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terça-feira, novembro 19, 2024

PATRICIA CHURCHLAND, VÉRONIQUE OVALDÉ, WIDAD BENMOUSSA & PERIFERIAS INDÍGENAS DE GIVA SILVA

 

Imagem: Foto AcervoLAM.

Ao som do show Transmutando pássaros (2020), da flautista Tayhná Oliveira.

 

Lua de Maceió... - Não era a desejada de Morango, ah, tem nada não. Fazer o quê? Inadvertido quase deixei passar a do Castor que fugia das nuvens naquela manhã quase nublada. A surpresa: nela a deusa Ya-cy levada pelo raio de Aram e quase escondida pelos galhos abundantes. Era ela, sim. E me viu ali, vigilante. Fez a volta e lá vinha em minha direção. E eu: prestes a me sentir levado pelo estrondoso impacto do asteroide Apophis dentro de mim. Aproximou-se rutilante a levitar lenta e elegantemente, como quem desce emoldurada pela constelação da Anta, um convite para a festa. Achegou-se como se fosse a bela estrela Naiá incendiando a solidão primaveril dos meus sonhos insensatos – um frio na barriga, vertigem nas ideias e agora o que poderia fazer, sei lá. E dei fé ali, olhos nos meus e o sorriso ensolarado: Awê! Tudo fiz para manter a lucidez, segurava a onda como podia. Abriu-me os braços como quem regia a vida marinha no meu sangue em pororoca. Já quase amanhecia e ali chegou para danação de tudo nas minhas entranhas, revolvendo as mais remotas memórias do que sequer sabia. Retribuí seu efusivo contentamento. Fiz-lhe as honras e já me tinha por Jáxi, o caçula irmão do Guaraci, embalado por verdadeira celebração de ritual pataxó. Logo o clarão do dia e ela então deitou-se nua, minguante, na palma da minha mão. E me reluzia crescente para ser nova todo dia. E a palavra nela fez-se vela acesa e no seu corpo escrevi o tempo inventando de nunca se extinguir. Só tinha um lugar para levá-la no meio das minhas clandestinas emoções – era ela todo espaço, onde mais afora meu coração desamparado. Dei-lhe meu sorriso como se fosse a flor que não tinha às mãos e nela a vindoura consagração estival da mulher avalovara no perigeu. Por gratidão fez-se amor na Alvorada. Até mais ver.


Arundhati Roy: Não existe realmente algo como "os sem voz". Existem apenas os deliberadamente silenciados, ou os preferencialmente não ouvidos.... O problema é que, uma vez que você vê, não consegue deixar de ver. E, uma vez que você viu, ficar quieto, não dizer nada, se torna um ato tão político quanto falar. Não há inocência. De qualquer forma, você é responsável... Veja mais aqui.

Marjane Satrapi: A vida é absolutamente insuportável. E nós vamos morrer... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, & aqui.

Connie Palmen: A cada nascimento, uma morte é dada... Veja mais aquí.

 

LIÇÃO

Imagem: AcervoLAM.

A minha vizinha no amor \ disse-me: \ Por que há tanta janela iluminada \ no teu corpo? \ Por que tantas flores as envolvem? \ Que são essas numerosas luas? \ Quem te ofereceu esses céus? \ A minha vizinha no amor \ ignora \ o amor.

Poema da poeta, artista plástica e repórter marroquina Widad Benmoussa, autora de obras como: Tenho uma raiz no vento (2001), Entre duas nuvens (2006), As janelas que abri sobre ti, Rabat (2006) e Tempestades do corpo (2008).

 

TENHAM CUIDADO, CRIANÇAS… - […] Uma pergunta que começa com o porquê é uma pergunta preguiçosa. […] Há algo de gentil no movimento das obsessões à medida que elas se deslocam para o mar. Eles param de incomodar você noite e dia. Isto não é uma capitulação nem um abandono. Eles estão ganhando tempo. [...]. Trechos extraídos da obra Soyez imprudents les enfants (Thélème, 2017), da escritora francesa Véronique Ovaldé. Veja mais aqui.

 

NEUROFILOSOFIA & FILOSOFIA DA MENTEO que posso e não posso imaginar é um fato psicológico sobre mim. Não é um fato metafísico profundo sobre a natureza do universo. Pensamento da filósofa canadense Patricia Smith Churchland, que no seu livro Touching a Nerve: The Self as Brain (W. W. Norton & Company, 2013), ela expressou que: […] Você se tornou consciente exatamente do que inconscientemente pretendia dizer apenas quando o disse. Você modifica seu discurso dependendo se está falando com uma criança, um colega, um aluno ou um reitor. Não conscientemente, provavelmente. Paradoxalmente, a fala é geralmente considerada um caso de comportamento consciente – comportamento pelo qual responsabilizamos as pessoas. Certamente, requer consciência: você não pode conversar durante o sono profundo ou em coma. No entanto, as atividades que organizam a produção da sua fala não são atividades conscientes. Falar é um negócio altamente qualificado, que depende do conhecimento inconsciente de precisamente o que dizer e como [...]. Já em El cerebro moral: Lo que la neurociencia nos cuenta sobre la moralidad (Paidós, 2020), ela considera que: […] A hipótese predominante é que o que nós, humanos, chamamos de "ética" ou "moralidade" é uma estrutura de comportamento social em quatro dimensões que é determinada pela inter-relação de diferentes processos cerebrais: (1) cuidado ou atenção aos outros (enraizado no apego aos membros da nossa família e preocupação com o seu bem-estar),11 (2) reconhecimento dos estados psicológicos dos outros (com base nas vantagens de prever o comportamento de terceiros), (3) resolução de problemas num contexto social (por exemplo, como devemos distribuir bens quando eles são escassos, como resolver disputas territoriais [...]. E no seu livro Neurophilosophy: Toward a Unified Science of the Mind/Brain (Bradford, 1986), ela conclui que: […] Se você se enraizar no chão, poderá se dar ao luxo de ser estúpido. [...]. Veja mais aqui.

 

PERIFERIA DAS PERIFERIAS, DE GIVA SILVA

[...] Reconhecer que os povos indígenas estão periferizados historicamente e que muitos corpos indígenas estãos periferizados e periferizados das suas identidades e que sofrem todo tipo de violências do colono-capitalismo, sem sequer ser estatística – já que formalmente não existem, logo, não fazem parte dos indicadores negativos aos quais a classe trabalhadora tem exposto as mazelas que sofre de um sistema perverso -, e são encarcerados e enterrados sem sequer ter tido acesso à sua memória ancestral [...].

