Imagem: a arte da premiada bailarina espanhola Eva Yerbabuena - Eva María Garrido, considerada uma grande dançarina de flamenco da atualidade. - Uma vez, duas, mil vezes ao inferno desci, ásperos dias, duros tempos e o meu país, estampa corroída, é o passado como um cofre vazio. O coração lateja e as lembranças são relâmpagos que guardam ossos, como um dia e outro na ironia do calendário. O mundo cresce, todos morrem como se nada acontecesse e a porta é herança vil de vida soterrada que o vento arrasta, a água lava, o fogo queima e à terra o que perece na pátria desfeita. Sou cego errante com o peso dos golpes. Para me redimir, surgiu a deusa a me dizer Rosamunde Pilcher: Felicidade é tirar o máximo proveito do que se tem. E riqueza é tirar o máximo proveito do que se consegue. Era ela lira nua, a musa Terpsícore para meu deleite dançante, atravessar o Hades e seguir anábase rumo à vida. Até mais ver.

VOZES: A CRÔNICA FEMININA CONTEMPORÂNEA EM PERNAMBUCO

A obra Vozes: a crônica feminina contemporânea em Pernambuco (CEPE, 2007), organizado por Elizabeth Siqueira e Laura Areias, reúne as escritoras Luzilá Gonçalves, Maria de Lourdes Horta, Fátima Quintas, Graça Graúna, Lourdes Nicácio, Lourdes Sarmento, Tereza Halliday, Ariadne Quintela, Eugênia Menezes, Graça Melo, Ina Melo, Isnar Moura, Lúcia Cardoso, Luciene Freitas, Márcia Basto, Margarida Cantarelli, Maria Lucia Chiappeta, Maria Pereira, Marilena de Castro, Marly Mota, Maryse Cozzi, Nazareth Gouveia, Nelly Carvalho, Neuma Costa, Rejane Gonçalves, Renata Pimentel, Rosa Guerra, Salete Rego Barros, Selma Vasconcelos, Silvana Oriá, Suzette Abreu e Lima, Telma Brilhante, Vera Sato, Virginia Crisóstomo, Zuyla Cartaxo, Ana Arraes, Ana Maria César, Cici Araujo, Cláudia Azambuja, Djanira Silva, Dulcita Brennand, Edna Alcântara, Eleonora Castelar, Elizabeth Antão, Esmeralda Moura e Ester de Lemos. Veja mais aqui e aqui.


 


terça-feira, setembro 22, 2020

NIETZSCHE, LAURA VINCI, HERMES TRISMEGISTOS, SABINA SPIELREIN, LOUISE VON FRANZ & VENTOS DE AGOSTO


  

DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DE QUEM VAI E VOLTA, SEMPRE RECOMEÇAR - Para quem já foi um tanto de vezes, desinventar talvez não deva. Lá debaixo, não há outra coisa a fazer senão unhas e ânimos cravados na sobrevivência. Sigo em círculos elípticos pelos cantos entre o flagra e o divagar, parece não haver mais portas ou absolvição que seja. Teimo enquanto houver tempo, embora sequer saiba se presente ou pesadelo na zoada dos instantes. Ouço passos apressados que se aproximam. Alguém ocupa o mesmo espaço que eu. Enxergo o brilho dos seus olhos nas imediações e, para minha surpresa, era Nietzsche: Homem! Tua vida inteira, como uma ampulheta, será sempre desvirada outra vez e sempre se escoará outra vez, - um grande minuto de tempo no intervalo, até que todas as condições, a partir das quais vieste a ser, se reúnam outra vez no curso circular do mundo. Era o primeiro passo e os degraus do eterno retorno. E nem me deixou racionar sobre o que dissera e já era Zaratustra e o dionisíaco sobre o abismo do perecer e do apolíneo, a liberdade sob a lei. Parou por um instante, movimentou a cabeça negativamente e vociferou: Vive de si próprio: seus excrementos são seu alimento. E assim, como viera, desaparecera na escuridão e fiquei só à cata das brechas para galgar sobre o ônus dos meus próprios percalços.

