terça-feira, maio 21, 2019

KEATS & FANNY, LAING, JANE CAMPION & ALEXANDER ARCHIPENKO


FANNY, O TESTEMUNHO DERRADEIRO – Agora o meu testemunho derradeiro: compartilho definitivamente meu sofrimento com esta ode, para que meu sangue seja a vida na corrente do seu coração que esvoaça ubíquo por todo meu corpo e lugar. Você mudou a minha vida e aliviou meu coração com sua presença para começar meu sonho. A sua beleza é a música que respira a alegria brilhante na queimadura amorosa do meu peito e rechaça a minha dor sufocante na esperança do seu amor. Eu sei, um homem apaixonado é a mais triste figura do mundo, estou à sua mercê, deslumbrado com a sua confessa mão macia a premiar minha vida subjugada, tudo é gracioso em seus movimentos, voa em todas as direções dos meus sentidos. Sou apenas um aprendiz de cirurgião que desistiu da saúde para ser poeta, um pobre poeta que vive do nosso grande segredo e dele sobrevivo a enlouquecer, minha doce Fanny. Para você, a miniatura do meu retrato e todos os meus poemas e cartas que são seus, porque os seus mil beijos estarão sempre comigo. Só você é o meu prazer, minha docê Fanny, minha bela dama Sans Merci, a vida do meu amor confinado, cavaleiro desmontado pelos infortúnios, desassossegado, não há nada no mundo tão delicado, meu credo é o amor e você é seu único princípio, na paixão submetida a uma quarentena, chafurdando desesperado em autopiedade. Com a minha partida as autoridades sanitárias queimarão toda minha mobília, rasparão as paredes do meu quarto para novas portas, janelas e chão, meus poemas entre labaredas, minhas cartas incendiadas, ah, meus olhos se fecharão com você em mim, doce Fanny, que plantem margaridas sobre minha sepultura! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A existência é uma chama que constantemente ataca e revivifica as nossas teorias. O pensamento existencial não oferece qualquer segurança,nenhum abrigo ao sem-abrigo. Não se dirige a ninguém, salvo a vocês e a mim. Encontra a sua justificação quando, por cima do abismo das nossas linguagens, dos nossos erros, dos nossos devaneios e das nossas perversidades, fazemos, na comunicação com outrem, a experiência de uma relação estabelecida, perdida, destruída ou reencontrada. Esperamos partilhar a experiência de uma relação, mas o único ponto de partida honesto (e talvez o único fim) é talvez partilhar a experiência da ausência de relação. [...].
Trecho extraído da obra A psiquiatria em questão (Presença, 1972), do psiquiatra escocês Ronald David Laing (1927-1989), que na sua obra O eu dividido (Vozes, 1978), expressa que: [...] o principal agente na integração do paciente, no fazer com que as peças se reunam de modo coerente, é o amor do médico, um amor que lhe reconhece o ser total e o aceita sem quaisquer limitações. [...]. Ele também é autor de obras tais como A política da experiência: a ave do paraíso (Vozes, 1978), Fatos da vida (Nova Fronteira, 1982), Laços (Vozes, 1977), O eu e os outros: o relacionamento interpessoal (Vozes, 1989), Percepção interpessoal (Eldorado, 1972), A política da família (Martins Fontes, 1983), entre outros. Veja mais aqui e aqui.

BRIGHT STAR
Fosse eu imóvel como tu, astro fulgente!
Não suspenso da noite com uma luz deserta,
A contemplar, com a pálpebra imortal aberta,
– Monge da natureza, insone e paciente –
As águas móveis na missão sacerdotal
De abluir, rondando a terra, o humano litoral,
Ou vendo a nova máscara – caída leve
Sobre as montanhas sobre os pântanos – da neve,
Não! mas firme e imutável sempre, a descansar
No seio que amadura de meu belo amor,
Para sentir, e sempre, o seu tranquilo arfar
Desperto, e sempre, numa inquietação-dulçor,
Para seu meio respirar ouvir em sorte,
E sempre assim viver, ou desmaiar na morte.
(Soneto Bright Star, de John Keats)
O drama Bright Star (Brilho de uma Paixão, 2009), da cineasta neozelandesa Jane Campion, é baseado nos três últimos anos de vida do poeta do Romantismo inglês John Keats (1795-1821), focando seu relacionamento amoroso entre os anos de 1818-1821, com a inglesa Fanny Brawne (1800-1865), interpretado pela atriz australiana Abbie Cornish. O poeta por ela se apaixonou e se casaram em 18 de outubro de 1819, mantendo o enlace em segredo, porque ele havia desistido de sua carreira na medicina e passou a se dedicar somente à poesia, fato que levou a família dela a se opor. Separados por conta das dificuldades financeiras e saúde precária do poeta, eles trocaram correspondências mútuas. Veja mais aqui e aqui.

A ESCULTURA DE ALEXANDER ARCHIPENKO
A arte do escultor e artista plástico ucraniano Alexander Archipenko (1887-1964). Veja mais aqui.
&
A OBRA DE JOHN KEATS
Eu sou a morte, trilhada sob os pés de uma bela dama.
A obra do poeta do Romantismo inglês John Keats (1795-1821) aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