Trecho de Na periferia das periferias, de territórios e corpos: povos indígenas e corpos indígenas, uma luta de mais de 500 anos!, do educador e comunicador Givanildo M. da Silva, extraído do volume Periferias no plural (Fundação Perseu Abramo, 2023), organizado por Paulo Cesar Ramos, Jaqueline Lima Santos, Victoria Lustosa Braga e Willian Haverman. Veja mais aqui.

&

USINA DE ARTE: EXPO ROBÓTICA

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Vem aí:

Dareladas – Centenário de Darel Valença Lins aqui.

Tem mais:

Livros Infantis Brincarte do Nitolino aqui.

Poemagens & outras versagens aqui.

Diário TTTTT aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

Faça seu TCC sem traumas – consultas e curso aqui.

VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

&

Crônica de amor por ela aqui.

 


quarta-feira, novembro 22, 2023

CONNIE PALMEN, VÂNIA VARGAS, GILVAN LEMOS & MUNDO POR VIR

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Bach, the Fly, and the Microphone (2009), Colours of Spain (2015) e Open Sky (2020), da premiada violonista australiana Stephania Jones.

 

MAIS DE TRÊS MILÊNIOS E A METÁFORA QUÂNTICA – Um dia sonhava e o Sol sorria. Seguia ararajuba ao lado de um tamanduá-bandeira. Logo deparei a ariranha às voltas do macaco-aranha-da-cara-preta (não era o boi da infância? Não, não era!). A onça pintada seguia a trilha do mico-leão-dourado, pronde vão, não sei. Parecia mais que o cervo do pantanal guiava o lobo-guará e o cuxiú-preto. E confundiam-me como se eu fosse o boto cor-de-rosa à porta do Inferno de Dante: Abandona toda esperança! Ora, não! Parecíamos mesmo o Die Brücke encarnando o Zaratustra nietzscheano na busca da realidade. Pois sempre desejei nunca correr perigo ao lidar com o impossível, porque havia me tornado uma ponte sobre águas turvas numa viagem pelas cidades invisíveis de Calvino. Todos comigo, então. Uma semana e lá estávamos nós ouvindo Rebecca Solnit: Caminhar… é como o corpo se mede em relação à terra. Escrever é dizer a ninguém e a todos o que não é possível dizer a alguém... Sim. Mais de um mês já se passara, de qualquer modo, quando dei por mim entardecia de manhã e o dia já era outro. Queimei meu filme, arranquei todas as máscaras e não importunei ninguém, longe a sombra de um erro grave e a avareza. Nem deu pra perceber que era fim de ano quando ouvi Arundhati Roy: Hoje, parece que lutamos pela injustiça, aplaudindo-a como se fosse um sonho digno, sagrado pelo sistema de castas... Pois é, uma década e ainda insultam o decoro: o abismo do caos. Restava-me apenas um só olhar, nada mais que isso e um século para que eu entornasse o silêncio com quem vem desde A.E.C. precisando lembrar d’A cor púrpura de Alice Walker. Nunca é demais relembrar, que o diga Ai Weiwei: O mundo é uma esfera. Não há Ocidente nem Oriente. Tudo é arte. Tudo é política. O poder tem muito medo da arte e do poeta. A arte traz a possibilidade de defender os direitos mais essenciais. Os artistas não precisam se tornar mais políticos. Eles precisam se tornar mais humanos... Aí me dei conta de tantos milênios e quantos equívocos para quem segue pela E.C., entre tremores de terra em Rio Formoso e Flores, afora outros abalos sísmicos vez ou outra Nordeste afora. E já que morri anteontem não vi lá muita coisa. O tempo passou e contar três mil é como um piscar de olhos – por isso só contam 2, ou lá, ou loa – repercutindo à revelia de muitos. E só. Quisera tarde antes fosse nunca. Porque a poesia é o sacrifício de quem sonha. E quanta é a metáfora do que cada um de nós somos e não nos damos conta. Sei dos meus pecados, cônscio ou não, todos os meus castigos, tenho lá minha culpas penduradas na garganta do destino. Adivinho um pouco a cada dia. Uma supernova eu dedico como se ficasse suspenso e não me esgotasse com um ponto final, tornando-me vírgula depois de reticências e até mais ver.

 

HÁ COISAS QUE NÃO SÃO COMPARTILHADAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

A morte por exemplo \ Ele deveria ir para o inferno apenas \ Quem foge sabe caminhar sem pressa através de cidades fantasmas \ ouça a madeira reclamar \ sinto que dá sob os pés \ Eles conhecem o som que tem expectativa nos passos a ressonância do medo/da emboscada \ Eles sabem que a qualquer momento debaixo do sapato \ você pode encontrar uma peça de roupa / a mão de um inimigo uma arma / um cigarro aceso um cuspe ou apenas poeira \ a poeira que foi feita para fazer os homens chorarem sem dor no peito \ a poeira que mais cedo ou mais tarde está destinada a morder \ Hoje eu sei que estou conhecendo o ritmo da curiosidade e da cautela \ enquanto me movo por um lugar que só me lembro \ quando em sonhos eu sonho \ eu empurro a porta \ minha sombra entra primeiro cai de cara \ ou talvez tenha estado lá olhando para o teto o tempo todo \ e do sonho dele surgiu meu começo \ Seus pés saem dos meus pés e da ponta de um deles \ o canto de uma carta aparece uma das cartas espalhadas pelo chão \ Eu me abaixo para pegá-los e quem estava deitado no chão desaparece \ Eu vou um pouco mais fundo \ Eu o encontro na frente \ seu olhar está esperando por mim \ Ele embaralha o baralho e joga em mim uma primeira carta que me atinge no peito \ A inocência ele diz / olhando nos meus olhos enquanto me força a ver mentalmente a frieza \ desde o momento em que coloquei na mesa como tudo que eu tinha \ sabendo que naquele jogo eu tinha que perder \ A segunda carta cai ao meu lado \ A calma ele diz olhando nos meus olhos enquanto eu sentia novamente o sangue circulando em meu peito \ como aquela primeira vez \ A terceira carta voou em direção ao meu rosto das pontas dos dedos \ A fé ele diz olhando nos meus olhos \ enquanto minhas mãos se lembravam da dor do qual foram feitos os altares demolidos \ A quarta carta roçou meu braço \ O coração ele diz olhando nos meus olhos \ então eu toquei meu peito e eu senti o vazio \ A quinta carta caiu aos meus pés \ E agora? \ pergunta olhando para mim com meus olhos \ O medo eu respondo e eu saio do quarto de costas para o espelho \ com a certeza de que isso é a última vez que vou perder.

Poema da escritora e jornalista guatemalteca Vânia Vargas.

