segunda-feira, agosto 13, 2018

GENET, MURILO MENDES, CUATEMOC, MILTON SANTOS, BETO GUEDES & LEONOR FINI


O AMANHÃ DE ONTEM – Imagem: da pintora, designer, ilustradora e autora surrealista argentina Leonor Fini (1907-1996). - Uma mulher amamenta, alguns vão, outros voltam. A cena aurática: dela o olhar perplexo no vazio como se um dedo apontasse oblíquo o fosso da existência. A alegoria da família desfeita, marido perdido, só o chão e a roupa do couro com seus lençóis de marquises suspensas de lua estrelada, fronha de cimento, travesseiro de concreto. Ela olha inquieta pros lados e vacila um tanto assustada como quem perde o canavial da infância, coxas de fora, seios fartos na fome. Quase vejo sua alma e se recompõe alisando o cabelo em desalinho, enquanto a criança inquieta ao colo desarruma suas vestes e mais seduz sem conseguir esconder com seu vestido curtinho de alça, simples e solto na carne alva, a sorrir sem jeito com seus olhos intensos a olhares atentos, face afogueada, quase tão plena quanto desolada. Quem passa logo vê, é o que lhe dão na flor da idade, se embaixo de uma ponte ou de um viaduto com as hortas paternas devastadas, o amparo árido materno, o chão batido pra pisar o asfalto, o coração condoído. Ninguém sabe sua dor, se presente ou futura, apenas uma mãe naquela hora e a vida na lágrima inupta, escapada a deslizar aos lábios salientes e entreabertos. Não há o que fazer nem como pedir, sem ponto de parada ou partida, a sofrer por quilômetros a língua no choro, a cabeça nas paisagens de nuvens e pensamentos superpostos que se confundem ao cenário cruel. Ela lá, no aleitamento, muitos se foram, outros voltaram. A espera de nada, condução inexistente, a chuva sem guarida, a sala das horas a céu aberto e espelhado. Não sabe das margens, só uma pra ficar e do outro lado, tudo acontece. À distância, ela compõe a brumosa paisagem e continua a dar de mamar. Todos sabem para onde vão, ela parece não ter para onde ir nem ficar. Ela me vê como se dissesse: se houver amanhã será ontem. Eu sigo e ela, não sei até quando, na memória. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, compositor e multi-instrumentista Beto Guedes: Ao vivo, Contos da lua vaga, Dias de Paz e Outros clássicos ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Aqui eu, Cacique Guaicaipuro Cuatemoc, vim encontrar aqueles que participam da reunião. Aqui eu, descendente dos que povoaram a América há quarenta mil anos, vim encontrar os que a encontraram há somente quinhentos anos. Aqui pois, nos encontramos todos. Sabemos o que somos, e é o bastante. Nunca pretendemos outra coisa. O irmão aduaneiro europeu me pede papel escrito com visto para poder descobrir aos que me descobriram. O irmão usurário europeu me pede o pagamento de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei a vender-me. O irmão rábula europeu me explica que toda dívida se paga com bens ainda que seja vendendo seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento. Eu os vou descobrindo. Também posso reclamar pagamentos e também posso reclamar juros. Consta no Archivo de Índias, papel sobre papel, recibo sobre recibo e assinatura sobre assinatura, que somente entre os anos 1503 e 1660 chegaram a San Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América. Saque? Não acredito! Porque seria pensar que os irmãos cristãos pecaram em seu Sétimo Mandamento. Espoliação? Guarde-me Tanatzin de que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue de seu irmão! Genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomé de las Casas, que qualificam o encontro como de destruição das índias, ou a radicais como Arturo Uslar Pietri, que afirma que o avanço do capitalismo e da atual civilização europeia se deve à inundação de metais preciosos! Não! Esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata devem ser considerados como o primeiro de muitos outros empréstimos amigáveis da América, destinado ao desenvolvimento da Europa. O contrário seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito não só de exigir a devolução imediata, mas também a indenização pelas destruições e prejuízos. Não Eu, Guaicaipuro Cuatemoc, prefiro pensar na menos ofensiva destas hipóteses. Tão fabulosa exportação de capitais não foram mais que o início de um plano ‘Marshalltesuma’, para garantir a reconstrução da bárbara Europa, arruinada por suas deploráveis guerras contra os cultos muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, do banho cotidiano e outras conquistas da civilização. Por isso, ao celebrar o Quinto Centenário do Empréstimo, poderemos perguntar-nos: Os irmãos europeus fizeram uso racional, responsável ou pelo menos produtivo dos fundos tão generosamente adiantados pelo Fundo Indo Americano Internacional? Lastimamos dizer que não. Estrategicamente, o dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em armadas invencíveis, em terceiros reichs e outras formas de extermínio mútuo, sem outro destino que terminar ocupados pelas tropas gringas da OTAN, como no Panamá, mas sem canal. Financeiramente, têm sido incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de cancelar o capital e seus fundos, quanto de tornarem-se independentes das rendas líquidas, das matérias primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo. Este deplorável quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e os juros que, tão generosamente temos demorado todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus as vis e sanguinárias taxas de 20 e até 30 por cento de juros, que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo. Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos adiantados, mais o módico juros fixo de 10 por cento, acumulado somente durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça. Sobre esta base, e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, informamos aos descobridores que nos devem, como primeiro pagamento de sua dívida, uma massa de 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambos valores elevados à potência de 300. Isto é, um número para cuja expressão total, seriam necessários mais de 300 algarismos, e que supera amplamente o peso total do planeta Terra. Muito pesados são esses blocos de ouro e prata. Quanto pesariam, calculados em sangue? Alegar que a Europa, em meio milênio, não pode gerar riquezas suficientes para cancelar esse módico juro, seria tanto como admitir seu absoluto fracasso financeiro e/ou a demencial irracionalidade das bases do capitalismo. Tais questões metafísicas, desde logo, não inquietam os Indo Americanos. Mas exigimos sim a assinatura de uma Carta de Intenção que discipline os povos devedores do Velho Continente, e que os obrigue a cumprir seus compromissos mediante uma privatização ou reconversão da Europa, que permita que a nos entregue inteira, como primeiro pagamento da dívida histórica. Discurso do embaixador mexicano de descendência indígena Guaicaípuro Cuatemoc, na conferência dos chefes de Estado da União Européia, Mercosul e Caribe, em maio de 2002 em Madri, Espanha.

