sexta-feira, março 25, 2011

NIETZSCHE, EDUCAÇÃO, ANTONIO CÂNDIDO, KRISTIN HERZOG, FECAMEPA & HUMOR FICHA LIMPA


 
Art by Kristin Herzog

DITOS & DESDITOSNa nossa cultura há uma ambiguidade fundamental: a de sermos um povo latino, de herança cultural europeia, mas etnicamente mestiço, situado no trópico, influenciado por culturas primitivas, ameríndias e africanas. Pensamento do sociólogo e crítico literário Antonio Cândido (1918-2017). Veja mais aqui.

ECCE HOMO - [...] No fato de um homem bem constituído ser agradável aos nossos sentidos; em ser talhado de uma madeira que é, ao mesmo tempo, dura, suave e olorosa. Apetece-lhe apenas o que lhe é benéfico; o seu agrado, o seu prazer cessa quando é ultrapassada a medida do suportável. Adivinha remédios contra o que causa danos, utiliza casos nocivos em sua própria vantagem; o que não o mata torna-o mais forte. Compila instintivamente a sua suma a partir de tudo o que vê, ouve, vive: é um princípio selectivo, e deixa de lado muitas coisas. Está sempre na sua sociedade, lide ele com livros, com homens ou com paisagens; honra ao escolher, ao admitir, ao confiar. Reage lentamente a todo o estímulo, com aquela lentidão que lhe ensinaram uma longa circunspecção e um orgulho deliberado – perscruta o fascínio que dele se aproxima, mas está longe de lhe sair ao encontro. Não crê nem na “infelicidade”, nem na “culpa”: sente-se realizado, consigo, com os outros, sabe esquecer – é suficientemente forte para que tudo redunde em seu maior proveito. [...]. Trecho extraído da obra Ecce homo: como se chega a ser o que se é (Covilhã, 2008), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui e aqui.

EDUCAR – [...] educar é contribuir na humanização do homem. Essa formulação implica uma dupla compreensão do humano. Sem dúvida,quando o homem nasce, ele já é um ser humano, no sentido de que ele pertence à espécie humana e traz por si só elementos de crescimento biológico, de amadurecimento psíquico e de desenvolvimento cognitivo, aos quais, no seu conjunto, podemos chamar de hominização, que de forma alguma esgota a realização das suas potencialidades humanas. A intenção educacionalé tornar o homem homem, nesse segundo sentido, de desenvolver nele o que tem de mais humano e que não é simplesmente resultado da sua maturação natural. Isso não implica a crença de que a plena realização de todas as potencialidades humanas seja possível. Trata-se de um processo de aproximação [...]. Trechos extraídos de Reflexões em torno de um possível objeto epistêmico próprio da Educação (Pro-Posições, jan./abr. 2007), do professor e pesquisador Ferdinand Röhr. Veja mais aqui e aqui.


FECAMEPA – Quando eu brinquei na demonstração de que o Brasil seria um país que poderia ser levado a sério, eu não tinha menor noção pregulóide de que um dia eu poderia ficar indignado com uma cagadona jactante do Supremo Tribunal Federal (STF), acrescentando mais cropólitos na nossa claudicante trajetória de republiqueta de gatunildos e ladronaldos. Sempre tive a esperança beócia de que a justiça tardaria, mas que, mesmo atrasada que só o trem de Cortês, um dia lá nas esferas da eternidade, vingasse. Eu sempre achei melhor aquela do antes tarde do que nunca, muito embora achasse que nunca era o definitivo.



FICHA LIMPA – Confesso que fiquei maravilhado com a campanha Ficha Limpa, promovida por 1,3 milhões de cidadãos brasileiros. Na hora eu disse: tô dentro. E timbunguei do jeito que estava. Afinal era uma campanha levantada pela sociedade civil brasileira legitimada constitucionalmente, objetivando a melhoria das nossas instituições políticas e envolvendo a vida pregressa dos candidatos para inelegibilidade de Fabos (fabricantes de bosta) e Fabobas (Fabos que são usuários do óleo de peroba). Resultado: em 2010, virou a Lei Complementar 135/2010 – a lei da Ficha Limpa.




Aí entra em cena o eleitor e o juridiquês, ou seja: vamos ver no que dá para ver como é que fica.




Como o juridiquês é um português na maior remoeta – faz que vai, nem vai, nem fica (?!?) -, ou como diz Thoreau: “[..] Valem tanto quanto cavalos e cachorros [...] como a maioria dos legisladores, políticos, advogados, funcionários e dirigentes, que servem ao Estado principalmente com a cabeça, e é bem provável que sirvam tanto ao Diabo quanto a Deus [...]”. E o eleitor é um fabo em pequenas proporções. Aí, babau.




