quinta-feira, dezembro 10, 2020

JORGE LUÍS BORGES, SOLZHENITSYN, CAMUS, HENFIL, TERESA DE CALCUTÁ, SERGIO LOPEZ, LOURDES NICÁCIO & L7M


  

TRÍPTICO DQC: REINVENÇÃO DO RUMO OU NADA - Ao som de Canon & Gigue In D, do compositor alemão Johann Pachelbel (1653-1706), com a regência de Yip Wing-sie & Hong Kong Sinfonietta (2008). – Lugar distante, acho. E incerto. Ou estou perdido. Andança. Ao me aproximar do que poderia ser uma cidade, tentei ler a placa indicativa quando surgiu uma bela e sensual mulher me dando as boas-vindas: Sou Assistente Social e, cada visitante, é recepcionado, cadastrado e encaminhado para conhecer o local, pois aqui tudo é diferente! Perguntou-me uma série de coisas marcadas num formulário da prancheta apoiada no decote dos seus belos seios. Idade, nome, estado civil, etecetera e tal. Siga-me. O primeiro prédio, o da Educação: os maiores espancavam os menores, os mais velhos torturavam os mais novos; os rapazes às moças, os homens, às mulheres; as mães, aos filhos e filhas. Veja! Sim? Estão sendo educados na lei daqui. Hem? Venha. Entramos numa sala do prédio Governo: uns tomam o que é dos outros e vice-e-versa, todos são roubados e roubam entre si. Viu? Como é? Aqui aprendem a governar. Venha. E me levou a um salão de outro prédio, o Templo da Fé: uma reunião de pessoas completamente despidas e amontoadas, homens e mulheres que fossem idosos, adultos, jovens, todos numa espécie de orgia báquica, uns aos outros encangados libidinosamente e aos louvores. Esta é a religião daqui. Que lugar é este? Diante da minha surpresa, ela encaminhou-me por alguns corredores que, ao final, deram na saída da cidade: Pode ir, o senhor não foi admitido em nossos domínios. E bateu a porta. Desapontado, dei dois passos e, ao voltar-me, nada mais existia, como se tivesse sumido no ar. Ao retomar a caminhada deparei-me com Alain de Benoist: A única coisa que importa é o que as pessoas pensam de uma questão precisa, não importa como eles se posicionam (ou se recusam a) no espectro político tradicional. Vôte! Fiquei intrigado com o que ele disse, enquanto Ahmadou Kourouma me dizia em tom confidencial: Deus dá brincos de ouro a quem não tem orelhas para os usar... quando as infelicidades são muitas, Deus acaba por ficar indiferente... nenhuma oração pode alegrar um homem vazio. Mais surpreso fiquei ao ser advertido por Naguib Mahfuz: Estão querendo apagar a luz da razão e do pensamento. Cuidado! Se rejeitarmos a ciência, rejeitamos o homem comum. Você consegue saber se um homem é inteligente pelas suas respostas. Você consegue saber se um homem é sábio pelas suas perguntas. Que coisa! Parecia um bombardeio inexorável e logo apareceu Rajneesh bastante severo: A verdade não é algo do lado de fora para ser descoberto, é algo dentro para ser realizado. Largue a ideia de se tornar alguém, porque você já é uma obra de arte. Você não pode ser melhorado. Você só precisa se ir em direção a isso, saber disso e realizar isso. Como assim? Estava encurralado. De repente me vi só no descampado: todos os caminhos adiante, mas para onde?... Hei de reinventar o rumo, mesmo que não saiba como.

 


DE IR ALÉM DAS AMARRAS & IMOBILISMO - Imagem: a arte do grafiteiro L7M - Luís Seven Martins, ao som do álbum Finding Gabriel (2019), do pianista estadunidense Brad Mehldau. - O justo, a equidade e a cena: o magistrado ouvia a exposição da defesa, piscando o olho para a promotoria. Resultado: décadas de litígio civil ou quinquênios de cizânia trabalhista, alguém cedeu entre as partes, a requerente-reclamante de direitos; ou condenação penal para todos os perdedores, onde houver o menor prejuízo e a absolvição sob os poderes dos vencedores. Solzhenitsyn esclarece: Justiça é consciência, não uma consciência pessoal mas a consciência de toda a humanidade. Aqueles que reconhecem claramente a voz de suas próprias consciências normalmente reconhecem também a voz da justiça. Estou confuso, que mundo é este? Camus em tom aborrecido me joga na cara: Se o homem falhar em conciliar a justiça e a liberdade, então falha em tudo. Não há sossego, impossível conciliar carências e adversidades com consumo escravocrata, ganância hipócrita e obediência acéfala, não há como! Nisso, Jorge Luís Borges se aproxima: Fazer o bem ao teu inimigo pode ser obra de justiça e não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens. É tudo muito difícil: a sindemia, o superfungo, o desgoverno do Fecamepa. Antes outras eram as indagações, a humanidade e o viver. Agora não mais, sobreviver sem que se saiba como ir cada vez mais longe, ou ficar cada vez mais perto, o horror em qualquer lugar ou tempo, se o meu mundo é todo mundo e o mundo todo, para quem a vida, quaisquer que sejam, importa.

 


ONDE A POESIA & ÊXTASE OU NADA – Imagem: arte do ilustrador e artista visual estadunidense Sergio Lopez, ao som de Le ruban dénoué for two pianos (1915), do compositor venezuelano Reynaldo Hahn (1874-1947). – A solidão e a noite. Ela chega: Sou Lola, a filha da dor Aurora Maria Nascimento Furtado (1946-1972), psicóloga e bancária, aquela que na manhã daquela quinta-feira, dia 9 de novembro de 1972, fui detida numa blitz policial em Parada de Lucas, no Rio de Janeiro, aprisionada viva dentro de um ônibus e conduzida para a delegacia de Invernada de Olaria. Submetida ao pau de arara com sessões de choques elétricos, espancamentos, afogamentos e queimaduras, aplicaram-me a coroa de cristo e não resisti. Fui encontrada jogada na esquina, com o corpo crivado de balas. Apenas no dia 11 de novembro estampou a manchete dos jornais: De madrugada, Aurora, que fora presa às 9h40m de 9 de novembro, conduzia agentes da polícia carioca a um local do Méier, onde estaria localizado um aparelho, na esquina das ruas Magalhães Couto e Adriano. Aurora pediu para descer, disse que por motivo de segurança queria dirigir-se a pé ao aparelho. Ao descer, Aurora saiu correndo e gritando em direção a um fusca que estava nas proximidades; nesse momento, começou um intenso tiroteio entre os agentes da polícia e os ocupantes do carro; ao terminar o tiroteio, Aurora, baleada, estava morrendo, caída na rua; preocupados em socorrer Aurora, os agentes deixaram o veículo fugir em alta velocidade. A certidão de óbito: mulher branca, de identidade ignorada, tendo como causa mortis dilaceração cerebral. No reconhecimento do seu corpo pela irmã: afundamento craniano, escoriações e cortes profundos nos braços e pernas, o rosto deformado pelo espancamento e coroa de cristo, hematoma nos olhos, no nariz e na boca. Os registros estão detalhados nos livros Em câmara lenta (Alfa Omega, 2000), do cineasta Renato Tapajós; Os anos de chumbo: a memória militar sobre a repressão (FGV/CPDOC, 1994), organizado por Celina D’Araújo, Gláucio Soares e Celso Castro, e Luta, substantivo feminino: mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura – Direito à Memória e à Verdade (Caros Amigos, 2010), organizado por Tatiana Merlino e Igor Ojeda. Ela silenciosa, olhos rasos d’água... Pude apenas recitar Henfil: A minha luta é tentar também ser mulher. É conseguir ser afetivo, é conseguir ser intuitivo, é conseguir sonhar, que é um dos componentes muito grande que eu acho que a mulher tem. Conseguir dar carinho! Esse é um grande problema que eu tenho, eu sou um cara treinado na guerra, eu sei ser soldado, agora não sei muito ser companheiro de uma pessoa e tal. Eu sei ser cirurgião, mas não sei ser enfermeiro. Então esse componente feminino eu realmente gostaria de ter mais. E ela, cada vez mais imensamente bela, mais bela que nunca como as outras filhas da dor, Teresa de Calcutá: Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota. E cantarolamos juntos a Mulher de Geraldo Azevedo & Neila Tavares: Eu sou a mãe da praça de Mayo,sou alma dilacerada... Sou grito que reclama a paz, eu sou a chama datransformação... Até mais ver.

