segunda-feira, setembro 22, 2008

GARAUDY, TRACY CHAPMAN, ARUNDHATI ROY, TRUFFAUT, VALUNA & LITERATURA DE CORDEL


Claro, há momentos aqui e ali que eu mudaria. Mas ter esse sucesso - apesar de esmagador naquele momento, e seria a qualquer momento, eu acho - me deu liberdade artística e a chance de continuar fazendo músicas que pareciam boas para mim. Sou muito grato por isso; não há razão para eu não estar.
A arte da cantora e compositora estadunidense Tracy Chapman. Veja mais aqui & aqui.

VALUNA: UM PASSO A MAIS & ELA, A MULHER DA SOMBRINHA - Era Camocituba e eu sozinho em Camocim quase ia pra Santa Luzia, já era 29 de dezembro no sitio São João da Barra, onde uma frondosa Guabiraba que se chamou Itapecó, passava pelo Seco e Tanque de Piabas. Os dias tão mesmos como lá e cá, ou acolá: o carro-de-boi moía o silêncio na rodagem entre cercas, gritaria de meninos espalhando o brejo e a espionagem de capangas que tudo espreitavam: olhos invisíveis no matagal. Eu nem nem, fui dar na Casa Nova pela Aba da Serra do Monte que era Camaratuba, lá pras bandas da Barra do Riachão e Santana do São Joaquim. Passei pelo Seco e do Sapo, até a Barragem Cianinha. Cheguei em Laje Grande, já era terra de Catende. Eu que fui jundiá que saí das águas para ser homem feito, fui danado pra Catende com vontade de chegar: Isso é planta que brilha ou pulga do mato? É o trem das Alagoas, alesado! Eita! Lá vou eu para a terra da morena do cabelo cacheado. – Se assunte, seu cabra! É tupi ou do Congo? Larga de ser folgado, bestão! Ué, se vem de Palmares, fique certo, só é macho se tiver furunfado de saia por aqui! Oxe, tais pensando que tais aonde, hem? É cana-caiana, maior canavial, haja da boa pra gente chupar! Ih, já chegou! E pelo Camevô, pelo Limão. E lá ia eu já do Leão XIII para a Árvore da Vida, só pra ver a Mulher da Sombrinha sair meia noite do cemitério, na sexta de Zé-Pereira. Coisa mais bonita de se ver. Ah, como era bão! Saía trocando as pernas pelo arruado da usina até subir pra Serra da Prata e de lá vê o Caudal de Pelópidas, jogando conversa fora nos copos e meiotas de Marcos Catende com leros de nem se lembrar, até findar no mundo perdido: - Onde é que eu estou? Ah, isso aqui é bom demais! – Te aquieta, fuleiro! Lá eu namorava as estrelas de todas as constelações! Tinha moça bonita para passar troco e ficar todo trocado! Uma infieira de sestrosas e de tuia! Cada uma mais linda que a outra! Valei-me que assim eu folgo! – Segura o jipe, safado, essa tua cachaça já está passando da conta! Ah, quanto seio bonito, quanta coxa de perna jeitosa, ah, é embaixo duma saia dessa que eu quero me esconder! Eu quero é mandar ver até me perder no trevo pra correr bicho em Lage Grande. – Ah, já passou, tais quase é em Agrestina! Danou-se! Ah, se não tem história, eu invento. Faz a volta, cambiteiro, que o paraíso é lá pra trás. Vambora pra terra de mulher vistosa! Eu só espichando o pixaim, metido a poetar: se o mundo está de pernas pro ar, não sou eu que sozinho vou essa zona consertar. Né, não? E se tudo está troncho de tão desfigurado, é que fazem dum redondo findar mais que quadrado! U-hu! A coisa está bisonha e cheia dos tremeliques, é que não tem nada de sério, vai se ver, é só trambique! O pencó está engrossando, chega mudar de figura! Pois é, tanta chatice tola pra pouca criatura. É gente como a praga de gravata lavada, tem até enxerido sem lenço só dizendo: É o descontramantelo da desembestação! Isso é lá prosopopeia, meu? É a maior danação! Eu só largando os meus motejos, todo cheio de tantos brocardos, haja quantos adágios entre fogos e ventos, pelos raios dos trovões, pelas clareiras e coivaras. Todo bacurau feito flecha entre cunhatãs e cunhãs, era eu: quando aparecia a papaceia na boquinha da noite é que as mocinhas biqueiras faziam as onze e eu lá só espiando, mutuca no roçado, só curtindo o cheiro das calcinhas estufadas minando nas intimidades. Ah, quanto cangote cheiroso de moça namoradeira que passa toda reboladeira e eu na tubiba pra fazer sopa. Só se ouvia as mães aflitas gritando: - Segura chinela na sola do pé, menina! E eu só ali amoitando o gingado delas. – Se ajeite, sem-vergonha! Oxe, nunca fui desses mecos! Mentira, foi sim. Vixe! Querem queimar meu filme? Destá! Estou ligado é no percurso dos pés andejos dessas reboculosas que querem se perder por aí, preu achar agorinha! E quanto mais ela ia pra lá e pra cá, mais eu queria era ficar. E de vez! Nem vontade de voltar deu, esqueci. Só me perder num fungado e ficar agarrado nela de nunca mais largar, só na cantiga do trem: vou danado pra Catende, Ascenso, vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, com vontade de chegar. Naquela segunda feira tomei conhecimento de que corria um boato de décadas, de que uma linda mulher dava sumiço nos trabalhadores da Usina. Ela sensual pelas ruas, mas ninguém via. Como é que pode? Só se davam conta quando desaparecia um entre os homens, funcionários