 

SUA HISTÓRIA & A MINHA – [...] um poeta só pode tomar plena consciência de seu eu poético quando se apaixona por uma mulher em quem reside a deusa branca, alguém que une criação e destruição e que trará triunfo e destruição para sua vida. [...] Por que tão poucas pessoas entendem que o desdém dos outros, a condenação daqueles que você ama, na verdade fortalece o seu amor? Eu podia ler a consternação com a minha escolha nos olhos de todos ao meu redor. [...] Os amigos, assim como a família, querem que você permaneça inalterado, enquanto o amor tem a capacidade indecente de transformá-lo, de enriquecê-lo com uma nova visão de tudo o que você já conheceu. Quanto mais ela caía em desgraça com todos, mais obstinado era o meu impulso de protegê-la de um mundo hostil. [...] A memória é literária por natureza. Pega nos acontecimentos factuais e dá-lhes uma carga metafórica, emprestando ao que realmente aconteceu um peso simbólico, numa busca persistente pela segurança de uma história. [...] Eu, o grosseiro homem de Yorkshire, escolhi esta mulher exaltada acima de todas as outras, entreguei meu coração a uma criatura exuberante e excessiva, o protótipo da pretensão e da artificialidade, fanática, exagerada em todas as coisas.[...] Ela queria mais do que qualquer outra coisa amar alguém, mas quando realmente o fez, ela odiou. Ela queria mais do que tudo ser adorada, mas punia impiedosamente qualquer um que a amasse. [...] Não há paraíso sem cobra. [...] Tive que resistir à sensação de que o seu espírito mercantil estava corrompendo a pureza do meu amor pela poesia. [...] Criei coragem para fazer ao nosso mal-educado oráculo a pergunta que presumi — não, sabia — que obcecava minha noiva. Curvei-me sobre o quadro e perguntei se ficaríamos famosos. O impacto foi catastrófico e desafiou todas as minhas expectativas. Com força audaciosa, Pã nos mostrou por que o pânico recebeu seu nome: ele nos deu o maior susto de nossas vidas, como se tivéssemos nos tornado excessivamente familiares e não tivéssemos sido suficientemente respeitosos com sua divindade. Do nada, um marionetista furioso puxou abruptamente a mão de minha noiva, com os olhos cheios de lágrimas de medo, e - tendo desejado apenas agradá-la, perseguindo o sonho americano de uma existência gloriosa como um velho cão pastor obediente - eu escutei, atordoado, enquanto ela falava em línguas. Pan dispensou a lentidão do alfabeto e falou diretamente através dela em um rosnado profundo e sinistro, zombando de seu desejo por aquela exibição vazia, e perguntou se ela percebia que a fama que ela tanto desejava destruiria tudo o que ela tinha. [...] Tudo o que é negado e reprimido, todo conflito varrido para debaixo do tapete e rejeitado, numa cultura ou na existência de um indivíduo, procura uma saída e, em última análise – violento, destrutivo, diabolicamente disfarçado – volta-se contra a vida. [...]. Your Story, My Story (Amazon, 2021), da escritora holandesa Connie Palmen (pseudônimo de Aldegonda Petronella Huberta Maria Palmen). Veja mais aqui.

 

HÁ UM MUNDO POR VIR? - [...] O fim do mundo é um tema aparentemente interminável — pelo menos, é claro, até que ele aconteça. [...] Conforme vai se tornando cada vez mais evidente a gravidade da presente crise ambiental e civilizacional, proliferam novas e atualizam-se velhas variações em torno de uma antiquíssima ideia que chamaremos, em uma simplificação que este ensaio pretende complicar um pouco, “o fim do mundo”. São blockbusters do gênero fantástico, “docuficções” do History Channel, livros de vulgarização científica em vários níveis de complexidade, videogames, obras musicais e artísticas, blogs sintonizados em todas as faixas do espectro ideológico, reuniões científicas, revistas acadêmicas e redes de informação especializadas, relatórios e pronunciamentos de organizações mundiais as mais diversas, as invariavelmente frustrantes conferências de cúpula sobre o clima, simpósios de teologia, ensaios de filosofia, cerimônias da Nova Era e de outros movimentos neo-pagãos, um número exponencialmente crescente de manifestos políticos — toda sorte, enfim, de textos, contextos, veículos, enunciadores, públicos. A presença do tema na cultura contemporânea só tem feito aumentar, e cada vez mais rapidamente, justo como aquilo a que ele se refere, a saber, a intensificação das mudanças do macro-ambiente terrestre. Toda esta floração disfórica se dispõe na contracorrente do otimismo “humanista” predominante nos três ou quatro últimos séculos da história do Ocidente. [...] As coisas têm mudado tão rápido que se tornou difícil acompanhá-las [...] Falar no fim do mundo é falar na necessidade de imaginar, antes que um novo mundo em lugar deste nosso mundo presente, um novo povo; o povo que falta. Um povo que creia no mundo que ele deverá criar com o que de mundo nós deixamos a ele. [...]. Trechos extraídos da obra Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins (Desterro, Cultura e Barbárie\Instituto Socioambiental, 2014), da filósofa Débora Danowski e do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro.

 

O DEFUNTO AVENTUREIRO

[...] Lembrou que deixara de consertar as goteiras do quarto, botar água fervendo no formigueiro que aparecera bem debaixo da cama, endireitar a tranca da porta. À noite passada, não pudera dormir, cercado de pingos impertinentes. Graças a Deus, a noite hoje estava bonita. Sem lua, mas sem chuva. A verdade era que estava perdendo o gosto da habitação [...].

Trecho extraído da obra O defunto aventureiro (Bagaço, 2008), do escritor Gilvan Lemos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 



