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terça-feira, agosto 29, 2017

LEWIS CARROLL, ROGERS, DEJOURS, CESAR LEAL, ANSIEDADE, GINÁSIO MUNICIPAL, CIDADANIA & MOBILIDADE URBANA

O BRASIL ÀS AVESSAS NA HORA DA CRISE - Quando alguém me pergunta sobre o Brasil, a primeira imagem que me aparece no quengo é aquela do indivíduo cabeça de fósforo, bicudo de endinheirado, entrando numa daquelas lojas de magazine do tipo hipermercado, pegando um velocípede embaixo do sovaco, uma vassoura e um rodo pruma faxina de limpeza das brabas nas intimidades do recinto domiciliar, uma lata de queijo do reino, uma caçamba de ovos e um botijão de vinho pra comemoração inusitada e, no caixa, mandando fazer um embrulho só pra presente prele mesmo, ora! Isso porque ele presenciou o discurso de uma daquelas raposas vetustas dos políticos profissionais que há mais de 50 anos mamam nas tetas dos municípios e da capital estadual, ao assumir uma das secretarias berrando aos microfones & alto-falantes: - Nos últimos 50 anos este estado sucumbiu às más gestões e à corrupção de políticos incompetentes. A partir de agora, todos verão, assume quem vai fazer deste estado o mais promissor da nação! Tenho dito! Aí, nessa hora, grita um gaiato da plateia: - Ô, meu, onde é que tu tava esses anos todos, hem? Tuf! Um tiro no próprio pé. Mais feliz ainda com o anúncio do Ministério da Educação de que ninguém precisa mais estudar! Nunca vi tanta gente impando de satisfação, ainda ontem eu vi um dizendo: - Eu mesmo, se soubesse quem inventou estudo, mandava matar! Afora ser este país o último dos últimos: o último a abolir a escravatura (e de quê jeito, hem?), o último a ficar independente, a se tornar República (e que ré-pública!), só não é o pior em Educação porque ainda restam o Haiti, Ruanda e Porto Príncipe, salvou-se da lanterninha. Ah, mas aqui é o país do deixa pra lá ou, se tem que tomar providência que seja pra amanhã, que hoje não dá! Está precisando? Vá ver se estou na esquina! Pois é, quem sabe, de Brasil em Brasil a gente um dia faça um que preste, um que saiba porque a gente escreve com “S”, enquanto o mundo todo só sabe com “Z”, e que mostre pra gente como é que tudo foi de verdade! Porque o de agora, ah, não, parece que se a gente deu uns dois ou três passos com um pinote pra frente, de um dia desses pra cá deu uns trocentos pra trás, isso sem falar do cai-cai, do se segura que lá vem queda, do balança quase cai, afora as prioridades mais duvidosas que ninguém sabe se é enredo pros Irmãos Metralhas ou pro Ali Babá com seus mais de quatrocentos e tantos ladrões. Entre gatunildos e ladronaldos, salva-se quem? O que é certo é que tem muita gente que ainda não entendeu a fita, só se perguntando: - O que é que tá havendo, hem? Como é mesmo? Sei que já tem gente pedindo penico, outros tantos pedindo parada pra descer. Onde vai parar, ninguém sabe. A sensação que fica é que a coisa vai desgovernada, só esperando o desmantelo! Já que vai rachado no meio, um rachão a mais só aumenta a corda de guaiamum, mais nada, rachado por um, rachado por mil. E tome bola pra frente que o campeonato é só no tapetão e, por favor, que não venha alemão passear na nossa frente que agora aqui tudo é perna-de-pau, avisei! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

GINÁSIO MUNICIPAL DOS PALMARES
[...] Naqueles tempos, no currículo existia a música como disciplina obrigatória. O Ginásio teve mais de um professor de música. A professora Celecina, o professor José da Justa e outros. Quando comecei a ensinar, tínhamos como professor José da Justa. Além da cadeira de música ele criou um orfeão. Foi muito importante para p Ginásio o orfeão de José da Justa. Mais de uma vez exibiu-se em festas religiosas e cívicas, não somente em Palmares, como em outras cidades vizinhas. Claro que sempre alcançou nota dez. atualmente estamos procurando reviver o orfeão. Não sei se é coral ou orfeão a designação atual. Sei que contamos com o velho mestre  José da Justa, gerou da campanha da Princesa e do atinado piston que toca como gente grande. Ao alinhavarmos a vida do Ginásio temos que relatar fatos deploráveis e fatos mais ou menos jocosos. O que não podemos é omiti-los sob pena de prejudicar a verdade. [...].
Trecho do livro Contribuição à história do Ginásio Municipal dos Palmares, do Professor Brivaldo Leão de Almeida, lançado pela Prefeitura dos Palmares, em 1992. Veja mais aqui e aqui.

