quinta-feira, setembro 28, 2006

NURUDDIN FARAH, ROBERT DESNOS, FRAN LEBOWITZ, VERDET, ERIC FISCHL, PEGGY GUGGENHEIM, A REVOLTA DA PINGA & A PRAGA DO VOTO VENDIDO



A PRAGA DO VOTO VENDIDO - Pois é, meus amigos e minhas amigas, é fogo de morro acima e água rebentando abaixo, tudo passando de eleição em eleição e a praga do voto vendido é uma prática nociva das mais corrosivas que a gente não consegue entender como é que se dá. Na verdade, entender, entende, basta olhar pros lados e constatar o miserê da gota! Já abordei o assunto no artigo “Voto Moral” que foi publicado em diversos jornais impressos. Nele falo da necessidade do voto consciente. Agora, falo do abjeto voto vendido. E, sobre esta prática, até o TSE já fez campanha em cadeias de televisão. De nada adianta, parece já entranhada no jeitinho brasileiro do votar em troca de quaisquer deztões, potocas emergenciais, brebotes ocasionais ou desimportâncias que fazem o paliativo momentâneo voto pelo agrado pecuniário, legitimando trepeças que representarão descompromissadamente essa mesma gente vendida sem a menor parcimônia. E isso, acho eu, só empiora a situação que já é desembestadamente aguda no Brasil: broncas a fole! O que é danado é que a grita pelas soluções dos problemas sociais e comunitários são agigantadas a cada eleição que passa. Isso porque sujetinho passa fome, vive de bico, não tem escola, muito menos saneamento público, mora dependurado num morro ou embaixo da ponte sem a mínima condição de vida, se esburracha todo para conseguir o ínfimo ganha-pão, reclama dos transportes, da saúde pública, da polícia que não protege, das autoridades que não resolvem, do prefeito que não faz nada além de enricar e fazer o que quer, esperneia com tudo e, quando chegam às eleições, vendem o voto. Um despautério, né? É o mesmo que curpir prá cima e não sair debaixo: o cuspe cai na cara, óbvio! Há que se considerar que as práticas, tanto da compra de votos como da boca-de-urna, são proibidas por lei, mas todo mundo atua sambando e sem cerimônia ao arrepio da legislação. O pior é que todo mundo sabe onde está a bronca acontecendo e onde ocorre a derrama das esmolas em troca de voto, todo mundo sabe como é feita a transação, todo mundo sabe como agem na boca-de-urna e, apesar disso, nada é feito. Nem polícia nem judiciário, mesmo sabendo onde ocorrem, chegam lá. Alegam, pois, que basta um telefone anônimo, uma denúncia. Ora, quem é doido denunciar? No reino da impunidade, o sujeito que presta esse "desserviço" não passará de cidadão vigilante para recalcitrante e mais perigoso transgressor dos “bons” costumes seculares da nojentice adquirida. Pois, com certeza, como as coisas aqui andam ao contrário, o nome do petulante estará com todas as letras e as medidas do caixão na boca do algoz que, com certeza, dará um desacerto no linguarudo. Daí vem aquele papo esdrúxulo de “todo mundo faz, por que não me aproveitar?”. E é tão danado mesmo que quando a coisa degringola, só se pune o corrompido, nunca o corruptor – isso só com uma urucubaca da peste no meio de uma puxada de tapete ineivada. Já viu os maioriais na cadeia? Sim, isso mesmo, quando brigam entre eles e só por força de uma famosa cruzeta! Pois é, todo mundo sabe, ninguém faz nada. É como a prática da propina que também já tratei no “Toco do Barnabé”, a espórtula institucionalizada na índole do brasileiro. Quem não sabe que o molha-mão come arroiado nas hostes do serviço público? Quem não deitou uma esportulazinha nas mãos dos inexoráveis representantes do povo? D-u-du-v-i-vi-d-o-do! Duvido quem não tenha passado por isso no Brasil. E todo mundo sabe quem são os corruptos mas só quando estes caem na desgraça de desagradar graúdos, é que a pele dele é descascada pelo opróbrio popular. Normalmente eles só caem debaixo, como já disse, da maior cruzeta, tramóia braba mesmo para desmoralizar o danado. Tirante isso, vista grossa para todos os lados. Por causa disso chego a pensar que a manutenção da pobreza e do analfabetismo absoluto e relativo, não passa de medonho pacto das elites para que, mantido esse exército de reserva disponível, evidentemente haverá mão-de-obra barata para subempregos, sub-salários e vitórias eleitorais. E para se evitar isso, só educação, vergonha na cara e coragem destemida, principalmente na hora do voto. Eia, Fecamepa!!! Vamos aprumar a conversa e tataritaritatá! No mais, glup, glup, bié, bié. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.Veja mais aqui.