segunda-feira, novembro 25, 2019

ARUNDHATI ROY, MICHÈLE PETIT, ALEXANDRA WHITIGHAM, GEÓRGIA CREIMER, AMANDA LEAR & CARTA AO MEU PAI


CARTA AO MEU PAI – Conversamos muito e era pouco um ou dois dias corridos quase insones, diuturnos. Contamos estrelas, soltamos lorotas e nos embriagamos de ver o Sol nascer ou lembrar os cochilos nas urnas funerárias de Bilaro, a mesa grande e lá tia Arlinda, Nadeje, Lourdes, Conça e a outra que esqueci o nome (ah, lembrei, Angelita! Não podia esquecer os Gilsons...), de uma rua perto da casa de vovó, a bodega de Água Preta. Aprendi muitas e úteis lições, a velhice é sábia, eu sei, vô Arlindo era ele. A gente sempre teve uma relação de igual para igual. Na infância, o meu herói. Eu era o brinquedo de Emanoel, Paulo e Carlos, parceiro de Zito. Também premiado por Pai Lula e Carma, outra mesa enorme para minhas folganças, apreços muitos. Ainda menino, atendeu meu pedido para a responsabilidade laboral e me entregou, aos dez anos, para que eu vivesse sobre o bigodinho ralo como David de Dickens nas mãos do meu Uriah Heep. Foi tudo muito difícil, irrespirável. Fiz o que pude, inescapável. Tanto que no auge da adolescência, escolhas irreversíveis: saí do berço e da asa, assumi a vida e fui pro mundo, carregando o seu jeito no canto do lábio: a reprovação. Diferentemente de Kafka, eu o temia e perdi o medo: era como eu, talqualmente, cara a cara. Coisas que abomino, o fez. Ele lá, eu cá, Gonzagão & Gonzaguinha. Nas horas mais prementes, me dizia: seja o que for, se não tiver coragem, me chame que vou na frente. Não, era a disputa e eu queria ser tão quanto ele: não sou o filho, sou eu – assumia e fiz meu destino, outras escolhas. Perdi a pele, só agora tenho o que contar: tive que mentir e muito para sobreviver às bocarras inexoráveis. Quantas máscaras, todas, eu mesmo: o alter ego. Desde menino permeável às coisas do mundo, curiosíssimo. Não era eu o primogênito – uma irmã outra, antes, morrera eletrocutada. Outras três vieram depois de mim. A chatura da adolescência nos afastou. Só nos reencontramos maduros e aos poucos – afetos além da conta. Eu vivi a parte boa, minhas irmãs que tiveram paciência para aguentar a senilidade: Aninha, empoderada e de beiço virado: o meu apego, efígie, o outro lado que sou; Anginha, na viuvez, a companhia e o meu gesto infantil; e Georgia, a caçula, da mesma idade da minha filha, outra era e minha. Na estrada, desaprendi a família – quase para mim como o visto por Foucault ou as feridas e ausência presente da selva interior de Trevisan, me reduzi à solidão: o espermatozoide e o perdão interior. Só mais de vinte anos depois, nos reencontramos e fui, confesso, a contragosto. Para meu espanto, o ídolo do menino e o amigo se incorporaram e eu plantei minhas raízes perdidas: a vez de renovada interlocução, a verdadeira. Apartados, íntimos. Hoje meu pai se foi com meu filho morto, fiquei só e não seria a primeira vez. É a vida: um dia a gente ri; outro, chora; seguimos nesse tobogã. Abdiquei de títulos e homenagens, nem comemoro aniversário. Todos têm ou tiveram um pai, eu não: o meu pai era meu filho desamparado, telúrico, confirmava a minha predileção pela mãe. Mais conversamos e viramos outras tantas e enluaradas ou chuvosas noites, até me deixar como o Pê de pai de Isabel Martins, o Adios nonino de Piazzolla. O que comove é que esta carta nunca será entregue. Talvez seja covardia, sei que não; nem acerto de contas, não deixei nada sem lhe dizer: nos dissemos tudo e muito mais. Talvez este seja o texto mais frágil do que proponho, é possível, admito. A minha voz é a coragem de amar, me destruam ou não. Não tenho defuntos, vivo com os vivos e todos que se foram também vivem em mim. Morreu menino o meu pai, eu o sou eternamente vivo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Hoje, é possível dizer que o mundo inteiro é um "espaço em crise". Uma crise se estabelece de fato quando transformações de caráter brutal — mesmo se preparadas há tempos —, ou ainda uma violência permanente e generalizada, tornam extensamente inoperantes os modos de regulamentação, sociais e psíquicos, que até então estavam sendo praticados. Ora, a aceleração das transformações, o crescimento das desigualdades, das disparidades, a extensão das migrações alteraram ou fizeram desaparecer os parâmetros nos quais a vida se desenvolvia, vulnerabilizando homens, mulheres e crianças, de maneira obviamente bastante distinta, de acordo com os recursos materiais, culturais, afetivos de que dispõem e segundo o lugar onde vivem. Para boa parte deles, no entanto, tais crises se manifestam em transtornos semelhantes. [...] Em tais contextos, crianças, adolescentes e adultos poderiam redescobrir o papel dessa atividade na reconstrução de si mesmos e, além disso, a contribuição única da literatura e da arte para a atividade psíquica. Para a vida, em suma. A hipótese parecerá paradoxal em uma época de mutações tecnológicas na qual é a eventual diminuição da prática da leitura o que preocupa. Parecerá mais audaciosa, até mesmo incoerente, visto que o gosto pela leitura e a sua prática são, em grande medida, socialmente construídos [...] Se chegaram a ler, foi sempre graças a mediações específicas, ao acompanhamento afetuoso e discreto de um mediador com gosto pelos livros, que fez com que a apropriação deles fosse almejada. [...]. Trechos de Qual o poder da leitura nestes tempos difíceis?, extraído da obra Arte de Ler ou como resistir a adversidade (34, 2009), da antropóloga francesa Michèle Petit. Veja mais aqui.

A MÚSICA DE ALEXANDRA WHITIGHAM
Comecei a tocar quando tinha 7 anos, apenas fazendo barulhos aleatórios no violão. Eu estava tocando músicas de rock e pop que eu gostava (e ainda estou!). Algumas pessoas se aproximaram de mim para tocar em shows depois de ver alguns dos vídeos. Ao longo de tudo isso, realizar shows solo e de câmara e continuar gravando e gravando vídeos está no topo da minha lista de prioridades.
ALEXANDRA WHITIGHAM – A arte da premiada violonista britânica Alexandra Whitigham, que depois de estudar violão clássico, piano, jazz e composição na Escola de Música de Chetham, estudou na Royal Academy of Music em Londres.
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AS MÚLTIPLAS FACES DE AMANDA LEAR
Eu sou uma mulher como outra qualquer.
AMANDA LEAR – A arte da cantora, compositora, pintora, atriz e escritora francesa, Amanda Lear, que começou sua carreira como modelo de moda nos anos 1960 e tornou-se a musa de Salvador Dalí. Uma curiosidade a seu respeito é encontrada no livro, Odyssey, de April Ashley, em que ela se lembra de um homem chamado Alain Tapp, cujo nome artístico foi Peki d'Oslo, e que possivelmente mais tarde se tornou Amanda Lear. Veja mais aqui.

A ARTE DE GEÓRGIA CREIMER
A arte da artista Geórgia Creimer, que hoje vive na Áustria e atua com esculturas, objetos, pinturas e fotografias. Veja mais aqui.

