segunda-feira, setembro 22, 2008

LITERATURA DE CORDEL - O CASAMENTO DA PORCA COM ZÉ DA LASCA



Imagem recolhida de Helga Rackel.

O CASAMENTO DA PORCA COM ZÉ DA LASCA

Manoel Caboclo e Silva

Leitores eu vou contar
Uma estória que passou
No Juazeiro do Norte
Esta noticia vagou:
“Uma mulher virou porca
Porque à mãe açoitou”.

Era desobediente
No dia que se danava
Não tomava os conselhos
Que a sua mãe lhe dava
Saia à boca da noite
À madrugada voltava.

Um dia ela disse à mãe:
- Hoje é o dia de eu beber
E dançar agarradinha
Até o dia amanhecer
Quando voltar, por favor
Não venha me aborrecer.

E não tardou muito tempo
A mãe dar conselho a ela
Ela igual a uma cobra
Pegou a mãe pela goela
Derrubou, montou-se em cima
Começou a bater nela.

Depois que açoitou a mãe
Foi na bodega beber
A velha disse: - Eu confio
Em Deus, no grande poder
Tu vais virar uma porca
Pra toda noite correr.

Aquela filha maldita
Foi ficando diferente
Crescendo as duas orelhas
E logo rapidamente
Se transformou numa porca
E correu ligeiramente.

Balançou o esqueleto
Preto, da cor de cavalo
E em cada mocotó
Criou logo um esporão
Saia fogo dos olhos
Que parecia um dragão.

No dia de sexta-feira
O lobisomem corria
Pegava cachorro novo
Rasgava o fato e comia
Sangrava jumento velho
Tirava o sangue e bebia.

Corria sete cidades
Que a poeira levantava
Ia à praia comer peixes
Mortos que a maré jogava
Nas águas do oceano
Onde a porca se banhava.

Tinha um tal de Zé da Lasca
Um cabra de vida errada
Que não temia o perigo
Não acreditava em nada
Não gostava de mulher
Nunca teve namorada.

O José sempre dizia
- Feitiço é para o demente
Essa estória de feitiço
É uma imprensa da mente
Existe é truque bem feito
Para enganar muita gente.

Estória de lobisomem
Eu não posso acreditar
Como seja, aquela mossa
Numa porca se virar?
Acho ela bonitinha
Com ela vou me casar.

E falou em casamento
Com esta tal Mariquinha
Sentou-se pertinho dela
Achando-a engraçadinha
Começou a namorar
No mesmo dia à tardinha.

Numa noite enluarada
Saíram a passear
De braços dados, um no outro
Começaram a conversar.
Ele disse: - Já é tarde
Pra casa vamos voltar?

Ela disse: - Não senhor!
Vou descansar um bocado
Deitar-me agora em seu colo
Fazer carinho e agrado
Ainda mais hoje mesmo
Vamos casar noutro estado.

Com estas palavras o moço
Desconfiou da cilada
Foi olhando para ela
Estava desfigurada
Se virando numa porca
Com a mão dele abraçada.

Ele quis correr, não pôde
Porque estava agarrado
Deu um pulo para cima
Desceu, ficou enganchado
E a porca fez carreira
Levando ele montado.

E fez logo parafuso
Que a poeira cobria.
Correram em sete estados
Por cidade e freguesia
Foram na praia e voltaram
Antes de amanhecer o dia.

Fora para o Rio Grande
Voltaram pro Ceará
Seguiram pro Piaui
Maranhão e o Pará
Visitaram Amazonas
De lá foram ao Paraná.

Saltou no meio da rodagem
Atacou um caminhão
Quebrou os feixos de mola
Entortou a transmissão
Deu meia-volta e quebrou
A barra da direção.

Torceu os dois semi-eixos
Quebrou a longarina
Furou o radiador
Desmantelou a bobuna
Passou os dentes, cortou
A correia ventulina.

Arrancou todas as válvulas
Pistão, coroa e pinhão
Espatifou a biela
Freio de pé e de mão
Quebrou o diferencial
E co cano de escapação.

Mexeu em todos os parafusos
Fez a maior confusão
Cortou os fios de velas
Arrancou a instalação
Amassou o platinado
Caixa-de-marcha e tampão.

A porca rangia os dentes
Fazendo grande chacina
Subiu na carroçaria
Mijou dentro da cabina
Tomou um banho a seu gosto
No tanque de gasolina.

