quinta-feira, janeiro 31, 2019

KENZABURO OE, KEN WILBER, RACHEL ROSALEN, ESTAMIRA & DANI BARROS, CABEÇA DE BAGRE


CABEÇA DE BAGRE - Naquela hora o recém-nascido passou a ser a menina dos olhos do pai: Esse o rei daqui, macho todo, vai comer todas e mandar ver. Gabava-se patriarcal com seus princípios rígidos, anacrônicos: Esse será macho até dizer basta, escreva aí. E paparicou, expôs como um troféu, ele e a esposa botaram o menino a perder. Na hora do nome, o primeiro litígio. Depois de muito bate boca o marido bateu na mesa: Joatâncio Filho e ponto final. Na certidão de nascimento, Florismilton, preferência da mulher. Tanto que o garoto cresceu ambíguo, chamado de Tanzinho pelo pai e marmanjaria; e Florinho pela genetriz e quejandas. O tampinha foi crescendo arrodeado de tias, primas, madrinhas e achegadas. Não demorou muito a macharia botar cada boticão de olhos, de chamar na responsa o genitor, orelhas na frente das pulgas: Como é que é? Já quase rapaz, o pai olhou direitinho e nem notara o que denunciavam: que, desde tenra infância, ele delicadamente desmunhecava, falava escondendo a língua e virava os olhos. Num brinque comigo! Espie! Veja direitinho! Vá! Mas num é que é mesmo, rapaz! Esse cabra tá puxando a mãe, talqualzinha. Pode não, vou endireitá-lo agora. E puxou-lo pelo cangote, aos empurrões, ais e uis, meteu-lo dentro dum quarto aos esporros e sermões. A vítima com os olhos arregalados, franzia o cenho de boca aberta: Tome jeito, seja homem! Nem que seja a pulso você vai ser macho, ouviu? E convocou a parentalha macha que era o cúmulo da chatura para o coitado e entraram em ação: Isso só se resolve no cacete! E bateram nele que só, para ver se ele parava com aquilo. Depois de umas tantas lamboradas, pisa de todo jeito, todo dia e o dia todo, ao cabo de uns dois meses nesse trupé, parece que tomou jeito e começou a parecer com o pai, falar, andar, pensar e ter postura do progenitor. O que havia de vigia não permitia a menor delicadeza nas horas de folga, o que levou na cara: Esse não tem jeito, ou vendo, ou mato de pau. É um cabeça de bagre! Ao ouvir o apelido, ficou fulo de engicar-se por dias: Cabeça de bagre, uma ova! Taí, parece que pela pressão ele endireitou-se e foi se ajeitando pras bandas duma prima assanhada da pá virada que torrava um sarro da calcinha voar: Agora sim, o compadre vai achar é bom um filho meu pra sua filha! Fica tudo em família! Entre beijos e amassos, ele se apaixonou pelo sorriso dela e, segundo as más línguas, cometeu a tolice de levá-la inteira pra casa: Essa daí não tem macho que sustente, ela quebra o cristão! É mesmo, comadre, do jeito que ela é fogosa, acho que esse não dá vencimento dela não! E parece que não deu mesmo, dele vê-se numa trapaça e cobrando dela: Se assunte, nega! Nega é a sua mãe, seu pau-mole, só sabe pedir arrego. Sou macho! Você é um cabeça de bagre! Aí, fechou o tempo e, de tanta raiva, deu-lhe um murro que deixou-la banguela: já eram dos arcos inferior e superior, incisivo, canino e primeiro molar. Apelidou-a de boca de sovaco, por vingança. Ela não se deu por vencida e o pau cantou de findar os dois na polícia. Um primo que era araque da ordem, chegou junto: Tu és doido, macho, além de abusar da tua prima, ainda bate nela é? Ela me chamou de cabeça de bagre! É isso mesmo que tu és, desgraçado, um cabeça de bagre! Ele deixou o primo estropiado, de precisar uma tuia de agente e soldados pra conter a fúria dele, e deixá-lo molinho na frente do delegado: Que brabeza é essa, hem? Me chamaram de cabeça de bagre! E o que é que tem, só sendo mesmo um cabeça de bagre para fazer uma merda dessa! Oxe, ele pulou da cadeira e agarrou-se no pescoço do delegado, de só soltá-lo depois de lapada de todo jeito no toitiço, findando desacordado. Dias depois conseguiram a soltura dele, respondendo o processo em liberdade por ser primário. Nem adivinhava o boato do apelido comendo no centro, entre bocas e ouvidos, aos cochichos. Um menino atrevido gritou: Cabeça de bagre! Ele correu e arreou a lenha no recalcitrante, sendo apartado pelo povo. A vítima deu parte na polícia, outra queixa contra ele. Sabia que ia se lascar dessa vez. Ficou na dele, primeiro encheu a pança, depois a bronca: Foda-se. Tomou todas na virada de copos e litros. Bebaço cantou e dançou: Sou cabeça de bagre, larari, laralá. Arreou no meio da rua. Acordou com o sol quente nas faces, mais do que empulhado, de tão envergonhado pelo exibicionismo. Sabia que da prima não tinha volta, agora procurado pela polícia, fugindo da família, desastroso e intragável. Foi aí que desajuizou por uma protestante: Rapaz, sou tarado nessa crente; católica é tudo hipócrita; as outras são mais vadias com pelos e cabeça de vento. E travou-se com a religiosa pela noite enorme. Ao despertar, ela não era tão linda quanto parecia. Ela invocou-se com a rejeição dele: Cabeça de bagre! A fúria dominou-lo, nem ao menos sabe o resultado de tão cego de ira. Deu uma de doido e saiu correndo, não havia outra saída, depois de aprontar foi prum hospício. Lá mesmo foi pego. Saiu mais em conta ser levado pra cadeia mesmo: Buliu com a moça, tem de casar. Um baque no coração. Olhou pra ela e com o asco de um misógino, preferiu manter-se preso. Como é que pode? Familiares e parentes no pé do ouvido: Não fica bem, pense, reflita! E pei, pou, tei, tá. Matutou e pensou consigo: Vá lá que seja, dou um jeito. Tomou uma atitude política firme e na frente de todos gritou: Nunca mais como bagre! Eis uma promessa quebrada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] homens e mulheres têm pelo menos três olhos do saber: o olho da carne, que percebe os acontecimentos físicos; o olho da mente, que percebe imagens, desejos, conceitos e ideias; e o olho da contemplação, que percebe experiências e estados espirituais. E isso, claro, é uma versão simplificada do espectro da consciência, atingindo desde o corpo até a mente e o espírito [...] Todas as coisas são una com o Fundamento Divino - ele é, afinal de contas, o Fundamento de todo o ser! Perder a unidade com esse Fundamento é cessar de existir. Siga meu pensamento: existem apenas duas posições possíveis perante o Fundamento Divino: já que todas as coisas são una com o Fundamento, você pode ou estar consciente ou inconsciente de sua união com o Fundamento Divino: essas são as duas únicas escolhas que você tem. E já que a visão romântica é que você começa, quando recém-nascido, numa união inconsciente com o Fundamento, você então não pode perder essa união! Você já perdeu a consciência da união; você não pode ir ainda mais longe, e perder a própria união, ou deixaria de existir!Então, se você não tem consciência de sua união, as coisas não poderiam ser pior, ontologicamente falando. Isso já é o cúmulo da alienação. Você já está vivendo no Inferno [...] O que eu mais queria transmitir em One Taste era a ideia de uma vida integral, uma vida em que houvesse espaço para o corpo, para mente, para a alma e para o espírito, do modo como eles se revelam no eu, na cultura e na natureza. Em outras palavras, uma vida que tentasse, num dado momento. Ser ao máximo “todos os quadrantes e todos os níveis”. Não que eu tenha uma vida integral - jamais afirmei isso - mas, esse é um ideal que vale a pena ser almejado. One Taste também dá detalhes da minha versão de uma prática transformativa integral [...].
Trechos extraídos da obra O Olho do Espírito: uma visão integral para um mundo que ficou ligeiramente louco (Cultrix, 2001), do filósofo e pensador estadunidense Ken Wilber. Veja mais aqui e aqui.