 

A POESIA DE LOURDES NICÁCIO

Para outras terras / transportei a vida. / Busquei então total / a liberdade / em torno do meu ser. / Mas por que mais livre / em derredor a vida / mais dispersa / tornei-me centro de mim / e me perdi?

Poema Espaço em labirinto, extraído da obra Caminho das Águas ao Sol (2018), da escritora e professora Lourdes Nicácio, que é formada e pós-graduada em Letras, co-fundadora da editora Novo Horizonte, membro da Academia Recifense de Letras, da Academia de Letras do Brasil/PE e da UBE/PE. É autora dos livros Sinfonia de Estrelas, Cantos da Ordem do Sol, Ritmo das Águas Vivas, Ocultos na Paisagem, O Lavrador e o Templo, Caminho das águas ao sol, O Rio, Canabrava e os Homens; Os Dois Mundos de Madalena; Sobreviventes, Almeida Cunha; Os Caminhos da Palavra- Gramática e Literatura. Veja mais aqui e aqui.

 



quarta-feira, dezembro 09, 2020

CLARICE LISPECTOR, FRANCISCO NIEVA, PETRA COLLINS & LÍVIA FALCÃO


  

TRÍPTICO DQC: JANELINVENÇÃO, O SEGREDO DOS SONHOS - Ao som de Un dia de noviembre, de Leo Brouwer. – Vitalina trouxe da infância todos os medos: de papafigo a bicho-papão, da perna-cabeluda aos monstros embaixo da cama, sacis, gnomos e duendes. Isso afora a mãe: Não faça isso que o bicho vai lhe pegar! O pai: a La Ursa vai lhe levar, maluvida! Avós, parentes e aderentes: Deus vai lhe castigar sua traquina! Daí cresceu com medo de tudo: de altura, de ficar sozinha, de escuridão, de espelhos, de fechar o olho ao tomar banho, de trovões e relâmpagos, de neblinas ou sombras e réstias; de fantasmas e de carecas; de baratas e outros tantos insetos e besouros; de ventríloquos e manequins, de bonecos feios, de palhaços, de atravessar pontes, de pensar e ficar doida, de pecar e ficar mal falada, de ter sonhos ruins, de mergulhar em rio ou mar e ser devorada por um tubarão ou jacaré; de quem já morreu, das estrelas caírem do céu, da Terra despencar no abismo, de todo tipo de doença, de ser enterrada viva, de perder a virgindade e uma mania de perseguição de que seria estuprada pela ruindade de um velho estranho ou um maconheiro safado e desalmado, enfim, tinha pânico de qualquer coisa que não estivesse na sua zona de conforto. Para se precaver, tinha remédio para tudo: comprimido pra isso, cachete praquilo, drágeas praquiloutro, batesse a ansiedade ou depressão, qualquer mal-estar e já se automedicava, batendo o punho fechado três vezes na madeira e se benzendo mais de dez vezes com rezas de Pai-nosso, Creio-em-Deus-Pai e Ave-Maria. Era peculiar uma tremedeira de gasguita, mas a qualquer alerta de cuidado, ela: Ué, sou prevenida e saudável, oxente! E a parentalha, pelas costas, só nos cochichos: Coitado do Tomé! Nada, é outro esquisitão, Deus fez, o diabo ajuntou. Quem a visse dava logo por uma desequilibrada. Há quem dissesse que era uma quejuda porque a castidade encruou no quengo e deixou-la uma mal-amada sujeita a paroxismos inusitados. Dizem: Inda bem que casou, imagino e desmantelo de um casal tão temperante, avalie. Com o converseiro, dei as costas e voltei para a janela. Lá estava Clarice Lispector em riste: O que uma pessoa diz a outra? Fora 'como vai?' Se desse a loucura da franqueza, que diriam as pessoas às outras? A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente. Não tenha medo de meu silêncio... Sou uma louca mas guiada dentro de mim por uma espécie de grande sábio. Quero que tudo seja intenso, exagerado e louco. Porque só assim fico satisfeita! Dar a cara à tapa! Ser louca, estranha, chata! Eu sou assim. Ah, Clarice, sempre duvidei da minha sanidade mental, principalmente agora, diante dos seus olhos.

 


TARTARUGAS, CREPÚSCULO E CORTINA – Ao som de Cantora de Yala, do álbum Junjo (2006), da contrabaixista e cantora estadunidense Esperanza Spalding. - Ela me levou para um teatro imenso. Era a minha primeira vez naquele local e muitas pessoas iam e viam, me cumprimentavam e eu a espera dela que me deixou ali de mão abanando. Virei a atenção para o ensaio de Tórtolas, crepúsculo y ... telón (Escelicer, 1972) porque o autor, o premiado dramaturgo espanhol, Francisco Nieva (1924-2016), apareceu explicando aos atores e atrizes no palco e na plateia: Sob o pretexto de manter uma quarentena, forçado pela propagação de um desconhecido vírus, uma companhia de teatro é sequestrada no próprio coliseu, onde tem que agir, sujeitá-lo - como ratos de laboratório - para experimentos cruéis, cujo objetivo é revolucionar e renovar o mundo da cena, até mesmo agindo e comportamento do público. Os incidentes que marcam esta situação são numerosas e adquirem diferentes ou seja, até terminar em uma espécie de festa, Dionisíaco e caótico, celebrando a próprio existência do teatro. Depois ele desceu do palco, cumprimentou alguns sentados na plateia e, em seguida, veio ao meu encontro e me falou: O teatro é uma vida alucinante e intensa. Não é o mundo, nem manifestação à luz do sol, nem comunicação a vozes da realidade prática. É uma cerimônia ilegal um crime voluntário e impune. É alteração e disfarce: Atores e público usam máscaras, maquiagens, eles usam fantasias diferentes... ou eles vão nus. Ninguém se conhece, todos são diferentes, todos são "os outros", todos são intérpretes do coven. O teatro é uma tentação sempre renovada, canto, choro, arrependimento, complacência e martírio. É a grande cerca orgiástica sem evasão; É o outro mundo, a outra vida o além de nossa consciência. É remédio secreto feitiçaria, alquimia do espirito, fúria jubilosa sem trégua. Fiquei admirado por ter tido contato com o seu teatro, aquela que já foi denominado tanto de furioso, como de farsa e calamidade, ou de crônica e selo. Ele me sorriu e saiu.

 


TRÊS PARA AS SEIS - Imagem: A arte da fotógrafa, modelo e artista canadense Petra Collins, ao som de Lacrimae, do compositor e alaudista britânico John Dowland (1563-1626), na interpretação do premiado musicólogo, professor, luthier e performer Christopher Morrongiello. - Ela retornou e era Nelly Sachs: Uma porta é uma faca: ela divide o mundo em duas partes. E me puxou apressada para saída do teatro, descendo a escadaria e seguindo pela descida da margem de um rio. Não é para irmos para lá? Não. E mais se aproximada das águas no íngreme declive até à beira. Que rio é este? O seu. O Una? Sim. Nunca o vi assim. E virou-se encarando-me e citando Jorge Semprún: Senti com a força do meu sangue que circulava rapidamente que minha morte não roubaria esta árvore de sua beleza irradiante, apenas roubaria o mundo de meu olhar. Olhei atrás de mim e havia sim uma árvore jamais vista. Venha, quero amar você e ser batizada neste rio secular! Seguiu saltitante por entre as pedras, e se despiu para mergulhar nas águas rasas. Vem! Ao sentir meu corpo no seu, disse-me Pierre Louÿs: Ninguém ainda afirmou que possuir o que desejamos é felicidade, ou prazer, ou bem-estar ou apenas equilíbrio. E beijou-me intensamente e me recitou Emily Dickinson: Tudo o que sabemos do amor, é que o amor é tudo que existe. E esqueci as dores do mundo. Ainda disse-me: O que você quer e o que você precisa: poesia no seu dia-a-dia. E amamos à noite alagados de prazer. Até mais ver.

