quinta-feira, janeiro 24, 2019

PAULO FREIRE, BOB CARLOS CLARKE, SOLILÕQUIO SUICIDA, HOMENS & CARANGUEJOS


SOLILÓQUIO SUICIDA - Em minhas mãos espalmadas, sei, linhas e arranhuras, cicatrizes outras e muitas de arame farpado: todos os dias morri um pouco no desamparo da solidão. Nada deu certo e, quando valeu, passou que nem vi. Sei lá quantas malas arrastei, fui e voltei, perdi a viagem  de mãos abanando, a face no chão. De mim, aos pedaços, tudo espalhado no chão. Nem preciso catar, não mais desespero por escombros. Bem-aventurado os que choram, meus olhos estão secos, mesmo que deplore. Já não durmo, nem sei que dia é hoje. Acaso somos isso, desastrado, coagido, errâncias. Sinto nos meus ossos a carnificina da minha própria carne emaciada. As coisas começam assim do nada, vai ver, aos sobressaltos, tapetes puxados, lugar de injustiças, o ressentimento de tudo pela humilhante inatividade forçada que estagna e frustra, açoitado pelas adversidades, aniquilado, cronicamente deprimido, como se o ordálio o revide por sobreviver inconformista. Nada mais há. Ao longe quase nem vida mais, só o barco de Caronte com o assombro de Bocklin diante do rastro medonho da monstruosa inimiga. Não mais, aprendi com a Ars moriendi, e sei que ela vem, como disse Horácio, com suas asas negras e a rede para me caçar. Estou aqui, inerme e só pelo vale da sombra, pronto para minha última destruição, perdi o cocheiro real. O rei está morto. Já sei e lá vem ela, a filha da noite e irmã do sonho que me deixou entre estercos, sem saída, mergulhado no lodo, pendurado pelos calcanhares, de cabeça degradada para baixo como castigo dos traidores no pelourinho, as mãos amarradas às costas entre os galhos que sangram e o abismo. A mim nada mais que o tempo e a espera por força vencida de quem não sabe de onde, a minha crucificação. Ela vem como o quarto cavaleiro do apocalipse galopando furiosa de um lado a outro com sua espada empunhada. Vem de não sei mesmo onde com o dedo apontado para mim, a desgraça de Hopkins para a qual eu nasci. Nada mais resta, dou-me o pescoço ao cepo. Sirva-se, satânica tentadora, agora minha única amiga e companheira, essa fatal conviva pavorosa, esteja eu pronto ou não, ela vem para o encontro em Samarra, para se banquetear de mim. A quem recorrer, ninguém de plantão, só ao ridículo público. Minha mão cheira a mortalidade e à mercê do precipício. Saberei quando lá chegar sem bagagem, nenhum pertence, tudo o mais ficou para trás, abri mão de tudo, a coragem pro sacrifício: meu esqueleto rodopiando feito um dervixe, brandindo a segadeira ao próprio prescoço na frenética dança da morte. A minha mão, todas as culpas, o fio de alta tensão. Quase nenhuma hora, todos os remorsos, a dor de não saber vencer, perdas por demais. A minha mão e o fio de alta tensão, rente. Quem sabe, o crime máximo, a fuga covarde, ato inútil que apagará uma existência sem sentido e desprenderá das amaras, a suprema libertação. Não há por que esperar, será agora ou nunca, vou antes que seja tarde ou me arrependa. Não é preciso dizer adeus, ninguém à despedida. Vou. Eu também gostaria de outra morte, Eliot. E a mão aperta o fio de alta tensão. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Estudar é, realmente, um trabalho difícil. Exige de quem o faz uma postura crítica, sistemática. Exige uma disciplina intelectual que não se ganha a não ser praticando-a. Isto é, precisamente, o que a “educação bancária” não estimula. Pelo contrário, sua tônica reside fundamentalmente em matar nos educandos a curiosidade, o espírito investigador, a criatividade. Sua “disciplina” é a disciplina para a ingenuidade em face do texto, não para a indispensável criticidade. Este procedimento ingênuo ao qual o educando é submetido, ao lado de outros fatores, pode explicar as fugas ao texto, que fazem os estudantes, cuja leitura se torna puramente mecânica, enquanto, pela imaginação, se deslocam para outras situações. O que se lhes pede, afinal, não é a compreensão do conteúdo, mas sua memorização. Em lugar de ser o texto e sua compreensão, o desafio passa a ser a memorização do mesmo. Se o estudante consegue fazê-lo, terá respondido ao desafio. Numa visão crítica, as coisas se passam diferentemente. O que estuda se sente desafiado pelo texto em sua totalidade e seu objetivo é apropriar-se de sua significação profunda. Esta postura crítica, fundamental, indispensável ao ato de estudar, requer de quem a ele se dedica: a) Que assuma o papel de sujeito deste ato. Isto significa que é impossível um estudo sério se o que estuda se põe face do texto como se estivesse magnetizado pela palavra do autor, à qual emprestasse uma força mágica. Se se comporta passivamente, “domesticadamente”, procurando apenas memorizar as afirmações do autor.  Se se deixa “invadir” pelo que afirma o autor. Se se transforma numa vasilha” que deve ser enchida pelos conteúdos que ele retira do texto para pôr dentro de si mesmo. Estudar seriamente um texto é estudar o estudo de quem, estudando, o escreveu. É perceber o condicionamento histórico-sociológico do conhecimento. É buscar relações entre o conteúdo em estudo e outras dimensões afins do conhecimento. Estudar é uma forma de reinventar, de recriar, de reescrever – tarefa de sujeito e não de objeto. Desta maneira, não é possível a quem estuda, numa tal perspectiva, alienar-se ao texto, renunciando assim à sua atitude crítica em face dele. A atitude crítica no estudo é a mesma que deve ser tomada diante do mundo, da realidade, da existência. Uma atitude de adentramento com a qual se vá alcançando a razão de ser dos fatos cada vez mais ludicamente. Um texto estará tão melhor estudado quanto, na medida em que dele se tenha uma visão global, a ele se volte, delimitando suas dimensões parciais. O retorno ao livro para esta delimitação aclara a significação de sua globalidade. Ao exercitar o ato de delimitar os núcleos centrais do texto que, em interação, constituem sua unidade, o leitor crítico irá surpreendendo todo um conjunto temático, nem sempre explicitado no índice da obra. A demarcação destes temas deve atender também ao quadro referencial de interesse do sujeito leitor. [...] Neste caso, o que deve fazer é reconhecer a necessidade de melhor instrumentar-se para voltar ao texto em condições de entendê-lo. Não adianta passar a página de um livro se sua compreensão não foi alcançada. Impõe-se, pelo contrário, a insistência na busca de seu desvelamento. A compreensão de um texto não é algo que se recebe de presente. Exige trabalho paciente de quem por ele se sente problematizado. Não se mede o estudo pelo número de páginas lidas numa noite ou pela quantidade de livros lidos num semestre. Estudar não é um ato de consumir idéias, mas de criá-las e recriá-las. [...].Trechos de Considerações em torno do ato de estudar, extraído da obra Ação Cultural para a Liberdade (Paz e Terra, 1981), do educador, pedagogista e filósofo Paulo Freire (1921-1997). Veja mais aqui, aqui e aqui.