segunda-feira, maio 20, 2019

BALZAC, MARQUES REBELO, RENINA KATZ, NINA BECKER & DAS ARENGAS NO RACHÃO


DAS ARENGAS NO RACHÃO - Nicolito é o apelido de João Uóxito Conceição da Silva, homônimo do maior cantor brega da redondeza, filho de dona Josefa da Conceição e de pai ignorado no registro, mas tido por ditos e provados ser um tal de Zé Marreta que era tão fã do dito crooner de sucessos - razão pela qual, apesar das raivas e desencontros, o famigerado intérprete da lubrificação das gaias musicadas foi devidamente laureado -, tinha lá duas paixões na vida: Lauritilia e sua cadela Xola. Não sabia ele por que cargas d’água era surpreendido a todo momento e nas horas mais indevidas pela amada, isso se tivesse largado do trabalho e resolvesse tomar umas e outras com os pariceiros calungas e os da laia de porqueiras, ou caísse na gandaia dos arrasta pés por rabos de saias perdidas, ou no jogo de porrinhas entre pitacadas e pinoias, fosse pronde fosse, ela chegava gasguita, mãos no quarto, batendo o pé e com a cara de poucos amigos, esporrenta de arrear a lenha nos seus costados de safadezas, a levá-lo aos puxões de orelhas direto para seu cafofo, lá tratado na maior rédea curta, para acabar jogado a um canto do chão, agarrado com alisados na cadelinha, apertando cada vez mais o seu juízo pouco. Peraí, Lauritilia, meu amor. Muxoxos e desavenças. No meio disso, Nicolito ficava com aquela cara de interrogação, desconfiado, cismando: Como é que ela adivinhava onde estava toda vez que saísse da pisada, não havia como saber, nem mesmo passava na ideia queimando nas catracas do tino, ao chegar de sopetão na casa dela e ela não estava, deitava no sofá aos cochilos até o dia amanhecer e ela, chegando de farras e copos, surpreendida com a presença dele, arreliar que não gostava de surpresa e que ele fizesse a fineza de avisar quando fosse dar as caras, ao que ele passou na lata os três anos de convivência e da sua fidelidade repassando às mãos dela amada todos os ganhos e afetos, e ela nem aí, a casa era dela e como dona a lei tinha que ser como queria e dito e falado, ponto final e que ele se mandasse dali já e só aparecesse quando ela autorizasse, nada mais que isso. Nicolito saía cabisbaixo revoltado com o circuito no quengo para amarrar o bode por meiotas e lapadas de cana, a repetir que qualquer sujeito só vale pelo que tem, pois quando ele se danava lascado com o espinhaço no pesado, e no final de semana, apurado no bolso das caranhas pra ela, é toda dente aberto fazendo pinto na feira, carinhos e vuque-vuque, mas quando liso apertado, sem um tostão no bolso, é logo enjeitado de ficar no castigo da punheta, isto se quiser tê-la quando ela der na telha de querer e nada mais. Tampo cheio das biritas, arengas com um e outro, aqui e acolá, corno uma porra! Zé do Mé exige respeito, aqui é ambiente familiar, radiola de ficha às alturas, ele se arreta arrepiando o pentelho, manda tudo para a puta que pariu, trocando as pernas, vendo alma pelos escuros, alisando Xola, oxe, essa cachorra por aqui! Como é que pode? Ela me achou, me acha sempre essa danada, dentes no coarador. Dali a pouco, dava fé, Lauritilia com maus bofes: Vai pra onde, traste! Vou me danar no mundo! Amanse as gaias, safado! Tou puto! Ela deixa de mão, se dane peste! Ele enfia o dente nas talagadas de dois dedos, chega dá um palmo de copo na vira-virou e pei pou uh rá, cambaleia, teve um estalo: É a Xola o alcaguete! Cadê-la? Sumiu-se de novo, foi com a dona. E era mesmo, nem contava com isso. Ah, como não pensei nisso, é aquela cachorra quem me caça e diz pra ela. Fica fulo, maldiz da vida, e ao primeiro desafeto uma mãozada praguejando: Corno é a sua mãe! Mais chatos engrossam o caldo tomando as dores, enchem-lhe de porradas, dele cair roto na sarjeta. A polícia aparece, só dá ele. No outro dia, esporro do delegado: Lauritilia deu parte dele. Ameaça em riste: se se aproximar duzentos metros da casa dela, meto-lhe na cadeia pro resto da vida, seu fresco da gaia mole. Perdeu o dia, a carona, vai pro fiado do Rachão onde ofendidos, pilantras e gaiúdos vão afogar mágoas, passar rasteira e botar em dia o chapéu de otário; enche o tampo praguejante, xinga deus e o mundo, tabefe rola aos empurrões, esquenta o pé da orelha, quebra o pau da venta, mão fechada dormente, perde três dentes, safanões de entortar o gogó, chute nos colhões, pesadas de bico nas canelas, envergada na costela, teibei, até uma navalha abrir-lhe o bucho dos seus bofes pularem fora de dor para nunca mais. Assim foi. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Nascera ali, numa casinha de três cômodos, atrás de um armazém que prosperara. Ali perdera o pai, que era embarcadiço, conhecera o mundo a pasmo, outras gentes. Os japoneses comiam arroz com pauzinhos; os chineses adoravam filhotes de ratos fritos na manteiga; num lugar não sabia onde, os indígenas matavam os pais quando estes ficavam velhos; na África, as mulheres é que trabalhavam, os homens ficavam dormindo em casa, bebendo, fumando e se abanando por causa do calor! Deixava-a falar e ela falava muito. [...] Eu olhava seu corpo, não respondi. Mas sentia que ela fugiria mesmo, um dia, para nunca mais. Não sei por quê, nada fazia para prendê-la. Aceitava a idéia de fuga como um acontecimento que não podia deixar de ser. As mãos dela eram quentes, apertavam. Os seus olhos eram bem o chamado do mar, o chamado das ondas do mar, o chamado das ondas de um mar desconhecido, verde, fundamente verde, misterioso. [...] - Não devia ter vindo. Eu tremi e paramos numa pequena ponte, como se, muda e previamente, tivéssemos combinado parar, não ir para a frente, ficarmos ali para sempre pregados. A lua é paz, é pálida, e nós tão pálidos. As horas correm, o barulho do rio correndo tinha uma tristeza de morte. [...]
Trechos do conto extraído da obra Stela me abriu a porta (Globo, 1942), do escritor e jornalista brasileiro Marques Rebelo (1907-1973). Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE RENINA KATZ
Enquanto eu viver, não estou acabada. Essa é uma atitude otimista, à medida que imagino que eu possa me aperfeiçoar como pessoa. Se alguém ainda está num processo de aperfeiçoamento, não está acabado.
A arte da gravurista, desenhista, aquarelista, ilustradora e professora Renina Katz, integrante da primeira geração de grandes gravadoras brasileiras que concedeu uma entrevista (Estudos Avançados, 2003), à crítica e historiadora de arte, Radhá Abramo. Veja mais aqui e aqui.

