quarta-feira, março 23, 2011

CHERRÍE MORAGA, MARTHA ROBLES, NAOMI LITTLEBEAR, AFREMOV, CAMÕES, BETH FORMAGGINI, ANTÍGONA & LITERÓTICA


A arte do pintor israelense de origem biolerrussa Leonid Afremov (1955-2019). Veja mais aqui e aqui.



O TANGO NOTURNO MOLHANDO O DESEJO - Imagem: Joyful Tango, by Leonid Afrenov – Ah, a presença feminina sempre me fascinou, perseguindo as minhas mínimas horas. Havia sempre uma presença desejada de mulher, o jeito menina, a artimanha de moça, o mistério de grandeza anatômica e anímica. Eu me desconcertava com isso, buscando jacea, aquele brilho eterno de equilíbrio interior e satisfação carnal. Se não conseguia raciocinar, me desarrumava arrumando por dentro qualquer forma para delinear a vida desencontrada. E era vez em quando que me pegava sonhando a mencionar-lhe o velacho, sussurrando na minha loucura frustrada em busca de malacias para demover os fragmentos que insistia se despedaçar de mim. E mais me desarrumava o tino com imagens loucas e sedentas de quem alcançava o paralogismo de ser feliz a qualquer custo, com uma bela e linda e nua mulher que seria a minha Calipedia, a Valéria Monteiro da minha estimação, o meu caminho do gol, a minha Juliete Binoche depravada, a minha bela pinups que me encaminharia a um orgasmo de 244 milivolts de descarga na erupção final do meu vulcão e o prazer de curtir naquele momento o meu devaneio mais completo e de olhos abertos, enlouquecido e com o amor sendo a minha camisa de força. Era uma quimera linda de morrer onde eu a seguia caminhando na noite estrelada pelas luzes da cidade em polvorosa com seus semáforos de seguir e ficar, os seus edifícios acasalando alegrias e dores e um bandoneón solando ao meu ouvido, acompanhado de um violino em tons pungentes, os faróis encandeando, os passos dela se movendo com uma firula nas pernas, dançando no meu palco imaginário, serpenteada com várias polegadas de salto. Eu me deleitava com aquela figura etérea e demoníaca que mirabolante vestia-se em um daqueles tubinhos que menos cobrem o que mais enaltece na figura de uma mulher: vermelho de alcinha combinando com o batom dos lábios rubros e o sapato salto agulha, hipnotizando, fetichista. E passava uma das pernas à minha cintura, arqueava-se sentando de costas no meu ventre, sobre as minhas coxas, no meu colo, respirando rente o meu rosto e insuflando o seu perfume, o seu hálito, a sua vitalidade, era muito real para ser mais uma mentira capturada. E rodopiava real no tablado do meu coração, abrindo uma das pernas que vinha arrastando o bico do sapato até encontrar a minha intimidade, a dar volteios e cobrando envolver sua cintura. Ah, eu não sabia dançar, nunca soube, ela roçando o pé entre as minhas coxas, meu desejo insone, o calcanhar enovelando-me entre o ventre, uma sentada, um gancho duplo, a parada, o volteio e o arremate: um só corpo de quatro pernas, um jogo sedutor me dando o prazer de curtir o seu ar sensual. A sua mão esquerda sobre o meu ombro. A outra, segurando com graça a minha mão num solo de Piazzola por testemunha e eu protagonizando a cena, o corpo contorcido, o pé direito até o joelho abrindo-se o vestido vermelho-negro a mostrar-lhe sutilmente as intimidades, corpo belo, solto, um cello, um piano, um violão, um violino, um bandoneón, e eu afungentando a solidão, a ponte enquanto a pele, ah, ela dançava frente o espelho, deitava-se sobre uma mesa e, num ímpeto abracei suas pernas longe do barulho da humanidade até que num golpe extremo uma de suas pernas passou-me o ombro, o ventre colado no meu, quase em pé, mostrando a entrega mais inteira de uma alma e de uma vida a descortinar-me o elo perdido. Deitei-me sobre o seu corpo, levantei-lhe a saia e a minha língua como uma drosófila sobre seu púbis, a minha prenda, estimação preferida, dando um ar de êxito à nossa química. O zíper do seu vestido escorrendo, minha vista só flagrava o seu arabesque, os fouettés, pas-de-deux, o corpo de baile exclusivo para mim, a coreografia única do desejo: a pele cobre oliváceo das paquistanesas, a própria efígie do pecado, oh, minha Ana Botafogo! Aquela leveza, o aprumo, o flair, aquele maleável jeito de catwalks driblando meu fuso horário de forma espetacular, oh, sex simbol da minha fantasia. Era tudo real e eu nem discernia de nada. Tivera a oportunidade e dela fazia questão de me jogar de cabeça, afogando voluntário. E se me entorpeci dormi menino feliz nos sonhos mais angelicais que pudera ser a mim concedido. Ah, mulher, eu jamais poderia ser feliz sem essa presença onímoda, oh minha cajila desejável que redimiria o meu abandono e traria luz ao obscuro destino tresloucado da minha estabanada existência. Oh, minha panacéia escondida no mais remoto dos dédalos incognoscíveis, se eu tivera algo de mim fora roubado por sua querência inaudita. Somente ela com um estalido forte a roubar o devaneio, aquela deliciosa mulher, aquela Perséfone que aprontara comigo e me fazia presa fácil a quem sempre errara de amar. Era a minha insanidade mental queimando sedenta a rever-lhe onírica vestida agora numa colorida indumentária como uma dançarina tailandesa, uma coroa prateada na cabeça, uma vestimenta de renda bordada nos ombros, uma saia curtinha de diversas cores, a saborear de um licor de jenipapo. Meu membro endoidecia e ardia meu desejo a ter-lhe no casting das beldades, transgredindo minha lucidez e à serviço da sedução. E causava em mim um frisson aquela saia 40 centímetros acima do joelho e eu na maior azaração. Fazia dela presença e imaginação: um corpo escultural de Rodin. Um heliponto onde eu queria aterrissar nesse corpo com a sede de séculos. Eu seu lobo mau, minha granada matreira germinando como se estivéssemos num chalé distante e abandonado, curtindo um fundue regado a vinho do Porto. Seduzia-me mesmo e com aquele lance quando se descruzava as pernas eu incendiava buscando a sua mina de ouro que eu queria demais explorar, e como queria, se não houvesse uma distância cislunar entre nós. Não, eu não me desvencilhava da perspectiva e afinava a luz com o meu desvario de Carlos Saura a flagrar-lhe as mais indecentes poses. Eu abusava dos closes, explorava sua gesticulação e armazenava na tv imaginária do meu cérebro: o meu sexo atravessando a sua carne e os sussurros aos beijos chupados de todos os desejos catados no gozo de nossa agonia amorante. Se enlouquecia? Delirava. É sempre muito aprazível a presença delicada de um corpo nu de mulher. © Luiz Alberto Machado. Direitos Reservados. Veja mais aquiaqui


