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quarta-feira, agosto 26, 2020

CORTÁZAR, EDUARDO GALEANO, AGRIPPINA VAGANOVA, APOLLINAIRE & MARACATU


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... ANDANÇAS, ERRÂNCIAS... - Não há outra coisa a fazer do que rever o feito diante do futuro que só tenho neste exato momento, ou nenhum. Ou seja, ruminar o que fiz ou deixei de fazer. Sei, a primeira vez que larguei o pé no mundo, não lembro, acho, aos dez anos: bigodinho precoce segurando a venta sobre os beiços, uma baforada contra o vento, uma espiada pela fresta da porta de uma delas, uma lapada de dois dedos no copo, era tudo que não podia e coragem no gole, vontade além da conta – era a minha contribuição para sobrecarga da Terra. Fiz e refiz, peito estufado, menino-homem, ah, se era. Fui e tantas vezes regressei dali em diante, andejo, nariz empinado em qualquer direção, carregado de lembranças e sonhos, estrada afora, jornada de muito, até agora. Nesse curso, bem lembrou Julio Cortázar: Cada vez irei sentindo menos, e, recordando mais. A memória é um espelho que mente de forma escandalosa. Fabulação à toa, aos montes, contei no amiudado do tempo corrido, e ele também me falou das andanças de dedos na caneta pro papel: Escrever é uma luta contínua com a palavra. Um combate que tem algo de aliança secreta. De fato, rabiscos e reminiscências, outras tantas garatujas de rememorações. Acabei de crer: sou um sujeito de esquecimentos e recordações involuntárias, parece mais corda repassando fatos uns por sobre outros, imagens tantas do que fui e nem sou mais, vou nessa, muita trilha pra tirar.


DUAS PASSADAS, CAMINHOS, PARAGENS... - Quanta estrada, abundantes histórias, de umas e outras inventadas, quantos envultamentos, maiores assombrações. Oriunda das crendices, coisas que foram ficando, e no meio de algumas delas identificadas patranhas emergentes. Na maior parte, metáforas cuspidas da sabedoria. Disso Eduardo Galeano me disse: Os contadores de história, os contadores de história, só podem contar enquanto a neve cai. A tradição manda que seja assim. Os índios do norte da América têm muito cuidado com essa questão dos contos. Dizem que quando os contos soam, as plantas não se preocupam em crescer e os pássaros esquecem a comida de seu filhotes. Sim, só aqui não tem neve e a coisa pinta assim no pingo do meio dia. Já vi gente contar cada uma de parar o tempo, a correnteza do rio, tudo paralisado, e a gente tremendo de medo. Com efeito, de menino até crescido, no pé do ouvido, lá barulhava recorrentes narrativas dos da terrinha – coisas de antanho, do arco da velha -, da minha avó esquecida do acalanto, malsinações, encantamentos, dos aboios dos vaqueiros e das toadas dos matutos sabidos, coisa da boa dos prazeres da Literatura de Cordel e dos alfarrábios do Cascudo. Ah, coisa mais maior de grande no coração.

TRÊS PEGADAS, DESTINOS, VISAGENS... – Imagem: a bailarina e pedagoga russa Agripina Yakovlevna Vaganova (1879-1951), pelo fotógrafo tcheco František Drtikol (1883–1961) – Sou muitas histórias, sim sou, daquelas indefinidas, intermináveis – coisa de quem tomou água de chocalho, de soltar lorota de manhã e bater a língua nos dentes tarde afora, emendar tagarela noite adentro e no final ainda perguntar: quer outra, ah, hahahahahaha. É muita corda prum Pinóquio da ventriloquia, feito Nitolino no Circo Itinerante. Ainda conto inúmeras, para cima e para baixo, indo e voltando, quase infinitas porque ainda tenho não sei quantas ainda para contar. Como aquela em que ela, tal Agrippina Vaganova, linda, nua, maravilhosa, bailou no meu prazer. Coisa de jamais esquecer! Ah, ela, para sempre inesquecível! Mesmo que Guilhaume Apollinaire insista no verso: Vamos passando, passando, pois tudo passa / Muitas vezes me voltarei / As lembranças são trompetas de caça / Cujo som morre no vento. Vamos, vamos mesmo, vambora. Dos passos nódoas de um enorme passado, fuga da memória e paisagens limítrofes, ave de arribação. Qual o quê, as mãos expressam o dia do desiderato, o que sou nesta terra que me fez. No meu corpo as dores de moedas inválidas, excesso de chão na sola dos pés, caminhos, destinos, paragens. A gente tem que ir, fomos feito pra isso, seguir e viver. Carpe diem! Até mais ver.