da usina canavieira, para logo atribuírem a ela o seu desaparecimento. Todos falavam, porém, jamais tinham sequer visto. Só se sabia que apenas os escolhidos enxergavam a sua sedução. Anos e anos se passaram e eu lá, a cada safra, sempre às sextas-feiras, desapareciam os homens. E eu? Fizeram vigilância na cidade para flagrar seus passos e dar cabo desses desaparecimentos, todas investidas infrutíferas. No final de semana, sempre havia o alvoroço de acontecimentos similares. E todos logo diziam: - Foi a mulher da sombrinha! Certa feita, acertando passagem, dei de cara: era um semblante inenarravelmente bonito, se destacava na multidão. Tinha certeza de que já vira aquelas fascinantes faces outras vezes. Aliás, sempre que eu visitava a localidade, me deparava com aquele ser que logo impactava no meu íntimo, trazendo-me sensações desconhecidas. Qualquer volta que eu desse por quaisquer das vias dali, eu me pegava assuntando sua presença a me provocar. Até que um dia no Leão XIII, do palco pude vê-la na plateia; uma sensação de presença familiar. E eu já obsessivo por encontrá-la, ou pelo menos vê-la de qualquer forma, lá estava, ali, linda como sempre, bem pertinho. Mais uma vez ela estava ali e eu não sabia como fazer para tê-la ao meu alcance, isso eu já tentara diversas vezes sem êxito, sempre que estava por ali. Era, inclusive, vigente o ditado de que naquela cidade os habitantes eram majoritariamente femininos, na proporção de trinta por um. E isso devido ao desaparecimento costumeiro das sextas dos marmanjos por mais de uns não sei quantos anos ou mais. Pois bem, de sopetão, aquela bela mulher encheu-me de vida e prazer. Agarrou-me num beijo inesquecivelmente demorado. Senti seu hálito de flor, seu perfumado corpo elegantemente assimétrico com curvas e saliências estonteantemente sedutoras, e sua respiração ofegante de fatal e exuberante insaciável. Remexeu-me as entranhas, o sexo e todas as veias do meu corpo, dominando-me num beijo longo para lá de anímico e sideral. Era como se estivesse voando pelo universo agarrado às carnes suculentas de um ser sobrenatural. Foi demais, tão demais, de eu me perder de tudo, quando, depois do beijo, ela fitou-me, passou as mãos ternas e requerentes por meus cabelos, faces, pescoço, tórax, até descer ao meu sexo rijo e acariciá-lo deliciosamente. Suspirou e me disse: - Mais tarde quero vê-lo. Venha ao meu encontro. E saiu tal como entrou. Tive que passar um certo tempo para me recompor, embalado por aquele momento, não vá, por favor, ela sumira e eu desolado, a me recompor daquele encontro fortuito que fincara forte sua marca por todo meu corpo e alma. Saí e queria reencontrá-la. Onde? Nada, ninguém por ali. Vasculhei todos os cantos, nenhum sinal dela. A bexiga apertou, precisa da micção. E fiz ali, onde pude, quando uma mão delicada me pegou pelo braço. Era ela, flagrou-me a imediata inflação do meu membro com sua presença. Ela viu, passou a mão na protuberância que de mim se insinuava para ela e disse: - Venha, estava esperando. Puxou-me e seguimos andando pelas ruas, até darmos no cemitério da cidade. Hem? Ela virou-se agarrada ainda à minha mão, encarou-me com o olhar mais sensual que já vira e me disse: - Venha, preciso da sua ajuda, venha me salvar. E me levou entre as catacumbas até atrás de uma capela onde havia uma gruta que se iluminara de repente. Tremi, mas encarei. E me deparei com uma alcova cujo perfume inebriante me dominava. Ao chegar à sua cama, ela de forma materna e amante, me deitou e fez-se tudo a maior escuridão. A partir daí o maior prazer do universo me contemplou num gozo de orgasmo infindável. Viajei céus, infernos e paraísos, até ver-me restituído à vida como se vivendo num sonho perene que nunca mais me deixara acordar. Ao dar por mim, despertei e passei a ter a sensação de que ela vivia em mim, dentro de mim, acariciando meu coração e fazendo o meu ser sentir-se para sempre ao seu comando. Ela nunca mais saiu de dentro de mim, morando comigo em meu próprio corpo para nunca mais sair nem atormentar a cidade com desaparecimentos. Só as sextas pré-carnavalescas que ela fugia um tantinho de mim, para desfilar impune pelas ruas da cidade e com a madrugada já sábado, ela voltava pros meus sonhos, retornando aos seus domínios. E isso até o dia em que... Da primeira vez o menino nem sabia. Ouviu o apito: o que é isso? Na rodagem não havia ninguém pra dizer o que era. Outro assobio mais longo, olhos nos quatro cantos: tudo quieto, como sempre fora. Mais outro: que droga é nove? Alguém viu lá detrás do morro, algo que vinha na maior barulhada. Danou-se! Será o fim do mundo? E mais vinha: vou daqui, vou praí, vou te pegar! Vou daqui praí, vou te pegar! Se assunte menino! Pernas pra que te quero. Lá vem a geringonça! Escondeu-se de nada mais vê-lo, só o desmantelo e o povo acenando. Ué, ninguém correu não? Depois que o troço passava, era que ia ver. Era a Maria Fumaça, soube. E no segundo