DITOS & DESDITOSO contrário de falar não é ouvir. É esperar. Pensamento da escritora estadunidense Fran Lebowitz.

ALGUÉM FALOU: O universo não passa de um grande vazio povoado de estrelas aqui e ali, em geral agrupadas em miríades. Povoado também de nuvens de gás e de poeira. Há mais de cinco bilhões de anos, uma dessas grandes nuvens cósmicas começava a implodir e dava origem ao Sol e a seu cortejo de planetas. Pensamento extraído da obra O céu, mistério, magia e mito (Gallimard, 1987), do astrônomo, historiador e matemático francês Jean-Pierre Verdet.

ALGUÉM FALOU II: Nasci em Nova York, na rua 69 Oeste. Não me lembro de nada a esse respeito. Minha mãe me contou que, enquanto a enfermeira estava enchendo uma bolsa de água quente, vim rapidamente ao mundo, com a velocidade de sempre, e que miei como um gato. Pensamento extraido da obra Out of this century (Universe, 1979), da colecionadora e mecenas estadunidense Peggy Guggenheim.

A REVOLTA DA PINGA & O SUBSÍDIO LITERÁRIO – [...] Nos séculos  XVII e XVIII, a revolta da pinga foi um dos muitos movimentos ativistas mais interessados em combater a cobrança exagerada de impostos do que em lutar pela independência. Ela ocorreu em Vila de Pitangui, em Minas Gerais, contra a taxação do comercio da cachaça. Em janeiro de 1720, uma tentativa do governo de regulamentar o comercio da aguardente gerou um levante popular. A resposta das forças do governo foi imediata: ao todo, quinhentos homens foram arregimentados para combater os revoltosos. Após duros combates, as tropas rebeldes foram vencidas e, para escapar das perseguições, embrenharam-se pelo interior de Goiás. [...] Na impossibilidade proibir o consumo da bebida, os portugueses passaram a aplicar-lhe tributações para arrecadar recursos para os mais variados fins. Um dos impostos foi recolhido com o objetivo de contribuir com a reconstrução da cidade de Lisboa, abalada por um terremoto em 1756. Mais tarde, em 1759, foi criado o “subsídio literário”. Esse imposto passou a vigorar depois que o Marquês de Pombal determinou a expulsão dos padres jesuítas dos territórios portugueses. Com a saída deles, essa função passou a ser exercida por professores não religiosos. No intuito de arrecadar dinheiro para custear a remuneração desses profissionais e das despesas escolares, foi instituído o “subsídio literário”, que determinava a tributação da cachaça, do vinho, do vinagre e da carne-verde. Porém, as dificuldades para cobrar o tributo acabariam por inviabilizá-lo [...]. Trecho extraído da obra Cachaça: um amor brasileiro (Melhoramentos, 2006), da historiadora e pesquisadora Alessandra Garcia Trindade. Veja mais aqui e aqui.

