segunda-feira, abril 30, 2018

ELIOT, PLOTINO, RIBON, APULEIO, MARISA MERZ, GÁBOR SZABÓ & KATE BUSH

TEM CADA UMA NA VIDA! - Imagem: Arte da escultora e artista visual italiana Marisa Merz. - Boko-Moko não existe e anda vivinho da silva por aí com suas costeletas espessas, bigode e topete ajeitados diariamente, golas altas de Elvis Presley na camisa acochada de purpurina e aberta da caixa dos peitos até o umbigo, cinturão grosso com super-fivela de um touro bravo, calça colada nas coxas e do joelho pra baixo mais parece uma saia com a sua boca de sino, cavalo-de-aço com a barulhada de metais no salto e solado, gíria dos oraitis e brasa mora, um espalhafato! Apelido é o que não lhe falta de tanto amostramento, e ele nem nem, e assina em tudo apenas Boko-Moko, gosta disso. É assim desde os anos 1970. Décadas se passaram e de lá não saiu, até hoje. Por onde chega, um escândalo! Sempre com aquela do papo firme, amontado no Karmanguia – não sei como um trocinho daquele cabe um homenzarrão desse tamanho dentro, parece mais de brinquedo, mas não é. Não sei quantas vezes ele fora barrado em instituições públicas, ou convidado a sair de solenidades, e ele, nem aí. Ao sair mascando chicletes, sempre dizia: Também não queria ir aí, bicho! Abre um sorriso sempre mudando do tinindo pro paz e amor nos dedos. Que coisa, né? Nada, tem muita gente indignada com seu modo de ser; para mim, nada demais. Conheço gente que fez o contrário: nasceu uns anos desses aí e vive na Idade da Pedra, ou sonhando prepotente mandão do Golpe de 1964, ou mesmo alter ego de Hitler, e por aí vai, coisa que nem viram nem viveram, só de ouvir falar, ou de leituras superficiais, achando bonito até a idolatria e mandando ver na predileção. Ué, o que conheço de gente que ficou com a cabeça e a vida na década de 1980, não está no gibi, quanto saudosismo, até me lembrando daquela do Belchior: ainda somos os mesmo e vivemos como nossos pais. Coisa de disco arranhado. De fato, conheço pouca gente que tenha acompanhado na cabeça a mudança dos tempos. Mesmo com o recado de Pound, tem quem viva mesmo até séculos passados. Eu vejo disso todo dia, novidades de museus nas calçadas, nas praças, no dia a dia, mortos ressuscitados que zanzam pelos semáforos, dão pitacos na vida dos outros, se metem nas gestões públicas, arrotam vida e fazem de tudo impondo suas razões e ranços. Todo dia um novo dia e a mesma coisa entre nós. Eu mesmo nasci num dia lá de 1960, parece, e nem sei direito em que ano estou, ah sei lá, às vezes me assusto com os antiquários ambulantes e me rio, apenas. Tô dentro e não é nada engraçado, passo e vejo, não é nada agradável, mas, pelo sim, pelo não, dá pra se divertir ainda. Pois é. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do guitarrista húngaro Gábor Szabó (1936-1982): Dreams, Bacanal & Budapest; da cantora e compositora performática inglesa Kate Bush: Hammersmith Odeon, The Tour of Life & Hounds of Love; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] a natureza que produz tantos belos objetos deve possuir ela mesma uma beleza muito superior. Mas, como não temos o hábito de ver o interior das coisas que não conhecemos, restringimo-nos ao seu exterior, ignorando que é dentro delas que se esconde o que nos comove [...]. Pensamento extraído da obra Enéadas (Polar, 2000), do filósofo grego Plotino (204-270), reunindo tratados que versam sobre ser vivo, a virtude, dialética, a verdadeira felicidade, a beleza, a natureza, a matéria, a potencialidade e a atualidade, a qualidade e a substância, o destino, a providência, o amor, a impassividade do incorpóreo, a natureza, a essência da alma, as três hipóstases primárias, a beleza inteligível, o tipos de ser, entre outros. Veja mais aqui.

A ARTE & A NATUREZA - [...] O poeta é bem mais que um artesão cuja tarefa rompe a relação de intimidade do homem com a natureza; o poeta é inspirado pela natureza, que dele se serve para se dizer através das figuras da arte. A exigência que o artista sente como uma missão – pois ele muitas vezes está pronto a tudo sacrificar-lhe – é a de uma tarefa que o supera, possuindo-o; a natureza que o convida espera dele e de sua singularidade que manifestem o devir do sentido, ou seja, o ser no seu aparecer. Como se a natureza tivesse estado impaciente por dizer-se numa consciência, a arte, qual uma luz transfigurando o espaço tenebroso das cavernas, pareceu na autora da humanidade desde que o homem superou sua animalidade. Cooperando com o ser, a arte, permitindo ao homem voltar às paragens originárias da qual se faz eco, é também uma participação no ser. Assim a natureza quer a arte: o homem artista é um momento privilegiado do ser, o momento em que o sentido se concentra. [...]. Trecho extraído da obra A arte da natureza (Papirus, 1991), do filósofo e crítico de arte francês Michel Ribon.

A FÁBULA DE AMOR E PSIQUE – I - Era uma vez um rei e uma rainha que possuíam três filhas muito belas. Com relação às duas mais velhas, conquanto extremamente graciosas, ainda seria possível louvá-las com palavras humanas; mas ninguém conseguiria descrever a esplêndida beleza da mais moça, e não existiam palavras com as quais fosse possível celebrá-la dignamente. De fato, tanto os moradores do lugar, como os forasteiros que, atraídos pela fama daquela maravilha, acorriam continuamente à cidade, ficavam boquiabertos diante dos encantos de tão formosa donzela e, colocando a mão direita diante dos lábios dos lábios enquanto aproximavam o indicador do polegar direito, veneravam-na como se costuma fazer nos templos, quase como se fosse a própria Vênus em pessoa. E já se espalhara pelas cidades vizinhas a notícia de que a deusa, gerada no cerúleo abismo do mar, e alimentada pelo orvalho das vagas espumejantes, havia descido à terra e vagava pelo meio do povo, ou que provavelmente um novo germe de gotas celestes, não mais nos mares e, sim, na terra, dera nascimento a uma nova Vênus, adornada pelas flores da virgindade. Assim a fama daquele prodígio cada vez mais avultava, espalhava-se e difundia-se também pelas ilhas vizinhas, assim como por muitas regiões da terra. Um sem-número de mortais acorria para admirar a nova maravilha do século, para isso se sujeitando a longas viagens e atravessando mares profundos. Ninguém mais navegava para Pato, ou para Cnido, e nem mesmo para a própria Citera, a fim de chegar à presença de Vênus. Os sacrifícios eram adiados, os templos perdiam o seu esplendor, todos passavam, indiferentes, pela frente desses templos, e negligenciavam-lhes as cerimônias; sem coroa quedavam as imagens, sem adornos nos altares, e sujos de cinza fria. Era à donzela que dirigiam suas preces e no seu rosto humano celebravam a majestade da augusta deusa. O nome de Vênus ausente era glorificado com vítimas e banquetes na presença da virgem, durante seus passeios matinais, e quando ela passava pelas praças do povo a homenageava, tecendo coroas e atirando flores à sua passagem. Porém, aquele culto a uma jovem mortal, à qual irreverentemente outorgavam honras celestes, acordou um violento despeito na verdadeira Vênus que, indignada, sacudindo a cabeça, fremente de cólera, assim falou: - Eu, antiga geradora das coisas da natureza, origem primeira dos elementos, alma Vênus de toda a orbe, vejo-me reduzida a dividir as honras dos altares com uma jovem mortal, e o meu nome, venerado no céu, está sendo profanado com vulgaridades terrenas. E também terei de suportar, com humilhação para a minha divindade, que o meu culto seja substituído por um ritual equivoco, e que uma jovem mortal passeie a minha imagem. Debalde aquele pastor, cuja fé e cujo bom sendo foram elogiados pelo sumo Júpiter, debalde celebrou ele a minha beleza perante os maiores deuses. Mas essa mortal, seja quem for, não desfrutará durante muito tempo honras que me são devidas; porque farei com que a sua ilícita beleza lhe seja motivo de consternação. Sem perda de tempo, Vênus chama o seu alado e um tanto quanto temerário filho, aquele que, desrespeitando com seu mau comportamento a pública disciplina, armado de tochas e setas, se introduz nas casas à noite, aqui e ali, corrompendo as esposas alheias, que comete impunemente inúmeras ações vergonhosas e, em suma, nada faz de louvável. Leva o deus, já insolente e desenfreado por natureza, àquela cidade, mostra-lhe Psiquê, como se chamava a jovem, relata-lhe tintim por tintim tudo quanto se relacionava com a beldade rival e, gemendo, palpitante de indignação, assim lhe fala: - Suplico-te pelos laços do afeto materno, pelas suaves feridas das tuas flechas, pelas doces queimaduras deste teu facho, que vingues satisfatoriamente a tua mãe, que castigues tão insolente criatura, que executes esta única tarefa: faze com que a virgem se consuma de amor ardentíssimo pelo homem condenado pelo destino a ser o mais abjeto de todos em relação à honra, ao patrimônio, à liberdade, enfim tão abjeto que no mundo inteiro não seja possível encontrar outro que lhe chegue aos pés em infâmia. Depois de assim falar, beijou longa e ardentemente o filho, estreitou-o contra peito, dirigiu-se às vizinhas praias do mar em refluxo e, caminhando sobre a espumejante superfície das ondas palpitantes, mergulhou no fundo enxuto do mar. Tal como desejava, exatamente como se o tivesse ordenado, não tardaram os favores do mar: vieram-lhe ao encontro as filhas de Nereu, cantando em coro, e o áspero Portuno, de barbas cerúleas, e Salácia, com o seio carregado de peixes; e o pequeno Palemon, que guiava um delfim; e o bando de Tritões, saltitando pelo mar inteiro: um deles faz ressoar suavemente uma concha sonora, outro abriga a deusa, sob uma colcha de das, dos raios molestos do sol, um terceiro coloca-lhe um espelho diante dos olhos, outros chegam em coches puxados por dois cavalos. Era esse o exército que escoltava Vênus na sua viagem pelo Oceano. [...]. Trecho extraído da obra Eros & Psique (FTD, 2009), do escritor e filósofo romano Lúcio Apuleio(125-170).