dia, não ficou não, as pernas tremiam: esse povo é tudo doido. Toda vez que apontava: Vou daqui, vou praí, vou te pegar! Com o tempo achou de topar e lá vinha: Vou daqui, vou praí, vou te pegar! Que venha! E veio, vinha virada na gota! Segura o pipoco, olha a coisa! Vou daqui, vou praí, vou te pegar! Vixe! Tudo parecia se desmanchar com a zoada! Eita, lá vem mesmo, passou. Ufa! É só isso? Já foi. Então todo dia, ele ali esperava: cadê o estrupício? E na hora de todo dia, lá vinha a danada: Vou daqui, vou praí, vou te pegar! Nem mais tinha medo, até acenava pro condutor! Ê maquinista! E ele acenava sorrindo puxando o apito: piuí, piuí. Isso era todo dia da meninice, até quase rapaz. É que havia crescido e precisava ir pra cidade trabalhar. Passaram-se os anos, décadas esquecidas. Até um dia, muitas invernadas de nem se lembrar, deu cara com a locomotiva na exposição: é ela. Oxe, ela mesma! E era aquela que passava todo dia. Os olhos de homem feito, virou menino outra vez. O céu, o canto dos pássaros, os campos, a rodagem, o povo converseiro, a vida fagueira. Ô tempo bom! Ficou admirando aquilo no mais fundo do peito, lembrando o tempo em que ela passava fazendo tudo tremer ao redor: Ô coisa bonita de se vê. Alguém falou perto: Por muito tempo, ela ia e vinha, levando gente e coisas. Era. E mais confidenciou: E eu era o maquinista. Virei-me, não havia ninguém. Procurei ao redor, nem sinal. Arrodeei a locomotiva, não tinha um pé de gente. Meio assustado, resolvi ir embora. Aí, alguém chamou: Ei, menino, lembra quando eu passava apitando e você gritava na beira da rodagem do engenho? Voltei-me de um pulo e era ele: o maquinista sorridente que acenava todos os dias na infância perdida. E danou-se a relatar o medo que dava a passagem do trem, até se acostumar com coisa tão medonha. Vi que falava sozinho e saí à procura dele, até chegar à recepção: Você viu o maquinista? Ah, ele morreu há mais de vinte anos, mas sempre aparece pra quem se aproxima dela. Ah é? É. Então esperei encostado nela, nunca mais ele reapareceu, a infância ficou no coração. Até que ela foi quem veio, aquela bela mulher me contou tudo. Aí, por isso fui tantas vezes danado pra Catende glosando o mote de Ascenso, muitas vezes para saudar Pelópidas e seu caudal, para abraçar Maurício e todos os Melos tataritaritatá, Davi e Ideais, Marcos agora em Maceió e a Mulher da Sombrinha sempre tão bela desaparecida e que me fazia sair a procura-la pela Serra da Prata entre os operários agora do fogo morto, e de quem nem lembro mais das sessões do cine Diamante e que passavam por mim em cada passada noite adentro. Fui danado pra Catende outras vezes como se cantasse para ninguém nunca chorar por mim – uma balada de quem ia sempre embora -, e encontrei os passageiros de ontens e os desabrigados moradores de rua de hoje inventando seu abrigo com os fantasmas da locomotiva primeva, as vítimas do preconceito, os malvistos de qualquer esquina, os anjos caídos, os doidos e fogueteiros, os que se escondiam para queimar suas fogueiras, os invisíveis das noites e dias entre guenzos e bichanos famintos. Fui uma vez e fui de novo porque havia uma festa de todas as tribos, porque o imaginauta supercultor Gugha Távora urdia o bem pintando o sete com todas as cores criatinovadoras no espaço que era a secretaria para a biblioteca da cultura catendense, e Aprisco riscava o grafite que branquinho HenriqueTeixeira recitava no baque do DJ Passarinho e nas mandalas de Henrique Bem; porque de Caruaru, Zé Galdino embolava as cores do Vale do Una de Profeta e Durán y Durán; os bonecos de Epifânio, as artes de Cicinho e o passeio teatral da Paula aplaudidas pelos de Fenelon, João Paulo e Mary que viam da Cyane os traços dos desenhos no meio das performances de todas as utopias subversivas dos que ali dançavam com frases do papo cabeça e de quantos passavam para vários encontros e vastos desencontros, tantos vivos e outros mortos no que foi estação de antanho e isso e aquilo, entre chiques e chocantes até a rebeldia boco-moca dos que se recusavam a viver aquela ousadia de festa pra seguirem as regras sociais que são suas verdades e nem sabiam de qual das mentiras virou sectária dum dogmatismo, porque tudo era apenas um pedaço da história que os olhos não compravam por levarem pra depois o que foi e o que estava lá e me chegava bem danado sem vontade até de voltar. Quando dei fé estava na serra do Cruzeiro e fui Prata de Batateiras em Belém de Maria, criado na mata. Nem sabia que era 31 de dezembro, o ano novo que não é o meu, na rota dos escravos que iam pro Quilombo e ficavam em Macaco. Era Aurora com a passagem das tropas de um marechal que ficou admirado com o amanhecer do lugar e conseguiu convencer os habitantes pela mudança do nome. Foi ali que ouvi um xexéu que me enganava em Campos Frios e tinha de ir para Palmares, não sei a razão ou motivo, mas tinha. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.


