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quinta-feira, maio 07, 2015

JOYCE CAROL OATES, BROOKE ADAMS, KAVÁFIS, BUKOWSKI & FECAMEPA

 


GUARDADOS & CONTEXTOS – Lá pelos anos 2000 recebi um convite da editora Clarisse Maia-Guedes para colaborar na edição de umas publicações. O Guia de Poesia do Projeto Sobresites – o diferencial humano, que eu editava no Rio de Janeiro, ia de vento em popa e o Fórum do Guia batia a casa dos mais 200 mil membros participantes. Também fazia muito sucesso os textos que eu escrevia sobre as presepadas reunidas n’As proezas do Biritoaldo, como os relatos que escrevi sobre o bem humorado Fecamepa, ambos circulavam em publicações impressas e da internet. E foi exatamente por conta do êxito de público deste último, que fui convidado a participar da antologia Guardados & contextos (Guarajás, 2005), organizado por Clarisse Maia-Guedes, publicando o primeiro texto do meu livro ainda inédito, Fecamepa: por que Brasil, hem? Veja mais abaixo e mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Eu nunca poderia levar a ideia de religião muito a sério... Nada é acidental no universo – esta é uma das minhas Leis da Física – exceto o próprio universo inteiro, que é Puro Acidente, pura divindade... O Homo sapiens é a espécie que inventa símbolos para investir paixão e autoridade, depois esquece que os símbolos são invenções... Minha teoria é que a literatura é essencial para a sociedade da maneira que os sonhos são essenciais para nossas vidas. Não podemos viver sem sonhar, pois não podemos viver sem dormir. Somos seres “conscientes” por apenas um período limitado de tempo, depois afundamos de volta no sono – o “inconsciente”. É nutritivo, de maneiras que não podemos entender completamente... Pensamento da escritora estadunidense Joyce Carol Oates (também conhecida por "JCO"), que no seu livro A Widow's Story (Ecco, 2011), ela expressou que: […] Há uma hora, um minuto - você vai se lembrar disso para sempre - quando você sabe instintivamente com base na evidência mais inconsequente, que algo está errado. Você não sabe - não pode saber - que é o primeiro de uma série de eventos "injustos" que culminarão na devastação total da sua vida como você a conheceu. [...]. Na sua obra The Journal of Joyce Carol Oates: 1973-1982 (HarperCollins, 2008), ela expressou que: […] "Manter-se ocupado" é o remédio para todos os males dos Estados Unidos. É também o meio pelo qual o impulso criativo é destruído. [...]. Também no seu livro After the Wreck, I Picked Myself Up, Spread My Wings, and Flew Away (HarperTeen, 2009), ela evidenciou que: […] Veja, as pessoas entram na sua vida por uma razão. Elas podem não saber por si mesmas, por quê. Você pode não saber. Mas há uma razão. Tem que haver [...]. No seu livro Foxfire: Confessions Of A Girl Gang ( Penguin, 1994), ela menciona que: […] A estranheza do Tempo. Não em sua passagem, que pode parecer infinita, como um túnel cujo fim você não consegue ver, cujo começo você esqueceu, mas na súbita percepção de que algo finito, passou, e é irrecuperável. [...]. Por fim, na sua obra Solstice (Dutton, 1985), ela expressa que: […] Eu nunca mudo, simplesmente me torno mais eu mesmo. [...]. Veja aqui, aqui, aqui & aqui.

 

FECAMEPA

Veja mais do Fecamepa aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Minha vida ficou muito melhor desde que eu fiz 40 anos... Nos filmes, você é uma mercadoria. Você é um olhar, algo que a câmera realmente gosta, algo que atingiu um público de uma certa maneira. Não se trata muito de transformar a maneira como os atores fazem no palco. Eu acho que há uma diferença entre a habilidade de atuar em filmes e no palco... Pensamento da atriz, roteirista e produtora estadunidense, Brooke Adams. Veja mais aqui.

 

PROEZAS DO BIRITOALDO

Veja mais do Biritoaldo aqui & aqui.

 


Imagem: In silence I lose (en um silencio me pierdo), da artista plástica mexicana Monica Fernandez.