O motorista correu
Deixando o carro quebrado
O ajudante ficou
Dando grito esfarrapado
Só pôde sair dali
Depois que tinha mamado.

A porca saiu correndo
Com Zé da Lasca montado
Foi parar em um chiqueiro
Perto de um curral de gado
Na lama tomou um banho
Com Zé da Lasca agarrado.

Em uma cidade na frente
Foi avistando um cruzeiro
A porca entrou na igreja
Fez o maior desespero
Sacudiu uma pedrada
Na terra do padroeiro.

Deu um pulo de costas
Derrubou São Severino
Peitou em Santa Teresa
Brigou com São Guilhermino
Mordeu santa Catarina
E bateu em São Firmino.

Subiu a igreja acima
Desceu pelo patamar
De novo entrou na igreja
Deu três coices no altar
Neste grande rebuliço
Fizeram o sino tocar.

Nisto o vigário chegou
Chamou por Nossa Senhora
A porca se transformou
Em mulher na mesma hora
E foi dizendo: - Seu padre
Queremos casar agora.

O padre disse: – Está certo
O casamento se faz
Nem precisa dar os nomes
Da moça, nem do rapaz
Por mim já estão casados
Podem ir viver em paz.

Quem duvidar desta estória
Diz que não é verdade
Não acreditando em mim
Pergunte a Pedro Bandeira
Foi ele com Expedito
Que escreveram a primeira.

MANOEL CABOCLO E SILVA – O poeta, editor, tipógrafo e almanaquista cearense de Juazeiro do Norte, Manoel Caboclo e Silva (1916-1996), também foi agricultor e astrólogo, tendo uma trajetória que, segundo Gilmar Carvalho, fundiu cultura oral e escrita, ciência e magia, passado e futuro na trama de um texto tão rico quanto as experiências que acumulou. Para o poeta: "Cordel não é aquele que está depundurado num cordão, é aquele que foi feito com as cordas do coração".

FONTES:
ABREU, Márcia. História de cordéis e folhetos. Campinas: Mercado de Letras, 1999.
ALMEIDA, Mauro William Barbosa de. Folhetos - A literatura de cordel no NE brasileiro.. São Paulo: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, USP, vol. 1, 1979.
BATISTA, Sebastião Nunes. Antologia da literatura de cordel. Natal: Fundação José Augusto, 1977.
CAVALCANTE, Rodolfo Coelho. Cordel. São Paulo: Hedra, 2003.
CARDOSO, Tania Maria de Sousa; Elementos para uma biografia de José Pacheco e Rodolfo Coelho. Natal: UERN, s/d.
CARVALHO, Gilmar. Manoel Caboclo e Silva. São Paulo: Hedra, 2000.
CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Global Editora, 2002.
LOPES, Ribamar (org.). Literatura de cordel — Antologia. Fortaleza, Ministério do Interior/Banco do Brasil, 1983.
MEYER, Marlyse. Autores de cordel. São Paulo: Abril, 1980.
SANTOS, Olga de Jesus; VIANA, Marilena. O negro na literatura de cordel. Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa, 1989.

VEJA MAIS:
LITERATURA DE CORDEL

 

Veja mais sobre:
Jung & Holística, André Malraux, Leilah Assumpção, Haroldo Marinho Barbosa, Antonín Mánes, Coletivo Chama, Viúvas de marido vivo, Maria de Fátima Monteiro, Pedro Cabral Filho & Goretti Pompe aqui.

E mais:
Quintal dos milagres aqui e aqui.
Cordel Aos poetas clássicos, de Patativa do Assaré aqui.
A poesia de Clauky Boom aqui.
Moro num pais tropicaos, de Marcio Baraldi aqui.
Cordel Eu vi o brasí jogá, de Zé Brejêro aqui.
As olimpíadas do Fecamepa aqui.
A arte de Ana Luisa Kaminski aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.
 


KRISHNAMURTI, MILLÔR, CELSO FURTADO, JOSEPH CAMPBELL, BARBOSA LIMA SOBRINHO, GILVAN LEMOS, RIO UNA & MARQUINHOS CABRAL

MARQUINHOS CABRAL: DESDE MENINO SOLTO NA BURAQUEIRA – A gente aprontou muitas e tantas no quintal lá de casa e nos cômodos da casa dele ...