DITOS & DESDITOS - Só existe um sonho que vale a pena ter: viver enquanto você está vivo e morrer apenas quando estiver morto. Nossos sonhos foram medicados. Nós não pertencemos a nenhum lugar. Navegamos sem ancoragem em mares turbulentos. Podemos nunca ter permissão para desembarcar. Nossas tristezas nunca serão tristes o suficiente. Nossas alegrias nunca são felizes o suficiente. Nossos sonhos nunca são grandes o suficiente. Nossas vidas nunca são importantes o suficiente. Para importar... O modo de vida estadunidense não é sustentável. Não reconhece que existe um mundo além da América. Quem sabe pela palavra adeus que tipo de despedida nos espera. Mas em momentos como esses, apenas as pequenas coisas são ditas. Grandes coisas estão escondidas por dentro. É isso que as palavras descuidadas fazem. Fazem as pessoas gostarem um pouco menos de nós. Pensamento da escritora e ativista indiana Arundhati Roy. Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: Aquilo que fizemos ontem continua conosco hoje. O gosto é resultado de mil desgostos. Trabalhamos com as fontes de vida: jogar e perder. Quando se pode alternar o humor com a melancolia, alcança-se o sucesso, mas quando as mesmas coisas são alegres e melancólicas em simultâneo, é simplesmente maravilhoso. Sempre preferi a reflexão da vida à própria vida. Três filmes por dia, três livros por semana e discos de boa música seriam suficientes para me fazer feliz com o dia da minha morte. A verdade de uma criança é realmente algo absoluto. Pensamento do cineasta francês François Truffaut (1932-1984). Veja mais aqui.

