quinta-feira, março 07, 2013

QUADRINHOS: A NONA ARTE




Imagem: Aventureiros do Unacapa do segundo número em maio 1987, parceria entre o desenho de Rolandry Silvério e roteiro de Luiz Alberto Machado.

QUADRINHOS: DE ANGELO AGOSTINI A BARALDI


Sempre fui fascinado por desenho. Tal fato se deve porque desde tenra idade manter contato com gibis e mesmo sob os carões maternos pelas coleções que eu reunia em diversos sacos, foi o estímulo que precisei para aprender a ler aos 4 anos de idade.
Como nasci no ano de 60, estava fadado a ser um debilóide patriota pelo desastre que se tornou a educação brasileira. A minha salvação foram os gibis – não me prendendo só aos de super-heróis oriundos do EUA -, os livros de Monteiro Lobato e, já na adolescência, o meu primo Marquinhos chegava com um monte de discos de rock com coleções de Carlos Zéfiro escondidas dentro das capas.



Imagem: A vizinha, de Carlos Zéfiro.

Não sabia eu que os gibis eram uma criação brasileira. Pois, segundo Haag (2005:87), os quadrinhos nasceram no Brasil em 1869, com As Aventuras de Nhô Quim, de Ângelo Agostini, defendendo que este autor trouxe esta arte “(...) 30 anos antes da publicação nos Estados Unidos de Yellow Kid, considerada por muitos como a pioneira”.
Depois, segundo Ribeiro (1985), foi em 1905 que nasceu o Tico-Tico, criado por Ângelo Agostini, infantil em quadrinhos: “(...) inteligente e engraçada, que encanta gerações de crianças brasileiras, com personagens como Reco-Reco, Bolão e Azeitona, Carrapicho, Jujuba e Goiabada. Morre em 1959, assassinada por Walt Disney”. Também registra Ribeiro (1985) que em 1918: “Monteiro Lobato alcança enorme êxito, assumindo a liderança da vida intelectual do país com o livro de contos Urupês – mal ilustrado por ele próprio -, ambientado nas fazendas de café de São Paulo. Retifica aí, seu célebre retrato do caipira, admitindo que seus males vêm da falta de saúde, de instrução e de assistência”.
Foi em 1955, segundo Ribeiro (1985) que o semanário O Cruzeiro – que vinha sendo editado desde 1928, se renova com suas sessões de humor de Pif-Paf, de Millôr e o Amigo da Onça, de Péricles. E em 1969, reunindo Tarso de Castro, Jaguar, Millôr, Fortuna, Ziraldo, Henfil, Claudios, Luis Carlos Maciel, Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Vinicius de Morais e Sérgio Cabral, que foi criado no Rio de Janeiro o Pasquim, que, segundo Ribeiro (1985) era um semanário moleque de oposição política pluralista através de cartuns, dicas, poemas e grandes entrevistas gravadas em linguagem sacana e coloquial, apesar da repressão e das prisões.
Não sabia que as HQs possuíam os seus críticos ferrenhos e, também, os seus defensores. Entre os opositores deste gênero estavam, por exemplo, Carlos Lacerda que irado vociferava “tinham o poder de delinquir jovens e levá-los para o comunismo”. Para ele: “A onda dessas revistas é que o crime seja uma condição normal de vida. Há a idéia de que a vida passa num plano superior a todas as contingências humanas e, ao mesmo tempo, ignorante de todas as onipotências divinas. Deus não admite super-homens, suipermacacos ou super-Robertos Marinhos”. E doutra feita, o proprio Carlos Lacerda, em 1946, definiu os gibis “(...) Como veneno importado para as crianças” porque já havia um número considerável, segundo ele, de escritores comunistas.
Também Jânio Quadros propôs projeto para impedir que as leituras atentatórias aos bons costumes fossem expostas nas bancas de jornais e livrarias.
Para se ter uma idéia, segundo Haag (2005:88), em 1944 o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, do Ministério da Educação, divulgara um estudo que acusava os quadrinhos de causar preguiça mental e desestimular o aprendizado e a leitura dos livros. Com isso, vários colégios e paróquias organizaram verdadeiros autos de fé do santo-ofício execrando as revistinhas. E se aliaram a esta corrente os jornalistas Orlando Dantas e Samuel Wainer que tratavam os quadrinhos, segundo Haag (2005), de fábricas de criminosos mirins e os gibis verdadeiros manuais de crime. Chegou-se até, segundo Haag (2005), à sugestão de emenda à Constituição que combatesse os excessos das editoras de quadrinhos. Não é à toa que houve uma repressão a esta modalidade artística.
Entre os simpatizantes se fundamentava o argumento que o preconceito contra as HQs é uma herança maldita, vítimas dos moralistas. Entre estes estava Gilberto Freyre que inclusive, certa vez, propôs como deputado o lançamento da Constituição em quadrinhos. Também Jorge Amado que atribuiu sua popularidade ao sucesso das versões dos seus livros em gibis. Tanto é que se chegou ao pleito feito por Ziraldo e Mauricio de Souza exigindo do governo uma lei de nacionalização das HQs, incluindo reserva de mercado, fato que recebeu a simpatia de Leonel Brizola que, então governador do Rio Grande do Sul, passou a subsidiá-las.
Mesmo com a edição de um decreto-lei disciplinando a produção de revistas em quadrinhos no país, em 1963 por João Goulart e mantida pelos militares em 1966, este jamais foi aplicado.
O Haag (2005) reuniu alguns estudos que foram realizados pelo professor da Escola de Comunicações e Artes – ECA e coordenador do Núcleo de Pesquisas de História em Quadrinhos – NPHQ, da USP, Waldomiro Vergueiro, que defende: “As histórias em quadrinhos são importantes demais para serem deixadas como reféns das circunstâncias. Infelizmente, durante muito tempo elas foram consideradas materiais de segunda ou terceira categoria por parcelas influentes da sociedade”. Tanto é que o professor possui o Diretório geral de histórias em quadrinhos no Brasil - NPHQ-USP, visando a preservação da memória quadrinhística nacional.
Outros estudos foram realizados pela professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, Selma Regina de Oliveira, uma tese de doutorado com o tema “A mulher ao quadrado”, observando que os quadrinhos norte-americanos ajudaram a reforçar no Brasil estereótipos sexistas ao sempre mostrar moças indefesas, virginais, sempre precisando da ajuda dos super-heróis.
Um estudo de Frenault-Deruelle (1975:126) apontava para o fato de que como os seres do mundo real e os das artes ditas da representação, as personagens de HQs se relacionam por meio dos diversos canais dos sentidos, principalmente a audição, a vista e o tato, sendo o gosto e o olfato dificilmente codificáveis ou pouco funcionais do ponto de vista dramático. Todavia, poderão ser acrescentados novos meios de comunicação tais como a transmissão de pensamento (ficção científica).



