segunda-feira, julho 22, 2019

ARIANO SUASSUNA, NATSUME SOSEKI, CORALIE CLÉMENT, ROBERTO PLOEG & DESTINO DO AMOR


DESTINO DO AMOR - Lá iam Paulinésio e Virginácia enamorados, suspirando encantados entre as juras de amor eterno. Pareciam mais nascidos um para o outro, coisa mais linda. Eles num passeio por distantes paisagens paradisíacas, rostinhos colados, tão amáveis, amorantes: Minha nossa quanta formosura na natureza! E sorriam leves e soltos, beijos e afagos. A certa altura da viagem, deu-se o imprevisto. Ao despertarem, constataram: um acidente. E o pior: eles, os únicos sobreviventes. Em derredor, a tragédia; e, à primeira vista, naquela dramática situação, não havia como sair daquela desventura: estavam em apuros, prisioneiros em uma cratera inóspita, entre morros sinistros e ínvio matagal. Saíram, então, se recompondo e, de mãos dadas, olharam em todas as direções, havia de dar em algum lugar. Passos e expectativas pela acidentada geografia intransitável: escombros, obstáculos, lamaçal e nenhum pé de gente. Andaram por toda manhã por encostas, ruínas, entre trovoadas e ventanias. Já passava do meio dia quando ela arreou exausta, completamente fatigada. Vamos, não amoleça. Não aguento mais, meus pés queimam, minhas pernas doem, estou com sede, exaurida. Não esmoreça, vamos! Vá buscar socorro, eu fico aqui. Não, vamos juntos. Ela começou a derramar um pranto atônito: E se aparecem animais terríveis e ferozes, ou coisas do outro mundo para nos atormentar, a perna cabeluda, o chupa-cabra, mortos vingadores! Não vamos desesperar! Tenho medo. Vamos! Estou assustada, não consigo me mover! Vamos! Tentaram prosseguir, o Sol já descia no horizonte quando ela entrou definitivamente em pânico. Ele fez de tudo para controlar o paroxismo dela. Ele estava confiante, era o seu amor. Ela, por sua vez, duvidava se havia qualquer possibilidade de saírem dali com vida, de tão apavorada. Tentou reanimá-la, debalde. Então recorreu à fé: Façamos o seguinte, uma jura, uma oração. Tá. Vou fazer uma prece e ao terminar, eu vou jogar uma moeda e se der cara, a gente supera essa e se casa para sempre; se der coroa, que a terra nos seja leve. Topa? Ele levantou-se e caçou nos bolsos por uma moeda. Encontrou, foi até um canto e fez menção de rogar por forças ocultas. Ao retornar, jogou a moeda para cima. Vupt! Olhou, abriu: deu cara! O universo conspira a nosso favor. Vamos, respire fundo, a gente sairá dessa. E seguiram noite adentro, e, não se sabe como, encontraram socorro providente. Estavam incrédulos como haviam suplantado todas as adversidades, nem sabiam ao certo como conseguiram, de tão surpresos: Foi um milagres dos céus! Ao chegarem, foram saudades com festa em Alagoinhanduba. Aproveitaram a ocasião e, sequiosos por melhor fortuna, marcaram casamento no civil, religioso e com a parentalha toda. No dia aprazado, lá estavam eles festejando a cerimônia. Ela, feliz da vida, olhou para ele e disse firme: Ninguém pode mudar a mão do destino! Não mesmo, disse ele aos desposá-la jubiloso, escondendo as duas moedas coladas só com uma face dos dois lados. O resto é com a vida. Não se pode dizer, ao certo, se foram ou se estão felizes para sempre, evidentemente. O amor tem dessas coisas. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Após um instante, a mulher caminhou, com os olhos baixos, outra vez na direção dele. Quando estava a apenas dois passos de Sanshiro, erguei sutilmente a cabeça, fitando-o de frente. Seus olhos eram tranquilos, com o contorno estreito e alongado, e as pálpebras superiores delineadas por uma longa dobrinha transversal. [...] A mulher passou por ele. Sanshiro, ainda parado, observou atentamente a silhueta que se distanciava. Ela chegou à bifurcação. No instante em que ia dobrar, voltou-se ainda mais uma vez. Sanshiro ficou desconcertado por sentir as faces lhe corarem. A mulher sorriu e fez um gesto com a cabeça como que perguntando se era ali mesmo que devia dobrar. Sanshiro fez que sim. A silhueta da mulher seguiu para a direita, escondendo-se atrás da parede branca. [...] A mulher ainda lembrava. Sanshiro ficou sem mais o que dizer. Como ela terminou dizendo “desculpe por aquele dia”, ele encerrou com um breve “não foi nada”. Ambos olhavam os galhos da cerejeira. Nas pontas da arvore restavam algumas folhas mordiscadas pelas larvas. A bagagem da mudança do professor não chegava nunca. [...] Ela estava parada na escuridão. Via-se apenas seu avental todo branco. Ainda com o balde na mão, Sanshiro subiu dois ou três degraus. A mulher não se movia. Ele subiu mais dois degraus. Naquele local lúgubre, os rostos de Sanshiro e de Mineko chegaram a uma distância de apenas uns trinta centímetros um do outro. [...].
Trechos da obra Sanshiro (Estação Liberdade, 2013), do escritor e filósofo japonês Natsume Soseki (1867-1916). Veja mais aqui.