A MÚSICA DE NINA BECKER
A arte da premiada cantora, compositora e cenógrafa Nina Becker, que deu início à sua carreira como editora de arte de filmes e na Orquestra Imperial, que lançou em 2010 os discos Azul, com faixas autorais e parcerias, e Vermelho, com improvisos e intensidade, gravado ao vivo. Em 2014, lançou o álbum Minha Dolores – Nina Becker canta Dolores Duran. Em seguida, lançou o seu quarto álbum Acrílico (YB Music, 2017), reavivando sons da década de 1960 e com repertorio quase inteiramente autoral. Merece registo que, em 2009 foi eleita como melhor cantora pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e destacada como artista mais influente da sua geração pela revista Bravo! Veja mais aqui.
&
A OBRA DE HONORÉ DE BALZAC
Todo aquele que contribui com uma pedra para a edificação das ideias, todo aquele que denuncia um abuso, todo aquele que marca os maus, para que não abusem, esse passa sempre por ser imoral.
A obra do escritor do Realismo francês Honoré de Balzac (1799-1850) aqui, aqui, aqui & aqui.


sexta-feira, maio 17, 2019

STEVEN WEINBERG, SARTRE, VANESSA BEECROFT, JANICE JAPIASSU & BOTE OLHO GRANDE NA PETA!


E BOTE OLHO GRANDE NA PETA! – Conversa de caçador já viu. E não só, ali estavam, parece, pescadores, vigias, barbeiros, tudo quanto é de pariceiro exímio de treloso nas avultadas contações do vulgo e inventados. Cada um puxa das suas e bote pinoia, parece mais competição. Mastá, pilhéria é que vale no fim das contas. Entre eles, Tó Zeca lidera na facécia, só que dita como caso vero, de bater o pé no chão: acredite quem quiser. Nunca passou aperto, contasse uma, ele vinha com maior absurdo, findava no apupo. E se está sem assunto, sai na hora, depõe uma ou outra boataria ou invencionice que seja, se verdade ou não, aí é outra coisa, depende do gosto, mas deixa tudo na base da verossimilhança, ah, isso deixa e na maior verve. Chega logo dizendo: Essa eu vi, pode crer! Três apostadores negaceavam blefes e barrunfos, desconfiados prestidigitadores das astúcias afiadas, de gato-por-lebre um no outro em cada jogada, nem piscavam os olhos, quem é doido de cochilar: cartas nas mangas, pelos abanhados, sacadas do cós das vestes ou detrás da orelha, não tinha esse negócio de tirar um fino não, vai pou pou pou de bater na mesa, tome na batata: bateu. Jogo duro, cada um sai na sua, adivinhando a tática do outro por antecipação, tudo na estratégia do palpite, carregado ou de lona, zás, tudo armado para batida. Nisso, cada um dá asa pras artes do diabo e invocam-no na hora: Oxe, quero é ficar rico nas tuas costas, infeliz. Vale é botar a mão no que o outro tiver, pra isso chamam o capeta pra ajudar na tacada. Quer ver? Aí vai que ele dá as caras, teibei. Dinheiro caía do teto, assim do nada. Que é isso? Cédulas e moedas despencando, da muita, correram da roda para catar tudo. Cada um fazia seu monturo, tiveram que se ajudar para dar conta. Era da muita mesmo, mais de hora caindo, incontáveis. Quando parou de cair, ajuntaram tudo, comemoram na pinga e combinavam como repartir, assim, assado, toma lá, dá cá, estão me roubando, preste atenção! Acabou-se a cachaça. Quem vai comprar? Apostaram: quem perder vai buscar, quem ficar toma conta. Vai, não vai. Olho grande, quem queria perder aquela tuia da fortuna? Ninguém arredava o pé, pelejaram até sair um perdedor. Pronto. Tramaram. O que foi achou de envenenar a birita: duas garrafas da boa de cabeça e outra de veneno; abriu as tampas, pegou dum funil de querosene e misturou tudo, testou: pingo no chão, riscou fósforo, pegou fogo na hora, pronto, tinindo, um gole e bate as botas. Os outros dois acoloiados acertaram na espingarda. Foi só chegar e o pipoco comeu no centro, menos um. Então, pegaram do aperitivo, talagada de cinco dedos, ineivada, brindaram e viraram duma vez. Outra? Repetiram na dose dupla, dobrada. Nem deram fé, caíram e esticaram as pernas. Benzodeus. A dinheirama serviu pra quê mesmo, hem? Coisa com tinhoso dá nisso! Era uma vez. Ah, peraí Tó Zeca, visse isso tudo? Vi. Desde o começo até o fim? Vi. E o dinheiro? Deu de ombros, ah, não sei, maior motejo. Quem quiser que conte outra. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] fiz o que pude para dizer se a ciência pode explicar tudo; peço licença para abordar a questão de saber se a ciência pode explicar qualquer coisa. Claro que não. Certamente sempre haverá acidentes que ninguém explicará. não porque não possam ser explicados se soubéssemos todas as condições precisas que conduziram a eles, mas porque jamais saberemos todas essas condições. Há questões como saber por que o código genético é precisamente o que é ou por que um cometa atingiu a Terra 65 milhões de anos atrás justamente nesse ponto e não em outro que permanecerão para sempre fora de nosso alcance. [...] Talvez nossa melhor esperança para uma explicação final seja descobrir um conjunto final de leis da natureza e mostrar que essa é a única teoria rica logicamente consistente, rica o bastante, por exemplo, para permitir a existência de nós mesmos. Isso talvez aconteça em um ou dois séculos, e, se assim for, creio que os físicos estarão nos limites extremos de seu poder de explicação. [...] como a Terra é um entre um vasto número de planetas cujas distâncias de suas estrelas são, em boa parte, uma questão do acaso, assim também a posição do pé é o resultado de um vasto número de mutações casuais na evolução de nossos ancestrais. Um organismo produzido por uma cadeia de mutações casuais que Ihe põe o pé dentro da boca não sobreviveria para transmitir seus genes aos descendentes, tal como um planeta que, por acaso, condensou muito perto ou muito longe de sua estrela não seria o lar de filósofos. [...].
Trechos extraídos de Os limites da explicação científica (The New York Review of Books - Folha de São Paulo, 2001), do físico estadunidense Steven Weinberg, Prêmio Novel de Física de 1979, coautor da teoria da força eletrofraca, expressando que: Com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más. Porém para pessoas boas fazerem coisas más, é preciso religião.