MARACATU DE BAQUE SOLTO
Apesar da pobreza em que há tanto tempo se debate o Nordeste, do ponto de vista da Cultura do nosso Povo tem uma força que me comove e alenta. [...] e chama que temos o dever legal aos que se seguem, renovada e recriada para expressar nosso país, nosso povo e nosso atormentado e glorioso tempo.
Trechos do prefácio de Ariano Suassuna para a obra Maracatu de baque solto (Quatro Imagens, 1998), de Pedro Ribeiro e Maria Lucia Montes, tratando sobre a cana, os brincantes, a festa, maracatu e maracatus, no cenário dos municípios de Carpina, Nazaré da Mata, Aliança, Igaraçu, Vicência, Tracunhaem, Pau d’Alho, Araçoiaba, Glória do Goitá, Lagoa de Itaenga, Feira Nova, Lagoa do Carro, Buenos Aires, Chã da Alegria, Goiana, Itaquitinga e Condado, em edição bilíngue e fartamente ilustrado. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quarta-feira, julho 24, 2019

EDUARDO GALEANO, FRITJOF CAPRA, EMILIE SUGAI, COYOTE DICK & APRENDIZADO COM OS REVEZES


APRENDIZADO COM OS REVESES – A vida é a maior aprendizagem. Algumas lições são sutis, quase imperceptíveis. Eu mesmo muitas vezes passei batido, não saquei logo, nem direito, só com o tempo. Às vezes, muito tempo. É preciso atenção, senão, senão. Falo por mim, de tantas perder a vez de chegar a gorar, fui aprendendo aos poucos, pacientemente: a verdade não está na superfície, nunca esteve nem estará. Descobrir o visinvinsível ou o que está por trás de tudo, nem sempre é fácil ou possível. Por isso, me enganei tanto com a cor da chita: entendi muita coisa errada; noutras, já era tarde demais. Errei que só, demais até; acertei uma vez ou outra, deu pro gasto, pois, saberia que chegaria a minha vez. E todas as vezes que tentaram me destruir, não temi; cabeça erguida, sorri porque sempre considerei que a morte é o complemento da vida. Ao ser vitimado por falta de consideração ou covardia, segui adiante: há tanta gente na face da Terra, alguém pode considerar. Diante de uma desfeita, quase desmoronei, entristeci, quase; fiquei passado. Todavia, me reergui e segui em frente: um enorme horizonte adiante. Ao ser tratado com rispidez ou descortesia, fiquei surpreso, contei até dez e saí: viver é tão maravilhoso, não valeria, jamais, perder a razão. Diante de um desapontamento, não era bem o que queria, afinal, refiz o constrangimento e me reconstruí diante de tantos mal entendidos, desaforos, incompreensões e miudezas. Não mudei a face, nem ergui a voz, apenas, segui o meu caminho porque o Sol dá um espetáculo todos os dias, desde a alvorada até o crepúsculo. Relevei tudo, me desfiz dos rancores e mágoas, não julguei nem maldisse o mundo: a Natureza é sábia. Tive que fechar os olhos para perceber o verdadeiro. Sabedor, fiquei em paz. Enfim, aprendi que a vida é para ser vivida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Ser humano é existir na linguagem [...] O papel crucial da linguagem na evolução humana não foi a capacidade de trocar ideias, mas o aumento da capacidade de cooperar. À medida que a diversidade e a riqueza das nossas relações humanas aumentavam, nossa humanidade – nossa linguagem, nossa arte, nosso pensamento e nossa cultura – se desenvolviam. [...] Dentre todas as espécies, somos a única que mata seus semelhantes em nome da religião, do mercado livre, do patriotismo e de outras ideias abstratas. [...] Para recuperar nossa plena humanidade, temos de recuperar nossa experiência de conexidade com toda a teia da vida. Essa conexão, ou religação, religio em latim, é a própria essência do alicerçamento espiritual da ecologia profunda. [...] alguns dos princípios básicos da ecologia – interdependência, reciclagem, parceria, flexibilidade, diversidade e, como consequência de todos estes, sustentabilidade. [...] a sobrevivência da humanidade dependerá de nossa alfabetização ecológica, da nossa capacidade de entender esses princípios da ecologia e viver em conformidade com eles.
Trechos extraídos do livro A teia da vida: uma nova compreensão científico dos sistemas vivos (Cultrix, 1996), do físico e escritor austríaco Fritjof Capra. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

