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domingo, outubro 16, 2022

PAULO FREIRE, JENNIFER EGAN, ELVIRA NAVARRO, ZAMBRA, BRINGHURST, LETITIA LONDON & VAILLAND

 

Ao som dos álbuns 02022020 (2020), Time 2 Stop Worrying (2019), Turnitup (2016) e Sometimes a Girl Needs Some Sugar Too (2011), da compositora e instrumentista dinamarquesa Ida Nielsen.

 

TRÍPTICO DQP: - Eterno menino da beira do rio... - Voltei à infância para rever o mundo de outro jeito. Hoje posso lembrar o acidentado e limítrofe arruado que me permitia singrar a margem de cá sem que de lá houvesse a possibilidade de atravessar a ponte, tão longe quanto proibitiva, devaneios com o relinchado na hora certa do Jegue de Paul. Não era assim quando estava lá pelo brejo das sereias multicoloridas, uma mais linda que a outra. Elas saíam d’água e se esgueiravam pelas touceiras da margem oposta, escondidas no meio da plantação. De lá provocavam: Vamos timbungar? Não, que não sou peixe! Mesmo que eu tivesse uma jangada na ideia, do canto não saía. E brincavam bulindo comigo passando de um lado a outro. Uma delas transformou-se numa grande ave e entoou um canto melodioso. Chegou perto de mim: era a sirena Partênope, uma ninfa encantadora e serva de Perséfone a me dizer Robert Bringhurst: Por todos os meios quebrar as regras! E insistia: Você precisa! Queria me levar para a ilha de Antemoessa na promessa de me iniciar nas Argonáuticas de Apollonios e eu não tinha como nem onde me amarrar, sequer saberia como apelar para virtuose da lira feito Orfeu, inútil tapar os ouvidos: seu mavioso canto ocupava toda minha cabeça. Não distinguia direito harpias ou erínias, sabia das sereias: as almas dos defuntos egípcios. Diante do meu mutismo mandou-me então para as Ilhas Afortunadas, com o recado da Jennifer Egan: Todos que perdemos, vamos encontrar. Ou eles vão nos encontrar. Aquilo arrepiou a alma se bem que meus mortos não eram tantos. Agora muitos pra meu desconsolo. De repente tudo se pareceu uma visagem e vi-me diante do espelho das águas do brejo, outra face para dirimir qualquer mal entendido, um sentimento extraviado, memória perdida, apenas um eterno menino da beira do rio.

 


Multiplenredo... – Imagem arte de Nancy Bossert - O que procuro se o tríptico fraseado de Gauguin na indagação suprema: quem sou, de onde venho e pra onde voo, não sei. Há mais do que por trás da lindeza dos canaviais floridos e das ribanceiras exaltadas, sob o asfalto das cidades, embaixo das pontes, além dos ermos distantes, no matagal dos pântanos, nas várzeas dos rios, na profundidade dos mares, nas fronteiras das galáxias ou no infinito da imensidão cósmica. Não há como saber, apenas Roger Vailland para me dizer: Não há amor, há apenas provas de amor. O amor é também um prazer... Não é possível e o silêncio me faz olhos bem abertos. No meio das interrogações, Letitia Elizabeth London: Força, poder e majestade pertencem ao homem; eles fazem a glória nativa de sua vida... Mas a doçura é o atributo de uma mulher – por isso ela reinou e por isso reinará... Era como se tivesse minha mãe ali do lado no acalanto de uma história que era a minha e, ao final, me dizia Alexandre Zambra: Ninguém fala pelos outros. Que, mesmo que queiramos contar histórias alheias, terminamos sempre contando nossa própria história... O que procuro no fiapo da ideia, contar uma hestória, começassim, passassado: entrou pela perna de pinto, saiu pela perna de pato.

 


