sábado, setembro 24, 2022

MARTIN AMIS, PHYLLIS A. WHITNEY, ROSANA PALAZYAN & PAULA BERINSON

 

 Ao som dos álbuns Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985), Camerístico (2007), Original (2002) e Dois Destinos (2016), do violonista, arranjador e compositor Marco Pereira.

 

TRÍPTICO DQP: - Vida de sonheiro... - Amanheceu e a maravilha de viver cheia nos olhos e coração. Uma comemoração alheia e descabida atravessou a noite alfinetando minha madorna assaltada pela madrugada afora: era como a assombração de inimigo insone ao arrebol, com o eco da balbúrdia dos alto-falantes. Na verdade mais parecia a festa do obituário na fúria de nauseantes desumanos engrossando o alarido farsante dos fetiches na festa da derrocada e do patético. A cidade não era outra senão a vista por Adorno: ...reproduz a fachada na tarefa de enganar. O engodo iminente saltitava a revelar pistas falsas na hora suspensa: alarmes latentes na paisagem nublada. Já não tenho tanta certeza de nada, aliás, nunca tive de mesmo. Escapei por pouco e vivo porque sorvi as três mil hóstias n’O Lugar do Sonho de Rosana Palazyan: Na arte, era um perigo de exclusão e não aceitação. Mas insisti e resisti. Nunca esquecida, hoje cada vez mais essa memória reacende, a cada notícia de vitimas. Não dá pra viver na cidade linda que amo tanto e que nunca abandonei, sem fazer nada... Eu acredito no amor, como forma de cura e resistência... Esses os nossos sentimentos, muito embora intramuros tudo seja tão crucial quanto pungente: uma vaguidade empalidecente ornada de prudência e covardia. Já perdi minha certidão de nascimento, quem disse que seria agora ou para hoje: o passado tem o gosto das coisas perdidas. Não estremeci, nem estou morto. Eu escrevo enquanto ouço de Martin Amis: Escrever é um ato de liberdade. Sim, a minha vida de sonheiro: o esperançar é maior que o deserto do real...

 


De passadas e tropeços... - Imagem: Cabeças & Boca do Inferno (Galeria Vermelho/Bienal de São Paulo, 2021), da pintora, escultora, artista visual, desenhista, gravadora, professora e artista multimídia Carmela Gross. - Falta pouco, espero. Está tão irrespirável nas tardes de todos os dias noite adentro por dilúculos sombrios. Mas sei, falta muito pouco, tomara. Todavia, as circunstâncias arranham a pele com o tempo obnubilado. Não fosse a surpresa eu teria talvez sucumbido ao desengano. Apareceu-me Beatrice – não apenas a perseguida amada de Dante, e que antes já estivera no altar sagrado como serva de Afrodite para se entregar ao primeiro que aparecesse com moeda em troca. E que depois se passara por Cenci para assombrar Paris e o mundo todas as noites de 11 de setembro. E que depois de musa se tornara renascente Filha da Dor pelos séculos pretéritos e crástinos. Com seu jeito aconchegante de recém-chegada, ela me contou de quando foi Rūpiikā do Kathāsaritsāgara e do quanto sofrera por ontens de repetidas cenas milenares. E mais dissera do sonho recorrente da infância de se ver leitora pras crianças e aflitos, e escrever poesias no seu diário interminável, e vestir-se para o domingo como uma moça qualquer da vizinhança e não pudera jamais, nem agora que nada mais a atemorizava. Mais disse entre fumaças e goles, soluços e revelações. Mais que sonolenta levantou-se, apagou a luz, despiu-se para deitar e, pela luz lunar dos seus olhos fechados, expôs o torso colossal da Freira de Monza, para me recitar os últimos versos do Poema Limpo de Paula Berinson: ... Vomito as almas dos meus filhos / e os devolvo à trincheira / do nada materno. Silenciou aninhand0-se ao meu lado e esforçando-se por esconder as lágrimas que se precipitavam na cachoeira do peito. Eu sentia e afagava seus braços suaves. Enfim aquietou-se para que minhas mãos solidárias acariciassem suas faces sedosas, quando enfim me acomodou nela para o nosso solidário adormecimento. Era onírico demais para ser verdade. Duvidei até do que sou. Só sei que ao despertar o canto mais limpo, ela se fora e a sensação das trevas cobriu-me as direções como se não mais tivesse bússola nem para onde ir, como o que se fez de espera nos desencontros tácitos pelas saídas de emergência.