DITOS & DESDITOS - Que segredo tão árduo e tão profundo: nascer para viver, e para a vida faltar-me quanto o mundo tem para ela! e não poder perde-la, estando tantas vezes já perdido. Não se aprende, senhor, na fantasia, sonhando, imaginando ou estudando, senão vendo, tratando e pelejando. Pensamento do poeta lusitano, poeta Luís de Camões (1524-1580). Veja mais aqui & aqui.

ALGUÉM FALOU: A complacência é uma atitude bem mais perigosa que o ultraje. Pensamento da escritora e música Naomi Littlebear Morena, autora do hino feminista de resistência Você não pode matar o espírito, que foi cantado por mais de 30.000 mulheres no Campo de Paz das Mulheres de Greenham - Berkshire, Inglaterra, na década de 1980.

ANTÍGONA – [...] A dor de Antígona nos alcança não só como um símbolo de liberdade de consciência, mas de devoção filial, de desafio feminino às amarras sociais, de amor fraterno e até mesmo de autossacrifício [...] Pela metade da noite, quando sozinha cobria a sepultura com ritos que deviam ser celebrados em honra do falecido, os guardas a detêm por haver violado as leis da cidade. Creonte a condena a morrer enterrada viva em uma caverna, apesar dos rogos de seu próprio filho Hémon, prometido em casamento a Antígona. [...]. Trechos extraídos da obra Mulheres, mitos e deusas: o feminino através dos tempos (Aleph, 2006), da socióloga, escritora e professora mexicana Martha Robles. Veja mais aqui, aqui e aqui.


MEMÓRIA PARA USO DIÁRIO – O premiado filme Memória Para Uso Diário (2007), dirigido pela cineasta Beth Formaggini, documenta a luta do grupo Tortura nunca mais a partir de pessoas comuns que, apesar das memórias traumáticas, fazem questão de lembrar e de fazer com que suas histórias não sejam esquecidas, em que uma mulher, cuja história é acompanhada ao longo de todo o filme, busca evidências para a prisão de seu marido pelo governo brasileiro e está desaparecido desde 1975. Para os personagens, conferir outros sentidos ao passado não é só buscar reparação aos atingidos pela violência do Estado; não é apenas denunciar e levar ao julgamento os responsáveis pela violação dos direitos humanos. É, sobretudo, passar a ser protagonistas na narrativa da história, apostando em outros mundos possíveis. Uma memória que aponta para o futuro, suas idas e vindas se misturam às ações de militantes e parentes das vítimas da ditadura, que reconstroem suas histórias pelas ruas e cemitérios clandestinos do Rio de Janeiro, em um esforço grupal situado entre esquecimento e memória. A obra se constrói como uma trança e, assim, vários fios da vida se encontram. Veja mais aqui.

DOIS POEMAS - Não tenho imaginação você diz / Não. Não tenho língua. / A língua para clarear / minha resistência ao literato. / Palavras são uma guerra para mim. / Ameaçam minha família. / Para conquistar a palavra / para descrever a perda / arrisco perder tudo. / Posso criar um monstro / as palavras se alongam e tomam / corpo / inchando e vibrando em cores / pairando sobre minha mãe, / caracterizada. / Sua voz na distância / ininteligível iletrada. / Estas são as palavras do monstro. II - Entenda. / Minha família é pobre. / Pobre. Eu não posso comprar / uma fita nova. As marcas / desta são suficientes / para me manter movendo / dentro dela, responsável. / A repetição como as histórias de / minha mãe / recontadas, cada vez / revela mais particulares / ganha mais familiaridade. / Você não pode me levar em seu / carro tão velozmente. Poemas da escritora, feminista, ativista e dramaturga mexicano-estadunidense Cherríe Moraga, que faz parte do corpo docente na Universidade de Stanford, no Departamento de Teatro e Estudos Comparativos em Raça e Etnia.



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