E era ela outra hestória... - Imagem arte de Nancy Bossert. - A cidade amanheceu com a notícia: ela dali, sim, a arrebatadora daquelas arrasa quarteirão, a inesgotável sedutora viu-se vicária na noite anterior e estava mergulhada num tanque oval com sua dor. Aquele amor era, na verdade, a Besta de Gévaudan. Quem? Sabe-se lá! Foi preciso a intervenção do Padre Bidião à confissão dela: Ele iludiu-me, padre, arrastou-me para as bandas do matagal de Merçoire, lá cravou os dentes formidáveis com o intento de me estuprar. Vi-lhe enlouquecido arrancar as vestes e expor peitoril largo com pele avermelhada e odor insuportável. Partiu pra cima de mim feito um tarado, mordeu-me o pescoço e apoderou-se da minha fragilidade. Ia me decapitar! Ora, se. Juntei todas as minhas forças. Aqui, ó! Lutei inutilmente, mas consegui agarrar-lhe a cauda imensa e arrastar uma estaca afiada que apanhei no chão, pronto, desferi golpe certeiro nas suas costas. Ele fugiu urrando, ainda estou convalescendo. Mas, minha filha, não pode ser: este bicho foi extinto há muitos séculos! Estou doente, padre, sinto necessidade de comer carne crua, foi um bife cru pela primeira vez, agora quero mais: Tem que ser viva, não gosto de cadáveres! Não aguentando tentei cortar os pulsos. Aqui estou desamparada. E lá escorada, mostrando o lado B da sua vida, o sangue jorrava em profusão, dizia-se endemoninhada e precisava ser exorcizada. Ele então a recolheu afetuosamente e mandou todos saíssem do recinto – enxotados foram todos os pregadores, enrolões e enredeiros que faziam plantão pra moribunda: Xô! E lá se demorou aos cuidados com a sua paciente, horas na empreitada. A Besta Fubana surgiu em seu auxilio e acomodou-se no oitão da casa espantando curiosos e línguas soltas. Tempo enorme de expectativas. Tarde quase anoitecendo o padre saiu às carreiras, amontou na besta e partiu. Não demorou muito, devidamente curada às gargalhadas ela saudou a todos como se fosse Elvira Navarro: Você só precisa de um pouco de ansiedade para que o normal pareça ameaçador. E saiu toda reboladeira rua acima até confundir-se ao lusco-fusco. Eu, hem? Até mais ver.


 

[...] Democratizando mais seus critérios de avaliação do saber a escola deveria preocupar-se com preencher certas lacunas de experiência das crianças, ajudando-as a superar obstáculos em seu processo de conhecer. É obvio, por exemplo, que crianças a quem falta a convivência com palavras escritas ou que com elas têm pequena relação, nas ruas e em casa, crianças cujos pais não leem livros nem jornais, tenham mais dificuldades em passar da linguagem oral à escrita. Isto não significa, porém, que a carência de tantas coisas com que vivem crie nelas uma “natureza” diferente, que determine sua incompetência absoluta. [...].

Trecho extraído da obra A educação na cidade (Cortez, 2006), do educador e filósofo Paulo Freire (1921-1997). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


sexta-feira, janeiro 31, 2020

GERMAINE GREER, ADA NEGRI, AL RIO, HANG FERRERO, JEGUE DE PAUL, NELSON RODRIGUES & COISAS DE PERNAMBUCO!