 


Outro tempo inexistente... - Imagem: Jardim dos Pássaros, da série A noite, no quarto de cima, O cruzeiro do sul, lat. Sul 23 32 36, long. W. Gr. 46 37 59, 1973 – 2010: Revisão (Livraria e Galeria Seta), do pintor, gravador e desenhista Evandro Carlos Jardim. – As horas passavam e tive a sensação de que tudo se parecia tão urgente quanto o que calei fundo indesejavelmente. E tudo de mim fosse levado pela ponta do improvável não sei para onde, na previsão do amorável se esgarçando na ponta dos dedos - mesmo que meu coração insistisse entre todas as possibilidades de comunhão e harmonia. Estava tão absorvido pela confusão que nem percebi o seu retorno inesperado. Novamente chegara e me fitou assustada como se tivesse acometida pela Síndrome de Stendhal, desmaiando voluptuosamente em seguida. Tentei socorrê-la, mesmo que me visse incapaz da sobrevida desejada. Tentei reanimá-la sem saber nem como, mãos à cabeça e agora, o que fazer sumindo das ideias. Felizmente ela deu sinal de vida ao se mexer timidamente. Fiz o que pude para que se sentisse confortável para completo restabelecimento. Aos poucos foi retomando os sentidos e quase refeita fitou-me lindamente. Tentou dizer-me algo e ousou como se fosse Eleanor Catton esforçando-se ao máximo: Experimentar a beleza natural sublime é enfrentar a total inadequação da linguagem para descrever o que você vê. Palavras não podem transmitir a escala de uma vista que é tão impressionante que é sentida. Tentei melhor ampará-la e não pude esconder o regozijo com o que dissera ali. Sabia-me Golem e lhe recitei o Autorretrato de Bandeira assim, todinho de cor, em retribuição. Se o que vale é o teor dos sentidos na horagá, fiz-me solícito e firmei o que mais adequado haveria de ser feito: sentir suas pulsações e reter ao máximo o prazer de tê-la o mais próximo que pudesse enquanto possível. Até mais ver.



 
Ler sempre foi minha tábua de salvação – uma fuga para aquele mundo imaginário onde as mágoas eram fictícias e os finais felizes...

Pensamento da escritora estadunidense Phyllis A. Whitney (1903-2008). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



domingo, setembro 18, 2022

RITA RUDNER, INGRID JONKER, GRACE AGUILAR, MARIA CASADEVALL & NEIA GABINETARTE

 

 Ao som dos álbuns Nature (2020), Advice From a Caterpillar (2014) e a Live vanuit het Plein Theater Amsterdam (2020), da clarinetista holandesa Fie Schouten.

 

TRÍPTICO DQP: - Os sonhos renascem muitos… - Naquela manhã chovia torrencialmente e o rio ameaçava transbordar como no dia em que nasci. Eu vi, fui embora aos dois anos de idade... Ali minha mãe dissera o mesmo da do Sonho de Kurosawa. O meu quintal crescera naquele exílio, árvores imensas e, lá no fundo, a estrada de Badalejo. Embaixo do arco-íris as raposas não acasalavam, apenas o pife do Papafigo soava de não sei onde, trazendo todos os meus mortos em desfile. Eles ignoravam minha presença ali, parecia, pelo menos não tive que pedir perdão pelo degredo nem por nada. Quando se foram me vi nos labirintos de Borges: O sonho não passa de um mistério. E lá longe os estrépitos de Água Preta. No meio apareceu Deus que encarei como se fosse Shakespeare e só queria ser eu mesmo. Baixei as vistas e ao revê-lo era Esther Vilar com um meio sorriso: Ainda jogamos hoje os mesmos jogos da nossa infância? Claro que não. E mesmo, enquanto crianças, não tínhamos sempre as mesmas brincadeiras, brincávamos até nos apetecer. Não sabia como respondê-la, queria naquele dia fosse apenas uma criança, nada mais. E eu me reconciliasse: era a vida, os sonhos renasciam muitos...