A MÚSICA CORALIE CLÉMENT
Se as letras são um pouco tristes, ao menos que a música seja mais leve.
Curtindo os álbuns L'ombre et la lumiere (2001), Salle des Pas Perdus (2001), Bye Bye Beauté (2005) e Toystore (2008), da cantora francesa Coralie Clément, que possui um estilo variado que vai desde o folk, chanson, jazz e bossa nova. Veja mais aqui.

A ARTE DE ROBERTO PLOEG
Recife é uma mulher buchuda com um neném no braço, apoiado no quadril (como a índia Tupinambá de Eckhout), e na mão uma sacolinha de compras. Bucho de vida. Vida de aperreio e movimento retratada frente à cidade que serpenteada por rios e banhada pelo sol, serena flutua no mar. O flamboyant dá charme com sua folhagem fina e suas flores vermelhas.
A arte do pintor holandês radicado em Pernambuco, Roberto Ploeg. Veja mais aqui.

A OBRA DE ARIANO SUASSUNA
Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa. O sonho é que leva a gente para a frente. Se a gente for seguir a razão, fica aquietado, acomodado.
A obra do escritor e dramaturgo Ariano Suassuna (1927-2014) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


sexta-feira, julho 19, 2019

GEORGIA O'KEEFFE, RUBEM ALVES, AL-CHAER, ANGELITA CARDOSO, ANTÔNIO PAULO REZENDE & PRESTAR CONTAS AO AMOR


PRESTANDO CONTAS AO AMOR – Ah, bela mulher-menina de Sun Prairie, o vivo olhar, ah, os olhos, cada detalhe de flor nas aquarelas das caminhadas no Cânion Palo Duro, aprumo nas gravuras abstratas, o carvão, a genitália, os crânios de animais, a paisagem do Novo México, o Jimson Weed, a pura abstração. Quantos amanheceres radiantes, quantos crepúsculos inventados, tantas noites carregadas de folhas e pedras, as muitas vidas dos seus olhos são minhas e só minhas. E uma rosa é uma rosa, Geórgia, não mais que uma rosa, todas elas é você que desabrocha, púbis ungido e sou inebriado com o perfume da sua carne. Ao desnudá-la, tomo em minhas mãos a divina das estrelas, Astreia, que perambula personificando a justiça para me fazer bem. A sua influência benigna prega a sabedoria e sua fascinante arte me faz súdito discípulo. Eu também desconfio das palavras, embora não as tenha lá muito bem ao domínio. O seu magnetismo tácito me atordoa e extasia: um vulcão dormente que se aviva instantaneamente. É a sua arte a sua linguagem, sua efígie e élan: começa no ventre e se espalha por todo seu corpo sedutor, avultando sobre a minha alma desamparada, repleta de deslumbramento e plenitude. Ah, Geórgia, minha Astreia, a minha incapacidade total de desenhá-la, menor intimidade com traços e cores, me faz flagrar o seu encanto, apenas, a fotografá-la de todos os modos e jeitos, para descobrir o que não existe mais das apagadas memórias da felicidade no escrutínio dos resquícios da alegria. Na sua expressão a mais viva face humana, nada mais real, diante do espelho, das minhas lentes, é como desvelo os seus mistérios, todos os mistérios, a sua aura, a sua alma. Na sua arte a sua vida, nua e transfigurada, centrípeta, e se alastra estrelada no fogo da minha paixão centrífuga. No seu corpo a sedução da fortaleza, a entrega plena alheia aos castigos do tempo. Tenho-a minha, vencida, entregue, rendida ao amor, nos amamos: sou seu, é você, somos um e desabamos juntos na dolorosa instância do amor extremo, porque anímico, orgânico, necessário, inescapável, enlouquecido. Eu sei, Georgia, minha Astreia, a impiedade e a violência humana nos afugentam e a obriga a retornar aos céus dos meus sonhos, porque a desarmonia contraria a sua natureza e sabemos que os trapaceiros prosperam para que os ingênuos feneçam sem razão. E você assume o lugar da divina no meu céu. Sem você minha voz jamais se ouvirá, sozinho na treva porque nunca esperou e nem fui suficiente. Perdi o gesto, os olhos, sempre os seus olhos ternos e imantados; as mãos, sempre as mãos inquietas e estendidas a vasculhar em mim os tormentos doloridos e a me incendiar com o choque dos seus prazeres, para que eu tenha paz e possa sorrir nem que seja só por um instante. A despeito das lágrimas prolongadas e da dança das cinzas, submergimos no universo da palavra apenas por um dia e é a vida eterna, mas é no silêncio da sua arte, do seu corpo, que eu tenho a vida: você é o milagre do universo e vive em mim, sou você. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A cidade e a cidadania podem vividas no sentido de que as escolhas busquem assegurar condições para que as definições da história não se limitem às imposições de uma minoria. O olhar do historiador está comprometido com essa abertura para o infinito, com a certeza de que a história não é um desfilar de nomes e datas, mas território de invenção e aventura que tem, na cidade, um espaço privilegiado para a fabricação de um cenário onde os personagens não se sintam como fantoches, mas como produtores do seu próprio texto. [...].
Trecho extraído da obra O Recife: histórias de uma cidade (FCCR, 2002), do professor, advogado, historiador e pesquisador Antônio Paulo Rezende, que desenvolve um trabalho relacionado com as relações afetivas de convivência dentro da contemporaneidade, analisando as cartografias que tentam renovar as sociabilidades.