ESTAMIRA, BEIRA DO MUNDO
O monólogo Estamira – Beira do Mundo, escrito pela premiada atriz Dani Barros e a diretora Beatriz Sayad, recriando a história da doente mental crônica e catadora de lixo Estamira Gomes de Sousa (1941-2011), levada para o cinema pelo cineasta Marcos Prado, em 2005. A atriz atuou no grupo Doutores da Alegria e participou da peça Maria do Caritó. Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE RACHEL ROSALEN
A arte da artista visual, designer e arquiteta Rachel Rosalen. Veja mais aqui.
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A literatura do escritor japonês Kenzaburo Oe, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1994 aqui.
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quarta-feira, janeiro 30, 2019

HENRI LEFEBVRE, PATATIVA DO ASSARÉ, ASCENSO, THAYS GOLZ & A ESCOLA SUMIU!


E A ESCOLA SUMIU – Marcantoin não era lá muito achegado a estudo. Foi uma professorinha simpática quem o fez cativo de não arredar o pé da sala de aula. Já era galalau quando foi aprender as primeiras letras e rabiscos. O prédio escolar não era lá essas coisas todas. Pra falar a verdade, não havia nem sido acabada, nem tinha nome. Foi inaugurada antes do término das obras, e teve seu nome colocado às pressas, por morte dum poeta duma cidade vizinha que ninguém gostava dele, só o prefeito que era achegado às boêmias e homenageou-lo. Falava-se dum certo Ascenso, um homem grandão do maior vozeirão que recitava umas poesias picantes e de falas populares, chega as mulheres corarem na sua frente e os homens caírem nas gaitadas. Diziam ser ele um poeta licencioso, cheio das lábias e desbocado que só. Na cidade dele era malquisto, só desgostavam de ninguém saber ao certo a razão, se motivada por alguma proeza ou por pura inveja, parece; em Alagoinhanduba que é igual a Mariana ou Brumadinho, só uns três ou quatro cachaceiros que lhe arremedavam os versos, incluindo o prefeito, um pé-de-cana infeliz. Pois bem, lá foi Marcantoin pelegando para cair nas graças da mestra: Estuda aonde, rapaz? Sei lá o nome daquela droga, só sei o nome da professora: Gildinalda, a Naldinha do coração. Era a sua primeira paixão na vida. Do primário até parte do ginasial que ele próprio abandonou por ter dado falta dela no educandário, fincou pé: Pra quê estudar? Só tem professor chato! Além do mais, qualquer dia o mundo acaba, não adianta mesmo, só viver e mais nada. Vez em quando sem ter nada pra fazer passava pelas imediações para ver se a via, nenhum sinal dela. Que droga! O cabra cresceu com esse aperto no peito, valendo-se só do tirocínio e depois de dar meia volta e volta e meia pelos quatro cantos do mundo, já madurão, mas não menos besta que antes, voltou pra terrinha pra saber do paradeiro daquela professorinha que ainda bulia no seu íntimo. Andou que só a má notícia e chegando ao local da escola, havia sumido: Oxente! Primeiro foi a professora, agora escola também some, é? Como é que pode, hem? Nem Gidinalda nem a Escola Ascenso. Como assim? Queria saber, ora. O que ficou sabendo pela boataria: a professora zarpou enamorada na cacunda dum cavalo falso, com um príncipe fajuto pelas capoeiras adentro mundo afora; e a escola, a essa quase nem quis saber, mas apurou: uma enchente tsunâmica de bater no topo de tudo, a deixou feito profunda cratera até hoje, de ninguém sequer achar por bem de reconstruí-la. Ah, tá! Então, bem feito – disse assim meio que frustrado -, o que tem de colégio cabuloso por aí, não está no gibi, né, não? Por isso que ninguém quer estudar, escola por ginásio, serve pra nada mesmo, asseguravam os funcionários da secretaria de educação local. E o povo arremedava: Estudar endoida! Só serve pra ocupar criança, mais nada. Se ficar taludo, precisa estudar mais não, já sabe demais; basta ficar sabido pra não ser enrolado e anel no dedo só é bonito nos desdos dos outros que queimam pestanas pra não fazer nadica, só dar ordem. Isso não é pra gente não. E o nome não ajudava! Hem? Onde já se viu poeta nome de coisas, poesia não enche barriga nem enrica ninguém. Além do mais um desses que o povo fala os farrapos por seus maus procedimentos na gandaia, no meio dos gaiatos e com uma fama de gente das piores qualidades, isso lá presta! E já que não era lá tão agradável, deixaram por menos: mal exemplo que se dane, ele já morreu e que fique enterrado com tudo. E era uma vez Ascenso, o poeta reina onde estiver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Dois grupos de questões ocultaram os problemas das cidades e da sociedade urbana, duas ordens de urgência: as questões da moradia e do “habitat” (que dependem de uma política de habitação e de técnicas arquitetônicas) – as questões da organização industrial e da planificação global. As primeiras por baixo, as segundas por cima, produziram – dissimulando-o à atenção – uma explosão da morfologia tradicional das cidades, enquanto prosseguia a urbanização da sociedade. Donde uma nova contradição que se acrescentava às outras contradições não resolvidas da sociedade existente, agravando-as, dando-lhes um outro sentido. [...] Atualmente, alguns acreditam que os homens só levantam problemas insolúveis. Esses desmentem a razão. Todavia, talvez existam problemas fáceis de serem resolvidos, cuja solução está ai, bem perto, e que as pessoas não levantam. [...].
Trechos da obra O direito à cidade (Centauro, 2001), do filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre (1901-1991). Veja mais aqui.

A ARTE DE THAYS GOLZ
A arte da bailarina Thays Golz, integrante da Pennsylvania Ballet. Veja mais aqui.