 

A ARTE DE LÍVIA FALCÃO

A arte da atriz Lívia Falcão, que iniciou sua carreira no teatro e foi premiada como atriz revelação por sua atuação na peça A cantora careca, ainda adolescente, aos 17 anos de idade. Depois atuou em peças teatrais como Caetana, Mamãe Não Pode Saber, Lisbela e o Prisioneiro, e A Máquina, entre outros espetáculos. Em 1986 foi premiada com o monólogo Criadas da Glória, de João Falcão, no I Festival Nacional de Humor. Enveredou posteriormente pelo cinema atuando em vários longas-metragens e, também, pela televisão, atuando em novelas. Veja mais aqui e aqui.

 



terça-feira, dezembro 08, 2020

STAN RICE, ESTHER WEITZMAN, DOLORES IBÁBURRI, HECILDA VEIGA, MAÍRA PASSOS & PHILAMIRE

 

 

TRÍPTICO DQC: JANELESCOLHA – Ao som dos quatro movimentos da Sonatine, da compositora japonesa Kazuko Hara (1935-2014) – Solidão de quarentena, noites longas, dias intermináveis e uns aos outros misturados, de não se saber se hoje é quarta ou segunda ou domingo, sei lá. Só me restava depor as ideias no papel na alta madrugada. Uma narrativa solta de sopapo, a ponto de ficar um calhamaço de quase cem páginas impressas. Resolvi imprimi-la para avaliar em quantas andava. Fui tentando organizar os rabiscos, elaborando planos e tramas, direcionando o enredo, identificando personagens que nasciam por si em uma história inusitada. Logo percebi as palavras se dissolverem, as letras decompostas numa dança circular a se soltarem do papel e começarem a levitar em minha frente, formando uma nuvem densa que seguia porta afora. Lá fora, deu para perceber a poeira revoluta tomando forma e, em dado momento, corporificando como um jovem que me dava a impressão de que já o tinha visto. Sim, já. E se ajeitou com esmero com o vinco das vestes, pigarreou e bateu a mão fechada na porta do meu quarto: Ô de casa! Dá licença? Atônito de quase não me conter na cadeira, vi-lhe entrar, sentar-se numa cadeira diante de mim: Sou Jangadeiro. É assim que o senhor, com certeza, me conhece ou, de alguma forma, sabe sobre mim. Quer dizer, não completamente, mas com base no processo criminal imputado contra mim, na forma de um crime doloso, quando, na verdade, foi em legítima defesa. É sobre isso que o senhor escreve há dias. E por isso mesmo, estou aqui para lhe contar a verdadeira história da minha vida. Tomara não importuná-lo, mas foi o senhor que insistiu em narrar aquele interrogatório no Fórum, onde o juiz, o promotor e o advogado da minha defesa já me condenavam antecipadamente. Todos contra mim. Por isso a minha fuga espetacular, quase viro lenda por conta disso. Na verdade, o meu infortúnio. Vou lhe contar tudo, depois o senhor poderá avaliar se sou culpado ou inocente. Contudo, agora tenho de ir, voltarei. Eles estão por perto, rondam todos os meus passos, e preciso garantir a minha integridade e a sua. Conversaremos ainda a respeito, até outro dia. E saiu como se numa frase de Aníbal Machado: Ninguém pode abrir sozinho o seu túnel pessoal para a claridade do dia, sem o risco de morrer sob os entulhos. Ah, o mundo das escolhas: as marcas do passado, o mistério do futuro, o lugar de cada um reescrevendo destinos. O amanhã é aqui e agora!

 


PHILAMIRE, A ILHA DO AMOR – Imagem de diversas edições da obra Voyage D'Alcimedon Ou Le Naufrage Qui Conduit Au Port; Histoire Plus Vraie Que Vraisemblable, Mais Qui Peut Encourager a la Recherche Des Terres Incon (Rue Serpente, 1787 - General Books, 2012), da Comte de Martigny, ao som da Élégie, do álbum Passages (1996), da compositora italiana Violaine Corradi – Estava num local desconhecido, uma ilha talvez, cercada por rochedos e protegida por bancos de areia. Toda extensão está coberta por rosas perfumadas de jardins magníficos, arrodeados por laranjais e limoeiros que formavam grandes pomares e numerosas saídas. Na localidade todas as casas pareciam um palácio e estavam todas decoradas com muitos espelhos. Haviam grutas decoradas com conchas e perfume de jasmim. Aliás, este o aroma das mulheres que se aproximaram investigativas, se eu era ou não um náufrago. Como cheguei, não sei. Inquiriam para identificar se eu era virtuoso, única condição de abrigo; do contrário me exilavam. Uma delas adiantou-se em minha direção, alisou minhas faces com as costas da mão. Olhar fixo, jeito brando, conferia os mínimos detalhes de minhas vestes com a mão espalmada sobre meu tórax, braços, ventre, sexo apalpado e conferido carinhosamente, a me olhar firme: Venha! Segui seus passos e pude constatar que ali havia muitos teatros e o principal deles num prédio situado no meio de uma grande praça octogonal. Com a minha curiosidade, ela me disse que em todos os palcos as atrizes desempenham papéis de virgens vestais. Venha! Onde estou? Em Philamire, Philos. Onde? E me explicou que aqui quem governa é o amor, a amizade e a franqueza, e que se aproximava o dia da escolha do Primeiro Cidadão. Quem? Aquele que inspiraria os sentimentos mais nobres do lugar. Ele governará ao lado de lindas mulheres que reinam cônscia de seu papel e valor, e que escolhem seus amantes entre os maduros confiáveis. Deixei de mão a conversa, prestando atenção às paisagens. Lá estava John Milton, com seu aceno: O Amor depura os pensamentos e engrandece o coração. Aquele que reina dentro de si, as regras das paixões, desejos e medos, é mais do que um rei. Uma surpresa e tanto! Acenei e continuei a caminhada. Ela então me explicou que ali não havia templos: para os moradores, o único templo é o coração. Também não havia sistema judicial: Aqui todos são justos. Não há casamento, só declarações mútuas de amor. Todas as mulheres, inclusive as mais pobres, são virtuosas e mantidas pelo Estado, consideradas cidadãs úteis que se sacrificam pelo bem da sociedade em se dedicarem a satisfazer os desejos dos homens, apenas em troca de amor. Era o paraíso perdido, então, e eu havia encontrado, parece.