 


DUAS PASSADAS & UM TROPEÇO, ERA ELA A JORNADA DA ALMA – Prossegui na caminhada, andarilho sem rumo. Na verdade tateava, logo tropecei em alguém. A queda e o desconforto. Era uma mulher. Pedi desculpas, ela assentiu com um gesto. Tentei me explicar, ela aquiesceu com um toque ao meu ombro. Ali, sentados no chão, silenciosos. E de repente ela falou algo que não ouvi, apresentando-se e tagarelava de forma desconexa, a me dizer de si, falava e deu para adivinhar quem era pelos fatos narrados, coisa de filme, como do drama Prendimi l'anima (Jornada da alma, 2002), de Roberto Faenza, do documentário Ich hieß Sabina Spielrein (Meu nome era Sabina Spielrein, 2002), de Elisabeth Marton, do drama A dangerous method (Um método perigoso, 211), de David Cronenberg, e do livro Sabina Spielrein: de Jung a Freud (José Olympio, 2012), de Sabine Richebächer. Todos eu havia conhecido e tudo era sobre sua paixão escandalosa e seu diário secreto, sua correspondência escondida e o Berçário branco – o seu pioneirismo na psicanálise infantil, sua enfermidade e projeção. Sim, era ela mesma, Sabina Spielrein, corpalma ali, a me dizer com um sorriso carregado de lágrimas: Onde reina o amor, o ego morre. Saquei do lenço e ousei passa-lo às suas faces. Ela não recusou, mas enxugou-as com a barra da saia. Guardou o pranto e me fitou firme. Levantou-se e falou que eu era um ser em extinção. Não entendi nem havia como interpretar o que dissera, apenas seguia seus gestos. Então girou sobre os calcanhares e seguiu descalça pelo breu daquela noite eterna, com um aceno tímido de despedida. Ali fiquei, recostado e pensando tal surpresa. Nenhum ânimo para seguir adiante, apenas mergulhado naquele encontro. Num breve cochilo, as pisadas retornaram e, aproximando-se, pude perceber que não era ela de volta, só soube muito depois quem me dissera: Você não pode organizar a função inferior. Tenho para mim que ninguém pode realmente desenvolver a função inferior antes de haver criado um têmeno, a saber, um bosquete sagrado, um lugar oculto onde possa brincar. Para minha surpresa era Marie-Louise von Franz, que me saudara com um afeto e seguia o seu caminho. Duas mulheres em tão pouco tempo, pensei comigo. Não sabia o que fazer, buscava ânimo para prosseguir. Talvez ali fosse mais proveitoso, não sei, precisava descansar.

 


TRÊS COCHILOS & UMA VISÃO ESOTÉRICA - Imagem: arte da escultora, artista intermídia, pintora, desenhista e gravadora Laura Vinci – Houve um tempo em que tudo era factível. Agora, não mais: dizer o que não disse, fazer o que não fiz, destroços, mentiras, farsas. A guerra é iminente e o ódio é morte certa. Precisava da luz do Sol e a surpresa trouxe Hermes Trismegistos que levitava adivinhando meus pensamentos: o Sol exerce no Universo a função do coração do qual a vida se espalha por todas as partes. A luz é o veículo da vida, da mesma forma que lhe é a fonte e causa próxima. Dito isto, ainda inquiri a respeito do Corpus hermeticum, da Tábua de Esmeralda, Atanor, o Elixir e de como eu poderia sair dali. Antes de partir, virou-se e respondeu minhas indagações com sua voz oracular: Invoca o Espírito da luz eterna, fala pouco, raciocina muito e julga com retidão e justiça. Nada mais disse, nem mais o vi. Tudo passa e desanda no imprevisível. A vida vai depressa e o futuro, quimera impossível. Apenas vivo e é maravilhoso viver. Até mais ver.

VENTOS DE AGOSTO

O premiado drama Ventos de agosto (2014), do cineasta e artista visual Gabriel Mascaro, conta a história de uma jovem que deixa a cidade grande para viver em uma pacata província litorânea para cuidar do seu avô e trabalhar numa plantação de coco, dirigindo trator e cultivando o sonho de ser tatuadora. Aparece, então, um pesquisador de som que abala a sua rotina com um jovem que também trabalha na fazenda e é praticante da pesca submarina. Daí surge uma jornada de vida e morte, perda e memória, vento e mar. Veja mais aqui e aqui.


 


CHARLAINE HARRIS, SEBASTIAN SEUNG, CONNIE PALMEN, MIHÁLY BABITS & JORGE WERTHEIN

  Ao som do Concerto Instrumental (2015), gravado ao vivo pela violonista alémã Jule Malischke , nas oficinas em DD-Hellerau.   TRÍPTICO DQP...