O AMOR - O amor é a prova da existência de outros e da existência deste mundo soberanamente real: o futuro que, sozinho, dá sentido ao presente. Amar um homem ou uma mulher é descobrir uma dimensão nova da vida, um novo e imprevisível futuro. O amor, como a prece, é para ser despertado, preparado para a oferenda, como aberto ao acolhimento. Este amor total não separa o corpo e a alma, que são apenas duas abstrações, dois ângulos de tomada de vista sobre uma realidade única. O amor começa quando preferimos o outro a nós mesmo, quando aceitamos a diferença e a sua imprescritível liberdade. Ser capaz de acolher no outro aquilo mesmo que desperta o ciúme animal, que é sinal de amor próprio e não de amor. Nada é maior que essa partilha da verdadeira personalidade de cada um. Um amor que não seja essa criação continuada de um pelo outro, mesmo ao preço dos dilaceramentos trágicos, é o contrário do amor. Quem não estiver preparado para enfrentar tudo isso não é digno do amor. A poesia e o amor são, com efeito, as formas mais imediatamente apreensíveis da transcendência do ser. Pensamento do filósofo francês Roger Garaudy (1913-2012). Veja mais aqui, aqui & aqui.

O ESCRITOR & A LITERATURA – [...] O escritor parou de conceber seu trabalho como a reprodução mais ou menos fiel, da qual a linguagem seria o instrumento mais ou menos dócil, de uma realidade preexistente, idéia ou sentimento, natureza ou sociedade. A linguagem é para ele a única realidade, ao mesmo tempo aquela de onde ele parte e para onde ele tende, da qual ele fala e que lhe serve para falar. Trechos extraídos da obra La Littérature en France depuis 1945 (Bordas, 1970), de Bruno Vercier, Jacques Lecarme, Michel Autrand e Jacques Bersani.