 


DE CHOROS & A DANÇA DO FUTURO – Imagem: A arte da bailarina, coreógrafa e mestra Esther Weitzman: Me interessa a ação da gravidade no corpo, a relação que se estabelece com o chão. Peso, força, vigor. E também a leveza que é possível surgir daí. Ao som de Crepuscole With Nellie (Ten 2010), do compositor e pianista estadunidense Thelonious Monk (1917-1982), na interpretação do pianista estadunidense Jason Moran. - O entardecer já tomava o colorido crepuscular quando chegamos e ela, apressada e asfixiante, me trouxe de volta ao meu quarto. Ué? Acomodou-me à poltrona e disse: Olhe bem, sou Hecilda, a professora e socióloga Hecilda Fonteles Veiga: Quando fui presa, minha barriga de cinco meses de gravidez já estava bem visível. Fui levada à delegacia da Polícia Federal, onde, diante da minha recusa em dar informações a respeito de meu marido, Paulo Fontelles, comecei a ouvir, sob socos e pontapés: ‘Filho dessa raça não deve nascer”. Depois, fui levada ao Pelotão de Investigação Criminal (PIC), onde houve ameaças de tortura no pau de arara e choques. Dias depois, soube que Paulo também estava lá. Sofremos a tortura dos ‘refletores’. Eles nos mantinham acordados a noite inteira com uma luz forte no rosto. Fomos levados para o Batalhão de Polícia do Exército do Rio de Janeiro, onde, além de me colocarem na cadeira do dragão, bateram em meu rosto, pescoço, pernas, e fui submetida à ‘tortura cientifica’, numa sala profusamente iluminada. A pessoa que interrogava ficava num lugar mais alto, parecido com um púlpito. Da cadeira em que sentávamos saíam uns fios, que subiam pelas pernas e eram amarrados nos seios. As sensações que aquilo provocava eram indescritíveis: calor, frio, asfixia. De lá, fui levada para o Hospital do Exército e, depois, de volta à Brasília, onde fui colocada numa cela cheia de baratas. Eu estava muito fraca e não conseguia ficar nem em pé nem sentada. Como não tinha colchão, deitei-me no chão. As baratas, de todos os tamanhos, começaram a me roer. Eu só pude tirar o sutiã e tapar a boca e os ouvidos. Aí, levaram-me ao hospital da Guarnição em Brasília, onde fiquei até o nascimento do Paulo. Nesse dia, para apressar as coisas, o médico, irritadíssimo, induziu o parto e fez o corte sem anestesia. Foi uma experiência muito difícil, mas fiquei firme e não chorei. Depois disso, ficavam dizendo que eu era fria, sem emoção, sem sentimentos. Todos queriam ver quem era a fera que estava ali. E chorou desmesuradamente. E contou-me que isso ocorrera em 6 de outubro de 1971 e que, há três anos, falecera este seu filho que nasceu preso pela ditadura, e que se queimara por décadas no inferno do mundo e precisava de um instante que fosse de paraíso. O filho que se foi repetia sempre: Não havia algemas para os meus pulsos. Nem ela mais possuía nenhuma algema: Sou ela, a que é filha ao lado de outras filhas da dor. Ao conseguir segurar o soluço do pranto, disse uma frase da ativista espanhola Dolores Ibáburri (1895-1989): É melhor morrer de pé que viver de joelhos. E mais disse até conseguir fôlego para recitar um poema de Stan Rice: Pouca coisa é / Mais digna de nossa atenção / Do que compreender / O talento da substancia / Uma abelha, uma abelha viva, / Na vidraça, tentando sair, condenada, / Sem conseguir entender. Assim somos e vivemos. Até mais ver.

 

A ARTE DE MAÍRA PASSOS

Antes de escolher o jornalismo como profissão, a dança já fazia parte da minha essência. Pensei em criar o site para proporcionar um espaço de divulgação gratuita, através de mídia espontânea, para os profissionais de dança. Como danço desde criança, percebia que a maioria não tinha como investir em ações de marketing. Queria chegar junto, ser acessível, dar voz à dança local.

A arte da bailarina e jornalista Maíra Passos, idealizadora do Na Ponta do Pé, projeto pioneiro de jornalismo cultural com notícias sobre a dança pernambucana, lançado em 2012,mostrando a diversidade dos passos e trazendo a pluralidade dos estilos praticados no estado. Na pauta, vários estilos de dança, como dança popular, balé clássico, dança contemporânea, jazz, dança moderna, dança de salão, hip hop, dança do ventre, flamenco e pole dance. Há ainda série de reportagens especiais e entrevistas exclusivas com personalidades da dança pernambucana, além de matérias sobre festivais, mostras, cursos e espetáculos de dança realizados em Pernambuco. Veja mais aqui & aqui.


 


segunda-feira, dezembro 07, 2020

FLORBELA ESPANCA, JAMES THURBER, FUJIKO NAKAYA, PAZ VEGA, PETRÔNIO CUNHA & THE BRA



TRÍPTICO DQC: JANELA DA MEMÓRIA – Ao som de Halfaouine – Live at Carthage (2014), do compositor tunisino Anouar Brahem & The Tallin Chamber Orchestra, conducting Risto Joost. - Algo me diz na noite e não sei direito o que possa ser, apenas tudo prossegue indefinidamente por onde quer que se vá ou esteja. Ouço o ritmo dos dias e me são impressos na carne para guardar à memória ou esquecê-lo para nunca mais. Mais esqueci, menos lembro. Ah, se eu pudesse estaria longe daqui, isso sim, mas não sei o que houve, por mais que eu ande, corra, fuja, por mais que eu transite léguas distantes ou paragens incógnitas, estou sempre no mesmo lugar e só. É isso. No meio das minhas elucubrações aparece Herbert Spencer e me encontra menos esclarecido quanto confuso: Tempo é aquilo que o homem está sempre tentando matar, mas que no fim acaba matando-o. Ninguém pode ser completamente livre até que todos o sejam. O resultado final de proteger os homens dos efeitos da tolice é encher o mundo de tolos. O culto dos heróis é mais forte onde a liberdade humana é menos respeitada. Encarou-me com severidade desleixada, um aceno e, com a sua saída, uma gargalhada soou e era Manuel Acunã sarcástico como quem tivesse ouvido tudo: Eu teria explicado a ele qual é a diferença entre as misérias dos imbecis e as grandes tristezas; entre desafio e covardia; entre a energia celestial e a decrepitude juvenil. Pousou sua mão no meu ombro direito, balançou a cabeça negativamente e saiu em sua busca por Rosário. Cá, comigo, a noite segue. Passa, tempo... Meu olhar são caminhos, ideias, aventura, parênteses, várias lições, uma viagem existencial...

 


UMA VIAGEM NA CLAUSURA – Ao som da trilha sonora composta pelo compositor francês Cyril Morin, para o longa-metragem drama/tragicomédia The Bra (2018), dirigido pelo roteirista e diretor de cinema alemão Veit Helmer. – Durante a madrugada acho que me perdi e não sei como paragens desconhecidas apareceram como se eu escapasse da minha da solidão. Lá estou eu sozinho num vagão de trem surpreendido por um sutiã que entra voando pela janela e me tapa as vistas, quase me sufoca e me deixa as faces doloridas. Recolho a peça e estou diante de um senhor educado que me pede a peça insistentemente. Estranha situação, olho para o sutiã e depois o solicitante, coisas que não combinam. É de sua esposa? Não, não, voou da cabine. Como? E me explica chamar-se Nurlan e está dedicado a encontrar a dona desse acessório de vestuário. Ele me convida a embarcar na sua jornada aventureira para localizar a dona daquela íntima peça azul. Não sei o que me deu e fui pela viagem por trens que passavam perigosamente perto das moradias, enquanto me contava ser maquinista e enfrentava problemas com autoridades do Azerbaijão, o que não consegui entender direito, tudo muito depressa. Repetiu diversas vezes que seria esta a sua última empreitada antes de se aposentar. Segui em sua companhia por um vilarejo nas montanhas, longe das ferrovias, localidade chamada de Baku, sua terra natal, parece. E falou-me de Nesrin, sua colega de trabalho que controla os trilhos, do menino Aziz que saía avisando com apito a aproximação da Maria-Fumaça aos vizinhos e desavisados. E rimos das coisas que ele já recolheu durante a travessia e teimava em devolvê-las a cada um dos seus donos: Ali, a vida acontece na estrada de ferro, onde longos trens que transportam combustível passam várias vezes ao dia. Agora, a sua missão é devolver este sutiã à sua dona. Ele sai de porta em porta, conferindo, provando, todas as mulheres são cordatas e provam diante de nós. Algumas até se despem e nos regozijamos disso, enquanto andamos de casa em casa, de quem será, sabe-se lá... No meio da andança topei com James Thurber que acompanhava de longe nosso percurso: É melhor conhecer algumas das questões do que todas as respostas. Não podemos olhar pra trás com raiva nem para frente com temor mas em volta com consciência. Ele, também, pelo visto, estava curioso por descobrir quem a dona daquela admirável peça. O dia entrou pela tarde e novamente anoiteceu, nenhum sinal de cumprir aquela missão...

