quinta-feira, novembro 07, 2019

CECÍLIA MEIRELES, CAMUS, HÄNDEL & RITA LINO


A ESCURIDÃO DE HÄNDEL - Sempre me vi só, um sonhador, apesar dos pesares: desajeitado e feio, o tamanho da minha arte, quem me dera. Contrariei os desejos de meu velho pai que me queria estudante das leis ou barbeiro de prol – desde criança, a minha arte era uma flor a céu aberto, todavia um negócio improfícuo e vivia sob a ameaça de me cortar os dedos caso teimasse. Não fosse o duque de Weissenfels e eu preferi ser suposto célebre saxão ou o diabo, morrer de fome na sarjeta, como diziam. Minha mãe era filha de um pastor protestante, tinha o coração jovem, o meu incentivo para trabalhar árdua e constantemente no poço inexaurível que jorrava de dentro de mim. Tive que ir para a terra da eterna primavera, seguindo os passos do guia espiritual e artístico Steffani. O que vivi, foi da estreia de Almira, depois Nero ou o amor através do sangue e do assassino, Rodrigo, Agrippina, o oratório La Resurrezione, o que me fazia um italiano e futuro inglês. Ah, fui embalado com a vitoriosa Rinaldo, Tamerlano, Radamisto, Rodelinda, oratório Esther e hinos de Chandos. Era eu tratado como o legendário ciclope Briareu – o Egeão entre os hecatônquiros, centímano gigante dos cem braços e cinquenta cabeças da Titanomaquia. Eu tinha um novo estilo, provei com os oratórios Ester, Débora, O triunfo da verdade. Se eu era bom no que fazia, péssimo com os negócios. Tive que encarar a situação entre ter o instrumento e a filha de Buxtehude, ou nada. Nunca me interessaram honrarias nem dinheiro. Mas vieram as injúrias, o público escasso, a acusação de imoralidade, intrigas políticas, as disputas, meus bens foram sequestrados, a falência e ameaças de prisão, desventuras. Roubaram-me tudo, se apoderaram de tudo que era meu sem pedir licença nem cartão de agradecimento. Ah, lá estava eu na minha estranha melancolia diante do fracasso. Um relâmpago nas trevas da noite e o oratório O Messias – quantas aleluias! Sei, sempre sentimental, da placidez à explosão emocional. Muito emotivo; calmo ou tortuoso, generoso ou implacável, dual por essência. A minha sensibilidade sempre superou as asperezas da realidade, também me dei por terno ao longo da minha vida e me doei às turbulências com disposição para o acolhimento, embora exigisse de mim o tempo inteiro autocrontrole para tudo. Sei, sempre trabalhei muito, discreto, apesar do vigor e tenacidade, achegado a um vinho e compulsivo aos prazeres da boa mesa, isso para quem já foi de bela compleição, envelhecer obeso, caricaturado pelas sátiras afiadas dos maldosos. O que mais me irritava era a ignorância – eu deveria mesmo era me desculpar por apenas diverti-los, quando eu desejava melhorá-los. Da minha parte, sempre perdoei, não guardei rancores nem sou lá muito religioso. Cantoras que me fascinaram se foram com as mulheres com o interdito familiar de jamais contraírem núpcias com músicos, quando não, elas queriam que eu me divorciasse da arte, que coisa! Era a minha irremediável solidão e apreciava a arte pictórica, belíssimas gravuras, reservado, quem lá entenderia meu coração. Para Newton eu era o virtuoso das teclas e sei, se eu estava no meu corpo ou fora dele, não sei. Deus sabe! Era o embalo dos três atos de Alcina - Gli evenimenti di Ruggiero, e a vida nublava até ser a luz completamente aniquilada na minha profunda tristeza. Quantas dificuldades para o oratório de Jephta. Eu via o céu diante de mim, lá estava Deus na minha solidão. Era, então, sexta-feira, a vida ia e voei. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: Nós merecemos a morte, / porque somos humanos e a guerra é feita pelas nossas mãos, / pela nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra, / por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens / que trazemos por dentro, e ficam sem explicação. / Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia, / os cálculos do gesto, / embora sabendo que somos irmãos. / Temos até os átomos por cúmplices, e que pecados / de ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros! / Que delírio sem Deus, nossa imaginação! / E aqui morreste! Oh, tua morte é a minha, que, enganada, / recebes. Não te queixas. Não pensas. Não sabes. Indigno, / ver parar, pelo meu, teu inofensivo coração. / Animal encantado - melhor que nós todos! / - que tinhas tu com este mundo / dos homens? / Aprendias a vida, plácida e pura, e entrelaçada / em carne e sonho, que os teus olhos decifravam... / Rei das planícies verdes, com rios trêmulos de relinchos... / Como vieste morrer por um que mata seus irmãos! Poema Lamento do Oficial Por Seu Cavalo Morto, extraído da obra Mar absoluto e outros poemas (1945), da escritora, pintora, professora e jornalista Cecília Meireles (1901-1964). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