Ouvindo Violin Sonatas 1-3 / Violin Concerto (2006), do compositor do Romantismo alemão Johannes Brahms (1833-1897), na interpretação da violinista russa Viktoria Mullova, regência de Claudio Abbado, Berlin Philharmonic Orchestra. Veja mais aqui & aqui

INVESTIGAÇÃO SOBRE O ENTENDIMENTO HUMANO – O livro Investigação sobre o entendimento humano (Abril, 1979), do filósofo, historiador e ensaísta escocês David Hume (1711-1776), aborda temas como das diferentes espécies de filosofia, da origem e da associação de ideias, dúvidas céticas sobre as operações do entendimento, solução cética das duvidas, da probabilidade, da ideia de conexão necessária, da liberdade e da necessidade, da razão dos animais, dos milagres, de uma providencia particular e de um estado futuro, da filosofia cética ou acadêmica, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho inicial: A filosofia moral, ou ciência da natureza humana, pode ser tratada de duas maneiras diferentes; cada uma delas tem seu mérito peculiar e pode contribuir para o entretenimento, instrução e reforma da humanidade. A primeira considera o homem como nascido prin cipalmente para a ação; como influenciado em suas avaliações pelo gosto e pelo sentimento; perseguindo um objeto e evitando outro, segundo o valor que esses objetos parecem possuir e de acordo com a luz sob a qual eles próprios se apresentam. Como se admite que a virtude é o mais valioso dos objetos, os filósofos desta classe pintam-na com as mais agradáveis cores e, valendo-se da poesia e da eloquência, discorrem acerca do assunto de maneira fácil e clara: o mais adequado para agradar a imaginação e cativar as inclinações. Escolhem, na vida cotidiana, as observações e exemplos mais notáveis, colocam os caracteres opostos num contraste adequado e, atraindo-nos para os caminhos da virtude com visões de glória e de felicidade, dirigem nossos passos nestes caminhos com os mais sadios preceitos e os mais ilustres exemplos. Fazem-nos sentir a diferença entre o vício e a virtude; excitam e regulam nossos sentimentos; e se eles podem dirigir nossos corações para o amor da probidade e da verdadeira honra, pensam que atingiram plenamente o fim de todos os seus esforços. Veja mais aqui, aquiaqui.

O SENTIDO E A MÁSCARA – O livro O sentido e a máscara (Perspectiva, 1975), do filósofo, professor e crítico de teatro brasileiro Gerd Bornheim (1929-2002), aborda temas como as questões do teatro contemporâneo, a compreensão do teatro de vanguarda, Ionesco e o Teatro Puro, duas características do Expressionismo, breves observações sobre o sentido e a evolução do trágico, Kleist e a condição romântica, Egmont de Goethe, vigência de Brecht, a proposito de Jacques e a submissão de Ionesco, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho inicial: A situação do teatro contemporâneo é extremamente complexa, para não dizer caótica. Errado, contudo, andaria quem disso inferisse que se trata de um teatro pobre, sem imaginação, desprovido de recursos maiores. Deve-se mesmo afirmar que é exatamente o contrario que se verifica: o panorama do teatro de hoje é, inegavelmente, de uma riqueza imensa, de uma pluralidade de experiências jamais vista em nenhuma fase da história da dramaturgia e da arte cênica. E é precisamente esta pujança que torna a realidade teatral problemática, complexa, e mesmo caótica. O grande problema está em captar a sua unidade, ou em estabelecer os critérios básicos que possibilitem uma visão orgânica e unitária do conjunto. Poder-se-ia pensar que essa dificuldade se deva ao fato de ainda não dispormos da suficiente perspectiva histórica para julgar tal estado de coisas. Isto, porém, afora de ser demasiado simples, desobriga da necessidade de uma tomada de consciência da situação. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