A OBRA DE ARUNDHATI ROY
Eu acho que fui uma criança bastante crescida e tenho sido um adulto muito infantil.
A obra da escritora e ativista indiana Arundhati Roy. Veja mais aqui, aqui, aquiaqui & aqui.
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A POESIA DE RUBEM DE LIMA MACHADO
Nota de falecimento, por Marcos Alexandre Martins Palmeira.
RUBEM DE LIMA MACHADO (1936-2019) - Com sentimentos de tristeza, pesar e solidariedade ao amigo, poeta e escritor Luiz Alberto Machado, bem como aos familiares, informamos o falecimento do seu pai, o senhor Rubem, mais conhecido como Rubinho do Cartório, ocorrido nesta sexta-feira. Nem sempre os verdadeiros irmãos moram abaixo do mesmo teto, Lula dos Palmares, professor numa sociedade de poetas mortos (Robin Williams). Lula, um grande amigo que me presenteou o hino da minha mãe Manguaba Lagoa. O senhor Rubinho à distância abraçou os amigos e irmãos de seu filho. "O velho", assim chamava o poeta Lula, velho esse que, moldado numa sociedade cão e na poeira chão, precisou seguir sem tempo de chorar a dor do irmão que partiu. O homem e o tempo no tempo de um interior, seguiu a vida mergulhado numa política de coronelistas no ranço dos engenhos de açúcar na cana moeda, no lombo dos burros e na chibata dos açoites, que caracterizam os burros racionais e irracionais. Rubinho desassombrado para o tempo no templo do Grande Arquiteto do Universo, foi estigmatizado pelos homens das casacas pretas numa trilogia: Liberdade, igualdade e fraternidade. Anos após, sua cria Lula escreveu nas Alagoas "O bode" rejeitado numa situação acontecida na maçonaria com decretos internos que foram aos Tribunais da Justiça das Alagoas. Rubinho, meu irmão maçom que aprendemos na ordem a entender a morte do mestre Hiran Abif e andar de luto todo dia e o dia todo. Choro como eterno aprendiz a morte do mestre Rubinho, pai do poeta Lula do Quilombo de meus momentos com essa turma de Lula no meu Pernambuco de outrora. Tive a oportunidade de andar com Luiz nas madrugadas de Palmares, além da companhia de músicos, intelectuais, poetas e essa turma de Lula de Rubinho. Hoje, choro a dor do meu mestre Professor Luiz Alberto Machado. Lula meu irmão... Ao nosso companheiro e grande amigo, transmito sentimentos de solidariedade e que Deus conforte e dê força a você e toda a família nesse momento difícil que deixará saudades eternas. Veja mais aqui e aqui.


terça-feira, novembro 24, 2015

ÍSIS NEFELIBATA, ESPINOZA, ARUNDHATI, VENEGAS, TOULOUSE, VERA PEDROSA CANOVA, CICERO MELO & TEATRO!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? O OLHAR DE ÍSIS NEFELIBATA (Imagem: arte de Meimei Corrêa) – Foi olhar de Ísis que primeiro dela vi naquela tarde de dezembro, na tumultuada rodoviária de São Paulo. Um olhar de verdade, de amor e de ternura, tudo reunido num ser que me deu de si o presente de ser vivo. E aquele olhar me levou pra saber que a vida vale a pena. E a primeira coisa que fez foi tirar-me o mundo dos ombros, removendo culpas e lembranças, até me fazer relaxar de tudo e de toda carga que eu trazia pesando no meu penar a vida toda. E me despiu para deixar-me pronto pro seu ritual, ah que ritual de gueixa a ensinar-me da respiração e toda vitalidade para reanimar meu combalido sentido existencial, ao que me levava a uma excitação íntima e sexual. E se fez pomba-gira esvoaçante sobre meu corpo a levitar enquanto fazia uma profunda faxina no meu coração carregado de tantas coisas inúteis de vivências esdruxulas por anos. E removeu resíduos de todos os cantos e me cerziu todos os pedaços que restavam do que sobrou de mim. E soergueu meu ego em frangalhos e chamou-me rei de toda a sua mais inatingível reinação e me fez deus de toda sua deificação e me enbalou com os mais belos sonhos que um homem possa sonhar. E apontou-me os pontos cardeais para me localizar no mundo entre os trópicos dessa banda atlântica, e me dispôs os quadrantes de seu corpo para que não me perdesse à toa. E me fez proprietário de todas as suas posses e haveres, usufrutuário de todas as suas heranças, palco pras suas performances e me fez maior que eu mesmo, mais largo que todos os diâmetros, mais amplo que todas as dimensões. E me fez possuidor de todos os seus desejos, e me fez lavrador de sua alma, e me fez governador do seu destino e me acalmou nos temporais. E me ensinou do fogo de todas as paixões que movem o mundo, de acumulação e egoísmo e aquelas do coração, aquelas que ditam normas e governam os interesses, as que dominam os amantes e o que é amor. Ensinou-me os segredos das águas, rios e mares. E me levou no ar flutuando no voo do impossível infinito e me ensinou do fogo restaurando minha vida para me libertar do passado e me ensinou da terra, o amor de mãe colhendo os frutos e a missão. Mostrou-me o não visto, o invisível e a aura de todas as coisas e me deu o beijo revelador de todos os mistérios da humanidade com todos os desvarios, todas as guerras e dissensões. Em compensação, deu-me as nuvens para sonhar apagando todos os meus pesadelos, deu-me o gesto para que eu aprendesse que tudo começa pelas menores coisas, deu-me atenção para que eu soubesse ser o que sou e pudesse ser melhor do que já fui; deu-me a profundeza dos mares e abismos para que me tornasse o maior revolucionário de todas vitórias do planeta, e deu-me o horizonte para mostrar que a vida vai além das percepções, deu-me o dia para que tivesse tudo louvando para mim, deu-me a noite com todas as lições de céu e terra, deu-me o sorriso para que eu saiba que a vida vale mesmo a pena e me deu a luz para me tirar da escuridão, deu-me a paz para todos os tormentos; deu-me tudo e eu, simples macho, apenas... dei-lhe um beijo de gratidão, apenas. Dela sou cônscio de que um homem sem mulher não gira bem da cabeça, não tem capacidade nem discernimento para enfrentar as agruras do mundo e da vida, eterno dependente sou e desde que nasci. E ela que removeu tudo de sofrido e imprestável dentro de mim, ocupa hoje e eternamente todo meu interior por ser o meu perpétuo amor, reinando nua e soberana para sempre no meu coração. Veja mais aqui e aqui

 Imagem Reclining Nude, do pintor francês Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901). Veja mais aqui.


Curtindo o cd/dvd Julieta Venegas MTV Unplugger (Sony/BMG, 2008), da cantora e compositora mexicana Julieta Venegas.

