segunda-feira, fevereiro 15, 2016

ANNA DAVTYAN, LOFTUS, SIMON SINGH, SCHALANSKY, CATHERINE JOHNSON & RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS

 


RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: CANALHOCRACIA - FUI PRO MATO, CORTEI CIPÓ, TORCI BEM TORCIDO, CALADO É MELHOR! - Bota duas aí, mermão! E aí? A do santo é minha! Qualé? Tem de tirar a poeira da goela, meu! Esquentar o esqueleto e acender as ideias! Tamos nessa! E as novas? Ah, cantiga de grilo desaforada: toda eleição é assim! Sempre o mesmo balaio de gato! Tirante uma ou outra da cagada, no fim tudo igual, acuda aí. Qual nada! Vira! Essa queimou tudo! Largue de ser frouxo! Sim, vai, conta. Desde sempre, a mesma coisa! Mas quem é que tá com a razão ou está todo mundo mesmo equivocado? Rapaz, sei não, a coisa é difícil, não dá para segurar essa corda de guaiamum: um puxa pelo braço; o outro pelo outro, uma perna, a outra, o gogó, puxa a língua, os beiços, os cabelos, os colhões, tudo num puxavanque danado e para cada lado! O povo não aprende a votar, ora. Não diria isso. Eu digo que sou cabra do boqueirão, onça tigre de roncar brabo, num abro nem prum trem! Tá certo machão, mas digaí. Já visse o Cabraí, sujeito mais metido a cheio de vírgulas e interjeições, arrotando grandeza e sapecando elogios pingados aos borbotões, discursos de metro e meio inúteis de esculhambação, quatro anos no poder e não faz nada, a não ser sair inaugurando pedaço de coisas, vielas e ruas, brebotes, logradouros e praças, potocas, e onde haja lugar, marquise, poste, cotoco de pau ou sei lá mais, ele tascava o nome dos antepassados do Coronelão, maior babaovice! Sim, eu vi, e daí? Bota outra! Vai pegar o jipe! Vou nada, tô ligado! Mas e aí? Ele enrola direitinho no meio da discurseira, tudo na base do flatus vocis a se esgoelar estouvado, patati, patatá, até encalhar numa sílaba e ficar engasgado com a prótese na garganta, bufe-bufe nas costas para desentalar embaixo da maior vergonha, coisa da maior zombaria, fiu, fiu, u-hu! Pois é, até que no começo ele cumpriu a cartilha e foi cordão com o padrinho; depois, um velhaco de quatro costados! Traíra, isso sim; mas vale o ditado: ladrão que rouba outro, são tudo salafrário! Você sabia que o apelido dele é Capão de Quenga? Nossa, só sendo! Foi promovido de capataz a prefeito, pode? São os arrumadinhos dos sabidos: investem só nos que podem dar cloro. E o espertalhão dançou nos cornos do diabo e fez fama entre os matutos, ganhou a eleição, todo mundo sabe como. Um sonso. Vamos outra? Simbora! Eita, lasqueira! E aí? Pelo menos botou de novo nas retas os interesses do maioral, outro traste da pior marca, depois cagou fora do caco, que meladeiro. E serve para outra coisa? O que é do povo é de ninguém: sabichão que chegue na frente e afane tudo. Fez ele alguma coisa afora isso? Realmente. E agora pergunto: quem o elegeu? O Coronelão. E apois, cadê, morreu depois que passou a perna no véio? Não. Diziam: se ele rompesse com o desalmado não duraria nem um dia. Foi. Outra vez pergunto: quantos o Coronelão elegeu? Todos, até os que a gente já se esqueceu. Quantos fizeram alguma coisa pela gente? Nenhum. Estamos de mal a pior, sempre; só o Coronelão ganha e vai aboiando e tangendo todo mundo; quando ele perde um tantinho assim, manda adeus de mão fechada, ai de nós: a gente paga tudo e ele cada vez mais rico e mandão. Rapaz, cuidado com a boca. Eu falo. Você fala aqui, aos cochichos, quero ver se tem coragem de enfrentá-lo em riba do cinturão! Também, com aquela jagunçada toda, malta sem sangue que engole sem mastigar, quem há de se aventurar? São tudo uns molengas, falsos, gente de crista murcha do temperamento macio só para esconder o refugo de espalha-brasa e nada. Agora mesmo, nesta eleição, tem quantos candidatos? Dez. Espie: nenhum deles melhor nem pior, tudo de valia nenhuma. Isso, agora; daqui mais uns dias, vão se acomodando e engrossando o caldo de quem der mais. Além do mais, se juntar os dez não dá um pra remédio! No final das contas, todos pedirão penico ao Coronelão, mesmo que ele anuncie o seu preferido. E viva a canalhocracia! Bota outra, hoje estou com a gota serena! Esfria o quengo, desgraçado! Destá. Tem quem vá pro Cabraí que passou quatro anos só no jogo e na pederastia: vai gostar de fresco assim no inferno! Mas ele juntou dinheiro, roubou que só, tem gente que irá atrás dele, pode contar, maior corriola. Eu acho que ele é pirobo! O que é que tem, cada um dá o furico como quiser. Homem de mesmo, quem por aqui? Tudo uns safados da rodilha frouxa, qualquer apertinho de nada, peida de se melecar todo! Outra coisa: você votou nele! Ué, ele enrolou a gente, mas eu me arrependi; e você? Ah, você é um comunista caga-pau safado! Você é um nazista baba-ovo fidaputa! É por isso que não gosto de política, pra mim um prato cheio de merda! São todos uns cleptomaníacos na pilhagem do erário público, coisa mais feia! Acho que a gente se engana com isso, deveria de ter brio, pensar direito, mas quem gosta de pensar, ora, pensar como, é tudo muito inexplicável, só dá mesmo para comprar, gozar, enrolar os bestas, comer as catraias e sair por cima no melhor da fita! Nessa eleição a gente só vai trocar seis por meia dúzia, é o fim. A gente só vai pegando bigú, sabe-se lá como o condutor vai passar pela buraqueira em cada catabí. Nada, é só o começo de uma nova enrolada, pode crer. Por que o Coronelão ainda não matou o Cabraí, ele mesmo disse que já tinha mandado tirar as medidas pra funerária e enviou uma série de condolências para ele, os familiares e os eleitores dele. Coisa de circo, só para deixar a mundiça entretida e agitada. No fim, dá tudo no mesmo. Na verdade, no fim dá tudo certo, mesmo que esteja tudo errado. Agora vá, descasque esse abacaxi! Ixe! Vá é se lascar! Você que se foda, fidapeste!... (Imagem: Acervo ArtLAM). Veja mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS

