

A BALADA DO VELHO MARINHEIRO, COLERIDGE
I – É um velho Marinheiro / E aborda um desses três. / “Por tuas barbas
grisalhas e pelo fulgor dos teus olhos, / Diz por que é que me deténs! / A casa
do noivo está aberta de par em par / Estão já os convidados o banquete
preparado, Ouvem-se as vozes festivas, E eu sou parente chegado.” / Prende-o na
mão descarnada e assim começa a falar: / “De certa vez um navio…” “Basta,
barbudo, és tonto, / Larga-me, tira essa mão!” / A mão solta-se de pronto. / Com
a luz dos olhos o prende; imóvel o Convidado / Escuta como um menino de três
anos de idade: / Assim faz o Marinheiro / O que tinha na vontade. / Levantou-se
atrás de nós um vento sul de feição, / Seguiu-nos o Albatroz; / E depois dia
trás dia para comer ou para brincar, / Vinha ter com os marinheiros que o
chamavam de alta voz. / Entre névoa ou entre nuvens sobre os mastros, sobre os
cabos, / Nove noites foi pousar. / Entretanto a noite inteira entre o branco
nevoeiro, / Brilhava o baço luar.” / “Deus te defenda, Marujo de todos os
inimigos! / Porquê esse olhar atroz?” / “Com o arco e uma seta / Eu matei o Albatroz.”
II - Era à direita
agora que o sol se levantava, / Também de dentro do mar; / Sempre em névoa
oculto à esquerda inclinava o vulto / Para de novo ao mar voltar. / Continuava
soprando o vento sul de feição, / Mas já sem ave ditosa que viesse ao pé de nós;
/ Para comer ou para brincar, / Não mais tornaria a vir aos apelos de alta voz.
/ Água, água a toda a volta / e as pranchas a encolher; / Água, água a toda a
volta, / E nem gota para beber. / O oceano apodrecia: / Meu Deus, meu Deus e
que isto se haja podido passar! / Viam-se ali rastejar seres de lama com patas
/ Por sobre a lama do mar! / Pela noite à roda, à roda à roda em tonta ciranda,
/ Dançava o corpo-santo; / Entretanto a água ardia como luz de bruxaria / Em
azul e verde e branco. / A uns em sonho aparecia o Espírito que infligia / Este
tormento profundo: / Desde a terra da neblina vinha no nosso encalço / A nove
braças de fundo. / E a língua toda ela de secura e de míngua / Mirrava até à
origem. / Não podíamos falar. Seria o mesmo que estar / Sufocados com fuligem.
/ Ai de mim, novos e velhos todos eles me fulminavam / Com olhar ameaçador: / Ao
pescoço em vez da cruz / O Albatroz me vieram pôr.
III - Foi um tempo
desolado. / Tínhamos os olhos vidrados e a garganta ressequida. / Desolado!
Desolado! / O olhar vidrado e sem vida. / Foi então que de repente no céu para
Ocidente, / Vi qualquer coisa sumida. / Primeiro parecia mancha depois parecia
bruma, / Vinha cada vez mais perto, / E acabou por ganhar forma, / Uma forma,
eu estou certo. / Mancha, bruma, forma, é certo! / E mais e mais se acercava: /
Como querendo escapar a um espírito do mar / Ia e vinha e mergulhava. / Com os
lábios recozidos e a garganta a escaldar, / Perdidos, mortos de sede e todos
emudecidos, / Sem poder rir nem chorar! / Mordi o braço e chupei sangue do
braço chupei / Para lhes dizer: Vela à vista! E duas vezes gritei. / Com os
lábios recozidos e a garganta a escaldar, / Eles me ouviram dizer: / Louvado
Deus! E mostraram a alegria num esgar. / E todos ao mesmo tempo contendo um
fundo alento, / Mais pareciam beber. / Cada um por mim passou / Sibilando como
a seta e o Arco que a tinha lançado.
IV - “Tenho-te medo, Marujo! / Tenho medo, tenho medo da tua mão a descarnar!
E tu és alto e macilento / E sulcado como a areia em que o mar foi quebrar. / Tenho-te
medo, Marujo e aos teus olhos faiscantes, / Tenho medo à tua mão que mirrou e
escureceu!” / Não, Convidado, não temas, / Que este corpo não morreu. / Ninguém,
mais ninguém, eu só, / Só num vasto mar sem fim. / E jamais houve um santo / Que
se apiedasse de mim. / Os vivos louvados sejam / E todos mortos jaziam. / Entanto
juntos comigo / Mil seres de lama viviam. / Olho a podridão do mar, / Logo os
olhos se desviam; / Olho o podre do convés, / Aí os mortos jaziam. / Olhando
para lá da sombra vi as serpentes marinhas: / Moviam-se ao longo de linhas / Cujo
rasto alvejava. / De cada vez que se erguiam uns brancos flocos caíam / E eram
luz encantada. / E para cá dessa sombra via os seus ricos enfeites: / Azul,
negro aveludado e ainda lustro esverdeado. / Enroscavam-se e nadavam, / E a luz
que no mar deixavam / Era um feixe delineado todo a fogo dourado. / Felizes
seres viventes! Sua beleza ninguém / Poderia descrever; / Do coração me brotou uma
nascente de amor / E abençoei-os sem saber: / De mim se apiedou o meu santo
protetor / E abençoei-os sem saber. / Nesse instante eu orei: / Como se fosse
de chumbo, / Desprendeu-se o Albatroz / E sumiu-se no profundo.