SERVIDÃO HUMANA – A obra Ética demonstrada à maneira dos geômetras (1677 - Martin Claret, 2002), do filósofo racionalista holandês Baruch Espinoza (1632-1677), trata sobre Deus, a natureza e a origem da mente, a origem da natureza dos afetos e sobre a potência do intelecto, liberdade humana, destacando, porém, a Parte IV – Sobre a servidão humana ou sobre a força dos afetos nos trechos seguintes: Chamo de servidão a impotência humana em moderar ou limitar os afetos, pois o homem que está submetido aos afetos não depende de si, mas está sob o poder da fortuna, a ponto de frequentemente ser coagido a fazer o pior para si, mesmo vendo o melhor. [...] Quem decidiu fazer algo e agiu até que a coisa estivesse feita por inteiro (perfecit), diz que a coisa está perfeita (perfectam) e diz o mesmo quem sabe, ou acredita saber, o que o Autor tinha em mente e qual o objetivo da obra. Por exemplo, se alguém vê uma obra (que suponho não estar completa) e sabe que o objetivo do autor era construir uma casa, dirá que a casa está imperfeita. Ao contrário, dirá que ela está perfeita se vê que a obra alcançou o fim que o autor tinha decidido. Mas se alguém vê uma obra sem nunca antes ter visto outra semelhante e se ignora o que o artífice tinha em mente, não pode saber se a obra está perfeita ou imperfeita. Esta parece ter sido a significação primeira de tais vocábulos. Porém, depois que os homens começaram a formar ideias universais de casas, edifícios, torres, etc., e começaram a preferir alguns modelos a outros, eles passaram a chamar de perfeito o que veem convir com a ideia universal que formaram da coisa. Ao contrário, passaram a chamar de imperfeito aquilo que veem convir menos com o como seu modelo, ainda que, segundo a concepção do artífice, estivesse perfeitamente acabado. E não se vê outra razão para que as coisas naturais, que sem dúvida não foram feitas pela mão humana, sejam chamadas pelo vulgo de perfeitas ou imperfeitas. Pois os homens costumam formar ideias universais tanto das coisas naturais quanto das artificiais e as têm como modelos para as coisas. E eles creem que a natureza (que eles estimam agir somente com vistas a um fim) os vê e os propõe a si mesma modelos. Quando veem algo na natureza que convém menos com o conceito modelo que têm de uma coisa, creem que a natureza falhou ou pecou e que ela deixou imperfeita a coisa. Vemos assim que os homens se habituaram a chamar as coisas naturais de perfeitas ou imperfeitas mais por preconceito do que por verdadeiro conhecimento. [...] Veja mais aqui e aqui.