Imagem recolhida de Helga Rackel.

O CASAMENTO DA PORCA COM ZÉ DA LASCA

Manoel Caboclo e Silva

Leitores eu vou contar
Uma estória que passou
No Juazeiro do Norte
Esta noticia vagou:
“Uma mulher virou porca
Porque à mãe açoitou”.

Era desobediente
No dia que se danava
Não tomava os conselhos
Que a sua mãe lhe dava
Saia à boca da noite
À madrugada voltava.

Um dia ela disse à mãe:
- Hoje é o dia de eu beber
E dançar agarradinha
Até o dia amanhecer
Quando voltar, por favor
Não venha me aborrecer.

E não tardou muito tempo
A mãe dar conselho a ela
Ela igual a uma cobra
Pegou a mãe pela goela
Derrubou, montou-se em cima
Começou a bater nela.

Depois que açoitou a mãe
Foi na bodega beber
A velha disse: - Eu confio
Em Deus, no grande poder
Tu vais virar uma porca
Pra toda noite correr.

Aquela filha maldita
Foi ficando diferente
Crescendo as duas orelhas
E logo rapidamente
Se transformou numa porca
E correu ligeiramente.

Balançou o esqueleto
Preto, da cor de cavalo
E em cada mocotó
Criou logo um esporão
Saia fogo dos olhos
Que parecia um dragão.

No dia de sexta-feira
O lobisomem corria
Pegava cachorro novo
Rasgava o fato e comia
Sangrava jumento velho
Tirava o sangue e bebia.

Corria sete cidades
Que a poeira levantava
Ia à praia comer peixes
Mortos que a maré jogava
Nas águas do oceano
Onde a porca se banhava.

Tinha um tal de Zé da Lasca
Um cabra de vida errada
Que não temia o perigo
Não acreditava em nada
Não gostava de mulher
Nunca teve namorada.

O José sempre dizia
- Feitiço é para o demente
Essa estória de feitiço
É uma imprensa da mente
Existe é truque bem feito
Para enganar muita gente.

Estória de lobisomem
Eu não posso acreditar
Como seja, aquela mossa
Numa porca se virar?
Acho ela bonitinha
Com ela vou me casar.

E falou em casamento
Com esta tal Mariquinha
Sentou-se pertinho dela
Achando-a engraçadinha
Começou a namorar
No mesmo dia à tardinha.

Numa noite enluarada
Saíram a passear
De braços dados, um no outro
Começaram a conversar.
Ele disse: - Já é tarde
Pra casa vamos voltar?

Ela disse: - Não senhor!
Vou descansar um bocado
Deitar-me agora em seu colo
Fazer carinho e agrado
Ainda mais hoje mesmo
Vamos casar noutro estado.

Com estas palavras o moço
Desconfiou da cilada
Foi olhando para ela
Estava desfigurada
Se virando numa porca
Com a mão dele abraçada.

Ele quis correr, não pôde
Porque estava agarrado
Deu um pulo para cima
Desceu, ficou enganchado
E a porca fez carreira
Levando ele montado.

E fez logo parafuso
Que a poeira cobria.
Correram em sete estados
Por cidade e freguesia
Foram na praia e voltaram
Antes de amanhecer o dia.

Fora para o Rio Grande
Voltaram pro Ceará
Seguiram pro Piaui
Maranhão e o Pará
Visitaram Amazonas
De lá foram ao Paraná.