 


O banquete do exílio... – Imagem do artista e ilustrador estadunidense Edward McGinnis – Atravessando as minhas proscrições de xexéu e meu desterro Arrabal, tudo ali me parecia como se eu cumprisse a maldição de Narciso na fonte, condenado ao Dorian Gray do retrato de Wilde no Reading. No meu desamparo foi Babette quem fez a festa e me acolheu: era apenas uma artista. E me contou a anedota do destino de Karen Blixen, e me chamou atenção para o que dissera António Agostinho Neto: Para alcançar a liberdade e sem o qual o comportamento do homem será o de quem sai de uma forma de discriminação para cair numa outra forma tão negativa como a primeira, uma simples inversão dos fatores intervenientes... Não entendia nada porque adolescia como quem perdia a inocência no seu decote. Logo chegaram os convidados do Discreto Charme de Buñuel e eram muitos e se pareciam meus algozes, eu só queria privar da intimidade dela. A primeira a se achegar atrapalhando todo meu intento foi a escritora britânica Grace Aguilar (1816-1847) que logo me advertiu: Simpatia é o charme da vida humana. Poesia é um presente perigoso. Ao lado dela o antipático religioso francês Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704) com seu ar severo: Entre todas as paixões da mente humana, uma das mais violentas é o desejo de conhecer... Eu não tinha nada a ver com tudo aquilo, apenas fora levado pela generosidade da anfitriã, um peixe fora d’água que sonhava pelas anáguas e momentos íntimos dela na sua solidão. Mais satírico de todos Julos Beaucarne me puxava insistentemente quebrando o encanto: Anarquista, estou até o fundo dos meus sons! Anarquista, na minha opinião, isso significa que outros caminhos ainda não exploram as portas que ainda não foram abertas. Isso é o que estou fazendo há cinquenta anos. E gargalhava desbragadamente. Todos me pareciam fantasmas famintos na noite longa, sequer eu tinha para onde ir. No meu flagelo ela então apareceu como se fosse Nix e me fez Erebus para que eu soubesse do caos de sua íntima clausura.

 


Neia GabinetArte... – Imagem do escritor e pintor sul-africano Breyten Breutenbach - Amanheci de pé diante da porteira e dentro do cercado a inquieta e sorridente Neia me recepcionava de braços abertos. Naquela placidez pude respirar fundo e reviver o gosto de sentir-me em casa, outra vez menino que se esgueirou pelo mundo com todos os esconjuros. Ofereceu-me água quente para o café solúvel e nos aboletamos numa poltrona amigável. Ela se parecia com a comediantescritora estadunidense Rita Rudner: Eu amo dormir. Você? Não é ótimo? Realmente é o melhor dos dois mundos. Você fica vivo e inconsciente... E depois de mostrar suas traquinagens artísticas, arrematou ainda incorporada: Os homens esquecem tudo; as mulheres se lembram de tudo. É por isso que os homens precisam de repetição instantânea nos esportes. Eles já esqueceram o que aconteceu. Já passava do meio dia quando me convocou a atravessar o pântano: Vamos! Desbravamos passagem escorregadia e me exigiu perícia às marqens do primeiro pequeno açude. Meus pés se encharcaram nas proximidades do segundo e dei graças quando venci o terceiro. Foi então ela colher goiabas, eu restabelecia a respiração. Que coisa! E seguimos pelo caos e atravessamos umbrais como se recitasse a Face do amor de Ingrid Jonker. Quando enfim divisamos a liberdade ensolarada, ela se parecia a linda atriz Maria Casadevall como Guia Turística da Usina de Arte e lá eu me perdi entre as obras de Regina Silveira, a Diva da Juliana Notari, Frida Baranek, Os cabanos da Liliane Dardot, Os mandacarus da caçamba de lixo de Paulo Bruscky, O hangar das Ligas de José Rufino, A cabeça bandeirante de Flávio Cerqueira, A árvore de Hugo França, o Átrium de Marcelo Silveira, Data Vênia e Casa imaginária de Ricardo Pessoa de Queiroz, o Jardim Botânico, a Escola de Música, as três lagoas, a torre da Rádio Catimbó e o Festival Gastrô que virá. Ali eu sei o que já foi dor hoje paragem arejada para saltar aos olhos e entender que a vida é outra. Ainda bem que não sou nada, era mais eu que nunca... Até mais ver.

