
DITOS & DESDITOS
[...] O esgotamento das
pretensões totalizantes de uma razão única tomou várias formas, que são todas
indicações para escolhas, valores e juízos. [...] A capacidade de viver numa racionalidade plural é coisa bem diferente,
e disso só temos por enquanto uma vaga ideia. Mas sabemos pelo menos que o
sábio pós-moderno deveria ser alguém que percorreu uma longa estrada para
deixar atrás de si o mito da verdade última e definitiva – a um só tempo
tranquilizador e ameaçador, como um pai severo protetor -, descobrindo em
contrapartida o valor do amor (por exemplo, certos filósofos pós-analíticos
falam hoje de um “princípio de caridade”). A multiplicação atual dos
fundamentalismos nada tem a ver com o enfraquecimento do ideal filosófico de
racionalidade. É pelo contrário uma regressão neurótica do universalismo da
razão totalitária ao particularismo da família,do bando, da etnia, da confissão
religiosa. O enfraquecimento da concepção filosófica da racionalidade é talvez
hoje o único antídoto para essa deriva; mas como os filósofos não têm outras
armas a não ser as da crítica, trata-se de um antídoto que não produzirá efeito
facilmente.
Trecho de Estamos
perdendo a razão (Zahar, 1999), do
filósofo italiano Gianni Vattimo. Veja mais aqui e aqui.
A DANÇA DE HELENA KATZ
[...] nada se poderá construir aqui além do traço
de uma teia. Que não perguntará o que é dança, nem tentará responder a
quaisquer outras questões semelhantes. Evitaremos a miragem da ontologia. Como
ocorre na vida, os percursos, aqui, nascem de escolhas entre roteiros plurais.
Todos comungando na consciência do inacabamento do saber ensinada por Peirce.
Uma dança que se entende como um fenômeno peninsular, nunca insular. Que jamais
prescinde da ligação com o continente ao qual pertence. Que aceita a imagem
biológica da evolução (a da arborescência cada vez mais especializada, de
transformações irreversíveis e unidirecionais) e a imagem geológica (a da ordem
do deslizamento). Dança que respira a polissemia de um ambiente que é
permanente produção de semiose: o corpo humano que dança. E que, tal como todas
as criaturas que misturam chão com estrelas, precisa fabricar semânticas. A
dança é o que impede o movimento de morrer de clichê. [...]
Trechos
extraídos da obra Um, dois, três: a dança
é o pensamento do corpo (Fid, 2005), da professora, pesquisadora e crítica
de dança Helena Katz, resultado do
seu doutoramento na PUC-SP. Por ocasião da Saudação
a Eliana Sousa Silva por sua posse na Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e
Ciência no dia 27 de março de 2018, na Sala do Conselho Universitário da USP, a
autora se manifestou escrevendo: [...] Eliana
atua em um lugar no qual um garoto assassinado com uma moeda de 1 real no bolso
passa a ser estatística, de tão cotidiano se tornou esse tipo de violência.
Talvez por isso, quando encontrei uma foto, em uma das Manifestações recentes por
mais uma das mortes que não podem se naturalizar e não podem ficar sem que os
responsáveis sejam punidos–era uma Manifestação contra o assassinato de
Marielle -nela vi algo que me pareceu sintetizar o que poderemos aprender com as
futuras ações da Eliana nessa cátedra. Se, ao fim da sua colaboração, daqui a um
ano, tivermos aprendido que a Universidade não pode continuar afastada da
favela, se tivermos melhorado a relação ainda quase inexistente entre o lugar
onde se produz o conhecimento e os lugares onde esse conhecimento devia
chegar,mas não chega, teremos dado um passo importante na construção dessa
cidadania que só surge pela via da autonomia. E isso só será conquistado quando
a Universidade e aqueles que não têm acesso a ela puderem se frequentar. Esta frase, que vi na Manifestação, parece
reunir, ao mesmo tempo,Eliana, os que trabalham com ela, e tudo aquilo pelo
qual ela trabalha. A frase é a seguinte: LUTO TAMBÉM É VERBO. Cabe a nós
fazermos a nossa parte. Veja mais aqui.
ÓRFÃOS DO ELDORADO, MILTON HATOUM
[...] Florita traduzia as histórias que eu ouvia
quando brincava com os indiozinhos da Aldeia, lá no fim da cidade. Lendas estranhas.
Olha só: a história do homem da piroca comprida, tão comprida que atravessava o
rio Amazonas, varava a ilha do Espírito Santo e fisgava uma moça lá no Espelho
da Lua. Depois a piroca se enroscava no pescoço do homem, e, enquanto ele se
contorcia, estrangulado, a moça perguntava, rindo: Cadê a piroca esticada?
Lembro também da história de uma mulher que foi seduzida por uma anta-macho. O
marido dela matou a anta, cortou e pendurou o pênis do animal na porta da
maloca. Aí a mulher cobriu o pênis com barro até ficar seco e duro; depois
dizia palavras carinhosas para o bichinho e brincava com ele. então o marido
esfregou muita pimenta no pau de barro e se escondeu para ver a mulher lamber o
bicho e sentar em cima dele. Diz que ela pulava e gritava de tanta dor, e que a
língua e o corpo queimavam que nem fogo. Aí o jeito foi mergulhar no rio e
virar um sapo. E o marido foi morar na beira da água, triste e arrependido,
pedindo que a mulher voltasse para ele. lendas que eu e Florita ouvíamos dos
avós das crianças da Aldeia. Falavam em língua geral, e depois Florita repetia
as histórias em casa, nas noites de solidão da instância. [...]
Trecho
extraído da obra Órfãos do Eldorado
(Companhia das Letras, 2008), do escritor, tradutor e professor Milton Hatoum. Veja mais aqui e aqui.
CARTA ABERTA - AOS QUE SE INTERESSAREM PELA CAUSA
Assunto: Assembleia
Popular Às Entidades, infra assinadas, CONVIDAM: Artistas, Entidades e
Cidadã/Cidadãos Palmarenses, para tratar e ao mesmo tempo tomar as devidas
providências sobre o bem Público de Palmares e do Estado de Pernambuco,
denominado de CASARÃO ou CHALÉ DO ALTO DO INGLÊS, que se encontra em situação
de abandono e descaso. A Assembleia Popular será Realizada na ASSOCIAÇÃO
COMERCIAL DOS PALMARES – ACP – ao lado do ANTIGO GINÁSIO MUNICIPAL – às 19h30h,
nesta quarta-feira, 27 de fevereiro do corrente ano. Associação Ação Solidária dos Palmares, Associação dos Artesãos
Palmarenses, Escola de Filosofia, Ciência e Política dos Palmares & Instituto
Arqueológico, Histórico, Geográfico e Cultural dos Palmares. Contatos: (81)
9-9795-8721 – Sr. Carlos Calheiros (81)
9-9711-9676 - D. Cícera Silvestre. Veja mais aqui e aqui.
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Outra do
Riacho dos Cachorros aqui.
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mais na Agenda aqui.