MAPAS - [...] uma criatura forjada de noções formuladas sem cabeças, uma criatura que ganhou a vida a partir de ideias; como se não fosse uma criança nascida com a boa ou má fortuna das estrelas, uma criança que tem um nome, respira como as outras, uma criança cujos atos são parte da experiência passada e presente de um povo [...] Não só ela via em você o pai mas também a criança que vivia nela: via um pedaço diferente de terra, escutava uma outra língua e observava na tela do passado a reprodução de certas cenas reais e dolorosas como se tivessem existido na véspera. Buscava em você a infância e guardava as confi dências mais preciosas para compartilhá-las com você, somente com você. Também via em você uma princesa que mal contava cinco anos, uma princesa bonita rodeada de serviçais e admiradores, amada pela mãe, pelo pai, pois uma menina não herdaria o nome – não continuaria à linhagem. Uma princesa! [...] Em silêncio, a mente de Askar seguiu o mesmo curso que os pensamentos de Hillal – Misra fora seu único mundo, o conteúdo e a fonte de seus segredos, a única em quem confiava; ela, cujo braço, maior do que tudo que ele havia tocado ou visto, estendia-se para o alto e os dedos curtos apontavam e nomeavam o firmamento; os mesmos dedos que limpavam seu rosto ou secavam suas narinas, e eram rápidos para apontar em seguida a terra onde se sentava enquanto os pensamentos dela, como um pêndulo, oscilavam entre o céu (a morada de Deus?) e a terra (nutriz do homem?), entre ele e ela. Ela o ensinara a situar e nomear coisas e pessoas, ela o ajudara a se fixar no centro de um mundo – o dela! [...] E foi assim que começou – a história de (Misra, Misrat, Masarat e...) Askar. Primeiro ele a contou direta e sem fl oreios, respondendo às perguntas do ofi cial; a seguir a contou a homens usando togas, parecendo abutres com crânios brancos. E o tempo crescia no rosto de Askar à medida que ele de novo contava a história, o tempo crescia como uma árvore com mais ramos e muito mais folhas decíduas do que as da árvore existente no rosto da lua. No processo, ele se transformou no réu. Ele foi ao mesmo tempo o queixoso e o jurado. Por fi m, permitindo que seus diferentes eus agissem como juiz, audiência e testemunha, Askar a contou para si mesmo [...]. Trechos extraídos da obra Mapas (Companhia das Letras, 2003), do escrito somali Nuruddin Farah.

O LINDO DEPOIS DA MEIA NOITE - Mais branca que a neve e os cristais de sal / a flora da noite desabrocha / e cresce ocupando os espaços do céu / onde o cavalo azul relincha, escoiceia e desabala. / Rumo a prados salpicados de estrelas recentes / através de miríades de astros e reflexos / dando tudo o que pode e enlameando as nuvens / mergulha no mais fundo das trevas leitosas / Desenrolando a fita dos ciclos abolidos, / os mais curtos curvando-se sob o peso dos crepúsculos / por ter de muito perto sois de brilhos pálidos / se aproximando do rubor da Lira e de Hércules. / Mas a lua a essa hora vestida de noiva / arrasta a seus brancos pés a nebulosa e branco /  branco qual amanhecer no mar petrificado / o carneiro da aurora prepara o impulso. / O cometa na fronte colocou faíscas / bela negra ó lua vais tão calmamente / encontrar teu esposo de olhos amendoados / cujo leito Vênus com seu corpo galante aqueceu? / Champanhas correi nas constelações / se os vinhos são qual estrelas líquidas / encontremos ó Borgonha em ti a criação / dos monstros fabulosos do éter e do vazio. / Faremos surgir amassando as uvas / Mercúrio e Júpiter e o Câncer e a Ursa / apesar dos faiscantes reflexos do vinho / e do sol banhado no frescor das fontes. / Ó belo pós-meia-noite escoltado de lendas / arrasta mais um par para as valsas do desejo / a fim de que o lasso bebedor peça de novo / que lhe enchas o copo com o sangue das lembranças. Poema do surrealista francês Robert Desnos (1900-1945).

A arte de Eric Fischl
A arte do pintor, escultor, litógrafo, desenhista e educador estaduinidense Eric Fischl.



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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 NOITE
Ela arde na noite e me espera nua
Branca como a lua só pra mim:
A noite é dela e ela é minha!

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.
Arte by Ísis NefelibataVeja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

MARTIN AMIS, PHYLLIS A. WHITNEY, ROSANA PALAZYAN & PAULA BERINSON

    Ao som dos álbuns Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985), Camerístico (2007), Original (2002) e Dois Destinos (2016), do vio...