COYOTE DICK
[...] Era uma vez Coyote Dick, e ele era tanto a criatura mais esperta quanto a mais tonta que jamais se podia esperar encontrar. Ele estava sempre querendo comer alguma coisa, sempre trapaceando as pessoas para conseguir o que queria e, em qualquer outra hora, estava dormindo. Bem, um dia quando Coyote Dick estava dormindo, seu pênis ficou realmente entediado e resolveu abandonar Coyote para viver sozinho uma aventura. Foi assim que o pênis se soltou de Coyote Dick e saiu correndo pela estrada. Na realidade, ele pulava pela estrada afora já que possuía só uma perna.E ele foi pulando e pulando, e se divertindo até que saltou da estrada e entrou na floresta, onde — Ah, não! — ele pulou direto numa moita de urtigas.— Ai! — gritou ele. — Ai, ai, ai! — berrou ele. — Socorro! Socorro! O barulho dessa gritaria toda acordou Coyote Dick e, quando ele estendeu a mão para dar partida no coração com a manivela, como de costume, viu que ela não estava mais lá. Coyote Dick saiu correndo pela estrada, segurando-se no meio das pernas, e afinal encontrou seu pênis passando pela maior dificuldade que se pudesse imaginar. Com grande delicadeza, Coyote Dick tirou seu pênis aventureiro do meio das urtigas, acarinhou-o, tranquilizou-o e o devolveu ao seu lugar certo. Old Red ria como um louco, com acesso de tosse, olhos saltados e tudo o mais.— Essa é a história do velho Coyote Dick.— Você se esqueceu de contar o final — repreendeu-o Willowdean.— Que final? Já contei o final — resmungou Old Red.— Você se esqueceu de contar para ela o verdadeiro final da história, seu porcaria.— Ora, se você se lembra assim tão bem, então conte você mesma. — A campainha tocou e ele se levantou da cadeira desconjuntada. Willowdean olhou direto para mim, e seus olhos cintilavam.— O final da história é a moral. — Nesse instante, Baubo apoderou-se de Willowdean, pois ela começou a dar risinhos, a rir abertamente e afinal a gargalhar tanto, e até com lágrimas, que levou dois minutos para conseguir dizer as duas últimas frases, já que repetia cada palavra duas ou três vezes enquanto tentava recuperar o fôlego.— A moral é que, mesmo depois de Coyote Dick sair do meio das urtigas, elas fizeram seu pau coçar feito louco para todo o sempre. E é por isso que os homens estão sempre chegando perto das mulheres e querendo se esfregar nelas com aquele olhar de "Estou com uma coceira". Pois é, aquele pau universal está coçando desde a primeira vez que fugiu do dono. [...]
Trechos extraídos da obra Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Rocco, 1994), da escritora e psicóloga Clarissa Pinkola Estés. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
O hábito urbano das “coisas prontas”, do imediatismo bem como da beleza fácil pode ser criticado por meio da Arte. Este é um dos meus propósitos: buscar comunicação e troca e tentar o acontecimento epifano – não no sentido religioso, mas antes, como um trabalho simbolicamente revelador.
A arte da atriz, coreógrafa, dançarina, performer e professora Emilie Sugai. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE EDUARDO GALEANO
Somos o que fazemos, principalmente o que fazemos para mudar o que somos.
A obra do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


segunda-feira, dezembro 03, 2018

EDUARDO GALEANO, STÉPHANE GRAPPELLI, SARAH MEYOHAS & ALDEIA UNIDA PELO PARQUE


APONTAMENTOS DE VIAGEM – Imagem: arte da artista visual franco-americana Sarah Meyohas. - Uma vez, duas, mil vezes às ruas da cidade e o meu país é estampa corroída, como um dia e outro nunca na ironia do calendário. Olho e não me perco, apesar da travessia. O mundo cresce e todos morrem um dia, como se o canto vivo fosse reunião dos mortos que renascem e nem se sabe como outro dia o susto ressurreto, como se não tivessem existido e nada acontecesse. Agora ali na porta está o luto das imundícies, uma herança vil do ouro puro e sem sangue que tantos amofinam e não aguentam mais a vida soterrada nos cadernos das contas com seus medos de balas e bigodes, esparros e estultices. Porque no céu deles não existe nada e intranquilos temem, só sabem temer e temem, aliás, por eles mesmos, por serem eles mesmos fabricantes do terror e temem carrascos que também se tornam vítimas um dia e se quebram como um bisqui, vísceras e intestícios, e não restará nenhuma ameaça no pó, a poeira de cinza perecível, erosões, tremores: o vento arrasta tudo, a água lava tudo, o fogo queima tudo, a terra enterra tudo. E o poema errante e perdido entre tesouros desmoronados, desposses do inútil na estirpe de órfãos e matricidas com olhos que doem escancarados. Tudo pereceu ao meio dia e perderam os que queriam das asas da serpente ao topázio do rancor, as moedas do sol, o lugar incalculável com telhados estéreis, tudo desabado ao redor na pena instransferivel da sorte calcinada de minha pátria desfeita e a horrenda desgraça de quem desconhece a gratidão de quem agradece, o perdão de quem perdoa, o amor de quem ama. Só o meu canto vive ardente e fragrante com as pequenas e supremas celebrações do véu da luz ao caminhante cego que acha meu poema infiel, nunca foi, nem pode ser. Só o canto da viagem leva o peso dos golpes. Não há ninguém nem mel nas mãos, a lembrança é um relâmpago e chega para que eu cante na torre da tristeza e sorrio, passo a passo, voando com o vento para quem só tem para guardar os ossos. Tudo se move e eu conheço o movimento eterno do mar porque sou a chuva e não sei de muro, cercas, arames, fronteiras, a minha duradoura solidão como pungente violão alimentando amores e adeuses de desterrado: o destino não existe, o acaso inexiste. Na ausência da minha rua, passou o passado e o cofre vazio na paz profunda do elefante. O coração lateja de outro jeito, aos farrapos, ensanguentado, troando forte para retumbar no canto construído de uma estrela que brilha no céu de ásperos dias e duros tempos, na dor do esquecimento para quem não esqueceu entre cicatrizes e castigos: um homem entre a semente e o pó, a carta da mulher amada e o grande beijo nos lábios dela. Saúdo a solidão e beijo o abismo dos antigos sonhos, uma rosa na tempestade colhida ali onde nasci, uma pedra na primavera. Vou embora e me despeço de tudo e de todos, vou com meu violão e o canto a fundar todo dia a esperança e a flor do sorriso paratodos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colombia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de figueirinhas. — O mundo é isso — revelou — Um montão de gente, um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos são bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.
O mundo, extraído da obra O livro dos abraços (L&PM, 1991), do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