E O JEGUE DE PAUL VIROU PREFEITO! – Como? Ora. Uma tarde lá de não sei quando, o jegue andava cabisbaixo: nenhuma lavadeira na beira dos rios, nenhuma passante pela rodagem, chovia muito e ele estava entediado. Saiu ao léu por aí e deu de cara com um mata-burro, o que o fez irritar-se e sair contornando a cerca, praguejando ao seu modo, relinchado mudo, tropeçando umas das patas num bule tampado imprestável e todo enferrujado. Pronto, só faltava essa! Logo percebeu que ao dar topada no utensílio avariado, algo se mexeu dentro dele. Ficou brincando alisando a pata de ficar entretido com o chiado que emitia aquele objeto. Pensou do seu jeito: Que droga é nove, hem? Foi aí que resolveu dar uma patada para espragatá-lo. Bufe. Ouviu-se um grito, ele deu uns passos para traz e ficou assuntando o fumaceiro que cobriu tudo. Fez menção de correr, mas acovardou-se, imóvel. De dentro daquilo saiu um preto velho todo esbaforido: Eita, porra! E se limpava todo, se recompondo, ao conseguir se livrar da fumaça e sujeira, logo dele se aproximou com afetuosa falação. Alisando-o e falando coisa que ele sequer entendia. Teve uma hora que entendeu o velho perguntar se queria ser que nem o Bode Frederiko. Não lhe restava nada mais que balançar a cabeça. Foi aí que o preto velho estalou os dedos e ele ouvia, entendia e até falava, ouvindo a pergunta: Qual o seu primeiro desejo? Oxe! Logo assim? Bem, era falar, mas já que ganhei, quero ser que nem gente. Zás. Lá estava ele nu e assustado. Vamos, diga o segundo pedido! Quero ser que nem aqueles embecados cheios da grana e muitas posses. Trec! Diga o terceiro e último pedido! Ah, quero ser o mais importante da redondeza. Zilapt! Seja lá o que quiseres! Só tem uma coisa: se alguém lhe chamar de jegue, o encanto se desfaz, viu? E o preto velho depois dessas palavras, soltou um traque e se envultou. Eita! E agora? Como é o meu nome? Quem sou eu? Ah, serei que nem aquele Paladino, esse o meu nome e vou ganhar o mundo. Assim desceu ele do morro, todo abestalhado, deparou com um motorista todo nos trinques num automóvel luxuoso, que lhe abriu a porta e o levou em direção à cidade que tão bem conhecera. Agora era gente, ora, todo importante, impando, pabo. O chofer foi logo explicando tintim por tintim. Como? Que ele ia para um comício onde seria anunciado como prefeito da cidade! É? É. Gente como a praga. Logo o recepcionaram com festa e o empurraram para o palanque, onde uma comitiva o aplaudia e o mandavam falar no microfone. Ele não se esquivou, ajeitou-se todo, confiante da grande obra do mágico idoso e danou-se a dizer coisa com nada e peibufe etc e coisa e tal, aplaudido, ovacionado. O povo aos gritos: Já ganhou! Já ganhou! E saiu dali carregado por todos e direto para o Palácio das Urtigas, assumindo, imediatamente, a chefia do Executivo local. Só se ouvia o maior foguetório! E já foi despachando e decidindo coisas e mandos, assinando aqui, despachando ali, dinheiro praqui, ajeitado dali, isso sim, isso não, traga já, leve lá, tome e me dê, vá e volte, e virou a noite e dias seguidos, semanas inteiras sem pregar o olho no mês corrido e ouviu um zoadeiro do lado de fora. Era a população: Burro! Jumento! Muar! Fora! Ufa! E ele mandou arriar a lenha no povo e comprou briga com todo mundo,   que porra é essa? Ora, mas se! Vou arrombar com tudo! E lascou, mesmo. O tempo fechou, um ano atrás do outro, meteu as mãos pelas patas, quebrou galho e o enterro voltou, virou a casaca e se desenturmou, entupiu mal-entendidos, aumentou escaramuças, deu o creu e o negócio pocou, até que o motorista entrou de repente e às carreiras gritando: Ô jegue desgraçado, toma tento! Já era tarde! Voltou a ser, pura e simplesmente, o Jegue dePaul, nada mais, acabou-se o que era doce. Ele de si para consigo: Taí! Isso é uma porqueira, só poderia acontecer comigo mesmo, só podia... Era uma vez... © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] O homem exige, em sua arrogância, ser amado como é, e se recusa mesmo a impedir o desenvolvimento das mais tristes distorções do corpo humano que podem ofender a sensibilidade estética de sua mulher. A mulher, por outro lado, não pode se contentar com saúde e agilidade: precisa fazer exorbitantes esforços para parecer algo que nunca poderia existir sem uma diligente perversão da natureza. É demais pedir que seja poupada às mulheres a luta diária por uma beleza super-humana a fim de oferecê-la às carícias de um companheiro sub-humanamente feio? Considera-se que as mulheres nunca ficam enojadas. O triste fato é que ficam muitas vezes, mas não com os homens; seguindo a orientação dos homens, ficam na maioria das vezes enojadas consigo mesmas. [...]. Trecho extraído da obra A mulher eunuco (Artenova, 1987), da escritora australiana Germaine Greer, que em outra de sua obra, A mulher inteira (Record, 2001), expressou que: [...] As mulheres sempre fizeram o trabalho de merda; agora que o único trabalho que há é esse, os homens estão desempregados. O trabalho que não é de merda vai se tornar de merda se as mulheres passarem a fazê-lo. O prestígio e o poder esvaíram-se das profissões quando as mulheres ingressaram nelas. Ensinar já é quase extremamente inferior; a medicina está escorregando rápido para o fundo. [...]. Veja mais aqui.