DESEJOS, A CIDADE E ESCULTOR DE TIANA – No livro Poemas (Nova Fronteira, 1982), do poeta grego Konstantínos Kaváfis (1863-1933), traduzido pelo também poeta José Paulo Paes, encontrei os seus belíssimos poemas, entre os quais destaco inicialmente o seu poema Desejos: Belos corpos de mortos que nunca envelhencem, com lagrimas sepultos em mausoléus brilhantes, jasmins nos pés, cabeça circundada de rosas – assim são os desejos que um dia feneceram sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes o prazer de uma noite ou a manhã luminosa. Também meritório de destaque o seu poema A cidade: Dizes: vou partir / Para outras terras, para outros mares / Para uma cidade tão bela / Como esta nunca foi nem pode ser / Esta cidade onde a cada passo se aperta / O nó corredio: coração sepultado na tumba de um corpo, / Coração inútil, gasto, quanto tempo ainda / Será preciso ficar confinado entre as paredes / Das ruelas de um espírito banal? / Para onde quer que olhe / Só vejo as sombras ruínas da minha vida. / Tantos anos vividos, desperdiçados / Tantos anos perdidos. Por fim, o poema Escultor de Tiana: Conforme ireis ouvir, eu não sou principiante. / Muita pedra passou-me pelas mãos. / Em minha pátria, Tiana, muitos são / que me conhecem. Estátuas em profusão / os senadores têm-me encomendado. / Já vou mostrar / algumas delas. Contemplai esta Réia vetusta, / cheia de fortaleza, venerável, augusta. / Vede Pompeu. Vede Mário, Emílio Paulo, / Cipião o Africano, todos lado a lado, / imagens tão fiéis quanto a um artesão / é dado fazer. Pátrocolo (que devo retocar). / Cesarião ali está, um pouco adiante, / junto ao bloco de mármore amarelado. / Uma estátua de Poseidon agora tenho em mente. / Preocupa-me nessa obra, principalmente, / como esculpir os cavalos, difícil questão. / É mister que seus corpos e seus cascos / revelem claramente, tão ligeiros eles são, / voar sobre as águas, não pisar o chão. / Mas eis, de minhas obras, a que amo realmente, / aquela em que pus maior empenho e maior emoção; / ao ascender meu espírito ao mundo do Ideal, / num certo dia do mais cálido verão, / sonhou esta imagem do jovem Hermes imortal. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

MULHERES – A obra Mulheres (L&PM, 2011), do escritor estadunidense nascido na Alemanha Charles Bukowski (1920-1994), conta a história de um casal, o cinquentão alcoolatra, misantropo e amante de música clássica Henry Chinaski (alter ego do autor) e a escultora divorciada Lydia. Depois de um jejum sexual longuíssimo no qual não desejava mulher alguma, ele passa a ter vários relacionamentos que são enlouquecedores e rompidos para sofrimento delas. Da obra destaco o trecho inicial: Eu tinha cinquenta anos e há quatro não ia pra cama com nenhuma mulher. Não tinha amigas. Olhava pras mulheres nas ruas ou em qualquer lugar que as visse, mas olhava sem desejo e com uma impressão de futilidade. Me masturbava regularmente, mas a ideia de ter um relacionamento com uma mulher – mesmo em termos não sexuais – estava além da minha imaginação. Eu tinha uma filha ilegítima de seis anos. Vivia com a mãe, e eu pagava pensão pra criança. Anos antes, tinha me casado, aos 35. Durou dois anos e meio. Minha mulher pediu divórcio. Só estive apaixonado uma vez – ela morreu de alcoolismo agudo, aos 48, quando eu tinha 38. Já minha mulher era 12 anos mais jovem que eu. Deve estar morta também, não tenho certeza. Ela me escrevia uma longa carta todo Natal nos primeiros seis anos depois do divórcio. Nunca respondi... Não lembro bem quando vi Lydia Vance pela primeira vez. Foi há cerca de seis anos, eu tinha acabado de largar um emprego de doze anos como funcionário dos Correios e estava tentando virar escritor. Estava morrendo de medo e bebia mais do que nunca. Tentava escrever meu primeiro romance. Bebia meio litro de uísque e uma dúzia de meias-cervejas, todas as noites, enquanto escrevia. Fumava charutos baratos e datilografava e bebia e escutava música clássica no rádio até de madrugada. Fixara uma meta de dez páginas por noite, mas nunca sabia, até a manhã seguinte, quantas páginas tinha escrito. Levantava de manhã, vomitava, ia até a sala e conferia no sofá quantas folhas tinha ali. Sempre passavam das minhas dez. Às vezes tinha 17, 18, 23, 25 páginas. Claro que o trabalho de cada noite tinha que ser desbastado ou tinha que ser jogado fora. Gastei 21 noites pra escrever meu primeiro romance. Os proprietários do condomínio em que eu morava viviam nos fundos e achavam que eu era maluco. Todas as manhãs, ao acordar, tinha um saco enorme de supermercado na minha porta. O conteúdo variava, mas, em geral, tinha tomates, rabanetes, laranjas, cebolinhas, latas de sopa, cebolas. Uma ou outra noite eu bebia cerveja com eles até quatro ou cinco da madrugada. O velho se apagava, e a velha e eu ficávamos de mãos dadas, e eu dava uns beijos nela de vez em quando. Sempre dava um beijão nela na porta. Era enrugada pra danar, mas o que é que ela podia fazer? Era católica e ficava uma gracinha quando botava seu chapéu cor-de-rosa e saía pra igreja, domingo de manhã. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