DOIS POEMASPELA MANHÃO À JANELA – Estão remexendo os pratos do café da manhã / na cozinha dos andares térreos / ao longo das atropelas esquinas da rua. / Estou consciente das nevoentas almas das criadas de casa / rebentando desesperançadas nas áreas do portão. / As cinzentas ondas do nevoeiro para mim viram / faces retorcidas desde o fundo da rua / e rasgam de uma transeunte de saia enlameada / um sorriso sem alvo que esvoaça no ar / e desaparece além no nível dos telhados. O BOSTON EVENING TRANSCRIPT – Os leitores do Boston Evening Transcript / dançam ao vento como um campo de trigo. / Quando a tarde desmaia nas ruas, / acordando em alguns o apetite da vida / e trazendo a outros Boston Evening Transcrip, / subo as escadas e toco a campainha, volvendo-me / cansando, como alguém que se volvesse para / dizer adeus a Rochefoucauld, / se as ruas fossem o tempo / e ele estivesse no fim da rua, / e digo: Tia Harriet, aqui está o Boston Evening Transcript. Poemas do poeta, dramaturgo, crítico literário inglês e Prêmio Nobel de 1948, Thomas Stearns Eliot (1888-1965). Veja mais aqui.

A ARTE DE MARISA MERZ
A arte da escultora e artista visual italiana Marisa Merz.


VII Congresso Internacional Matéria-Prima: práticas das Artes Visuais no ensino básico e secundário & muito mais na Agenda aqui.
&
Altas horas da madrugada, a poesia Carlos Drummond Andrade, a arte de Edgar Degas & a música de Sueli Costa aqui.


sexta-feira, abril 27, 2018

PAVESE, THIAGO DE MELLO, THOREAU, KATHERINE CROCKER, EDUCAÇÃO, KIKO CONTINENTINO & KELLY BENEVIDES

UMA COISA & OUTRAS TANTAS – Imagem: a arte da atriz, bailarina e artista performática Katherine Crocker. - Sou como o rio que muda sem deixar de ser, desaguo lágrimas e suores, sangue represado, e reinvento a mim próprio e mais não sei o que será, qual confim. Por trás de cada ato um caleidoscópio e eu em cada cena perdida do que fui. Há o que fazer entre tantas estranhezas à beira das ruas, com minhas heresias a transpor obstáculos que ganham vida própria e me assombra a indiferença com as abstrações inalcançáveis dos que vivem no vórtice dos seus próprios umbigos, alheios a tudo. Não sabem e sou da mesma natureza daquele que nasce a passar pelo firmamento até mergulhar no horizonte dos meus astros desencontrados nos rumos de outra galáxia, em que as guelras se confundam com pulmões, peles, conchas e garras e, no final das contas, sumam dentro da noite dos meus porões. Às vezes me antecipo cansado e ferido pelos desígnios que bendigo ao me esquecer dos segredos – nem os tenho mais -, nas dores dos meus desvãos. Nada perdi porque nunca tive, voo vestido de palavras, quem sabe, um poema me salve a pele, a perder dos medos na madrugada a dormir janela aberta, inventando versos pra poesia que não fiz, na paz entre a água e o fogo. Eu rego a terra para ter o que desejo, como o sonho da mulher amada, esplêndida e serena, nua na varanda orvalhada no que sou de lua cheia, para que ela me estenda sua mão estrelada, com o viço de menina no sopro libertário e para que todos possam vê-la no que sou de prisioneiro a voar na imensidão do infinito. É ela quem chega quando longe de mim me encontro e proclamo o luzeiro na penugem dela e não há que não seja bom. É por isso que o amor me faz melhor: é dentro dela que o meu sonho se faz real, porque descobri o ouro invisível do seu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do pianista, arranjador e compositor Kiko Continentino: Sambajazz trio, O pulo do gato & Casa da Música; da cantora e compositora Kelly Benevides: Ah se eu vou, Samba de Aruanda & Kukukaia com Cátia de França; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A educação é, aliás, o exemplo dos mais evidentes, de necessidade de uma abordagem interdisciplinar, seja com objeto de conhecimento e de pesquisa, seja como espaço de intervenção social [...]. Trecho extraído de Subsídios para uma reflexão sobre novos caminhos da interdisciplinaridade (Cortez; 2000), do professor Antonio Joaquim Severino.

EDUCAÇÃO - [...] o que se chama comumente educação – o aprendizado de ofícios e profissões como fim de tornar o homem apto a ganhar a vida, a ambientar-se numa situação particular da vida – é servil. Como é vão tentar ensinar verdades para a mocidade ou para qualquer pessoa. Só podem aprendê-las a seu jeito e quando estiverem maduras para isso... Uma centena de jovens no colégio são instruídos em físicas, matemáticas, línguas, etc. Em cada centena, haverá talvez um ou dois, acaso amadurecidos prematuramente, que abordarão o assunto de um ponto de vista semelhante ao do professor; quanto ao resto, porém, e entre estes os mais promissores, é como ensinar química agrícola a outros tantos índios. Adquirem talvez um treino valioso, mas não aprendem o que se lhes ensina. No máximo aprendem onde se encontra o arsenal, caso precisem usar qualquer de suas armas. [...] O poeta diz que o estudo próprio à humanidade é o homem. Eu digo: estudai para esquecer tudo isso – ampliai vossas visões do universo. [...] Se passo por qualquer experiência valiosa, tenho a certeza de que pensarei que meus mentores nada dizem sobre ela. O que era mistério para a criança continua sendo mistério para o velho. Chega-se quase a duvidar se o mais sábios dos sábios chegou a aprender, vivendo, qualquer coisa de valor absoluto. [...]. Trecho extraído da obra O pensamento vivo de Thoreau (Martins, 1965), do ensaísta, poeta, naturalista, ativista anti-impostos, crítico, pesquisador, historiador, filósofo e transcendentalista norte-americano Henry David Thoreau (1817-1852). Veja mais aqui, aqui e aqui.

