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segunda-feira, abril 15, 2024

ALICIA PULEO, CRISTINA GÁLVEZ MARTOS, TATYANA TOLSTAYA & BARRO DE DONA NICE

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Britten Piano Concerto (1990), MacGregor on Broadway (1991), Outside in Pianist (1998), Damba Moon (2001), Neural Circuits (2002), Quiet Music Sound Circus (2004) e Messiaen: Vingt Regards/Quatuor pour la fin du temps/Harawi (2010), da pianista, maestro e compositora britânica Joanna MacGregor. Veja mais aqui.

 

RENASCER DA MEMÓRIA, REENCONTRO NO ACERVO DE EMOÇÕES... - Nasci entre um rio e um sorriso de mulher. A vida era branda então e o Sol nascia por trás do morro para me ensinar a não ter medo da escuridão. Estradas se fizeram com todas léguas além do quintal e eu crescia no mundo pelos aromas do lugar ideal para se viver e fruir como se fosse invisível. Entrava dia com noite no meio de outro. Paula Fox ao ouvido: Ser humano é estar em uma história... A vida é se acostumar com o que você não está acostumado... O que tivera de ser e não fui, saí do traçado. Nunca tive tempo pra hesitações nem penitências. Sempre prestei muita atenção às coisas – as que são parte de nós e somos, apesar de não ouvir os que falavam, se é que diziam alguma coisa: olhos proutro lado, desde os de tantos de não sei quando, lonjura a perder de vista: era como se estisse diante dos perós dagora com seus perdigotos & malefícios. Advertia Louise Brooks: Não me desculpo com a habitual fuga de “não tentar”. Eu tentei de todo o coração... E só me senti verdadeiramente vivo e pela primeira vez quando agitou o maracá do cacique Sotero Kanindé contando da onça da Terra da Gia. E pisamos a areia macia Kapinawá do vale do Catimbau, caboco do mato pela furna do Furengo e com gente de Mina Grande, Massaranduba, Baixa da Palmeira, Malhador. O coro era um só: Eu sou caboclinho / eu só visto pena / eu só vivo na terra / para beber jurema!.. E dançamos com a Índia do Ozi. Sou Kadu na Retomada de Escada, sou Anaíra da Mulher Marcolina Macambira da poesia de José do Egito. Sou multicor Fino Barro e Jahbes de Rio Formoso, José Ayres da Vitória de Antão, seu Zito de Galileia. Sou Fervedouro que resiste em Jaqueira com a CPT-Mata Sul, o Memorial Cigano, o sarau do Nós por Nós – e Alexandre da Escola Livre sacou Nietzsche da bisaca: A arte existe para que a realidade não nos destrua... Toré! Toré nas poses pros cliques de Zzui, como se fosse uma festa pictórica do Bajado no cordão Fulni-ô, Kambiwá, Xucuru, Truká, Atikum, Pipipã, Pankararu, Tuxá. Arreia & Toré! Lá pras tantas todos se foram e mais da metade de mim foi embora: a minhalma indiafro, negríndia. E a gente precisava saber mais quem somos e onde estamos, o que temos e o que fazemos, como se dissesse Julia Kristeva: O amor é o tempo e o espaço onde “eu” me dou o direito de ser extraordinário. O que podia ser do que já fora soçobrava e mais me exauria, a memória trouxe de volta malunguinho: como eu queria que não acabasse amanhã nem depois nem nunca mais, já era noite pro adeus, fui embora com três folhas ao vento e uma canção no peito. Até mais ver.

 

UM PAÍS

Imagem: Acervo ArtLAM.

Um país é sempre uma ilha que você carrega: o contorno dos seus limites que são seus. Cegueira para o que você não entende; silêncio pelo que não entendem sobre você. \ É uma pelagem azul ou laranja que recebe os escassos raios de sol; a atmosfera – um lugar é sempre a singularidade da sua luz. \ Um lugar é cada uma de nossas mães. Nossa pedra de demolição dia e noite: deixe a mãe. \ É um aglomerado de passado vivo, preso como a longa cauda de um animal pré-histórico, é um presente muito maior do que podemos perceber. \ É uma guerra invisível e silenciosa que acontece enquanto você olha pela janela do transporte público; \ É uma guerra interior. \ É esquecer a fórmula para fazer qualquer coisa. \ Um país é uma esquina mil vezes pisada, cuja forma você também inscreveu, com manchas de fuligem e óleo. É também um tipo de pássaro, uma verdura. \ Tudo isso acontece quando você fecha os olhos. \ É não prestar atenção em que idades. \ Cada perda é um país, cada ser é uma nação inteira, cada ente querido é um lugar onde você cresceu, um território infinito em seus símbolos. \ Um país é um lugar que nunca mais é o mesmo; novos rostos e gestos. Pessoas que nascem, pessoas que morrem. Um círculo que se fecha com você lá fora.

Poema da escritora venezuelana Cristina Gálvez Martos, autora de obras como Psicopompa (Monte Ávila, 2015), Bicorne (Casa das Letras Andrés Bello, 2016), Fauna de Cal (Casa dos Escritores do Uruguai, 2020), Animal mais escuro (Fundarte, 2022) e Irmã amarga (LP5, 2024).

