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ALDOUS HUXLEY, FARADAY, LEJEUNE, ANA ELISA RIBEIRO & LAURA LIMA


ÚLTIMA CARTA PARA SALLY – Ah, Sally querida, desde aquela primeira em que maldizia da noção de amor, eu sei, como bem disse seu pai que filósofos tornam-se tolos ao amar, e eu a amei, graças aos céus, ao seguir sua fuga para Ramsgate e declarar-me para a sua decisão. Graças, mil graças à vida: tudo sou em você, minha Sally, minha querida. Não fosse a sua mão companheira de todos os dias, não teria eu vencido tantos degraus nos íngremes aclives das descobertas e desânimos. Não fosse o seu riso compreensivo de todas as horas, não teria eu vencido batalhas tão ferrenhas, constantes e indesejáveis. Não fosse o seu abraçabrigo materno de todos os meus choros inconsoláveis, não teria eu vitalidade e afinco para enfrentar tantos giros na roda da fortuna, nem triunfado sobre os mais repetidos sortilégios infames e procelosos percalços. Não tivesse a firmeza dos seus passos seguindo os meus e os meus os seus, não teria eu sido além de um entregador de jornais ou encadernador dos livros do patrão, a inventar uma gaiola protetora para o futuro e tantas outras coisas que brotavam da minha imaginação para confirmação louca da experiência. Não tivesse o seu jeito amável de me cuidar nas quedas e dores, não teria eu, filho de gente simples que queria ser simplesmente eu mesmo e nada mais até o fim, com instrução rudimentar, autodidata, a observar o pôr do Sol e dele apreender os mistérios da Natureza. Não fosse o seu afago nos meus desesperos, não teria eu me libertado da professora cruel e opressora do colégio e que sem ter para onde ir fui buscar a sorte nas calçadas de ouro da cidade da magia e dos prodígios, só com esperança e migalhas de pão – um pão apenas por semana, repartido entre os dias para quase não me deixar morrer de fome. Não fosse a sua volúpia nos meus desencantos, não teria eu evoluído da Filosofia Natural para aceitar o reflexo da vida e o esplendor do ocaso e a ressurreição na crisálida da noite para compreender a urdidura da Natureza. Não fosse as suas pernas apaziguadoras nas minhas aflições noturnas, não teria eu nada além de canhenhos, enquanto o mestre se ressentia porque para mim a vida dos mineiros era mais importante que a sua gloria e quantas inimizades para ser tratado por lacaio no cúmulo da mesquinhez, enquanto eu vivia solitário e fora das disputas frívolas, apenas para o saber e você. Não fosse o seu ventre quente acasalador nas minhas insônias ébrias de desenganos, não teria eu lido melhor os manuscritos de Deus, não passando de um ajudante zelador para assessor, enquanto lutava desesperadamente para vencer sem contar com a vitória, nenhuma vitória. Não fosse o seu desapego material nos meus esbanjamentos extravagantes, o seu nuto carinhoso nas minhas inconsequentes loucuras, a sua calma apaziguadora nas horas mais periclitantes, a sua entrega mais que providente quando das minhas insanas agonias deserdadas, eu não seria nem teria nada, absolutamente nada. Mais que isso: e se não fosse você o travesseiro para minha mente eu não poderia morrer em paz, minha querida, jamais. Por tudo isso, eu posso ir, já vou embora, Sally, minha querida, até sempre, meu amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] o autobiógrafo deve executar esse projeto de uma sinceridade impossível, servindo-se de todos os instrumentos habituais da ficção. Ele deve crer que há uma diferença fundamental entre a autobiografia e a ficção, ainda que, na verdade, para dizer a verdade sobre si mesmo, ele empregue todos os procedimentos de seu tempo [...] o pacto autobiográfico pode ser, no plano explícito, um pacto moral de 'sinceridade': mas isso muitas vezes se traduz por um pacto implícito do autor com o leitor: o engajamento de não se distanciar demais de um tipo de relato 'verossímil' [...] Interrogar-se sobre o sentido, os meios e o alcance de seu gesto, eis o primeiro ato da autobiografia: frequentemente o texto começa, não pelo ato de nascimento do autor (nasci no dia...) mas por um tipo de ato de nascimento do discurso, o “pacto autobiográfico”. Nisso, a autobiografia não inventa: as memórias começam ritualmente por um ato desse gênero: exposição da intenção, das circunstâncias nas quais se escreve, refutação de objetivos ou de críticas. [...] Logo, a autobiografia interroga a si mesma; ela inventa a sua problemática e a propõe ao leitor. Esse “comportamento” manifesto, essa interrogação sobre o que se faz, não cessam uma vez o pacto autobiográfico terminado: ao longo da obra, a presença explícita (por vezes mesmo indiscreta) do narrador permanece. É aqui que se distingue a narração autobiográfica das outras formas de narração em primeira pessoa: uma relação constante é estabelecida entre o passado e o presente, e a escritura é colocada em cena. [...] é o próprio autobiógrafo que criou e desenvolveu a problemática do gênero. [...] O pacto autobiográficos e alimentadas refutações que ele provocou. Seu objetivo é paralisar a crítica, ultrapassando-a: compreende-se que nesse jogo interessa mostrar-se tão ágil quanto ela [...]. Trechos da obra O pacto autobiográfico: de Rousseau à Internet (EdUFMG, 2008), do professor e ensaísta francês Philippe Lejeune que, conforme a professora e pesquisadora Ana Amelia Barros Coelho Pace, em seu estudo Aspectos do pacto autobiográfico em “L'autobiographie en France” (Darandina- FFLCH-USP, 2013), assinala que: [...] A construção de um discurso de verdade individual implica na observância de regras e convenções, mesmo que seja para colocá-las em xeque–tensão que reverbera no discurso crítico. Mesmo assim, nessa sobreposição de textos, leituras e releituras (seja mas de Lejeune, que faz de seus próprios textos, seja da minha), devemos considerar que a busca em esclarecer e redefinir o pacto é uma tarefa inacabável, sempre a recomeçar. E talvez aí resida o funcionamento do pacto, em seu poder incessante de mover leituras e escritas. [...].