 


DAS DORES DE VIVER – Imagem: a arte da artista japonesa, Fujiko Nakaya, numa performance com suas esculturas de nevoeiro, ao som de Celina (ECM, 1995), do trompetista e compositor polonês Tomasz Stańko (1942-2018) - Ela chegou com os primeiros raios da manhã no meio da neblina, lind&nua como a atriz espanhola Paz Vega: Sou Esmeraldina! E me contou de Esmeraldina Carvalho Cunha (1922-1972): Ela estava transtornada porque havia perdido um ano antes a filha caçula Nilda, vítima de tortura de dois meses de prisão e encontrada na mesma casa em que foi morta Iara Iavelberg, na Operação Pajuçara. Outra de suas cinco filhas também havia sido presa, mas logo foi solta. A mais velha fora cruelmente assediada durante muito tempo por agentes do Exército, causando-lhes problemas emocionais e comportamentais. E ela, separada do marido, lutava pela vida de suas filhas militantes. Entrou em depressão profunda e foi internada no sanatório sob ameaças: fora obrigada a voltar com o marido e não suportava mais, resistiu o mais que pôde, chorava e andava pelas ruas delirando: Eles mataram minha filha, uma criança! Em represália, foi detida por uma radiopatrulha e ao ser solta, recebeu uma visita e um recado: O major mandou avisar à senhora que se não se calar, nós seremos obrigados a fazê-lo! As suas angústias, inconformismo e denúncias pelas praças e ruas, enfrentando as ameaças da repressão militar. Jamais voltaria para o marido, nunca! E naquela sexta feira, de 20 de outubro de 1972, foi encontrada morta na sala de sua casa, em Salvador: o corpo pendurado num fio de máquina elétrica. As marcas de sangue no chão. Esse suposto suicídio sempre fora questionado. Ela entrava no rol e se tornava uma Filha das outras Filhas da Dor. Ao terminar o relato me abraçou como nunca e me disse Florbela Espanca: A vida é sempre a mesma para todos: rede de ilusões e desenganos. O quadro é único, a moldura é que é diferente. E me premiou com um verso do poema: Não és sequer a razão de meu viver, pois que tu és já toda a minha vida. E a manhã fez-se festa como se fosse para sempre. Até mais ver.

 

A ARTE DE PETRÔNIO CUNHA

A arte do arquiteto, artista plástico, desenhista e designer gráfico Petrônio Cunha, autor do livro Varadouros de Olinda (PMO, 1988), com 116 desenhos e recortes com imagens, paisagens, cartazes, símbolos, representações gráficas de acontecimentos culturais, com especialidade para os carnavais, edifícios da cidade, detalhes ornamentais, florais, desenhos de foliões que se tornaram verdadeiras marcas do carnaval olindense, entre outras expressões. Veja mais aqui e aqui.


 


 

domingo, dezembro 06, 2020

WILLA CATHER, THORNTON WILDE, NOAM CHOMSKY, CRISTINA FORNARELLI & NENÉU LIBERALQUINHO


  

TRÍPTICO DQC: ACONTECÊNCIAS DA SOLIDÃO - Curtindo o álbum Tom Waits: live at the Montreal Jazz Festival (1981) – A hora da noite seguia ao ritmo do contrabaixo pelas cenas caleidoscópicas desfocadas pela rotação das acontecências e a vida era o palco no meu quarto solitário, desarrumado pelo que foi dito e o silêncio quebrado pelo poeta das tripas coração com a poesia das ruas pelas escadas do itinerário entre o real e o imaginário, onde houvesse uma faísca de vida para pegar carona aos ventos e paredes. Quase nem sei mais como estou levado pelas batidas dos instrumentos e a voz rouca insiste um embriagado desencanto, tudo pela hora da morte e nem é possível que tudo tenha desabado lá fora porque em mim sobram apenas pedaços do que sou a serem levados pelas lufadas e varridas invisíveis. Quase tão só no ermo revisitado, Tom Waits chega e me fala: Eu me preocupo com muitas coisas, mas não me preocupo com conquistas. Eu me preocupo principalmente com a existência de boates no Céu. Eu admito que não sou nenhum anjo, admito que não sou santo - sou egoísta e sou cruel e sou cego. Se eu exorcizar meus demônios, bem meus anjos podem sair também. Quando eles saem eles são tão difíceis de encontrar! O tempo é apenas memória misturada com desejo. Ele toma um gole do copo, faz uma careta e, ao olhar para mim, sorri com o indicador da mão esquerda em sentido de alerta e aponta para o palco, estalando o polegar no anular e segue como quem diz que vai cantar o mais que puder e eu pronto para me deixar levar ao som noite afora.

 


ITINERÁRIO ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO – Imagem: a arte do artista visual e filósofo das ruas, Eduardo Marinho: A maioria não tem nada e vive tranquila! Como é que eu olho a minha volta e a classe abastada morre de medo de perder tudo? & ao som de Tempo de Maracatu (Citadela, 2016), do premiado violonista e compositor Marcus Llerena. – Eita, danou-se! Que foi? O Zé Fabo pegou coronga! Foi? Foi, arriou e se espremeu, tomou cloroquina, levou gás no rabo, cachete disso e daquilo, foi pros pés do bispo, correu pro pastor, baixou catimbó (catimbozeiro coisado? Tem! Vixe!), o escambau e nada. Que coisa! Enfim, foi pro médico: Quer morrer, desgraçado? Dia mais, dia menos, escapou fedendo: Ei, Zé, a ciência é a gota, hem? Nada, foi uma oração que o Sirvo Santo me deu do EdiReco-reco, dia e noite, morre-mas-num-morre, tou novinho em folha e pronto pra outra! Vixe! Tou cum Coisonário e num abro! Este o Fecamepa! Nessa hora Thornton Wilde se aproxima e me diz em tom de confidência: 99% das pessoas do mundo são tolas e o resto de nós está em grande perigo de contágio. Valei-me! Nem deu tempo de concatenar e já Noam Chomsky esclarecedor ao meu lado: Caso após caso, vemos que o conformismo é o caminho fácil, e a via rumo ao privilégio e ao prestigio; a dissidência traz custos pessoais. Não devemos procurar heróis, devemos procurar boas ideias. Logo me ignoraram numa conversa inelegível e o meu coração era um maracatu atônito alardeando a madrugada.

 


O IMAGINÁRIO & A POESIA DAS RUAS: A DANÇA DA VIDA – Imagem: a arte da artista visual italiana Cristina Fornarelli, ao som do Concerto Duplo 2 guitars and Orchestra, de Marlos Nobre, na interpretação dos violonistas Sergio & Odair Assad e a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), sob a regência de John Neschling. – O meu sangue se esvai ao som do primeiro movimento e os violinos solam o concerto grosso, enquanto os violões ponteiam o meu desfalecimento. Respirar agora está cada vez mais difícil em meu país, há uma iminência tácita, prevejo. Sei que a madrugada extensa tardará o amanhã e eu perdido na escuridão do dedilhado pungente. Nenhuma esperança, ao menos ela, lábios adunco, pernas exaltadas, adentra lépida segundo movimento, cadenza & toccata concertante, mais que aliciante vestido solto de alça, decote agudo, coxas proeminentes expostas pela leveza da veste acetinada e lassa, afaga a face do meu desamparo, beija meus lábios apátridas, toca a minha pele desabrigada e me diz Willa Cather: O coração do outro é uma floresta escura, sempre, não importa quão perto esteja do seu. Onde existe grande amor, sempre há milagre. E se desnudou no terceiro movimento ao mundo escancarado, ária, scherzo, pouco importava a porta aberta, a loucura vigente e me tocava e abrasava e me envolvia e me extravasava para que fosse dela mais que o momento e a vida eterna por seus encantos e nobreza ofertada para minha restituição. Tateei sua pele, percorri seu corpo, demovi a cinta-liga e minha mão se intrometeu dentro da calcinha, a fonte viva e úmida, ela se alargava diluvial e eu vivo mais que o quarto movimento presto com fuoco alucinante a ignorar da vizinhança e de todos os guardiões e pudicos da ordem pública e me fiz nela mais que o dia amanhecendo na festa da vida. Até mais ver.