ACADEMIA PALMARENSE DE LETRAS – Fiquei bastante feliz e lisonjeado com o convite recebido do amigo Juarez Carlos da Silva, me convidando para o9 lançamento da sua obra literária Academia Palmarense de Letras (APLE), que acontecerá no dia 09 de junho – dia dos festejos da emancipação política da cidade -, às 20hs, no Teatro Cinema Apolo, na cidade da Mata Sul pernambucana, Palmares. Meus parabéns e votos de sucesso para o caro amigo e obrigado pelo convite. Veja mais aqui.

O REI PASMADO E A RAINHA NUA – A comédia Rei pasmado e rainha nua (1991), do diretor espanhol Imanol Uribe, é baseada no romance homônimo (Crónica del rey pasmado, 1989 – Rosa dos Tempos, 1993), do escritor, professor, dramaturgo e jornalista espanhol da Geração de 36, Gonzalo Torrente Ballester (1910-1999), narrando uma histórica ocorrida em 1620, durante o período da inquisição na época do Absolutismo, em que um jovem  rei, tendo perdido a virgindade com uma prostituta, fica motivado com a possibilidade de ver a rainha nua. Trata-se de uma dessas comédias para lá de engraçadas e inesquecíveis com um elenco de primeira e que não resisto a rever sempre que posso. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
A heroína brasileiríssima Velta, do quadrinista paraibano Emir Ribeiro. Veja mais aqui, aqui e aqui


Veja mais sobre:1
Se não deu e fedeu, só na outra, meu, Sentimento do mundo de Carlos Drummond de Andrade, Contos de Juan Carlos Onetti, Literatura fantástica de Tzvetan Todorov, a música de Yann Tiersen, a pintura de Luiz Paulo Baravelli & Asha Carolyn Young, a fotografia de JR, a xilogravura de MS, a arte de Tom Wesselman & Kenny Cole aqui.