TEU CORPO AINDA É MÚSICA – AL-CHAER
não podia ouvir
agora
este solo
de sax
de sexo
que me
derrete
que me
derrota
mesmo
que não quisesse
ele vem
e molda
tímpanos e pênis
sinto toda
a dimensão
de tuas curvas
e a melodia de tua pele
às minhas
idas e voltas
cantando
um derramamento
de suores
nos meus tempos
de sonhar um amor
escutado
um beijo interminável
que me parte calado
e me envolve
me envulva
me junta
colado pedaços gritados
para olhar
a distância de um dia
que chegou
e chagou
meu coração
vencido
para depois
entre
a vida e a morte e a revanche
como fazer meu corpo te desligar?
Poemas do poeta, artista visual e professor Alberto Al-Chaer, que edita o blog Visu-Al-Chaer. Veja mais aqui.

A ARTE DE ANGELITA CARDOSO
A arte da artista visual, desenhista, aquarelista, gravurista, historiadora e pesquisadora, Angelita Cardoso, que trabalha com aquarelas, gravuras em metal, pesquisa iconográfica, calcografia, administra o seu sítio e é colunista do Portal Catarinas. Veja mais aqui.

A OBRA DE RUBEM ALVES
A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente.
A obra do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
&
A ARTE DE GEÓRGIA O’KEEFFE
Uma rosa é uma rosa, é uma rosa. Na cidade, a maioria das pessoas anda numa correria; por isso, não têm tempo para olhar para uma flor. E eu quero que olhem, quer elas queiram, quer não.
A arte da artista estadunidense Georgia O'Keeffe (1887-1986) aqui e aqui.


quinta-feira, julho 18, 2019

PETRARCA, MIGUEL ALTIERI, VIANINHA, MARIANO VARGAS& CARTA DE GRATIDÃO


CARTA DE GRATIDÃO - Sou grato, de fato e de direito. À mesa, um prato, abracadabra! Sirvo-me do necessário, não gasto o disponível por que não tenho, nem excedo por que me falta, mesmo que tivesse. Nem muito ou pouco me basta, vou sempre além do que posso. Vá entender. Da minha parte sou grato pelo dia que amanhece e pela tarde que convida a noite para a insônia da criação ou descanso das pugnas diárias; pelo ar que respiro apesar de envenenado, pela água cristalina ou poluída que mata a minha sede, pelo que ouço de harmonia e ruído, pela pele e superfícies que toco, pelo perfume dos jardins e fedentina dos lixos; pelo chão que piso, pela imensidão dos céus que almejo, pelos caminhos que me convocam a andada. Sou grato pela Natureza: campos, seres e paisagens; pelas invenções incomuns e pelas que são de fato engenhos científicos; pelos miúdos esvoaçantes até os mais pesados que o ar, a me ensinarem a voar sem asas nos braços; pelos que vivem no exato e os que se foram assim do nada. Sim, sou grato pelas pessoas que passam, uns assim, outros assados; pelas senhoras Zefinhas que puxam a escadinha dos seus Anclotinatos; pelas Conças mocinhas que sonham com Fortunatos. Sou grato pela solidão de os verem passar e sempre serei, mesmo pelos que não puderam vir, como pros que só servem para tirar retrato; pela indiferença das soberbas e por aqueles que não entenderam nem poderão sequer visualizar sua vida canhestra; pelos que acham solução para tudo na sua razão de plantão e pros caricatos que quase me matam de rir, minha gratulação. Meu reconhecimento no sentido mais lato paratodos: pros que não estão nem aí para o que está acontecendo e pros que fazem dos outros gato e sapato com seus fingidos apertos de mãos e abraços; pros que tenha que tomar bicarbonato de sódio para poder digerir, afora os chatos de galocha que já são de doer; pelos que mamam nas tetas públicas e se mostram em pleno celibato; pelos timoratos e os que armam nos outros o seu artesanato; pros que precisam de contrato para infringir as avenças e rompem seus tratos na maior cara lisa; os que são que nem carrapato na cacunda da vítima e que aprontam sem o menor recato, como os que fazem da lama o seu prato ou fazem valer que a vida é o maior barato, a todos meu reconhecimento. Sou mais agradecimentos aos fratres e sorores, ouroboros, saúdo, a vida é desiderato: cada qual tenha ou não, sigo adiante. Sou eterna gratidão. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Os sistemas de cultivo e as técnicas especialmente adequadas às necessidades dos agroecossistemas específicos resultam em uma agricultura mais refinada, baseada em um mosaico de variedades genéticas tradicionais e aperfeiçoadas, insumos locais e técnicas, sendo cada composição ajustada a um determinado nicho ecológico, social e econômico. [...] Ao converter os sistemas de monocultura de alto uso de insumos para o manejo agroecológico, o desafio é a busca de meios de utilização dos insumos externos apenas para obter elementos em déficit no ecossistema e aumentar os recursos biológicos, físicos e humanos disponíveis. Ao utilizar os insumos externos, dá-se atenção principalmente à reciclagem máxima e ao impacto nocivo mínimo sobre o ambiente. O desenvolvimento de agroecossistemas autossuficientes, diversificados e viáveis economicamente surgirá de novos sistemas integrados de agricultura, com tecnologias ao alcance dos agricultores e adaptadas ao meio ambiente. [...] É crucial que os cientistas envolvidos na busca por tecnologias agrícolas sustentáveis se preocupem com quem, finalmente, se beneficiará com elas. Isso exige que eles reconheçam a importância do fator político quando as questões científicas básicas são colocadas em discussão, e não somente quando as tecnologias são distribuídas à sociedade. Assim, o que é produzido, como é produzido e para quem é produzido são questões-chave que precisam ser levantadas, caso se queira fazer surgir uma agricultura socialmente justa. [...] além do desenvolvimento e difusão de tecnologias agroecológicas, a promoção da agricultura sustentável exige mudanças nas agendas das pesquisas, bem como políticas agrárias e sistemas econômicos abrangendo mercados abertos e preços e, ainda, incentivos governamentais. [...].
Trechos extraídos da obra Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável (EdUFRGS, 2004), do agrônomo e entomologista chileno Miguel Altieri, que em uma entrevista (Carta Maior, 2013), expressou que: [...] O Brasil está muito avançado, tem uma grande diversidade de agricultura, permacultura, homeopatia, agroflorestas, etc. Mas há uma confusão porque muitos pensam que isso é agroecologia, só que você pode fazer uma monocultura orgânica que não tem base agroecológica. Então a agroecologia não é somente um sistema de produção, é uma ciência com uma série de princípios aplicados de uma forma tecnológica que fomenta processos ecológicos. [...]. Veja mais aqui.