 

A MÚSICA DE NENÉU LIBERALQUINO

A arte musical do violonista, professor de Harmonia Jazzística e Violão Popular e regente da Camerata de violões do Centro Experimental de Música do SESC – São Paulo e também regente de coro, Nenéu Liberalquinho (Manoel Teodoro Liberalquino Ferreira), atualmente é o regente titular e diretor artístico da Banda Sinfônica do Recife, e tem ministrado vários cursos nas áreas de arranjo, harmonia erudita e jazzística. Veja mais aqui e aqui.


 


sexta-feira, dezembro 04, 2020

PIERRE MICHON, MARIA DE ARRUDA MÜLLER, SLAVA BOWMAN, ZOFIA KULIK, DULCE MAIA, ORIANA DUARTE & AULO PÉRSIO FLACO


  

TRÍPTICO DQC: JANELANDANTE, RESQUÍCIO DE MEMÓRIAS – Ao som da Phantasy Quartet - Phantasy for Oboe, Violin, Viola and Violoncello, Op. 2 (1932), do compositor, maestro, pianista e violista britânico Benjamin Britten (1913-1976), na interpretação de Gernot Schmalfuß & Mannheimer Streichquartett - O Tico – Tiquinho pros íntimos, Sócrates de batismo - tinha um sonho de menino: farda, quepe e desfile na defesa da pátria e nos passos do irmão mais velho, patenteado da repressão nos idos do golpe de sessenta. Não deu, reprovação de batoré entroncado, virou maquinista de plantão. Amargou desilusão e, no meio do chororô, topou com Xanta – Xantipa de família -, numa estação perdida dessa. Pegou no bico da chaleira fervendo e atrepou-se no gogó da escorreita morenaça, mais espalhafatosa que endoidada, num namoro pras beiras esponsais: É com essa que me ajeito, ora! Juras e papel passado, lá ia ele montado no parque de diversão e embuchando a fogosa, de findar uma fileira de bruguelos. Com o passar do tempo, o que era mar de rosa, foi desbotando e ele se viu no caminho da casa da peste! Pronto, no meio desmantelo: Se essa mulher bebesse o mundo estava frito. Pra sorte dele era uma rainha abstêmia, porém escandalosa arrastadora de uma tuia de bichanos e guenzos, uns trinta, se pouco, de organizar os miados e latidos – inclusive de botar nos trilhos a beca folgada dele, também -, isso afora os buás vinte e quatro horas por dia: Isso é o inferno ao vivo e em cores, lasquei-me! Pois foi, regulou a paciência enquanto tudo procriava e tudo crescia na lei do matriarcado. Ele era só mutismo e olhares dum canto a outro: os bregues gasguitos pra manter casa arrumada, nada de mexer, tudo no lugar. De uma hora para outra acabaram com as ferrovias e ele sem serventia alguma: Fazer o quê? Era do batente para casa e vice-versa, agora só tinha uma horinha de folga que fosse pro interlocutor, seu único amigo: o livro. E ouviu de John Steinbeck: E agora que você não precisa ser perfeito, você pode ser bom. Já de Thomas Carlyle: Com estupidez e boa digestão o homem pode enfrentar muita coisa. Tolerância é paciência concentrada. Do poeta romano Aulo Pérsio Flaco (32-61): Do nada, nada vem; e ao nada, nada pode reverter. Até Rainer Maria Rilke: Amor são duas solidões protegendo-se uma à outra. Ser amado é passado; amar é durar. Aí, noite dessa, chegando em casa ela encarou na lata: Você não serve para nada! Eu? Sim, seu traste! O mundo caiu e não aguentou o baque: teve um piripaque e bateu as botas. Ainda deu pra vê-lo a voar aliviado com a maior cara de anjo!

 


ITINERÁRIO DE SONHOS – Imagem: arte da artista visual búlgara Slava Bowman, ao som de Close to Home, do pianista e compositor estadunidense Lyle Mays (1953-2020). – Logicalguma: pés alados nos galhos do arvoredo perseguem aves canoras. O mundo é dos pardais e nada mais. Sinto que estou quase vivo, quase morto, a vida pelas sobras do que restou da precariedade, sem escapatória, de alfa para ômega, todas embaralhadas no Aleph: o topo da montanha e o abismo, a rotina e o xeque-mate, o paradoxo... A água pegando fogo, a Terra caindo, o céu descendo, a Natureza se esvaindo e o miserável saiu e ficou com a botija trilionária, graças! Um pedinte a menos. O rico ficou e saiu empobrecido pela sovinice, um pobretão a mais entre zilhões. Do outro lado da ribanceira arrivistas falocratas sobre monturos de rancores, ameaças e promessas; e a vulgaridade nauseante, a crueldade da violência, a eloquência do noticiário, quanto absurdo! Na verdade, horrores demais. Ouvi o escritor francês Pierre Michon: A pesada aventura de crescimento terminou, ficamos surpresos que não era eterna... As coisas do passado são tão estonteantes como o espaço e a sua impressão na memória é deficiente como as palavras: (apesar disso) descobri que se lembra. Só queria esquecer e não saber mais nada. Desolado no meu canto, ela chega Hannah Arendt: Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança. Vamos...

 


FIO DA VIDA – Imagem: a arte da performática artista visual polonesa Zofia Kulik, ao som Humoresque, Op .20, de Robert Schumann, na interpretação da pianista russa Daria Rabotkina. – O quarto escuro, a cena era ela, nua e linda, sob o holofote imaginário: Sou Dulce, Dulce Maia (1937-2017): Muitos deles vinham assistir para aprender a torturar. E lá estava eu, uma mulher franzina no meio daqueles homens alucinados, que quase babavam. Hoje, eu ainda vejo a cara dessas pessoas, são lembranças muito fortes. Eu vejo a cara do estuprador. Era uma cara redonda. Era um homem gordo, que me dava choques na vagina e dizia: ‘Você vai parir eletricidade’. Depois disso, me estuprou ali mesmo. Levei muitos murros, pontapés, passei por um corredor polonês. Fiquei um tempão amarrada num banco, com a cabeça solta e levando choques nos dedos dos pés e das mãos. Para aumentar a carga dos choques, eles usavam uma televisão, mudando de canal, ‘telefone’, velas acesas, agulhas e pingos de água no nariz, que é o único trauma que permaneceu até hoje. Em todas as vezes em que eu era pendurada, eu ficava nua, amarrada pelos pés, de cabeça para baixo, enquanto davam choques na minha vagina, boca, língua, olhos, narinas. Tinha um bastão com dois pontinhos que eles punham muito nos seios. E jogavam água para o choque ficar mais forte, além de muita porrada. O estupro foi nos primeiros dias, o que foi terrível para mim. Eu tinha de lutar muito para continuar resistindo. Felizmente, eu consegui. Só que eu não perco a imagem do homem. É uma cena ainda muito presente. Depois do estupro, houve uma pequena trégua, porque eu estava desfalecida. Eles tinham aplicado uma injeção de pentotal, que chamavam de ‘soro da verdade’, e eu estava muito zonza. Eles tiveram muito ódio de mim porque diziam que eu era macho de aguentar. Perguntavam quem era meu professor de ioga, porque, como eu estava aguentando muito a tortura, na cabeça deles eu devia fazer ioga. Me tratavam de ‘puta’, ‘ordinária’. Me tratavam como uma pessoa completamente desumana. Eu também os enfrentei muito. Com certa tranquilidade, eu dizia que eles eram seres anormais, que faziam parte de uma engrenagem podre. Eu me sentia fortalecida com isso, me achava com a moral mais alta... Sou entre aquelas que são filhas de outras filhas da dor. E quase num folego só recitou Conformismo da poeta educadora Maria de Arruda Müller (1898-2003): Ensinar a viver, eis minha sina! / No trabalho mostrar que “trabalho é oração”. / No lar, na escola, na oficina... / Ai! Quantas vezes, sangrando o coração! / Qual Cirineu, meu dever é servir! / Aliviar a cruz, que o próximo carrega, / Lenir dores tantas, tantas súplicas ouvir, / Que de dor, o próprio peito verga! / Contra o destino, às vezes me revolto: / Sentir que a carga pesa, em demasia!... / Sei, porém, que a alma no pecado envolta, / Necessita aceitar, dobrar-se ao jugo; / Se no erro, no mal, no crime comprazia / Precisa ser réu, quem foi verdugo... E chorou ao meu ombro e me disse Omar Khayyam: Seja feliz neste momento. Este momento é a sua vida! E nos abraçamos como se ali escapássemos dos horrores do mundo. Até mais ver.