O BELO VERÃO - [...] Desde aquele dia a bela Carlotta não foi mais aos lugares desertos. Linda nos disse: - Fiquem sossegados. -  Assim, Pieretto perdia com as meninas e garantia que tinha vencido. Depois, descobria lugares e pessoas novas e mudava de assunto. Terminada a época dos banhos só tinha feito amizade com o dono de alguma taberna e com velhos aposentados. Lembrei-me, por muito tempo, daquela praiazinha escondida. No fundo, o mar assim tão grande e inapreensível não me dizia muita coisa; gostava de locais pequenos, que tinham uma forma e um sentido – enseadas, veredas, esplanadas, olivais. Algumas vezes, estendido sobre um encolho, observava uma lasca do tamanho da mão que, contra o céu, parecia uma enorme montanha. Essas coisas me agradam. [...] – E Carlotta, a linda Carlotta? Linda riu, com a boca escancarada. – Pieretto às vezes exagera. Em família somos todos assim. Também acontece comigo. Somos incríveis. Mas com os anos pioramos. Não a contradisse e a olhava de soslaio. Ela percebeu e me fez uma careta. – Não tenho mais os seus vinte anos – balbuciou -, mas não tenho muitos. – A gente nasce velho – disse eu -, não se torna. – Essa é uma daquelas de Pieretto – gritou Linda, daquelas autênticas. Eu também fiz uma careta. – Dizemos uma por dia – murmurei, e é suficiente. [...]. Trecho extraído da obra O belo verão (Brasiliense, 1987), do escritor italiano Cesare Pavese (1908-1950). Veja mais aqui e aqui.

O MENINO E O VENTO - Nesta manhã de domingo de verão, / sozinho na varanda desta casa / erguida aqui no meio da floresta / com a ajuda de caboclos meus irmãos / - percebo que o vento ainda não chegou, / estão imóveis as asas das palmeiras, / as flores mais altas dos cajueiros, / brilham paradas na luz alucinante. / O canto dos pássaros parece de cristal, /gume sonoro cortando / a espessura da manhã. / As suas asas estremecem, / abrem caminhos no espaço / à procura do vento macio / que dança o dia inteiro / com as palmas das inajazeiras, / inventa cantigas de acalanto / e nos dá aviso dos barcos que chegam. / O vento só costuma ir embora / quando começa a anoitecer. / Vai lá para o outro lado do rio, / passa a noite passeando / pelas águas do Andirá, / só volta de madrugada. / Geralmente chega bem devagarinho, / brincando com o verde do capim-agulha. / Mas tem vezes que ele chega correndo / varando a floresta no meio da noite / para avisar ofegante / que o temporal já vem que vem danando. / Para onde é que foi o vento?, / perguntei uma noitinha ao Marcote,, / o meu pequenino amigo, / frágil flor enferma / da fome de Barreirinha. / O vento foi descansar, ele hoje trabalhou já demais, / o vento foi dormir lá no Andirá, / ele gosta lá das águas / - me respondeu com os olhos brilhando na noite / o menino meu companheiro, / que num anoitecer chuvoso nos deixou / e também está demorando a voltar. / Como a luz esgarçada de um fim de primavera / á se foi Marcotte, todo entrevado, / mordido pelos nervos da injustiça, / subindo as águas barrentas do Paraná do Ramos, / a tristeza de uma brisa balançando / as varandas de sua rede encardida. / Naquele entardecer eu sei que o vento com quem ele conversava tanto, / não quis ir descansar lá no meio das águas, / preferiu seguir junto com o menino, até entregá-lo, na cidade grande / a ventos que ainda sopram solidários. / Nesta manhã de domingo de verão, / os meus olhos amendoados se entreabrem / numa sala de hospital de Ipanema, / onde lhe arrancaram do tórax / aberto com ciência e ternura / um tumor do tamanho de uma esperança apodrecida, / cujas raízes a ciência localiza / na altura cervical das vértebras / do caboclo menino. Na verdade, / estão fincadas na fundura escura / das lamas que afogaram a sua infância / num igapó de febre e indiferença. Extraído da obra Mormaço na floresta (Civilização Brasileira, 1981), do premiadíssimo poeta amazonense Thiago de Mello. Veja mais aqui.

A ARTE DE KATHERINE CROCKER
A arte da atriz, bailarina e artista performática Katherine Crocker.


Dance no Lima – João Pessoa – PB & muito mais na Agenda aqui.
&
Varal da vida, o pensamento de Carlos Matus, a fotografia de Russel James, a pintura de Renato Donzell & Agnes-Cecile aqui.
O amor move seres e coisas, a literatura de Clarice Lispector, a escultura de Sue Adams, a arte de Gabriela Morawetz & Luciah Lopez aqui.


quinta-feira, abril 26, 2018

EMERSON, JOSUÉ DE CASTRO, PAULO MENDES CAMPOS, MÁRIO CHAMIE, ZINAIDA SEREBRIAKOVA, ZIRALDO, VICENTE AMIGO & JENNI MARI VARTIAINEN

NINGUÉM SABE DIREITO O DIREITO O QUE É QUE É - Imagem: cartum do Ziraldo. - Lembro-me bem ainda criança, alguma coisa desagradava minha mãe, e ela, pra meu espanto, admoestava: Você não tem o direito de fazer isso! Tá. Doutra feita, brincando sem querer a intervenção de ninguém, ela repreendia: É direito dele brincar, é a vez dele! Tá. Já adolescente, meu pai ralhava: Faça direito! Ou, minha mãe: Ajeite-se direito, menino! Ou: Vá pelo lado direito da rua! Tanto é que na hora de ir pra faculdade, meu pai arredou o pé: Faça Direito! E depois de ir pra lá e pra cá, findei matriculado no curso, com a maior curiosidade para saber o que o termo significava. Entrei na sala de aula com quase meio milhar de gente aboletado nas bancas e fiquei ligado na busca de saber o que realmente qual era a definição para direito. Durante o curso fiquei sabendo no meio das aulas chatas que, ao longo dos milênios o direito passou por estágios em que já foi, entre outras significações, linha reta e retidão moral, o justo e a mais perfeita das linhas no antigo conceito geométrico euclidiano, modelo ou padrão ideal a ser seguido, a poesia de Simônides no pensamento platônico, o que cria e conserva no todo ou nas partes a felicidade geral no sentido aristotélico, aquilo que está conforme com as leis, um fenômeno coexistencial da ordem universal pra Agostinho de Hipona, socialidade para Hobbes, poder moral que realiza a justiça para Leibniz, a liberdade de todos harmonizada por uma lei geral para Kant, o que é justo, ora natural, ora positivo quando passou a ser costume; ou uma ciência, um fenômeno histórico ou cultural, uma prescrição divina, um produto humano; codificação formal das atividades humanas, uma categoria transcendental das experiências humanas, uma ordem coativa para Kelsen; conjunto orgânico das relações vitais para Savigny, condições existenciais da sociedade para Ihering, vinculação bilateral-atributiva da conduta humana para Miguel Reale, o querer entrelaçante-autárquico-inviolável para Stammler, disciplina social imposta à comunidade humana, regras e instituições jurídicas, ideal de justiça, enfim, conjunto de regras sociais que disciplinam as obrigações e poderes referentes à questão da posse, sancionadas pela força do Estado e grupos intermediários. Pronto. Hem? Entre um cochilo e outro deu pra sacar que desde a sua fundação no princípio do parentesco arcaico, até se tornar a decisão que contemple o menor prejuízo como Justiça, o que eu entendia por direito era patavina, senão aquilo que fora suspenso ao longo do tempo como confirmação de injustiça, o tráfico da merenda escolar e do remédio da saúde, a venda de privilégios e alma sem poupar a de ninguém, fazer do público uma privada, embolsar o erário público em proveito próprio, pregar a democracia do umbigo, sabotar o alheio para viabilizar o que é de si mesmo, o que já foi adquirido e não é mais, e aquela do um pra eu, um pra tu, um pra eu da anedota do Gonzagão, entre outras situações de perplexidades cometidas em nome da mais sagrada convenção. Pra mim mesmo ficou sacramentado ser, por exemplo, de não ser nada diante do desrespeito de privilegiar alguns poucos sortudos escolhidos em detrimento da maioria toda do lado de fora, isso nas mais diversas formas de prestação de serviço público, até na formação dos grupelhos e afins, afora descobrir que cada qual entende o direito a sua maneira e em fazer o que bem quiser e entender pra si sobre os outros. É aí que a coisa pega, fomentando litígios que passam anos nas varas das pequenas causas ou na Justiça do Trabalho, ou mesmo décadas na Justiça comum, dando a entender pela morosidade do Judiciário que é uma coisa pecaminosa que só pode ser reparada depois que a gente arrasta a bunda no chão, tira fino na morte e, quando menos se espera, cai quando está perdido como se fosse um milagre do céu. Será, então, o impossível? Ou quase, por que não? Pra mim, ou a gente apruma a conversa, ou direito ficará sempre naquela de não se saber nada ou aquilo que quem vê morre! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o guitarrista espanhol Vicente Amigo: Ciudad de las ideas, Memoria dos los sentidos & Um momento com el sonido; e a cantora finlandesa Jenni Mari Vartiainen: Pparhaat Laulut, Ruisrock & Hierra kädelläsi; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] não sejamos tímidos nem caprichosos nos nossos atos. A vida toda é uma experiência. Quanto mais experiências se fazem, tanto melhor. Que importa que sejam brutais e que nos arrisquemos a manchar nosso manto ou rasgá-lo? Que importa se falharmos e cairmos alguma vez na lama! De pé de novo! Nunca mais temeremos tanto uma queda. [...]. Pensamento extraído da obra Ensaios (Cultrix, 1966), do escritor e filósofo estadunidense Ralf Waldo Emerson (1803-1882). Veja mais aqui e aqui.