O DEUS DAS PEQUENAS COISAS – O romance O deus das pequenas coisas (Companhia das Letras, 1998), da escritora e ativista indiana Arundhati Roy, trata da uma história de dois gêmeos que se encontram retidos numa manifestação de trabalhadores que envolve cristianismo, hinduísmo, islamismo e marxismo, inventando uma infância à sombra da ruína de família. Da obra destaco o trecho: [...] Os dois quase nasceram num ônibus, Estha e Rahel. O carro em que Baba, pai deles, estava levando Ammu, a mãe deles, para o parto no hospital em Shillong quebrou na estrada sinuosa das fazendas de chá em Assam. Eles abandonaram o carro e deram sinal para um ônibus lotado do Transporte Público. Com aquela estranha compaixão que têm os muito pobres com os que são, comparativamente, ricos, ou talvez simplesmente por terem visto como Ammu estava gigantescamente grávida, os passageiros sentados abriram espaço para o casal e durante o resto da viagem o pai de Estha e Rahel teve de segurar a barriga da mãe deles (com os dois dentro) para que não balançasse. Isso foi antes de se divorciarem e Ammu voltar a viver em Kerala. Segundo Estha, se eles tivessem nascido no ônibus, teriam direito a viajar de ônibus de graça pelo resto da vida. Não dava para saber de onde ele tinha tirado essa informação ou como descobria essas coisas, mas durante anos os gêmeos guardaram um vago ressentimento contra os pais por terem sido privados de uma vida inteira de viagens de ônibus gratuitas. Eles acreditavam também que se fossem mortos em cima das listas brancas de um cruzamento o governo teria de pagar por seus funerais. Tinham a nítida impressão de que os cruzamentos listados serviam para isso. Funerais grátis. Claro que não havia cruzamento com listas em Ayemenem, e nem mesmo em Kottayam, que era a cidade mais próxima, mas tinham visto alguns pela janela do carro quando foram para Cochin, que ficava a duas horas de carro. O governo nunca pagou pelo funeral de Sophie Mol, porque ela não foi morta nas listas de um cruzamento. O funeral dela foi na igreja velha de pintura nova em Ayemenem. Era prima de Estha e Rahel, filha do tio Chacko. Estava de visita, vinda da Inglaterra. Estha e Rahel tinham sete anos quando ela morreu. Sophie Mol tinha quase nove. Ganhou um caixão especial, tamanho infantil. Forrado de cetim. Com alças de latão brilhantes. Ali, deitada, com a calça boca-de-sino amarela de Crimplene, com uma fita no cabelo e a bolsa go-go Made in England que adorava. O rosto pálido e mais enrugado que um dedão de dhobi por ter ficado muito tempo dentro da água. Os fiéis reuniram-se em volta do caixão, e a igreja amarela inchou como uma garganta com o som de cantos tristes. Os padres de barbas crespas balançaram frascos de incenso dependurados de correntes e não sorriram para os bebês como sempre sorriam aos domingos. As velas grandes do altar estavam tortas. As pequenas não estavam. Uma velha fingindo ser uma parente distante (que ninguém conhecia), mas que surgia sempre ao lado dos corpos em funerais (uma viciada em funerais? uma necrófila latente?), pôs água-de-colônia num chumaço de algodão e, com um suave ar de desafio, esfregou a testa de Sophie Mol. Sophie Mol cheirava a água-de-colônia e madeira de caixão. Margaret Kochamma, a mãe inglesa de Sophie Mol, não deixou Chacko, o pai biológico de Sophie Mol, pôr o braço em volta dos seus ombros para consolá-la. A família ficou agrupada. Margaret Kochamma, Chacko, Baby Kochamma e, ao lado dela, sua cunhada, Mammachi, avó de Estha e Rahel (e de Sophie Mol). Mammachi era quase cega e usava sempre óculos escuros quando saía de casa. As lágrimas corriam por trás dos óculos e tremulavam em seu queixo como gotas de chuva na beirada de um telhado. Ela parecia pequena e doente em seu sári branco-cru engomado. Chacko era o único filho de Mammachi. A dor dela própria a entristecia. A dele a devastava. Embora permitissem que Ammu, Estha e Rahel comparecessem ao funeral, fizeram com que ficassem separados, não junto com o resto da família. Ninguém olhava para eles. Estava quente na igreja, e as bordas brancas dos copos-de-leite secavam e enrolavam. Uma abelha morreu numa flor do caixão. As mãos de Ammu tremiam e o livro de hinos tremia junto. Sua pele estava fria. Estha ficou a seu lado, quase dormindo, os olhos doloridos brilhando como vidro, o rosto fervendo contra a pele nua do trêmulo braço de Ammu segurando o hinário. Rahel, por outro lado, estava bem acordada, ferozmente vigilante e alerta de exaustão, em sua batalha contra a Vida Real. Ela notou que Sophie Mol estava acordada para o próprio funeral. Ela mostrou Duas Coisas para Rahel. A Coisa Um era a alta abóbada recém-pintada da igreja amarela que Rahel nunca tinha visto por dentro. Estava pintada de azul como o céu, com nuvens flutuantes e minúsculos aviões a jato chiantes com rastros brancos que ziguezagueavam pelas nuvens. É verdade (e é preciso dizer) que era mais fácil notar essas coisas deitada num caixão de cara para cima do que de pé junto aos bancos, cercada de quadris tristes e hinários. Rahel imaginou alguém se dando ao trabalho de subir lá em cima com latas de tinta, branca para as nuvens, azul para o céu, prata para os jatos, e pincéis e solvente. Imaginou-o lá em cima, alguém como Velutha, de corpo nu e brilhante, sentado numa prancha, balançando do andaime na alta abóbada, pintando jatos prateados num céu azul de igreja. Imaginou o que aconteceria se a corda rebentasse. Imaginou-o caindo como uma estrela escura do céu que tinha feito. Ali, quebrado, no chão quente da igreja, sangue escuro escorrendo-lhe do crânio como um segredo. Já então Esthappen e Rahel tinham aprendido que o mundo tem outras formas de quebrar homens. Já conheciam o cheiro. Docenjoativo. Como rosas velhas numa brisa. A Coisa Dois que Sophie Mol mostrou a Rahel foi o bebê morcego. Durante a cerimônia funerária, Rahel viu um morceguinho preto subir, dependurado em suaves garras recurvadas, pelo sári caríssimo que Baby Kochamma usava em funerais. Quando ele chegou ao ponto entre o sári e a blusa, aquele rolo de tristeza da cintura nua, Baby Kochamma deu um grito e golpeou o ar com o hinário. O canto foi interrompido para um "Quefoisso? Oqueaconteceu?" e agitação e sári sacudindo. Os tristes padres espanaram as barbas crespas com dedos cheios de anéis, como se aranhas ocultas tivessem tecido súbitas teias dentro delas. O bebê morcego voou para o céu e transformou-se num avião a jato sem a trilha em ziguezague. Só Rahel percebeu o salto secreto que Sophie Mol deu em seu caixão. O canto triste recomeçou e cantaram duas vezes o mesmo verso triste. E mais uma vez a igreja amarela inchou como uma garganta com vozes. Quando baixaram o caixão para a terra, no pequeno cemitério atrás da igreja, Rahel sabia que Sophie Mol ainda não estava morta. Ela ouviu (em nome de Sophie Mol) os sons macios da lama vermelha e os sons duros da laterita laranja que estragavam o verniz brilhante. Ouviu os sons surdos através da madeira polida, através do forro de cetim. As vozes dos padres tristes abafadas por lama e madeira. A ti confiamos, Pai misericordioso, A alma desta nossa filha que se foi, E devolvemos seu corpo à terra. Das cinzas às cinzas, do pó ao pó. Debaixo da terra, Sophie Mol gritava e rasgava o cetim com os dentes. Mas não se podem ouvir gritos através de terra e pedra. Sophie Mol morreu porque não podia respirar. O funeral a matou. Do pó ao pó ao pó ao pó ao pó. Em seu túmulo se lia Um Raio de Sol Que Brilhou Entre Nós Mui Brevemente. Ammu explicou depois que Mui Brevemente queria dizer Por Muito Pouco Tempo. Depois do funeral, Ammu levou os gêmeos de volta à delegacia de polícia de Kottayam. Eles conheciam aquele lugar. Tinham passado ali boa parte do dia anterior. Prevendo o fedor duro e exalante de urina velha que permeava as paredes e os móveis, apertaram bem as narinas com os dedos antes de o cheiro começar. Ammu pediu para ver o Delegado e, quando entrou em sua sala, disse que tinha havido um erro terrível e que queria fazer uma declaração. Pediu para ver Velutha. O bigode do inspetor Thomas Mathew tremia igual ao do simpático Marajá da Air India, mas seus olhos eram dissimulados e vorazes. "É um pouco tarde para tudo isso, não acha?", ele disse. Falava o áspero dialeto malayalam de Kottayam. Olhava fixamente os seios de Ammu enquanto falava. Disse que a polícia já sabia tudo o que tinha de saber e que a Polícia de Kottayam não aceitava depoimentos de veshyas nem de seus filhos ilegítimos. Ammu disse que ia cuidar desse assunto. O inspetor ThomasMathew deu a volta na mesa e aproximou-se de Ammu com seu cassetete. "Se eu fosse você", disse, "voltava para casa quietinha." E tocou os seios dela com o cassetete. Delicadamente. Tap, tap. Como se estivesse escolhendo mangas numa cesta. Apontando as que queria que fossem embrulhadas e entregues. O inspetor Thomas Mathew parecia saber quem podia destratar e quem não podia. Policiais têm esse instinto. Atrás dele uma placa vermelha e azul dizia: Polidez Obediência Lealdade Inteligência Cortesia Eficiência Quando saíram da delegacia, Ammu estava chorando, por isso Estha e Rahel não lhe perguntaram o que queria dizer veshya. Nem tampouco ilegítimo. Era a primeira vez que viam a mãe chorar. Ela não soluçava. Seu rosto estava duro como pedra, mas as lágrimas brotavam de seus olhos e escorriam pelas faces rígidas. O que deixou os gêmeos doentes de medo. As lágrimas de Ammu tornavam real tudo o que até agora parecera irreal. Voltaram de ônibus para Ayemenem. O cobrador, um homem esguio, vestido de cáqui, deslizou na direção deles pelos canos do ônibus. Equilibrou o quadril ossudo nas costas de um banco e clicou o picotador de bilhetes para Ammu. Para onde?, era o que o clique queria dizer. Rahel sentiu o cheiro da pilha de bilhetes e o cheiro acre dos canos de aço do ônibus nas mãos do cobrador. "Ele está morto", Ammu sussurrou para ele. "Eu matei." "Ayemenem", Estha disse depressa, antes que o cobrador perdesse a paciência. Ele tirou o dinheiro de dentro da bolsa de Ammu. O cobrador lhe deu os bilhetes. Estha dobrou-os cuidadosamente e guardou no bolso. Depois passou os bracinhos em torno da mãe rígida, que chorava. Duas semanas depois, Estha foi Devolvido. Ammu foi forçada a mandá-lo de volta para o pai deles, que já então tinha pedido demissão de seu emprego solitário na fazenda de chá em Assam e se mudado para Calcutá, para trabalhar numa companhia que fabricava pigmentos preto-de-carbono. Tinha casado de novo, parado de beber (mais ou menos) e sofria só recaídas ocasionais. Estha e Rahel não se viam desde então. [...]. Veja mais aqui.