A POESIA DE ADA NEGRI
AQUELE QUE PASSA: O desconhecido que passa e te acha ainda digna de uma fugidia palavra de desejo, / Talvez porque na sombra da noite tão doce de Maio / Ainda resplendem teus olhos, ainda tem vinte anos a ligeira figura deslizante, / Não sabe que foste amada, por aquele que amaste amada, em plena e soberba delícia de amor, / E em ti não há membro nem ponta de carne ou átomo de alma que não tenha uma marca de amor. / Que tu viveste apenas para amar aquele que te amava, / E nem que quisesses podias arrancar de ti essa veste que o amor teceu. / Ele, ignaro, em ti já não bela, em ti já não jovem, saúda a graça do deus: / Respira, passando, em ti já não bela, em ti já não jovem, o aroma precioso do deus: / Só porque o levas contigo, doce relíquia à sombra de um sacrário.
ADA NEGRI - A poesia da poeta italiana Ada Negri (1870—1945) , que é lembrada por ser a primeira e única mulher a ser admitida na Accademia d’Itália.
&
DOIS POEMAS DE HANG FERRERO
ROCK BAR: sobre a superfície fria / as lágrimas brilhantes / dos motivos servidos à mesa / em ” prantos quentes ” / e pratos e ransos e odores / e menus superficiais / flambados ao álcool / maciçamente ” depreciados ” / pelas sensações do instante / do segundo instante / as fotos a estante / e o ar ao ” raro efeito ” / e a voz que diz : ” bem feito ” / ao plexo em stand by.
A LENDA DO AEDO: se nem classificado / como vivo, o era / e em post mortem / espelhou a ira, / que subiu a sua cara. / contando histórias / de segunda / e suando bicas / nos poemas, / relinchando e / crispando / a própria a crina. / canhestro! / ocre nas pupilas, / tato refutado, / sobrancelhas traiçoeiras, / cuspiu de canto o bardo. / até que à plateia; / a Morte / encontrou a Vida. / e foi assim, que / completou a frase / que há tanto procurara. / e ainda que gostasse / e castigasse como / um “vuduísta”, / a Morte encontrou / a Vida e; se perfumou. / bem vigarista!
HANG FERRERO – O poeta e produtor cultural Hang Ferrero é autor dos livros Aos Pés do Monte Mor(poesia,  2013) e  Código 1 - Crônicas de Plantão (2016). É co-fundador e coordenador do Grupo de Escritores Verbo e Maresia (2014), apresentador do Festival 6 Continentes (o maior Festival de Artes Integradas de Língua Lusófona do Mundo - 2015, 2016, 2017, 2018 e 2019), fundador da Academia Mirim de Letras da ALBSC Seccional Itajaí/SC – 2017, membro Correspondente Internacional da Academia de Letras do Brasil/Suíça – 2018, membro Imortal da Academia de Letras de Balneário Camboriú – 2018, criador do projeto Casa de Ferrero, Espetos de Pau, que consiste em declamar poemas autorais com recursos do Spoken Word (poesia falada) e visuais, além da música conceitual (acompanhado por DJ). Veja mais aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do desenhista e quadrinista Al Rio (Alvaro Araújo Lourenço do Rio - 1962-2012), que realizou trabalhos com personagens icônicos e tornou-se mais conhecido por desenhar personagens femininas sensuais, desde o seu primeiro trabalho Gen 13, até trabalhar com grandes nomes dos quadrinhos, como o aclamado Alan Moore na revista Voodoo. Veja mais aquiaqui e aqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A literatura do escritor, jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) aqui & aqui.
A música de Armando Lobo aqui.
A poesia de Jaci Bezerra aqui, aqui & aqui.
Tempo de Pernambuco – ensaios críticos, do advogado, crítico literário, tradutor e escritor Oscar Mendes (1902-1983) aqui.
A arte visual de Fernando Duarte aqui.
A imagem e seus labirintos: o cinema clandestino do Recife 1930-1964. de Paulo Carneiro da Cunha Filho aqui.
A Estação do bem do imaginauta Ghustavo Távora aqui.
&
A Serra do Quati, Capoeiras, aqui & aqui.
 