V - Ah o Sono, o
sono é doce / E é amado em todo o mundo. / Mãe do Céu seja louvada! / Mais
doçura que essa boda, / Mais doçura e alegria / Sinto em ir até à igreja / Numa
boa companhia. / Ir em boa companhia / E depois todos rezarem / E ante Deus-Pai
se curvarem; / Tanto os velhos e os meninos como os bons amigos nossos / E as
donzelas e os moços. / Adeus, adeus Convidado; / Ainda te quero dizer / Que
apenas sabe rezar aquele que sabe amar / Tanto o homem e a ave como qualquer
outro ser. / E para rezar melhor deve amar com muito amor / Tanto os seres das
alturas como os ínfimos da lama, / Que Deus que nos ama a nós / Todos fez e
todos ama. / Foi-se embora o Marinheiro velho de olhar cintilante / E barbas
brancas do tempo; / Foi-se embora o Convidado, / Sem ter ido ao casamento. / Foi-se
embora aturdido, / Foi-se embora transtornado: / Acordou ao outro dia / Mais
grave e mais avisado.
SAMUEL TAYLOR
COLERIDGE – Poema
extraído da obra S. T. Coleridge - Poemas e
excertos da biografia literária - Texto Poético Bilíngue (Nova Alexandria; 1995),
do poeta, crítico e ensaísta inglês Samuel
Taylor Coleridge (1772-1834), traduzido por Paulo Vizioli. O poeta teve o
seu relacionamento com Sarah Fricker (1770-1845) que com ele
viveu longos anos entre ausências e pobreza, retirou o "H" de seu
primeiro nome para agradar seu marido, dando-lhe constantes apoios como seu
vício espiral fora de controle, simpatizava
com seu ideal filosófico de pantisocracia e atuva
suas várias paixões com outras mulheres. Para ela, escreveu o poema O beijo, em
cujo fragmento expressava: [...] Muito
bem aqueles lábios adoráveis divulgam / Os triunfos da abertura aumentaram, / Ou
justo! Ou gracioso! Eu ofereço a eles que provem / Como
passivo ao sopro do amor… [...]. Havia uma outra na paixão do poeta, a Sarah Hutchinson (1775-1835) , cunhada do seu amigo poeta Wordsworth, um objeto
duradouro da paixão não correspondida e a quem ele escrevia sob o codinome anagramático
de Asra e oriundo do grego antigo como vagina, a pudenda muliebria, como presente para ela por
meio de um desejo físico inextricavelmente emaranhado. Além delas, a sua amiga e companheira literária, Dorothy Wordsworth,
para quem escreveu cartas sobre o seu mundo íntimo e revelando seus conflitos
domésticos, descrita por ela como a "irmã requintada" de
Wordsworth, de temperamento atraente e educada,que
aprendeu a sublimar seus próprios desejos e inclinações, tornando-se uma companheira mais "adequada"
para ele. Veja mais aqui.
QUESTÃO DE ARTE
[...] nos tornamos
mais humanos à medida que nos fazemos mais artistas, e que as conquistas do
homem contemporâneo passam necessariamente pela consciência desse incalculável
legado. Um legado que, como nenhum outro, só nos engrandece e orgulha por suas
conquistas, intenções e realizações. Talvez seja esse o único patrimônio que o
homem jamais renega ou rejeita e que nos identifica, aproxima e universaliza.
QUESTÃO DE ARTE – Trecho extraído da obra Questão de arte: O belo, a percepção estética e o fazer artístico
(Moderna, 2004), da professora e pesquisadora Cristina Costa, que trata contos de fadas, estética e inteligência,
arte e vida social, fenomenologia e arte, o prazer do belo e o desenvolvimento
da sensibilidade, a diferença entre o belo e o bonito, a relatividade do gosto,
o artista moderno, a crítica a arte, o amador e o profissional, a revolução
tecnológica, o ingênuo e o autodidatismo, a arte do inconsciente, o aprendizado
para o arte e para o público, entre outros assuntos. Veja mais aqui.
A ARTE PERNAMBUCANA
A arte do artista plástico Bajado -
Euclides Francisco Amâncio (1912- 1996) aqui
A literatura de Frederico Spencer
aqui.
A Loja
de Répteis de Pedro Severien aqui.
A arte do humorista e consultor Murilo Gun aqui.
A fotografia de Natali Paiva aqui.
Vitória de Santo Antão aqui.
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