A ARTE DE SARAH MEYOHAS
A arte da artista visual franco-americana Sarah Meyohas.

AGENDA:
Aldeia Unida pelo Parque & muito mais na Agenda aqui.
&
Eu xexéu & Quintana passarinho, Carlos Drummond de Andrade, Hermilo Borba Filho & Virginia Gisele Carvalho, Victor Hugo, Djanira Silva. A multidão e o comum de Antonio Negri, Luiz Felipe Pondé, São Caetano, Rosana Paulino & Lori Shorin Clay, Sônia Mello & Ricardo Machado aqui.
&
É sim e como é que não pode, Josué de Castro, Thomas Mann, Autran Dourado, Jessier Quirino, Teatro de Pernambuco, Carlos Alberto Fernandes, Venturosa, Barbara Heinisch, Maria Callas & Toninho Horta aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do violonista francês de jazz, Stéphane Grappelli (1908-1997): Live in San Francisco, Umbia Jazz Festival, In Tokyo & com Baden Powell – La grande reunión & muito mais nos mais de 2 milhões & 900 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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sexta-feira, agosto 18, 2017

ARIANO, LYA LUFT, WALLON, AS VEIAS DE GALEANO, FECAMEPA, JOÃO DE CASTRO, RIVAIL, POLÍTICAS EM DEBATE & MANOCA LEÃO

A VIDA NA JANELA – Imagem: conversando com alunos do Ginásio Municipal dos Palmares - Ainda ontem flores reluziam no jardim ornando muros e passagens da infância pros que no futuro darão trabalho à humanidade, mas não, o futuro é agora e já passou, nada demais, já era apenas ontem, o que hoje se encontra na memória e ainda ontem o carnaval de todas as folias pra se esbaldar santos dias de gozo e mais tivesse para enforcar a quarta-feira de cinzas vindoura pra nunca mais ser como antes e só felicidade doravante e o ano inteiro, de agora em diante e nunca mais uma vida sisuda racional de pagamentos no fim do mês, de bater ponto atrasado todo dia e se estourar por semanas de labor mais sem graça e só poder viver apenas no final de semana, nunca mais ter que aturar patrões e chefias desalmadas na base da pilha carga toda e os dentes no pescoço exangue pra viver de chupar o sangue alheio no vampirismo mútuo uns aos outros famélicos hospedeiros que matam e morrem e são levados na enchente de muitos metros de água dentro de casa pro flagelo de ver a vida roubada lavando os pecados. Ainda ontem as procissões dos dias santificados ecoando seus passos no tempo como os cortejos fúnebres das velhas esperanças conduzidas pelas novas e resignadas esperanças já premidas de quase desesperança no meio da correria da farra do consumo pelas liquidações de queima de estoque incendiando cobiças de afetos largados para serem pisoteados pela satisfação de risos incontroláveis. Ainda ontem e eu pensava ser hoje e não, era o desfile de todos os sonhos de príncipe encantado da apaixonada eternamente adolescente, a dama seminua escultural do jovem príapo enamorado, o glamour dos semideuses das telas de todos os quadrantes para incendiar a libido das fãs mais ardorosas com os coloridos folguedos dos desejos e prazeres, os pais fracassados seguidos pelas mães viúvas de ontem na incompletude dos anseios diante do paraíso perdido no tempo e espaço das pontes e castelos que sumiram nas areias dos quintais mais remotos, as ingênuas geringonças quiméricas dos visionários mais ousados da loucura coletiva, o arrastado das longas barbas grisalhas dos silenciosos venerandos mestres vetustos com seus discípulos contritos, dos que chantageiam equívocos e vendem a alma na fabricação de equívocos tornados em verdades pra novos equívocos se perpetuarem nos anais históricos mais oficiais da mentira de tudo, ou dos que não sabem o que fazer no meio do semáforo entre o resolvido e as tensões do por resolver nas agonias dos desafios irresolvíveis que ficam pra amanhã e depois no esquecimento, e nunca mais ter que aguentar o bafo das políticas tacanhas dos bolsos graúdos de poço sem fundo, incapazes de transmitir a boa nova pela compulsória falácia de fazer pagar para ser entretido com suas promessas embusteiras a revelar virtudes não conquistadas, defeitos possuídos, oh, não! Ainda ontem parecia uma fotografia, uma pintura perfeita, viva na imaginação, mas não era, ainda ontem era hoje e a vida que passou na janela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

