quarta-feira, fevereiro 27, 2019

RUDOLF STEINER, ALBERT ECKHOUT, FREVO & GORETTI ROCHA DE OLIVEIRA, QUIPAPÁ VALE DO UNA, PALADINO & O JEGUE DE PAUL


PALADINO & O JEGUE DE PAUL - Zé Pistola dizia que carregava muitas mortes nas costas, mesmo sem nunca ter matado nada nem ninguém. Também, com uma alcunha desta, queria o quê? Paladino era o seu nome, sem sobrenome, só apelido. Nasceu em mil novecentos e não sei quanto, dizem, duma chocadeira, ninguém sabendo ao certo se parido por gente ou bicho. Criou-se numa pocilga e se servia da lavagem dos porcos e só. Cresceu soez pelas ruas à custa de mandados e biscates, até já quase adulto se deparar com um jumento que lhe bateu na afeição. Já galalau franzino, tinha uma cara de prato, bigode ralo embaixo da venta espragatada, pardo do cabelo tuim, pernas longas de varapau, braços compridos de mãos longas num tronco atarracado, desprovido de pescoço e olhar meio desmiolado. Pra ele o jerico tinha lá seus atributos: dava as horas com seu rinchado e toda vez que ouvia o seu renitente roim-roim, sabia que era o momento das refeições ou de compromissos que ele imaginava de seu. Nessa hora escapolia para graça da caridade, quando não para catar algum alimento ou se apropriar dos desatentos algum prato de comida. Descuidasse da gororoba, ele zarpava furtivo enchendo a pança. Nem ligavam. Havia, de certo, o falatório que ele não batia bem da bola, razão pela qual, contraditoriamente ele se considerava um justiceiro caubói, defensor da justiça na defesa de pobres e oprimidos como ele, desde o dia que atrepado por cima do muro, assistiu numa matinê de domingo do Apolo a um desses faroestes de época. Desde então, vivia montado no jegue de Paul que ele chama de Bucéfalo – nome que ele achava, desde que ouviu pela primeira vez, a coisa mais linda do mundo – e o bicho atendia, levando-o escondido pelas matas nos confins de tudo. Armado de uma peixeira de plástico, achava o mais corajoso e forte entre os homens. Ninguém soube como ele adquiriu um trinta e oito canela seca, sem balas, que pendurava no cós do calção, dando pipocos com a boca como se atirasse nas coisas e seres, a esmo. É certo que ele não gostava de puxar brigas nem apartá-las, mas arrotava bravura inata. Vivia de fuga das supostas mortes e perseguição da polícia, montado na costela do burro, evadindo-se para lá e para cá, entre lugarejos, arruados e rodagens: Serro Azull, SantAntonho das Trempes, Japaranduba, Pirangi, Catuama, Xareta, andejo que só, à cata duma lata de sardinha ou de conserva, ou mesmo dum bom passatempo. Seu principal atrativo era ficar de butuca nas intimidades das lavadeiras nas beiras dos rios, riachos e brejos. Não tinha como usar das casas de tolerância, por isso morria na mão assistindo a seminudez das mulheres ensopads e com as roupas coladas no corpo deixando à mostra as partes pudendas cobiçadas. Lá pras tantas, quando tinha chance, saía todo sem jeito para atrair a que lhe caísse nas graças, atrás dos requebros da lascívia dela. Donzelão, não sabia o que fazer na horagá. E caía na risadagem com futucados e beliscões. O parceiro asno que, apesar do nome, não era besta nem nada, seguia-lhe os passos, aproveitando-se para dar uma lambidela na priquita duma quartuda de bunda pra cima esfregando roupa na pedraria, dela tremer-se toda arrepiada. Já era costume do burrico cheirador de xibiu, espichar o focinho na intimidade entre as coxas das mulheres. Até que todo dia uma delas até se ajeitava prele passar os beiços úmidos lá nela, correndo o boato dele andar amasiado, às escondidas, toda vez que descia ao riacho, coisa que dizem já terem visto dela correr nua com ele atrepado nas costas, todo armado na garupa da bunduda. Um espetáculo de se ver e Zé Pistola só na maior torcida prele empurrar tudo na fogosa, urra, aprendendo o métier. Apreciava também uma briga de galo e ficava todo ancho peruando a favor de um ou doutro. Afinal, pra ele, a vida não era lá muita coisa. Sem moedas no bolso nem centavo algum na algibeira, se defendia da sua solidão como podia. Entre ribeirinhos e cachaceiros era o seu convívio e se tinha culpa no cartório, tudo em legítima defesa, asseverava. Não queria fazer feio na vida, mantinha o decoro ao que parece, plantado ao lado dos balcões das vendas, bodegas e armazéns, apreciando brotes, salames, charques gordas, farinha e pinga. Tomava da sua homenageando o santo de devoção e sempre arrotava que é importante ser valente e, por isso, passou por maus bocados, engulhando situações vexatórias. Cumprir pena? Isso não era coisa pra homem decente, valia-se todo estouvado. E se cometeu algum delito na vida, deve ter sido por descuido, na oportunidade de afanar sorrateiramente alguma roupa nos varais da vida – vez em quando aparecia com uma camisa ou calça ou bota diferentes, nada de novo, já surradas de outros suores -, e ter matado de raiva os seus donos. Ou mesmo por ter matado as horas com coisas, diga-se lá desimportantes para alguns, como seguir o labor das formigas, ou bailado dos peixes nas águas, o avoado de vagalumes e borboletas nos ares, coisas dessas, assim. Nunca mais ele deu as caras por aí, nem se ouviu mais o relinchado do jegue de Paul. Com o tempo, se perderam na memória como tudo o mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Uma coisa é saber da história segundo historiadores, e outra é vê-la através dos olhos que a viram. Por mais verdadeira que possa parecer um documento, por mais nítida que seja uma crônica e por mais ressonante que seja uma tradição, nada se assemelha à pintura feita por quem apenas desejou deixar para o sempre a imagem porventura contemplada [...].
Trecho extraído da obra Albert Eckhout: Pintor de Mauricio de Nassau 1637-1644 (Livrarte, 1981), de Clarival do Prado Valladares e Luiz Emygdio Melo Filho.