É que o juridiquês discutia o princípio da anterioridade, indubitavelmente arranchado nas pilas dos ficha suja. E o eleitor tinha a oportunidade de sacramentar a volta do enterro, defenestrando as trepeças. No que deu? O juridiquês empancou e o eleitor cagou na rabichola e deu brecha. O litígio foi parar no STF, jogo duro: 5x5. Aí, no de repente aparece um de minerva aos 49 minutos do segundo tempo e pei bufe: 6x5 pros empestados.




Perdemos o jogo e a revanche tinha ficado para 2012.

Aí o juridiquês foi mais longe feito chato de galocha numa manhã chuvosa: a lei é inconstitucional.




Que é que é isso, meu? Aí a OAB sinalizou que pode acionar o STF para garantir a Ficha Limpa em 2012. Pode não, deve. Se não for, não me espantarei; afinal a corda de guaiamum sempre se espicha, né não?




Enquanto isso: e agora? Ou a gente leva ao pé da letra o que dizia Thoreau “[...] A lei nunca fez os homens sequer um pouco mais justos; e o respeito reverente pela lei tem levado até mesmo os bem-intecionados a agir cotidianamente como mensageiros da injustiça”, ou então vamos apenas sacramentar nossa sina de palermas. Enfim a lei foi aprovada, bonitinha como manda o recado, porém, o que tem de ficha podre eleito governando, sacaneando, votando, discutindo e parlamentando não está no gibi. Eu insisto e canto a Carta à República do Milton Nascimento e do Fernando Brant:


Sim é verdade, a vida é mais livre
O medo já não convive nas casas, nos bares, nas ruas
Com o povo daqui
E até dá pra pensar no futuro e ver nossos filhos crescendo e sorrindo
Mas eu não posso esconder a amargura
Ao ver que o sonho anda pra trás
E a mentira voltou
Ou será mesmo que não nos deixara?
A esperança que a gente carrega é um sorvete em pleno sol
O que fizeram da nossa fé?
Eu briguei, apanhei, eu sofri, aprendi,
Eu cantei, eu berrei, eu chorei, eu sorri,
Eu saí pra sonhar meu país
E foi tão bom, não estava sozinho
A praça era alegria sadia
O povo era senhor
E só uma voz, numa só canção
E foi por ter posto a mão no futuro
Que no presente preciso ser duro
E eu não posso me acomodar
Quero um país melhor

Vamos aprumar a conversa & tataritaritatá!!!!



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quarta-feira, março 23, 2011

CHERRÍE MORAGA, MARTHA ROBLES, NAOMI LITTLEBEAR, AFREMOV, CAMÕES, BETH FORMAGGINI, ANTÍGONA & LITERÓTICA


A arte do pintor israelense de origem biolerrussa Leonid Afremov (1955-2019). Veja mais aqui e aqui.