quarta-feira, janeiro 29, 2020

BECKETT, SVEVO, CHIZIANE, SWEDENBORG, MISTY COPELAND, ANTOLOGIA DE CANTADORES & O JEGUE DE PAUL


OUTRAS DO JEGUE DE PAUL - O Jegue de Paul não tinha nome não, era só isso mesmo. Dele, conta Tó Zeca – a maior autoridade em lorotas e pinoias – ter fugido das páginas de um Bestiário da Biblioteca Pública, só para atazanar as pessoas boas dali e nunca mais voltar para a invencionice de um mentiroso escritor. Ademais, muitas outras contam no amiudado, como a de que ele é fruto do cruzamento da Besta Fubana com uma mula sem cabeça de fogo no rabo e adjacências; ou que é filho dum pangaré com uma égua voadora chamada Pégasa, que apareceu assim do nada por essas bandas lá pelos idos de não sei quando. Também de que o desgraçado era fruto de um amancebamento dum calunga pintudo que era enjeitado por todas as mulheres, com a jumenta Fulorita, presumindo-se que ela seja a mãe do famigerado e que nunca dela ouvira falar. Vez em quando, asseveram, ele se passa por cavalo-marinho e sai pelo rio Una à procura de fêmeas que lhe saciem a incontinência sexual, de bater no mar, tanto que ouviu-se dizer dele ter acasalado com uma égua do mar, uma bicha selvagem da ilha de Bornéu, com umas crinas crescidas, cascos partidos feito bovinos, longa cauda e a trotar com o vento ocidental, chegando a parir uma tuia de lêmures, sacis e outras desgraças, mesmo de quase ele trocar tapa com o Asno de três patas de Zaratustra, que fica lá no fim dos oceanos com seus três cascos, seis olhos, nove bocas, duas orelhas imensas e um corno grandiosíssimo, causando desastres e agonias, dele parar e ficar assuntando aquela descomunal aparição, botar o rabinho entre as pernas e voltar pro seu bem-bom. Ditos outros baseados em boatos e dizeres inventados e tantos mesmos dados por líquido e certo, como de suas qualidades, aventando que se tivesse, de mesmo, qualquer serventia, não se tinha lá como dizer ou pudesse aferir lá nos anais do autenticado e checado. De exato e conferido mesmo, sabe-se que ele era pontualíssimo em dar a hora certo ao meio dia, na hora do Ângelus e no raiar do dia, isso sim, era inequívoco e todos testemunhavam. Afora isso, que não simpatizava com cacete, fugindo de tabica, relho, açoite ou chicote, e que ninguém nunca viu dele nem um murro numa cocada, nunca servindo por montaria, para puxar arado que fosse ou carroça no lombo ou na cacunda. Gostava de sair por ali assim nas quebradas e gandaia, por Japaranduba, Riacho dos Cachorros, Pirangi, Ribigudo, seguindo rastro de jumentas, jegas, burras, mulas e éguas, quando não, enrabando um potro desavisado ou mesmo muares e asnos que catasse, para se fartar de liambas e canabis, arranchado numa capoeira qualquer. Isso tudo sem contar que fora responsabilizado sob acusação de autoria de crimes escabrosos e insolúveis, da crise e miséria dos ricaços do canavial, das enchentes intermitentes que desabava tudo nas cidades da região, ou mesmo por provocar o fiasco que ficou sendo a festa da padroeira do dia oito de dezembro e, de quebra, pelo endoidecimento dos políticos na afanagem geral do erário público, levando à bancarrota geral todo o território estadual. Na vera, o que dele se certificou quantos vivos ou mortos, é que ele era achegado era de se meter com libidinagens entre as lavadeiras de rios e riachos, num esfregado até se ajeitar na intimidade de uma delas. Isso sim. Quando não, vivia de dar carreira no povo passante pelo arruado, pela rodagem ou rodovia, de preferência mesmo gostava de provocar carreira nas mulheres para ver-lhe a caçola com a saia na cabeça. Assim ficava se lambendo, estirando o prativai no maior rinchado. Hoje só reaparece em dias de carnaval, pisoteando do sábado até a terça de Zé-pereira, fantasiado de Burak: máscara de gente, orelhas de coelho, corpo de dragão e rabo de pavão, todo afogueado na frevada, para se envultar nas cinzas e se deixar ouvir o relinchado nas matas pela invernada. Exatamente por essas razões e gaitadas que ele é cultuado e foi cantado nos Dez de Queixo Caído de ficar na caraminhola lendária até os dias de hoje. Depois conto mais, ora se. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] O amor nada, faz senão em conjunção com a sabedoria ou o entendimento. O amor se conjunta à sabedoria ou ao entendimento e faz com que a sabedoria ou o entendimento seja reciprocamente conjunto. A sabedoria ou o entendimento pelo poder que lhe dá o amor, pode ser elevado, e perceber as coisas que pertencem à luz procedente do Céu, e as receber. [...] Trecho extraído da obra Divina Providência (Nova Jerusalém, 2010), do polímata sueco, com destacada atividade como cientista, inventor e filósofo, Emanuel Swedenborg (1688-1772), que inventou uma máquina de voar e, afamado alquimista, fundou a primeira revista científica da Suécia e publicar obras em campos diversos como a geologia, biologia, astronomia e psicologia. Veja mais aqui e aqui.