O TEATRO DE ODUVALDO VIANNA FILHO
[...] LUCA: ... gás S02, brometos, DDT, 40 toneladas de corante, é isso que as pessoas comem! Vocês estão comendo coisas mortas, fúnebres, e isso é que explode dentro do sangue de vocês! Hein? E para fugir desta morte, hein? Essa ansiedade! Pra afogar essa ansiedade vocês resolveram fazer o reino da fartura e pulamem cima da natureza, querem domá-la à porrada e comem morte e engolem carnes, bloqueiam o corpo, os poros, sobra o cérebro pensando incendiado em descobrir um jeito de não viver e a tensão toma conta de tudo e vocês só parem guerras, as guerras pela justiça, pela liberdade, dignidade e nada descarrega a tensão, o cheiro de podre vem de dentro, o sexo entra pelas frestas, sobra o sexo nas noites solitárias martelando, então mais guerra e napalm e guerras... [...] LUCA: ... Já foram encontrados pinguins com inseticida no corpo, a Europa já destruiu todo seu ambiente natural, diversas espécies de animais só existem nos jardins zoológicos, as borboletas estão acabando, vocês vivem no meio de fezes, gás carbônico, asfalto, ataques cardíacos, pílulas, solidão... essa civilização é um fracasso, quem fica nela e se interessa por ela, essas pessoas é que perderam o interesse pela vida... eu é que devia te chamar pra largar tudo isso... é na pele a vida, é dentro da gente, vocês não sabem mais se maravilhar! Eu não estou largado pai, ontem estive na porta de uma fábrica de inseticida, fui explicar pros operários que eles não podem produzir isso... [...].
Trecho extraído da peça teatral Rasga coração (SNT, 1979), do dramaturgo, ator e compositor Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), o Vianinha. O texto foi transformado no filme homônimo, dirigido por Jorge Furtado, em 2018, contando a história de um pai com 40 anos de militância que presencia o filho acusa-lo de conservador e, no final, o próprio se vê repetindo as atitudes do pai. Veja mais aqui, aqui & aqui.

A FOTOGRAFIA MARIANO VARGAS
Minhas fotos são uma pequena homenagem à feminilidade e criação artística. Eu tento capturar a beleza, a segurança, a condição, o sentimento da mulher da nossa época através de uma abordagem arriscada como é o nu. A nudez faz parte do nosso cotidiano. O erotismo é uma maneira de nos mostrar o mundo e está presente em um olhar, um gesto ou uma pose. Sem dúvida, o cotidiano é suscetível à inspiração, causando preocupação, rejeição da artificialidade, conexão com o espectador... Meus modelos são mulheres simples que encontro na rua, no metrô, em uma lanchonete ou em uma loja, mas sempre extraídas da realidade mundana a que pertencem.
A arte do fotógrafo espanhol Mariano Vargas. Veja mais aqui.