Consultar mapas pode diminuir o desejo de viajar que eles despertam, já que o ato de observá-los pode substituir o ato de viajar. Mas olhar para mapas é muito mais do que um ato de substituição estética. Quem abre um atlas quer tudo de uma vez, sem limites — o mundo inteiro. Esse anseio será sempre grande, muito maior do que qualquer satisfação que se possa obter ao alcançar o que se deseja. Prefiro um atlas a um guia de viagem, sem dúvida. Não existe livro mais poético no mundo...

Pensamento da escritora, editora e designer alemã Judith Schalansky. Veja mais aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU:

A morte nunca é desculpa para parar de viver...

Pensamento da escritora, roteirista e dramaturga britânica Catherine Johnson. Veja mais aqui.

 

MEMÓRIA REPRIMIDA – […] Segundo os céticos mais veementes e mordazes, os terapeutas especializados em terapia de recuperação de memória operam em um mundo de fantasia, repleto de pó de fada e monstros míticos. Lamentavelmente alheios às pesquisas modernas, praticando "análises psiquiátricas rudimentares", culpados de simplificação excessiva, extrapolamento e "citação incestuosa de opiniões", esses clínicos equivocados, despreparados e zelosos demais estão implantando falsas memórias nas mentes de clientes sugestionáveis, transformando-os em "dependentes terapêuticos perpétuos" e destruindo famílias. [...] Talvez o problema esteja na própria terapia: uma profissão que se tornou nossa nova religião, oferecendo respostas rápidas e fáceis para os problemas complexos e essencialmente insolúveis da vida. Em seu zelo por aliviar nosso sofrimento, terá a terapia reduzido todos os nossos problemas a sintomas, equiparado o sofrimento ao abuso e acalentado a falsa esperança de redenção por meio da ressurreição da inocência perdida? [...]. Trechos extraídos da obra The Myth of Repressed Memory: False Memories and Allegations of Sexual Abuse (St Mrtins Griffin, 1994), da psicóloga estadunidense Elizabeth Loftus (Elizabeth F. Loftus), autora de livros como Witness for the Defense: The Accused, the Eyewitness, and the Expert Who Puts Memory on Trial (1991) & Human Memory: The Processing of Information (1976). Veja mais aqui.