POLÍTICAS EM DEBATE
Neste sábado, a partir das 16hs, estarei no programa Políticas em Debate, na Rádio Farol FM 90,7, com apresentação de Manoca Leão.

A CRIANÇA E O ADULTO – Para a criança, só é possível viver sua infância. Conhecê-la compete ao adulto. Contudo, o que ira predominar nesse conhecimento, o ponto de vista do adulto ou o da criança? Se o homem sempre começou colocando-se a si mesmo em seus objetos de conhecimento, atribuindo a estes uma existência e uma atividade conformes à imagem que tem das suas, o quanto essa tentação não deve ser forte quando se trata de um ser que vem dele e deve tornar-se semelhante a ele – a criança, cujo crescimento ele vigia, guia e a quem muitas vezes lhe parece difícil não atribuir motivos ou sentimentos complementares aos seus. Para seu antropomorfismo espontâneo, quantas oportunidades, quantos pretextos, quantas aparentes justificativas! [...] Em suma, é o mundo dos adultos que o meio lhe impõe e disso decorre, em cada época, certa uniformidade de formação mental. Mas nem por isso o adulto tem o direito de só conhecer na criança o que põe nela. E, em primeiro lugar, a maneira como a criança assimila o que é posto nela pode não ter nenhuma semelhança com a maneira como o próprio adulto o utiliza. Se o adulto vai mais longe que a criança, a criança, à sua maneira, vai mais longe que o adulto. Tem disponibilidades psíquicas que outro meio utilizaria de outra forma. Várias dificuldades coletivamente superadas pelos grupos sociais já possibilitaram que muitas dessas disponibilidades se manifestassem. Com a ajuda da cultura, outras ampliações da razão e da sensibilidade não estão potencialmente na criança? Trechos extraídos da obra A evolução psicológica da criança (Martins Fontes, 2007), do filósofo, médico e psicólogo francês Henri Wallon (1879-1962). Veja mais aqui.

CENTO E VINTE MILHÕES DE CRIANÇAS NO CENTRO DA TORMENTA - Há dois lados na divisão internacional do trabalho: um em que alguns países especializam-se em ganhar, e outro em que se especializaram em perder. Nossa comarca do mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se abalançaram pelo mar e fincaram os dentes em sua garganta. Passaram séculos, e a América Latina aperfeiçoou suas funções. Este já não é o reino das maravilhas, onde a realidade derrotava a fábula e a imaginação era humilhada pelos troféus das conquistas, as jazidas de ouro e as montanhas de prata. Mas a região continua trabalhando como um serviçal. Continua existindo a serviço de necessidades alheias, como fonte e reserva de petróleo e ferro, cobre e carne, frutas e café, matérias-primas e alimentos, destinados aos países ricos que ganham, consumindo-os, muito mais do que a América Latina ganha produzindo-os. São muito mais altos os impostos que cobram os compradores do que os preços que recebem os vendedores [...] nós habitamos, no máximo, numa sub-América, numa América de segunda classe, de nebulosa identificação. É a América Latina, a região das veias abertas [...]. Trechos extraídos da obra As veias abertas da América Latina (Paz e Terra, 1979), do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015). Veja mais aqui.