HOMENS & CARANGUEJOS
O espetáculo teatral Homens e caranguejos, baseado na obra homônima do médico, sociólogo, antropólogo e geógrafo Josué de Castro, pela companhia Cia Duas de Criação, dirigida pela recifense Luciana Lyra em parceria com sua conterrânea Viviane Madu, e o Coletivo Cênico Joanas Incendeiam (SP). Na trama, Josué apresenta aspectos presentes na realidade cotidiana do homem sertanejo dos dias de hoje: deslocamentos forçados pela seca, a fuga do árido (climático, econômico e social) para o centro e a busca por uma condição social mais digna. A trama gira em torno de um menino de onze anos, que chegou aos mangues de Recife (PE), com sua família, fugindo da seca de Cabaceiras após a morte do irmão mais velho. Sua vida se divide entre ser um catador de caranguejos, a vontade de brincar e a amizade com um ex-seringueiro, que vive no seu mocambo com suas pernas imóveis. Referências de autores como Hélio Oiticica, Glauber Rocha, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Gilberto Freire e Darcy Ribeiro estão presentes na montagem. No campo musical, espaço aberto para o côco e o cavalo-marinho, ritmos tradicionais nordestinos. Veja mais aqui.

A FOTOGRAFIA DE BOB CARLOS CLARKE
A arte do fotógrafo e documentarista britânico-irlandês Bob Carlos Clarke (1950-2006). Veja mais aqui.
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MÓNICA OJEDA, BORA CHUNG, AZA NJERI & DÉBORA LAÍS FERRAZ

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