ANTOLOGIA ILUSTRADA DOS CANTADORES
Nunca fui mal procedido, / nunca fiz mal a ninguém; / se acaso fiz algum bem / não ‘stou disso arrependido. / Se mal pago tenho sido, / são defeitos pessoais, / todos seremos iguais / no reino da Eternidade: / na balança da Verdade / Deus sabe quem pesa mais.
ANTOLOGIA ILUSTRADA DOS CANTADORES – A obra Antologia ilustrada dos cantadores (EdUFCE, 1976), de Francisco Linhares e Otacilio Batista, trata sobre a poesia e suas raízes, o cantador no conceito dos mestres e gêneros de poesia popular, ricamente ilustrado por personagens que compõe o panteão dos poetas poetas populares, cantadores e repentistas do Nordeste brasileiro. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
O balé foi definitivamente minha fuga. Foi a primeira coisa que eu já experimentei na minha vida que era minha - apenas minha, não meus cinco outros irmãos". Isso me deu uma voz, me fez sentir poderoso. Poderíamos ter histórias que realmente refletem diferentes culturas de uma maneira nova. O balé é mundano, então vamos representar o que todos nós somos.
MISTY COPELAND - A arte da bailarina estadunidense do American Ballet Theatre, Misty Danielle Copeland, que se tornou a primeira mulher afro-americana a ser promovida a dançarina principal nos 75 anos de história da ABT. Ela é autora de obras como Ballerina Body: Dancing and Eating Your Way to a Leaner, Stronger, and More Graceful You (Grand Central Publishing, 2017); Your Life in Motion: A Guided Journal for Discovering the Fire in You (Aladdin, 2018); Life in Motion: An Unlikely Ballerina (Touchstone, 2014); Life in Motion: An Unlikely Ballerina (Aladdin, 2016) e Firebird (G.P. Putnam's, 2014), com ilustrações de Christopher Myers e, também, o documentário Um Conto de Bailarina (2015), com direção de Nelson George, abordando a sua ascensão e a fratura que poderia ter acabado com sua carreira, além de tocar em temas como raça e imagem corporal. Veja mais aquiaqui & aqui.

 

DO MURPHY DE BECKETT

[…] E a vida que levava no espírito lhe dava um prazer tamanho que prazer não era mais a palavra certa [...].

Trecho extraído da obra Murphy (Companhia das Letras, 2022), do dramaturgo e escritor irlandês Samuel Beckett. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DA CONSCIÊNCIA DE ZENO DE SVEVO

[…] A verdadeira religião é exatamente aquela de que não se tem necessidade de professar em alta voz para obter – embora raramente – o conforto que algumas vezes nos é indispensável. [...] Uma confissão escrita é sempre mentirosa [...] sob a lei do possuidor do maior número de artefatos é que prosperam as doenças e os enfermos. [...].

Trecho extraído da obra A consciência de Zeno (Globo/Folha de São Paulo, 2003), do escritor e dramaturgo italiano Italo Svevo (Aron Hector Schmitz – 1861-1928). Veja mais aqui & aqui.

 

DO NIKETCHE DE PAULINA CHIZIANE

[...] Cada tempo a sua história [...] a prosperidade mede-se pelo número de propriedades. A virilidade pelo número de mulheres e filhos. Um grande patriarca deve ter várias cabeças sob seu comando. Quando se tem poder é preciso ter onde exercê-lo. [...] Num lar polígamo não há filhos ilegítimos. [...].

Trechos extraídos da obra Niketche: uma história dc poligamia (Companhia das Letras. 2004), da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE PERNAMBUCANA
A arte do artista multimídia Paulo Bruscky aqui e aqui.
A literatura do premiadíssimo escritor Gilvan Lemos (1928-2015) aqui e aqui.
A neurociência médico e nutrólogo Nelson Chaves (1906-1982) aqui e aqui.
Os tempos da Praieira de Costa Porto (1909-1984) aqui.
A poesia de Andréa Borba aqui.
A música de Lucas Kallango aqui.
O teatro As Loucas da Mata Sul aqui.
A fotografia de Osmário Marques aqui.
Guiomar Verdureira aqui
&
Coral da Orquestra Criança Cidadã dos Meninos de Ipojuca & o Município de Ipojuca aqui e aqui.