 

BIG BANG – [...] Tudo o que era necessário para medir o planeta era um homem com um bastão e um cérebro. Em outras palavras, basta aliar o intelecto a algum aparato experimental para que quase tudo pareça realizável. [...]. Os românticos talvez gostem de pensar em si mesmos como sendo feitos de poeira estelar. Os cínicos talvez prefiram pensar em si mesmos como lixo nuclear. [...] Ainda mais maravilhoso é o fato de que o modelo do Big Bang pode ser compreendido por todos. [...]. Trechos extraídos da obra Big Bang: The Origin of the Universe (HarperCollins, 2009), do escritor britânico Simon Singh (Simon Lehna Singh), autor de obras como The Simpsons and Their Mathematical Secrets (2013), Fermat’s Last Theorem: The compelling biography and history of mathematical intellectual endeavour (2002), The Code Book: The Science of Secrecy from Ancient Egypt to Quantum Cryptography (1999) e Fermat’s Last Theorem: The compelling biography and history of mathematical intellectual endeavour (1997).

 

EU NÃO SOU UM NOME - Eu não sou um nome, \ ocupei-me construindo outras \ que considerei necessárias, \ e os rodoviários subornys de mim, \ trilhas estreitas Cruzaram mil estradas, \ e aconchegantes casas para aqueles \ que a verdadeiras das ordens, \ aqueles \ que uma vergonha, \ solitário tesss de vernos, \ Categoria: cusões são montanhas \ e guinhas são calejadas pelo trabalho voluntário \ de o criar mundo — \ diques e pontess sobre o mar, \ admiração por seus e suas forças, \ e aprovado. \ Composi expansões em mim, pois tinha visto muito \ e também pressentido, \ e agora são são campos floridos. \ Cidades se cruzavam em mim, \ ali turbilhonavam o tráfego e o vento, \ e eu sua dúvida urbana, \ mas tambémo descobrir. \ Moinhos de água e moinhos de vento — \ e silêncio, \ apenas alegria agora — \ pois o que resta de duas partículas construídas juntas \ não é o, \ mas, como nuvens, hum objetos de novo de novo. Poema da escritora, fotógrafa e tradutora armênia Anna Davtyan.

 


DANIELA SPIELMANN – Curtindo o álbum Braziian Breath (Aosis Records, 2011), da saxofonista, flautista, compositora e arranjadora Daniela Spielmann, mostrando a música instrumental brasileira com mistura de ritmos brasileiros, como o frevo, o maracatu e o samba.