A POESIA DE JANICE JAPIASSU
VIGÍLIA: Ateia fogueira / eu guardo teu sonho / - verseja, campeia / eu guardo teu sonho / - Desata a viola / eu guardo teu sonho.
CANTIGA: A dor do olho metálico / atira-me o ferro frio / e das lanternas quebradas / nem de leve desconfio.
POEMA: Agora o sonho meu, pássaro leve / que lança preso o chão sombras de ferro / depois que esse chão medre / essa erva aflita / que encanto uma canção / como quem ressuscita.
DÁDIVA: Do abismo meu / recebe a vaga flauta / e dá-me em troca o pão de tua mesa / mas se te pesa / e o leve ouvir não podes / contempla o pássaro que foge e vê: / como é medonho o grito que ele solta...
SE UM DIA AMARES... : Se um dia amares o Sol, que é vero e forte / repousará em tuas mãos aladas / reverterás a noite em pleno gozo / que a chama eterna já te foi doada / desata a vida tua, aprisionada / cavalga o mar, a dor e a profecia / Se um dia amares, rasga a veste e grita / que a vida foi gerada na alegria!
Poemas extraídos da obra Poesias editadas 1970-2000 (Autor, 2015), da poeta e ilustradora Janice Japiassu, autora de obras como As Veredas da Alegria (1978); O Reino das Águas (1982); As Quatro Estações da Lua Nova (1985); O Circo dos Astros (1995); Com Todas as Letras (1997); ContraCanto – Livro e CD (1997); Tarô (2000); A Paixão Segundo Madalena (2001); Poesias Ilustradas, 400 cartões e cartazes (2005-2010). Veja mais aqui.

A ARTE DE VANESSA BEECROFT
Ninguém atua, nada acontece: nem ninguém começa ou acaba nada.
A arte da artista performática italiana Vanessa Beecroft. Veja mais aqui.
&
A OBRA DE JEAN-PAUL SARTRE
A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota. Quando os ricos fazem a guerra, são sempre os pobres que morrem.
A obra do filósofo, dramaturgo e escritor francês Jean-Paul Sartre (1905-1986) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


quinta-feira, maio 16, 2019

STRINDBERG, RUBEM FONSECA, LYNN MARGULIS, ESTHER TEICHMANN & NÃO É MENTIRA NÃO!


NÃO É MENTIRA NÃO! - Joãodito contava das suas pabulagens, petas a granel. Dizia lá das suas sem maledicências. Só que Sinedônio, um ricaço de maus bofes encarava tudo aquilo de soslaio. Já tinha ouvido tantas do gabola, de prestar atenção amiudada, desconfiando das narrações. Só que ao final da patranha, Joãodito sempre dizia: Só Deus e nada mais. Aquilo foi enchendo o saco, quase esborrando da paciência do Sinedônio e demais presentes que queria pegá-lo na virada, desmascarando-o. Bastou Joãodito contar que, um dia, ansioso por mel, bastou dar um tiro a mesmo, dele entrar no pé do maluvido do tijolo, sair no mocotó da parede, tirar um fino na placa da academia, atravessar o toitiço do poste e bater no pé da goiabeira de varar o enxame e cair o delicioso líquido bem no copo em que segurava. Ah, não faltou apupo no recinto. Todos levavam na conta da charlatanice E ele: Só Deus e nada mais! Daí dizer que isso não era nada perto do tempo que bateu um liseu, dele ter que fazer um trato com o diabo, de vender a alma num acertado com prazo e tudo para xis tempo depois. Na véspera do vencimento, ele sem saída, coçando o quengo, contou tudo pra mulher dele, dona Maricotilda, dela providenciar uma pintura de piche por todo corpo e ficar nua, toda escancarada esperando o tinhoso. Quando o coiso apareceu, assustou-se: Já vi de tudo, mas dessa é a primeira vez! O maldito olhou, tocou, conferiu, foi provar e se envultou de nunca mais aparecer para atanazar o coitado depois que ela se mexeu e fez o sinal da cruz. Joãodito não pestanejou: Só Deus e mais nada. Ninguém entendeu direito, mas o burburinho das mangações não parou, deixando a coisa por suspeita, maior patranha. Foi aí que Sinedônio encarou Joãodito em riba da fivela: Olhaqui, seu fiduma lasqueira, tome aqui esse anel, dezoito quilates, guarde-o até eu pedi-lo, se não tiver com ele, eu vou matá-lo, seu paidégua. Podexá, guardo pra você. Apalavrado. Joãodito foi, chegou em casa e mandou a esposa guardar para ele, para o dia que o Sinedônio pedisse, jurado de morte se não tivesse mais com o utensílio para devolvê-lo. Isso foi. Dias depois, Sinedônio armou das suas: mandou um capataz procurar Maricotilda para comprar o anel com uma fortuna em dinheiro vivo. Foi lá e pelejou, ela nada. Mostrou a dinheirama toda, ela cresceu os olhos, arredia, findou cedendo e entregou. O capataz voltou pra Sinedônio que saiu para o meio do rio numa canoa, sacudiu o anel lá, na parte mais funda da correnteza, e voltou para mandar ver no caviloso. Agora queria ver, cruzeta da peste. Aí Sinedônio foi lá, chamou todo mundo, contou tudo e mandou buscar Joãodito que apareceu tão logo recebeu o aviso. Diga lá. Dê-me cá meu anel! Agora mesmo. Foi em casa pediu a esposa, ela entrgou-lo e ele assim o fez, devolvendo ao seu dono. Peraí, rapaz! Só Deus nada mais. Como é que pode? Pode o quê? Mande chamar dona Maricotilda aqui. Ela veio. Sinedônio começou o inquérito na frente de todo mundo: Ô dona Maricotilda, a senhora vendeu ou não vendeu o anel? Vendi. E como é que ele está aqui? Ah, eu não te conto, foi assim: meu marido me deu o anel para guardar e foi pescar. Aí apareceu esse seu moço aí querendo comprar, eu não queria vender, mas ele insistiu tanto com um molho de dinheiro de cair de costa, depois de muito peiticar, findei e vendi. Fiquei cheia de remorsos e quase tenho um troço quando vi o Joãodito chegar com um peixe grande, bonitão, para eu tratar e saiu. Mal comecei a passar a faca no bichão, meu marido chegou pedindo o anel de volta, oxe, só deu tempo de eu passar a peixeira e o anel pular de dentro do peixe na minha mão, pronto, entreguei-lo, tá aí na sua mão e fim de papo. Ah. Ovação geral. Aí Joãdito não deixou por menos: Só Deus e mais nada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] a terra é, de fato, um sistema vivo, um amálgama globalmente pulsante de organismos e do mundo físico “inanimado” [...] O que é vida? Esta é, sem dúvida, uma das mais antigas perguntas que existem. Nós vivemos. [...] A vida – desde as bactérias até a biosfera – mantém-se ao produzir novas quantidades dela mesma. [...] a vida – não só a humana, mas a vida em geral – tem liberdade de ação e desempenhou um papel inesperadamente grande em sua própria evolução. [...] A vida – tanto no aspecto local, como corpo de animais, plantas e micróbios, quanto no plano global, como a biosfera – é um fenômeno material sumamente complexo. Ela exibe as propriedades químicas e físicas habituais da matéria, ma com um toque diferente. [...] A vida se distingue não por seus componentes químicos, mas pelo comportamento desses componentes. Assim, a pergunta “o que é vida?” é uma armadilha linguística. Para responde-la de acordo com as regras gramaticais, devemos fornecer um substantivo, uma coisa. Mas a vida na Terra assemelha-se mais a um verbo. Ela conserva, sustenta, recria e supera a si mesma. A visão autopoética da vida difere dos ensinamentos padronizados da biologia. [...] os seres orgânicos e o meio ambiente acham-se entrelaçados. [...] a vida não existe na superfície da Terra, mas é a superfície da Terra. A vida estende-se sobre o planeta como uma cobertura contígua mas móvel, que assume a forma da Terra subjacente. [...] a vida aviva o planeta; a Terra, num sentido muito real, é viva. [...] Os organismos são [...] comunidades de corpos que trocam matéria, energia e informações entre si. Cada inalação de ar nos liga ao restante da biosfera, que também “respira”, embora em ritmo mais lento. Considerada em sua extensão fisiológica máxima,a vida é a superfície planetária. [...] Portanto, o que é vida? É um processo material, que peneira a matéria e desliza sobre ela como uma onda estranha e lenta. É um caos artístico controlado, um conjunto de reações químicas desnorteantemente complexo, que produziu, há mais de 80 milhões de anos, o cérebro mamífero que hoje, sob a forma humana, redige cartas de amor e usa computadores de silício para calcular a temperatura da matéria na origem do universo. A vida, além disso, parece estar prestes a perceber, pela primeira vez, seu lugar estranho mas verdadeiro num cosmo em inexorável evolução. A vida fenômeno local da superfície terrestre, na verdade só pode ser compreendida em seu meio cósmico. [...] Para funcionar, a biosfera requer a diversidade microbiana; para nos sentirmos inteiros e à vontade, quase todos nós ansiamos pela variedade da natureza. [...] Os seres humanos atuais estão claramente ameaçados pela extinção de muitos de nossos companheiros de planeta, antes mesmo que a ciência consiga descrevê-los. [...] Que o excesso é natural, mas perigoso, nós aprendemos com os ancestrais fotossintéticos das plantas. [...] Os seres humanos não são espécies e independentes, mas parte de um continuum de vida que circunda e abarca o globo. [...].
Trechos extraídos da obra O que é vida? (Jorge Zahar, 2002), da bióloga e professora Lynn Margulis, autora da teoria da endossimbiose, segundo a qual a mitocôndria, um organismo separado que teria entrado em simbiose com células eucarióticas.

