Imagem: Acervo ArtLAM.
Interregno
das personas... - Havia o que já foi sem que
desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para me esfarelar entre os
pesadelos. E se ainda madrugava, não podia vacilar, relaxava só no somenos: o
inopinado podia ser letal. E se me fiz o erro, nenhuma voz jamais ouvi,
semblante algum de Ophelia a me deixar desgovernado pelos temores no
socorro inútil. E não era ninguém, cada qual berrava suas convicções e as impunha
sobre a vontade alheia, quem morreu foi a expectativa, esmagada pelos suplícios
insones na passagem das horas e o horror de morrer todos os sonhos do mundo. Quase amanhecia me refazendo dos pedaços perdidos e se ainda fosse
dia, catava: cadê a armadura? Não podia sair assim sem a carapaça da
invulnerabilidade, à toda prova, vigilante: a ocasião fazia o golpe
heteróclito. E nem sabia quando recuar, ou atacar em marcha, pisada firme,
percepção ubíqua, porque meus olhos implacáveis se perdiam pelas margens
movediças das viagens vicárias no peito aberto. O corpo desadormecia, hora de
espertar a alma; pegava a máscara e ia à luta: a vida é guerra! Idioleto em dia
às saudações do ermo, porque os da estima, tudo perdido alhures; o
extraordinário não-acontecido. Tudo isso era muito pungente e entortou-me o
emotivo, todo retorcido. Ora, ora. Havia apenas o presságio de outros eus afogados na ode marítima. Nada mais que um simples guardador de rebanhos e um poema em linha reta singrava os céus para que não mais
tivesse os confins da terra, a sorte que me cabia e precisava suportar a dor Whitman.
Depois da ascese o interlúdio da circumambulação, a paz efêmera no sorriso
da iniciação. Quem me dera fosse só Fernando, um pastor amoroso apascentando meus demônios na cabalística solidão, solitude: liberdade é isolamento. Ah, não seria meu aniversário, muito menos ano novo
e me comovia com o desassossego de Bernardo, que saiu apressado da
tabacaria porque alguém falou de amor. Nenhuma notícia de Álvaro
e Caieiro fugiu no inverno, nem o paradeiro de Reis, nem um só,
cada e todos cúmplices e o que havia de belo subestimava o nonsense. O que é o
amor senão viver plenamente de tudo que restou à mão espalmada, já que os
sortilégios se foram porque havia uma esperança no horizonte escancarado. Sim,
sou minha própria ilha povoada pelos tantos que em mim coabitavam. Até mais
ver.
Primo Levi: É preciso que nos ouçam: para além da nossa experiência pessoal, testemunhamos coletivamente um evento fundamental e inesperado — fundamental justamente por ser inesperado, por não ter sido previsto por ninguém. Aconteceu; logo, pode acontecer novamente. Esse é o cerne do que temos a dizer. Pode acontecer, e pode acontecer em qualquer lugar... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Jenny Holzer: Como você se
resigna diante daquilo que jamais se concretizará? Você deixa de querer
justamente essa coisa. Você se torna insensível. Ou então, mata o agente do
desejo... Com todos os buracos em você, não há razão para definir o ambiente
externo como estranho... Veja mais aqui, aqui &
aqui.
Phoebe Waller-Bridge: Acho
que há algo de engraçado em pessoas que riem na cara das convenções ou nos
surpreendem moralmente... Estou constantemente à beira de explodir em lágrimas
de alegria... Veja mais aqui & aqui.
A MÃO
Imagem: Acervo ArtLAM.
Toma o ventre da terra \ e planta no pedaço que te cabe \
esta raiz enxertada de epitáfios. \ Não seja tua lágrima a maldição \ que sequestra
o ímpeto do grão \ levanta do pó a nudez dos ossos, \ a estilhaçada mão \ e
semeia \ girassóis ou sinos, não importa \ se agora uma gota anuncia \ o
latente odor dos tomateiros \ a viva hora dos teus dedos.
Poema da poeta são-tomense Conceição Lima (Maria da
Conceição de Deus Lima – 1961-2026).
