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Mostrando postagens de Agosto, 2018

NAGUIB MAHFUZ, SARAH KOFMAN, REBECCA HORN, FRANCIS HIME, DOESBURG & JULIO CORREA

A TOCHA HUMANA – Imagem: The vertebra oracle in Napoli 2015, da artista visual alemã Rebecca Horn. - Estupefato fiquei sob o ardor inclemente do sol de meio dia em pleno mês de junho, normalmente aguaceiro de inverno. Era véspera de São João e tudo já deixava claro que algo inusitado estava por acontecer. Ademais, também era tempo das comemorações de emancipação política do município de Alagoinhanduba. Pleno feriado, dois dias encarreados só para os festejos onde tudo era envolvido com as casas ornadas com flores de variegados matizes nas janelas e o povo em polvorosa doido pela festança. Aquela correria pro ouriço. Logo cedo, acordava o povo com o desfile da banda de fanfarra, anunciando os outros eventos e desfiles de alunos das escolas agrupadas aos pelotões, malabarismos, autoridades num palanque engalanado, gente como a peste, prestigiando a efeméride. Os tiros de bacamarteiros na praça central, dava por iniciado ao tradicional ajuntamento de gente nas calçadas. As ruas ornamenta…

PETRARCA, CAIO ABREU, ADRIANA CALCANHOTO, HABERMAS, VATTIMO, ALDEMIR MARTINS, PESQUISA & ZEBEDEU

O BOI DE ZEBEDEU - Imagem: arte do ilustrador, pintor e escultor Aldemir Martins (1922-2006). - Foi assim: numa manhã ensolarada de sábado estival, apareceu Zebedeu todo enfeitado de tampas, botões, moedas, adereços e outros brebotes reluzentes apregados no gibão e no chapéu de vaqueiro, exaltando o boi Glorioso que mugia acompanhando a sua cantoria. Ele danou-se a embolar coco, puxando firme na versejada, de ajuntar gente para acompanhar o apólogo de interminável falação desde cedinho até a noitinha. Cantava ele a majestade miraculosa do animal, das peçonhas que inoculara, das doenças que curara, das mortes que ressuscitara, das vidas que salvara, afora outras tantas espetaculares virtudes, adivinhações e medicações do afamado bovino que ali estava comendo flores, todo ornado de fitas do pescoço à cauda. Todo sábado ali, já era costume. Vez por outra aparecia uma empreitada: um menino com febre braba, quase desfalecido de tão franzino, com maleita incurável. Zebedeu não teve dúvida, …

EDU LOBO, ROGERS, GUATTARI, MAETERLINCK, DONIZETE GALVÃO, KAMEL REKOUANE & ALAGOINHANDUBA

DAS COISAS DE ALAGOINHANDUBA – Imagem: arte do artista visual argelino Kamel Rekouane. - Alagoinhanduba nem existe no mapa, coisa que remete ao desprestígio daquelas cidadezinhas escondidas nos cafundós. Até hoje o senso não foi concluído, não havendo concórdia quanto ao exato número de habitantes, sabendo-se apenas dos votantes no período eleitoral. Afora isso, tudo de extraordinário acontece todo dia, desde correr bicho, ataques de tochas sobrenaturais, mula sem cabeça, perna cabeluda, afora escândalos, assassinatos, protestos, assaltos, passeatas, arengas e revoltas, enfim, tudo lá acontece de verdade, a ponto de se constatar que o mundo todo está ali em ebulição. Sempre sujeita às mais insólitas acontecências, o extravagante faz parada diária na resenha popular. Principalmente depois da pendenga instalada pelo estranhamento entre o Padre Quiba e o então coroinha Bidião, que a coisa pegou fogo a ponto de rachar a população no meio e deixá-la em pé guerra. Os anos se passaram e, de …

NABOKOV, AMADO NERVO, CONFÚCIO, MICHAUX, COCO CHANEL, CLAUDIA VILLELA, OLGA RYKOVA & TCHELLO D’BARROS

O QUE APRENDI DA LUA - Imagem: Arte da artista moldava Olga Rykova. - Aprendi primeiro a escuridão: havia temores na noite. Foi só fechar os olhos e todos os fantasmas se dissolveram ali. Assim aprendi a singrar os céus e os astros sem sair de casa e nenhum passo, a saborear da luz antes sequer imaginada, a me convencer da alma animando meu corpo e o renascimento simbólico na âncora da vida. Aprendi a noite em pleno dia de Palmares, a cantar Lunik 9 de Gil pelas ruas: Poetas, seresteiros, namorados, correi, é chegada a hora de escrever e cantar... a reverenciar os gestos, as distâncias, os olhares, a loucura e a solidão dos corpos celestes e todas as coisas do mundo, entre mitos e lendas, como a da bela índia Bororo branca de olhos claros e cabelos dourados como a manhã, não hesitava em seus passeios noturnos. Ela trocava a noite pelo dia como eu tetéu de tanto desabrigo. Amaldiçoada pela índia escura aliada à cascavel, ficou muito triste por não gostarem dela, pois não tinha ninguém …