E mais:
A literatura de Juan Carlos Onetti aqui e aqui.
Desejo & a arte da cantora Sônia Mello, Deus & o Estado de Mikhail Bakunin, Ouvindo insetos de Po Chu Yi, Os museus & Bertha Lutz, Teatro Espontêaneo & Psicodrama, a música de Paulo Bellinati & Garoto, a dança de Mata Hari, a pintura de Murilo La Greca & a arte de Melinda Gebbie aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando o cara num rega direito, o amanhã parece mais o aperto do dia de ontem aqui.
O recomeço a cada dia, o pensamento de Ibn el-Arabi & Indries Shah, a fotografia de Faisal Iskandar & a arte de Petrina Sharp aqui.
Dignidade humana, educação & meio ambiente, O Brasil e a telenovela de Esther Hamburger, a pintura de Nina Kozoriz & a arte de Niura Bellavinha aqui.
Ninquem vem pra vida de graça, O caminho de Swann de Marcel Proust, a pintura de Annibale Carraci & a arte de Josephine Wall aqui.
As pedras se encontram nos mundos distantes, Pelos ares de Rafael Piccolotto de Lima & a arte de Sing & Luciah Lopez aqui.
Tudo passa pra quem não sabe o desprezado, Fenomenologia da percepção de Maurice Merleau-Ponty, a arte de Martina Shapiro & Shane Turner aqui.
Caríssimos ouvintes, a voz ao coração, Fremont Solstice Parade, a escultura de Bernhard Hoetger & a arte de Aleksandr Rodchenko aqui.
Endecha: carpe diem, mutatis mutandis, o pensamento de Nikolai Roerich, a fotografia de Antonella Fabiani & a arte de Leon Zernitsky aqui.
Nênia de Abril & cada qual seus pecados ocultos, a arte de Lisbeth Hummel, a poesia de Sérgio Campos & Antes que os nossos filhos denunciem o luto secular de seus abris aqui.
Sinfonias de bar, a pintura de Vincent van Gogh, O ovo da serpente de Ingmar Bergman, a arte de Annie Veitch & Kerri Blackman, Apesar dos pesares, a vida prossegue... aqui.
E se o amor fosse a vida na tarde ensolarada do quintal & a arte de Varvara Stepanova & Luciah Lopez aqui.
Fecamepa – quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quinta-feira, março 07, 2013

LAETITIA BARBAULD, SIMIN DĀNESHVAR, DANNY KING, LILLIAN WALD & QUADRINHOS

Imagem: Aventureiros do Unacapa do segundo número em maio 1987, parceria entre o desenho de Rolandry Silvério e roteiro de Luiz Alberto Machado.

QUADRINHOS, A NONA ARTE: DE ANGELO AGOSTINI A BARALDI

Luiz Alberto Machado

Sempre fui fascinado por desenho. Tal fato se deve porque desde tenra idade manter contato com gibis e mesmo sob os carões maternos pelas coleções que eu reunia em diversos sacos, foi o estímulo que precisei para aprender a ler aos 4 anos de idade.
Como nasci no ano de 60, estava fadado a ser um debilóide patriota pelo desastre que se tornou a educação brasileira. A minha salvação foram os gibis – não me prendendo só aos de super-heróis oriundos do EUA -, os livros de Monteiro Lobato e, já na adolescência, o meu primo Marquinhos chegava com um monte de discos de rock com coleções de Carlos Zéfiro escondidas dentro das capas.

Imagem: A vizinha, de Carlos Zéfiro.