CONJUNÇÕES
& DISJUNÇÕES - [...] A associação de signos,
seja ela forte ou fraca, é o que nos distingue, enquanto humanos, dos outros
animais. Mais do que isso, é o que nos torna seres complexos, problemáticos e
imprevisíveis. [...] As culturas chamadas primitivas
criaram um sistema de metáforas e de símbolos que, como mostrou Lévi-Strauss,
constituem um código de símbolos, ao mesmo tempo sensíveis e intelectuais: uma
linguagem. A função da linguagem é significar e comunicar os significados, mas
nós, os homens modernos, reduzimos o signo à mera significação intelectual e a
comunicação à transmissão da informação. Esquecemos que os signos são coisas
sensíveis e que operam sobre os sentidos. O perfume transmite uma informação
que é inseparável da sensação. O mesmo sucede com o sabor, o som e as outras
expressões e impressões sensoriais. O rigor da ‘lógica sensível’ dos primitivos
nos fascina por sua precisão intelectual; não é menos extraordinária a riqueza
de percepções: onde um nariz moderno não distingue senão um cheiro vago, um
selvagem percebe uma gama definida de aromas. O mais assombroso é o método, a
maneira de associar todos esses signos até tecer com eles séries de objetos
simbólicos: o mundo convertido numa linguagem sensível. Dupla maravilha: falar
com o corpo e converter a linguagem num corpo [...]. Trechos extraídos da
obra Conjunctions and Disjunctions (Arcade, 2015), do poeta, ensaísta,
tradutor e diplomata mexicano Octavio Paz (Octavio Paz Lozano –
1914-1998), reunindo ensaios que examinam a dualidade entre o corpo e o
não-corpo (mente, alma e espírito), comparando as visões de diferentes culturas
do Oriente e do Ocidente, abordando temáticas como a relação corpo e alma, na
indagação de como cada civilização define e une ou separa a matéria física e o
espírito; o contraste entre tradições asiáticas religiosas, como o budismo e o
taoísmo, com o cristianismo ocidental; e o erotismo e ascetismo, no tocante à
aceitação ou negação do corpo nas práticas sociais e religiosas, discutindo
questões acerca do signo social, medindo a temperatura espiritual e política
dos sinais visíveis e costumes de uma sociedade; e analisando a modernidade,
sob a perspectiva da perda das harmonias tradicionais entre o homem, a natureza
e o cosmos. Este prolífico autor desenvolveu sua escritura pelos mais diversos
gêneros literários, a ponto de ser contemplado com o Nobel de Literatura de
1990. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,
aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
O UNIVERSO
LITERÁRIO DE NÉLIDA
PIÑON - Aprendo a amar. Uma arte difícil, nenhuma norma me
orienta... A memória é frágil. Consulto suas
fontes no afã de defender meus haveres... Se a imaginação edifica
enredos de amor, o corpo fatalmente sofre seus efeitos... Pensar é um dos atos
mais eróticos da vida de uma pessoa... Só envelhece quem vive... Pensamento da escritora Nélida Piñon (Nélida Cuíñas Piñón – 1934-2022), a primeira mulher a
presidir a Academia Brasileira de Letras (ABL) e aplaudida por desenvolver em
suas obras uma linguagem poética e requintada, calcada na estrutura narrativa.
Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui
& aqui.
DIREITO AO SEXO – [...] O sexo, que
concebemos como o mais privado dos atos, é, na realidade, algo público. Os
papéis que desempenhamos, as emoções que sentimos, quem dá, quem recebe, quem
exige, quem serve, quem deseja, quem é desejado, quem se beneficia, quem sofre:
as regras para tudo isso foram estabelecidas muito antes de chegarmos ao mundo.
[...] Fomos criados para temer o "sim" que habita em nós — nossos
anseios mais profundos. No entanto, uma vez reconhecidos, aqueles que não
favorecem o nosso futuro perdem o seu poder e podem ser transformados. O medo
dos nossos desejos faz com que pareçam suspeitos e lhes confere um poder
indiscriminado, pois reprimir qualquer verdade é dar-lhe uma força
insuportável. O receio de não conseguirmos superar as distorções que possamos
encontrar em nós mesmos mantém-nos dóceis, leais e obedientes, definidos por
fatores externos. [...] De fato, o que chama a atenção na revolução
sexual — e é por isso que ela foi tão determinante para a política de uma
geração de feministas radicais — é o quanto permaneceu inalterado. Mulheres que
dizem "não" continuam querendo dizer "sim", e mulheres que
dizem "sim" continuam sendo vistas como vadias. Homens negros e
pardos continuam sendo tachados de estupradores, e o estupro de mulheres negras
e pardas continua não contando. As garotas continuam "pedindo por
isso". Os garotos continuam tendo de aprender a "dar isso". [...] O feminismo não é uma filosofia, nem uma teoria, nem mesmo um ponto de
vista. É um movimento político para transformar o mundo a ponto de torná-lo
irreconhecível. Ele pergunta: como seria acabar com a subordinação política,
social, sexual, econômica, psicológica e física das mulheres? E responde: não
sabemos; vamos tentar e ver. [...] O feminismo não pode se permitir a fantasia de que os interesses
sempre convergem, de que nossos planos não terão consequências inesperadas e
indesejáveis, e de que a política é um lugar de conforto. [...] A ideia
central da interseccionalidade é que qualquer movimento de libertação – o
feminismo, o anti-racismo, o movimento laboral – que se concentre apenas
naquilo que todos os membros do grupo relevante (mulheres, pessoas de cor, a
classe trabalhadora) têm em comum é um movimento que servirá melhor os membros
do grupo que são menos oprimidos.[...] Trechos
extraídos da obra The Right to Sex: Feminism in the Twenty-First Century
(Farrar,
Straus and Giroux, 2021), da filósofa e
escritora bareinita Amia Srinivasan, professora da Universidade de
Oxford.