MOTE: COM O GRITO DO DINHEIRO A JUSTIÇA NÃO SE APRUMA
Glosas
Ante o seu brado guerreiro, / a honra desaparece, / a razão empalidece / com o grito do dinheiro; / o sujeito interesseiro, / que com ele se acostuma, / de qualquer forma se arruma, / desconhece o próprio pai, / pois onde o dinheiro vai, / a justiça não se apruma.
Movimenta o mundo inteiro / este metal cobiçado / tudo tudo alvoroçado / com o grito do dinheiro, / onde ele forma um berreiro, / não respeita coisa alguma, / grita, guincha, berra, espuma, / derruba a lei do conceito, / pobre ali não tem direito, / a justiça não se apruma.
Poema extraído da obra Inspiração nordestina (Fortaleza, 1999), do poeta popular, compositor, cantor e improvisador Antônio Gonçalves da Silva, mais famoso como Patativa do Assaré (1909-2002). Veja mais aqui e aqui.
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A poesia do poeta Ascenso Ferreira (1895-1965) aqui
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terça-feira, janeiro 29, 2019

TCHEKHOV, NEUROEDUCAÇÃO, RON MUEK, SIMIÃO MARTINIANO & DAS LIÇÕES DA VIDA


DAS LIÇÕES DA VIDA - Confesso sinceramente: tantas vezes hesitei no entroncamento da noite, menor que um palmo além do nariz, encurralado em minha própria insciência. Quantas vezes ao receio, estrelas ocultas e quase não desisti diante ao menor embaraço. Tantas ocasiões titubiei na travessia, abri mão da última passada, espremido na dor de não enxergar outras tantas veredas. Valiam os outros e seus dizeres, olvidava de mim. Sucumbi vela derretida, sozinho minhas dores e cortes no trajeto de tantos incertos começos e recomeços sucessivos. Reconheci meus erros, sou mortal e prestei atenção, talvez descobrisse. Por meus próprios esforços diligentes, assumi o dever de cumprir por minhas ações, desatinos na lâmina afiada. Corri atrás, enfrentei minhas tempestades, aos ombros a carga pesada do incompreendido e o sacrifício das árduas tarefas, uma filosofia viva e a compreensão das interrelações nas escrituras do mundo. Se não era eu mesmo, tinha de ser, e não mais escapei do esforço pessoal nem a mão milagrosa para os atalhos. Não mais esperei dos outros as minhas expectativas e vi que o amargo não era tão assim e o depois de passada a queimadura não é tão dolorosa assim. Demovi cascas e mudei de pele, não foi fácil. Na horagá, como valorar o querer, teres e haveres, suspenso pelas rejeições e fracassos. Lambi os talhos para não perecer vazio e sorri ao tentar de novo e novamente refiz, cônscio Sísifo que desagrada a cada ida e volta. Ao ignorar do tempo e espaço, longe ou tarde, havia de discernir na montanha russa entre o definitivo e a finitude. Nenhuma certidão, há sempre o que aprender e a reaprender a cada momento. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] A neuroeducação atual tem como objetivo não somente a compreensão de como o ser humano aprende melhor, mas, também como eles de vem ser melhor ensinados para maximizar seu potencial. [...] estudantes aprendem melhor quando são altamente motivados do que quando não têm motivação; estresse impacta aprendizado; ansiedade bloqueia oportunidades de aprendizado; estados depressivos podem impedir aprendizado; o tom de voz de outras pessoas é rapidamente julgado no cérebro como ameaçador ou não-ameaçador; as faces das pessoas são julgadas quase que instantaneamente (isto é, intenções boas ou más); feedback é importante para o aprendizado; emoções têm papel-chave no aprendizado; movimento pode potencializar o aprendizado; humor pode potencializar as oportunidades de aprendizado; nutrição impacta o aprendizado; sono impacta consolidação de memória; estilos de aprendizado (preferências cognitivas) são devidas à estrutura única do cérebro de cada indivíduo; diferenciação nas práticas de sala de aula são justificadas pelas diferentes inteligências dos alunos [...] cada cérebro é único e unicamente organizado; cérebros são especializados e não são igualmente bons em tudo; o cérebro é um sistema complexo, dinâmico e em modificação diária, pelas experiências;  cérebros são considerados ‘plásticos’ e continuam a se desenvolver ao longo de suas vidas; aprendizado é baseado em parte na habilidade do cérebro de se auto-corrigir e aprender pela experiência, através da análise de dados e auto-reflexão; a busca por sentido é inata na natureza humana; a busca por sentido ocorre através de ‘padronizações’; aprendizado é baseado em parte na habilidade do cérebro de detectar padrões e fazer aproximações para aprender; emoções são críticas para detectar padrões; aprendizado é baseado em parte na capacidade do cérebro para criar; aprendizado é potencializado pelo desafio e inibido pela ameaça; o cérebro processa partes e todo simultaneamente (é um processador paralelo); cérebros são projetados para flutuações mais do que atenção constante; aprendizado envolve tanto atenção focada quanto percepção periférica; o cérebro é social e cresce na interação (tanto quanto na reflexão pessoal); aprendizado sempre envolve processos conscientes e inconscientes; aprendizado é desenvolvimental; aprendizado recruta a fisiologia completa (o corpo impacta o cérebro e o cérebro controla o corpo); diferentes sistemas de memória (curto prazo, de trabalho, longo prazo, emocional, espacial, de hábito) aprendem de formas diferentes; informação nova é arquivada em várias áreas do cérebro e pode ser evocada através de diferentes rotas de acesso; o cérebro recorda melhor quando os fatos e hábilidades são integrados em contextos naturais; e Memória + Atenção = Aprendizado. [...]
Trechos extraídos do estudo The scientifically substantiated art of teaching: a study in the development of standards in the new academicfield of neuroeducation (mind, brain, and education science) – (Capella University, 2008), da professor, pesquisadora Tracey Noel Tokuhama-Espinosa. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A ESCULTURA DE RON MUEK
A arte do escultor australiano Ron Muek. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O CINEMA DE SIMIÃO MARTINIANO
A obra cinematográfica do ator, roteirista e cineasta Simião Martiniano (1932-2015), conhecido como o Ed Wood do Nordeste, compreende várias realizações, tais como Traição no Sertão (1979); A rede maldita (1991); O vagabundo faixa preta (1992); A mulher e o mandacaru (1994); Traição no Sertão (1996, refilmagem); O herói trancado (1999) - como ator; A moça e o rapaz valente (1999); Conceição (2000) - também como ator; e A valise foi trocada (2007). Em sua homenagem foi realizado o documentário Simião Martiniano, o camelô do cinema (1998), produzido por Hilton Lacerda e Clara Angélica, retratando a sua vida. Veja mais aqui e aqui.
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A obra do dramaturgo e escritor russo Anton Tchékov (1860-1904) aqui e aqui
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segunda-feira, janeiro 28, 2019