quarta-feira, fevereiro 27, 2019

RUDOLF STEINER, ALBERT ECKHOUT, FREVO & GORETTI ROCHA DE OLIVEIRA, QUIPAPÁ VALE DO UNA, PALADINO & O JEGUE DE PAUL


PALADINO & O JEGUE DE PAUL - Zé Pistola dizia que carregava muitas mortes nas costas, mesmo sem nunca ter matado nada nem ninguém. Também, com uma alcunha desta, queria o quê? Paladino era o seu nome, sem sobrenome, só apelido. Nasceu em mil novecentos e não sei quanto, dizem, duma chocadeira, ninguém sabendo ao certo se parido por gente ou bicho. Criou-se numa pocilga e se servia da lavagem dos porcos e só. Cresceu soez pelas ruas à custa de mandados e biscates, até já quase adulto se deparar com um jumento que lhe bateu na afeição. Já galalau franzino, tinha uma cara de prato, bigode ralo embaixo da venta espragatada, pardo do cabelo tuim, pernas longas de varapau, braços compridos de mãos longas num tronco atarracado, desprovido de pescoço e olhar meio desmiolado. Pra ele o jerico tinha lá seus atributos: dava as horas com seu rinchado e toda vez que ouvia o seu renitente roim-roim, sabia que era o momento das refeições ou de compromissos que ele imaginava de seu. Nessa hora escapolia para graça da caridade, quando não para catar algum alimento ou se apropriar dos desatentos algum prato de comida. Descuidasse da gororoba, ele zarpava furtivo enchendo a pança. Nem ligavam. Havia, de certo, o falatório que ele não batia bem da bola, razão pela qual, contraditoriamente ele se considerava um justiceiro caubói, defensor da justiça na defesa de pobres e oprimidos como ele, desde o dia que atrepado por cima do muro, assistiu numa matinê de domingo do Apolo a um desses faroestes de época. Desde então, vivia montado no jegue de Paul que ele chama de Bucéfalo – nome que ele achava, desde que ouviu pela primeira vez, a coisa mais linda do mundo – e o bicho atendia, levando-o escondido pelas matas nos confins de tudo. Armado de uma peixeira de plástico, achava o mais corajoso e forte entre os homens. Ninguém soube como ele adquiriu um trinta e oito canela seca, sem balas, que pendurava no cós do calção, dando pipocos com a boca como se atirasse nas coisas e seres, a esmo. É certo que ele não gostava de puxar brigas nem apartá-las, mas arrotava bravura inata. Vivia de fuga das supostas mortes e perseguição da polícia, montado na costela do burro, evadindo-se para lá e para cá, entre lugarejos, arruados e rodagens: Serro Azull, SantAntonho das Trempes, Japaranduba, Pirangi, Catuama, Xareta, andejo que só, à cata duma lata de sardinha ou de conserva, ou mesmo dum bom passatempo. Seu principal atrativo era ficar de butuca nas intimidades das lavadeiras nas beiras dos rios, riachos e brejos. Não tinha como usar das casas de tolerância, por isso morria na mão assistindo a seminudez das mulheres ensopads e com as roupas coladas no corpo deixando à mostra as partes pudendas cobiçadas. Lá pras tantas, quando tinha chance, saía todo sem jeito para atrair a que lhe caísse nas graças, atrás dos requebros da lascívia dela. Donzelão, não sabia o que fazer na horagá. E caía na risadagem com futucados e beliscões. O parceiro asno que, apesar do nome, não era besta nem nada, seguia-lhe os passos, aproveitando-se para dar uma lambidela na priquita duma quartuda de bunda pra cima esfregando roupa na pedraria, dela tremer-se toda arrepiada. Já era costume do burrico cheirador de xibiu, espichar o focinho na intimidade entre as coxas das mulheres. Até que todo dia uma delas até se ajeitava prele passar os beiços úmidos lá nela, correndo o boato dele andar amasiado, às escondidas, toda vez que descia ao riacho, coisa que dizem já terem visto dela correr nua com ele atrepado nas costas, todo armado na garupa da bunduda. Um espetáculo de se ver e Zé Pistola só na maior torcida prele empurrar tudo na fogosa, urra, aprendendo o métier. Apreciava também uma briga de galo e ficava todo ancho peruando a favor de um ou doutro. Afinal, pra ele, a vida não era lá muita coisa. Sem moedas no bolso nem centavo algum na algibeira, se defendia da sua solidão como podia. Entre ribeirinhos e cachaceiros era o seu convívio e se tinha culpa no cartório, tudo em legítima defesa, asseverava. Não queria fazer feio na vida, mantinha o decoro ao que parece, plantado ao lado dos balcões das vendas, bodegas e armazéns, apreciando brotes, salames, charques gordas, farinha e pinga. Tomava da sua homenageando o santo de devoção e sempre arrotava que é importante ser valente e, por isso, passou por maus bocados, engulhando situações vexatórias. Cumprir pena? Isso não era coisa pra homem decente, valia-se todo estouvado. E se cometeu algum delito na vida, deve ter sido por descuido, na oportunidade de afanar sorrateiramente alguma roupa nos varais da vida – vez em quando aparecia com uma camisa ou calça ou bota diferentes, nada de novo, já surradas de outros suores -, e ter matado de raiva os seus donos. Ou mesmo por ter matado as horas com coisas, diga-se lá desimportantes para alguns, como seguir o labor das formigas, ou bailado dos peixes nas águas, o avoado de vagalumes e borboletas nos ares, coisas dessas, assim. Nunca mais ele deu as caras por aí, nem se ouviu mais o relinchado do jegue de Paul. Com o tempo, se perderam na memória como tudo o mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Uma coisa é saber da história segundo historiadores, e outra é vê-la através dos olhos que a viram. Por mais verdadeira que possa parecer um documento, por mais nítida que seja uma crônica e por mais ressonante que seja uma tradição, nada se assemelha à pintura feita por quem apenas desejou deixar para o sempre a imagem porventura contemplada [...].
Trecho extraído da obra Albert Eckhout: Pintor de Mauricio de Nassau 1637-1644 (Livrarte, 1981), de Clarival do Prado Valladares e Luiz Emygdio Melo Filho.

