terça-feira, janeiro 06, 2009

OSCAR WILDE, KATE BORNSTEIN, RUTH GUIMARÃES, BRÁULIO TAVARES, JOHN LAFARGE, PRIESTLEY, EDWIN EMERSON & LITERÓTICA


A arte do pintor, decorador e escritor estadunidense John LaFarge (1835-1910). Veja mais aqui.


O DIA É ELA, A VIDAUMA: CAFÉ DA MANHÃ – Disposta sobre a mesa, ela nua amanhece, pronta para ser devorada. Eu me sirvo dela e ganho a vida. DUAS: ALMOÇO – Somos meio dia, um no outro. Ela faminta a me devorar, ofertando de si lauto banquete para que eu me sirva de tudo que é seu para mim e meu. TRÊS: JANTAR – Anoiteceu em nós, meus lábios nos seus, ela é toda ceia a recolher de mim o que é dela para me fartar: eclipse lunar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.


DITOS & DESDITOSToda sociedade tem os adolescentes que merece. Pensamento do escritor, dramaturgo e radialista inglês, John Boyton Priestley.

ALGUÉM FALOU: Feliz é uma palavra muito pobre para alguém que está tentando viver uma vida com todas as cores do arco-íris neste mundo em preto e branco. Expressão da escritora, atriz e artista trans não-binária estadunidense, Kate Bornstein.

COMETA HALLEY – [...] Por mais distante que um cometa esteja, não é de todo impossível que suas enormes caudas, medindo de 75.000 a 125.000 milhas de extensão, possam entrar em contato com nossa atmosfera. A teoria de que um cometa pode perturbar a atmosfera da Terra causando chuvas de grande duração e, consequentemente, inundações e súbitas elevações dos níveis dos rios, não é de todo absurda – ela pode ser sustentada pelo discurso científico. [...]. Trecho extraído de Comet Lore – Halley’s Comet in History and Astronomy (The Schilling Press, 1910), do escritor estadunidense Edwin Emerson (1869-1959).

PÉROLAS DE WILDE - Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe. O homem é um animal racional que sempre perde a cabeça quando chamado a agir pelos ditames da razão. A história das mulheres é a história da pior forma de tirania que o mundo já conheceu: a tirania do fraco sobre o forte. É a única tirania que consegue durar. O mundo pode ser um palco, mas o elenco é um horror. Pode-se sobreviver a tudo hoje em dia, exceto à morte e a uma boa reputação. Poucas pessoas sabem o momento psicologicamente exato de ficar caladas. O pessimista é uma pessoa que, podendo escolher entre dois males, prefere ambos. Resista a tudo – menos a tentações. Toda pessoa que diz sempre a verdade acaba sendo apanhada em flagrante. Uma verdade deixa de ser verdadeira quando mais de uma pessoa acredita nela. A vida é uma coisa muito importante para ser discutida a sério. Aforismos do escritor e dramaturgo britânico Oscar Wilde (1854-1900). Veja mais aqui.

ÁGUA FUNDA – [...] A gente passa nesta vida, como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada. E quando alguém mexe com varejão no lodo e turva a correnteza, isso também não tem importância. Água vem, água vai, fica tudo no mesmo outra vez [...]. Trecho extraído da obra Água Funda (Nova Fronteira, 2003), da escritora e tradutora Ruth Guimarães (1920-2014), o primeiro romance publicado por autora negra depois do término do período de cativeiro no Brasil, em 1888, narrado em terceira pessoa, contando uma história que se passa pelo período escravocrata e as primeiras décadas do século XX, em uma fazenda no sul de Minas Gerais.


O JUIZ E O LADRÃO

Braulio Tavares

Toda vez que um soldado de polícia
Leva preso um filhinho-de-papai
Meia hora depois ele já sai
Com propina na hora mais propicia
Toda vez que um jornal dá a notícia
Dos trambiques de algum parlamentar,
Noutro dia precisa apresentar
Desmentidos de toda a redação...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

Quando algum promotor ter a coragem
De enfiar sua mão nesse vespeiro
Chega um fax e manda bem ligeiro
Que ela mexa com outro personagem
Se o Congresso descobre sacanagem
E promete depressa investigar
Muita gente começa a encomendar
Uma pizza gigante pro salão...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

Mesmo quando um ladrão endinheirado
Por acaso pernoita na cadeia
Ele tem boa cama e boa ceia
Numa cela com ar refrigerado.
Sendo o caso de ser um magistrado,
Tem direito a tv e frigobar
Tem cozinha francesa no jantar
E cobertas de seda no colchão...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

Outro caso na historia brasileira
É o juiz conhecido por Lalau
Que roubou cem milhões dum tribunal
E escondeu do outro lado da fronteira
O juiz vai em cana terça-feira
E na sexta já mandam libertar
Não tem homem que faça ele passar
Sete dias seguidos na prisão...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