NISE DA SILVEIRA, VITOR ARAÚJO, OUROPEL DE ALAGOINHANDUBA, GOMES & THAMY PACHECO


CORRIDA DO OUROPEL RADIOATIVO – Bastou Dalcidita aparecer com um anel brilhante e luminoso para começar uma verdadeira escavação por todos os quintais e terrenos de Alagoinhanduba. Foi assim: Cledinaldo havia sonhado com um anjo que lhe dizia haver uma botija enterrada no oitão da casa dele, com muitos tesouros. Acordou disposto, armou-se de enxada e danou-se a cavoucar por todo terreiro, esburacando tudo, até se deparar com um objeto cilíndrico luminoso: Que droga é nove? Ficou meio lá e meio cá. Chamou Gerdinildo que ficou intrigado: Sei lá que peste é isso! Logo apareceu Nardivânio curioso e metendo o bico na conversa: É algo de outro mundo, pode crer! Clemidilton mais abelhudo logo retrucou: Nada, isso é coisa do Coiso-ruim, sai-te, cruz-credo. Aí apareceu gente como a praga. No meio deles, Jandolito mais prudente, achou que fosse um balão de oxigênio banhado a ouro. E veio pitaco de toda ordem: Isso explode? Quem sabe! Ah, certo ou errado, danaram a marreta que a coisa ia se esfarelando de formar um punhado de pedrinhas cintilantes: Ah, meu, isso são pedras preciosas, estás rico, cara! Foi, rapaz, o anjo me disse no sonho que eu enricaria mesmo! Então, taí, estás podre de rico. E foi pro joalheiro que teve um choque ao ver coisa tão maravilhosa e, pronto para aplicar um golpe nos bugres que avolumaram o recinto, por via das dúvidas, achou de submeter ao seu científico conhecimento profundo gabaritado por décadas no trato com espécies valiosas: Isso é ouropel. Que porra é isso? Ouro que não vale nada. É mesmo? Pode deixar aqui que vou jogar no lixo. Ah, vou fazer um anel de casamento pra Dacildita e o resto pode jogar fora. Como Gerdinaldo desconfiava das dissimulações do esperto diamantista, embolsou logo um bocado e saiu de fininho. A turma caiu em cima e cada um pegou o punhado que podia. No meio do disse me disse, a descoberta encheu o boato no mesmo dia, a notícia se espalhou e já de tarde começava uma corrida do ouro, o povo todo perfurava terrenos e ruas, cursos d’água, pés de morro, chão que fosse, matagal ou barro batido, atrás de riquezas enterradas. A garimpagem virou a localidade de pernas para o ar. Que foi que deu nesse povo? Ah, um cara lá achou uma botija e estão dizendo que tem um monte delas enterradas por aqui. Oxe, é mesmo? Ah, se é! Então, vamos lá que ninguém é besta! E tome picaretadas e enxadadas pra cima e pra baixo. O sonho de prosperidade era a tônica, de chega todos atravessarem a noite pela madrugada. Nem deram conta de manhã que Dalcidita não acordou com o dedo todo roxo. Gerdinaldo também, com a coxa destruída carne e ossos expostos e a perna solta do lado. Cledinaldo apareceu com uma língua de fora toda preta e mãos e olhos como se torrados de carvão. Logo souberam daquele que corria doido feito lâmpada fluorescente piscando, outro que jurou ir pro céu na maior combustão. Teve até um que desenvultou de virar uma barra de ouro maciço. Será? Esses eventos estranhos foram espoucando aqui e acolá, transformando o povinho bom de Alagoinhanduba nas mais inusitadas situações. Bastante invocado o Cledimilton insistia: Num disse que era coisa do traste-ruim! Vá ver. E nem ele próprio foi poupado pela avareza: no charco atrás da casa dele apareceu aquilo que seria, para ele, a salvação da sua miséria e danou o martelo pra cima. Como toda população foi envolvida na corrida ao ouro, não deu outra. Contam que de longe ouviram uma explosão que mais parecia um cogumelo atômico incendiando o céu e, dessa vez, de verdade, Alagoinhanduba foi varrida não só do mapa como do mundo, tornando-se lenda de cidade desaparecida. Do local, hoje, vê-se uma imensa cratera que não dá nem mosquito voando. Era uma vez um lugar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
Certamente há muitas maneiras de ver as coisas. Existem aqueles que têm olhos para o mundo exterior e esperam do desenho ou da pintura cópias mais ou menos aproximadas de seres e de coisas da natureza externa. Outros, como Kandinsky, aceitam a existência de uma realidade interna, mesmo mais ampla que a natureza externa, realidade que unicamente pode ser apreendida e comunicada por meio da linguagem visual [...] Se muitos permanecem ainda aferrolhados na ordem racional, outros abrem largas janelas para a ordem do imaginário, sem por isso desprezarem a razão. Aceitam a complexidade da pa psique e seus múltiplos poderes [...]
Trechos extraídos da obra O mundo das imagens (Ática, 1992), médica psiquiatra e psicoterapeuta alagoana Nise da Silveira (1905-1999). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A MÚSICA DE VITOR ARAUJO
Hoje e toda semana na Rádio Tataritaritatá a música do pianista e compositor Vitor Araújo. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

A ARTE DE GOMES – THAMY PACHECO
Eis que por um acaso, nem mesmo um aceno da palavra. Muito menos das cores. Nunca fui avisada que um dia reinaria o silêncio. O meu. E o das coisas. Os objetos ficaram mudos. Vejo meus olhos beirar os trinta. E o fulgor que existia em mim abrandar de modo confinado. Desesperado. E a jovem que poderia ter tudo. Tornou-se apenas ela mesma. Uma ilusão a menos. Somos todos apenas mais um. Um dia já encarei os pés enquanto andava. Vivendo a incrível história, que era a minha vida. E isso me bastava. Achava meu pensamento importante. Assim como minhas memórias. Mesmo nos dias de pouco. Ou quase nada. Eu me tinha. E isso me bastava. Tornei-me aquilo que não tinha. Destruir para pertencer. Caber nos dias de trabalhar para poder ter. E quanto mais somam os anos, menos te dão o tempo. Vivemos em um mundo que é preciso pagar pela dignidade. Alguns chamam de maturidade. Outros nem sequer chegaram a pensar nisso. Tenho para mim que se tivesse um nome, chamaria miserabilidade. Sei bem que encerrarei essas palavras. Aquelas que não tinha. Por sorte talvez me venha um sopro e eu me permita viver por alguns dias. Mas sei, como antes, que arrancarei minha alma com as mãos para conseguir viver nesse mundo. E tudo será cinza de novo. Eu. E as coisas.
Poema & arte de Gomes, pseudônimo da escritora e artista plástica graduada em Engenharia Mecânica e mestranda em Tecnologias Energéticas e Nucleares, Thamy Pacheco.
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sexta-feira, janeiro 25, 2019