[...] A educação, como um valor social, extrapola os interesses circunstanciais de grupos isolados e passa a ser uma preocupação da sociedade global. Por que a decadência do ensino? Por que a perda do status do professor? Por que, aos poucos, a educação deixou de ser prioridade nacional, apesar do discurso político? Há toda uma rede de fatores confluentes e que se interpenetram gerando uma rede de causas, fatos e efeitos... [...].

Trecho extraído da obra Avaliação educacional: teoria, planejamento e modelos (Ibrasa, 2000), do educador, professor e pesquisador Heraldo Marelim Vianna (1927- 2013). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



domingo, setembro 11, 2022

MARIAN KEYES, JOANNA BAILLIE, HILDA DOOLITTLE, MICHEL BARLOW & PINTANDO XEXÉU

 

 Ao som dos álbuns Living Room Songs (2011), For Now I Am Winter (2013) e Island Songs (2016), do multi-instrumentista islandês Ólafur Arnalds.

 

TRÍPTICO DQP: - O olhar e o ignoto... - Do lado de cá, o quintal dos milagres; do lado de lá, o mundo. Entre ambos o brejo que mais se parecia um riacho de tão cheio. O pitu chega passava avexado, aos montes pelos tantos de cardumes. Deixei de lado as proezas na cacimba porque havia explorado muitas invencionices na goiabeira, ou pelas bananeiras e matagal. Queria era voar pro outro lado, poder desse tivesse. Luz na ideia e por que não, ora, encarei a fundura, escalei aos escorregões a íngreme margem oposta, fiz força e ganhei acolá. Era tudo muito vasto, como o tanto dos meus sonhos de olhos abertos. Vasculhei a redondeza e dei de cara com uma oliveira carregada de azeitona: Ô coisa mais boa de se aproveitar. Na sombra estava... Ah, era Platero de Jimenez às gargalhadas lambendo os cascos do que sobrou do jenipapo e foi logo me contando d’A raposa e as uvas de Esopo. A cada relincho outra hestória: O lobo e o cordeiro de Fedro; depois O asno de ouro de Apuleio; ô bicho tagarela esse, meu, ganhou pra mim na tomada de água de chocalho: falava pelos cotovelos que nem o homem da cobra. Confesso que morri de rir quando me disse saborear o araticum cagão. O quê? Ao buscá-lo quase pisa no cochilo do sapo Aderbal. Eita, desculpe! Sai pra lá, jumento! Olhe você me respeite senão não tem festa no céu procê! Sai pra lá, ô jegue fidumégua! Foi aí que o asno se enrolou com uma cana e, por engano, pegou foi um ingá do brejo! O cururu vingou-se: Vai ser burro assim no raio que o parta, desgraçado! As rãs assanhadas do fã clube do anuro se riram da leseira deles: Cadê a mula? E instigavam enquanto torciam pelas pazes entre a invejosa lagarta que não sabia para onde ia e peiticava com a vaidosa borboleta que não sabia como veio. O zoadeiro ficava por conta da saparia afoita açoitando a arenga: Foi! Não foi! De repente as lavadeiras fugiam saias pela cabeça às carreiras por causa duma cobra voadora que era uma criança atacada pelas abelhas de Cupira e efígie ofídica se tornara porque amaldiçoada pela mãe logo que esta foi abandonada pelo marido. Como é que é? E logo apareceu o lobisomem zonzo dizendo fugir da barata Gregor gigante que queria pegá-lo e quem não conseguia fugir subia pelos coqueiros ou era pé na bunda mata adentro. Eu não sabia o que fazer quando dei de cara com o Minotauro bufando tal qual a Esfinge do Édipo: Decifra-me ou te devoro! E agora? Paralisado diante daquele terror, apareceu do nada Marian Keyes que me deu o Fio de Ariadne: A vida não respeita circunstâncias... A vida simplesmente vai em frente e faz o que tem vontade, sempre que tem vontade! Desde então pelos labirintos noitedias e dias&noites, tenho muita hestória pra contar.