 

A ARTE DE ORIANA DUARTE

A arte da artista visual Oriana Duarte, que é doutora e mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é bacharel em Desenho Industrial pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e professora do Departamento de Design da UFPE. Veja mais aqui e aqui.

 



quinta-feira, dezembro 03, 2020

PATRICK CHAMOISEAU, MORGAN LLYWELYN, TADEUSZ KANTOR, MARYAM EISLER & BRUNA VALENÇA

 

TRÍPTICO DQC: JANELOUTRA - Ao som de Ressonâncias, da compositora e pianista Marisa Rezende, na interpretação da pianista Miriam Ramos. - Postulante à vereança: Vote em mim! Todos os políticos mentem e só falo a verdade. E descascou fulano, estraçalhou a reputação de beltrano, desmascarou sicrano e depôs contra todo alfabeto do panteão dos três poderes da Nação: Sou a salvação da humanidade! E depôs a Bíblia e santinho: Vote em mim, preciso me eleger! Só com um mandato de vereador? Começa assim! E se foi. Ainda bem, alívio. As pretensões são admiráveis. Logo se aproximou a sorridente Heloneida Studart: Mulher também é gente. Vote numa inteligente. O mundo é das Mulheres! Claro, sou ginocrata! - respondi-lhe com um aceno. O delírio de uma campanha contamina, mas não é essa a forma que me interessa, tem de haver outro modo. Compras de voto e de cabresto, meu país se dissolve com os conluios. Por mais quanto tempo, não sei. Ruminava sozinho e o escritor francês Patrick Chamoiseau: Levar a liberdade é o único fardo que mantém as costas retas. Rimos juntos. E contei o sucedido. Passado o pleito eleitoral, ah, aquele intruso e fui conferir: não foi eleito. Cada uma que me aparece! Ninguém merece isso na manhã.

 


QUINTA À TARDE – Ao som do álbum Thursday Afternoon (Virgin Records, 2005), do compositor, músico, artista visual e produtor britânico de música ambiente, Brian Eno. – O mormaço da tarde chegou com uma tremenda barulheira. Vozes para todo lado. Curioso, só depois de muito investigar, era ensaio de um espetáculo teatral. Qual e ouvi alguém discursar: Esforço-me por determinar os motivos e o destino dessa entidade insólita que surgiu de maneira imprevista em meus pensamentos e em minhas ideias. Plantaremos os limites desta fronteira que se chama a condição da morte, porque constitui o ponto de referência mais avançado, e não amenizado por nenhum conformismo sobre a condição do artista e da arte. Só os mortos se fazem perceptíveis (para os vivos) e obtém assim, por esse preço, o mais elevado, sua singularidade, sua silhueta resplandecente, quase como no circo. Era uma performance revolucionária do premiado dramaturgo e pintor polonês Tadeusz Kantor (1915-1990), o mesmo criador do Teatro Clandestino, fundador do Teatro Cricot 2 e autor do The Autonomous Theatre (1963), Theatre Happening: The Theatre of Events (1967), O Teatro Informal (1969), The Zero Theatre (1969) e O Teatro da Morte (1975). Foi aí que me dei conta tratar-se de ensaio para o espetáculo A classe morta. Do outro lado outros falavam da peça Que morram os artistas! Fiquei apreciando, prestava atenção a tudo. Nem vi quando ela se aproximou tal AlysonNoël: Viva o presente, lembre-se do passado e não tema o futuro, pois ele não existe e nunca existirá. Só existe o agora. O perfume de sua beleza me inebriava e ali juntinhos, a minha inquietude ao seu lado sedutor. Dali a pouco: Vamos? Vamos.

 


O POEMA EM PEDAÇOS – Imagem: a arte da fotógrafa, escritora, editora e artista iraniana Maryam Eisler: A arte vence onde a política costuma falhar. Ao som de A time for us (2015), do compositor italiano Nino Rota, na interpretação da saxofonista Hiroko Yamakawa e da pianista Chiaki Oshima, em recital no Tokyo Opera City. - O mundo podia ser outro ao crepúsculo. O momento, pelo menos, era de satisfação: ela linda e nua fazia o anoitecer prazeroso. E lá fora tudo se consumia como uma coisa qualquer degustada apenas pelo vício forjando a necessidade: as três refeições diárias nos horários indicados, só por força do hábito; televisão ligada sem que se identifique sequer o que se passa; a vida no automático e passageiro sem se ligar no trajeto, ligado às asas de pensamentos soltos, tudo fragmento e simulacro. Ela usou de Joseph Conrad: É difícil resistir onde nada importa. Estava escrito que eu deveria ser leal ao pesadelo da minha escolha. Ser mulher é algo difícil, já que consiste basicamente em lidar com homens. Tudo é muito confuso, a existência refém da insatisfação. Ela cita a escritora irlandesa Morgan Llywelyn: Quando me sinto bem, me sinto melhor do que qualquer pessoa, quando estou com dor, grito a plenos pulmões e, quando estiver morta, estarei mais morta do que qualquer um. E um beijo nos fez viajar galáxia afora perdidos na imensidão do Universo. Esse mundo é muito pouco para nós dois. Até mais ver.

 

A ARTE DE BRUNA VALENÇA

O meu maior hobby é sonhar acordada. O amanhã está meio nebuloso. Como uma água turva, sabe? Às vezes fica um pouco difícil de enxergar a frestinha de luz, mas ela está lá, piscando. Eu acredito, imagino e visualizo o amanhã com esperança e consciência e muito mais presença. Saudade também é quando a gente vê alguém nos sonhos e os encontros são leves e fazem você acordar com um sorriso no rosto e o peito aquecido. Saudade, vô.

A arte da premiada fotógrafa e artista visual Bruna Valença, que já trabalhou com grandes marcas do mercado. Ela foi vencedora do prêmio People's Choice Award, no concurso Exposure Competition pela See.Me Institution, em Nova York. Veja mais aqui e aqui.