FARS & SONHO DO VESTIDO VIOLETA – Na antologia 26 poetas hoje (Aeroplano, 2007), organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, destaco as poesias da poeta, filósofa e diplomata Vera Pedrosa. Inicialmente o seu poema Fars: Foi há tanto tempo e entre amores / decisivos / cataclismas / criações confinamentos jaulas / aeronaves / trens. / Foi antes das exposições de motivos. / Houve uma época / tão descansada em que / desde que se tivesse / uma janela em movimento / ele era imagem / deslizando ante folhas. / Se estendia embaixo de árvores / entrava em corredores / saía de portas. / Na areia ele era / as manhãs do desejo mais difuso. / Quando havia cinza no mar / era ele que estava  (de sueter) / na antepenumbra molhada. / Quando era noite / ele era quase raiva, na espera. / Doce e nu, sentado no banquete / numa horta de alfaces / sonhei com ele esta noite. Também o seu poema Sonho do vestido violeta:  “Le reveur de la nuit ne peut énoncer un cogito” / Descobri o cadáver muito mais tarde / no meio de uma viagem. / Passava por regiões / de passado futuro / o trem atacado por índios atarefados / ruínas negras de megalópolis de concreto / E tendo achado o cadáver / soube que me haviam enterrado / com meu vestido de seda violeta / um vestido precioso anunciador /da precognição da morte. / Então determinei / que desencarnassem o cadáver / e enterrassem a ossada límpida, polida / numa cova de terra úmida / enquanto a multidão de índios / sem real perigo / cercava o cemitério / mas depois se dedicava à tarefa muito mais séria / de destroçar as vigas que sustentavam nosso teto. Por fim o poema Cortejo: Tendo estado / toda uma tarde / ouvindo / um tempo branco / sentindo dedos de água / descidos da noite. / Figuras / surgem paralelas / como saídas agora / da cal da parede. / Ali onde a sombra joga / na brisa de outra água. / De perto, / a superfície do muro / pára: / distração. Veja mais aqui.

A TRAGÉDIA GREGA – Na obra Teatro Vivo (Civita, 1976), organizada por Sábato Magaldi, encontro que na Atenas democrática do século V aC., os grandes autores trágicos usariam de maneira mais racional, embora carregados de emocionalismo, os elementos que Téspis desorganizadamente vislumbrava nas suas imitações. À túnica, à máscara, à luz das tochas e aos eventuais recursos de encenação improvisada incorporou-se a poesia como núcleo. Ao mesmo tempo, em substituição à pequena carroça de Téspis, implantou-se a grande plataforma fixa, um palco verdadeiro sobre o qual já se podia organizar um espetáculo, com atores, coro e arquibancadas, anualmente levantadas para um imenso público. Esse dimensionamento ganhou ainda maior proporção quando se escolheu um local para as representações: o terreno consagrado a Dioniso, na escola sudeste da Acrópole. Ali Ésquilo (525-456aC), Sófoles (496-406aC), e Eurípedes (480-406) tiveram encenadas quase todas as suas tragédias, sempre marcadas pelo mesmo tom ritualístico com que os clãs da Grécia arcaica celebravam Dioniso, a boa divindade da paixão e da embriaguez, capaz de transmitir a ilusão mágica de que os mortais comungam da natureza divina. No entanto, o théatron da Atenas clássica, embora respirasse ainda muitas das propriedades do ritual, era apenas lugar de onde se vê – uma plateia. Nesta, o vinho já não corria com a mesma facilidade e os cantos e as danças das solenes celebrações a Dioniso se achavam substituídos pelo respeitoso silêncio. Com os olhos nos proskénion – o palco onde os atores fingiam emoções e ações alheias -, os assistentes submetiam-se à catarse, fenômeno que, segundo o filósofo Aristóteles (384-322aC), purifica a alma das paixões sufocantes. De acordo com ele, ao inspirar, por meio da ficção, certas emoções penosas ou malsãs, especialmente a piedade e o terror, a catarse liberta dessas mesmas emoções. E veja mais aqui, aqui e aqui.

L’AFFAIRE FAREWELL – O drama de espionagem e suspense L’affaire farewell (O caso Farewell, 2009), dirigido por Christian Carion, cujo roteiro é baseado na história do alto funcionário soviético Vladimir Vetrox, contada no livro Bonjour Farewell: La vérité sur la taupe française du KGB (1997) de Serguei Kostine. A história se passa na década de 1980, quando um alto funcionário da KGB está desiludido com o regime soviético e decide repassar aos países do Ocidente informações e documentos secretos de espionagem, inclusive a lista de nome dos espiões de seu país no exterior. Ele faz contato com um mensageiro francês. A esposa do mensageiro não quer que o marido continue agindo como espião mas ele não lhe dá ouvidos. O destaque do filme vai para a bela atriz e modelo alemã Diane Krüger. Veja mais aqui.

OS VÍDEOS QUE ELA FEZ PRA MIM – Nos últimos quatro eu fui mais que premiado, pois fui agraciado pelo talento dessa maravilhosa mulher e superparceria amada do meu coração, Meimei Corrêa, ao realizar uma série de vídeos com meus poemas, músicas e realizações. Ela não só realizou clipes com minhas próprias interpretações, como, também, realizou algumas delas na própria voz dela, fato que me fez envaidecido e capaz de felicitar pela premiação tão bem recebida. Por isso mesmo, não me vejo ainda manifestando minha eterna gratidão que será sempre muito pouca perto do que este ser pra lá de fascinante e generosa realizou no meu trabalho. A ela devo tudo que alcancei até hoje. Obrigado, Meimei, obrigado, obrigado, obrigado. E convido vocês pra conferirem os vídeos aqui. E mais dela aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A ninphe, do escultor, pintor, desenhista e arquiteto italiano Antonio Canova (1757-1822), Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada ao poetamigo, ensaísta e crítico alagoano Cicero Melo & o blog Pequena Reunião Poética. Veja detalhes aqui.


VERA IACONELLI, RITA DOVE, CAMILLA LÄCKBERG & DEMOROU MUITO

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos álbuns Tempo Mínimo (2019), Hoje (2021), Andar com Gil (2023) e Delia Fischer Beyond Bossa (202...