A ARTE DE NANÁ VASCONCELOS
[...] O berimbau é muito espiritual e virou uma missão
pra mim. Como eu era baterista, comecei a pensar o berimbau como uma bateria.
Eu fazia outros ritmos que não eram do berimbau. [...] O berimbau virou
o carro-chefe do negócio, o maestro da coisa, o pai grande. O berimbau nunca
foi utilizado como instrumento, porque era e é um elemento da capoeira. O
centro da história é a dança. O berimbau está lá para acompanhar e nunca foi
utilizado como instrumento solista. Mas essa coisa veio pra mim. [...] O
berimbau que me fez pensar em sons, em música. Pra mim tudo é música. A cuíca
não foi somente feita para o samba. Ela é um instrumento. [...] ele
simplesmente mudou a minha concepção, a minha maneira de ouvir. Ele me levou ao
silêncio. O berimbau é muito zen. [...] O primeiro instrumento é a voz e
o melhor é o corpo [...].
Trechos extraídos de uma entrevista concedida à revista Trip (2006), pelo premiado e aplaudido músico percussionista Naná Vasconcelos (Juvenal de Holanda Vasconcelos – 1944-2016), que ainda expressa: Quando você aprende teoria musical por livros, precisa sempre consultar os textos. Quando você aprende com o corpo, é como andar de bicicleta. Seu corpo se lembra... Na sua discografia estão os álbuns Africadeus (1973), Amazonas (1973), Saudades - concerto de berimbau e orquestra (ECM, 1979), Zumbi (1983), Nanatronics (1985), Contando Estórias (1994), Storytelling (1995), Fragments: Modern Tradition (1997), Contaminação (1999), Saravah compilation (1999), Minha Lôa (2002), Chegada (2005), Trilhas (2006), Sinfonia & Batuques (2011), entre outros. Além disso deixou trilhas sonoras para os filmes Procura-se Susan Desesperadamente, de Susan Seidelman; Down By Law, de Jim Jarmusch; Amazonas, de Mika Kaurismäki; Pindorama, de Arnaldo Jabor e O menino e o mundo. Outra de suas frases imortalizadas: Mesmo se eu morrer, não quero ninguém chorando, quero muito batuque, muito barulho, porque, se vocês fizerem silêncio, vou pensar que vocês estão dormindo e vou fazer como em casa, com minha esposa. Quando ela está dormindo, faço barulho para ela acordar. É a cigarra. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
ASCENSO
FERREIRA – Tributo ao poeta Ascenso Ferreira (Ascenso
Carneiro Gonçalves Ferreira – 1895-1965), reunindo seus poemas e considerações
acerca de sua obra por personalidades como Manuel Bandeira, Ariano Suassuna,
Raimundo Alves de Souza, Abel Fraga e da companheira dele, Lourdes Medeiros,
bem como dos ditos, acontecimentos, pilhérias e situações jocosas em que se
metera tanto em Palmares, como Paquevira, Recife e entre os familiares de
Juscelino Kubitschek, entre outras. Confira aqui.
LITERATURA
DE CORDEL – Os versos de cantadores, repentistas,
violeiros e emboladores sempre estiveram presente na minha desde menino, uma
vez que meu pai, o poeta Rubem de Lima Machado, era um dos aficionados que
colecionava desde discos, fitas cassetes, livros, folhetos e publicações do
gênero, promovendo sempre o encontro de cordelistas para o desafio dos motes na
peleja das glosas. Neste texto narro o fascínio que me arrebatou desde menino,
ao presenciar a arte dos nossos poetas populares e de ser contagiado por esta
manifestação da poética nordestina. Confira aqui.
ANCESTRALIDADE
NOS DEBATES CONTEMPORÂNEOS – Reunião de
estudos e debates acerca da temática ancestralidade, com reflexões de Rigoberta Menchú, Kaka Werá Jecupé, Davi
Kopenawa Yanomami, Nnedi Okorafor, Renato Noguera, Mariela Tulián, Sam Harris, Rosa Mechiço, Kate Kretz, Giva Silva, Silvia Rivera Cusicanqui, entre outros. Confira aqui.
A ARTE DE EVANDRO
NICOLAU – Destaque para a
arte do artista, professor e pesquisador Evandro Carlos Nicolau, que se
apresentando usando suas próprias palavras: é artista das linguagens e das
artes todas, em busca de colaborar para um mundo livre, saudável e são! Ele
é autor do livro A Filosofia pelo Desenho, criador da plataforma UBQUB e
editor dos blogs Projeto Ócios do Ofício, Eros para livres e Desenho Manifesto,
nos quais reúne toda sua diversidade criadora, que vão desde suas composições
musicais autorais à performances visuais. Confira aqui.
DIÁRIO DOS
ZÉS - Reunião de causos, hestórias, contos e
loas sobre o cotidiano exótico dos hilariantes notáveis Zés, habitantes de um
excêntrico local denominado Alagoinhanduba, o lugar onde o mundo todo se revela
e tudo pode acontecer. Confira aqui e veja mais aqui.
E veja mais Pernambuco aqui.