TEATRO DE CAMUS
Compreendi que não bastava denunciar a injustiça. Era preciso dar a vida para a combater. Agora, sou feliz.
ALBERT CAMUS – A obra teatral do escritor, dramaturgo e filósofo francês Albert Camus (1913-1960) é destacada a partir da peça em 5 atos Les justes (Os justos – Galimard, 2008), que se passa no cenário czarista russo de 1905, quando um grupo de anarquistas revolucionários planejam o assassinato de grão-duque, discutindo a existência de amor e de limites na ação e o ideal de justiça defendido. Em seguida, a peça teatral Estado de sítio (1948), que se passa em uma pequena cidade litorânea, assolada pela peste e dominada pelo medo que era o mal do século XX, uma alegoria da ocupação, da ditadura e do totalitarismo. Já a peça em 3 atos, Le Malentendu (O malentendido, 1944), dramatiza uma trama familiar com a revolta do homem contra o absurdo imerso na existência e a falta de sentido na vida, tratando sobre o exílio e o reconhecimento do outro, a defesa do amor como a única forma de impedir que todos se percam no ódio contra a própria existência. A peça em 4 atos, Calígula (1941 – Galaxia, 2009), conta a história sobre a perversão moral de Calígula (12 d.C.-41 d.C.), o terceiro imperador romano e um dos doze césares, contando após a morte de sua irmã, com quem supostamente mantinha uma relação incestuosa, apresenta sua faceta cruel, excêntrica e desajustada, agindo de maneira absurda e desleal, cometendo assassinato de seus próximos e de parentes de seus próximos, motivando a revolta destes. Por fim, a adaptação dele para o romance de Dostoiévski, Les possédés (Os possessos, 1959), tratando sobre o pessimismo. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A ARTE DE RITA LINO
Sou o que você quer ver, mostro o que não sou.
RITA LINO – A arte da fotógrafa e artista portuguesa Rita Lino, que estudou Design de Multimídia da Universidade da Beira do Interior, pós-graduada em fotografia pela Elisava, de Barcelona, na Espanha. Ela já realizou várias exposições individuais e coletivas, tendo o nu como provocação e exteriorização do ego, assumindo diferentes personagens. Ela atua também com vídeos e já publicou a série Protect me. Veja mais aqui.
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A OBRA DE HÄNDEL
A obra do compositor alemão Georg Friedrich Händel (1685-1759) que possui uma diversidade de publicações com desencontrados dados biográficos, merecendo destaque o espetáculo Haendel Gala, com texto escrito pelo britânico Richard Armbruster, contando a vida do compositor, mesclando música e elementos teatrais. Também merece destaque o álbum Amor Oriental ~ Händel alla turca (Deutsche Harmonia Mundi, 2011), com suas composições na interpretação de Juanita Lascarro, Ahmet Özhan e Florin Cesar Ouatu, com a orquestra Pera Ensemble – Ensemble l’arte del mondo, regida por Werner Ehrhardt. Veja mais aqui e aqui.


MÓNICA OJEDA, BORA CHUNG, AZA NJERI & DÉBORA LAÍS FERRAZ

  Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos concertos Nights from the Alhambra (2007), A Mediterranean Odyssey (2010), Troubadours On The Rhine...