sexta-feira, abril 27, 2018

PAVESE, THIAGO DE MELLO, THOREAU, KATHERINE CROCKER, EDUCAÇÃO, KIKO CONTINENTINO & KELLY BENEVIDES

UMA COISA & OUTRAS TANTAS – Imagem: a arte da atriz, bailarina e artista performática Katherine Crocker. - Sou como o rio que muda sem deixar de ser, desaguo lágrimas e suores, sangue represado, e reinvento a mim próprio e mais não sei o que será, qual confim. Por trás de cada ato um caleidoscópio e eu em cada cena perdida do que fui. Há o que fazer entre tantas estranhezas à beira das ruas, com minhas heresias a transpor obstáculos que ganham vida própria e me assombra a indiferença com as abstrações inalcançáveis dos que vivem no vórtice dos seus próprios umbigos, alheios a tudo. Não sabem e sou da mesma natureza daquele que nasce a passar pelo firmamento até mergulhar no horizonte dos meus astros desencontrados nos rumos de outra galáxia, em que as guelras se confundam com pulmões, peles, conchas e garras e, no final das contas, sumam dentro da noite dos meus porões. Às vezes me antecipo cansado e ferido pelos desígnios que bendigo ao me esquecer dos segredos – nem os tenho mais -, nas dores dos meus desvãos. Nada perdi porque nunca tive, voo vestido de palavras, quem sabe, um poema me salve a pele, a perder dos medos na madrugada a dormir janela aberta, inventando versos pra poesia que não fiz, na paz entre a água e o fogo. Eu rego a terra para ter o que desejo, como o sonho da mulher amada, esplêndida e serena, nua na varanda orvalhada no que sou de lua cheia, para que ela me estenda sua mão estrelada, com o viço de menina no sopro libertário e para que todos possam vê-la no que sou de prisioneiro a voar na imensidão do infinito. É ela quem chega quando longe de mim me encontro e proclamo o luzeiro na penugem dela e não há que não seja bom. É por isso que o amor me faz melhor: é dentro dela que o meu sonho se faz real, porque descobri o ouro invisível do seu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do pianista, arranjador e compositor Kiko Continentino: Sambajazz trio, O pulo do gato & Casa da Música; da cantora e compositora Kelly Benevides: Ah se eu vou, Samba de Aruanda & Kukukaia com Cátia de França; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A educação é, aliás, o exemplo dos mais evidentes, de necessidade de uma abordagem interdisciplinar, seja com objeto de conhecimento e de pesquisa, seja como espaço de intervenção social [...]. Trecho extraído de Subsídios para uma reflexão sobre novos caminhos da interdisciplinaridade (Cortez; 2000), do professor Antonio Joaquim Severino.

EDUCAÇÃO - [...] o que se chama comumente educação – o aprendizado de ofícios e profissões como fim de tornar o homem apto a ganhar a vida, a ambientar-se numa situação particular da vida – é servil. Como é vão tentar ensinar verdades para a mocidade ou para qualquer pessoa. Só podem aprendê-las a seu jeito e quando estiverem maduras para isso... Uma centena de jovens no colégio são instruídos em físicas, matemáticas, línguas, etc. Em cada centena, haverá talvez um ou dois, acaso amadurecidos prematuramente, que abordarão o assunto de um ponto de vista semelhante ao do professor; quanto ao resto, porém, e entre estes os mais promissores, é como ensinar química agrícola a outros tantos índios. Adquirem talvez um treino valioso, mas não aprendem o que se lhes ensina. No máximo aprendem onde se encontra o arsenal, caso precisem usar qualquer de suas armas. [...] O poeta diz que o estudo próprio à humanidade é o homem. Eu digo: estudai para esquecer tudo isso – ampliai vossas visões do universo. [...] Se passo por qualquer experiência valiosa, tenho a certeza de que pensarei que meus mentores nada dizem sobre ela. O que era mistério para a criança continua sendo mistério para o velho. Chega-se quase a duvidar se o mais sábios dos sábios chegou a aprender, vivendo, qualquer coisa de valor absoluto. [...]. Trecho extraído da obra O pensamento vivo de Thoreau (Martins, 1965), do ensaísta, poeta, naturalista, ativista anti-impostos, crítico, pesquisador, historiador, filósofo e transcendentalista norte-americano Henry David Thoreau (1817-1852). Veja mais aqui, aqui e aqui.

