Ao som do álbum Transparente (Fina Flor, 2015), da
cantora e compositora Fátima Guedes. Veja mais aqui, aqui & aqui.
Galardão do revés exótico... - Naquele instante,
ela nostálgica revivia o idílio de seu deleite virginal: o primeiro beijo e ele
chegava possessivo de ciúmes, não se cansava de tê-la tão bela aos seus olhos
de senhor das horas. Dela, a revista das cartas íntimas trocadas, discórdias,
pormenores, adivinhando o que queria a precipitar-se previdente, até das suspeitas
injuriosas de ter que pagar na mesma moeda, enquanto os anos a consumia numa devastadora
paixão. De repente, o amor restava excomungado, desde quando o marido invadiu o
oitão da casa espaventoso, aos gritos, sucedendo o susto, porta abaixo, dele
ter acabado de chegar, um endríago desembestado, olhos cinzentos, a face
inexpressiva na agonia dos odores de acender e apagar, ao que cegava carrancudo
no martírio de ser atingido por relâmpago certeiro e perdia a sombra, o chão
sumia, esvaindo-se estouvado e morria em pé, a se dissolver com últimos
suspiros, imodesto nas distorções do vulgo, expirava no último fôlego das
ventas e sucumbia à glória dos valentões finados, a morte injuriosa no pó que
fez-se poeira invisível para nunca mais, a sorte o tratava bem dagora em
diante. Ruborizada, franzia o cenho diante daquilo tudo, assustada com a cena
perturbadora. Compungida, restava uma vela ao inusitado e a futura lembrança. Nisso
o papagaio despencou do poleiro espatifando o porta-retrato do casal. Só faltava
essa: o bicho de estimação socorrido era a única coisa viva que restava dos
momentos inesquecíveis. Seguia pelas horas longas dos ritos funerários e um
deserto nauseabundo vinha de longe, deixando-a desguarnecida supérstite, com a fulminante
compreensão: a morte áspera crucificava a ambos pela mesma dose, no que restava
de troços e destroços todos, o que durava da alvorada ao pôr do sol, a noite pra
espreme-la indefesa. Deixou-se levar por um momento pelas distrações ao poente
e purificou-se aos olhos mortais durante o sepultamento. Chegava a noite de
lua, as pálpebras cansadas ávidas por repouso, ainda não, a impaciência de
viver: o que é ser vivo? A herança e a descoberta pelo avesso e inverso, por
toda parte e a todo momento: só o tempo era mensageiro. Até que a fome corroeu a
madrugada com a crise passional. Desabou, caiu no sono e sonhou com um sapo tagarela
prometendo alvíssaras. Oxe! Despertava e o louro próvido trouxe logo
espalhafatosamente um véu de seda branca para cobri-la e grasnava como quem contava
hestórias complicadas e intermináveis. Que é que foi? Empinava, demostrando que
estava afeiçoado à viúva, meiguice na ponta do bico. Logo ela assustou-se horrorizada
com o coaxado dum cururu robusto ao pé da cama. Vôte! Como é que pode? E tudo começou
onde menos previa e duma hora qualquer, à revelia do sensatos. Nem se dava
conta do que tramavam deliberadamente a tagarela ave e o batráquio, astúcias
alcoviteiras dum quase conto de fadas. É macumba! Sapo de fora não chia, mas
esse é turrão. - Só me falta um vampiro pra chupar minha carótida! Eita! Quase meia
dúzia de noites e dúvidas, muitos luares remavam sentimentos impúberes
revividos, vogava a desordem emotivas, regia impetuosas carências e quem acudia
não soube, o coração na mão pulou esperançado, esvoaçante, com admoestações, persuasões
nas suas obstinadas aspirações, até perceber no anuro os olhos sinceros, a boca
torta, e a mais não se atreveu: ele a lambia com as vistas. Ih! Decerto, sobrevivente
que era e a abstinência dela, o inverossímil, talvez afortunada heresia e as sombras
cuspiam verdades da solidão e se multiplicavam nas zis silhuetas oníricas e
espantosas, como uma assombração. Deslumbrou-se mesmo assim com as mais de
quinhentas vontades veementes nas dores do desejo lá dela e aos mimos, a rendição,
um e outro, nenhum asco nem desdém, a companhia dupla e o beijo estalou, afeto
carecido, a frouxidão das primeiras nuvens e chuvadas largas, miúdas danações e
trechos vagarosos, olhos suspirados como quem andasse de costas e viesse de
frente, ardente ventania, parecia até quase sempre Sol de paraíso, labaredas na
fogueira do prazer, o anfíbio na sua caranguejeira e da perereca um rapazola emergira
intrépido e viril, e entregou-se sem temor de qualquer risco ao exercício
diário de desbragada luxúria, arrependimento ou culpa, porque a pernalta grulha
ressuscitara achegada prima inseparável de afogamento cruel pretérito. O resto era
com Deus, as núpcias de insólito triunvirato no encanto de incrédula magia. Até
mais ver.
Naomi Klein: Democracia não é apenas o direito ao voto, é o direito de viver com dignidade... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Marina Vlady: Frequentemente
tentamos analisar o significado das palavras, mas somos facilmente desviados. É
preciso admitir que não há nada mais simples do que aceitar as coisas como
certas... Nos meus sonhos, eu costumava sentir que estava sendo sugada para um
buraco... Veja mais aqui.
Nnedi Okorafor: O silêncio é
a melhor resposta para um tolo... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.
O ALFABETO DO AMOR
Imagem: Acervo ArtLAM.