A AMPLITUDE DA REEDUCAÇÃO – À medida que o cliente ganha a consciência e a autocompreensão, dá-se uma alteração nítida do caráter da relação terapêutica. O cliente fica sob menos tensão. Aborda com mais confiança os seus problemas. Tenta com menos freqüência pôr-se na dependência do psicólogo e mostra que trabalha melhor com ele. A relação torna-se mais genuinamente cooperadora e em que ambos, consultor e cliente, analisam os próximos passos a dar no sentido da maior independência do segundo. Como o cliente desenvolveu a capacidade de se acietar como é, tem uma atitude menos defensiva e é capz de apreciar de forma mais construtiva as sugestões e os conselhos, embora seja duvidoso que se ganhe muito fazendo-lhe sugestões, mesmo nesta fase do tratamento. O cliente tem, não raramente, necessidade de informação que o ajude a atingir os seus novos objetivos e o psicólogo está apto a fornecer-lhe esse conhecimento ou pode-se indicar outras fontes a que se dirigir. [...]. Trechos extraídos da obra Psicoterapia e consulta psicológica (Martins Fontes, 1987), , do psicólogo norte-americano e criador da abordagem psicoterapeuta Terapia Centrada na Pessoa, Carl Rogers (1902-1987). Veja mais aqui, aqui e aqui.

CIDADANIA & MOBILIDADE URBANA – A primeira atitude a ser tomada em respeito à cidadania é analisar como ocorre a mobilidade de sua cidade ou no seu bairro. Isto permitirá que você comece a avaliar não apenas o comportamento das outras pessoas mas também o seu comportamento no trânsito. A partir deste conhecimento inicial você poderá rever o que acontece hoje e reorganizar a sua participação no trânsito, de forma a torná-la mais “cidadã”. [...] Você vai se surpreender ao constatar que é possível alterar seus hábitos com pouco de esforço e desta forma contribuir para um trânsito mais seguro e ambientalmente saudável. [...]. Trechos extraídos da obra Mobilidade urbana e cidadania (Senac, 2012) do sociologo e engenheiro civil doutor em Políticas Públicas, Eduardo Alcântara Vasconcellos. Veja mais aqui.

O PAÍS DAS MARAVILHAS DE ALICE - [...] ela imaginou como aquela sua irmãzinha pequena, em algum tempo, ia se transformar em mulher feita. E como ela guardaria, nos anos maduros, o coração simples e amoroso de sua infância. E como reuniria em volta de si outras crianças, seus filhos, e faria seus olhinhos ficarem brilhantes e curiosos, com muitas histórias estranhas, talvez mesmo o sonho que tivera com o País das Maravilhas muito tempo antes. E como ela sentiria todas as tristezas simples que eles sentissem e teria prazer com todas as suas alegrias singelas, lembrando sua própria vida de criança e os dias felizes de verão. Trecho extraído da obra Alice no País das Maravilhas (Ática, 1989), do escritor, desenhista, fotografo e matemático Lewis Carroll (1832-1898). Veja mais aqui e aqui.

A LOUCURA DO TRABALHO - [...] a organização do trabalho exerce, sobre o homem, uma ação específica, cujo impacto é o aparelho psíquico. Em certas condições, emerge um sofrimento que pode ser atribuído ao choque entre uma história individual, portadora de projetos, de esperanças e de desejos, e uma organização do trabalho que os ignora. Esse sofrimento, de natureza mental, começa quando o homem, no trabalho, já não pode fazer nenhuma modificação na sua tarefa no sentido de torná-la mais conforme às suas necessidades fisiológicas e a seus desejos psicológicos – isso é, quando a relação homem-trabalho é bloqueada. [...] O trabalho repetitivo cria a insatisfação, cujas consequências não se limitam a um desgosto particular. Ela é de certa forma uma porta de entrada para a doença, e uma encruzilhada que se abre para as descompensações mentais ou doenças somáticas, em virtude de regras que foram, em grande parte, elucidadas. [...] Considerando o lugar dedicado ao trabalho na existência, a questão é saber que tipo de homens a sociedade fabrica através da organização do trabalho. Entretanto, o problema não é, absolutamente, criar novos homens, mas encontrar soluções que permitiriam pôr fim à desestruturação de um certo número deles pelo trabalho. Trechos extraídos da obra A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho (Cortez/Oloré, 1987), do psiquiatra e psicanalista francês especialista em medicina do trabalho, Christophe Dejours. Veja mais aqui.