O TEATRO DE STRINDBERG
[...] CRISTINA - E perdeu alguns milhares de ducados, não é? Permita-me cobrir suas perdas... KLAS TOTT - Não, Majestade, eu não posso! -Não posso aceitar dinheiro de uma mulher... CRISTINA - Eu não sou mulher... KLAS TOTT - Sim, e nem mesmo de uma rainha... CRISTINA - Eu não sou rainha também, pois não sou de nenhum rei; eu fui proclamada rei, Tott não se recorda? [...]
Trecho da cena do I Ato da peça Cristina (Cone Sul, 2001), do dramaturgo, escritor e ensaísta sueco August Strindberg (1849-1912), contando sobre a rainha sueca Cristina (1626 -1689), peça escrita em 1901, seria recusada de teatro em teatro para apenas estrear em 1908, no Intima Teater. Em suas Cartas Abertas para o Teatro Íntimo, Strindberg escreve: “uma mulher criada para ser um homem, lutando por sua sobrevivência, contra sua natureza feminina e por fim sucumbindo a ela”. Outras peças teatrais traduzidas do autor: Crimes e Crimes (Edusp, 1999), Dança da Morte (Veredas, 2005), Sagas (Hedra, 2006), Gente de Hemsö (Hedra, 2009), Senhorita Júlia e Outras Peças (Hedra, 2009), Inferno (Hedra, 2009) e A Sonata dos Espectros (L-Dopa, 2010). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

A ARTE FOTOGRÁFICA DE ESTHER TEICHMAN
A arte da fotógrafa e artista visual alemã Esther Teichmann. Veja mais aqui.
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A OBRA DE RUBEM FONSECA
O pecado é mais saudável e alegre do que a virtude. Aqueles que trocam o vício pela beatice tornam-se velhos feios e desagradáveis.
A obra do escritor e roteirista de cinema Rubem Fonseca aqui, aqui, aqui & aqui.