 

O LINCE - […] Você, livro! Você é o único que não enganará, não atacará, não insultará, não abandonará! Você fica quieto - mas ri, grita e canta: você é obediente - mas surpreende, provoca e seduz; você é pequeno, mas contém inúmeras pessoas. Nada além de um punhado de letras, só isso, mas se você quiser, você pode virar cabeças, confundir, girar, nublar, fazer lágrimas brotarem nos olhos, tirar o fôlego, toda a alma se agitará ao vento como um tela, subirá em ondas e baterá suas asas! [...] um livro é um amigo delicado, um pássaro branco, um ser primoroso, com medo de água. Coisas queridas! Com medo da água, do fogo, Eles tremem ao vento. Dedos humanos desajeitados e grosseiros deixam hematomas que nunca desaparecerão! Nunca! Algumas pessoas tocam nos livros sem lavar as mãos! Alguns sublinham coisas com tinta! Alguns até arrancam páginas! [...] É para isso que servem os poemas, então você não entende nada. [...] O mundo pode perecer, mas o moedor de carne é indestrutível. [...] Você lê, move os lábios, descobre as palavras, e é como se você estivesse em dois lugares ao mesmo tempo: você está sentado ou deitado com as pernas dobradas, a mão tateando na tigela, mas você pode ver diferente mundos, mundos distantes que talvez nunca tenham existido, mas que ainda parecem reais. Você corre, navega ou corre de trenó - você está fugindo de alguém, ou você mesmo decidiu atacar - seu coração bate forte, a vida voa e é maravilhoso: você pode viver tantas vidas diferentes quantas houver. livros para ler. [...] Eu só queria livros - nada mais - só livros, só palavras, nunca foram nada além de palavras - dê-me, não tenho nenhum! Olha, eu não tenho nenhum! Veja, estou nu, descalço, estou diante de você – nada nos bolsos da calça, nada debaixo da camisa ou debaixo do braço! Eles não estão presos na minha barba! Por dentro — vejam — também não há nada lá dentro — tudo foi virado do avesso, não há nada lá! Apenas coragem! Estou com fome! Estou atormentado!... O que você quer dizer com não há nada? Então como você pode falar e chorar, com quais palavras você tem medo, quais você pronuncia durante o sono? Os gritos noturnos não vagam dentro de você, um murmúrio estrondoso do crepúsculo, um grito fresco da manhã? Aí estão as palavras – você não as reconhece? Eles estão se contorcendo dentro de você, tentando sair! Ali estão eles! Sao seus! Da madeira, da pedra, das raízes, crescendo em força, um mugido surdo e um gemido nas entranhas estão tentando sair; um pedaço de língua se enrola, as narinas rasgadas incham de tormento. É assim que os enfeitiçados, espancados e retorcidos fungam com um lamento sarnento, os olhos brancos e fervidos trancados em armários, a veia arrancada, a espinha dorsal roída; isso mesmo, é assim que seu pushkin se contorce, ou mushkin - o que há em meu nome para você? - pushkin-mushkin, jogado no morro como um ídolo negro peludo, para sempre achatado pelas cercas, até as orelhas em di, o pushkin toco, sem pernas, seis dedos, mordendo a língua, nariz no peito - e a cabeça não pode ser levantada! - Pushkin, arrancando a camisa envenenada, cordas, correntes, cafetã, laço, aquele peso de madeira: deixe-me sair , deixe-me sair! O que está em meu nome para você? Por que o vento gira na ravina? Quantas estradas um homem deve percorrer? O que você quer, velho? Por que você me incomoda? Meu Senhor, qual é o problema? Tédio, ah, Nin! Pegue as tintas e chore! Abra bem a masmorra! Estou aqui! Eu sou inocente! Estou com você! Estou com você! [...]. Trechos extraídos da obra The Slynx (Houghton Mifflin, 2002), da escritora russa Tatyana Tolstaya.

 

ECOFEMINISMO - Os problemas das mulheres são de várias ordens: de acesso aos recursos, que em cifras globais mundiais se dá de forma absolutamente inferior aos homens, de reconhecimento, por que a cultura ainda tem um traço masculino muito profundo, de violência de gênero, porque o número de mulheres vítimas de violência e assassinadas é enorme em todo o mundo, ainda que seja pior em países com problemas econômicos, de representação política. Todos estes problemas estão ligados uns aos outros por laços e por causas bidirecionais. Em uma palavra, se retroalimentam. Quanto maior dificuldade de alcançar um salário digno, mais as mulheres terão que suportar a violência de gênero e menos poderão ter tempo de corrigir e transformar a cultura. Por sua vez, se a cultura seguir repetindo os mesmos tópicos patriarcais, mais dificuldade teremos para fazer com que diminua a violência de gênero, para aumentar nosso reconhecimento social, para alcançar postos de decisão política e conseguir trabalho com salários dignos. A situação das mulheres, que são a metade da humanidade, é uma questão de justiça social que se justifica por si só. Se a isso acrescentarmos que a inclusão da voz das mulheres pode melhorar a sociedade em seu conjunto, teremos uma razão a mais para apoiar velhos e novos pontos de nossa agenda... Pensamento da filósofa argentina radicada na Espanha, Alicia Puleo, que em sua obra Ecofeminismo para outro mundo possível (Cátedra, 2011) expressa: [...] A minha posição está enraizada na tradição esclarecida de análise de doutrinas e práticas opressivas. Reivindica a igualdade e a autonomia das mulheres, com especial atenção ao reconhecimento dos direitos sexuais e reprodutivos que, em algumas formas de ecofeminismo, podem ser corroídos em nome da santidade da vida. Aceita os benefícios do conhecimento científico e tecnológico com prudência e atitude vigilante. Promove a universalização dos valores da ética do cuidado, evitando fazer das mulheres as salvadoras do planeta. Propõe a aprendizagem intercultural sem prejudicar os direitos humanos das mulheres e afirma a unidade e a continuidade da Natureza a partir do conhecimento evolutivo, do sentimento de compaixão e da vontade de justiça para com os animais não humanos, que o Outro ignorou e calou, mas capaz de ansiar, amoroso e sofredor. [...]. Ela também é autora de outras obras: Como ler a Schopenhauer (Júcar, 1991), Dialética da sexualidade. Gênero e sexo na Filosofia Contemporânea (Cátedra, 1992), A ilustração esquecida: La polémica de los sexos en el siglo XVIII (Antropos, 1993), entre outras.

 

DO PÓ AO BARRO...

O que é essencialmente humano não tem data, permanece...

Epígrafe do poeta e compositor Fernando Brant (1946-2015), extraída do catálogo Do pó ao Barro (2012), com a arte da artesã Dona Nice – Eunice Clotilde do Nascimento Oliveira, curadoria de Beto Normal e fotografia de Rachel Ellis. Veja mais aqui e aqui.