ANSIEDADE & OS DIAS DE HOJE - [...] Todas as ansiedades que atribulam a vida do ser humano, em geral, são aquelas que podem ser atribuídas ao fracasso da pessoa em estar certa de algum, valor que perdurará, a despeito do que mais possa acontecer. As incertezas, medos, preocupações, superstições e outros problemas, existentes na vida das pessoas, devem-se principalmente ao fato de que a pessoa está sob a impressão de que aquilo que tem valor para ela pode lhe ser arrebatado. Em tais circunstâncias, ela sente-se frustrada e tem a sensação de que nada lhe pode dar apoio em momento de necessidade para se adaptar a um ambiente novo ou modificado. O que o indivíduo precisa é de um senso de valores que não esteja relacionado com as ansiedades que atribulam cada dia. Esses valores terão de ser valores que não pertençam ao mundo material. São valores do espírito, aqueles que vêm da própria força vital que, afinal, é a essência do homem. [...] Parece-me que as ansiedades do dia-a-dia nos acompanharão por toda vida. Não nos livramos delas; aprendemos a viver com elas e delas. Somente a paciência e a perseverança ocasionarão esse fim almejado. [...] Esse deveria ser o objetivo da vida, ir mais longe do que jamais acreditamos ser possível. Precisamos não só nos dirigir para o crescimento como também temos de fixar metas e ideais que estão muito além de nosso alcance no mento, mas rumo aos quais nos podemos dirigir, lembrando que a paciência e a perseverança são as chaves. Essas metas ajudarão a aliviar as ansiedades que nos atribulam a vida. Trechos extraídos da obra Ansiedade: um obstáculo entre o homem e a felicidade (Renes, 1978), do escritor e pesquisador místico estadunidense Cecil A. Poole (1907-1989). Veja mais aqui.

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CANÇÃO AO AMANHECER
Entre as chuvas e o Sol
Este canto tão puro,
Esta língua de fogo,
Estes vulcões ocultos,
Este veludo claro,
Estas palavras secas,
Esta colina aérea,
Este sol cor de seda,
Esta luz nas varandas,
Esta fala dos deuses,
Esta fome de canto,
Fome de canto ou sede?
Cabelos de cristal,
Alamedas de estrelas,
Brancas barbas de sal,
Alvas asas lhes selam,
Olhos fluviais nos lagos
Da face, fitam o mar,
O tempo sem correnteza
Está sempre a passar.
Poema extraído da obra O arranha-céu e outros poemas (Tempo Brasileiro, 1994), do poeta, jornalista, professor e crítico literário Cesar Leal (1924-2013).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quarta-feira, agosto 09, 2017

JOAQUIM CARDOZO, ROGERS, BORNHEIM, O FUTEBOL DE GALEANO, FARNESE DE ANDRADE, PSICOLOGIA & EDUCAÇÃO AMBIENTAL

DESMANTELOS SEM REMISSÃO – Imagem do pintor, escultor, desenhista, gravador e ilustrador Farnese de Andrade (1926-1996) - João tinha muitos amigos, de copos e de farras. Era amável, afobado sim, raivoso nunca, exceto com pusilanimidade, grosserias, palavras desastrosas. Zangava-se vez ou outra, raramente, tinha lá seus motivos. Era comum nem se atormentar com nada, levava a vida na prosa, às risadagens. Não tinha inimizades, caçoava de todos, estreitos laços de amizade. Uma censura aos seus modos, relevava com muxoxo e saía qual raio, para se render ao perfume cativante das saias femininas, a sua perdição. Tinha lá suas extravagâncias, nem parecia haver um inferno em ebulição dentro dele, mar agitado de águas pútridas fervendo no peito, fera indomável. Coisa de amor desfeito, paixão recolhida envenenando seu ser. Ninguém sabia, vaidade ferida, destronado, coisa só dele. Disso nem falava, só dizia que coração de mulher era terreno de areia movediça, coisa que esconde o reino das traições. Ele se ria e mudava de assunto, coisa de se vingar com o pé no acelerador do automóvel na maior das carreiras, ou na montaria de um cavalo zarpando terra afora, ou na pesca de mão de peixes no rio ou no mar, força brava no roçado, levando mata nos peitos, tudo aos extremos, violência do muque na força do pulso, coisas de derrotar. Era assim que se vingava de dele só. Fosse longe, vencia em instantes; fosse firme, derrubava toras; fosse pedra, arrancava com brutalidade. Era como se vingava do amor perdido. Corria mundo e em alta velocidade: um dia tu te estupora, João. Ele, nem nem. Houvesse limite, era pra superar. Invencível, desconhecia adversário, fosse quem viesse, sempre campeão de si. Dava vazão ao seu orgulho, diligente, perdia as estribeiras, desafiava a si de nem ser indulgente e se esforçava para ser o melhor, efeitos devastadores. Até que uma curva, um seixo, o inopinado: estrepou-se de quase se desmanchar carcaça toda. Não havia osso que não fosse fraturado, face irreconhecível, corpo destroçado, tudo rendido e inutilizado. Cadeira de rodas, imóvel. Quase nem batia os olhos, não falava, vegetava. Hoje só tem olhos pra chorar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RECIFE – VÁRZEA: ÚLTIMO RETORNO
 