quarta-feira, maio 15, 2019

EMILY DICKINSON, LIA ROBATTO, DAVID TAVARES BARBOSA, A PEIXA DO AÇUDE, CUPIDO & PSIQUÊ


A PEIXA DO AÇUDE – Era o maior açudão, meu! Num diga! Tinha até uma peixa! Como é que é? Era. No começo tinha só uns três arruados com uma capela mirochinha no meio pros fieis domingueiros. Dava muito peixe dos bons, não tinha como passar fome. Na fartura, havia até festa com roda-gigante, barracas de fogos e serviço de som. Areia branca à beira d’água, as roupas estendidas no varal, os peixinhos, o alagadiço, um paraíso. Foi o pescador Tonésio quem viu-la pela primeira vez, nem acreditou da maravilha ali boiando. Fechou olhos e ao abri-los, ela desaparecera. Só vista depois, no pôr do sol, uma festa pros curiosos que engrossavam a fila arrodiando o espetáculo. Dela Tonésio se afeiçoou de não sair mais da jangada, até dar um timbungue e nunca mais dar as caras por essas bandas. Que coisa! Ah, os meninos que viram e os moradores antigos dizem que foi mesmo, só ele pescava do muito, ela não deixava entrar ninguém com rede de arrasto, afundava quem se atrevesse, só pesca de vara e, ao que parece, com ela se casou para sempre. Falavam que ela tinha os olhos de verão, um prateado na pele lisa, e Tonésio quando vinha tomar umas e outras, pabulava que lá no fundo era como se tivesse no céu cheio de estrelas e nadar com ela era como voar sobre abismos. Tinha até um jacaré que guardava o reinado dela, isso todos viram. Com o sumiço dele, correu o boato de que tinha uma botija escondida, com muitos tesouros guardados lá fundo. Além do mais, de 5 em 5 anos, a invernada botava o rio para transbordar. Foi aparecendo gente, o bairro crescendo, o fuxico, os do disse-me-disse aumentavam na pacutia. Arengas e estranhamentos, queriam tirar o negócio a limpo: Vem ou não vem? Oxe, não deu outra, veio uma tropa do prefeito com escafandro e tudo, vasculharam mais de 50 metros de fundura, dizem. Maior remoeta: De hoje não passa! E o jacará? Ah, foi atraiçoado, repartido e venderam a carne e o couro na feira. Nada de botija? As buscas só pararam depois que uns dois mergulhadores morreram enganchado num redemoinho brabo que dava lá embaixo. Mesmo? Por conta disso, se arretaram e tudo ficou para trás, chega dava pena. O que fizeram? Ah, começaram a dizer que o açude estava podre, doença incurável, essas coisas, nem jacaré, nem peixe dava mais. Findou no aterro e enterro do açude, mais de mil casas em cima, gente até de um olho só. Lotearam, tudo vendido caro que só. Danou-se! Era uma vez. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] as ações contemporâneas [...] revelam profundas conexões entre os aspectos culturais da cidade, as estratégias de comunicação de seus atores e a variável política, pois nestas estratégias destacam-se ações que atuam na cidade visando tornar hegemônica determinadas leituras de apropriação dos espaços, domesticando os usos destes e promovendo a reprodução esperada dos traços culturais do éthos do lugar. [...] Tal aproximação entre classes é favorecida através da “retórica da paisagem” “recolhida” dos artísticos e culturais da cidade, capazes de construir elos efetivos que aproximam os diferentes grupos sociais da cidade numa retórica de confluência dos espaços públicos. [...]
Trechos extraídos de Pontes imaginárias sob o céu do manguetown: influências do Mangue Beach sobre as políticas públicas no entorno do Rio Capibaribe – uma análise do circuito da Poesia e do Carnaval Multicultural (EdUFPE, 2012), do geógrafo doutorando pela UFRJ, David Tavares Barbosa, pesquisador vinculado ao Laboratório de Estudos sobre Espaço, Cultura e Política da UFPE e ao Grupo de Pesquisas sobre Política e Território da UFRJ. Veja mais aqui.

CUPIDO E PSIQUÊ
Imagem: Cupid and Psiche, do escultor, pintor, desenhista, antiquário e arquiteto Antonio Canova (1757-1822).
Antigamente, vivia na Grécia um rei que tinha três filhas. Psique, a mais nova de todas, era de formosura rara. Quando passava pelas ruas, todos a cobriam de flores. Chegada a ocasião de se casar, o rei recebeu um misterioso aviso: que a levasse para uma montanha selvagem e a deixasse lá. “Oh!”, pensou o povo. “A nossa querida Psiquê vai ser sacrificada!”. E assim era, com efeito. O povo tinha dito que Psiquê era mais formosa que a própria Vênis, e esta, que era a deusa da beleza, quando isto ouvia, ficava irritadíssima. Tinha Vênus um filho chamado Cupido, e ordenou-lhe que casasse Psiquê com o homem mais feio da terra. [...] Em meio da obscuridade da noite alguém foi dizer palavras ternas ao ouvido de Psiquê e ela ficou tão encantada que consentiu logo em ser esposa daquele que assim lhe falava. Então, ele lhe disse: - “Psiquê, podes viver como mais te agradar neste palácio que construí para ti. Só uma condição te imponho? Que não queiras ver o meu rosto”. [...] Certa ocasião, um vento mágico levou-lhe lá as irmãs. Esta visita causou-lhe grande desgosto, pois, disseram-lhe que, por ordem de Vênus, Cupido a tinha casado com um monstro. E acrescentaram: - “Por isto é que ele não quer que lhe vejas o rosto”. [...]. Na noite seguinte Psiquê acendeu uma lâmpada e enquanto o companheiro dormia, foi ver-lhe o rosto. Era Cupido, o espírito alado e radiante do amor. Na sua alegria, levantou ela tão alto a lâmpada que deixou cair uma gota de azeite quente que o despertou. – “Ah, Psiquê!”, exclamou. “Temos que nos separar. Agora saberá minha mãe que eu me apaixonei por ti e me casei contigo em vez de te casar com um monstro. Adeus!”. E espalmando as asas, voou e fugiu. [...] A pobre caiu sobre a erva; mas Cupido, que a tinha seguido, foi em seu auxilio e, dissipando os vapores do rosto da jovem tomou-a nos braços, e, batendo as asas, levou-a para a Terra da Imortalidade. E ali viveram juntos e sempre felizes.
Trechos de A filha do rei da montanha – a lenda de Cupido e Psiquê, extraído da coleção Tesouro da juventude – reunião de conhecimentos essenciais, oferecidos em forma adequada ao proveito e entretenimento das crianças e adolescentes (W.M.Jackson, 1963). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