 

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sexta-feira, fevereiro 07, 2020

COLERIDGE, ASTRID LINDGREN, BAJADO, QUESTÃO DE ARTE & NITOLINO NA FEARPINHA



A SOLIDÃO DE COLERDIGE - Sempre escapei por pouco, não havia outro jeito, a sorte assim, desde sempre. Na minha imaginação infantil mórbida, brincava sozinho. Inventava histórias dos livros lidos, era a forma de não me sentir rejeitado pelos outros da minha idade, adorado pelas tias e parentes que não tinham tempo para brincar. Meu pai logo se foi para nunca mais. Um tio me levou e eu com mendigos, severa disciplina, apetite enganado. Nas horas de folga nadava no New Rider ou pelas ruas sombrias, era o meu mundo de fantasia, quanta separação, ausência, distância. Já autoproclamado poeta na biblioteca de Cheapside, ouvia as vozes de sereia das musas: todos os meus paradoxos na cauda dos lunáticos. Era por pouco e escapava da escola para me alistar no regimento dos dragões: o mais desastrado cavaleiro. Tornei-me ordenança por causa de uma frase latina. Foi no aparecimento de Sarah, a imoral de Bath no sarcasmo de Byron. Era a Sara do meu sonho de embarcar para a América e lá a minha república platônica, o meu primeiro livro e a Terra Prometida. Eu e ela embalados na cabana de Nether Stowey. Ela resiliente à beira da pobreza, era quem amei logo com urgência e pensava nela com indescritível ternura. Para ela O beijo naqueles adoráveis lábios e o sopro do amor na minha senhora, era o alento da vida, a companheira ideal para um homem. Eu amava, era amado e feliz. Ela escrevia poemas enquanto eu lutava pela sobrevivência. Para nada deram os dez números do The Watchman e o sermão no púlpito unitário. Novos fracassos acumulados e alguns anjos disfarçados em socorro. Confundido como contrabandista ao perambular pela costa do Canal da Mancha, periogoso revolucionário enquanto uma poesia simples e mágica era apenas o que eu queria. Sucumbi ao ópio e ao reumatismo, sonhando Xanadu e ir para Malta para que me deixassem em paz no meu profundo abismo pantisocrático. Era, porém, o espinho na carne e o láudano para alívio, porque o indissolúvel tornou-se insurportável, gangrenando a tranquilidade. Na fuga o carinho de Dorothy da alma ansiosa e eletrômetro perfeito do seu gosto. Ao meu lado, outra Sara, a de Asra, a curvilínea animada e atraente ao redor da lareira, o meu desejo desesperado pela musa extrovertida, a ruiva luz de fogo, o exotismo da quentura da sua pudenda muliebria, e a longa entrada de beijo do amor verdadeiro. Assim era. Por pouco, escapei: um deus em ruínas e meus inconsistentes ideais, a armadilha da hipocrisia retórica. Fiquei mudo, sentimentos dilacerados nas horas sombrias da noite de insônia. Qual Sara, não sabia. Ora uma, ora outra. Nunca ganhei dinheiro suficiente, as minhas muitas enfermidades, e ela, uma, a primeira, o queijo tostado, as cartas distantes, a casa fedia a enxofre, quantas privações, provações. Fugia e afundava em Spinoza, eu era um sapo em uma rocha. Na real, a imponência destruida, cristabel e os meus desvarios. A outra e um sorriso, o encanto. Falido e a viver em vão, escapou-me a vida e me esvaí areia pelas mãos. Mais nada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] A menina que eles viram era assim: tinha cabelo cor de cenoura e usava duas tranças bem apertadas, que ficavam espichadas para os lados. Seu nariz parecia uma batatinha bem pequena, e era todo pintado de sardas. Debaixo de seu nariz havia uma boca realmente bem larga, com dentes brancos e fortes. A roupa que ela estava usando era muito engraçada. A própria Píppi é que tinha feito. No começo, ela pretendia fazer um vestido azul, só que o pano azul era muito pequeno, não dava para fazer o vestido, por isso Píppi tinha costurado pequenos quadrados vermelhos em vários lugares. Suas pernas compridas e magricelas estavam cobertas por um par de meias compridas, uma marrom, outra preta. Além disso, ela estava usando uns sapatos pretos com exatamente o dobro do tamanho de seus pés. O pai de Píppi tinha comprado aqueles sapatos para ela na América do Sul, para que a filha não precisasse se preocupar com a questão quando crescesse, e eram os únicos sapatos que a menina gostava de usar. [...]. Trecho extraído da obra Píppi Meialonga (Companhia das Letrinhas, 2016), da escritora sueca Astrid Lindgren (1907-2002), que assim se expressou sobre livros na infância: Uma infância sem livros não seria infância. Seria como ser trancada fora do lugar encantado onde você pode ir e encontrar o tipo mais raro de alegria. Veja mais aqui e aqui.