Joaquim Cardozo

Terra macia, formada de muitos longes
Trazidos pelas águas.
- Essa terra do meu nascer alhures
Que seja, e seja, e seja, no fim, no sempre,
A minha terra de morrer.
Entre as bátegas de chuva:
- Das suas chuvas de junho até setembro...
- (Depois... Depois.... Quando depois...) – talvez se ouça ainda
O meu bater de coração.
Entre palmas e franjas de espuma branca,
Entre ramos de renda verde,
Um pouco do ar, que nessa terra respirei,
Passará, sem que ninguém disso se aperceba,
Na aragem das manhãs.
E os meus pés sepultados,
Meus pés, e o percorrido por meus pés,
Mergulhados, confundidos, sedimentados
Na espessura desses longes,
- Tímidos, incertos, sem destino –
Por baixo do chão dos seus caminhos
Continuarão a caminhar.
Poema extraído de Réquiem por uma vida desnecessária, das Poesias Completas (Civilização Brasileira/MEC/INL, 1971), do poeta, dramaturgo, engenheiro civil, desenhista, professor e editor Joaquim Cardozo (1897-1978). (Imagem: Visão Romântica do Porto de Recife (1930), do artista plástico Cícero Dias). Veja mais aqui.

RETRANCAS DO FUTEBOL E DECEPÇÕES - Como todos os meninos uruguaios, eu também quis ser jogador de futebol. Jogava muito bem, era uma maravilha, mas só de noite, enquanto dormia: de dia era o pior perna-de-pau que já passou pelos campos do meu país. [...] Os anos se passaram, e com o tempo acabei assumindo minha identidade: não passo de um mendigo do bom futebol. Ando pelo mundo de chapéu na mão, e nos estádios suplico: - Uma linda jogada, pelo amor de Deus! E quando acontece o bom futebol, agradeço o milagre – sem me importar com o clube ou o país que o oferece. [...] foi uma Copa sem surpresas. Um espectador a resumiu assim: - Os jogadores têm uma conduta exemplar. Não fumam, não bebem, não jogam. Os resultados recompensaram isso que agora chamam de sentido prático. Viu-se pouca fantasia. Os artistas deram lugar aos levantadores de peso e aos corredores olímpicos, que ao passar chutavam uma bola ou um adversário. Todos atrás, quase ninguém na frente. Uma muralha chinesa defendendo o gol e algum Cavaleiro Solitário esperando o contra-ataque. Até poucos anos atrás, os atacantes eram cinco. Agora só resta um, e nesse ritmo não ficará nenhum. Como comprovou o zoólogo Roberto Fontanarrosa, o atacante e o urso panda são espécies em extinção. Trecho extraído da obra Futebol ao sol e à sombra (L&PM, 2009), do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015). Veja mais aqui, aqui & aqui.