O QUE DEVERÍAMOS FAZER - [...] É imprescindível retransformar a economia de guerra em que vivemos numa economia de paz, e utilizar a enorme poupança que resultar do desarmamento parcial na obtenção de um tipo de desenvolvimento mais igualitário e não poluidor. [...] Trechos extraídos da obra Fome: um tema proibido (CEPE, 1996), do médico, professor catedrático, pensador, ativista político e embaixador do Brasil na ONU, Josué de Castro (1908-1973). Veja mais aqui e aqui.

OS DIFERENTES ESTILOSParodiando Raymond Queneau, que toma um livro inteiro para descrever de todos os modos possíveis um episódio corriqueiro, acontecido em um ônibus de Paris, narra-se aqui, em diversas modalidades de estilo, um fato comum da vida carioca, a saber: o corpo de um homem de quarenta anos presumíveis é encontrado de madrugada pelo vigia de uma construção, à margem da Lagoa Rodrigo de Freitas, não existindo sinais de morte violenta. Estilo interjetivo – Um cadáver! Encontrado em plena madrugada! Em pleno bairro de Ipanema! Um homem desconhecido! Coitado! Menos de quarenta anos! Um que morreu quando a cidade acordava! Que pena! Estilo colorido – Na hora cor-de-rosa da aurora, à margem da cinzenta Lagoa Rodrigo de Freitas, um vigia de cor preta encontrou o cadáver de um homem branco, cabelos louros, olhos azuis, trajando calça amarela, casaco pardo, sapato marrom, gravata branca com bolinhas azuis. Para este o destino foi negro. Estilo antimunicipalista – Quando mais um dia de sofrimentos e desmandos nasceu para esta cidade tão mal governada, nas margens imundas, esburacadas e fétidas da Lagoa Rodrigo de Freitas, e em cujos arredores falta água há vários meses, sem falar nas frequentes mortandades de peixes já famosas, o vigia de uma construção (já permitiram, por debaixo do pano, a ignominiosa elevação de gabarito em Ipanema) encontrou o cadáver de um desgraçado morador desta cidade sem policiamento. Como não podia deixar de ser, o corpo ficou ali entregue às moscas que pululam naquele perigoso foco de epidemias. Até quando? Estilo reacionário – Os moradores da Lagoa Rodrigo de Freitas tiveram na manhã de hoje o profundo desagrado de deparar com o cadáver de um vagabundo que foi logo escolher para morrer (de bêbado) um dos bairros mais elegantes desta cidade, como se já não bastasse para enfear aquele local uma sórdida favela que nos envergonha aos olhos dos americanos que nos visitam ou que nos dão a honra de residir no Rio. Estilo então – Então o vigia de uma construção em Ipanema, não tendo sono, saiu então para passeio de madrugada. Encontrou então o cadáver de um homem. Resolveu então procurar um guarda. Então o guarda veio e tomou então as providências necessárias. Aí então eu resolvi te contar isto. [...] Estilo preciosista – No crepúsculo matutino de hoje, quando fulgia solitária e longínqua a Estrela-d’ Alva, o atalaia de uma construção civil, que perambulava insone pela orla sinuosa e murmurante de uma lagoa serena, deparou com a atra e lúrida visão de um ignoto e gélido ser humano, já eternamente sem o hausto que vivifica. [...] Estilo sem jeito – Eu queria ter o dom da palavra, o gênio de um Rui ou o estro de um Castro Alves, para descrever o que se passou na manhã de hoje. Mas não sei escrever, porque nem todas as pessoas que têm sentimento são capazes de expressar esse sentimento. Mas eu gostaria de deixar, ainda que sem brilho literário, tudo aquilo que senti. Não sei se cabe aqui a lavra sensibilidade. Talvez não caiba. Talvez seja uma tragédia. Não sei escrever mas o leitor poderá perfeitamente imaginar o que foi isso. Triste, muito triste. Ah, se eu soubesse escrever. [...]. Trecho de Os diferentes estilos (Ática, 1979), do escritor e jornalista Paulo Mendes Campos (1922-1991). Veja mais aqui, aqui e aqui.

QUATRO POEMASAGIOTAGEM: um / dois / três / o juro: o prazo / o pôr / o cento / o mês / o ágio / p o r c e n t a g i o. / dez / cem / mil / o lucro: o dízimo / o ágio / a mora / a monta em péssimo / e m p r é s t i m o./ muito / nada / tudo / a quebra: a sobra / a monta / o pé / o cento / a quota / h a j a n o t a / agiota. PLANTIO: Cava, / então descansa. / Enxada; fio de corte corre o braço / de cima / e marca: mês, mês de sonda. / Cova. / Joga, / então não pensa. / Semente; grão de poda larga a palma / de lado / e seca; rês, rês de malha. / Cava. / Calca / e não relembra. / Demência; mão de louco planta o vau / de perto / e talha: três, três de paus. / Cova. / Molha / e não dispensa. / Adubo; pó de esterco mancha o rego / de longo / e forma: nó, nó de resmo. / Joga. / Troca, / então condena. / Contrato; quê de paga perde o ganho / de hora / e troça: mais, mais de ano. / Calca. / Cova: e não se espanta. / Plantio; fé e safra sofre o homem / de morte / e morre: rês, rés de fome / cava. SIDERURGIA S.O.S.: Se der o ouro sidéreo opus horário / Sem sol o sal do erário salário / Ser der orgia semistério o empresário / Siderurgia do opus o só do erário / Se der a via do pus opus errado / Se der o certo no errado o empregado / Se der errado no certo o emprecáriO O TOLO E O SÁBIO: O sábio que há em você / não sabe o que sabe /o tolo que não se vê./ Sabe que não se vê / o tolo que não sabe / o que há de sábio em você. / Mas do tolo que há em você / não sabe o sábio que você vê. Poemas do poeta e crítico Mário Chamie (1933-2011). Veja mais aqui.

A ARTE DE ZINAIDA SEREBRIAKOVA
A arte da pintora russa Zinaida Serebriakova (1884-1967). Veja mais aqui e aqui.



Lendas, crendices e abusões: alegoria e história em O Cara de Fogo, de Jayme Griz, em artigo de Ivson Bruno da Silva & muito mais na Agenda aqui.
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Amor em Alagoinhanduba, o teatro de Federico Garcia Lorca, o pensamento de Bernard Lown & a fotografia de María Magdalena Campos-Pons aqui.

quarta-feira, abril 25, 2018

LYGIA CLARK, BOFF, ROSSETTI, PETER BERGER, BALINT, ROBERTO MINCZUK & NILZE CARVALHO, SAÚDE & INCLUSÃO.