TAO TE CHING & LAO TSÉ, MANUEL CASTELLS, MAG MAGRELA & MANÉ TONHO


A RIQUEZA DE MANÉ TONHO – Mané Tonho era pobre de Jó, também não servia para nada, nem pai tinha, mãe muito menos, era um enjeitado. Um braquelo franzino, vixe, Deus meu, mais parecia uma tabica graúda, daquela meia troncha, de chega dava pena de vê-lo. Quem criou essa trepeça? Quem sabe! Isso é um desacerto da vida. Parecia mesmo. Desengonçado, todo desligado, andava assim, quase avoando, espinhaço envergado, pálpebras arriadas de quase nem falar, nem coragem tinha para tanto. Ao chamá-lo, demorava que só pra voltar e responder, lá distante de si e de tudo dava um hem qualquer, de ninguém nem mais aparecer pra falar. Esse menino num tem serventia mesmo, diziam na cara lavada. E ele nem nem. Só no de seu. Onde essa alma penada mora? Quem sabe, ora! Um dia lá falavam duma casa malassombrada que havia no oitão defronte do arruado longe. Aquela ali? Apontavam: Aquela mesma. Num diga. Quem é doido de ir lá? Ara, ali é a casa do coisa-ruim, quem vai lá, num volta. E num é que Mané Tonho num dia de ter tomado umas e outras inventou de encarar o pávido recinto? Pois foi. Num vai lá, abestalhado, quem vai num volta. Ele foi, nem nem. Bicado como estava, abriu o ferrolho enfurrajado do resto de portão, entrou pela calçada interna e foi bater na porta. Ninguém abriu. Ele, então, empurrou com força e abriu-se com o maior rangido amedrontador. Sabe-se que ele entrou no meio da escuridão. E o povo do lado de fora: E num é que o danado entrou mesmo? Ora, quem fica é que é besta, quero lá ver maldição braba pra cima de mim, vou-me embora. Eu também. E foram todos. Lá dentro Mané Tonho tateava pelas paredes à procura dalguma coisa para clarear o recinto. Tropeçou numas coisas, topou em outras, quase cai, se segurou como podia. Foi aí que ele bateu nuns candelabros que tremularam emitindo sons horríveis. Meio lá, meio cá, sacou da caixa de fósforos: velas enormes diante de oratório grande, cheio de castiçais. Acendeu uns dois pavios e se assutou com o que viu: era a imagem dele próprio no espelho, pensou que fosse assombração. Não era. Até se riu com a leseira do susto. Pegou um castiçal, iluminou tudo e percebeu umas tranqueiras num canto da parede, ajeitando direitinho pra fazer uma fogueira. Tudo pronto tocou fogo e ficou olhando em volta. Admirou-se com um sofá velho encostado na parede oposta, lá mesmo foi e se arranchou alisando a pança. Lá pras tantas, quase cochilando ouviu alguém dizer: Caio? Hem? Caio? Ah, destá, caia, ora. Caiu uma perna. Depois um grito: Caio? Hem? Caio? Oxe, caia, desgraçado! Caiu a outra perna. Quase dois minutos depois: Caio? Caia, fidumégua! Caiu um braço. Ih, esse negócio é de rosca! Pouco depois: Caio? Caia, fidapeste! Caiu um quarto e outro braço! Pronto, essa assombração é uma lorota mesmo. Larga de pinoia, oxente! Não demorou muito: Caio? Por que num cai tudo logo, remoento! Teibei. Caiu a cabeça com tudo e juntou-se tudinho. Pronto, agora quero ver que malassombro é esse. Fez-se um zoadeiro, a poeira cobriu e quando assentou, era uma lagartixa e das grandes. Oxe! É isso é que é malassombro? Ridículo! Num mangue de mim. Agora deu, mangar de tu, a-há! Já disse, não mangue de mim! Aí ele fez menção de pegá-la, ela correu pelos cantos e foi subindo na parede, ele pegou uma vassoura e tei, ela caiu. Pegou-la, segurou-la e enfiou num espeto, ela aos gritos. Cala a boca que vou assá-la. Não, não me asse. Ele enfiou o espeto do furico até sair pela boca, ela engasgada. Aí, quanto mais botava o espeto no fogo, mais ela gritava: Não me asse, rapaz. Foi aí que ao assoprar o fogo, a lagartixa pulou de um jeito extraordinário, escapuliu e saíram ambos no maior pega-pega, até se agarrarem numa briga medonha e bem demorada. Depois de um sassaricado poeirento, ele conseguiu amarrar a lagartixa que dizia: Me solte, rapaz. Solto não, amanhã quero mostrar a todo mundo quem é o malassombro daqui. Ah, me solte que eu lhe amaldiçoo. Solto nada! Me solte que sou o marido da dona daqui, enterrei muito dinheiro nesse chão e não quero ninguém por perto. Solto nada, amanhã você vai ver. Ah, me salve, rapaz? Salvar como? Arranque a botija, está ali. Onde? Ali, arranque, vá! Quem enterrou num foi você? Foi. Pois, então, arranque você, eu não. Arranque, rapaz. Arranco nada, arranque você. Então me dê o escavador. Vá pegar. Me solte! Deixe de presepada. Me solte, como eu vou tirar a botija amarrado? Não vai aprontar comigo, vai? Não, me solte que eu vou trazer a botija. Promete? Juro por minha morte! Jura? Juro! Então, tá. Aí soltou e ela foi cavando, cavando, até bater em dois baús. Pronto, taí. E foi desaparecendo. Quando ela sumiu, ele foi dormir, ronco solto noite adentro. O dia amanheceu e ao despertar ouviu uma barulhada grande na rua, foi aí que viu que o povo todinho estava lá reunido esperando o desfecho. Que é que é, mundiça? Eita, ele tá vivo! Vão-se embora que quero dormir. O cabra é corajoso mesmo, vai morar de vez aí. Será? E lá se foi um dia, dois, uma semana e ele lá. Daí mais um tempo passado, só se via trabalhadores aumentando o muro, ajeitando as coisas lá pra dentro e o que era uma casa abandonada ficou todas nos trinques na posse de um dos homens mais ricos hoje em dia. Não é mentira não, na vera mesmo. Quem diria que o Mané Tonho dava pra alguma coisa que prestasse? De onde menos se espera é que acontece. Hoje ele é um buchudo ricaço, cheio das gaitadas e nove horas, e dono de quase tudo na redondeza de Alagoinhanduba. Achar botija, malassombro dá nisso. Pois é. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
Ninguém esperava. Num mundo turvado por aflição econômica, cinismo político, vazio cultural e desesperança pessoal, aquilo apenas aconteceu. Subitamente, ditaduras podiam ser derrubadas pelas mãos desarmadas do povo, mesmo que essas mãos estivessem ensanguentadas pelo sacrifício dos que tombaram. Os mágicos das finanças passaram de objetos de inveja pública a alvos do desprezo universal. Políticos viram-se expostos como corruptos e mentirosos. Governos foram denunciados. A mídia se tornou suspeita. A confiança desvaneceu-se. E a confiança é o que aglutina a sociedade, o mercado e as instituições. Sem confiança nada funciona. Sem confiança o contrato social se dissolve, e as pessoas desaparecem, ao se transformarem em indivíduos defensivos lutando pela sobrevivência. Entretanto, nas bordas de um mundo que havia chegado ao limite de sua capacidade de propiciar aos seres humanos a faculdade de viver juntos e compartilhar sua vida com a natureza, mais uma vez os indivíduos realmente se uniram para encontrar novas formas de sermos nós, o povo. [...] Começou nas redes sociais da internet, já que estas são espaços de autonomia, muito além do controle de governos e empresas, que, ao longo da história, haviam monopolizado os canais de comunicação como alicerces de seu poder. Compartilhando dores e esperanças no livre espaço público da internet, conectando-se entre si e concebendo projetos a partir de múltiplas fontes do ser, indivíduos formaram redes, a despeito de suas opiniões pessoais ou filiações organizacionais. Uniram-se. E sua união os ajudou a superar o medo, essa emoção paralisante em que os poderes constituídos se sustentam para prosperar e se reproduzir, por intimidação ou desestímulo – e quando necessário pela violência pura e simples, seja ela disfarçada ou institucionalmente aplicada. [...] Esses movimentos sociais em rede são novos tipos de movimentos democráticos, movimentos que estão reconstruindo a esfera pública no espaço de autonomia constituído em torno da interação entre localidades e redes da internet, fazendo experiências com as tomadas de decisão com base em assembleias e reconstituindo a confiança como alicerce da interação humana. Eles reconhecem os princípios que se anunciaram com as revoluções libertárias do Iluminismo, embora distingam a permanente traição desses princípios, a começar pela negação original da cidadania plena para mulheres, minorias e povos colonizados. Eles enfatizam as contradições entre uma democracia baseada no cidadão e uma cidade à venda pelo lance mais alto. Afirmam seu direito de começar tudo de novo. Começar do começo, após chegar ao limite da autodestruição graças a nossas instituições atuais. Ou assim acreditam os atores desses movimentos, cujas palavras apenas tomei de empréstimo. O legado dos movimentos sociais em rede terá sido afirmar a possibilidade de reaprender a conviver. Na verdadeira democracia. [...].
Trechos extraídos da obra Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet (Zahar, 2013), do sociólogo espanhol Manuel Castells. Veja mais aqui e aqui.