 


Pintando Xexéu... - Era feriado e a independência de quem no Fecamepa. O que valeu a manhã ensolarar o risonho prefeito aos braçabraços em cada um da multidão solícita, ao passo que a linda senhora vice distribuía afetos e saudações. A Ipiranga valia no tom garboso da sonoridade matutina para que a festa tomasse corpo nas cores e traços dos artistas presentes e o poeta secretário não deixasse nada passar em branco. Divisão foi logo mote glosado por Leo Luna, Ana Paula e Durán, quando este ao final encarou uma espanhola exuberante que sumiu e ele avexou-se e foi junto, ora. Alexandre Freitas foi pelo arruado, ao mesmo tempo em que Profeta seguia noutra nebulosa e Fábio Santos construía a sua igreja. Robertson pegou a canoa e foi pelas águas de não sei onde e Márcia Gomes passava pela ponte dos seus sonhos para ver o xexéu brilhar com João Brito e Alexandre Lima, enquanto Zed Melo dava as caras pra Carlos Daniel, Erick e Míssila no meio da estudantada, ouvindo atentos as narrações livreiras de Rute Costa, para tudo ser registrado pela adorável bibliotecária Sueli na foto geral de exposição na Semed. Valeu mais o abraço de Gel Love & Rogério. Por isso e muito mais, a cada dia canto & sou xexéu. (Veja fotos e evento aqui).

 


O fio de Bastet... – Imagem do designer gráfico, ilustrador, videoartista e artista multi-gênero japonês Keiichi Tanaami. – Anoiteceu e voltei ao convívio das trevas, umbrais solitude, o trâmite da solidão. Lá fora está tão irrespirável até não sei quando; aqui dentro, pelo menos, ouso viver. Não fosse Bastet aparecer-me como se fosse um eclipse solar, não teria nada o que fazer então. Insinuando-se tal qual gata de Nise, com seu olhar felino graciosamente faminto na boca sedenta para me dar o sistro com a mão direita e a efígie com cabeça de leoa coroada pelo disco solar e serpente uraues com a outra, a levar-me pelas pirâmides dos seus segredos, não sei nem o que diga de tanta errância. Mas ela disse-me com tom de Battaile: Nada é mais necessário ou mais forte em nós do que a rebelião... Acredito que a verdade tem apenas uma face: a de uma contradição violenta... Eu sabia que a filha de Rá temia ter que passar de novo por Gata Borralheira. Ora, nem podia, afinal era uma deusa votiva e poderia, com um simples estalar de dedos, mudar o que quisesse e se não o fez é porque não quis. De repente sussurrou misteriosa Joanna Baillie: O tirano agora não confia em homens: todas as noites em seu quarto o cão de guarda guarda seu leito, o único amigo em quem agora ousa confiar. Virou-se e me tratou como Anúbis no meio da madrugada, trazendo-me o mais perto possível a sofreguidão do seu hálito. Foi aí que ela desteceu os enredos do meu canto aniquilado de ave migratória na angústia de desgarrado por triunfar no pó e no vento, para me dizer de Goethe: para ser poeta é preciso entregar-se ao demônio. Ou foi Byron quem disse isso e mais britanicamente: O diabo foi o primeiro democrata... Na solidão é quando estamos menos sós. Nada escrevi que prestasse até que comecei a amar. Meu epitáfio será meu nome, nada mais... Quem disse, o que foi ou não, o que se acusa e se envergonha, pouco importa. Aconchegada a mim se fez Hilda Doolittle: Nenhuma fantasia poética / Mas uma realidade biológica, um fato: eu sou uma entidade como pássaro, inseto, planta ou célula vegetal do mar; / Eu vivo; / Eu estou viva... E em mim a festa dela detonou meus logogrifos e logomaquias, a perdoar as minhas derrotas e o que viveu em mim e o que nunca vi, nem mais nem menos. Já não era insignificante no auge do meu cansaço e nenhum entusiasmo, ela me dava de presente o outro lado do brejo no quintal da infância. Até mais ver.