EM BUSCA DA MEMÓRIA, DE ERIC KANDEL - [...] A memória sempre me fascinou. Pense no que ela é capaz de nos proporcionar. Podemos nos lembrar, por vontade própria, de nosso primeiro dia de aula na escola secundária, de nosso primeiro encontro, de nosso primeiro amor. Ao fazer isso, não nos recordamos somente do evento em si, mas experimentamos também a atmosfera em que ele ocorreu — os cenários, os sons, os cheiros, o ambiente social, o momento do dia, as conversas e o clima emocional. Recordar o passado é uma forma de viagem mental no tempo. Ela nos liberta dos limites temporais e espaciais e permite que nos movamos livremente ao longo de dimensões completamente outras. Toda revolução tem suas origens no passado, e a que culminou na nova ciência da mente não é nenhuma exceção. Embora o papel central da biologia no estudo dos processos mentais fosse novo, a capacidade dessa disciplina de influenciar o modo como o homem vê a si mesmo já estava em jogo. Charles Darwin provou que não somos uma criação especial, mas sim o produto de uma evolução gradual a partir de animais inferiores, que são nossos ancestrais. Darwin sustentou, além disso, que todas as formas vivas provêm de um ancestral comum — remontam à criação da vida propriamente dita. Ele propôs a ideia ainda mais arrojada de que a força que impulsiona a evolução não é nenhum propósito consciente, inteligente ou divino, mas um processo “cego” de seleção natural, um processo completamente mecânico de seleção por ensaio e erro, que atua com base nas variações hereditárias. [...] A nova biologia da mente é potencialmente mais perturbadora, pois sugere que não apenas o corpo, mas também a mente e as moléculas específicas por trás de nossos processos mentais mais complexos — a consciência que temos de nós mesmos e dos outros, a consciência do passado e do futuro — evoluíram de nossos ancestrais animais. Além disso, ela postula que a consciência é um processo biológico que será um dia explicado em termos de vias de sinalização molecular utilizadas por populações de células nervosas em interação. [...] As descobertas fornecidas pela nova ciência da mente se manifestam de maneira mais evidente em nossa compreensão dos mecanismos moleculares que o cérebro utiliza para armazenar as memórias. A memória — a capacidade de adquirir e armazenar informações tão simples quanto os detalhes da vida cotidiana e tão complexas quanto o conhecimento abstrato da geografia ou da álgebra — é um dos aspectos mais notáveis do comportamento humano. A memória nos possibilita resolver os problemas com que nos defrontamos na vida diária, evocando diversos fatos ao mesmo tempo, uma capacidade que é vital para a solução de problemas. Num sentido mais amplo, a memória proporciona continuidade às nossas vidas. Ela nos fornece uma imagem coerente do passado que coloca em perspectiva a experiência atual. A imagem pode não ser racional ou exata, mas é persistente. Sem a força coesiva da memória, a experiência se estilhaçaria numa quantidade de fragmentos tão elevada quanto o número de momentos de uma vida. Sem a viagem mental no tempo que a memória nos possibilita, não teríamos consciência alguma de nossa história pessoal, não teríamos nenhum meio de nos recordarmos das alegrias que servem como marcos luminosos em nossas vidas. Somos quem somos por obra daquilo que aprendemos e de que lembramos. Nossos processos de memória servem melhor às nossas necessidades quando podemos recordar facilmente os eventos prazerosos em nossa vida e diluir o impacto emocional dos eventos traumáticos e dos desapontamentos. Mas, às vezes, as lembranças terríveis persistem e arruínam a vida, como acontece no transtorno de estresse pós-traumático, condição da qual sofrem algumas pessoas que tiveram uma experiência direta dos eventos aterrorizantes do Holocausto, da guerra, de um estupro ou de um desastre natural. [...] A nova ciência da mente acredita que o entendimento mais profundo da biologia da memória conduzirá a tratamentos mais eficazes tanto para a perda da memória quanto para a persistência das lembranças dolorosas. De fato, é bem provável que essa nova ciência venha a ter implicações práticas para muitas áreas da saúde. Ainda assim, seus objetivos vão além da busca de soluções para doenças devastadoras. A nova ciência da mente tenta penetrar o mistério da consciência, incluindo seu mistério maior: o modo como o cérebro de cada pessoa cria a consciência de um eu singular e o senso de livre arbítrio. EM BUSCA DA MEMÓRIA – O livro Em busca da memória: o nascimento de uma nova ciência da mente, do neurocientista austríaco Eric Richard Kandel, trata sobre a memória pessoal e a biologia do armazenamento da memória, a infância, a educação americana, a célula, a fala e a célula nervosa, conversações entre as células nervosas, sistemas neuronais simples e complexos, os diferentes tipos de memória nas diferentes regiões do cérebro, em busca de um sistema ideal para estudar a memória, análogos neurais da aprendizagem, fortalecendo as conexões sinápticas, um centro para o estudo da neurobiologia e do comportamento, os mesmo os comportamentos simples podem ser modificados pela aprendizagem, a experiência modifica as sinapses, os fundamentos biológicos da individualidade, as moléculas e a memória de curto prazo, a memória de longo prazo, os genes da memória, o diálogo entre os genes e as sinapses, retornando à memória complexa, as sinapses também guardam nossas mais caras lembranças, a imagem cerebral do mundo externo, é preciso prestar atenção!, uma pilulazinha vermelha, ratos & homens e doenças mentais, um novo modo de tratar a doença mental, a biologia e o renascimento do pensamento psicanalítico, a consciência, redescobrindo Viena via Estocolmo e aprendendo com a memória: perspectivas. 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REFERÊNCIA
KANDEL, Eric. Em busca da memória: o nascimento de uma nova ciência da mente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

 

ELA, VULCÂNICA

Seus olhos me devoram

Sua boca me devassa

Seus seios fazem festa no meu corpo

Para o seu convulso sirva-me sua ebulição

Para que juntos, nus, nossa erupção.

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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...