A POESIA DE ANA ELISA RIBEIRO
PRENHEZ - estava grávida / naquela foto / o filho / não chegou / a nascer / a foto / nos mantém / à sua espera
ORAÇÃO DO OLVIDO - oxalá eu esqueça / os poemas que lavrei / em arquivos e em livros; / os poemas que inscrevi / em concursos perdidos; / os poemas que se arrependeram / em linhas inconclusas; / e todos esses que / apaguei das telas de computador; / e os que anotei em blocos / e jamais foram transcritos / em páginas aflitivas; / oxalá eu esqueça / os poemas que escrevi; / e que os que escreverei / não me venham; / e que os poemas / que quase foram escritos / sejam leais a sua / admirável quasidade.
INSTANTÂNEO #5 - Só mesmo uma foto / para nos flagrar / no auge / de um quase
O PRÍNCIPE E A MEGERA - Um príncipe / com casa, carro, filho & pensão / relógio de pulso / perfume importado / quarentão / bem-arranjado / até grisalho / fosse eu / e tudo isso / seria / defeito
TRÁGICA - meu galego / não conhecia minha ira / era dono do meu corpo / meu espírito de porco / sabia minha ginga / minha pletora, minha míngua / conhecia cada fresta / cada trinca, cada aresta / cada vinco, furo, fissura, / mau humor, amargura / mas da minha ira / condenada ira / ira da maldita / ira de mulher / fêmea exata / ana saliente / uterina, enfezada / ele não sabia nada / (meu galego dorme esta noite num cemitério improvisado)
ANA ELISA RIBEIRO – A poesia da poeta e professora Ana Elisa Ribeiro, autora de livros de crônica, conto e poesia, além de infanto-juvenis, entre eles Xadrez (Scroptum, 2015), Anzol de pescar infernos (Patuá, 2013), Fresta por onde olhar (2008), Álbum (Relicário, 2018) e Dicionário de imprecisões (Impressões de Minas, 2019). Veja mais aqui.

A ARTE DE LAURA LIMA
A arte da premiada artista Laura Lima. Veja mais aqui.

A OBRA DE ALDOUS HUXLEY
O silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência como o mármore não talhado é rico em escultura. Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música.
A obra do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963) aqui e aqui
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A OBRA DE MICHAEL FARADAY
Nada é tão maravilhoso que não possa existir, se admitido pelas leis da Natureza. As cinco essenciais habilidades empreendedoras para o sucesso são concentração, discernimento, organização, inovação e comunicação.
MICHAEL FARADAY – A obra do físico e químico inglês Michael Faraday (1791-1867), que conviveu por longos anos com Sally (Sarah Barnard, posteriormente, Faraday – 1800-1879), e é considerado um dos cientistas mais influentes de todos os tempos, por suas contribuições com relação aos fenômenos da eletricidade, eletroquímica e do magnetismo, além de diversas outras nas áreas da física e da química. Veja aqui.


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