TAO TE CHING & LAO TSÉ
DA LEI DA COMPENSAÇÃO HUMANA: O que é imperfeito será perfeito; / O que é curvo será reto; / O que é vazio será cheio; / Onde há falta haverá abundância; / Onde há plenitude haverá vacuidade. / Quando algo se dissolve, algo nasce. / Assim, o sábio, / Encerrando em si a alma do Uno, / Se torna modelo do Universo. / Não dá importância a si mesmo, / E será considerado importante. / Não se interessa por si mesmo, / E será venerado por todos. / Nada quer para si, / E prospera em tudo. / Não pensa em si, / E é superior a tudo. / E, por não ter desejos, / É invulnerável. / Por isto, há muita verdade / No velho ditado: / Quem se amolda é forte. / É esta a meta suprema / Da vida humana.
VIVÊNCIA PELAS LEIS CÓSMICAS: O que está em repouso é fácil conservar. / O que é insignificante pode facilmente ser influenciado. / O que é frágil pode ser quebrado facilmente. / O que é leve pode ser levado pelo vento. / A ordem deve ser mantida, antes que surja a desordem. / A árvore mais gigantesca nasceu de uma raizinha fina como um cabelo. / Uma torre de nove andares repousa sobre uma pequena área de terra. / Uma viagem de mil léguas começou com o primeiro passo. / Quem faz algo contra a lei tem de falhar. / Quem se apega a algo o perderá. / Por isto, o sábio não é egocêntrico, e por isto nunca falha. / Não se apega a nada, e por isto não perde nada. / Outros falham antes de chegar à meta, / Porque não esperaram pelo momento oportuno. / Quem enxerga o início e o fim, esse não falha. / O único desejo do sábio é não ter desejos. / Não deseja nada o que a outros é desejável. / Nem deseja inteligir objetos de inteligência. / O que a outros é insignificante o sábio o considera importante. / Assim estabelece ele a reta ordem em si e nos outros, / Não agindo jamais em desacordo com as leis cósmicas.
Poemas extraídos do Tao Te Ching (Mauad X, 2011), do antigo filósofo e escritor chinês Lao Tsé que viveu por volta de 1300aC. Veja mais aqui.

A ARTE DA MAG MAGRELA
A arte da multiartista Mag Magrela. A paulistana é poeta, ilustradora, desenhista e artista de rua e grafite. Veja mais aqui
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quinta-feira, janeiro 24, 2019

PAULO FREIRE, BOB CARLOS CLARKE, SOLILÕQUIO SUICIDA, HOMENS & CARANGUEJOS


SOLILÓQUIO SUICIDA - Em minhas mãos espalmadas, sei, linhas e arranhuras, cicatrizes outras e muitas de arame farpado: todos os dias morri um pouco no desamparo da solidão. Nada deu certo e, quando valeu, passou que nem vi. Sei lá quantas malas arrastei, fui e voltei, perdi a viagem  de mãos abanando, a face no chão. De mim, aos pedaços, tudo espalhado no chão. Nem preciso catar, não mais desespero por escombros. Bem-aventurado os que choram, meus olhos estão secos, mesmo que deplore. Já não durmo, nem sei que dia é hoje. Acaso somos isso, desastrado, coagido, errâncias. Sinto nos meus ossos a carnificina da minha própria carne emaciada. As coisas começam assim do nada, vai ver, aos sobressaltos, tapetes puxados, lugar de injustiças, o ressentimento de tudo pela humilhante inatividade forçada que estagna e frustra, açoitado pelas adversidades, aniquilado, cronicamente deprimido, como se o ordálio o revide por sobreviver inconformista. Nada mais há. Ao longe quase nem vida mais, só o barco de Caronte com o assombro de Bocklin diante do rastro medonho da monstruosa inimiga. Não mais, aprendi com a Ars moriendi, e sei que ela vem, como disse Horácio, com suas asas negras e a rede para me caçar. Estou aqui, inerme e só pelo vale da sombra, pronto para minha última destruição, perdi o cocheiro real. O rei está morto. Já sei e lá vem ela, a filha da noite e irmã do sonho que me deixou entre estercos, sem saída, mergulhado no lodo, pendurado pelos calcanhares, de cabeça degradada para baixo como castigo dos traidores no pelourinho, as mãos amarradas às costas entre os galhos que sangram e o abismo. A mim nada mais que o tempo e a espera por força vencida de quem não sabe de onde, a minha crucificação. Ela vem como o quarto cavaleiro do apocalipse galopando furiosa de um lado a outro com sua espada empunhada. Vem de não sei mesmo onde com o dedo apontado para mim, a desgraça de Hopkins para a qual eu nasci. Nada mais resta, dou-me o pescoço ao cepo. Sirva-se, satânica tentadora, agora minha única amiga e companheira, essa fatal conviva pavorosa, esteja eu pronto ou não, ela vem para o encontro em Samarra, para se banquetear de mim. A quem recorrer, ninguém de plantão, só ao ridículo público. Minha mão cheira a mortalidade e à mercê do precipício. Saberei quando lá chegar sem bagagem, nenhum pertence, tudo o mais ficou para trás, abri mão de tudo, a coragem pro sacrifício: meu esqueleto rodopiando feito um dervixe, brandindo a segadeira ao próprio prescoço na frenética dança da morte. A minha mão, todas as culpas, o fio de alta tensão. Quase nenhuma hora, todos os remorsos, a dor de não saber vencer, perdas por demais. A minha mão e o fio de alta tensão, rente. Quem sabe, o crime máximo, a fuga covarde, ato inútil que apagará uma existência sem sentido e desprenderá das amaras, a suprema libertação. Não há por que esperar, será agora ou nunca, vou antes que seja tarde ou me arrependa. Não é preciso dizer adeus, ninguém à despedida. Vou. Eu também gostaria de outra morte, Eliot. E a mão aperta o fio de alta tensão. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Estudar é, realmente, um trabalho difícil. Exige de quem o faz uma postura crítica, sistemática. Exige uma disciplina intelectual que não se ganha a não ser praticando-a. Isto é, precisamente, o que a “educação bancária” não estimula. Pelo contrário, sua tônica reside fundamentalmente em matar nos educandos a curiosidade, o espírito investigador, a criatividade. Sua “disciplina” é a disciplina para a ingenuidade em face do texto, não para a indispensável criticidade. Este procedimento ingênuo ao qual o educando é submetido, ao lado de outros fatores, pode explicar as fugas ao texto, que fazem os estudantes, cuja leitura se torna puramente mecânica, enquanto, pela imaginação, se deslocam para outras situações. O que se lhes pede, afinal, não é a compreensão do conteúdo, mas sua memorização. Em lugar de ser o texto e sua compreensão, o desafio passa a ser a memorização do mesmo. Se o estudante consegue fazê-lo, terá respondido ao desafio. Numa visão crítica, as coisas se passam diferentemente. O que estuda se sente desafiado pelo texto em sua totalidade e seu objetivo é apropriar-se de sua significação profunda. Esta postura crítica, fundamental, indispensável ao ato de estudar, requer de quem a ele se dedica: a) Que assuma o papel de sujeito deste ato. Isto significa que é impossível um estudo sério se o que estuda se põe face do texto como se estivesse magnetizado pela palavra do autor, à qual emprestasse uma força mágica. Se se comporta passivamente, “domesticadamente”, procurando apenas memorizar as afirmações do autor.  Se se deixa “invadir” pelo que afirma o autor. Se se transforma numa vasilha” que deve ser enchida pelos conteúdos que ele retira do texto para pôr dentro de si mesmo. Estudar seriamente um texto é estudar o estudo de quem, estudando, o escreveu. É perceber o condicionamento histórico-sociológico do conhecimento. É buscar relações entre o conteúdo em estudo e outras dimensões afins do conhecimento. Estudar é uma forma de reinventar, de recriar, de reescrever – tarefa de sujeito e não de objeto. Desta maneira, não é possível a quem estuda, numa tal perspectiva, alienar-se ao texto, renunciando assim à sua atitude crítica em face dele. A atitude crítica no estudo é a mesma que deve ser tomada diante do mundo, da realidade, da existência. Uma atitude de adentramento com a qual se vá alcançando a razão de ser dos fatos cada vez mais ludicamente. Um texto estará tão melhor estudado quanto, na medida em que dele se tenha uma visão global, a ele se volte, delimitando suas dimensões parciais. O retorno ao livro para esta delimitação aclara a significação de sua globalidade. Ao exercitar o ato de delimitar os núcleos centrais do texto que, em interação, constituem sua unidade, o leitor crítico irá surpreendendo todo um conjunto temático, nem sempre explicitado no índice da obra. A demarcação destes temas deve atender também ao quadro referencial de interesse do sujeito leitor. [...] Neste caso, o que deve fazer é reconhecer a necessidade de melhor instrumentar-se para voltar ao texto em condições de entendê-lo. Não adianta passar a página de um livro se sua compreensão não foi alcançada. Impõe-se, pelo contrário, a insistência na busca de seu desvelamento. A compreensão de um texto não é algo que se recebe de presente. Exige trabalho paciente de quem por ele se sente problematizado. Não se mede o estudo pelo número de páginas lidas numa noite ou pela quantidade de livros lidos num semestre. Estudar não é um ato de consumir idéias, mas de criá-las e recriá-las. [...].Trechos de Considerações em torno do ato de estudar, extraído da obra Ação Cultural para a Liberdade (Paz e Terra, 1981), do educador, pedagogista e filósofo Paulo Freire (1921-1997). Veja mais aqui, aqui e aqui.