DANÇAS POPULARES & FREVO
As obas Danças populares como espetáculo público no Recife de 1970 a 1988 (Fundarpe/SEC, 1993) & Frevo – Uma apresentação coreológica (Funcultura, 2017), da historiadora e pesquisadora doutora em Dança pela University of Surrey, Maria Goretti Rocha de Oliveira, trata sobre os espetáculos de danças populares por meio da pesquisa realizada, através de leituras, entrevistas com artistas e participação em aulas, além de reflexões que produzem um panorama das mini partituras dos movimentos do frevo, analisando a qualidade do que é dançado e como se dança. Veja mais aqui.

VALE DO UNA: A LENDA DO NOME QUIPAPÁ
Em certo tempo, o diabo e um dos seus filhos andaram em excursão por essas paragens, e disso resultou ficarem conhecidos muitos lugares onde tocaram por vocábulos e expressões que então usaram. Depois de longa caminhada, o filho vencido pelo cansaço, vinha já carregado pelo diabo, que, também bastante estafado, o trazia carregado às costas. Desejosos, ambos, de encontrar um local onde pudessem descansar, moviam-se a passos tardos. De súbito, depararam com aprazível paragem, precisamente onde agora se encontra a cidade de Quipapá. Exclamou, então, o filho: “Aqui, papá”. Uma segunda versão é dada pela abundância de caça nas matas que então havia no local. Nela encontravam os habitantes, nos seus arredores, farta e pródiga fonte de abastecimento, ou, como diziam todos: “O que papar”. Já buscando o significado do termo oriundo do tupi, decompondo-se em “qui-pã” que significa ponta, estilete, espinho cravado, atolado e introduzido; e quipá, com relação ao cardo rasteiro dos sertões do norte do Brasil, tenaz, torquês, planta pertencente à família das cactáceas, própria dos terrenos áridos e arenosos e das zonas de clima quente e seco. A cactácea espinhosa era chamada pelos gauranis de quimpã e pelos tupis de quipá. Assim, alusiva à questão toponímica quipapauara, trata-se de contração de quipáquipá, ou seja, o plural de quipá. Por outro lado, trata-se de uma palavra de origem africana, corruptela de quipacá, que significa asilo de fugitivos, refugio, guarida ou couto de vagabundos. Há um registro histórico de que os quipapás, aliados aos Xocós e Humuns, invadiram em 1843 o termo de Jardim, roubando e incendiando casas, nos territórios compreendidos pelos estados de Pernambuco e Paraíba.
Extraído da obra Quipapá: fases e aspectos de suas histórias (CEHM, 1986), do médico, escritor e pesquisador de José Vicente Valença Junior (1900-1976). Veja mais aqui e aqui.
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A nossa mais elevada tarefa deve ser a de formar seres humanos livres que sejam capazes de, por si mesmos, encontrar propósito e direção para suas vidas.
A obra o do filósofo e educador austríaco Rudolf Steiner (1861-1925) aqui e aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...