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Mostrando postagens de Setembro, 2019

SÉRGIO PORTO, EUGÉNIA MELO E CASTRO, GENTIL PORTO FILHO, BARBARA RACHKO & MILICO POETA

O MILICO POETA – Reginadauto Chenobildo – esse era o nome dele de registro civil. O primeiro, da mãe; o segundo, órfão de pai, virou sobrenome. Ficou Biu dos Cuscuz, vai gostar da iguaria assim no raio que parta! E se fartava de todo jeito: com sopa, cozidos e frituras, acompanhamento de ponches, mingaus e beliscadas. Desde menino, calunga de levar recado e bregueços pra solicitantes: Quero ser puliça! Ô, menino, deixa disso, leva isso ali. Pega isso, deixa lá. Levava, entregava e trazia de volta respostas e revides, ao regalo de garapas e frascos, devoto dos santos Longuinho e Pagamião. De seu mesmo, só o amuleto: uma cabeça de alho e uma pedra de sal enrolada numa folha de arruda. Cresceu ali repetindo rifões, lambaio a timbungar nas manhencenças do rio. Diziam: quem nele mergulha já é batizado, vira poeta na hora! Como é que é? Enumeravam respeitáveis vates, emboladores, bardos, menestréis, cantadores. Não deu outra, o pivete às caretas, vivia soltando gracejos às quadrinhas, larga…

T. S. ELIOT, ROSAMUNDE PILCHER, ROCHEFOUCAULD, ANA MENDIETA, SILVIA MOTA, AMIGOS DA BIBLIOTECA & SEXTA-FEIRA

SEXTA-FEIRA – Olhos amanhecidos na frieza do mundo e não fosse ontem feito de mormaço, não teria eu tantas horas de sentimentos vários, dor e compaixão. Não fosse o amor o termômetro da vida, não teria eu nada para dizer agora: as palavras me escondem, jamais quisera, outro era o sonho. Só os ingênuos, quiçá, na minha alucinação; sonhadores até, sei lá, cultuarão qualquer hora do entardecer que se fez noite e se perdeu na escuridão da madrugada. De longe a montanha ao sol-posto, de onde faz sombra esfriando o meu coração erradio. E eu um relês mortal, aos olhos o monograma do Cristo, voo pela noite no mar da solidão. Na boca da noite, todas as evidências levaram a nada: fui benzido de copas, a felicidade no descarte, o doce mel que se derrama em grande profusão. Eu perdi, açoitado pelo ronco da onça suçuarana que nunca existiu, virei mundo no Rabicho da Geralda e me perdi, não sei, na quentura que se alastra. Mandei boas novas e escrevi aos familiares, nunca esperei ser louvado por vi…

LYA LUFT, WANGARI MAATHAI, LAHIRI MAHASAVA, LEWIS HINE, TEATRO PERNAMBUCANO & QUINTA-FEIRA

QUINTA-FEIRA - A lua voltou-se para o leste e capturo a noite na constelação do ermo. Já é quarto-minguante, sou pedaço de indelével prodígio, entre o gozo preciso do ilimitado e o isolamento carregado nunca e sempre. De certa forma me angustia o ponto perfeito do desvalido: um morrer queimando vísceras e sem ter nada para dizer. É o pânico da solidão para me reinventar, aprender do silêncio e o não dito, a expressão do visivisível. Nenhum fascínio pelo perigo, muito menos temores ou hesitar de hostilidades. A culpa se confessa e o coração neste instante esquece o que é homicida, só solto na noite abissal, vivo que sabe da morte, porque não sabe de nada, nem de mim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.
DITOS & DESDITOS: [...] O nascimento e a morte representam o aparecimento e o desaparecimento da alma, no reino do espaço e tempo. São o cumprimento da lei e do plano divino. A alma é imortal e eterna. Deus criou a alma humana, colocando em cada uma a vida imo…

FAULKNER, BOLÍVAR & MANUELA, LU XUN, TUPAC AMARU & DAPHNE MADEIRA

MANUELA DO LIBERTADOR – Somos um e seremos, sempre: humanos, América. Não se trata de uma quimera; ao contrário, um decreto do destino. Se não há concórdia, é porque o que sou está diante da calamidade pública: fraqueza e ignorância, Cada qual, seus interesses. Mais que dúvidas ao pisar a terra: entre o heroico e o ridículo, apenas um passo. Nenhum temor a enfrentar: se a tirania é lei, a rebelião é um direito. É preciso ter coragem. Sempre tive comigo que a arte de vencer se aprende nas derrotas. Não me dei por vencido, a liberdade é a única salvação digna do sacrifício humano, mesmo que nem todos ou quase ninguém saiba realmente o que é ser livre. Aprende-se: se é noite o tempo todo, cabe inventar o dia. Vencer traz outros fracassos. Ao comemorar a vitória não sabia que inaugurava outras guerras. Jamais guerrearia se não houvesse injustiça. O que sei de triunfante, é que me apaixonei pela heroína de Lima, a linda mulher que estava estonteantemente bela em Quito, atirando-me uma flor…

PARACELSO, VERDI, PAULINE RÉAGE, ARLINDO ROCHA, AMARELO MANGA & VA PENSIERO SUL’ALI DORATE

VA PENSIERO SUL’ALI DORATE – Minha mãe protegeu-me entre seus braços, escondida no campanário. Assim sobrevivi. Outras mulheres em oração, ali perto, foram trucidadas impiedosamente, homens e crianças foram chacinadas. Fui salvo do ódio da guerra. Menino silencioso, logo um acólito. Um dia, enlevado pela música, esqueci entregar a água ao padre no púlpito. Aos pontapés, fui jogado do altar, machucado e cheio de sangue, havia sido tocado pelo desconhecido. Anos mais tarde, um raio atingiu o pároco e uma lenda nasceu entre os aldeões. Não tinha nada em mim de divino, não era isso o que pensavam os meus conterrâneos, tudo por conta do ambulante Bagasset, que me tinha na promessa de gênio. Doutra feita, incapaz de emitir uma nota, martelei o velho instrumento. Danificado, teve conserto de um afinador que me presenteou seus serviços com um bilhete devotado. Adolescente melancólico, na véspera de um tempestuoso natal perdido na memória, caí num fosso quase impossível de me safar da situação…

MARK TWAIN, JAROSLAV SEIFERT, ROSA PASSOS, ALBENA VATCHEVA & LIVY & O DIÁRIO DE EVA.

LIVY, O DIÁRIO DE EVA – A cidade girava em torno do rio: era a vida nos olhos vidrados. Mãos e pés inquietos, a placidez das margens: o pátio de meus brinquedos e travessuras, aventuras de sobra para contar das correntezas, jusantes, funduras, braçadas às margens - quem viveu entre perigos a pique, as absurdas histórias, episódios inventados pela música das águas. Vivi por meus próprios meios e nunca fui o modelo dos sonhos maternos. A vida troçava de mim nas mais extravagantes situações. Eu sonhava de olhos abertos. Vi o retrato de Livy, a bela de Elmira: marque dois, meu nome. Dissimulava os vestígios do prazer proibido: o rosto mais belo jamais visto na vida. Fui capaz de adorá-la: os seus olhos negros vivos, suas feições finas, seus cabelos lisos. Precisava vê-la e vi: a paixão instantânea. Cinco dias depois, revê-la: a única visita e a leitura de Dickens, as cartas que escrevi. Avancei e fui recusado: Eu acredito que a jovem potranca partiu meu coração. Isso só me deixa com uma o…