Não sabia eu que os gibis eram uma criação brasileira. Pois, segundo Haag (2005:87), os quadrinhos nasceram no Brasil em 1869, com As Aventuras de Nhô Quim, de Ângelo Agostini, defendendo que este autor trouxe esta arte “(...) 30 anos antes da publicação nos Estados Unidos de Yellow Kid, considerada por muitos como a pioneira”.
Depois, segundo Ribeiro (1985), foi em 1905 que nasceu o Tico-Tico, criado por Ângelo Agostini, infantil em quadrinhos: “(...) inteligente e engraçada, que encanta gerações de crianças brasileiras, com personagens como Reco-Reco, Bolão e Azeitona, Carrapicho, Jujuba e Goiabada. Morre em 1959, assassinada por Walt Disney”. Também registra Ribeiro (1985) que em 1918: “Monteiro Lobato alcança enorme êxito, assumindo a liderança da vida intelectual do país com o livro de contos Urupês – mal ilustrado por ele próprio -, ambientado nas fazendas de café de São Paulo. Retifica aí, seu célebre retrato do caipira, admitindo que seus males vêm da falta de saúde, de instrução e de assistência”.
Foi em 1955, segundo Ribeiro (1985) que o semanário O Cruzeiro – que vinha sendo editado desde 1928, se renova com suas sessões de humor de Pif-Paf, de Millôr e o Amigo da Onça, de Péricles. E em 1969, reunindo Tarso de Castro, Jaguar, Millôr, Fortuna, Ziraldo, Henfil, Claudios, Luis Carlos Maciel, Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Vinicius de Morais e Sérgio Cabral, que foi criado no Rio de Janeiro o Pasquim, que, segundo Ribeiro (1985) era um semanário moleque de oposição política pluralista através de cartuns, dicas, poemas e grandes entrevistas gravadas em linguagem sacana e coloquial, apesar da repressão e das prisões.
Não sabia que as HQs possuíam os seus críticos ferrenhos e, também, os seus defensores. Entre os opositores deste gênero estavam, por exemplo, Carlos Lacerda que irado vociferava “tinham o poder de delinquir jovens e levá-los para o comunismo”. Para ele: “A onda dessas revistas é que o crime seja uma condição normal de vida. Há a idéia de que a vida passa num plano superior a todas as contingências humanas e, ao mesmo tempo, ignorante de todas as onipotências divinas. Deus não admite super-homens, suipermacacos ou super-Robertos Marinhos”. E doutra feita, o proprio Carlos Lacerda, em 1946, definiu os gibis “(...) Como veneno importado para as crianças” porque já havia um número considerável, segundo ele, de escritores comunistas.
Também Jânio Quadros propôs projeto para impedir que as leituras atentatórias aos bons costumes fossem expostas nas bancas de jornais e livrarias.
Para se ter uma idéia, segundo Haag (2005:88), em 1944 o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, do Ministério da Educação, divulgara um estudo que acusava os quadrinhos de causar preguiça mental e desestimular o aprendizado e a leitura dos livros. Com isso, vários colégios e paróquias organizaram verdadeiros autos de fé do santo-ofício execrando as revistinhas. E se aliaram a esta corrente os jornalistas Orlando Dantas e Samuel Wainer que tratavam os quadrinhos, segundo Haag (2005), de fábricas de criminosos mirins e os gibis verdadeiros manuais de crime. Chegou-se até, segundo Haag (2005), à sugestão de emenda à Constituição que combatesse os excessos das editoras de quadrinhos. Não é à toa que houve uma repressão a esta modalidade artística.
Entre os simpatizantes se fundamentava o argumento que o preconceito contra as HQs é uma herança maldita, vítimas dos moralistas. Entre estes estava Gilberto Freyre que inclusive, certa vez, propôs como deputado o lançamento da Constituição em quadrinhos. Também Jorge Amado que atribuiu sua popularidade ao sucesso das versões dos seus livros em gibis. Tanto é que se chegou ao pleito feito por Ziraldo e Mauricio de Souza exigindo do governo uma lei de nacionalização das HQs, incluindo reserva de mercado, fato que recebeu a simpatia de Leonel Brizola que, então governador do Rio Grande do Sul, passou a subsidiá-las.
Mesmo com a edição de um decreto-lei disciplinando a produção de revistas em quadrinhos no país, em 1963 por João Goulart e mantida pelos militares em 1966, este jamais foi aplicado.
O Haag (2005) reuniu alguns estudos que foram realizados pelo professor da Escola de Comunicações e Artes – ECA e coordenador do Núcleo de Pesquisas de História em Quadrinhos – NPHQ, da USP, Waldomiro Vergueiro, que defende: “As histórias em quadrinhos são importantes demais para serem deixadas como reféns das circunstâncias. Infelizmente, durante muito tempo elas foram consideradas materiais de segunda ou terceira categoria por parcelas influentes da sociedade”. Tanto é que o professor possui o Diretório geral de histórias em quadrinhos no Brasil - NPHQ-USP, visando a preservação da memória quadrinhística nacional.
Outros estudos foram realizados pela professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, Selma Regina de Oliveira, uma tese de doutorado com o tema “A mulher ao quadrado”, observando que os quadrinhos norte-americanos ajudaram a reforçar no Brasil estereótipos sexistas ao sempre mostrar moças indefesas, virginais, sempre precisando da ajuda dos super-heróis.
Um estudo de Frenault-Deruelle (1975:126) apontava para o fato de que como os seres do mundo real e os das artes ditas da representação, as personagens de HQs se relacionam por meio dos diversos canais dos sentidos, principalmente a audição, a vista e o tato, sendo o gosto e o olfato dificilmente codificáveis ou pouco funcionais do ponto de vista dramático. Todavia, poderão ser acrescentados novos meios de comunicação tais como a transmissão de pensamento (ficção científica).

Imagem: Velta, de Emir Ribeiro, capa da edição de 35 anos.