A OBRA DE PETRARCA
O verdadeiro saber é o saber que temos de nós mesmos. De pouco adianta conhecermos a natureza das coisas e desconhecermos a natureza do homem.
A obra do escritor, intelectual humanista e filosofo italiano Francesco Petrarca (1304-1374) aqui, aqui, aqui & aqui.


quarta-feira, julho 17, 2019

VANDANA SHIVA. KLIMT, ESOPO, ANA VITÓRIA & BILHETE JOGADO


BILHETE JOGADO - Saí de casa, tinha de. Sem ter para onde ir, a esmo. Por intuição rumei pro Leste, o Sol e o tempestuoso Atlântico. O mar que sou nascente e vida. A convulsão, vibrações extremas. Renascia: a placidez em mim. Um reencontro, prazer real: sou em mim e em tudo. Contemplo e interajo. Nunca fui tão imenso, da aurora ao crepúsculo. Veio o céu estrelado e tinha de ir. Para onde? Não sabia. Comecei a andar e segui pro Sul, sem bússola nem hora de chegada. Pés na areia, não havia tempo, apenas terras lavadas que vi e não sabia: quase matas, rios quase secos, vida devastada. Andanças que deu na Terra do Fogo Antártico, a correr o risco de morrer de fome ou de frio no centro de duplo polo inacessível, sem fuso e com pinguins dançando na aurora austral por lagos subglaciais e sangue na geleira de Taylor. Tudo passa e passei. Ah se pudesse voar, pervígil caminhar, errâncias, sina até onde desse o fim do mundo ali. Não havia e, sem perceber, ia já pro Oeste à deriva continental pelo círculo de fogo do Pacífico, ah namoro de El Niño com La Niña, cordilheiras que sonhei a dar com mistérios incas, maias e astecas, altos das quimeras, solidões de nunca mais, até me ver no Glacial Ártico e as Valquírias com seus elmos e lanças, passavam montadas em seus cavalos e traziam a aurora boreal com os relâmpagos de arenque, os fogos de raposa da Lapônia e os espíritos dos altos reinos que rodeiam o oceano – os ancestrais dos agonquinos que dançam para que os esquimós me mostrem a oscilação de Chandler e os ursos polares pelo cluster do Monte Qaf, o purgatório de Dante e Virgílio; no trajeto do Capitão Hatteras de Verne, avistei os seres da Hiperbórea e sequer imaginei na ilha de Bathurst, em Nunavut. Era preciso voltar entre as almas dos guerreiros mortos da Letônia. Cenas que vi e esqueci, agora rondando minha cabeça, reprises das estações e renascimentos do que fui pro que sou. Só vivia andejo, os esplendores do dia, muito pôr do Sol, ventanias, os que vagavam e se perderam circunspectos, aclives de ontens, declives íngremes, a periferia das coisas, tremores e meus estremecimentos. Logo dei nos bosques de Walden, lá estavam, às gargalhadas, Thoreau e o barão de Münchhausen. Ouvi suas conversas, discernia, relaxava: preciso aprender a puxar meu próprio cabelo. Nem havia me dado conta de horas, dias, meses, anos, passaram. Thoreau falou pro barão: Só resta a você, a mim e a quem quer que seja, viver. Nunca desistir. Ah, sim, persistir, perseverar. Tinha de ir, voltar para casa. Como, se não tinha mais paradeiro, do íntimo para qualquer lugar, o aprendizado de ver as coisas, a América continental e senti-las, amá-las como são e sou, reaprender com o visto por todo trajeto desde que saí da minha rua, passadas pelo inesperado de arregalar os olhos, de bater nos peitos e segurar a onda, escapei por árvores e coisas que se transformavam em mulheres que falavam de algo da alma, o vento e os sons da noite que contavam do raiar do dia, caminhos nas mãos feitos para os pés. Sabia que não era louco nem herói, nem sei quem sou e o que faço entre círculos e recomeços, livre para renunciar das convenções e gozar de ser livre. Não mais descontente de si e de nada porque livre, não mais ombros pesados, cabeça baixa, olhar perdido, acanhado, estranho no seu próprio lar, tudo tão vazio, o Caribe, a Barreira do Inferno, o chão da minha terra e retomar o caminho. Nesse minimalismo me descobri supérfluo, um a mais, qualquer; uma carta de um imenso baralho e descartável, um entre tantos uns e zeros que pulam e rolam, inútil quanto contar e ser. Mas sou eu e como posso, sozinho na verdadeira vida para quem me ama. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A cegueira que nos impede de ver tanto a riqueza da diversidade quanto a própria diversidade é o que chamo de monocultura da mente. A monocultura da mente é, literalmente, a raiz da ditadura sobre a Terra. É um instrumento de poder e controle. Não produz mais. Controla mais. [...] As monoculturas da mente fazem a diversidade desaparecer da percepção e, consequentemente, do mundo. O desaparecimento da diversidade corresponde ao desaparecimento das alternativas – e leva à síndrome FALAL (falta de alternativas). Com que frequência, nos tempos de hoje, o extermínio completo da natureza, tecnologia, comunidades e até de uma civilização inteira não é justificado pela “falta de alternativas”? As alternativas existem, sim, mas foram excluídas. Sua inclusão requer um contexto de diversidade. Adotar a diversidade como uma forma de pensar, como um contexto de ação, permite o surgimento de muitas opções. [...] Proteger as sementes nativas é mais que uma questão de preservar a matéria-prima para a indústria da biotecnologia. As diversas sementes que agora estão fadadas à extinção carregam dentro de si sementes de outras formas de pensar sobre a natureza e de outras formas de produzir para satisfazer nossas necessidades. [...] a uniformidade e a diversidade não são apenas maneiras de usar a terra, são maneiras de pensar e de viver. [...] a expansão das monoculturas tem mais a ver com política e poder do que com sistemas de enriquecimento e melhoria da produção [...] a uniformidade anda de mãos dadas com a centralização, enquanto a diversidade requer um controle descentralizado [...] A silvicultura “científica” e a agricultura “científica” dividem artificialmente a planta em domínios separados sem partes em comum, com base nos mercados isolados de bens aos quais fornecem matéria-prima e recursos. [...] o mundo vegetal não é artificialmente dividido entre uma floresta que fornece madeira comercial e terra cultivável que fornece mercadorias em forma de alimentos. A floresta e o campo são um continuum ecológico. [...] As monoculturas ocupam primeiro a mente e depois são transferidas para o solo. As monoculturas mentais geram modelos de produção que destroem a diversidade e legitimam a destruição como progresso, crescimento e melhoria. [...] A expansão das monoculturas tem mais a ver com política e poder do que com sistemas de enriquecimento e melhoria da produção biológica. Isso se aplica tanto à Revolução Verde quanto à revolução genética ou às novas biotecnologias. E ainda: As monoculturas da mente fazem a diversidade desaparecer da percepção e, consequentemente, do mundo. O desaparecimento da diversidade corresponde ao desaparecimento das alternativas. Adotar a diversidade como uma forma de pensar, como um contexto de ação, permite o surgimento de muitas opções. [...].
Trechos extraídos da obra Monoculturas da mente: perspectivas da biodiversidade e da biotecnologia (Gaia, 2003), da Ph.D em Filosofia, física, ecofeminista e ativista ambiental indiana, Vandana Shiva. Veja mais aqui e aqui.