 


[...] a escola não é menos povoada de mitos e de ritos [...] Mas podemos observar, desde já, que a ação educativa, menos do que qualquer outra, não poderia escapar ao império do sonho e do imaginário. Por definição, poderíamos dizer: artífice do futuro para os jovens que lhe são confiados, a educação teria como única tarefa despertar o desejo, dar corpo ao sonho? Em face do adulto responsável por ela, a criança – ou o adolescente – é esperança frágil e expectativa, para si mesma e para seus próximos, e a ação educativa não teria outra meta a não ser ajudar a realizar essas promessas... Essas ou outras, aliás! [...] De fato, em última instância, a própria criança é o ator de sua educação: ninguém pode crescer, evoluir, aprender em seu lugar! O educador é apenas um catalisador. [...].

Trechos extraídos da obra Avaliação escolar: mitos e realidades (Artmed, 2006), do filósofo e educador francês  Michel Barlow. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



segunda-feira, setembro 05, 2022

MARYANNE WOLF, CAROLINA DE JESUS, YOANI SÁNCHEZ, ADELMO ARCOVERDE & VITAL CORRÊA DE ARAÚJO

 

Ao som dos álbuns O convertido (2013) e Mensageiro (2014), do compositor, instrumentista, arranjador e violeiro, Adelmo Arcoverde, autor do livro Viola do Nordeste – Método de Viola (Nova Presença, 2022).

 

TRÍPTICO DQP: - A casa dela... - Ali não havia quintal, apenas os olhos vivos de Copacabana repletos de esperança e alguns temores com os ruídos e a dispersão do tempo, desencontros e incompreensões. Às vezes, na casa dela, seus olhos brilhavam assustados na encruzilhada fortuita como se estivessem submersos pelas sombras da Inés de Goya, diante dos fantasmas misóginos que povoavam os arredores para captura das Filhas da Dor. Eram abantesmas que diziam aos seus passos: Ôpa, volta... E ela não, levada pela Carolina Maria de Jesus: Anda, anda... faz de conta que está sonhando. E seguia Sol a pino, com suas intensas inquietações na contundência de dizer não, porque não era Efeito Mandela: tudo acontecia na esquina – a mão atrevida do algoz, as vestes aos farrapos, a marca do estupro, o desdém da hipocrisia, a dor de nunca esquecer. E tinha de sair de casa para constatar o que dizia a jornalista/blogueira cubana Yoani Sánchez: Fomos para as ruas porque tínhamos fome, é certo. Tínhamos tanta fome que comemos o medo. A liberdade é contagiosa, sempre se quer mais. Era assim que podia sorrir: olhos pedintes, a volúpia na carne, a entrega da alma. Na moradia do passado, portadentro, ela exorcizava seus medos e se desnudava impune para valer a vida: meu sexo nela.