SAÚDE: QUEM É QUEM NO BRASIL - Gentamiga, vamos aprumar a conversa! Do mesmo modo como promovem a tragédia da educação brasileira, também a saúde é envolvida por um sistema perverso que a faz ineficiente. Já falei aqui a respeito, mas quero botar de novo o dedo na ferida. A coisa é muito simples, só botar a cachola para funcionar: o Ministro da Saúde é escolhido por um conluio entre políticos e um pool formado por segmentos interesseiros, como os dos planos de saúde, os da cadeia produtiva da rede hospitalar privada e os dos que querem levar vantagem em tudo, urubus sobre a nossa carniça. Com a escolha do nome para o Ministério, também vão junto aqueles que vão compor a gestão do SUS, da ANS e de todo sistema de saúde pública. Trocando em miúdos: raposas soltas no galinheiro. A desgraceira vai se amontoando com quem vai para as secretarias de saúde dos Estados e Municípios brasileiros: ou médicos, ou políticos ligados à rede hospitalar privada. E esses ocupantes vão inviabilizar todo sistema público para que todos nós recorramos à rede privada de saúde. Certo? Por outro lado, a bem da verdade, é preciso saber que o SUS é copiado e implantado em todo mundo justamente porque dá certo, só que no Brasil, não. E por que não? Isso é Brasil, onde as coisas são problematizadas, embananadas, complicadas e, acima de tudo, não muito bem ou quase nunca entendidas ou esclarecidas pelo tanto de confusão que se fomenta nos gabinetes palacianos com leis, normas, regras, portarias e procedimentos. Ou seja, tem que deixar a coisa pra lá de contraproducente para que ninguém dê conta do pandemônio. Pra aumentar mais ainda o desacerto, há o fato de que o sistema securitário brasileiro sempre foi superavitário, quando os seus componentes dão prejuízo, ou seja, são deficitários. Dá pra entender? Pois é, pra quem não sabe, o Sistema de Seguridade Social é justamente formado por Saúde, Previdência e Assistência Social. E isso com meio mundo de gente provando por a+b que todo sistema é superavitário, porque todo ano ocorre a transferência dos 20% referentes à Desvinculação das Receitas da União (DRU) – vide aqui. Mas, como é que pode? No Brasil pode tudo! Todas as gestões quando não apenas incompetentes, são ocupadas justamente por quem não quer que nada dê certo no Brasil. Percebeu? Acredito que sim, tanto é que agora dá pra sacar de verdade os escândalos que a Polícia Federal acha um bocado de malas e colchões, tudo entupido com milhões e zilhões de dinheiro em espécie por aí na casa de algumas autoridades ou prosélitos do sistema governamental brasileiro. Entendeu ou quer que eu desenhe? Não há outra constatação: a educação e a saúde são a tragédia porque estamos no Reino da Espórtula do Brasilsilsilsilsil. Agora é que a coisa pega, vamos ou não aprumar a conversa, gente? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o maestro Roberto Minczuk: Kabbalah de Marlos Nobre, Bachianas nº 2 – Trenzinho Caipira de Villa-Lobos & Sinfonia nº 3 – Heróica – de Beethoven; da cantora, compositora e bandolinista Nilze Carvalho: Choro canção, Brasileirinho & Ao vivo; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] o fim da prática médica geral e da psicoterapia é libertar as pessoas, na medida do possível, dos sofrimentos inúteis da existência humana [...]. Trecho extraído da obra Place de la psichotérapie em medicine (Payot, 1970), do psicanalista e bioquímico húngaro Mihály Balint (1896-1970).

SISTEMA SIMBÓLICO – [...] a matriz de todos os significados socialmente objetivados e subjetivamente reais. A sociedade histórica inteira e toda a biografia do indivíduo são vistas como acontecimentos que se passam dentro deste universo. [...] O universo simbólico é evidentemente construído por meio de objetivações sociais. No entanto, sua capacidade de atribuição de significações excede de muito o domínio da vida social, de modo que o indivíduo pode “localizar-se” nele, mesmo em suas mais solitárias experiências. [...]. Trecho extraído da obra A construção social da realidade (Vozes, 1973), do sociólogo e teólogo austro-americano Peter Berger (1929-2017).

O CUIDADO DOS GRANDES PELOS PEQUENOS – [...] Quando o mundo foi criado, a noite não existia. Havia só o dia e a luz penetrava em todos os espaços. Só num ligar, nas águas profundas, a luz não chegava. Os Maué, por mais que quisessem, não podiam dormir nunca. Viviam cansados e com os olhos irritados pelo excesso de luz. Certo dia, um deles encheu-se coragem e foi falar com Boiúna, a Cobra Grande, também chamada de sucuriju. [...] A Cobra Grande ouviu as lamentações do índio Maué e, vendo a sua pele amorenada pelo sol escaldante e seus olhos avermelhados pelo excesso de luminosidade, teve pena dele. [...] E disse: - Eu sou grande e forte. Sei me defender. Não preciso de ninguém. Mas muitos dos meus parentes são pequenos e indefesos. [...] Assim vocês, Maué, quandocaminharem por ai, cuidarão bem onde vão meter os pés, para não pisarem nos bichinhos pequenos. Eles terão como se defender. Em troca, lhe darei um coco cheio de noite. O Maué aceitou prazerosamente a proposta. [...] No momento da troca, a sucuriju recomendou: - Não abra o coco fora da maloca, só lá dentro. Não abra de jeito nenhum. [...] E foi então que sobreveio a desgraça. Ao abrir o coco fora da maloca, as trevas cobriram o mundo. Não se via mais nada. o sol sumiu no firmamento. A floresta ficou uma mancha escura e as montanhas ao longe viraram uma sombra nebulosa. E uma angustia imprevista e terrível invadiu o ânimo dos Maué. Houve uma correria geral. No foge-foge precipitado, ninguém pensou nos bichinhos pequenos que já haviam recebido o veneno da Cobra Grande, a sucuri. Os primeiros a receber foram as cobras pequenas e os escorpiões. Esses se defenderam das pisadas dos índios, mordendo-lhes e picando-lhes os pés e as pernas. Aconteceu uma grande calamidade. Os poucos que sobreviveram às mordidas e picadas venenosas, sabem agora como se comportar. Também aprenderam a desconfiar das aranhas, às quais a Cobra Grande também deu veneno em excesso. E a partir de então, todos os índios começaram a tomar cuidado com os bichinhos pequenos, procurando não pisar neles para não serem perigosamente picados ou mordidos e, assim, até os dias de hoje eles convivem juntos, pacificamnente e no maior respeito mútuo. Trechos extraídos da obra O casamento entre o céu e a terra: contos dos povos indígenas do Brasil (Salamandra, 2001), escritor, teólogo e professor universitário Leonardo Boff. Veja mais aqui.

BALADA DAS DAMAS MORTAS DE FRANÇOIS VILLON - Dizei-me, onde se escondeu / Flora, a romana sedutora? / Onde está Hiparquia e onde está Tais, / todas essas mulheres maravilhosas? / Onde se encontra o Eco, invisível aos homens, / que só se ouve no rio e na lagoa, - / aquela, cuja beleza era mais que humana? / mas onde estão as nevez de antanho? / Onde está Heloisa, a monja sábia? / Por amor de quem Abelardo, creio / trocou as vestes civis pelas sacerdotais? / (Foi o amor que lhe encheu de tristeza e pesar) / e, suplico-vos, onde está a Rainha / ansiosa de que Buridan descesse o Sena / atada à boca de um saco? / Mas, onde estão as neves de antanho? /A nívea Rainha Blance, como a rainha dos lírios, / com a sua voz de sereia, - / Bertha Broadfoot, Beatriz, Alice, / e Emengarda, a dama do Maine, - / e aquela, suave Joana que, em Rouen, / os ingleses condenaram e queimaram viva, - / Mãe de Deus, onde estarão elas, então? / Mas, onde estão nas neves de antanho? / Não, não indagueis, esta semana, bom senhor, / nem mesmo este ano, para onde elas foram, / evitai assim uma palavra demais, - / mas, onde estão as neves de antanho? Poema do poeta, ilustrador e pintor inglês Dante Gabriel Rossetti (1828-1882).