FÁBULA DE ESOPO
Uma lebre, perseguida pela águia, pediu refúgio na casa de um besouro. O besouro, valente e generoso, decidiu defender a lebre e disse à águia: ‘Em nome de Júpiter, você deve respeitar o direito de exílio. A lebre agora é minha hóspede.’ Ignorando a argumentação, a águia jogou o besouro a um lado e devorou a lebre de imediato. Magoado, o besouro decidiu não dar trégua à opressão da águia.  Ele  foi até o ninho da águia e jogou os  ovos dela no chão, um a um.  Não havia nisso uma vingança pessoal, mas uma luta em favor dos mais fracos. A águia construiu um segundo ninho, bem mais alto, mas o besouro foi até lá e repetiu a operação. Diante disso, a águia procurou Júpiter  para buscar  um acordo com o besouro.  O chefe dos deuses  tentou acalmar o besouro, mas foi inútil. Pediu a ele que pensasse em uma conciliação, e a ideia foi rejeitada. O último recurso encontrado por Júpiter para evitar a extinção da águia foi mudar a época da sua reprodução para uma estação do ano em que os besouros não estão em atividade. Moral da história: “o carma do abuso de poder é pesado, e os opressores cedo ou tarde devem reencontrar-se com a justiça e o equilíbrio”.
A águia e o besouro, fábula extraída da obra Esopo: fábulas completas (Cosac Naify, 2013), do escritor grego Esopo (620 a.C. - 564 a.C.), contada pelo autor por ocasião de sua defesa perante Perístrato, dirigente de Atenas que era inimigo da liberdade de pensamento, por conta da acusação de sacrílego pelo oráculo de Delfos, em razão de seu discurso irreverente na defesa dos mais fracos e da verdade, reafirmando que os privilegiados devem respeitar os direitos dos mais fracos, porque os abusos de poder são sempre punidos pelos deuses. Veja mais aqui, aqui & aqui.

A ARTE DA BAILARINA ANA VITÓRIA
Minhas coreografias se concentram no movimento, na pesquisa do gesto. Não gosto de formatar conceitos, não utilizo recursos literários ou teatrais, tampouco construo personagens. Do cinema e da literatura retiro apenas ideias técnicas, que aplico à estrutura da coreografia. Elementos da cultura brasileira, como o candomblé e a capoeira, podem se inserir em minha escritura coreográfica, mas de forma apenas referencial. Da ginástica rítmica conservo a precisão e a exploração energética. Acima de tudo, é da dinâmica dos movimentos que surge a minha poética.
A arte da bailarina, coreógrafa e diretora artística da companhia que leva seu nome, Ana Vitória, que é doutora em artes cênicas e desenvolve junto às instituições universitárias, grupos de dança e companhias de dança, a sua pedagogia de investigação criativa a partir dos estudos autobiográficos, da memória e dos afetos. Seu trabalho como intérprete-criadora se deu desde cedo apontando já sua inquieta curiosidade pela busca do trabalho autoral, da escrita de si e a diversidade de potências expressivas no universo artístico. Seu exercício cênico foi gradualmente se aprofundando, desde a linguagem gestual à ocupação dos espaços de suas apresentações, ao buscar cada vez mais, tocar e estar mais próxima do seus interlocutores/espectadores, como atestam suas três últimas criações que assumem a presença do objeto e seu próprio corpo como instalações performáticas. Veja mais aqui.