 

As aldravias de Xexéu... - Na manhã ensolarada Janilson era mais que imponente porque Rute era mais que poeta radiante: os dois brilhavam no palco na maior festa. Na entrada eu conversava com Durán e Tony Antunes sobre o volume da publicação de Dom Acácio, arremedando hestórias de ontem quase esquecidas na memória. O povo xexeuense foi chegando engalanado e logo os acordes da Banda Ipiranga saudavam a todos com a abertura ao som da Aquarela de Ari Barroso, seguida de um Pot-pourri do inesquecível Gonzagão. Para os presentes começou a festa: gente chamada para compor a mesa das autoridades, a ciranda da meninada do Maria das Mercês, as aldravias do casal Donadon com as Confidência do itabirano do Drummond: Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!..., os livros infantis da Eliane Santos e a conversa animada sobre As Lendas do Piauí, com a radialista/jornalistescritora Arleni Portelada, também retratadas pelo Mestre Portelada: ... me deparei com muitas estórias compartilhadas por toda a região do Nordeste. E falou do Cabeça de Cuia: No caso do Crispim há o castigo da metamorfose do ser errante e sem paz, como mensagem. Conversa animada, tudo corria como o desejado pelo poetamigo Marcos Xhêpa. E seguiu-se até ao meio dia quando desci a ladeira para o almoço na companhia da Maria Joyce. Singramos a cidade, percorremos ruas e a feira já quase desfeita, saboreamos suas canções com uma cerveja gelada até o finalzinho da tarde para constatar, no meio de uma rompante crepuscular: canto e sou xexéu!

 


A poesia em queda livre... - Na ruina das certezas todas as dúvidas, graças. Afinal estou vivo e já sei: toda beira do abismo é redonda, assim o infinito é pequeno (porque, como diz o poeta, a criação do homem derrota Deus). Pois é, foi Vital Corrêa de Araújo que deu as caras e sacou: Todo ápice cambaleia! E com uma meia declaração sincera: a eternidade é inútil! Havia nos olhos dele os tendões do amanhã: quem não vacila diante do aparato de possibilidades, se nada mais intransponível entre palavras perdidas, o confessional e a crua meditação, o dom noturno e a aura da desilusão, as estrelas descalças da calçada pelo chão da manhã, situações nuas e o rio lento e voraz do tempo, todas as náuseas e vergastas, haja paradoxo. Disse-me mais: É preciso conjulgar tudo com nada: a liberação total da força expressão. Evidente alguém ouvir isso e se achar como se numa desconfortável assistência a um concerto, digamos, de música atonal ou dodecafônica; ou de uma exposição de pintura abstrata, ou mesmo de uma sessão com cenas delirantes de um teatro ou filme de vanguarda. E ainda por cima ouvir Cocteau: A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse para quê... Serviria de consolo saber de Ionesco: Creio que se tinha esquecido, nestes últimos tempos, o que é teatro. E eu fui o primeiro a esquecê-lo; penso tê-lo novamente descoberto, para mim, passo a passo, e eu acabo de descrever simplesmente a minha experiência... Favorecendo a digestão, talvez, melhor Sábato: Se é absurdo, no entanto, é eficaz; se contraditório, é poderoso, porque substitui as palavras e expressões desgastadas que, psicologicamente, são inoperantes, por novas combinações que atraem pelo inesperado. Sabe de uma coisa? O melhor é que de tudo que sabia até agora, muito ainda por aprender. Ponto final, até mais ver.


A alfabetização está tão entrelaçada em nossas vidas que muitas vezes deixamos de perceber que o ato de ler é um milagre que está acontecendo nas nossas mãos. O que lemos, como lemos e por que lemos mudam a maneira como pensamos.

Pensamento da professora estadunidense Maryanne Wolf. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



EMMA LAZARUS, NADINE GORDIMER, LAGERLÖF, YOURCENAR & JOAN RODRIGUEZ

    Ao som de Pavane por une infante défunte (1899), de Maurice Ravel , com a Orchestre National de France, sob a regência da maestrina fin...