A BALADA DO VELHO MARINHEIRO, COLERIDGE
I – É um velho Marinheiro / E aborda um desses três. / “Por tuas barbas grisalhas e pelo fulgor dos teus olhos, / Diz por que é que me deténs! / A casa do noivo está aberta de par em par / Estão já os convidados o banquete preparado, Ouvem-se as vozes festivas, E eu sou parente chegado.” / Prende-o na mão descarnada e assim começa a falar: / “De certa vez um navio…” “Basta, barbudo, és tonto, / Larga-me, tira essa mão!” / A mão solta-se de pronto. / Com a luz dos olhos o prende; imóvel o Convidado / Escuta como um menino de três anos de idade: / Assim faz o Marinheiro / O que tinha na vontade. / Levantou-se atrás de nós um vento sul de feição, / Seguiu-nos o Albatroz; / E depois dia trás dia para comer ou para brincar, / Vinha ter com os marinheiros que o chamavam de alta voz. / Entre névoa ou entre nuvens sobre os mastros, sobre os cabos, / Nove noites foi pousar. / Entretanto a noite inteira entre o branco nevoeiro, / Brilhava o baço luar.” / “Deus te defenda, Marujo de todos os inimigos! / Porquê esse olhar atroz?” / “Com o arco e uma seta / Eu matei o Albatroz.”
II - Era à direita agora que o sol se levantava, / Também de dentro do mar; / Sempre em névoa oculto à esquerda inclinava o vulto / Para de novo ao mar voltar. / Continuava soprando o vento sul de feição, / Mas já sem ave ditosa que viesse ao pé de nós; / Para comer ou para brincar, / Não mais tornaria a vir aos apelos de alta voz. / Água, água a toda a volta / e as pranchas a encolher; / Água, água a toda a volta, / E nem gota para beber. / O oceano apodrecia: / Meu Deus, meu Deus e que isto se haja podido passar! / Viam-se ali rastejar seres de lama com patas / Por sobre a lama do mar! / Pela noite à roda, à roda à roda em tonta ciranda, / Dançava o corpo-santo; / Entretanto a água ardia como luz de bruxaria / Em azul e verde e branco. / A uns em sonho aparecia o Espírito que infligia / Este tormento profundo: / Desde a terra da neblina vinha no nosso encalço / A nove braças de fundo. / E a língua toda ela de secura e de míngua / Mirrava até à origem. / Não podíamos falar. Seria o mesmo que estar / Sufocados com fuligem. / Ai de mim, novos e velhos todos eles me fulminavam / Com olhar ameaçador: / Ao pescoço em vez da cruz / O Albatroz me vieram pôr.
III - Foi um tempo desolado. / Tínhamos os olhos vidrados e a garganta ressequida. / Desolado! Desolado! / O olhar vidrado e sem vida. / Foi então que de repente no céu para Ocidente, / Vi qualquer coisa sumida. / Primeiro parecia mancha depois parecia bruma, / Vinha cada vez mais perto, / E acabou por ganhar forma, / Uma forma, eu estou certo. / Mancha, bruma, forma, é certo! / E mais e mais se acercava: / Como querendo escapar a um espírito do mar / Ia e vinha e mergulhava. / Com os lábios recozidos e a garganta a escaldar, / Perdidos, mortos de sede e todos emudecidos, / Sem poder rir nem chorar! / Mordi o braço e chupei sangue do braço chupei / Para lhes dizer: Vela à vista! E duas vezes gritei. / Com os lábios recozidos e a garganta a escaldar, / Eles me ouviram dizer: / Louvado Deus! E mostraram a alegria num esgar. / E todos ao mesmo tempo contendo um fundo alento, / Mais pareciam beber. / Cada um por mim passou / Sibilando como a seta e o Arco que a tinha lançado.
IV - “Tenho-te medo, Marujo! / Tenho medo, tenho medo da tua mão a descarnar! E tu és alto e macilento / E sulcado como a areia em que o mar foi quebrar. / Tenho-te medo, Marujo e aos teus olhos faiscantes, / Tenho medo à tua mão que mirrou e escureceu!” / Não, Convidado, não temas, / Que este corpo não morreu. / Ninguém, mais ninguém, eu só, / Só num vasto mar sem fim. / E jamais houve um santo / Que se apiedasse de mim. / Os vivos louvados sejam / E todos mortos jaziam. / Entanto juntos comigo / Mil seres de lama viviam. / Olho a podridão do mar, / Logo os olhos se desviam; / Olho o podre do convés, / Aí os mortos jaziam. / Olhando para lá da sombra vi as serpentes marinhas: / Moviam-se ao longo de linhas / Cujo rasto alvejava. / De cada vez que se erguiam uns brancos flocos caíam / E eram luz encantada. / E para cá dessa sombra via os seus ricos enfeites: / Azul, negro aveludado e ainda lustro esverdeado. / Enroscavam-se e nadavam, / E a luz que no mar deixavam / Era um feixe delineado todo a fogo dourado. / Felizes seres viventes! Sua beleza ninguém / Poderia descrever; / Do coração me brotou uma nascente de amor / E abençoei-os sem saber: / De mim se apiedou o meu santo protetor / E abençoei-os sem saber. / Nesse instante eu orei: / Como se fosse de chumbo, / Desprendeu-se o Albatroz / E sumiu-se no profundo.
V - Ah o Sono, o sono é doce / E é amado em todo o mundo. / Mãe do Céu seja louvada! / Mais doçura que essa boda, / Mais doçura e alegria / Sinto em ir até à igreja / Numa boa companhia. / Ir em boa companhia / E depois todos rezarem / E ante Deus-Pai se curvarem; / Tanto os velhos e os meninos como os bons amigos nossos / E as donzelas e os moços. / Adeus, adeus Convidado; / Ainda te quero dizer / Que apenas sabe rezar aquele que sabe amar / Tanto o homem e a ave como qualquer outro ser. / E para rezar melhor deve amar com muito amor / Tanto os seres das alturas como os ínfimos da lama, / Que Deus que nos ama a nós / Todos fez e todos ama. / Foi-se embora o Marinheiro velho de olhar cintilante / E barbas brancas do tempo; / Foi-se embora o Convidado, / Sem ter ido ao casamento. / Foi-se embora aturdido, / Foi-se embora transtornado: / Acordou ao outro dia / Mais grave e mais avisado.
SAMUEL TAYLOR COLERIDGE – Poema extraído da obra S. T. Coleridge - Poemas e excertos da biografia literária - Texto Poético Bilíngue (Nova Alexandria; 1995), do poeta, crítico e ensaísta inglês Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), traduzido por Paulo Vizioli. O poeta teve o seu relacionamento com Sarah Fricker (1770-1845) que com ele viveu longos anos entre ausências e pobreza, retirou o "H" de seu primeiro nome para agradar seu marido, dando-lhe constantes apoios como seu vício espiral fora de controle, simpatizava com seu ideal filosófico de pantisocracia e atuva suas várias paixões com outras mulheres. Para ela, escreveu o poema O beijo, em cujo fragmento expressava: [...] Muito bem aqueles lábios adoráveis divulgam / Os triunfos da abertura aumentaram, / Ou justo! Ou gracioso! Eu ofereço a eles que provem / Como passivo ao sopro do amor… [...]. Havia uma outra na paixão do poeta, a Sarah Hutchinson (1775-1835), cunhada do seu amigo poeta Wordsworth, um objeto duradouro da paixão não correspondida e a quem ele escrevia sob o codinome anagramático de Asra e oriundo do grego antigo como vagina, a pudenda muliebria, como presente para ela por meio de um desejo físico inextricavelmente emaranhado. Além delas, a sua amiga e companheira literária, Dorothy Wordsworth, para quem escreveu cartas sobre o seu mundo íntimo e revelando seus conflitos domésticos, descrita por ela como a "irmã requintada" de Wordsworth, de temperamento atraente e educada,que aprendeu a sublimar seus próprios desejos e inclinações, tornando-se uma companheira mais "adequada" para ele. Veja mais aqui.