A ARTE DE LYGIA CLARK
Todo dia é dia da arte da pintora e escultora Lygia Clark (1920-1988). Veja mais aqui e aqui.


INCLUSÃO NA BIBLIOTECA – com a palestra Importância da relação entre escola e família na inclusão escolar do aluno com TEA, com a professora Sil Neves e o diretor da biblioteca, João Paulo Araújo, & muito mais na Agenda aqui.
&
Álbum de fotografias, o pensamento de Albert Einstein, a arte de Ruth Rachou, Sampa de Caetano Veloso, Carlos Alberto Riccelli & Bruna Lombardi aqui.
 

terça-feira, abril 24, 2018

MAUPASSANT, DOLTO, BELLONE, DORA MAAR, MATTHEW ARNOLD, ARTHUR NESTROVSKI & CAMILLE O’SULLIVAN

ELE & ELA: ROTEIROS SENTIMENTAIS - Ele sonha em vencer na vida, ser o tampa engravatado, bigodudo, topetudo, ter um carro zero importado, um palacete, muita grana e uma Amélia sex symbol fatal pra casar, senão todas. Ela sonha com o amor da vida dela, um salvador príncipe encantado ator de televisão ou capa de revista que seja compreensivo e másculo, ter tudo em cima com chapinha e brincos, batom, cílios postiços, salto alto, pernuda sem TPM e menstruação, sexto sentido e o inacreditável dentro da bolsa. Ele se embeca metrossexual pra caça, se ajeita perfumado desleixando a freada na cueca e, depois de muito pelejar na indumentária, vai de qualquer jeito, ô bicho besta danado. Ela vive de espelhos, maquiagens, depilações, e confere o tamanho dos seios e da bunda, demora no banho, escolhe essa ou aquela roupa, qual não sabe, resolve depois de tantas e sai lindamente trajada. Ele quer fazer amor, vasculha as intimidades dela e quer tudo na hora: agora ou nunca! Só faz merda e acerta na cagada, arrisca tudo: fudido por um, fudido por mil, o último a saber. Ela quer fazer amor e sonha ter filhos e uma família saudável, sozinha na siririca, se entrega por inteiro e bota tudo a perder, ainda há esperança: quem aqui faz, aqui paga. Ele sai pra trabalhar rangendo os dentes, pé na goela, sai da frente, em cima da hora, quem quiser que se lasque, fim do expediente: agora pro bar! Aí coça o saco e a pentelheira com futebol, porrinha e outros blefes, se embeiçando com a primeira reboladora que passar. Ela sai pra trabalhar toda jeitosa, suspira por ele, quer ser mãe exemplar no terceiro expediente, quando borra a maquiagem ao saber que foi trocada por uma mocreia mais jovem. Ah, o amor, o amor é lindo e nunca morre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o compositor, violonista, escritor, editor e crítico literário e musical, Arthur Nestrovski: Jobim Violão, Por causa de você & The man I love, com Lívia Netrovski; da cantora, musicista e atriz irlandesa Camille O’Sullivan: Live at jazz open Stuttgart, Oh lord & Five years/Eclipse; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] um processo de matematização não é nem uma tradução, fiel ou infiel, nem uma substituição puramente formal da pré-lógica que existe nas leis empíricas [...] a estrutura lógica estabelecida entre afirmações descritivas a respeito de fatos [...] está sujeita a modificações por vezes radicais que não só mudam a forma da teoria, mas afetam as próprias evidencias empíricas, forçando-nos assim a dar uma interpretação diferente às observações e às relações entre as medidas. [...] Pensamento extraído da obra A world on paper: studies on yhe second scientific revolution (MIT Press, 1980), do físico e historiador italiano Enrico Bellone (1938-2011).

ENCONTROS EMOCIONAIS & O CASAMENTO - [...] Quantas neuroses familiares e degenerescências libidinais seriam evitadas através de uma educação sexual para a procriação em comum acordo, sem nada arriscar antes do processo à autonomia cívica pecuniária dos dois elementos do casal, vale dizer, ao estado adulto dos seus egos, e nunca antes do acesso a uma volúpia satisfatória comum, ou seja, a uma troca libidinal, genital e geneticamente sensata! [...] Um homem e uma mulher nem sempre se enganam em sua primeira atração sexual, mas muitas vezes comprometem depressa demais a sua existência, antes mesmo de terem atingido a idade do desejo de dar nascimento a um terceiro termo, o filho, antes de estarem maduros para deslocar o eixo do seu narcisismo para o fruto vivo do seu amor. [...] Trecho extraído da obra Sexualidade feminina: libido, erotismo, frigidez (Martins Fontes, 1983), da médica e pediatra francesa Françoise Dolto (1908-1988). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A MULHER & O PRAZER - [...] A Sra. Carré-Lamadon, que conhecera muitos oficiais e que os julgava entendida, não achava aquele absolutamente mai; lamentava mesmo que não fosse francês, porque daria um hussardo muito onito, pelo qual todas as mulheres certamente se apaixonariam. [...] Os olhos da linda Sra. Carré-Lamadon cintilavam, e ela estava um pouco pálida, como se já se sentisse violentada pelo oficial. [...]. A mimosa Sra. Carré-Lamadon parecia mesmo pensar que em seu lugar recusaria aquele menos que qualquer outro. O assedio foi longamente preparado, como se se tratasse de uma fortaleza a atacar. [...] Exemplos antigos foram citados: Judite e Olofernes, depois, sem a menor razão, Lucrecia e Sexto, Cleopatra fazendo passar por seu leito todos os generais inimigos e reduzindo-os ao servilismos de escravos. Relataram então uma história fantástica, surgida na imaginação daqueles milionários ignorantes, na qual as cidadãs de Roma iam adormecer em Cápua tendo Anibal entre seus braços, e, com ele, seus oficiais e as falanges de mercenários. Citaram-se todas as mulheres que detiveram, os conquistadores, fizeram de seu corpo um campo de batalha, um meio de dominar, uma arma, que venceram com suas carícias heróicas criaturas medonhas ou odiadas, e sacrificaram sua castidade à vingança e à dedicação. Falou-se mesmo em termos velados naquela inglesa de ilustre família que se deixara inocular uma horrível e contagiosa moléstia para transmiti-la a Bonaparte, a quem uma súbita debilidade salvara miraculosamente, na hora do encontro fatal. E tudo isso era contado de maneira correta e moderada, na qual às vezes explodia um entusiasmo intencional, próprio para provocar a emulação. No fim poder-se-ia acreditar que o único papel da mulher, sobre a terra, era um perpetuo sacrifício de sua pessoa, um abandono contínuo aos caprichos da soldadesca. [...]. Trecho extraído da obra O prazer (Vecchi, 1954), do escritor francês Guy de Maupassant (1950-1893). Veja mais aqui.

A PRAIA DE DOVEREsta noite o mar se mostra calmo. / A maré está cheia, a lua clara / sobre o estreito; na costa francesa, a luz / brilha e se apaga; os penhascos da Inglaterra, / cintilantes e vastos, na baía tranqüila. / Vem à janela, que delícia o ar da noite! / Solitário, na longa linha de espuma, / onde o mar encontra a terra empalidecida pelo luar, / ouve o rugir rouquenho / dos seixos que as ondas levam e atiram / de volta a praia extensa. / Começam, param, recomeçam / numa cadência trêmula e vagarosa, / transmitindo o seu eterno tom tristonho. / Sófocles, há tanto tempo, / ouviu aquele tom, no Egeu. / E isso trouxe à sua mente / o turbilhão do fluxo e o refluxo / da miséria humana. / Encontramos também, no som, um pensamento, / ouvindo-o, no distante mar do norte. / O mar da Fé também surgiu / na maré cheia, em volta das praias, / como as dobras de uma faixa amarfanhada. / Mas agora, eu só ouço / a sua melancolia, como um ronco longo e arrastado / conduzido pelo sopro do vento da noite, / nas vastas praias tristonhas / e os rochedos nus do mundo. / Ah, amor, sejamos sinceros / um com o outro! Porque o mundo que parece / estar deitado diante de nós, como uma terra de sonh, / tão vário, tão belo, tão novo, / não tem na realidade, nem alegria, nem amor, nem luz / não tem certeza, nem paz, nem consolo para a dor. / E aqui nos encontramos como numa planície encoberta, / varrida por alarmas confusos de luta e fuga, / onde exércitos desconhecidos se batem à noite. Poema do poeta e crítico britânico Matthew Arnold (1822-1888).

