
DITOS & DESDITOS
[...] A
análise da cultura se reduz aqui, portanto, não a um ataque heróico e
"sagrado" às "configurações básicas da cultura", a uma
"ordem das ordens" exageradamente dolorosa, a partir da qual se pode
ver configurações mais limitadas como meras deduções, mas a uma pesquisa dos
símbolos significantes, feixes de símbolos significantes e feixes de feixes de
símbolos significantes — os veículos materiais da percepção, da emoção e da
compreensão — e a afirmação das regularidades subjacentes da experiência humana
implícitas em sua formação. Uma teoria da cultura plausível só pode ser
alcançada, se um dia o for, construindo a partir dos modos de pensamento
diretamente observáveis, primeiro para determinar as famílias desses modos de pensamento,
prosseguindo depois para sistemas "polvóides" desses modos de
pensamento, mas variáveis, menos estreitamente coerentes, porém ordenados, não
obstante, confluências de integrações parciais, de incongruências parciais e de
independências parciais.A cultura também se movimenta como um polvo — não ao
mesmo tempo, como uma sinergia de partes perfeitamente coordenadas, como uma
compulsão maciça de todo, mas através de movimentos desarticulados desta parte,
depois daquela, e depois ainda da outra, que de alguma forma se acumulam para
uma mudança direcional. Deixando de lado os cefalópodes — onde surgirão os
primeiros impulsos para uma progressão numa determinada cultura, de que forma e
em que grau eles se espalharão através do sistema, tudo isso ainda é altamente
imprevisível, se não totalmente, no atual estágio do nosso entendimento.
Entretanto, não parece ser uma suposição irracional dizer que, quando tais
impulsos surgirem em alguma parte do sistema intimamente interligada e
socialmente consequente, sua força impulsionadora será certamente bastante
elevada. [...] Da mesma forma que nos exercícios familiares
de leitura atenta, pode-se começar em qualquer lugar, num repertório de formas
de uma cultura, e terminar em qualquer outro lugar. Pode-se permanecer, como
eu, numa única forma, mais ou menos limitada, e circular em torno dela de
maneira estável. Pode-se movimentar por entre as formas em busca de unidades
maiores ou contrastes informativos. Pode-se até comparar formas de diferentes
culturas a fim de definir-lhes o caráter para um auxílio mútuo. Entretanto,
qualquer que seja o nível em que se atua, e por mais intrincado que seja, o
princípio orientador é o mesmo: as sociedades, como as vidas, contêm suas
próprias interpretações. É preciso apenas descobrir o acesso a elas.
Trechos extraídos da obra A
interpretação das culturas (LTC, 2008), do antropólogo e professor
estadunidense Clifford Geertz. Veja mais aqui.
CANTARES DE HILDA HILST
I - Que este amor não me cegue nem me siga. / E de mim mesma nunca se
aperceba. / Que me exclua do estar sendo perseguida / E do tormento / De só por
ele me saber estar sendo. / Que o olhar não se perca nas tulipas / Pois formas
tão perfeitas de beleza / Vêm do fulgor das trevas. / E o meu Senhor habita o
rutilante escuro / De um suposto de heras em alto muro. / Que este amor só me
faça descontente / E farta de fadigas. E de fragilidades tantas / Eu me faça
pequena. E diminuta e tenra / Como só soem ser aranhas e formigas. / Que este
amor só me veja de partida.
II - E só me veja / No não merecimento das conquistas. / De pé. Nas
plataformas, nas escadas / Ou através de umas janelas baças: / Uma mulher no
trem: perfil desabitado de carícias. / E só me veja no não merecimento e
interdita: / Papéis, valises, tomos, sobretudos / Eu-alguém travestida de luto.
(E um olhar / de púrpura e desgosto, vendo através de mim / navios e dorsos). /
Dorsos de luz de águas mais profundas. Peixes. / Mas sobre mim, intensas,
ilhargas juvenis / Machucadas de gozo. / E que jamais perceba o rocio da chama:
/ Este molhado fulgor sobre o meu rosto.
Poemas dos Cantares do
sem nome e de partidas, extraído da obra Cantares (Globo, 2004), da poeta, dramaturga e
ficcionista Hilda Hilst (1930-2004). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.
A ARTE DE CAMILA DO ROSÁRIO
A arte
da artista e ilustradora Camila do
Rosário que explora temáticas regionais, folclóricas e fantásticas como
forma de representação de questões e reflexões do feminino e do corpo como
discurso poético. Veja mais aqui.
&
muito
mais na Agenda aqui.