DANÇAS POPULARES & FREVO
As obas Danças populares como espetáculo público no Recife de 1970 a 1988 (Fundarpe/SEC, 1993) & Frevo – Uma apresentação coreológica (Funcultura, 2017), da historiadora e pesquisadora doutora em Dança pela University of Surrey, Maria Goretti Rocha de Oliveira, trata sobre os espetáculos de danças populares por meio da pesquisa realizada, através de leituras, entrevistas com artistas e participação em aulas, além de reflexões que produzem um panorama das mini partituras dos movimentos do frevo, analisando a qualidade do que é dançado e como se dança. Veja mais aqui.

VALE DO UNA: A LENDA DO NOME QUIPAPÁ
Em certo tempo, o diabo e um dos seus filhos andaram em excursão por essas paragens, e disso resultou ficarem conhecidos muitos lugares onde tocaram por vocábulos e expressões que então usaram. Depois de longa caminhada, o filho vencido pelo cansaço, vinha já carregado pelo diabo, que, também bastante estafado, o trazia carregado às costas. Desejosos, ambos, de encontrar um local onde pudessem descansar, moviam-se a passos tardos. De súbito, depararam com aprazível paragem, precisamente onde agora se encontra a cidade de Quipapá. Exclamou, então, o filho: “Aqui, papá”. Uma segunda versão é dada pela abundância de caça nas matas que então havia no local. Nela encontravam os habitantes, nos seus arredores, farta e pródiga fonte de abastecimento, ou, como diziam todos: “O que papar”. Já buscando o significado do termo oriundo do tupi, decompondo-se em “qui-pã” que significa ponta, estilete, espinho cravado, atolado e introduzido; e quipá, com relação ao cardo rasteiro dos sertões do norte do Brasil, tenaz, torquês, planta pertencente à família das cactáceas, própria dos terrenos áridos e arenosos e das zonas de clima quente e seco. A cactácea espinhosa era chamada pelos gauranis de quimpã e pelos tupis de quipá. Assim, alusiva à questão toponímica quipapauara, trata-se de contração de quipáquipá, ou seja, o plural de quipá. Por outro lado, trata-se de uma palavra de origem africana, corruptela de quipacá, que significa asilo de fugitivos, refugio, guarida ou couto de vagabundos. Há um registro histórico de que os quipapás, aliados aos Xocós e Humuns, invadiram em 1843 o termo de Jardim, roubando e incendiando casas, nos territórios compreendidos pelos estados de Pernambuco e Paraíba.
Extraído da obra Quipapá: fases e aspectos de suas histórias (CEHM, 1986), do médico, escritor e pesquisador de José Vicente Valença Junior (1900-1976). Veja mais aqui e aqui.
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A nossa mais elevada tarefa deve ser a de formar seres humanos livres que sejam capazes de, por si mesmos, encontrar propósito e direção para suas vidas.
A obra o do filósofo e educador austríaco Rudolf Steiner (1861-1925) aqui e aqui.
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