HOMENS & CARANGUEJOS
O espetáculo teatral Homens e caranguejos, baseado na obra homônima do médico, sociólogo, antropólogo e geógrafo Josué de Castro, pela companhia Cia Duas de Criação, dirigida pela recifense Luciana Lyra em parceria com sua conterrânea Viviane Madu, e o Coletivo Cênico Joanas Incendeiam (SP). Na trama, Josué apresenta aspectos presentes na realidade cotidiana do homem sertanejo dos dias de hoje: deslocamentos forçados pela seca, a fuga do árido (climático, econômico e social) para o centro e a busca por uma condição social mais digna. A trama gira em torno de um menino de onze anos, que chegou aos mangues de Recife (PE), com sua família, fugindo da seca de Cabaceiras após a morte do irmão mais velho. Sua vida se divide entre ser um catador de caranguejos, a vontade de brincar e a amizade com um ex-seringueiro, que vive no seu mocambo com suas pernas imóveis. Referências de autores como Hélio Oiticica, Glauber Rocha, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Gilberto Freire e Darcy Ribeiro estão presentes na montagem. No campo musical, espaço aberto para o côco e o cavalo-marinho, ritmos tradicionais nordestinos. Veja mais aqui.

A FOTOGRAFIA DE BOB CARLOS CLARKE
A arte do fotógrafo e documentarista britânico-irlandês Bob Carlos Clarke (1950-2006). Veja mais aqui.
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quarta-feira, janeiro 23, 2019