QUESTÃO DE ARTE
[...] nos tornamos mais humanos à medida que nos fazemos mais artistas, e que as conquistas do homem contemporâneo passam necessariamente pela consciência desse incalculável legado. Um legado que, como nenhum outro, só nos engrandece e orgulha por suas conquistas, intenções e realizações. Talvez seja esse o único patrimônio que o homem jamais renega ou rejeita e que nos identifica, aproxima e universaliza.
QUESTÃO DE ARTE – Trecho extraído da obra Questão de arte: O belo, a percepção estética e o fazer artístico (Moderna, 2004), da professora e pesquisadora Cristina Costa, que trata contos de fadas, estética e inteligência, arte e vida social, fenomenologia e arte, o prazer do belo e o desenvolvimento da sensibilidade, a diferença entre o belo e o bonito, a relatividade do gosto, o artista moderno, a crítica a arte, o amador e o profissional, a revolução tecnológica, o ingênuo e o autodidatismo, a arte do inconsciente, o aprendizado para o arte e para o público, entre outros assuntos. Veja mais aqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A arte do artista plástico Bajado - Euclides Francisco Amâncio (1912- 1996) aqui
A poesia do poeta, jornalista, economista e folclorista Jayme Griz (1900-1981) aqui, aqui & aqui.
A literatura de Frederico Spencer aqui.
A Loja de Répteis de Pedro Severien aqui.
A arte do humorista e consultor Murilo Gun aqui.
A música de Dery Nascimento (1968-2018) aqui & aqui.
A fotografia de Natali Paiva aqui.
Vitória de Santo Antão aqui.
&
Nitolino na Fearpinha, Literatura & Teatro infantis aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


sábado, março 12, 2016

JESSIVA, BAJADO, TRAJETO FATAL & OUTRAS LOAS!

 Imagem: O boi da vila – óleo sobre madeira, do artista plástico pernambucano Bajado - Euclides Francisco Amâncio (1912- 1996).

TRAJETO FATAL

Luiz Alberto Machado

Dudanildo Pontes era um sujeito bem quisto por ali; gentil, sensato, prestativo e de uma afetividade prestimosa para com todos que requeressem sua atenção. Houvesse o que fosse, quantos aniversários, batizados, casamentos, noivados, despedidas de solteiro, quebra panelas, assustados, quermesses, micaretas, festanças, comemorações, formaturas, reuniões, sessões, audiências, júris, escrutínios, compadrios, testemunhos, féretros, coretos e efemérides afins, destinavam-lhe convites para tudo que acontecesse e lá estava ele presente, prestigiando sempre aquele povinho que efusivamente acolhia sua participação. Para um funcionário de banco oficial, ocupante do cargo de gerente, sendo, pois, aquele corpo funcional o mais abominado pela unânime ojeriza dos dali, verdadeiros portadores de um deus na barriga, caras fechadas, beiçudos intragáveis, chatos de galocha, com um péssimo atendimento dispensado aos que buscassem seus serviços, odiados desde a mais remota descendência até os futuros tataranetos, ganhar a simpatia popular, era, verdadeiramente, um feito inusitado, sem precedentes nos anais históricos da instituição, tida como antipática e distante dos propósitos desenvolvimentistas apregoados pelos maiorais da nação. Nunca aquela entidade financeira angariara tanto prestígio junto aos correntistas e simpatizantes quanto na gestão dele à frente da gerência local, prospectando clientes até doutras localidades circunvizinhas, devido seu cordial tratamento que distoava, segundo bocas gerais, dos demais funcionariozinhos metidos à merda, cheios de pregas, beiços virados, que se encontravam lotados naquela agência bancária. Agora não, acorriam todos para as filas, colaborando, reciprocamente, com a mais cândida figura que aparecera por aquelas plagas. Até candidaturas para vereador, prefeito, deputado ou senador, até para presidente da república, os integrantes de um verdadeiro cordão de puxa-saquismo, lançara seu nome, apoiado por todas as camadas sociais, dos industriais ricaços ao maior maloqueiro pé-rapado, devida a sua popularidade e acolhida por tão hospitaleira populaça, todos uns folgados que já na intimidade o tratavam por Dudinha, espelho inconteste do carinho deles com o seu simpático prestador de serviços.