No Brasil tem industria madeireira
Derrubando floresta em todo Estado
E às vezes vem um advogado
Traz a lei, e interrompe essa sujeira
Mais aí um ricaço abre a carteira
Compra a peso de outro a liminar
E na mata se volta a escutar
Motosserra, machado e caminhão...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

BRÁULIO TAVARES & OS MARTELOS DE TRUPIZUPE – Ter a oportunidade de um reencontro com a obra do grande Bráulio Tavares, é uma das espetaculares sensações inomináveis a que qualquer leitor terá o privilégio de sentir. Acompanhando há anos o seu trabalho e hoje ter nas mãos “Os martelos de Trupizupe” é de um inigualável deleite e dos mais apreciadores da minha parte.

BRAULIO TAVARES - Para se ter uma idéia, Braulio Tavares é escritor e compositor, estudou cinema na Escola Superior de Cinema da Universidade Católica de Minas Gerais, é pesquisador de literatura fantástica, compilou a primeira bibliografia do gênero na literatura brasileira, o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional, Rio, 1992) e é autor de vários livros, tais como A máquina voadora (1994) e A espinha dorsal da memória (1996). Veja a entrevista que ele concedeu pra gente aqui.

OS MARTELOS DE TRUPIZUPE - Lançado pelas Edições Engenho de Arte, em 2004, da sua irmã, a escritora Clotildes Tavares, “Os martelos de Trupizupe” é, conforme palavras do próprio autor na introdução do livro: “Este livro é uma coletânea de poemas, com um lado autobiográfico que não pretendo valorizar demais, nem esconder. (...) Os versos deste livro não foram improvisados, foram escritos e, como a maioria dos versos, são respostas do poeta a coisas que leu, que viver, que escutou. Os versos pertencem tanto a mim quanto ao momento que os gerou”. Cada poema do livro vem com uma nota introdutória, a exemplo do primeiro apresentado no livro, “Treme o sol, treme a terra, o vento muda”:

“Quando eu pego a cantar o meu repente
Tudo em volta se cala pra escutar,
Se congelam as ondas sobre o mar
E emudece o trovão subitamente.
O feroz furacão fica silente
Sem ruído desdobra-se o tornado
O tufão fica imóvel e calado
Cada voz me respeita e fica muda:
Treme o sol, treme a terra, o vento muda
Quando eu canto martelo agalopado. (...)”

Esta é a primeira mostra da grandeza do livro que saboreei da primeira à última página. 

Outro momento dos mais aprazíveis é no poema “O poder da natureza”, onde Bráulio fecha a glosa com o mote: “(...) E o homem vê isso e não aprende quanto é grande o Poder da Natureza”.

No livro também se encontra os versos de autoria de Bráulio Tavares da famosíssima música “Nordeste independente”.

No poema “A marreta da morte”, sintam a riqueza e maravilha poética do autor:

“Esta vida é uma nuvem passageira
E é de perto que a morte a acompanha:
Até mesmo a mais sólida montanha
todos sabem que é feita de poeira.

E eu comparo esta vida a uma pedreira,
Majestosa, elevada e pardacenta,
Mas a morte, com mão sanguinolenta
quebra pedra por pedra à martelada.
A marreta da morte é tão pesada
e a pedreira da vida não agüenta (...)”

O ponto alto do livro estão nos Limeiriques, baseado em versos irlandeses, os “limericks” com temática fescenina e de nonsense. Sintam:

“Quando eu pego a cantar meus limerique
As canguéia rotunda se estrepole
não tem trinca-de-boy nem mula-mole
Que achinchele a peixeira do cacique!
Eu me escoro no meu mamultiplique
E as danuta do Cão vai se ofendendo
No pendura imbrecado vai-não-vendo
Rolimão dos cunhão de Zé Limeira:
Quando eu pego a cantar minhas besteira
Cristo desce da cruz e sai correndo! (...)”.

Quer mais? Vejam só o início do poema “nem de menos, nem de mais”:

“Se o destino for justo e coerente
Vai me dar tão somente o quanto eu peço:
Eu não quero alegrias em excesso
Nem aceito sofrer injustamente.
Eu não quero ser morto pela frente
Nem levar punhaladas por detrás;
Entre a paz e a fortuna, eu quero a paz,
Pois já acho bastante o que eu padeço.
Eu só quero na vida o que mereço,
Não aceito de menos nem de mais (...).

Acompanhando a tradição dos cantadores, repentistas e emboladores da Literatura Cordel e aliando a visão do artista participante e antenado com o seu e a sua terra, “Os martelos de Trupizupe”, de Bráulio Tavares, é indubitavelmente uma das mais belas páginas da literatura brasileira presente.

Fonte:
TAVARES, Braulio. Os martelos de Trupizupe. Natal: Engenho de Arte, 2004.



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