Imagem: Velta, de Emir Ribeiro, capa da edição de 35 anos.

Ao longo dos últimos anos encontramos a trajetória resistente de uma heroína brasileira, Velta, que está lançando no próximo dia 18 de janeiro, a edição comemorativa dos seus 35 anos. Trazendo além dos traços de Emir Ribeiro, uma série escrita pelo grande mestre R. F. Lucchetti, ambientando Velta nos anos 60 do século XX e uma história dramática, continuando a partir dos eventos ocorridos na VELTA 2007 - NOVA IDENTIDADE PARAIBANA , trazendo mais mudanças na vida da personagem, com um total de 96 páginas, em preto e branco (a maioria, em tons de cinza).



Imagem: Tatoo Zinho, HQ de Marcio Baraldi.

Também o Márcio Baraldi que é um dos mais representativos artistas premiados dos quadrinhos brasileiros. Paulista de Santo André, ele figura entre os melhores e mais produtivos cartunistas do país. Nascido em Santo André, em 1966, foi criado no tenso e intenso clima político-sindical que foi marca registrada do ABC paulista nos anos 70 e 80, o que acabou marcando profundamente seu trabalho e personalidade. Seus personagens Roko-Loko e Adrina-LinaTatoo Zinho e Humor-Tífer são sucessos de publicações.
O professor paraibano Janduhi Dantas também fez a “Estória de quadrinhos” em cordel, contando a estória de quadro alunos: “Certa vez, caros leitores/ li um caso singular: a estória de quatro alunos/ com seu modo de estudar./ Da vida de cada um, / uma lição a se tirar”.
Até eu, numa parceria com o desenhista e artista plástico, Rolandry Silvério, fiz uma incursão na área, publicando nos anos 80, as revistinhas “Aventureiros do Una” que circulou por quatro números.
Agora encontro A BODEGA que é uma loja virtual de quadrinhos independentes. Nela são encontrados diversos títulos de quadrinhos independentes brasileiros e pode comercializar projetos de autores que não encontram espaço para venda de seus projetos.
Vê-se que o gibi e arte das histórias em quadrinhos estão vivíssimos. Vamos nessa.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS:
FRESNAULT-DERUELLE, Pierre. O espaço interpessoal nos comics. In:Semiologia da representação: teatro, televisão e história em quadrinhos. São Paulo: Cultrix, 1975.
HAAG, Carlos. A nona arte: pesquisas, arquivos, livro e tese mostram que os quadrinhos ainda mantêm sua importância. Revista Pesquisa Fapesp, 110 (86-88), abril de 2005.
RIBEIRO, Darcy. Aos trancos e barrancos: como o Brasil deu no que deu. Rio de Janeiro: Guanabara, 1985. Confira mais aqui.




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