 


 


quarta-feira, dezembro 02, 2020

WILLIAM SAROYAN, DJUNA BARNES, CHARLOTTE PERKINS GILMAN, ARGUEDAS & AURORA DICKIE

 

TRÍPTICO DQC: MEMORIMAGINAÇÃO - Ao som de Beira rio, do percussionista e compositor Caito Marcondes, integrante da Orquestra Popular de Cordas. – Coisuma o que penso e imagino, indistinguíveis. São quase uma coisa só de tão desordenadas. Lá fora tudo na mesma, difícil respirar e nenhuma opção: nem adianta esperar o tempo passar e mudar. Fazer pouco caso não é a minha, não consigo ficar indiferente à decadência flagrante, apesar do café frio, o vento na janela: preciso muita ideia para entender direito. Do que penso e lembro, às vezes reais e inexprimíveis: o que vivi e invento. De súbito, o escritor e dramaturgo estadunidense William Saroyan (1908-1981): As prisões e os cemitérios estão cheios de boas pessoas que não tiveram quem lhes estendesse a mão em tempos de crise. Somos uma gente feliz, é verdade, mas somos resistentes também. Não me importo de ficar triste. Importo-me a respeito de gente que não é resistente e que fica triste e magoada, e me parece que o mundo está cheio de gente assim. Ele olha o relógio e me aponta distante o que não consigo ver. Reprova minha cegueira. Ao sair cumprimenta do outro lado a escritora estadunidense Djuna Barnes (1892-1982) que me chegou: Um homem só é completo quando leva em conta sua sombra e também a si mesmo - e o que é a sombra de um homem senão seu espanto ereto? Eu gosto da minha experiência humana servida com um pouco de silêncio e moderação. O silêncio faz a experiência ir mais longe e, quando morre, confere-lhe aquela dignidade comum a algo que se tocou e não arrebatou. Dela nenhum sorriso, mãos nas minhas e sigo seus passos, sei que a noite será longa.

 


HERLAND – Ao som de Lusco fusco (Borandá, 2017), de Alessandro Kramer Quarteto. - Despertei num lugar estranho e ela me olha com certa estranheza e alguma hostilidade. Onde estou? Herland. Hum? Pelo tom da sua voz este era um lugar que eu não deveria jamais estar. E me disse: Os únicos forasteiros que aqui estiveram juraram manter segredo... Eu juro! E mandou-me segui-la. Lá fora durante o trajeto olhares desconfiados de mulheres fortes e atléticas seguiam-me por onde fosse. Pude ver que todas ali possuíam cabelos curtos, túnicas justas sobre calças e parecem destemidas; elas se comunicam por espécie de esperanto, parece. Ao chegar ao templo de Maaia, a deusa-mãe da maternidade, fui apresentado, não sei se por sorte ou não, a Charlotte Perkins Gilman: Não existe mente feminina. O cérebro não é um órgão do sexo. Também falar de um fígado feminino. E mostrou-me Anita Malfati contando para outras mulheres a sua sensação de morte ao perder o pai na infância: Nada ainda me revelara o fundo da minha sensibilidade. Resolvi, então, me submeter a uma estranha experiência: sofrer a sensação absorvente da morte... Um dia saí de casa, amarrei fortemente as minhas tranças de menina, deitei-me debaixo dos dormentes e esperei o trem passar por cima de mim. Foi uma coisa horrível, indescritível. O barulho ensurdecedor, a deslocação de ar, a temperatura asfixiante deram-me uma impressão de delírio e de loucura. E eu via cores, cores e cores riscando o espaço, cores que eu desejaria fixar para sempre na retina assombrada. Foi a revelação: voltei decidida a me dedicar à pintura. Ao me ver, ela sorriu e fui conduzido a um outro espaço onde estava a sempre exuberante Maria Callas conversando com outras ao seu redor: O amor é muito melhor quando não se está casada. Alguns dizem que tenho uma bela voz, outros dizem que não. É uma questão de opinião. Tudo o que posso dizer é que aqueles que não gostam não deveriam vir me ouvir. Não me fale sobre regras, querida. Onde quer que eu fique, faço as malditas regras. Ela percebeu a minha satisfação em vê-la, mas logo fui tocado que era hora de partir. Adiantei-me e disse: Eu juro! A minha passagem por ali havia chegado ao final. Despediu-se, deu-me uma edição atualizada do seu livro Herland (Via Leitura, 2019) e me deixou partir sob juramento: jamais contar. Não sei para onde, perdido de volta.

 


JANELA DO TEMPO - Imagem: a arte da multi-artista polaca Teresa Tyszkiewicz (1953-2020), ao som de A window in time (Telarc, 1998), de Rachmaninoff. – Ela apareceu nua e linda: Tem dedo do tempo no meio. No centro da cena, pigarreou, afinou a voz, respirou fundo e disse: Sou Luiza, Maria Luiza Flores da Cunha Bierrenbach!, e passou o texto: Ele me disse: ‘Se você sair viva daqui, o que não vai acontecer, você pode me procurar no futuro. Eu sou o chefe, sou o Jesus Cristo [codinome do delegado de polícia Dirceu Gravina]’. Ele falava isso e virava a manivela para me dar choque. Ele também dizia: ‘Que militante de direitos humanos coisa nenhuma, nada disso, vocês estão envolvidos’. E virava a manivela. Havia umas ameaças assim: ‘Vamos prender todos os advogados de direitos humanos, colocá-los num avião e soltar na Amazônia’. Nos outros interrogatórios, eles perguntavam qual era a minha opção política, o que eu pensava, quem pagava os meus honorários, quais eram os meus contatos no exterior, o que eu pensava do comunismo. Para mim, ficou muito claro que eles queriam atemorizar advogado de preso político. Havia uma mudança no tom das equipes. Eram três, e ia piorando. Durante o interrogatório da segunda equipe, eu levei uma bofetada de um e o outro me segurou: ‘Está bravinha porque levou uma bofetada?’. E os homens da terceira equipe diziam: ‘Saia disso, onde já se viu defender esses caras, gente perigosíssima, não se meta nisso!’. Eu estava formada havia menos de um ano, e trabalhava desde o segundo ano no escritório do advogado José Carlos Dias, defendendo presos políticos. Essa era a forma que eu tinha de resistir à ditadura militar, foi minha opção de participação na resistência. Eu fui presa sem nenhuma acusação, fiquei três dias lá sem saber porque estava presa. No terceiro ou quarto dia, eu descobri o motivo: teriam achado num ‘aparelho’ um manuscrito do Carlos Eduardo Pires Fleury, que tinha sido banido do país e que foi meu colega e cliente no escritório. Eu não fui das mais torturadas. Levei choque uma manhã inteira, acho que para saber se eu tinha algum envolvimento com alguma organização clandestina e para que os advogados soubessem que não era fácil para quem militava. E chorava muito soluçando: Sou a filha de outras filhas da dor. Inconsolável, aproximei-me e demonstrei meu apoio ao lembrar de uma frase do escritor e antropólogo peruano José María Arguedas (1911-1969), ao seu ouvido com um abraço terno: A luta é um bem, o maior bem que foi concedido ao homem, mas enquanto a luta não for irremediavelmente estéril ou inútil, porque então não é mais uma luta, é o Inferno. Ainda chorosa respondeu-me com Edmond Rostand: O que é a vida sem um sonho. Todas as nossas almas estão escritas nos nossos olhos. E abraçados permanecemos por longo tempo até darmos conta de nosso prazer inenarrável. Até mais ver.

 

A ARTE DE AURORA DICKIE

Eu amo o meu trabalho e o trabalho que é feito na companhia em Berlim. Dançamos do clássico ao contemporâneo, sempre acompanhados de orquestra ao vivo e com o teatro lotado. Também já fiz turnê para a Espanha e Itália com a companhia nesses últimos dois anos. Berlim é uma cidade energética que transpira arte em todos os cantos e essa atmosfera me anima e inspira para continuar crescendo como bailarina e pessoa.

A arte da bailarina Aurora Dickie, que hoje é solista do Ballet Estatal de Berlim, na Alemanha. A sua primeira experiência foi na Cisne Negro Cia. de Dança, em 2006, sendo depois contratada pela Companhia Danças de São José dos Campos, no interior de São Paulo. Veja mais aqui & aqui.


 

 


MARTIN AMIS, PHYLLIS A. WHITNEY, ROSANA PALAZYAN & PAULA BERINSON

    Ao som dos álbuns Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985), Camerístico (2007), Original (2002) e Dois Destinos (2016), do vio...