A DANÇA DE LIA ROBATTO
O ensino de dança – por tratar-se de uma prática artística, através da percepção do potencial do próprio corpo e de suas implicações culturais e sensoriais, emotivas e conceituais –propõe um conhecimento não só objetivo, técnico, mas também significativo, a partir de uma educação sensível, que abrange aspectos subjetivos e, ao mesmo tempo, coletivos, criativos, reflexivos e críticos. [...] Quando o ensino de dança recorre à sensibilidade e à imaginação corporal do aluno, produzindo movimentos, formas e gestuais numa perspectiva emocional, sensível e intuitiva, em abordagens subjetivas promovendo a livre expressão de seus sentimentos e ideias, com qualidade técnica e valor estético, essa prática está atribuindo centralidade ao aprendiz, um dos princípios mais significativos da educação. [...].
Trechos extraídos da obra A dança como via privilegiada de educação: relato de uma experiência (EDUFBA, 2012), da coreógrafa, artista e educadora Lia Robatto, reunindo sua experiência ao defender “o ensino da dança como educação para a vida”, um volume dividido em duas partes e oito capítulos, a primeira trazendo considerações gerais que definem e contextualizam a arte da dança e o profissional da área, e a segunda dedicada ao relato da trajetória da autora no Projeto Axé e ao debate de uma nova experiência – a tentativa de fusão entre a dança contemporânea e a capoeira. Ela sempre se posicionou na defesa de que: “A dança se apresenta como uma das formas de expressão coletiva mais fortes, trata da alma, do espírito, da fantasia, da criatividade e do corpo. Ela trata do sujeito como um todo une seu corpo com o seu sentimento e suas sensações. No momento que você trabalha isso e elabora, você transforma o aluno, você faz com que tenha consciência de si mesmo, tenha confiança, se descubra e se auto revele”. Veja mais aqui.
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A OBRA DE EMILY DICKINSON
A palavra morre no momento em que é proferida - dizem alguns. Eu digo que ela começa a viver naquele momento.
A obra da poeta estadunidense Emily Dickinson (1830-1886) aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

terça-feira, maio 14, 2019

FRITZ PERSL, FLORESTAN FERNANDES, HUMBERTO MAURO, ROBERTO MANZANO & A GODIVA DE ALAGOINHANDUBA!


A GODIVA DE ALAGOINHANDUBA - Foi providencial o aparecimento de Lady Godiva para mudar os rumos na avareza do Zé Coiso que sobrecarregava sem misericórdia o povo. Ele só queria ouro e mais ouro, acabando com tudo. O bom disso tudo é que com a chegada dela, dia menos dia, um a um dos viris achegados tiveram todos de sufragar na sua urna para salvar a população da ira do tirano. Não fosse isso, estavam todos ferrados. Os que não eram lá muito simpáticos à causa ou os quase invalidados por já terem passado da idade, a veneravam engrossando o caldo da tietagem promovida por toda comunidade feminina e classe de rapagãos e bruguelos, principalmente por seus atos de caridade, acudindo aos pobres e oprimidos. Só ela podia enfrentá-lo, já que o Zé Coiso não tinha modos nem limites, a ponto de quebrar de pau o prefeito, meter dois balaços nas fuças do juiz, bater o pé pro carreirão do promotor, envergar as costelas do delegado e de fazer dançar de odalisca o comandante da Polícia Militar. O padre Quiba e o bispo que não eram besta nem nada, estavam juntos com pastores e outros religiosos, tudo do lado dele, abençoando suas estripulias. Por conta disso, autonomeou-se Nidisio Fricelo (vixe?!?), o Imperdador Salvador de Sucarisa (hem?!?), ampliando todos os seus domínios aos possíveis limites além de Alagoinhanduba: tudo meu além de onde a vista alcança, tenho dito! E era mesmo. É nessa hora que ela entra mesmo em cena para fazer a cabeça do endiabrado, colocando uns tantos de compromissos ao seu leito, dele ficar doidinho de não querer fazer mais nada além de sair de cima dela. Quando ela enjoava da babação dele, resolvia dar umas voltas pelos quatro cantos do mundo, completamente nua, para tomar pé da situação. Como todos comiam arroiado na mão do déspota, aproveitavam a ocasião para levar pra ela suas reivindicações. Ah, o casal teve uma quebra-de-braço, Zé Coiso espumava de raiva: Qual o lado que você está, hem? Sem o povo você não é nada. Ah, eu quero ouro, o povo que se dane. Então coma ouro! Eu quero comida! Não tem que você quer acabar com tudo e só quer riqueza! Ah, é? É. Esse povo não presta, só serve mesmo pra gente pisar e encarcar malvadeza neles. Vá gozar no ouro, entrei em greve. Como é que é? Isso mesmo. Estava Zé Coiso desafiado, não conseguia raciocinar direito, só mandando e desmandando, afinal sua vontade era a única lei do lugar, e não cochilava por vigiar as atividades escusas da mulher. Não havia como descobrir, o povo ciente das providências dela, botava ele para andar. Até o autocrata dar de cara com uma idosa que o saudou: Deus dê longa vida ao Imperador! Ah, ele encheu-se de empáfia, admirado, de chegar junto dela generosamente e perguntar: O que a senhora quer por tão elogiosa postura? Nada, meu filho, sou velha, muito velha, conheci o seu pai e o seu avô; seu avô era um pedra ruim malvado; seu pai era pior ainda; Vossa Majestade, desarreda, muito piormente que os anteriores, de modo que rogo ao bom Deus que lhe dê vida longa, porque temo por aquele que possa vir depois do senhor. Ele desconfiou, não entendeu se era ofensa ou elogio, preferiu seguir seu intento de saber em quantas andavam as tentativas da rainha! Enquanto cagava raio pelo território afora, deu de chegar um Oficial de Justiça com mandado do Tribunal de Justiça para moralizar a coisa. Deu de cara com a Lady que estava entediada – é que ela conhecia todos os seus súditos pelo pênis; primeiro amolegava: esse já conheço, esse deu pro gasto, esse nem tanto, esse vá lá que seja, ah, esse eu não conheço. Media e conferia: passava a língua e se certificava: Esse ainda não, venha! Pois bem, diante do oficial, ela quis saber o que procedia e soube que precisava intimar o desalmado gestor. Quem? Esse mesmo. Ah, meu filho, o Zé Coiso não vale mais que eu, não acha? O oficial irredutível. Ela então se chegou junto dele, arriou o seu zíper, abriu a sua braguilha, caçou o pau do cara, botou pra fora e olhou: Hum, fraquinho, hem? Ele assustado com aquilo. Aí ela desvestiu-se, expôs-se com caras e bocas, desfilando nuazinha pra endoidecer o juízo do cristão. Aí que o cara abilolou mesmo e já se punhetava: Pelamordeus, dona! Nananinanão, primeiro você tem que trazer mandado de prisão presse corno velho deixar de me atanazar, chispe! Oxe, o oficial arreou a lenha e sapecou certidão alegando que deixou de intimiar o réu porque ele rasgou o mandado judicial, impossibilitando ao juramentado que lavrasse o competente termo em local devido, forçando à utilização instrumental de ferramenta alternativa para certificar o seu desacato em atos obscenos e abusivos, esculhambando um a um dos desembargadores e corregedores do Tribunal e todo corpo autoritário do Poder Judiciário do país, ameaçando a cada um deles, atirando na lata do juiz, botando o promotor na roda e fazendo de gato e sapato com todas as demais autoridades da Comarca de Alagoinhanduba. Pronto e lavrado o presente termo, o Tribunal tomou ciência, virou escândalo na República e nas cortes superiores, resultando numa intervenção militar das forças armadas para dar fim àquele disparate. Atendendo ao pedido da Lady, o oficial apresentou-se: Pronto! Ela devolveu todos os poderes e liberdades à população alagoinhandubense, passando a ser venerada e mantida por todos como a santa da salvação deles. Passou a ser cantada por poetas e músicos, a distribuir bondades, ora sendo chamada de Dorcas, ora de Tabita, ou Beatriz, ou Natalie, ou mãe de todos. E eu Dona Lady? Ah, você oficial, por ter sido fiel a mim, assuma seu papel na defesa do povo que agora estou ocupada com um que dá três do seu, tá? E o povo lá na rua: Salve a redentora Lady Godiva! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Eu nunca teria sido o sociólogo em que me converti sem o meu passado e sem a socialização pré e extra-escolar que recebi através das duras lições da vida. Para o bem e para o mal – sem invocar a questão do ressentimento que a crítica conservadora lançou sobre mim – a minha formação acadêmica sobrepôs-se a uma formação humana que ela não conseguiu destorcer nem esterilizar. Portanto, ainda que isso pareça pouco ortodoxo e intelectualista, afirmo que iniciei a minha aprendizagem sociológica aos seis anos, quando precisei ganhar a vida como se fosse um adulto e penetrei pelas vias da experiência concreta, no conhecimento de que a convivência humana e a sociedade em uma cidade na qual não prevalece a ordem das bicadas, mas a relação de presa, pela qual o homem se alimentava do homem, do mesmo modo que o tubarão come a sardinha ou o gavião devora os animais de pequeno porte. A criança estava perdida nesse mundo hostil e tinha de voltar-se para dentro de si mesma para procurar nas técnicas do corpo e nos ardis dos fracos, os meios de autodefesa para a sobrevivência. Eu não estava sozinho, havia minha mãe. Porém a soma de duas fraquezas não compõe uma força. Éramos varridos pela tempestade da vida e o que nos salvou foi o nosso orgulho selvagem. [...].
Trecho extraído de Ciências Sociais na ótica do intelectual militante (Estudos Avançados, 1994), do