Ao longo dos últimos anos encontramos a trajetória resistente de uma heroína brasileira, Velta, que está lançando no próximo dia 18 de janeiro, a edição comemorativa dos seus 35 anos. Trazendo além dos traços de Emir Ribeiro, uma série escrita pelo grande mestre R. F. Lucchetti, ambientando Velta nos anos 60 do século XX e uma história dramática, continuando a partir dos eventos ocorridos na VELTA 2007 - NOVA IDENTIDADE PARAIBANA , trazendo mais mudanças na vida da personagem, com um total de 96 páginas, em preto e branco (a maioria, em tons de cinza).

Imagem: Tatoo Zinho, HQ de Marcio Baraldi.

Também o Márcio Baraldi que é um dos mais representativos artistas premiados dos quadrinhos brasileiros. Paulista de Santo André, ele figura entre os melhores e mais produtivos cartunistas do país. Nascido em Santo André, em 1966, foi criado no tenso e intenso clima político-sindical que foi marca registrada do ABC paulista nos anos 70 e 80, o que acabou marcando profundamente seu trabalho e personalidade. Seus personagens Roko-Loko e Adrina-LinaTatoo Zinho e Humor-Tífer são sucessos de publicações.
O professor paraibano Janduhi Dantas também fez a “Estória de quadrinhos” em cordel, contando a estória de quadro alunos: “Certa vez, caros leitores/ li um caso singular: a estória de quatro alunos/ com seu modo de estudar./ Da vida de cada um, / uma lição a se tirar”.
Até eu, numa parceria com o desenhista e artista plástico, Rolandry Silvério, fiz uma incursão na área, publicando nos anos 80, as revistinhas “Aventureiros do Una” que circulou por quatro números.
Agora encontro A Bodega que é uma loja virtual de quadrinhos independentes. Nela são encontrados diversos títulos de quadrinhos independentes brasileiros e pode comercializar projetos de autores que não encontram espaço para venda de seus projetos.
Vê-se que o gibi e arte das histórias em quadrinhos estão vivíssimos. Vamos nessa.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS:
FRESNAULT-DERUELLE, Pierre. O espaço interpessoal nos comics. In:Semiologia da representação: teatro, televisão e história em quadrinhos. São Paulo: Cultrix, 1975.
HAAG, Carlos. A nona arte: pesquisas, arquivos, livro e tese mostram que os quadrinhos ainda mantêm sua importância. Revista Pesquisa Fapesp, 110 (86-88), abril de 2005.
RIBEIRO, Darcy. Aos trancos e barrancos: como o Brasil deu no que deu. Rio de Janeiro: Guanabara, 1985. 
Confira mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

 

DITOS & DESDITOS - As mulheres, mais do que os homens, podem despojar a guerra de seu glamour e de seus heroísmos e patriotismos antiquados, e vê-la como um demônio de destruição e um erro hediondo... Pensamento da enfermeira, humanitária e escritora estadunidense Lillian Wald (1867–1940), que fundou o Henry Street Settlement e contribuiu ativamente para os direitos humanos, além de fundar a comunidade de enfermagem.

 

ALGUÉM FALOU: Eu gostaria que o mundo fosse governado por mulheres. Mulheres que já pariram e sabem o valor de sua criação. Pessoas simples têm muito a oferecer. Nós também, em troca, devemos dar a eles o melhor de nossas habilidades. Devemos, de todo o coração, tentar ajudá-los a adquirir o que realmente merecem. Pensamento da escritora e acadêmica iraniana Simin Dāneshvar (1921-2012), que foi ativista da emancipação feminina em seu país.