Começamos do início todos os dias. De manhã \ tenho
que desenhar a tua boca, marcar com migalhas \ o caminho para casa, repetir
novamente letra \ por letra. \ Isso diverte-me. Estudo-te como uma analfabeta.
\ (A língua dissipa-se prontamente, mostra \ a sua origem florestal). \ Quando
à noite repetimos as frases \ de amor, realizamos o ato de casamento que \ não
lembramos.
Poema da escritora, crítica literária e tradutora croata Darija Žilić, editora da revista
literária Tema. Veja mais aqui.
PÉROLA DA IMORTALIDADE - [...] Não se
esqueçam das Areias Sagradas... [...] Os grãos que passam pelas mãos
ancestrais do Tempo! [...] O planeta depende de você, Cavaleiro dos Anos Antigos! [...] O ouro, a lâmpada, Xerxes,
é provavelmente a coisa mais importante da sua vida. [...].
Trechos extraídos da obra The Pearl of Immortality (Author's Channel, 2019), da escritora
sul-africana Nishi Singh (Nishi Chandermun), volume 2 da trilogia
composta pelos romances The Sands of Time e The Curse of Ice.
SONHOS DAS ORIGENS - [...] Os
espíritos xapiripë dançam para os xamãs desde os tempos mais remotos e
continuam a fazê-lo até hoje. Eles têm aparência humana, mas são tão minúsculos
quanto partículas de poeira brilhante. Para vê-los, é preciso inalar o pó da
árvore yãkõanahi muitas e muitas vezes. Os xapiripë dançam juntos em grandes
espelhos que descem do céu. Eles nunca são cinzentos como os humanos. São
sempre magníficos: seus corpos são pintados com urucum e contornados com desenhos
pretos, suas cabeças são cobertas com penas brancas de urubu-rei, suas pulseiras
de contas são repletas de penas de papagaio, cujubim e arara vermelha, suas
cinturas são envoltas em caudas de tucano. Milhares deles vêm dançar juntos,
agitando folhas de palmeiras jovens, soltando gritos de alegria e cantando sem
parar. Seu caminho parece um fio de aranha brilhando como o luar, e seus
enfeites de penas se movem lentamente ao ritmo de seus passos. É uma alegria
ver como são belos! Os espíritos são tão numerosos porque são as imagens dos animais
da floresta. Tudo na floresta tem uma imagem utupë: aqueles que caminham sobre
a terra, aqueles que sobem nas árvores, aqueles que têm asas, aqueles que vivem
na água. São essas imagens que os xamãs invocam e trazem à Terra para se
tornarem espíritos xapiripë. Essas imagens são o verdadeiro centro, o
verdadeiro interior dos seres da floresta. As pessoas comuns não conseguem
vê-las, apenas os xamãs. Mas não são imagens dos animais que conhecemos hoje.
São as imagens dos pais desses animais, são as imagens de nossos ancestrais. No
Tempo Primordial, quando a floresta ainda era jovem, nossos ancestrais eram
humanos com nomes de animais e acabaram se tornando presas. São eles que
matamos com flechas e comemos hoje. Mas suas imagens não desapareceram e são
eles que dançam para nós como espíritos xapiripë. Os brancos extraem suas
palavras porque seus pensamentos estão repletos de esquecimento. Nós guardamos
as palavras de nossos ancestrais dentro de nós por muito tempo e continuamos a
transmiti-las aos nossos filhos. As crianças, que nada sabem sobre os
espíritos, ouvem os cânticos dos xamãs e então desejam ver os espíritos por sua
vez. É assim que, mesmo sendo muito antigas, as palavras dos xapiripë sempre se
renovam. São eles que ampliam nossos pensamentos. São eles que nos fazem ver e
conhecer coisas distantes, as coisas dos antigos. É o nosso estudo que nos
ensina a sonhar. [...]. Trecho extraído do texto The words of Davi
Kopenawa Yanomami (Survival International, 2026), do escritor, ator, xamã e
líder yanomami, Davi Kopenawa Yanomami, presidente da Hutukara Associação
Yanomami, uma entidade indígena de ajuda mútua e etnodesenvolvimento. Veja mais
aqui.
A POESIA DE CELINA
DE HOLANDA
Neste parque
imutável \ até hoje passeiam \ estes homens de escuro \ e estas frágeis
mulheres \ Até hoje as flores, os cristais \ e as toalhas \ são sem mácula \ nas
salas de esperar \ o amigo, o amado \ ou a chuva passar. Nada \ de apocalipse \
a terrível Besta e poços \ insondáveis. Nada \ a relembrar o abismo \ que somos.
Poema Passeio no Parque, da jornalista e
poeta Celina de Holanda (Celina de Holanda Cavalcanti de Albuquerque –
1915-1999), autora dos livros O Espelho da Rosa (1970), A Mão Extrema
(1976), Sobre Esta Cidade de Rios (1979), Roda D'água (1981), As
Viagens (1984), Pantorra, o Engenho (1990) e Viagens Gerais (1995).
Juntamente com Jaci Bezerra e Alberto da Cunha Melo, ela criou em 1979 as
Edições Pirata. Veja mais aquí.
&
SEMANA ASCENSO FERREIRA
Veja mais aquí, aquí, aquí, aquí, aquí & aquí.
José Condé aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Carmen Pontes aquí.
Bajado aquí, aquí, aquí, aquí & aquí.
Carla Denise aqui.
Cícero Belmar
aqui.
Moema Macêdo
aqui.
Jayme Griz aqui,
aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Susana Morais aquí.
Cesar Leal aqui,
aqui, aqui & aqui.
Margarida Cardoso aqui.