RUBEM ALVES, MICHEL SERRES, O DIÁRIO DAS FRUTAS, IANGAÍ & ALAGOIANHADUBA


PEDAÇO DE HISTÓRIA – Para quem não sabe Alagoinhanduba não está no mapa porque não entrou na história. Qual a razão? Seguinte: em 1535, o capitão-donatário Duarte Coelho assumiu a Capitania de Pernambuco, tratada por ele por Nova Lusitânia. Tudo recebeu do rei de Portugal, de mão beijada, por seus serviços prestados. Todo engalanado ele chegou acompanhado de sua fidalga esposa, Brites de Albuquerque, do seu cunhado Jerônimo e de uma parentela que não tinha mais fim, todos tentando a sorte, imagine. Dessa vez era diferente de outra viagem que ele mesmo fez em 1503, quando aqui esteve, então filho bastardo de membro duma antiquíssima família da nobreza agrária do Entre-Douros e Minho, criado por uma tia materna que era prioresa do Mosteiro de Vila Nova de Gaia. Veio, então, na companhia do pai que era escrivão da Fazenda Real e que se tornou comandante da expedição, juntamente com a plebeia Catarina Anes, sua mãe. Logo retornara. Passaram-se os anos e, agora sim, como um nobre que conseguira apagar as máculas do passado, ele desembarcava de nariz empinado e senhor de todas as ordens, manda-chuva da administração geral e do cultivo da cana-de-açúcar, instalando engenhos de açúcar, tabaco e algodão, botando ordem e pintando o sete, tendo por financiamento a garantia do capital judeu e protestante, oriundo do tráfico de escravos da Guiné. Mas, tinha uma bronca: a arenga entre ele, índios e colonos só veio mesmo amainar, com a união do seu cunhado Jerônimo com Maria, a filha do cacique Arcoverde dos tabajaras. Uma dor-de-cabeça a menos, pois ainda restavam caetés e franceses, o que já era uma barra pra lá de braba. Pois bem, contando com a ajuda dos céus, foi isentado de prestar contas ao governador geral da Bahia, Tomé de Sousa, o que quase mata o maioral do coração. Por conta disso, mandou ver na capitania e tome trupé. Foi por esse tempo que teve um confronto com um grupo de aguerridos caetés, e disso foi atingido por uma flecha. Que coisa! Porém, ao se recuperar recebeu o chefe tabajara, Tabira, que trouxe os prisioneiros com pedido para sacrificá-los. Aproveitando-se da captura deles, sua intenção era outra, vez que, entre eles, estava ela, Iangaí, Ó linda. Apenas ela foi poupada, os demais foram pros quintos dos infernos ou sabe-se lá pra onde. A prisioneira passou a ser o centro das suas atenções, estava, deveras, perdidamente apaixonado. Ela, nada, virada na capota choca, revoltada, era só desprezo porque seu coração estava destinado a Camura, o seu amado caeté. O donatário usou de seus poderes e, como não poderia ser diferente, partiu pra cima dela, incontrolável, vuque-vuque e a estupra, mesmo com os protestos e rejeições dela. Ó linda, assim seviciada todas as noites, até o dia em que a índia Maria de Jerônimo confidenciou: Ela vai matá-lo. Ele ignorou, estava apaixonado demais para ser tocado pela repulsa da amada, mas precaveu-se. Passou-se o tempo e após muitas fungadas e teitei, ela pariu seu filho que é tomado por Maria para o donatário. Aí, ela foge e se mata, encontrada morta dias depois e envolta em folhas de timbó. Oh não! Em sua homenagem ele funda Olinda da Nova Lusitânia, que até então não tinha esse nome não, era local onde se instalava a aldeia Marim dos Caetés. A criança desapareceu e ninguém sabia nada do paradeiro dela. Como é que pode isso? Babau. Tome anos. A povoação é promovida a vila em 1537, em uma grande festa para o poderoso. E tudo correu normalmente até ele bater as botas em 1554, lá em Portugal, sem saber notícias do filho perdido. D. Brites que assumiu tudo por aqui, não queria ouvir falar nem de longe do bastardinho sumido, apenas dos dois filhos, Duarte e Jorge, que estavam estudando na metrópole e logo retornariam para o seu seio. Pois foi. Sem que ninguém desse por nada, o adulterino cresceu ninguém sabe como e tornou-se o destemido mameluco que arrasou sesmarias e fortunas, dizimou índios, brancos e negros que encontrasse pela frente, adultos, meninos e velhos, tudo sacrificado; apenas por cativeiro as mulheres, senhoras e filhas dos subjugados. Formou um verdadeiro harém, formado por um plantel de brancas, negras e índias para suas orgias por noites e dias. Mais tivesse ou desse. Desconhecia da honra, ignorava sentimentos e apenas matava só por prazer e festa, pois pegava bicho que fosse de mão – jacaré, tubarão, coisa ruim, o que fosse -, enfrentava cruzeta na caixa dos peitos, e tinha por café pequeno quebrar o pescoço alheio. Vôte! Diziam: Esse tem parte partes com o tinhoso! Se não for o próprio, gente! Muitas diziam dele de corpo fechado, pactuado com o demo, espírito ruim, coisas e tais. Parentes, para ele, não tinha, nem se identificava com branco ou índio, muito menos com qualquer semelhante na face da terra, passasse, matava. Teve por alvo a vida toda, afora abusar das mulheres que emprenhavam bruguelos aos montes, sacrificar quem atrapalhasse seu passeio, desbancar qualquer pé de gente metido a besta, principalmente, o de retomar todas as sesmarias doadas pelo pai, assumindo para si toda a capitania e até terras outras mais para as bandas do norte e de outras capitanias. Isso nem contava vitimar-se numa noite invenosa de priaprisma, no meio de um coito ineivado em cima de uma índia tarada, morrendo a bem da salvação dos que conseguiram escapar de seu poder e fúria. Todos os seus domínios foram resgastados um por um pelo primeiro que chegasse, restando, coitada, à Alagoinhanduba, simplesmente, aquele que ninguém queria por ser amaldiçoado e que ainda hoje é demarcado como seu espaço territorial, tão ínfimo, chão esse esconjurado secularmente por ter sido a sede do poderio desse insano. Por conta disso, a cidade sequer figura no mapa, justo porque foi ignorada pela história. E vamos aprumar a conversa, meu! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
O amor, não a guerra. [...] O amor, não a guerra, isso requer talento demais. Um poder que se acha no povo, uma relação positiva com a vida que falta aos intelectuais, burgueses, militares e políticos. Àqueles que impuseram uma cultura da sexualidade torta, sadismo, masoquismo e não sei mais que outras máquinas de evitar os exauridos; àqueles que ensinam às crianças a patologia do erotismo para esconder as delícias delicadas da normalidade. É preciso aí uma forma tranquila, quieta, sem vontade, estável e serena como uma árvore. A ternura. É preciso um saber, esta felicidade vital que dá tudo num sorriso, a gentileza, esta alta genialidade de grandeza dentro da relação corporal. [...] A filosofia se faz precisa por completo, a verdadeira, aquela que temos pés na terra e que se decifra como sabedoria do amor, uma percepção atual da onitude do cosmos, todo o saber humano, mesmo se o ignoramos e o ensinamos, mais o incêndio ardente do patético. [...] Ela não tem nem mesmo necessidade de reprimir a sexualidade, isso acontece espontaneamente. Como se, ao contrário, a maioria não fosse levada a isso, poucos terão tido a primeira ideia de fazê-lo. Vamos, vós não pensais nisso; se os poderosos do Eros chegassem amanhã ao poder, a humanidade padeceria de vergonha. Uma tal transvaloração, hoje em dia salvadora, obrigaria todos os dominadores da história a se esconderem nos canaviais.
Trechos de Traição: a tanatocracia, extraídos da obra Hermes, uma filosofia das ciências (Graal, 1990), do filósofo francês Michel Serres, evocando a figura do deus grego Hermes, o mensageiro, intérprete da vontade dos deuses, deus dos viajantes. Ressalta o autor que dois aspectos de Hermes são essenciais simbolicamente na filosofia: a sua mobilidade em viajar pelos mais diversos lugares e o seu dom de invenção, representando assim as relações ou redes ou passagens que os diversos ramos do conhecimento, das ciências às artes, devem ter, chamando atenção para a filosofia da invenção que se encontra nas intersecções, nos caminhos terceiros, nos terceiros lugares, lugares de contato entre ciência e poesia, lugares mestiços. Veja mais aqui e aqui.

O DIÁRIO DAS FRUTAS DA CAIS CIA DE DANÇA
O espetáculo O diário das frutas (2017), da Cais Companhia de Dança, foi inspirado no conjunto de crônicas do jornalista, escritor e antropólogo Bruno Albertim e que deram origem a uma série de pinturas de Tereza Costa Rêgo. Este espetáculo marcou a estreia do conceituado e premiado bailarino e coreógrafo Dielson Pessoa como diretor da nova companhia em Campina Grande. O coreógrafo pernambucano já participou da Companhia de Dança Deborah Colker e Balé da Cidade de São Paulo, apresentando-se em grandes palcos do cenário internacional, tais como Uruguai, Chile, Argentina, EUA, Itália, Áustria, França, Inglaterra, Alemanha, Singapura, ao mesmo tempo em que interpretou trabalhos de célebres coreógrafos, como Ohad Naharin (Israel), Mauro Bigonzzetti (Italia), Itzik Galili (Holanda), Luiz Arrieta (Argentina), Cayetano Soto (Espanha), Jorge Garcia e Deborah Colker (Brasil). Veja mais aqui e aqui.

O ENTERRO DA PERNA, DE RUBEM ALVES
[...] Aos olhares dos pranteadores, cujo pranto era interrompido pelo espanto, explicava com voz pausada e grave, própria de alguém que conhece os segredos da morte: “Uma perna, para o sepultamento cristão...” Com mãos firmes e palavras claras de alguém que sabe o que está fazendo, abriu seu livro de ofícios fúnebres, e começou: “O Senhor a deu; o Senhor a tirou. Bendito seja o nome do Senhor.  Queridos irmãos: estamos aqui reunidos para devolver à terra a perna de um nosso irmão ausente...” O coveiro, solene, escutava em silêncio as palavras sagradas que saíam da boca do reverendo e enchiam o espaço crepuscular do cemitério. Já as havia ouvido vezes incontáveis e quase as conhecia de cor. “E agora devolvemos esta perna à terra, até a ressurreição do último dia, enquanto a sua alma retorna a Deus, que a criou, para o descanso reservado aos justos”. Com tais palavras, fez o gesto sobejamente conhecido de todos os coveiros. Chegara a hora para o morto fosse baixado á sepultura. Finalmente, estava tudo terminado. “Eu podia jurar que enterro protestante era mais comprido. Este acabou depressa...”, disse o coveiro ao se despedir do reverendo. “De fato é mais comprido”, confessou o reverendo. E explicou: “Mas enterro de uma perna só pode ser um quatro do oficio inteiro. Quando vier o resto do corpo vou ler os outros três quartos do oficio que eu pulei...”.
Extraído da obra O sapo que queria ser príncipe - adolescência e juventude (Planeta, 2009), do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014). Veja mais aqui e aqui.
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A lenda de Iangaí, ó linda aqui.
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KEATS & FANNY, LAING, JANE CAMPION & ALEXANDER ARCHIPENKO

FANNY, O TESTEMUNHO DERRADEIRO – Agora o meu testemunho derradeiro: compartilho definitivamente meu sofrimento com esta ode, para que ...