A ARTE DE DORA MAAR
A arte da fotógrafa, poeta e pintora francesa Dora Maar (1907-1997).


Circuito Palmarense de Xadrez na Biblioteca & muito mais na Agenda aqui.
&
De homens, bichos & feras, o pensamento de Gaston Bachelard, a literatura de Rogel Samuel, a pintura de Jean-Léon Gérôme & a arte de Wendy Arnold aqui.
 

segunda-feira, abril 23, 2018

JORGE DE LIMA, PRIGOGINE, MURGER, JOMAR BRITO, JAGUARIBE, MAURÍCIO SILVA, MURILO GUN & EDUCAÇÃO, PIXINGUINHA & TERESA CRISTINA/GRUPO SEMENTE

HEUTAGOGIA X ESCOLARIZAÇÃO – Como já dizia Murilo Gun: escolas matam a aprendizagem! Verdade. Já desconfiava disso desde quando, no início dos anos 1980, assisti ao filme/show The Wall, de Alan Parker & a banda Pink Floyd, principalmente com a letra do sucesso musical Another brik in the wall. Isso ficou martelando no meu juízo e, nos anos 1990, ao publicar meus livros infantis e começar uma peregrinação com recreações promovendo as minhas publicações nas escolas, fui me deparando com muros altos, divórcio com a comunidade e a realidade do entorno, disciplina rígida e segurança máxima. Parecia-me mais um quartel ou detenção, um negócio rachado no meio: de um lado, gestores e profissionais não-docentes fechados incomunicáveis na administração; e, do outro, professores e alunos – os visíveis, sobre os quais recaem toda a responsabilidade pela trágica crise educacional. Ora, ora, desconfiei: o problema é bem maior e começa no MEC, indubitavelmente; daí, de forma difusa, vai se tornando uma avalanche pelas secretarias de estados e municípios. Aprumei a vista: a educação básica prepara pro vestibular e a faculdade pro mercado – quando muito e só. Hem? E o ser humano, o desenvolvimento do sujeito, o cidadão e sua interdependência com o mundo e a vida? Ah, por isso que temos advogados, médicos, engenheiros e outros tantos profissionais diplomados e pós-graduados (lato & stricto sensu), por aí, tudo tapado chega fazer dó, uma tuia gigantesca de besta quadrada. A-rá! Os anos se passaram e, enquanto isso, fui desenvolvendo estudos aprofundados nas áreas de educação e psicologia. O estalo pra certidão quem me deu foi o psicanalista e educador, Rubem Alves, já em meados dos anos 2000, com a sua crônica Casas emburrecedoras. Com a dica, juntei o troço: casas/escolas. E ampliei a pesquisa: educação básica (infantil, fundamental e médio) até o curso superior, profissional, tecnológico, especial, EAD, EJA e lá vai teibei. Além disso, assessorei graduandos e pós-graduandos nas suas pesquisas num corpo a corpo, ministrei por anos um curso sobre Metodologia Científica e emburaquei fundo no assunto, redundando no acompanhamento e assessoria a um bocado de dissertações de mestrado e teses de doutoramento no Brasil e no exterior, envolvendo diversas escolas das redes pública e privada. Juntei tudo e me matriculei num curso de Psicologia. Lá me meti nuns grupos de pesquisa, entre os quais o de Neurofilosofia e Neurociência Cognitiva, e matei a charada com uma palestra que passei a desenvolver desde então: Neuroeducação & práticas pedagógicas no ensino-aprendizagem. Dava conta do como é desenvolvida a educação no Brasil: a confusão que envolvia a lógica do mercado e ensino misturada com capitalismo e cristianismo, o equívoco de que educação é escolarização, e um monte de coisas que me deixaram de cabelo em pé: sectarismo, pedantismo, preconceito e má vontade – aquela coisa de Pandora. Vixe! Foi aí que comecei o confronto entre heutagogia e escolarização. Ao constatar o traumatismo de gerações que a escola provocou com sua imposição bancária de conteúdos obsoletos e disciplina exagerada, visualizei a crescente fatia do autodidatismo, antes tratado com desdém na base do escárnio cruz-credo! Ué? Pra quem vê a escola de educação básica distante do desejado e os vestibulares das universidades públicas manipulados pelos cursinhos, afora outras tantas broncas no pega-lá-dá-cá desse Brasilzão, qual a alternativa para inclusão de tantos deserdados? Sentir na pele e dar-se ao sacrifício individual de entender que é um ser que se prepara pra experiência da vida e pro convívio em sociedade planetária. É isso: a escola emburrece e mata a aprendizagem mesmo, tenho dito. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial do Dia Nacional do Choro com a música do compositor Pixinguinha (Alfredo da Rocha Vianna Filho – 1897-1973) & o Choro Brasileiro: Choro, chorinho & chorões; do premiado conjunto Teresa Cristina & o Grupo Semente, formado pela vocalista Teresa Cristina, o cavaquinho de João Callado, o violão de Bernardo Dantas, o pandeiro de Pedro Miranda e o surdo de Ricardo Cotrim: Delicada, Coração Imprudente e O mundo é meu lugar; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O que dá a uma nação destino próprio, [...] é sua capacidade de autodeterminação e o efetivo exercício dessa capacidade [...]. Pensamento extraído da obra O nacionalismo na atualidade brasileira (Iseb/MEC, 1958), do sociólogo, cientista político e escritor Hélio Jaguaribe, que acrescenta na obra A reconfiguração da ordem mundial no início do século XXI (Câmara dos Deputados, 2002): [...] a preservação da autonomia é requisito absolutamente fundamental para que este País tenha um destino próprio [...].

REFLEXÃO CONTEMPORÂNEA -  [...] Nosso universo está em construção. A historia humana, acontecimento particular da história do universo, acompanha essa mesma dinâmica do inacabado, das flutuações, das bifurcações. O universo é uma mistura de determinismo e de imprevisibilidade. A criação do universo é antes de tudo uma criação de possibilidades das quais alguma se realizam e outras, não. [...] A condição humana reside em abrir-se à possibilidade da escolha. Pensar o incerto é pensar a liberdade. [...]. Cabe ao homem, tal qual é hoje, com seus problemas, dores, tristezas e alegrias, garantir que sobreviva ao futuro. [...]. Trecho extraído da entrevista concedida pelo químico russo Prêmio Nobel de Quimica de 1977, Ilya Prigogine (1917-2003), retirada da obra Conversações: entrevistas essências para entender o mundo (Cultura, 2008), de João Lins de Albuquerque.