Saltou no meio da rodagem
Atacou um caminhão
Quebrou os feixos de mola
Entortou a transmissão
Deu meia-volta e quebrou
A barra da direção.

Torceu os dois semi-eixos
Quebrou a longarina
Furou o radiador
Desmantelou a bobuna
Passou os dentes, cortou
A correia ventulina.

Arrancou todas as válvulas
Pistão, coroa e pinhão
Espatifou a biela
Freio de pé e de mão
Quebrou o diferencial
E co cano de escapação.

Mexeu em todos os parafusos
Fez a maior confusão
Cortou os fios de velas
Arrancou a instalação
Amassou o platinado
Caixa-de-marcha e tampão.

A porca rangia os dentes
Fazendo grande chacina
Subiu na carroçaria
Mijou dentro da cabina
Tomou um banho a seu gosto
No tanque de gasolina.

O motorista correu
Deixando o carro quebrado
O ajudante ficou
Dando grito esfarrapado
Só pôde sair dali
Depois que tinha mamado.

A porca saiu correndo
Com Zé da Lasca montado
Foi parar em um chiqueiro
Perto de um curral de gado
Na lama tomou um banho
Com Zé da Lasca agarrado.

Em uma cidade na frente
Foi avistando um cruzeiro
A porca entrou na igreja
Fez o maior desespero
Sacudiu uma pedrada
Na terra do padroeiro.

Deu um pulo de costas
Derrubou São Severino
Peitou em Santa Teresa
Brigou com São Guilhermino
Mordeu santa Catarina
E bateu em São Firmino.

Subiu a igreja acima
Desceu pelo patamar
De novo entrou na igreja
Deu três coices no altar
Neste grande rebuliço
Fizeram o sino tocar.

Nisto o vigário chegou
Chamou por Nossa Senhora
A porca se transformou
Em mulher na mesma hora
E foi dizendo: - Seu padre
Queremos casar agora.

O padre disse: – Está certo
O casamento se faz
Nem precisa dar os nomes
Da moça, nem do rapaz
Por mim já estão casados
Podem ir viver em paz.

Quem duvidar desta estória
Diz que não é verdade
Não acreditando em mim
Pergunte a Pedro Bandeira
Foi ele com Expedito
Que escreveram a primeira.

MANOEL CABOCLO E SILVA – O poeta, editor, tipógrafo e almanaquista cearense de Juazeiro do Norte, Manoel Caboclo e Silva (1916-1996), também foi agricultor e astrólogo, tendo uma trajetória que, segundo Gilmar Carvalho, fundiu cultura oral e escrita, ciência e magia, passado e futuro na trama de um texto tão rico quanto as experiências que acumulou. Para o poeta: "Cordel não é aquele que está depundurado num cordão, é aquele que foi feito com as cordas do coração".

FONTES:
ABREU, Márcia. História de cordéis e folhetos. Campinas: Mercado de Letras, 1999.
ALMEIDA, Mauro William Barbosa de. Folhetos - A literatura de cordel no NE brasileiro.. São Paulo: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, USP, vol. 1, 1979.
BATISTA, Sebastião Nunes. Antologia da literatura de cordel. Natal: Fundação José Augusto, 1977.
CAVALCANTE, Rodolfo Coelho. Cordel. São Paulo: Hedra, 2003.
CARDOSO, Tania Maria de Sousa; Elementos para uma biografia de José Pacheco e Rodolfo Coelho. Natal: UERN, s/d.
CARVALHO, Gilmar. Manoel Caboclo e Silva. São Paulo: Hedra, 2000.
CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Global Editora, 2002.
LOPES, Ribamar (org.). Literatura de cordel — Antologia. Fortaleza, Ministério do Interior/Banco do Brasil, 1983.
MEYER, Marlyse. Autores de cordel. São Paulo: Abril, 1980.
SANTOS, Olga de Jesus; VIANA, Marilena. O negro na literatura de cordel. Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa, 1989.

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