CRISE & EDUCAÇÃO AMBIENTAL - Torna-se necessário introduzir, nos processos de planejamento, estratégias participativas que venham a se apoiar nas forças utópicas da democracia radical e nas forças distópicas de destruição não pacifista, provocada pelos inconciliáveis antagonismos, sócio-politico-culturais, entre indivíduos, grupos e sociedades. Ou seja, a participação passa a ser vista, assim, como uma forma estratégica de interrelacionar – através da critica, técnico-política, das ações de planejamento – “kultur” e “zivilization”, harmonizando-se na direção de um bem-comum, como um futuro compartilhado possível. Sob tal perspectiva, o impacto “mundializado” da crise ambiental origina-se em conflitos racionais advindos da aplicação de referências da realidade baseadas nas teorias científicas da natureza, mas propaga-se mobilizando-se sobre provocações de cunho ético-humanístico – sobre uma crítica latente do “ocidente” como civilização, abrindo-se como ponto de cisão entre alternativas de futuro no confronto cultura-natureza e suas interações. A crise ambiental é, portanto, uma crise política da razão, que não encontra significações dentro do esquema de representações científicas existentes para o reconhecimento da natureza social do mundo, que foi histórica, técnica e civilizatoriamente produzida. Uma crise política da razão frente à não explicação da natureza social da natureza e de suas implicações sobre o conhecimento e suas relações com a sociedade e o futuro. [...] Trecho do ensaio O pensamento contemporâneo e o enfrentamento da crise ambiental: uma análise desde a psicologia social, da física e pós-doutora em Ciências Sociais, Edla Terezinha de Oliveira Tassara, extraído da obra Pensar o ambiente: bases filosóficas para a educação ambiental (MEC/SECAD, 2009), organizado por Isabel Cristina de Moura Carvalho, Mauro Grün e Rachel Trajber. Veja mais aqui, aqui & aqui.

O SISTEMA & O FILOSOFAR - O comportamento originante do filosofar e a possibilidade de esclarecer a problemática que tal comportamento coloca [...] parte do pressuposto de que a coloração fundamental de uma filosofia já se determina, em certo sentido, a partir mesmo da atitude inicial assumida por todo filósofo. Trata-se, portanto, de problemática implicada no ponto de partida do filosofar. Referimo-nos ao filosofar. [...] A atitude inicial do filósofo determina o caráter último de sua filosofia. Mas esta determinação, profundamente enraizada no ato de filosofar, não deve ser confundida com o problema do primeiro princípio filosófico, com a primeira afirmação, a partir da qual um determinado filósofo poderá alicerçar e desdobrar o todo de seu pensamento, obediente à incoercitível tendência para a sistematização, que é inerente à natureza mesma da filosofia. [...] Em verdade, a ideia de sistema traz consigo todos os quesitos do que deva ser um problema: responde a um anseio legitimo e inscreve-se na própria natureza do real. O que deve ser repensado é o sistema, não enquanto decorrência do processo entificador do ser, e sim enquanto abertura para a diferença ontológica. Não se trata, pois, de fundar o sistema dedutivamente em um ente determinado, mas de pensar a sua possibilidade a partir da diferença ontológica. Trechos extraídos da obra Introdução ao filosofar: o pensamento filosófico em bases existenciais (Globo, 1978), do filósofo, professor e crítico de teatro brasileiro Gerd Bornheim (1929-2002). Veja mais aqui, aqui e aqui.

ADAPTAÇÃO DO INDIVÍDUO - O interesse constante e crescente pelo indivíduo e sua adaptação é talvez um dos fenômenos mais importantes do nosso tempo. Mesmo a guerra e a propaganda serviram para pôr em evidencia a ideia fundamental da importância do individuo e do seu direito a uma adaptação satisfatória como um dos elementos dos nossos objetivos bélicos. [...]. É absolutamente vital reconhecer que o processo que ocorre na entrevista é tão delicado que as suas potencialidades de desenvolvimento podem ser inteiramente destruídas pela manipulação forçada que caracteriza a maior parte das nossas relações. Compreender as forças sutis que atuam, reconhecer e cooperar com elas exige a máxima concentração e o maior estudo, e o caráter integral dos relatórios que descrevem o processo. Trechos extraídos da obra Psicoterapia e consulta psicológica (Martins Fontes, 1987), do psicólogo norte-americano e criador da abordagem psicoterapeuta Terapia Centrada na Pessoa, Carl Rogers (1902-1987). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

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Imagem: arte do pintor, escultor, desenhista, gravador e ilustrador Farnese de Andrade (1926-1996). Veja mais aqui.

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segunda-feira, fevereiro 15, 2016

ROGERS, PALLOTTINI, BERGSON, OLALLA COCIÑA, TAREK HEGGY, PAULA HAWKINS, GEETA TRIPATHEE & RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS

 


RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS - OS OLHOS DO RIO: NO MUNDO DOS HOMENS NUNCA DEI CERTO! - Como tudo aconteceu? Explico! Primeiro, minhas desculpas pela minha última visita apressada. É que me assustei com as sirenes, sabe como é, nunca se sabe, né? Ainda por cima bati o bico da bota na perna da mesa, causei um estrago, reitero as escusas. Não foi de propósito, tenho que preservar a minha integridade e a sua. Estavam perto demais. Desculpas, insisto. Sou espalhado. Para mim não há estações ou calendário, só dias de sol ou de chuva. Não tenho respostas, muitas perguntas, apenas papear é o que interessa. Pois bem, como tudo começou... Era uma vez, sexta-feira, dia de São Nunca de tarde. Baforava às tragadas, encolhido no chão e encostado numa amendoeira, pensando na vida. Eu havia remado muito e resolvi avaliar tudo que passou. Era um local conhecido para atravessar o povo de um lado a outro do rio, quem ia pro colégio, ou pros afazeres, negócios, coisas do interesse deles, afinal sou canoeiro, vivo disso, ou pelo menos. Gosto das águas, me fascinam, sou delas, como sou das lavadeiras e de todas as mulheres. Assim, como o rio corre para se diluir no mar, nada está em definitivo, sempre escorre, a gente que não sabe para onde. Tanto que a minha vida toda não sei se sonhei ou se vivi, não há lógica em nada, nem precisa. Naquela tardinha quase noite já escurecendo, inesperadamente ouvi passos que vinham em minha direção. Quem poderia ser? Fiquei de mutuca, não sou besta para me pegar na virada e, atilado na hora, pronto pro que desse e viesse. Sempre confiei no meu taco, mas precaução nunca é demais. Agucei as ouças, tentei identificar pelas passadas e logo vi que era uma mulher e estava atordoada. O senhor é o jangadeiro? Sim. Graças a Deus! Pode me levar pro outro lado, tem que ser rápido, meu carro quebrou lá em cima e eu preciso de um mecânico urgente, antes que o levem e só fique o lugar mais limpo. Posso ajudar? Claro que pode, é só me atravessar que vou atrás do rapaz que conserta. Posso ver o seu carro? Você é mecânico? Não, mas nunca fiquei empancado em estrada alguma. Bem, se você acha que é capaz de resolver o meu problema, vamos lá, tomara que resolva senão vou me atrasar e perder a viagem. Vamos. E ela subiu às carreiras, estava mesmo apressada por resolver o problema, alguma urgência incomodava. Sabia quem era, fiz que não. Depois de vencer a ribanceira, andamos um pouco no acostamento e chegamos ao veículo. Mandei que abrisse o capô, estava já quase escurecido, mas deu para testar alguma coisa. Passei a mão e fui conferindo cada uma das peças do motor. Mandei que ela virasse a ignição. Pelo toque da partida, o problema estava detectado. Saí encarcando fios e ligações, demorou um pouco, pacientemente, até que dei num cabo solto. Tateei, de onde será que saiu? Hum, achei e recoloquei no lugar, mandei ligar, ela virou a chave e o carro pegou. Vi-lhe feliz esfuziante, comemorando. Saiu do carro, encostou a porta e veio em minha direção toda desengonçada: O que era, hem? Ah, um cabo solto, apenas. Eita! Como você enxergou, já está escuro, anoiteceu de vez... Nada, tato apenas, a gente aprende na vida, acaso fique cego ou mouco, coisa de dentro da gente que faz tudo se desenrolar na intuição. Como você diz que não é mecânico e resolve uma coisa assim no tato, deveria usar dessa profissão. Uso vez em quando, mas só para quebrar um galho. E quanto devo? Nada, não fiz nada, só coloquei o cabo, como disse. Mas resolveu meu problema, merece um pagamento. Não, obrigado. Pode seguir, até mais ver. Peraí, por que a pressa? A senhora é quem manda se precisar de mais alguma coisa, à sua disposição. Já escureceu e o que eu ia fazer nem serve mais, pode ficar para depois; ademais estou faminta, não quer me acompanhar no jantar? Hummmm... Olhe, dona moça, eu sou um sujeito pobre, vivo com a cabeça nas nuvens e de levar o povo duma margem pra outra, não quero incomodar a senhora, até mais ver. Ah, seria ótima companhia, pelo menos seria uma forma de agradecê-lo por ter me ajudado nessa encrenca. Vamos? Sou um sujeito broco, não tenho tope nem seria uma boa companhia... A gente janta e eu lhe trago de volta, vamos? Não sou endinheirado, nem tenho posses. Quem tá perguntando, vamos? A senhora deve ter muitos amigos... Eu insisto, vamos? Tudo bem, vamos. Foi aí o começo de tudo, havia anoitecido sem lua e nem havia me dado conta. (Imagem: Acervo ArtLAM). Veja mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS

O poder motriz da democracia é o amor... Não há alegria maior do que a de sentir-se um criador. O triunfo da vida é expresso pela criação... Pense como um homem de ação, aja como um homem de pensamento... Existir é mudar, mudar é amadurecer, amadurecer é continuar criando-se infinitamente... Homo sapiens, a única criatura dotada de razão, é também a única criatura a fixar sua existência em coisas despropositadas...