O TANGO NOTURNO MOLHANDO O DESEJO - Imagem: Joyful Tango, by Leonid Afrenov – Ah, a presença feminina sempre me fascinou, perseguindo as minhas mínimas horas. Havia sempre uma presença desejada de mulher, o jeito menina, a artimanha de moça, o mistério de grandeza anatômica e anímica. Eu me desconcertava com isso, buscando jacea, aquele brilho eterno de equilíbrio interior e satisfação carnal. Se não conseguia raciocinar, me desarrumava arrumando por dentro qualquer forma para delinear a vida desencontrada. E era vez em quando que me pegava sonhando a mencionar-lhe o velacho, sussurrando na minha loucura frustrada em busca de malacias para demover os fragmentos que insistia se despedaçar de mim. E mais me desarrumava o tino com imagens loucas e sedentas de quem alcançava o paralogismo de ser feliz a qualquer custo, com uma bela e linda e nua mulher que seria a minha Calipedia, a Valéria Monteiro da minha estimação, o meu caminho do gol, a minha Juliete Binoche depravada, a minha bela pinups que me encaminharia a um orgasmo de 244 milivolts de descarga na erupção final do meu vulcão e o prazer de curtir naquele momento o meu devaneio mais completo e de olhos abertos, enlouquecido e com o amor sendo a minha camisa de força. Era uma quimera linda de morrer onde eu a seguia caminhando na noite estrelada pelas luzes da cidade em polvorosa com seus semáforos de seguir e ficar, os seus edifícios acasalando alegrias e dores e um bandoneón solando ao meu ouvido, acompanhado de um violino em tons pungentes, os faróis encandeando, os passos dela se movendo com uma firula nas pernas, dançando no meu palco imaginário, serpenteada com várias polegadas de salto. Eu me deleitava com aquela figura etérea e demoníaca que mirabolante vestia-se em um daqueles tubinhos que menos cobrem o que mais enaltece na figura de uma mulher: vermelho de alcinha combinando com o batom dos lábios rubros e o sapato salto agulha, hipnotizando, fetichista. E passava uma das pernas à minha cintura, arqueava-se sentando de costas no meu ventre, sobre as minhas coxas, no meu colo, respirando rente o meu rosto e insuflando o seu perfume, o seu hálito, a sua vitalidade, era muito real para ser mais uma mentira capturada. E rodopiava real no tablado do meu coração, abrindo uma das pernas que vinha arrastando o bico do sapato até encontrar a minha intimidade, a dar volteios e cobrando envolver sua cintura. Ah, eu não sabia dançar, nunca soube, ela roçando o pé entre as minhas coxas, meu desejo insone, o calcanhar enovelando-me entre o ventre, uma sentada, um gancho duplo, a parada, o volteio e o arremate: um só corpo de quatro pernas, um jogo sedutor me dando o prazer de curtir o seu ar sensual. A sua mão esquerda sobre o meu ombro. A outra, segurando com graça a minha mão num solo de Piazzola por testemunha e eu protagonizando a cena, o corpo contorcido, o pé direito até o joelho abrindo-se o vestido vermelho-negro a mostrar-lhe sutilmente as intimidades, corpo belo, solto, um cello, um piano, um violão, um violino, um bandoneón, e eu afungentando a solidão, a ponte enquanto a pele, ah, ela dançava frente o espelho, deitava-se sobre uma mesa e, num ímpeto abracei suas pernas longe do barulho da humanidade até que num golpe extremo uma de suas pernas passou-me o ombro, o ventre colado no meu, quase em pé, mostrando a entrega mais inteira de uma alma e de uma vida a descortinar-me o elo perdido. Deitei-me sobre o seu corpo, levantei-lhe a saia e a minha língua como uma drosófila sobre seu púbis, a minha prenda, estimação preferida, dando um ar de êxito à nossa química. O zíper do seu vestido escorrendo, minha vista só flagrava o seu arabesque, os fouettés, pas-de-deux, o corpo de baile exclusivo para mim, a coreografia única do desejo: a pele cobre oliváceo das paquistanesas, a própria efígie do pecado, oh, minha Ana Botafogo! Aquela leveza, o aprumo, o flair, aquele maleável jeito de catwalks driblando meu fuso horário de forma espetacular, oh, sex simbol da minha fantasia. Era tudo real e eu nem discernia de nada. Tivera a oportunidade e dela fazia questão de me jogar de cabeça, afogando voluntário. E se me entorpeci dormi menino feliz nos sonhos mais angelicais que pudera ser a mim concedido. Ah, mulher, eu jamais poderia ser feliz sem essa presença onímoda, oh minha cajila desejável que redimiria o meu abandono e traria luz ao obscuro destino tresloucado da minha estabanada existência. Oh, minha panacéia escondida no mais remoto dos dédalos incognoscíveis, se eu tivera algo de mim fora roubado por sua querência inaudita. Somente ela com um estalido forte a roubar o devaneio, aquela deliciosa mulher, aquela Perséfone que aprontara comigo e me fazia presa fácil a quem sempre errara de amar. Era a minha insanidade mental queimando sedenta a rever-lhe onírica vestida agora numa colorida indumentária como uma dançarina tailandesa, uma coroa prateada na cabeça, uma vestimenta de renda bordada nos ombros, uma saia curtinha de diversas cores, a saborear de um licor de jenipapo. Meu membro endoidecia e ardia meu desejo a ter-lhe no casting das beldades, transgredindo minha lucidez e à serviço da sedução. E causava em mim um frisson aquela saia 40 centímetros acima do joelho e eu na maior azaração. Fazia dela presença e imaginação: um corpo escultural de Rodin. Um heliponto onde eu queria aterrissar nesse corpo com a sede de séculos. Eu seu lobo mau, minha granada matreira germinando como se estivéssemos num chalé distante e abandonado, curtindo um fundue regado a vinho do Porto. Seduzia-me mesmo e com aquele lance quando se descruzava as pernas eu incendiava buscando a sua mina de ouro que eu queria demais explorar, e como queria, se não houvesse uma distância cislunar entre nós. Não, eu não me desvencilhava da perspectiva e afinava a luz com o meu desvario de Carlos Saura a flagrar-lhe as mais indecentes poses. Eu abusava dos closes, explorava sua gesticulação e armazenava na tv imaginária do meu cérebro: o meu sexo atravessando a sua carne e os sussurros aos beijos chupados de todos os desejos catados no gozo de nossa agonia amorante. Se enlouquecia? Delirava. É sempre muito aprazível a presença delicada de um corpo nu de mulher. © Luiz Alberto Machado. Direitos Reservados. Veja mais aquiaqui