A OBRA DE KLIMT
A arte é uma linha em torno de seus pensamentos. Toda arte é erótica.
A obra do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt (1862-1918) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
&
Pela proteção das Florestas aqui, aqui, aqui & aqui.
 

terça-feira, julho 16, 2019

GRAMSCI, PIERRE CLASTRES, DENISE MILAN, WAYNE WANG & ALAGOINHANDUBA


ERA ASSIM MESMO EM ALAGOINHANDUBA - Quando o juiz Teje-Preso tomou o poder, o alvo era pegar Zé Peiúdo que não era besta nem nada de esperar por tempo ruim e escapuliu, ficou escondidinho – todo mundo sabia, só o magistrado fez que não sabia aonde. Aí achou por bem meter Zé-Corninho na cadeia. Ué, fiz o quê? Tenho certeza que você é ladrão! Mas, mas, mas... Tenho convicção! Provas? Não adianta recorrer, você está fodido. E estava mesmo, coitado. Com isso, o povo ficou em polvorosa, quase meio a meio: os cheleleus, caboetas e oportunistas que eram a maioria de certa forma, na maior claque; os outros, os indignados, com o rabinho entre as pernas. Fazer o quê? Para se garantir, o togado inventou uma eleição extemporânea, assim, no vexame do capricho e sumiu. Ao reaparecer dias depois, estava legitimado com o dobro de votos dos eleitores. Vôte! Foi. Quem votou que não vi? Num sei. Duvidasse não, um panfleto pregado nas portas, esquinas e postes, serviço de som alardeando e carros volantes anunciavam a vitória esmagadora: agora era mais que autoridade, era o Imperador Teje-Preso I. Não deu tempo nem de piscar os olhos, recebeu na lata uma pesquisa: Como é que é? A cidade é doente, só tem doente. Como assim? Tem mais farmácia e igreja que gente! Aonde? No município, ora! Danou-se! Ah! No sopapo, a excelência achou por bem dividir todo território em dois: à direita, um complexo predial enorme. Para quê isso? Reunir a polícia e o Estado Maior; ao lado, outro edifício imenso comportando a escola, isso da educação infantil à universidade: Quero os acadêmicos com os generais das forças armadas, para detectar qualquer problema nas águas, na terra e nos ares. Comigo não escapa nada! Do outro lado, à esquerda, fez construir um arranha-céu maior que a doidice dele e que não tinha mais tamanho para juntar todos os hospitais, públicos e privados, com toda especialidade médica, enfermagem, psicólogos, religiosos de todo tipo – não sei quantos centros espíritas e um bocado de terreiro dos pais e mães de santo foram sacudidos dentro, junto com as clínicas, ambulatórios e laboratórios - e até advogados que estariam lotados num anexo suntuoso, no qual estava o Fórum com todos os cartórios, varas judiciais e escritórios advocatícios. Tudo junto e misturado! No acesso às edificações fez instalar num galpão quilométrico todos os supermercados e farmácias e, do outro lado da rua, todos os templos de todas as crenças se engalfinhando no maior pega pra capar. Tudo para agradar o freguês! No centro fez construir uma torre feito um panóptico, com faróis para inspecionar todas as atividades da cidade. Decretou o toque de recolher a partir das 21 horas, suspensão da energia elétrica a partir das 22 – com ordem de atirar em quem estivesse premiado zanzando fora de hora -, e aboliu todo tipo de arte, admitindo-se apenas a da guerra. Para tanto, reuniu-se com todas as manifestações religiosas para erradicar qualquer memória: fizeram um monturo e queimaram todos os álbuns de recordações familiares. Nenhuma lembrança mais – tanto que o fotógrafo do local, seu Uiço, foi instado a inventar uma foto que só durasse 24 horas, sob pena de ver seu negócio quebrado no pau! Por conta das escapulidas noturnas, o cemitério ganhou proporções latifundiárias, fato que o fez transformar-se em espaço agrícola público para manutenção da localidade, obrigando-se a todo morador a dar um expediente de no mínimo 6 horas diárias, e compulsoriamente os estudantes e professores ministrarem aulas duas vezes por semana sobre o desenvolvimento de culturas agricultáveis no local. Com tudo em ordem, sentenciou Zé Corninho à pena de prisão perpétua; Peiúdo aparecesse não, pena capital, mas estava soltinho para lá e para cá, armando das suas. O negócio ganhou na fuxicagem de bater em Brasília como reboliço. O rei Coiso temendo concorrência desleal, entrou logo em contato, atendido na hora: Aí quem manda é você, aqui quem manda sou eu; se der as caras por estas bandas, vai ser preso também e saiba: bala é bicho que faz um buraco medonho e pode borrar sua maquiagem. Tenho dito, Teje-Preso I. Estava prestes a maior quebra-de-braço, de não se saber como vai parar. Porém, para a autoridade alagoinhandubense, viverão todos felizes para sempre. Foi nada, ôxe, o tempo passa e a coisa dá um giro do dia pra noite de virar tudo de pernas pro ar. Quer ver? Destá. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] se por economia de subsistência não nos contentamos em entender economia sem mercado e sem excedentes – o que seria um simples truísmo, o puro registro da diferença –, então com efeito se afirma que esse tipo de economia permite à sociedade que ele funda tão-somente subsistir, afirma-se que essa sociedade mobiliza permanentemente a totalidade de suas forças primitivas para fornecer a seus membros o mínimo necessário à subsistência. Existe aí um preconceito tenaz, curiosamente coextensivo à ideia contraditória e não menos corrente de que o selvagem é preguiçoso. Se em nossa linguagem popular diz-se ‘trabalhar como um negro’, na América do Sul, por outro lado, diz-se ‘vagabundo com um índio’. Então, das duas uma: ou o homem das sociedades primitivas, americanas e outras, vive em economia de subsistência e passa quase todo o tempo à procura de alimento, ou não vive em economia de subsistência e pode, portanto, se proporcionar lazeres prolongados fumando em sua rede. Isso chocou claramente os primeiros observadores europeus dos índios do Brasil. Grande era sua reprovação ao constatarem que latagões cheios de saúde preferiam se empetecar, como mulheres, de pinturas e plumas, em vez de regarem com suor as suas áreas cultivadas. Tratava-se, portanto, de povos que ignoravam deliberadamente que é preciso ganhar o pão com o suor do próprio rosto. Isso era demais e não durou muito: rapidamente se puseram os índios para trabalhar, e eles começaram a morrer. Dois axiomas, com efeito, parecem guiar a marcha da civilização ocidental, desde a sua aurora: o primeiro estabelece que a verdadeira sociedade se desenvolve sob a sombra protetora do Estado; o segundo enuncia um imperativo categórico: é necessário trabalhar. Os índios, efetivamente, só dedicavam pouco tempo àquilo a que damos o nome de trabalho. E apesar disso não morriam de fome. Os cronistas da época são unânimes em descrever a bela aparência dos adultos, a boa saúde das numerosas crianças, a abundância e variedade de recursos alimentares. [...] o que se constata no mundo dos selvagens é um extraordinário esfacelamento das ‘nações’, tribos, sociedades em grupos locais que tratam cuidadosamente de conservar sua autonomia no seio do conjunto do qual fazem parte, com o risco de concluir alianças provisórias com seus vizinhos, se as circunstâncias – guerreiras em particular – o exigem. Essa atomização do universo tribal é certamente um meio eficaz de impedir a constituição de conjuntos sócio-políticos que integram os grupos locais, e , mais além um meio de proibir a emergência do Estado que, em sua essência é unificador. [...] Na sociedade primitiva, sociedade essencialmente igualitária, os homens são senhores de sua atividade, senhores da circulação dos produtos dessa atividade [...] Tudo se desarruma, por conseguinte, quando a atividade de produção se afasta do seu objetivo inicial, quando, em vez de produzir apenas para si mesmo, o homem primitivo produz também para os outros, sem troca e sem reciprocidade. Só então é que podemos falar em trabalho: quando a regra igualitária de troca deixa de constituir o ‘código civil’ da sociedade, quando a atividade de produção visa a satisfazer as necessidades dos outros, quando a regra de troca é substituída pelo terror da dívida. Na verdade, é exatamente ali que se inscreve a diferença entre o selvagem amazônico e o índio do Império Inca. O primeiro produz, em suma, para viver, enquanto segundo trabalha, de mais a mais, para fazer com que os outros vivam – os que não trabalham, os senhores que lhe dizem: cumpre que tu pagues o que nos deves, impõe-se que tu eternamente saldes a dívida que conosco contraíste. [...]
Trechos extraídos da obra A sociedade contra o Estado (Francisco Alves, 1988), do antropólogo e etnógrafo francês Pierre Clastres (1934-1977). Veja mais aqui e aqui.

