
RECIFE –
VÁRZEA: ÚLTIMO RETORNO
Joaquim
Cardozo
Terra macia, formada de muitos longes
Trazidos pelas águas.
- Essa terra do meu nascer alhures
Que seja, e seja, e seja, no fim, no sempre,
A minha terra de morrer.
Entre as bátegas de chuva:
- Das suas chuvas de junho até setembro...
- (Depois... Depois.... Quando depois...) –
talvez se ouça ainda
O meu bater de coração.
Entre palmas e franjas de espuma branca,
Entre ramos de renda verde,
Um pouco do ar, que nessa terra respirei,
Passará, sem que ninguém disso se aperceba,
Na aragem das manhãs.
E os meus pés sepultados,
Meus pés, e o percorrido por meus pés,
Mergulhados, confundidos, sedimentados
Na espessura desses longes,
- Tímidos, incertos, sem destino –
Por baixo do chão dos seus caminhos
Continuarão a caminhar.
Poema
extraído de Réquiem por uma vida
desnecessária, das Poesias Completas
(Civilização Brasileira/MEC/INL, 1971), do poeta, dramaturgo,
engenheiro civil, desenhista, professor e editor Joaquim Cardozo (1897-1978). (Imagem: Visão Romântica do Porto de
Recife (1930), do artista plástico Cícero Dias). Veja mais aqui.
RETRANCAS DO FUTEBOL E DECEPÇÕES - Como todos os meninos uruguaios, eu também
quis ser jogador de futebol. Jogava muito bem, era uma maravilha, mas só de
noite, enquanto dormia: de dia era o pior perna-de-pau que já passou pelos
campos do meu país. [...] Os anos se
passaram, e com o tempo acabei assumindo minha identidade: não passo de um
mendigo do bom futebol. Ando pelo mundo de chapéu na mão, e nos estádios
suplico: - Uma linda jogada, pelo amor de Deus! E quando acontece o bom
futebol, agradeço o milagre – sem me importar com o clube ou o país que o
oferece. [...] foi uma Copa sem
surpresas. Um espectador a resumiu assim: - Os jogadores têm uma conduta
exemplar. Não fumam, não bebem, não jogam. Os resultados recompensaram isso que
agora chamam de sentido prático. Viu-se pouca fantasia. Os artistas deram lugar
aos levantadores de peso e aos corredores olímpicos, que ao passar chutavam uma
bola ou um adversário. Todos atrás, quase ninguém na frente. Uma muralha
chinesa defendendo o gol e algum Cavaleiro Solitário esperando o contra-ataque.
Até poucos anos atrás, os atacantes eram cinco. Agora só resta um, e nesse
ritmo não ficará nenhum. Como comprovou o zoólogo Roberto Fontanarrosa, o
atacante e o urso panda são espécies em extinção. Trecho extraído da obra Futebol ao sol e à sombra (L&PM,
2009), do jornalista e escritor uruguaio Eduardo
Galeano (1940-2015). Veja mais aqui, aqui & aqui.
CRISE & EDUCAÇÃO AMBIENTAL - Torna-se necessário introduzir, nos
processos de planejamento, estratégias participativas que venham a se apoiar
nas forças utópicas da democracia radical e nas forças distópicas de destruição
não pacifista, provocada pelos inconciliáveis antagonismos,
sócio-politico-culturais, entre indivíduos, grupos e sociedades. Ou seja, a
participação passa a ser vista, assim, como uma forma estratégica de
interrelacionar – através da critica, técnico-política, das ações de
planejamento – “kultur” e “zivilization”, harmonizando-se na direção de um
bem-comum, como um futuro compartilhado possível. Sob tal perspectiva, o
impacto “mundializado” da crise ambiental origina-se em conflitos racionais
advindos da aplicação de referências da realidade baseadas nas teorias
científicas da natureza, mas propaga-se mobilizando-se sobre provocações de
cunho ético-humanístico – sobre uma crítica latente do “ocidente” como
civilização, abrindo-se como ponto de cisão entre alternativas de futuro no
confronto cultura-natureza e suas interações. A crise ambiental é, portanto,
uma crise política da razão, que não encontra significações dentro do esquema
de representações científicas existentes para o reconhecimento da natureza
social do mundo, que foi histórica, técnica e civilizatoriamente produzida. Uma
crise política da razão frente à não explicação da natureza social da natureza
e de suas implicações sobre o conhecimento e suas relações com a sociedade e o
futuro. [...] Trecho do ensaio O
pensamento contemporâneo e o enfrentamento da crise ambiental: uma análise
desde a psicologia social, da física e pós-doutora em Ciências Sociais, Edla Terezinha de Oliveira Tassara,
extraído da obra Pensar o ambiente: bases filosóficas para a educação ambiental
(MEC/SECAD, 2009), organizado por Isabel Cristina de Moura Carvalho, Mauro Grün
e Rachel Trajber. Veja mais aqui, aqui & aqui.
O SISTEMA & O FILOSOFAR - O comportamento originante do filosofar e a
possibilidade de esclarecer a problemática que tal comportamento coloca [...]
parte do pressuposto de que a coloração fundamental de uma filosofia já se
determina, em certo sentido, a partir mesmo da atitude inicial assumida por
todo filósofo. Trata-se, portanto, de problemática implicada no ponto de
partida do filosofar. Referimo-nos ao filosofar. [...] A atitude inicial do filósofo determina o caráter último de sua
filosofia. Mas esta determinação, profundamente enraizada no ato de filosofar,
não deve ser confundida com o problema do primeiro princípio filosófico, com a
primeira afirmação, a partir da qual um determinado filósofo poderá alicerçar e
desdobrar o todo de seu pensamento, obediente à incoercitível tendência para a
sistematização, que é inerente à natureza mesma da filosofia. [...] Em verdade, a ideia de sistema traz consigo
todos os quesitos do que deva ser um problema: responde a um anseio legitimo e
inscreve-se na própria natureza do real. O que deve ser repensado é o sistema,
não enquanto decorrência do processo entificador do ser, e sim enquanto
abertura para a diferença ontológica. Não se trata, pois, de fundar o sistema
dedutivamente em um ente determinado, mas de pensar a sua possibilidade a
partir da diferença ontológica. Trechos extraídos da obra Introdução ao filosofar: o pensamento
filosófico em bases existenciais (Globo, 1978), do filósofo, professor e
crítico de teatro brasileiro Gerd Bornheim (1929-2002). Veja mais aqui,
aqui e aqui.
ADAPTAÇÃO DO INDIVÍDUO - O interesse constante e crescente pelo
indivíduo e sua adaptação é talvez um dos fenômenos mais importantes do nosso
tempo. Mesmo a guerra e a propaganda serviram para pôr em evidencia a ideia
fundamental da importância do individuo e do seu direito a uma adaptação
satisfatória como um dos elementos dos nossos objetivos bélicos. [...]. É absolutamente vital reconhecer que o
processo que ocorre na entrevista é tão delicado que as suas potencialidades de
desenvolvimento podem ser inteiramente destruídas pela manipulação forçada que
caracteriza a maior parte das nossas relações. Compreender as forças sutis que
atuam, reconhecer e cooperar com elas exige a máxima concentração e o maior
estudo, e o caráter integral dos relatórios que descrevem o processo.
Trechos extraídos da obra Psicoterapia e consulta psicológica (Martins Fontes,
1987), do psicólogo norte-americano e criador da abordagem psicoterapeuta
Terapia Centrada na Pessoa, Carl Rogers (1902-1987). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.
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arte do pintor, escultor, desenhista, gravador e ilustrador Farnese de Andrade (1926-1996).
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