Prudentemente e com altaneira atitude humílima, Dudanildo se eximia daquelas responsabilidades oferecidas com um não tão bem argumentado, que todos se arrependiam no mesmo instante de tê-lo importunado com tal despropósito. E não parava por aí, convidado para clubes de serviços, associações várias, maçonaria, entidades filantrópicas, cooperativas disso, agremiações daquilo e ele, prontamente, aceitando e sufragando um cheque gordo como doação voluntária, lançando a pedra fundamental para uma estreita amizade entre ele e todos os munícipes. Era paraninfo disso, patrono daquilo, teve até um tempo que fora patrono e paraninfo de todas as escolas de Alagoinhanduba, presenteando todos os formandos e agraciando os corpos docentes e discentes de qualquer educandário da cidade, com uma dádiva qualquer, marcando presença em todos os festejos. Não faltaram convites de outras localidades da região, dada a popularidade adquirida, ultrapassando fronteiras. Fosse piso de paróquia ou teto da associação dos Biriteiros, ou banca escolar, ou apadrinhamento de um órfão que acabara de rebentar, ou, outrossim, era uma fila de pedintes atendidos em suas requerências. De fato, ele era um verdadeiro sangue bom, altruístico até dizer basta, e tudo isso aliado a uma simpatia exuberante, um porte atlético que lhe conferia uma beleza rara, uma elegância impecável e muito gentil no modo de falar, de vestir, de caminhar; um protótipo exato de Deus para aquele povinho crédulo, a ponto de compará-lo às virtudes de Jesus, só faltando os milagres para completar a deificação. E não bastando teve gente até que numa das homenagens prestadas ao bom samaritano, chegou ao cúmulo de erguer uma estátua de bronze em agradecimento aos seus serviços prestados, com inscrições elogiosas por sua conduta ilibada e admirada por quem quer que fosse. Fato, deveras, bastante constrangedor para ele que, abstendo ao estardalhaço da desproposital homenagem, preferiu fosse removida para o jardim de seu palacete, para que não se afigurasse qualquer adoração à sua pessoa, ficando reclusa apenas ao seu reduto residencial, como sinal de gratidão aos amigos afetuosos. E isso fora pouco, de título de cidadão honorífico a comendas inventadas pelos baba-ovos de todo tipo de associação e ajuntamento de gente fora atribuído a ele em festanças ruidosas.

Doutra feita, o prefeito Zé Pabo, recém-empossado no cargo, mal sentara na cadeira da prefeitura e dera de fazer anunciar a maior valsa de debutante para a filhinha querida, partido mais cobiçado da paróquia e sensação geral dos marmanjos, da turma do gargarejo e de todos os eleitores. Estava armando um circo enorme para agitar a mundiça, encobrindo outros propósitos escusos dali para frente na sua administração. Dizem, claro, as más línguas, que o prefeito só angariara mesmo êxito no pleito eleitoral por explorar as formas generosas da filha adolescente, num pirotécnico show de exposição pública, regado a reboladas e umbigadas dela com a plebe ignara. O anúncio da festa de aniversário dela causou o maior rebuliço. E já tinha nego até de um olho só esperando os quatro meses que se separavam daquele retumbante evento. Não havia macorongo que não quisesse testemunhar a graciosidade da moça. Era a sensação que encobriria os desmandos de Zé Pabo. E ele sabia disso e, como marketing, botou a franguinha jeitosa logo no front. O primeiro convite fora para o Dudanildo, com uma observação em letras garrafais e mal escritas pela caligrafia analfabeta do edil, que, ainda por cima, escrevia por sílabas repetidas como se fosse gago até na escrita, alegando que não se aceitaria, sob hipótese alguma, a ausência dele naquele acontecimento ímpar. Dava trabalho traduzir aquela garrancheira, mas ele se valia da intenção. Claro, não se comemora quinze anos mais de uma vez, principalmente do xodó da cidade. Ao lado da assinatura estava um recadinho exclusivo com letras miudinhas e inseguras da jovem tratando-o por tesão lindo e que ele não poderia faltar, estava intimado, assinado, sua Lurdinalva.

O recato do Dudanildo não permitiria tal provocação visto não ser ele nenhum papa-anjo, nem levando em conta a ousada forma como a menina se expressara no perfumado convite. O certo é que a presença dele viraria noticiário nas emissoras de rádio e proporcionaria ao prefeito um maior índice de popularidade. Pois tá.

Foram pra mais de meses organizando o baile, tudo nos mínimos detalhes do maior aparato ruidoso que se pudesse imaginar por ali, enquanto Zé Pabo engalobava algumas somas subtraídas do erário público em defesa de seu interesse próprio. E afanava despudoradamente cônscio de que não haveria Câmara de Vereadores nem Tribunal de Contas que resistisse a uma rabissaca da filha. A Lourdinalva, entretida com seus devaneios juvenis, ficava o tempo todo ligando para Dudanildo, sussurrando arroubos sentimentais e cobrando a sua presença na festa, insinuando que estaria mais linda que nunca, somente para ele. Dudanildo não dava corda e alegava que talvez algum compromisso inadiável impossibilitasse de presenciar a valsa. mas que faria o impossível para estar presente, em carne e osso.

Na hora e dia previstos lá estava, acompanhado de sua elegante esposa, Gina Célia, e da filha púbere, Lucrécia Diva. Um trio perfeito e invejado, elegantemente extraordinários, maravilhosamente trajados e fatalmente admirados, centro absoluto de toda atenção. O óbvio é que a presença deles, isto é, do casal, enciumou a aniversariante que entabulou alguns ardis para ofuscar a presença dos tais. E tome requebros de arrepiar até padre enclausurado no meio da mais fervorosa emoção no púlpito.Os grã-finos da cidade estavam imitando a indumentária, os cacoetes e gesticulações deles, visto, serem eles, Dudanildo e família, o referencial maior para os modismos que entrassem em vigor em qualquer ocasião. E o paparicado corria solto, com tudo do bom e do melhor para os Pontes, inclusive, um garçom exclusivo à sua disposição. Se se fosse espirrar, centenas de lenços afloravam; se ia dar esmolas, chacoalhada de moedas sacadas por dezenas de bolsos outros para poupar-lhe o incômodo; se tencionava descer do automóvel, já tantas mãos puxando a maçaneta para facilitar o desembarque onde quer que fosse. Era um rebuliço quando eles chegavam a qualquer local.