PSICOLOGIA SOB O OLHAR DA SOCIEDADE - Celebração – porque a morte é uma festa, estamos aqui para festejar DU, Maria do Carmo Vieira. Festejando DU, festejo nossa morte cartesiana. Morrerei sem ter descoberto as ideias claras, nítidas e precisas que podem diferenciar, especificar os campos da psicologia, da psiquiatria, da psicanálise. Morrer desta ignorância fundamental. Morrer de não saber, mergulhado na nebulosa PSI, buraco negro de nosso cotidiano, de sociabilidade e incomunicações. Buraco negro acima e abaixo dos racismos, etnocentrismos e até das metarraças. Ninguém escapa pelas fendas da morte romântica. Região subterrânea e transcendental de luzes e sombras, iluminando os romantismos mais clássicos e pós-modernos. Obscuros e translúcidos subjetivismos, subjetividade e subjetivações. Qualquer livre associação pode nos conduzir – natural, intencional e intempestivamente ao tema-problema da loucura. Portanto, entre a livre associação e a ideia fixa, morro sonhando, pensando e penando, dispensando que todos os enigmas continuam girando em torno da palavra logos. L, a mesma letra inicial da loucura. Múltiplas conotações. Pensamos logos como tradução direta para lógica – mas de qual lógica tratamos? Da lógica formal ou da lógica dialética? Da lógica enquanto princípio de identidade ou da analógica com seus paradoxos e contradições. O logos nos situaria apenas entre conceitos e raciocínios? Logica discursiva, retórica, persuasiva, pedagógica? Apostamos que o logos da psicologia também nos surpreende enquanto perspectiva do imaginário, imagens e contraimagens, metáforas, jogo imprevisível de intuições. Intuição criadora de artes e ciências. Visão direta, instantânea, pré-conceitual, livre jogo de hipóteses. Intuição intelectual e volitiva que não se confunde com o fervor das intuições místicas. Nesse diálogo entre o intuitivo e o conceitual transitam os múltiplos saberes, percepções, olhares, visões de um logos do senso comum, da sabedoria prática, conjunto de fazeres e aprendizados de nossa sociabilidade. Morremos e renascemos entre laços e lâminas. Nós cegos e luminosos das crenças, do senso comum, das intuições mais nítidas ou delirantes, desejando uma racionalidade mais aberta, experimental, descentralizadora. Experimentando, por um lado, as ambiguidades, entre o empirismo, o positivismo dos testes e medidas; e, por outro lado, o intelectualismo das racionalizações. Tudo continua sendo visto, olhado, escutado, tocado, presenciado como expressão dos mecanismos de defesa, das percepções seletivas, hábitos herdados, memorias roubadas, tradições revisitadas e consumidas. Continuamos morrendo e renascendo diante das tramas, segredos, mistérios, mitologias, desvelamentos e desocultações de nosso inconsciente, desejos dilacerados, frustrações messiânicas, recalques do papai e mamãe, sublimações holísticas, fantasias de poder, fantasmas do não saber. Morremos e renascimento festejando simultaneamente a “impenetrabilidade dos seres humanos” e o projeto de sermos interdependentes, intercomunicantes. Dentro e fora desse logos polifônico, pluralista, democratizador, qual o olhar da sociedade sobre a psicologia? Muito mais do que uma ótica, imaginamos uma semiótica de afetos ambivalentes. Eu odeio, eu adoro numa mesma oração: na música Baioque do Chico Buarque. Dor e delícia, dilema de sermos outros caetanos. Infinitamente Chico César da Paraibarroca. Semiótica da cruel beleza pela longevidade dos tropicalistas. Todas as dúvidas permanentes, agora e permanecendo. Todos os casos e ocasos. Você é Lindair no processo PSI de ir e vir. Rosa de todos os jardins. Seres talvez impenetráveis, mas interpenetradores e intercomunicantes. Por isso descartemos o olhar semiótico, arrogante, dilacerado, benevolente, autoconsolador, ridículo, idiota e genial da sociedade e seus mais sábios intérpretes. Salve-se quem souber do enigma das carências, desamparos, angustias, solidões: situações-limite da loucura. Extraído da obra A língua dos Tres Pppês: Poesia, politica e pedagogia (Sesc-PE, 2012), de do poeta, professor, cineasta, filósofo e agitador cultural Jomar Muniz de Brito, organizado por Antonio Edson Cadengue e Igor de Almeida Silva.

CALUNGA - [...] Para isso tanta desgraça planejada, banguês comidos, senhores reduzidos á miséria, e atrás de tudo o homem do eito, da bagaceira, das limpas, das fornalhas, cambiteiros, metedores de cana, caldeireiros, trabalhadores de enxada, mal alimentados, mal vestidos, descalços, trabalhando noite e dia pra aguentar o bangüê, para o bangüê ser devorado pela uzina e por sua vez o uzineiro ser devorado por U.S.A. Lula imaginava naquela hora clara o nativo esmagado pelas ferragens dos engenhos, os tríplices efeitos e as turbinas e vácuos das uzinas, e em cima disso tudo de quebra, trens da Inglaterra, e automoveis dos Estados Unidos. [...] Saltando no planalto, em cima da cidade, resolveu ir mesmo a pé, para ir sentindo devagarinho o prazer de encontrar depois de tanto tempo os recantos saudosos e surpreender-se com as modificações que pensava se tivessem realizado na sua ausência. Nada. Tudo andava no mesmo. Era de manhã e ele pôde ver o antigo Sol nascendo na lagoa lá longe no mar. O casario, os caminhos, a cidadezinha, as olarias, embaixo, tudo tinha a mesma cara, como se aquelas coisas fugazes tivessem adormecido, e acordassem agora com o velho Sol. Lula diminuiu mais as passadas, olhando demoradamente a cidade despertando [...] Sururuzeiro esquentadinho de sezões via o mundo diferente, o sol com outra cor, a lama chegava a possuir seus afagos apalpando os pés de frieira, abarcando os sexos, oferecendo uns gozos muito diversos dos da carne, o incesto com a mãe-terra se dava de todo jeito, comendo a velha, machucando-a, sentindo-a sexualmente pela pele, num mais vasto prazer sexual, por todos os nervos do corpo. A lama generosa maternalmente oferecia o sururu que ela gerava em seu seio, como guardando o nutrimento debaixo do cabeção para a fome dos filhos fracos. [...]. Trecho extraído do romance Calunga (Livraria Globo, 1935), do médico, escritor, tradutor e pintor Jorge de Lima (1893-1953). Veja mais aqui.

A BALADA DO DESESPERADO - — Quem bate à porta a tais horas? / — Abre, sou eu. Quem tu és? / Não se entra na minha casa / Tão tarde assim, bem o vês. / — Abre. — Teu nome? — Há geada, / Abre. Teu nome? — És tardio! / Qual é teu nome? — Ai, na cova / Um morto não tem mais frio. / Eu caminhei todo o dia / Do sul ao setentrião, / Ao pé da tua lareira / Quero sentar-me — Inda não! / Diz teu nome... — Eu sou a glória / E aspiro à posteridade... / — Passa fantasma irrisório... / — Ó dá-me hospitalidade! / Eu sou o amor e a esperança / As duas porções de Deus... / — Segue a estrada... A minha amante / Há muito me disse adeus! /— Eu sou a arte e a poesia, /Proscreveram-me... Abre! — Não! / Já não canto minha amante. / Nem sei que nome lhe dão!... / — Abre, que eu sou a riqueza, / E trago do ouro o fulgor, / — Posso dar-te a tua amante... / — Podes dar-me o seu amor? / — Sou o poder, tenho a púrpura. / Abre a porta! — Anelo vão! / Podes trazer-me a existência / Daqueles que já não sâo?! / — Se tu não abres teus lares / Senão a quem diz seu nome / Sou a morte! trago alívio / P'ra cada dor que consome! / Podes ver, trago na cinta / Ruidosas chaves fatais... / Abrigarei teu sepulcro / Do insulto dos animais. / — Entra, estrangeira funérea... / Perdoa à mendicidade, / Porque é no lar da miséria / Que tens hospitalidade. / Entra; cansei-me da vida / Que nada tem que me dar... / Há muito eu tinha desejos / (Não força) de me matar! / Entra no lar, bebe e come, / Dorme, e quando despertares, / Para pagar tua conta / Hás de levar-me aos teus lares. / Eu te esperava, eu te sigo... / Vamos... arrasta-me... assim... / Mas deixa o meu cão na terra / P'ra eu ter quem chore por mim! Poema do poeta e romancista francês Henri Murger (1822-1861).

A ARTE DE MAURÍCIO SILVA
A arte do artista Maurício Silva.


Ana de Ferro no Teatro, Burocracial de Vital Corrêa de Araujo, a Poesiarte de Cyane Pacheco & muito mais na Agenda aqui.
&
Aganocê: o poema feito prosa de amor, o pensamento de Hannah Arendt, a fotografia de Dmitri Egorov, a arte de Jack Hanley & Luciah Lopez aqui.
O Brasil & outros Brasis, Saúde no Brasil, o cinema de Michael Moore & a arte de Beatrice Tosi aqui.
 

KEATS & FANNY, LAING, JANE CAMPION & ALEXANDER ARCHIPENKO

FANNY, O TESTEMUNHO DERRADEIRO – Agora o meu testemunho derradeiro: compartilho definitivamente meu sofrimento com esta ode, para que ...