Pensamento do filósofo e diplomata francês, Henri Bergson (1859-1941), Prêmio Nobel de Literatura de 1927. Veja mais aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU:

E em todas as estações \ Há tardes em que as temperaturas caem mais lentamente. \ involuntariamente \ Eles encolhem tudo. \ Talvez seja hora de renunciar. \ e ser vários \ É melhor procurarmos algum abrigo. \ muito solitário \ em marcha lenta \ tentando secar a cerca \ dessa umidade salgada e calamitosa.

Poema da premiada escritora e jornalista espanhola Olalla Cociña (Olalla Cociña Lozano). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

CULTURA, CIVILIZAÇÃO E HUMANIDADE – [...] A religião é absoluta, sagrada e fixa; a política é relativa, variável e flexível. Misturar as duas pode levar à desordem, distorção, violência e ao terrorismo sangrento... Não há salvação sem a separação entre religião e política... A menos que haja sucesso em modernizar os discursos religiosos e a educação religiosa, estaremos perdendo nosso tempo... A batalha mais crucial é uma batalha de educação e discurso religioso... A separação da religião do Estado, a renovação do discurso religioso e o esclarecimento do intelecto árabe por meio da educação, da consciência e da disseminação da cultura societal são os únicos meios de alcançar o progresso e o avanço da sociedade árabe... As mulheres são responsáveis por sua situação desumana nas sociedades de nossa região de língua árabe... […]. Trecho da obra Culture, Civilization, and Humanity (‎Routledge, 2003), do escritor egipcio Tarek Heggy, defensor dos valores da modernidade, da democracia, da tolerância e dos direitos das mulheres no Oriente Médio, autor dos livros The Arab Cocoon (2010) e The Arab Mind Bound (2011).

 

A GAROTA NO TREM - […] O vazio: isso eu entendo. Estou começando a acreditar que não há nada que se possa fazer para consertá-lo. Foi essa a conclusão que tirei das sessões de terapia: os buracos na vida da gente são permanentes. É preciso crescer ao redor deles, como raízes de árvore em torno do concreto; você se molda através das lacunas. [...] Nunca entendi como as pessoas conseguem ignorar, com total despreocupação, os danos que causam ao seguir o coração. [...] Perdi o controle sobre tudo, até mesmo sobre os lugares na minha cabeça. [...] Quero passar facas pela minha pele, só para sentir algo além de vergonha, mas não tenho nem coragem para isso. [...]. Trechos da obra The Girl on the Train (Random House, 2015), da escritora zimbabuana Paula Hawkins.

 

ININTERRUPTAMENTE - Sempre que você me vem à mente, \ meus versos, transformando-se em canções, \ começam a fluir em sua direção. \ Durante a distância infinita \ entre o seu centro e o meu perímetro, \ sinto um rio contínuo de fé \ fluindo por eras. \ Enquanto houver água, \ as duas margens se acompanham \ por um período perpétuo. \ À medida que crescem ondas inteiras de reminiscência, \ eu, um companheiro de jornada do mesmo tempo, \ continuarei esperando pela \ melodia da sua canção \ junto ao mesmo rio... ininterruptamente... Poema da premiada poeta, letrista, ensaísta e crítica literária nepalesa Geeta Tripathee.

 

AS LEIS DO DRAMA – No livro Introdução à dramaturgia (Brasiliense, 1983), da poeta, dramaturga, ensaísta e tradutora paulista Renata Pallottini, trata, entre outros assuntos, acerca das leis do drama, embasada nas teorias de Hegel e de Augusto Boal, quais sejam elas: a lei do conflito, da variação quantitativa (ação dramática), variação qualitativa e interdependência. Segundo a autora, o teatro é conflito: todo drama pressupõe conflito, confronto de vontades, ideias, pontos de vista, ações. Onde não há conflito, não há drama; a ação dramática, o movimento interior, o devir, constituem a própria essência de uma peça de teatro e são consequência do conflito; a variação qualitativa é o ponto de mudança para o qual caminha o conflito, em sua intensificação; e tudo isto, conflito, ação dramática, variação quantitativa e salto qualitativo, deve estar submetido a uma unidade fundamental do todo, à interdependência de todos os componentes, à constância da ideia central, espinha dorsal da obra, e que é, outra vez, o correspondente à regra aristotélica da unidade da ação. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