O CINEMA DE HUMBERTO MAURO
A minha empresa foi fundada para edificar o verdadeiro cinema brasileiro. Ela foi lançada exclusivamente com o nosso esforço e nossos capitais. Vamos mostrar que podemos criar uma arte nossa nova e legítima, capaz de transformar o sorriso dos pessimistas num grito de entusiasmo.
A arte do cineasta Humberto Mauro (1897-1983) tem seu destaque em obras cinematográficas como Sangue mineiro (193), que conta a história de uma jovem apaixonada que flagra a traição do seu nomorado, salva do afogamento por dois primos que a desejam e digladiam por seu amor. O filme Lábio sem beijos (1930), conta a história da jovem Lelita que espera que o verdadeiro amor prevaleça. Além desses dois, também merece destaque Cidade mulher (1936) e Brasa dormida (1928) é considerado como um dos melhores filmes nacionais de todos os tempos. Veja mais aqui e aqui.

A ESCULTURA DE ROBERTO MANZANO
A arte do premiado escultor espanhol Roberto Manzano Hernández. Veja mais aqui.

LADY GODIVA
di Ego Godiva Comitissa diu istud desideravi
A aristocrata anglo-saxã Godiva (990-1067) tornou-se célebre pelo acordo com o seu marido Leofrico, o Duque de Mércia, desafiando-o para proteger o povo de Coventry, na Inglaterra, cavalgando nua pelas ruas. Tornou-se por isso personagem das Crônicas de Ely, que a descrevem como uma viúva mãe de Elgar de Mércia, e no Livro de Domesday, como a única possuidora de terras. Por conta de sua corajosa iniciativa, ela passou a ser cantada pelo poeta Tennyson, homegeada pelos pintores Lefebvre e Balir Laighton, virar filme e musa em canção das bandas Queen, Grant Lee Buffalo, Simply Red, Mother Love Bone, Havent Shall Burn & Velvet Underground, entre outras, bem como reverenciada na música Kátia Flávia, a Godiva do Irajá, do compositor e poeta Fausto Fawcett.
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A OBRA DE FRITZ PERLS
Eu sou eu. Você é você. Eu sou responsável pela minha vida e você pela sua. Eu não estou neste mundo para atender às suas expectativas, nem você para cumprir as minhas. Se os nossos caminhos se cruzarem, será maravilhoso, mas, caso contrário, teremos que continuar avançando separadamente. Porque eu não me amarei, se para lhe satisfazer precisar me trair, nem eu o amo se desejar que você seja como eu quero, em vez de aceitá-lo como você é. Você é você e eu sou eu
Oração da Gestalt, a obra do psiquiatra e psicoterapeuta Fritz Persl (1893-1970) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


KEATS & FANNY, LAING, JANE CAMPION & ALEXANDER ARCHIPENKO

FANNY, O TESTEMUNHO DERRADEIRO – Agora o meu testemunho derradeiro: compartilho definitivamente meu sofrimento com esta ode, para que ...