HERANÇA HISTÓRICA – [...] O Crescimento urbano e as modificações no tipo de atividades dominantes que o acompanharam traduzindo-se na paisagem por destruições, justaposições ou novas utilizações no habitat e no patrimônio mobiliário anteriores [...] Realizados de forma incompleta, as destruições deixaram subsistir testemunhos da cidade primitiva [...] Na maioria dos casos porém, foi instituída uma separação em “bairros históricos”; a separação foi tanto mais forte quanto mais interviram fatores políticos, étnicos ou econômicos, para impor a diferenciação [...]. Trecho extraído da obra Manual da geografia urbana (Hucitec, 1981), do geógrafo e professor Milton Santos (1926-2001). Veja mais aqui.

O ATELIÊ DE GIACOMETTI - Todo homem terá talvez sentido essa espécie de pesar, senão terror, ao ver como o mundo e sua história se mostram enredados num inelutável movimento que se amplia sempre mais e que parece modificar, para fins cada vez mais grosseiros, apenas suas manifestações visíveis. Esse mundo visível é o que é, e nossa ação sobre ele não poderá nunca transformá-lo em outro. Sonhamos então, nostálgicos, com um universo em que o homem, em vez de agir com tanta fúria sobre a aparência visível, se dedicasse a desfazer-se dessa aparência, não somente recusando qualquer ação sobre ela, mas desnudando-se o bastante para descobrir esse lugar secreto, dentro de nós mesmos, a partir do qual seria possível uma aventura humana de todo diferente. Mais precisamente moral, sem dúvida. Mas, afinal, é talvez a essa condição humana, a esse agenciamento inelutável, que devemos a nostalgia de uma civilização que procuraria se aventurar fora do que é mensurável. [...]. Trecho extraído da obra O ateliê de Giacometti (Cosaic & Naify, 2000), do controverso escritor e dramaturgo francês Jean Genet (1910-1986), Veja mais aqui.

TRÊS POEMASSOMOS TODOS POETAS - Assisto em mim a um desdobrar de planos. / as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move, / A luz desce das origens através dos tempos / E caminha desde já / Na frente dos meus sucessores. / Companheiro, / Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma. / Sou todos e sou um, / Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego, / Pelos gritos isolados que não entraram no coro. / Sou responsável pelas auroras que não se levantam / E pela angústia que cresce dia a dia. A MÃE DO PRIMEIRO FILHO - Carmem fica matutando / no seu corpo já passado. / — Até à volta, meu seio / De mil novecentos e doze. / Adeus, minha perna linda / De mil novecentos e quinze. / Quando eu estava no colégio / Meu corpo era bem diferente. / Quando acabei o namoro / Meu corpo era bem diferente. / Quando um dia me casei / Meu corpo era bem diferente. / Nunca mais eu hei de ver / Meus quadris do ano passado... / A tarde já madurou / E Carmem fica pensando. GILDA - Não ponha o nome de Gilda / na sua filha, coitada, / Se tem filha pra nascer / Ou filha pra batisar. / Minha mãe se chama Gilda, / Não se casou com meu pai. / Sempre lhe sobra desgraça, / Não tem tempo de escolher. / Também eu me chamo Gilda, / E, pra dizer a verdade / Sou pouco mais infeliz. / Sou menos do que mulher, / Sou uma mulher qualquer. / Ando à-toa pelo mundo. / Sem força pra me matar. / Minha filha é também Gilda, / Pro costume não perder / É casada com o espelho / E amigada com o José. / Qualquer dia Gilda foge / Ou se mata em Paquetá / Com José ou sem José. / Já comprei lenço de renda / Pra chorar com mais apuro / E aos jornais telefonei. / Se Gilda enfim não morrer, / Se Gilda tiver uma filha / Não põe o nome de Gilda, / Na menina, que não deixo. / Quem ganha o nome de Gilda / Vira Gilda sem querer. / Não ponha o nome de Gilda / No corpo de uma mulher. Poemas do poeta e prosador do Surrealismo brasileiro, Murilo Mendes (1901-1975). Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE LEONOR FINI
A arte da pintora, designer, ilustradora e autora surrealista argentina Leonor Fini (1907-1996). Veja mais aqui.

AGENDA
Festival Internacional de Compositores – dias 15 a 20 de Outubro,  Solar da Marquesa Av. Joaquim Nabuco, 5, Largo do Varadouro, Olinda & muito mais na Agenda aqui.
&
Marquinhos Cabral: desde menino solto na buraqueira, o pensamento de Jiddu Krishnamurti & Celso Furtado, o mito de Joseph Campbell, As amizades de Barbosa Lima Sobrinho, a literatura de Millôr Fernandes, Rio Una & Jorge de Altinho aqui.


EMMA LAZARUS, NADINE GORDIMER, LAGERLÖF, YOURCENAR & JOAN RODRIGUEZ

    Ao som de Pavane por une infante défunte (1899), de Maurice Ravel , com a Orchestre National de France, sob a regência da maestrina fin...