DITOS & DESDITOS - Que segredo tão árduo e tão profundo: nascer para viver, e para a vida faltar-me quanto o mundo tem para ela! e não poder perde-la, estando tantas vezes já perdido. Não se aprende, senhor, na fantasia, sonhando, imaginando ou estudando, senão vendo, tratando e pelejando. Pensamento do poeta lusitano, poeta Luís de Camões (1524-1580). Veja mais aqui & aqui.

ALGUÉM FALOU: A complacência é uma atitude bem mais perigosa que o ultraje. Pensamento da escritora e música Naomi Littlebear Morena, autora do hino feminista de resistência Você não pode matar o espírito, que foi cantado por mais de 30.000 mulheres no Campo de Paz das Mulheres de Greenham - Berkshire, Inglaterra, na década de 1980.

ANTÍGONA – [...] A dor de Antígona nos alcança não só como um símbolo de liberdade de consciência, mas de devoção filial, de desafio feminino às amarras sociais, de amor fraterno e até mesmo de autossacrifício [...] Pela metade da noite, quando sozinha cobria a sepultura com ritos que deviam ser celebrados em honra do falecido, os guardas a detêm por haver violado as leis da cidade. Creonte a condena a morrer enterrada viva em uma caverna, apesar dos rogos de seu próprio filho Hémon, prometido em casamento a Antígona. [...]. Trechos extraídos da obra Mulheres, mitos e deusas: o feminino através dos tempos (Aleph, 2006), da socióloga, escritora e professora mexicana Martha Robles. Veja mais aqui, aqui e aqui.


MEMÓRIA PARA USO DIÁRIO – O premiado filme Memória Para Uso Diário (2007), dirigido pela cineasta Beth Formaggini, documenta a luta do grupo Tortura nunca mais a partir de pessoas comuns que, apesar das memórias traumáticas, fazem questão de lembrar e de fazer com que suas histórias não sejam esquecidas, em que uma mulher, cuja história é acompanhada ao longo de todo o filme, busca evidências para a prisão de seu marido pelo governo brasileiro e está desaparecido desde 1975. Para os personagens, conferir outros sentidos ao passado não é só buscar reparação aos atingidos pela violência do Estado; não é apenas denunciar e levar ao julgamento os responsáveis pela violação dos direitos humanos. É, sobretudo, passar a ser protagonistas na narrativa da história, apostando em outros mundos possíveis. Uma memória que aponta para o futuro, suas idas e vindas se misturam às ações de militantes e parentes das vítimas da ditadura, que reconstroem suas histórias pelas ruas e cemitérios clandestinos do Rio de Janeiro, em um esforço grupal situado entre esquecimento e memória. A obra se constrói como uma trança e, assim, vários fios da vida se encontram. Veja mais aqui.

DOIS POEMAS - Não tenho imaginação você diz / Não. Não tenho língua. / A língua para clarear / minha resistência ao literato. / Palavras são uma guerra para mim. / Ameaçam minha família. / Para conquistar a palavra / para descrever a perda / arrisco perder tudo. / Posso criar um monstro / as palavras se alongam e tomam / corpo / inchando e vibrando em cores / pairando sobre minha mãe, / caracterizada. / Sua voz na distância / ininteligível iletrada. / Estas são as palavras do monstro. II - Entenda. / Minha família é pobre. / Pobre. Eu não posso comprar / uma fita nova. As marcas / desta são suficientes / para me manter movendo / dentro dela, responsável. / A repetição como as histórias de / minha mãe / recontadas, cada vez / revela mais particulares / ganha mais familiaridade. / Você não pode me levar em seu / carro tão velozmente. Poemas da escritora, feminista, ativista e dramaturga mexicano-estadunidense Cherríe Moraga, que faz parte do corpo docente na Universidade de Stanford, no Departamento de Teatro e Estudos Comparativos em Raça e Etnia.



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Leitora Tatatritaritatá em festa depois do tango.
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