CHINESE BOX
Da sua vida você me dá um momento e eu sei que apesar do passado e apesar do futuro esse instante que é a nossa vida é o momento em que você me ama .
O drama Chinese Box (Último entardecer, 1997), dirigindo por Wayne Wang, conta a história de um jornalista que vive em Hong Kong e é secretamente apaixonado por uma chinesa hostess de um bar. Durante o período de apreensão e ansiedade que precede o Ano Novo, três vidas ligam-se intimamente, de forma exótica e passional. O filme e baseado no romance Kowloon Tong (1997), de Paul Theroux e foi ambientado e feito na época da entrega de Honk Kong à República Popular da China, em 1997. Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE DENISE MILAN
Quero arte - essa pedra é o testemunho de união e separação, isto é, o que pode ser comum a dois continentes distintos, Africa e América, que antes da Grande Divisão, há 750 milhões de anos atrás, formavam uma só terra. Esta é a metáfora dessa pedra, que desperta a consciência da possibilidade de unificação.
A arte da escultora, pintora, artista multimídia e interdisciplinar Denise Milan, que usa em sua arte a pedra como eixo criativo, executando obras nas áreas de arte pública, escultura, artes cênicas, poesia, impressão e vídeo-arte. Veja mais aqui.

A OBRA DE GRAMSCI
O desafio da modernidade é viver sem ilusões, sem se tornar desiludido.
A obra do filósofo e cientista político italiano, Antonio Gramsci (1891-1937) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
&
Culto da Rosa no Rondonotícias aqui.


ARIANO SUASSUNA, NATSUME SOSEKI, CORALIE CLÉMENT, ROBERTO PLOEG & DESTINO DO AMOR

DESTINO DO AMOR - Lá iam Paulinésio e Virginácia enamorados, suspirando encantados entre as juras de amor eterno. Pareciam mais nascido...