VISÃO DO MUNDO - O mundo não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui forma, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. É uma ideia assustadora: vivemos segundo o nosso ponto de vista, com ele sobrevivemos ou naufragamos. Explodimos ou congelamos conforme nossa abertura ou exclusão em relação ao mundo. E o que configura essa perspectiva nossa? Ela se inaugura na infância, com suas carências nem sempre explicáveis. Mesmo se fomos amados, sofremos de uma insegurança elementar. Ainda que protegidos, seremos expostos a fatalidades e imprevistos contra os quais nada nos defende. Temos de criar barreiras e ao mesmo lançar pontes com o que nos rodeia e o que ainda nos espera. Toda essa trama de encontro e separação, terror e êxtase encadeados, matéria da nossa existência, começa antes de nascermos. Trecho de A marca no flanco, extraído da obra Perdas & Ganhos (Record, 2003), da escritora e tradutora gaúcha Lya Luft. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CONTRASTES FILOSÓFICOS – [...] Às vezes queremos muito alguma coisa e fazemos tudo para obtê-la, mas nossos esforços não levam a nada. Outras vezes, ao contrário, quando não fazemos senão esperar, quando somos somente pacientes, as coisas acontecem naturalmente. Parece, então, que nossa passividade agiu: fomos então ativos ou passivos? Talvez seja mesmo necessário agir sobre si mesmo para saber esperar. Da mesma maneira, pensamos às vezes que as paredes que sustentam o teto da casa são passivas, até o dia em que desmoronam. Vemos então como elas agiam de maneira eficaz. Concluímos, então, que tudo age sobre tudo sem que o percebamos. Tudo pode, portanto, ser considerado, ao mesmo tempo, ativo e passivo. [...] Trecho extraído da obra O livro dos grandes contrastes filosóficos (Log On, 2008), de Oscar Brenifier e Jacques Després.

COISAS DO AMOR - [...] Pelas quatro horas da tarde, avistou-se a “Estrela da Manhã” e ela correu para avisar Fernando. O doente estava muito mal e, quando avistou Isaura, olhou-a com terrível expressão de ansiedade. – Isaura – falou ele – já se avista a Barcaça? – Já! – respondeu a mulher, com o coração batendo no peito com tanta força que ela se sentia sufocada. – E a bandeira está içada no mstrou? – perguntou ainda o marido. – Está, sim! – disse Isaura; e acrescentou, antes que um bom impulso pudesse detê-la: - Mas não é branca como você disse não, é treta! – Então não posso mais! – falou Fernando, como se sua dor fosse tanta que ele não pudesse reter a vida por mais tempo. Seus olhos fecharam-se e ele deixou pender a cabeça. – Fernando! – gritou sua mulher desesperada e só agora acordando para a gravidade do que fizera. – Fernand0, não é verdade! A bandeira é branca. Mas era tarde. Fernando acabara de morrer. [...]. Trecho extraído da obra A história de amor de Fernando e Isaura (Bagaço, 1994), do escritor e dramaturgo Ariano Suassuna (1927-2014). Veja mais aqui, aqui & aqui.

ÚLTIMAS DO FECAMEPA
Ministério da Saúde informa: use seringa por oito vezes, mas se contaminar, jogue fora, doido!
Ministério da Educação informa: Ninguém precisa mais estudar! Quem quiser aprender que pague!
Isto é Brasilsilsilsilsilsil! Veja mais Fecamepa aqui e aqui.

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ÁGUA VIDA ÁGUA
Mas que momento difícil
Que Deus vem me inspirar
Para falar de “Água Vida”
Pra humanidade salvar
Num curto espaço de tempo
Este livro vai marcar
Deus, como escreves certo
“Por linhas tortas o ditado”
Um mundo cheio de encrencas
Que por ti é observado
É uma luta desigual
Contra o mal e o pecado
A Água é Vida, é tudo
Sem ninguém compreender
Por isso desperdiçam tanto
No futuro pode não ter
É isso que a humanidade
Preciso logo saber
Por mais que nós eduquemos
Ninguém procura saber
Nem sabem da importância
Do que se faz pra viver
Por isso desperdiçam tudo
Coisas do “ser ou não ser?”
Seja a Água Potável
Ou a de Igarapé
Seja as dos Grandes Rios
Temos é que botar fé...
Mas o povo não entende
Valei-nos! Maria de Nazaré
Acham por que a Amazônia
Tem o grande potencial
Da Água desse Planeta
Nunca vai faltar, que tal?
Mas se esquecem duma coisa:
Da devastação que é o mal
[...]
Trecho extraído da obra Água, Vida Água (Autor, 2011), do poeta e ativista cultural João de Castro.