UM JEITO DE SER, DE CARL ROGERS - [...] Creio que sei por que me é gratificante ouvir alguém. Quando consigo realmente ouvir alguém, isso me coloca em contato com ele, isso enriquece a minha vida. [...] Quando efetivamente ouço uma pessoa e os significados que lhe são importantes naquele momento, ouvindo não suas palavras mas ela mesma, e quando lhe demonstro que ouvi seus significados pessoais e íntimos, muitas coisas acontecem. Há, em primeiro lugar, um olhar agradecido. Ela se sente aliviada. Quer falar mais sobre seu mundo. Sente-se impelida em direção a um novo sentido de liberdade. Torna-se mais aberta ao processo de mudança. [...] Assim, estimar ou amar e ser estimado e amado são experiências que promovem crescimento. [...] considero a morte como uma abertura para a experiência. Ela será o que tiver que ser, e estou certo de que a aceitarei, quer ela seja um fim, quer uma continuação da vida. [...] Os indivíduos possuem dentro de si vastos recursos para a autocompreensão e para modificação de seus autoconceitos, de suas atitudes e de seu comportamento autônomo. Esses recursos podem ser ativados se houver um clima, passível de definição, de atitudes psicológicas facilitadoras. Há três condições que devem estar presentes para que se crie um clima facilitador de crescimento. [...] Essas tendências, que são a recíproca das atitudes do terapeuta, permitem que a pessoa seja uma propiciadora mais eficiente de seu próprio crescimento. Sente-se mais livre para ser uma pessoa verdadeira e integral. [...] quando criamos um clima psicológico que permite que as pessoas sejam — sejam elas clientes, estudantes, trabalhadores ou membros de um grupo — não estamos participando de um evento casual. Estamos descobrindo uma tendência que permeia toda a vida orgânica — uma tendência para se tornar toda a complexidade de que o organismo é capaz. Em uma escala ainda maior, creio que estamos sintonizando uma tendência criativa poderosa, que deu origem ao nosso universo, desde o menor floco de neve até a maior galáxia, da modesta ameba até a mais sensível e bem-dotada das pessoas. E talvez estejamos atingindo o ponto crítico da nossa capacidade de nos transcendermos, de criar direções novas e mais espirituais na evolução humana. [...] Está-se chegando à compreensão de que a pessoa é um processo e não um conjunto fixo de hábitos, o que provoca maneiras diferentes de comportamento, aumenta as opções. UM JEITO DE SER – O livro Um jeito de ser, de Carl Rogers, trata na primeira parte das experiências e perspectivas pessoas, abordando experiências em comunicação, crescer envelhecendo ou envelhecer crescendo, a dimensão física, atividades, cuidando de mim, abertura para novas ideias, intimidade, alegrias e dificuldades pessoais, reflexões sobre a morte, vivendo o processo de morrer, atividade e risco e assuntos pessoais. Na segunda parte trata dos aspectos de uma abordagem centrada na pessoa, abordando os fundamentos de uma abordagem centrada na pessoa, a formação de comunidades centradas na pessoa: implicações para o futuro, seis vinhetas, características, as evidencias que fundamentam, um processo direcional na vida, provas fornecidas pela teoria pratica modernas, uma base na confiança, uma concepção mais ampla: a tendência formativa, a função de consciência nos seres humanos, estados alterados de consciência, a ciência e o misticismo e uma hipótese para o futuro. A terceira parte do livro trata do processo educacional e seu futuro, abordando para além do divisor de águas: onde agora, o que aprendemos com os grandes grupos: implicações para o futuro, a formação de comunidades centradas na pessoas, o que aprendemos com os grandes grupos, uma descrição de ciclos, o conteúdo dos ciclos, o processo grupal, a função da equipe e a dinâmica de grupo, implicações para a educação no futuro. Na quarta e última parte, trata do tema olhando à frente: um cenário centrado na pessoa, abordando o mundo do futuro e a pessoa do futuro, o mundo do amanhã, o significado das tendências, a pessoa do amanhã, características das pessoas do futuro e se ela sobreviverá, uma visão otimista, entre outras ideias do autor. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIAS
ROGERS, Carl. Um Jeito de Ser  São Paulo: EPU, 1987.

 

ELA, CHEGADA

Ela chega arredia e cheira meus olhos, hálito e sexo;

deita-se erradia nos meus sonhos e sou nuvem a chover na sua nudez.

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