 

OS DIÁRIOS – [...] Eu amo gatos, eles são ótimos; inteligente, carinhoso, amável, e este era particularmente legal, então pegá-lo e dar alguns tapas e um pouco de dificuldade era irritante, embora infelizmente fosse necessário. Veja, se você está se escondendo no quarto de hóspedes de alguém esperando que eles passem a noite, a última coisa que você precisa é de um gato miando na porta tentando entrar para vê-lo porque você o acariciou o dia todo. Um pouco de agitação e um rosnado na cara do gato e isso é tudo o que geralmente é necessário para dar ao quarto extra e ao horrível bastardo dentro de um amplo espaço pelo resto da noite [...] Em primeiro lugar, sendo um vereador local, ele provavelmente era um babaca! Um verdadeiro idiota do tipo "acenando com livros engomados vestindo cuecas - citando subseção parágrafo para você olhando para cima" que viveu sua vida pelos números e denunciou seus vizinhos se eles tentassem colocar uma mesa de pássaros sem permissão de planejamento. [...]. Trechos extraídos da obra The Hitman Diaries (Serpent's Tail, 2003), do escritor e dramaturgo britânico Danny King.

 

DOIS POEMAS - OS DIREITOS DAS MULHERES - Sim, mulher ferida! levanta-te, faz valer o teu direito! \ Mulher! por muito tempo degradado, desprezado, oprimido; \ Ó nascido para governar em despeito parcial da Lei, \ Retome teu império nativo sobre o peito! \ Vá em frente vestido com uma panóplia divina; \ Aquela pureza angelical que não admite mancha; \ Vá, peça ao orgulhoso Homem que renuncie ao seu governo gabado, \ E beija o cetro de ouro do teu reinado. \ Vai, cinge-te de graça; colete sua loja \ De artilharia brilhante olhando de longe; \ Tons suaves e derretidos do rugido do teu canhão trovejante, \ Cora e teme tua revista de guerra. \ Teus direitos são império: não exija nenhuma reivindicação mais mesquinha, - \ Sentido, não definido, e se debatido, perdido; \ Como mistérios sagrados, que negaram a fama, \ Evitando discussões, são os mais reverenciados. \ Experimente toda essa inteligência e arte sugerida para dobrar \ Do teu inimigo imperial o joelho teimoso; \ Faça do homem traiçoeiro seu súdito, não seu amigo; \ Você pode comandar, mas nunca pode ser livre. \Admirem os licenciosos e reprimam os rudes; \ Suavize o taciturno, limpe a testa nublada: \ Seja, mais do que presentes de príncipes, teus favores processados; \ Ela arrisca a todos, quem menos permitir. \Mas não espere, ídolo cortejado da humanidade, \ Nesta orgulhosa eminência segura para ficar; \ Subjugando e subjugando, você logo encontrará \ Tua frieza se suaviza e teu orgulho cede. \ Então, então, abandone cada pensamento ambicioso, \ Conquistar ou governar, teu coração se moverá debilmente, \ Na escola da Natureza, por suas suaves máximas ensinadas, \ Que direitos separados são perdidos no amor mútuo. VIDA - Animula, vagula, blándula. \ Vida! não sei o que és, \ Mas saiba que você e eu devemos nos separar; \ E quando, ou como, ou onde nos conhecemos, \ Eu possuo para mim é um segredo ainda. \ Mas isso eu sei, quando você fugiu, \ Onde eles colocam esses membros, essa cabeça, \ Nenhum torrão tão sem valor será, \ Como tudo o que resta de mim. \ Ó para onde, para onde voas, \ Onde curva invisível teu curso sem trilha, \ E neste estranho divórcio, \ Ah diga onde devo procurar esse composto I? \ Para o vasto oceano de chamas empíreas, \ De onde veio tua essência, \ Tu segues a tua fuga, quando libertados \ Da base da matéria estorvando ervas daninhas? \ Ou tu, escondido da vista, \ Espere, como um cavaleiro enfeitiçado, \ Através de anos vazios e alheios à hora marcada, \ Para quebrar teu transe e reassumir teu poder? \ No entanto, você pode ser sem pensamento ou sentimento? \ Ó, diga o que és tu, quando já não és tu? \ Vida! estamos juntos há muito tempo, \ Através de tempo agradável e nublado; \ É difícil se separar quando os amigos são queridos; \ Talvez isso custe um suspiro, uma lágrima; \ Então roube, dê pouco aviso, \ Escolha o seu próprio tempo; \ Não diga boa noite, mas em algum clima mais brilhante \ Dê-me um bom dia. Poema da escritora britânica Anna Laetitia Barbauld (1743-1825)

 



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