O BELO VERÃO - [...] Desde aquele dia a bela Carlotta não foi mais aos lugares desertos. Linda nos disse: - Fiquem sossegados. -  Assim, Pieretto perdia com as meninas e garantia que tinha vencido. Depois, descobria lugares e pessoas novas e mudava de assunto. Terminada a época dos banhos só tinha feito amizade com o dono de alguma taberna e com velhos aposentados. Lembrei-me, por muito tempo, daquela praiazinha escondida. No fundo, o mar assim tão grande e inapreensível não me dizia muita coisa; gostava de locais pequenos, que tinham uma forma e um sentido – enseadas, veredas, esplanadas, olivais. Algumas vezes, estendido sobre um encolho, observava uma lasca do tamanho da mão que, contra o céu, parecia uma enorme montanha. Essas coisas me agradam. [...] – E Carlotta, a linda Carlotta? Linda riu, com a boca escancarada. – Pieretto às vezes exagera. Em família somos todos assim. Também acontece comigo. Somos incríveis. Mas com os anos pioramos. Não a contradisse e a olhava de soslaio. Ela percebeu e me fez uma careta. – Não tenho mais os seus vinte anos – balbuciou -, mas não tenho muitos. – A gente nasce velho – disse eu -, não se torna. – Essa é uma daquelas de Pieretto – gritou Linda, daquelas autênticas. Eu também fiz uma careta. – Dizemos uma por dia – murmurei, e é suficiente. [...]. Trecho extraído da obra O belo verão (Brasiliense, 1987), do escritor italiano Cesare Pavese (1908-1950). Veja mais aqui e aqui.

O MENINO E O VENTO - Nesta manhã de domingo de verão, / sozinho na varanda desta casa / erguida aqui no meio da floresta / com a ajuda de caboclos meus irmãos / - percebo que o vento ainda não chegou, / estão imóveis as asas das palmeiras, / as flores mais altas dos cajueiros, / brilham paradas na luz alucinante. / O canto dos pássaros parece de cristal, /gume sonoro cortando / a espessura da manhã. / As suas asas estremecem, / abrem caminhos no espaço / à procura do vento macio / que dança o dia inteiro / com as palmas das inajazeiras, / inventa cantigas de acalanto / e nos dá aviso dos barcos que chegam. / O vento só costuma ir embora / quando começa a anoitecer. / Vai lá para o outro lado do rio, / passa a noite passeando / pelas águas do Andirá, / só volta de madrugada. / Geralmente chega bem devagarinho, / brincando com o verde do capim-agulha. / Mas tem vezes que ele chega correndo / varando a floresta no meio da noite / para avisar ofegante / que o temporal já vem que vem danando. / Para onde é que foi o vento?, / perguntei uma noitinha ao Marcote,, / o meu pequenino amigo, / frágil flor enferma / da fome de Barreirinha. / O vento foi descansar, ele hoje trabalhou já demais, / o vento foi dormir lá no Andirá, / ele gosta lá das águas / - me respondeu com os olhos brilhando na noite / o menino meu companheiro, / que num anoitecer chuvoso nos deixou / e também está demorando a voltar. / Como a luz esgarçada de um fim de primavera / á se foi Marcotte, todo entrevado, / mordido pelos nervos da injustiça, / subindo as águas barrentas do Paraná do Ramos, / a tristeza de uma brisa balançando / as varandas de sua rede encardida. / Naquele entardecer eu sei que o vento com quem ele conversava tanto, / não quis ir descansar lá no meio das águas, / preferiu seguir junto com o menino, até entregá-lo, na cidade grande / a ventos que ainda sopram solidários. / Nesta manhã de domingo de verão, / os meus olhos amendoados se entreabrem / numa sala de hospital de Ipanema, / onde lhe arrancaram do tórax / aberto com ciência e ternura / um tumor do tamanho de uma esperança apodrecida, / cujas raízes a ciência localiza / na altura cervical das vértebras / do caboclo menino. Na verdade, / estão fincadas na fundura escura / das lamas que afogaram a sua infância / num igapó de febre e indiferença. Extraído da obra Mormaço na floresta (Civilização Brasileira, 1981), do premiadíssimo poeta amazonense Thiago de Mello. Veja mais aqui.

A ARTE DE KATHERINE CROCKER
A arte da atriz, bailarina e artista performática Katherine Crocker.


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&
Varal da vida, o pensamento de Carlos Matus, a fotografia de Russel James, a pintura de Renato Donzell & Agnes-Cecile aqui.
O amor move seres e coisas, a literatura de Clarice Lispector, a escultura de Sue Adams, a arte de Gabriela Morawetz & Luciah Lopez aqui.


GOLDING, BALMONT, STEINER, NORBERT ELIAS, MILTON NASCIMENTO, KIAROSTAMI & FRANÇOISE GILOT

TRÊS & UMA VIDA SÓ – Imagem: A Gordiuszi csomó III (2005), da pintora francesa Françoise Gilot . - Numa bela manhã de 1552, nascia E...