A arte de Rivail Azevedo.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quarta-feira, agosto 09, 2017

JOAQUIM CARDOZO, ROGERS, BORNHEIM, O FUTEBOL DE GALEANO, FARNESE DE ANDRADE, PSICOLOGIA & EDUCAÇÃO AMBIENTAL

DESMANTELOS SEM REMISSÃO – Imagem do pintor, escultor, desenhista, gravador e ilustrador Farnese de Andrade (1926-1996) - João tinha muitos amigos, de copos e de farras. Era amável, afobado sim, raivoso nunca, exceto com pusilanimidade, grosserias, palavras desastrosas. Zangava-se vez ou outra, raramente, tinha lá seus motivos. Era comum nem se atormentar com nada, levava a vida na prosa, às risadagens. Não tinha inimizades, caçoava de todos, estreitos laços de amizade. Uma censura aos seus modos, relevava com muxoxo e saía qual raio, para se render ao perfume cativante das saias femininas, a sua perdição. Tinha lá suas extravagâncias, nem parecia haver um inferno em ebulição dentro dele, mar agitado de águas pútridas fervendo no peito, fera indomável. Coisa de amor desfeito, paixão recolhida envenenando seu ser. Ninguém sabia, vaidade ferida, destronado, coisa só dele. Disso nem falava, só dizia que coração de mulher era terreno de areia movediça, coisa que esconde o reino das traições. Ele se ria e mudava de assunto, coisa de se vingar com o pé no acelerador do automóvel na maior das carreiras, ou na montaria de um cavalo zarpando terra afora, ou na pesca de mão de peixes no rio ou no mar, força brava no roçado, levando mata nos peitos, tudo aos extremos, violência do muque na força do pulso, coisas de derrotar. Era assim que se vingava de dele só. Fosse longe, vencia em instantes; fosse firme, derrubava toras; fosse pedra, arrancava com brutalidade. Era como se vingava do amor perdido. Corria mundo e em alta velocidade: um dia tu te estupora, João. Ele, nem nem. Houvesse limite, era pra superar. Invencível, desconhecia adversário, fosse quem viesse, sempre campeão de si. Dava vazão ao seu orgulho, diligente, perdia as estribeiras, desafiava a si de nem ser indulgente e se esforçava para ser o melhor, efeitos devastadores. Até que uma curva, um seixo, o inopinado: estrepou-se de quase se desmanchar carcaça toda. Não havia osso que não fosse fraturado, face irreconhecível, corpo destroçado, tudo rendido e inutilizado. Cadeira de rodas, imóvel. Quase nem batia os olhos, não falava, vegetava. Hoje só tem olhos pra chorar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RECIFE – VÁRZEA: ÚLTIMO RETORNO
 
Joaquim Cardozo

Terra macia, formada de muitos longes
Trazidos pelas águas.
- Essa terra do meu nascer alhures
Que seja, e seja, e seja, no fim, no sempre,
A minha terra de morrer.
Entre as bátegas de chuva:
- Das suas chuvas de junho até setembro...
- (Depois... Depois.... Quando depois...) – talvez se ouça ainda
O meu bater de coração.
Entre palmas e franjas de espuma branca,
Entre ramos de renda verde,
Um pouco do ar, que nessa terra respirei,
Passará, sem que ninguém disso se aperceba,
Na aragem das manhãs.
E os meus pés sepultados,
Meus pés, e o percorrido por meus pés,
Mergulhados, confundidos, sedimentados
Na espessura desses longes,
- Tímidos, incertos, sem destino –
Por baixo do chão dos seus caminhos
Continuarão a caminhar.
Poema extraído de Réquiem por uma vida desnecessária, das Poesias Completas (Civilização Brasileira/MEC/INL, 1971), do poeta, dramaturgo, engenheiro civil, desenhista, professor e editor Joaquim Cardozo (1897-1978). (Imagem: Visão Romântica do Porto de Recife (1930), do artista plástico Cícero Dias). Veja mais aqui.

RETRANCAS DO FUTEBOL E DECEPÇÕES - Como todos os meninos uruguaios, eu também quis ser jogador de futebol. Jogava muito bem, era uma maravilha, mas só de noite, enquanto dormia: de dia era o pior perna-de-pau que já passou pelos campos do meu país. [...] Os anos se passaram, e com o tempo acabei assumindo minha identidade: não passo de um mendigo do bom futebol. Ando pelo mundo de chapéu na mão, e nos estádios suplico: - Uma linda jogada, pelo amor de Deus! E quando acontece o bom futebol, agradeço o milagre – sem me importar com o clube ou o país que o oferece. [...] foi uma Copa sem surpresas. Um espectador a resumiu assim: - Os jogadores têm uma conduta exemplar. Não fumam, não bebem, não jogam. Os resultados recompensaram isso que agora chamam de sentido prático. Viu-se pouca fantasia. Os artistas deram lugar aos levantadores de peso e aos corredores olímpicos, que ao passar chutavam uma bola ou um adversário. Todos atrás, quase ninguém na frente. Uma muralha chinesa defendendo o gol e algum Cavaleiro Solitário esperando o contra-ataque. Até poucos anos atrás, os atacantes eram cinco. Agora só resta um, e nesse ritmo não ficará nenhum. Como comprovou o zoólogo Roberto Fontanarrosa, o atacante e o urso panda são espécies em extinção. Trecho extraído da obra Futebol ao sol e à sombra (L&PM, 2009), do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015). Veja mais aqui, aqui & aqui.