Justo naquela ocasião, aparecera Giba Jibóia, empreendedor forasteiro que chegara à cidade por vitória duvidosa numa licitação pública local, visando a construção de obras propostas pelo prefeito. Bom papo, todo cheio de agá, muito lero-lero, closes na gesticulação exagerada dele, imponência forçada, pavoneado exibicionista, enfeitiçara o maioral com uma comissão vantajosa e propunha aplicação de valor estimado em alguns milhões de reais ao gerente, no meio da festa regada a uísque escocês falsificado no enchimento do próprio gestor público, iguarias variadas e muito arrastado de pé na dança, no maior despropósito sem conta. Conseguira mesmo assim impressionar Dudanildo que nunca saíra do sério com volumes que fossem de dinheiro, visto que tivera em sua carteira, noutras agências, clientes em potencial, proprietários de investimentos que ultrapassavam milhões e milhões repousando em suas respectivas contas correntes. Giba, um pouco contrariado com a constatação altiva do Dudanildo, naquela ocasião embaraçosa, dera por atenção a Lourdinalva que cativara com sua beleza estonteante, o seu coração, flertando e dirigindo cordialidades excêntricas à debutante. Ela também se empolgou com as investidas do forasteiro e, conta-se à língua solta, que, devido tal circunstância, a mimosa, dias após, envolvera-se com o sujeito, perdendo os selos protetores em visitas escusas ao apartamento do hotel onde se instalara o Giba. A coisa ainda figurava nos abafos da coisa proibida, sob o manto das aventuras escondidas, mas que Giba gostaria logo que se tornasse pública pela sua mania de exibição. Ele minuciosamente delatava a ouvidos outros e aos cochichos, os detalhes de tal conquista bem como todas as peripécias sexuais praticadas com a inocente. Depois da festa este era o assunto de todo disse-me-disse entre fuxiqueiros e delatores de bares, barbeiros, sapateiros, manicures, pescadores, caçadores, consultórios, filas e recepções.

E se passara o tempo e houve um estreitamento nos laços de amizade entre o bancário e o empreendedor astuto, a ponto do esnobe presentear um carro zero quilômetro na festa de aniversário de Gina Célia, mais uma de suas astúcias forjadas na maior camuflagem com décimas intenções. Alguns outros menos desavisados ligaram o disconfiômetro e assinalaram logo para o galanteio do metido pras bandas da mulher do Duda, ferindo o brio de seus amigos e simpatizantes, fato que fora esclarecido como mera cortesia para a presenteada e seus familiares, não havendo outro que não este, apenas, por motivo. Sim, escusas, mas que deu no que falar, deu. O certo é que Duda, Gina Célia e Lucrécia Diva, pela imponência natural, jamais se misturariam com tão escuso elemento. Se fora audácia sequiosa e ousasse algum retorno lucrativo disso, obtivera, apenas, indiferença. Pela insistência dos presentes, adornos caros, joias raras, brilhantes, produtos de um requinte bem aquinhoado, conseguira Giba, finalmente, chamar a atenção deles. Não mais que isso.

O tempo se passara e a obra corria solta esbugalhando os olhos surpresos dos comparecentes que ali acorriam com o fito de fiscalizar tão gigantesca empreitada numa administração tão desprezível quanto a de Zé Pabo. Ninguém ainda sabia no que ia dar aquilo, um monte de catrevagem desarrumando a cidade com um maquinário pesado e diverso, como se fosse construir uma pirâmide pelo aparato da obra. Havia um montão de realizações faraônicas, todas frutos de um entusiasta extravagante e deploravelmente despreparado. Mas mesmo assim, fora a admiração por Duda, depois do estardalhaço da sedução do Giba por Lourdinalva, que a obra chamara a atenção. Visto que ardilosamente o prefeito anunciou ser em sua homenagem que aquele patrimônio seria construído. E colocou logo uma placa: do povo de Alagoinhanduba em homenagem ao seu maior servidor: Dudanildo Pontes. A negada até se esquecia de descobrir o que era, mas já que era para o Duda, estava bem feito. Todo mundo mordeu a corda e estava o dito pelo não dito. Enquanto isso, a roubalheira corria solta no Palácio do Capim, onde uma corriola fazia festa com as verbas oficiais. Era nego enricando do dia para a noite.

Certa hora da tarde de dias depois invadira Giba o gabinete do Dudanildo, objetivando contrair um empréstimo emergencial. Duda nem pestanejou e dispôs imediatamente da quantia solicitada na conta corrente do requisitante. Mais dias depois o contraente liquidava a duplicata na presteza do vencimento. A partir daí as visitas do Giba ao gabinete do Duda resultaram em papagaios creditícios outros que foram acontecendo durante o enlace, concomitantemente, já se acostumando pelas solicitações e óbvias liquidações, às vezes, antes do período aprazado por eles.