CRISE & EDUCAÇÃO AMBIENTAL - Torna-se necessário introduzir, nos processos de planejamento, estratégias participativas que venham a se apoiar nas forças utópicas da democracia radical e nas forças distópicas de destruição não pacifista, provocada pelos inconciliáveis antagonismos, sócio-politico-culturais, entre indivíduos, grupos e sociedades. Ou seja, a participação passa a ser vista, assim, como uma forma estratégica de interrelacionar – através da critica, técnico-política, das ações de planejamento – “kultur” e “zivilization”, harmonizando-se na direção de um bem-comum, como um futuro compartilhado possível. Sob tal perspectiva, o impacto “mundializado” da crise ambiental origina-se em conflitos racionais advindos da aplicação de referências da realidade baseadas nas teorias científicas da natureza, mas propaga-se mobilizando-se sobre provocações de cunho ético-humanístico – sobre uma crítica latente do “ocidente” como civilização, abrindo-se como ponto de cisão entre alternativas de futuro no confronto cultura-natureza e suas interações. A crise ambiental é, portanto, uma crise política da razão, que não encontra significações dentro do esquema de representações científicas existentes para o reconhecimento da natureza social do mundo, que foi histórica, técnica e civilizatoriamente produzida. Uma crise política da razão frente à não explicação da natureza social da natureza e de suas implicações sobre o conhecimento e suas relações com a sociedade e o futuro. [...] Trecho do ensaio O pensamento contemporâneo e o enfrentamento da crise ambiental: uma análise desde a psicologia social, da física e pós-doutora em Ciências Sociais, Edla Terezinha de Oliveira Tassara, extraído da obra Pensar o ambiente: bases filosóficas para a educação ambiental (MEC/SECAD, 2009), organizado por Isabel Cristina de Moura Carvalho, Mauro Grün e Rachel Trajber. Veja mais aqui, aqui & aqui.

O SISTEMA & O FILOSOFAR - O comportamento originante do filosofar e a possibilidade de esclarecer a problemática que tal comportamento coloca [...] parte do pressuposto de que a coloração fundamental de uma filosofia já se determina, em certo sentido, a partir mesmo da atitude inicial assumida por todo filósofo. Trata-se, portanto, de problemática implicada no ponto de partida do filosofar. Referimo-nos ao filosofar. [...] A atitude inicial do filósofo determina o caráter último de sua filosofia. Mas esta determinação, profundamente enraizada no ato de filosofar, não deve ser confundida com o problema do primeiro princípio filosófico, com a primeira afirmação, a partir da qual um determinado filósofo poderá alicerçar e desdobrar o todo de seu pensamento, obediente à incoercitível tendência para a sistematização, que é inerente à natureza mesma da filosofia. [...] Em verdade, a ideia de sistema traz consigo todos os quesitos do que deva ser um problema: responde a um anseio legitimo e inscreve-se na própria natureza do real. O que deve ser repensado é o sistema, não enquanto decorrência do processo entificador do ser, e sim enquanto abertura para a diferença ontológica. Não se trata, pois, de fundar o sistema dedutivamente em um ente determinado, mas de pensar a sua possibilidade a partir da diferença ontológica. Trechos extraídos da obra Introdução ao filosofar: o pensamento filosófico em bases existenciais (Globo, 1978), do filósofo, professor e crítico de teatro brasileiro Gerd Bornheim (1929-2002). Veja mais aqui, aqui e aqui.

ADAPTAÇÃO DO INDIVÍDUO - O interesse constante e crescente pelo indivíduo e sua adaptação é talvez um dos fenômenos mais importantes do nosso tempo. Mesmo a guerra e a propaganda serviram para pôr em evidencia a ideia fundamental da importância do individuo e do seu direito a uma adaptação satisfatória como um dos elementos dos nossos objetivos bélicos. [...]. É absolutamente vital reconhecer que o processo que ocorre na entrevista é tão delicado que as suas potencialidades de desenvolvimento podem ser inteiramente destruídas pela manipulação forçada que caracteriza a maior parte das nossas relações. Compreender as forças sutis que atuam, reconhecer e cooperar com elas exige a máxima concentração e o maior estudo, e o caráter integral dos relatórios que descrevem o processo. Trechos extraídos da obra Psicoterapia e consulta psicológica (Martins Fontes, 1987), do psicólogo norte-americano e criador da abordagem psicoterapeuta Terapia Centrada na Pessoa, Carl Rogers (1902-1987). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Imagem: arte do pintor, escultor, desenhista, gravador e ilustrador Farnese de Andrade (1926-1996). Veja mais aqui.

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DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...