Meses mais depois e bote meses nisso, quase ano, uma nova transação os estreitava, desta vez com o desconto de um volume de duplicatas bastante avultado, visando complemento de capital para tocar a obra que andava meio lenta àquela altura do campeonato. Era um montante duma exorbitância tal que Dudanildo deu uma freada de hidrovaco na situação. A negativa pegou Giba de surpresa, mas não se fez de rogado, passou na cara os presentes dados por ele aos seus familiares e que não era oportuna aquela negativa seca, tratando-se de pessoa tão caridosa e de boa índole como ele, numa transação temporária que traria lucros, tanto para o solicitante, quanto para a instituição financeira em questão, que avaliaria o resgate das duplicatas como sendo um dos maiores negócios transados naquela agência. Mais amiúde citou Giba que tendo em vista atraso no repasse da conta única do governo, descapitalizara na manutenção das obras empreendidas. Era verdade. Tal situação levara Dudanildo a pensar um pouco, deixando para aprovar o cadastro no dia seguinte. Naquela noite ele pensara muito, era muito dinheiro em jogo e tal contrato poderia comprometer mais de vinte e seis anos de funcionário exemplar no banco. Não, resolvera que na manhã seguinte negaria o desconto. E mal começara o expediente, o opulento replicante se encontrava como sempre arrotando riqueza e com um bafo de superioridade capaz de domar qualquer inexorável opositor. Duda não deu fôlego ao folgado e negou taxativamente. O insistente aí deitou argumento pesado, justificando em quase duas horas de discurseira, a razão porque ele deveria acatar seu pedido. Irredutível estava e assim ficou. O pretendente recorreu às razões mais recônditas que se podiam existir, usando de um arrazoado absurdo com inconvenientes abusados de que não poderia quebrar no meio do caminho de uma obra caríssima e que honraria até sua inauguração. Não! Empertigado, não conseguindo esconder um certo nervosismo, Giba recorreu a um golpe baixo, oferecendo propina, trinta por cento do valor desejado a título de comissão. Não! Tentando controlar a situação, Giba deixou a proposta de condição para que ele pensasse um pouco, não assim de supetão, que por ser sexta-feira, aguardaria a resposta para a segunda, claro com a devida aprovação e liberação da verba pretendida na sua conta corrente. Dudanildo estava irredutível. Para não enfrentar o duro gerente e ganhar tempo para retomar a situação, Giba deixou por pendente tal disputa até a segunda-feira. Duda repisou, repensou, renegou, se sacrificou horas e horas com o pensamento de jamais macular sua imagem, maquinando uma maneira de efetivar o caso sem que ninguém tomasse conhecimento até o resgate das duplicatas em questão, concatenou tudo, virou a sexta em claro, o sábado absorto, o domingo fatigado até que chegou segunda e Giba, insolentemente, se assentara confortavelmente na poltrona da gerência, aguardando o sim requerido. Demorou horas numa lengalenga, uma verdadeira encheção de saco, muita lamúria, várias clemências, um labirinto de recomendações, juras, súplicas, comprometimentos, promessas, quando por fim, não aguentando mais, Duda tomou a decisão. Autorizou a transação e embolsou polpuda comissão, transferida imediatamente para a conta da esposa noutra instituição bancária, evitando o flagrante de tal fraude. Giba ensolarou, beijou-lhe as faces e as mãos, agradeceu insistentemente, com jura de mãos e pés postos perante a cruz que resgataria tudo em trinta dias. Fora o mês mais rápido na vida do Duda que não descansava o sono repisado pelo pesadelo de um calote possível.

Quarenta dias após o trato, estava a dívida pendente, passando pelos mais diversos departamentos, se alimentando cada vez mais de uma avalanche de problemas, com cada responsável por setor livrando-se da batata quente como podia para escapar de futuras agonias que ameaçava o fato. Duda cambaleou pela primeira vez na vida. E se via desmoronando em queda livre.

Mais dois dias depois uma auditoria implacável remexia tudo fiscalizando todas as contas da agência. Ele nem dormia de noite, sob olheiras aparentes e uma tremedeira sem fim, não conseguia sequer balbuciar a mais tênue palavra. Saindo do marasmo ele foi procurar o Giba que se evadira três semanas antes do vencimento, não descobrindo seu paradeiro. Soubera, apenas, que o intrépido fugira com a filha do prefeito para lugar incerto e não sabido, tomando ciência que o político o responsabilizara pelo acontecimento. Fora iminentemente informado por parentes da fugitiva que o pai preparava um plano para separá-lo da mulher entregando a própria filha para um casamento pomposo, visto que sonhava tê-lo por genro. E agora? Recorrera à claque, aos simpatizantes de sempre para formação de uma corrente no sentido de salvar seu emprego e angariara, apenas, repulsa. Não esperava ele que encontrasse portas fechadas. Zé Pabo sequer quis recebê-lo, desautorizando até qualquer funcionário da prefeitura a fazê-lo sob a ameaça de demissão sumária. Estava sozinho, envergonhado. A bomba estourara e seus estilhaços chegaram às mais maldizentes línguas, propulsoras dos enredamentos maledicentes, tão peculiares em qualquer provinciazinha brasileira.

Oito dias após a conclusão da auditagem, uma demissão por justa causa abalara suas estruturas. Cadê Giba que não dava as caras? Confiscaram seus três automóveis, duas residências em Brasília, uma fazenda em Goiás, um barco de pesca e uma casa de praia em Tamandaré, saldos de duas contas correntes e três cadernetas de poupança doutros bancos, deixaram-no liso, sem crédito e sem ter onde cair morto. A mulher e a filha ele mandara embora para não sofrerem o achincalhe tão comum nestas ocasiões, ficando solitário em sua inominável situação. Estava sozinho e recolhera seus pertences, sobraram poucas migalhas: um anel de formatura do curso de administração de empresas; algumas fotos risonhas ostentando suas anteriores posses e familiares; alguns contracheques, os quais ficou horas olhando seus vencimentos; um álbum de fotografias da Lucrécia Diva desde o primeiro dia de nascimento até então; porte obrigatório de anos anteriores dos veículos de sua propriedade; um bilhete de Gina Célia e Lucrécia Diva com a inscrição de “Nós te amamos!”; sua carteira de identidade e outros documentos, cartões de crédito vencidos, nenhum centavo; uma medalha de honra ao mérito/1982, concedida pela Associação Beneficente das Senhoras de Caridade de Alagoinhanduba; um troféu gerente do ano/1985; e um revólver calibre 38. Lá pelas tantas um estampido quebrou o silêncio que tomava conta da sua vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui. 

Imagem: A mulher com cesto na cabeça, do artista plástico pernambucano Bajado - Euclides Francisco Amâncio (1912- 1996)

 A edição de hoje é dedicada especialmente à professora e bibliotecária Jessiva Sabino de Oliveira. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

E veja mais a canção Crença, Gabrielle D´Annunzio, Jack Kerouac, Al Jarreau, A princesa que amava insetos, José Antônio da Silva, Edgar Rice Burroughs, Benício & Kristen Stewart aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A bibliotecária Tataritaritatá!
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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...