RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: CANALHOCRACIA
- FUI PRO MATO, CORTEI CIPÓ, TORCI BEM TORCIDO, CALADO É MELHOR! - Bota duas aí, mermão! E aí? A do santo é
minha! Qualé? Tem de tirar a poeira da goela, meu! Esquentar o esqueleto e
acender as ideias! Tamos nessa! E as novas? Ah, cantiga de grilo desaforada:
toda eleição é assim! Sempre o mesmo balaio de gato! Tirante uma ou outra da
cagada, no fim tudo igual, acuda aí. Qual nada! Vira! Essa queimou tudo! Largue
de ser frouxo! Sim, vai, conta. Desde sempre, a mesma coisa! Mas quem é que tá
com a razão ou está todo mundo mesmo equivocado? Rapaz, sei não, a coisa é difícil,
não dá para segurar essa corda de guaiamum: um puxa pelo braço; o outro pelo
outro, uma perna, a outra, o gogó, puxa a língua, os beiços, os cabelos, os
colhões, tudo num puxavanque danado e para cada lado! O povo não aprende a
votar, ora. Não diria isso. Eu digo que sou cabra do boqueirão, onça tigre de
roncar brabo, num abro nem prum trem! Tá certo machão, mas digaí. Já visse o Cabraí,
sujeito mais metido a cheio de vírgulas e interjeições, arrotando grandeza e
sapecando elogios pingados aos borbotões, discursos de metro e meio inúteis de
esculhambação, quatro anos no poder e não faz nada, a não ser sair inaugurando
pedaço de coisas, vielas e ruas, brebotes, logradouros e praças, potocas, e
onde haja lugar, marquise, poste, cotoco de pau ou sei lá mais, ele tascava o
nome dos antepassados do Coronelão, maior babaovice! Sim, eu vi, e daí? Bota
outra! Vai pegar o jipe! Vou nada, tô ligado! Mas e aí? Ele enrola direitinho
no meio da discurseira, tudo na base do flatus
vocis a se esgoelar estouvado, patati, patatá, até encalhar numa sílaba e
ficar engasgado com a prótese na garganta, bufe-bufe nas costas para desentalar
embaixo da maior vergonha, coisa da maior zombaria, fiu, fiu, u-hu! Pois é, até
que no começo ele cumpriu a cartilha e foi cordão com o padrinho; depois, um
velhaco de quatro costados! Traíra, isso sim; mas vale o ditado: ladrão que
rouba outro, são tudo salafrário! Você sabia que o apelido dele é Capão de
Quenga? Nossa, só sendo! Foi promovido de capataz a prefeito, pode? São os
arrumadinhos dos sabidos: investem só nos que podem dar cloro. E o espertalhão dançou
nos cornos do diabo e fez fama entre os matutos, ganhou a eleição, todo mundo
sabe como. Um sonso. Vamos outra? Simbora! Eita, lasqueira! E aí? Pelo menos
botou de novo nas retas os interesses do maioral, outro traste da pior marca,
depois cagou fora do caco, que meladeiro. E serve para outra coisa? O que é do
povo é de ninguém: sabichão que chegue na frente e afane tudo. Fez ele alguma
coisa afora isso? Realmente. E agora pergunto: quem o elegeu? O Coronelão. E
apois, cadê, morreu depois que passou a perna no véio? Não. Diziam: se ele
rompesse com o desalmado não duraria nem um dia. Foi. Outra vez pergunto:
quantos o Coronelão elegeu? Todos, até os que a gente já se esqueceu. Quantos
fizeram alguma coisa pela gente? Nenhum. Estamos de mal a pior, sempre; só o
Coronelão ganha e vai aboiando e tangendo todo mundo; quando ele perde um
tantinho assim, manda adeus de mão fechada, ai de nós: a gente paga tudo e ele
cada vez mais rico e mandão. Rapaz, cuidado com a boca. Eu falo. Você fala
aqui, aos cochichos, quero ver se tem coragem de enfrentá-lo em riba do
cinturão! Também, com aquela jagunçada toda, malta sem sangue que engole sem
mastigar, quem há de se aventurar? São tudo uns molengas, falsos, gente de
crista murcha do temperamento macio só para esconder o refugo de espalha-brasa
e nada. Agora mesmo, nesta eleição, tem quantos candidatos? Dez. Espie: nenhum
deles melhor nem pior, tudo de valia nenhuma. Isso, agora; daqui mais uns dias,
vão se acomodando e engrossando o caldo de quem der mais. Além do mais, se
juntar os dez não dá um pra remédio! No final das contas, todos pedirão penico
ao Coronelão, mesmo que ele anuncie o seu preferido. E viva a canalhocracia! Bota
outra, hoje estou com a gota serena! Esfria o quengo, desgraçado! Destá. Tem
quem vá pro Cabraí que passou quatro anos só no jogo e na pederastia: vai
gostar de fresco assim no inferno! Mas ele juntou dinheiro, roubou que só, tem
gente que irá atrás dele, pode contar, maior corriola. Eu acho que ele é
pirobo! O que é que tem, cada um dá o furico como quiser. Homem de mesmo, quem
por aqui? Tudo uns safados da rodilha frouxa, qualquer apertinho de nada, peida
de se melecar todo! Outra coisa: você votou nele! Ué, ele enrolou a gente, mas
eu me arrependi; e você? Ah, você é um comunista caga-pau safado! Você é um
nazista baba-ovo fidaputa! É por isso que não gosto de política, pra mim um
prato cheio de merda! São todos uns cleptomaníacos na pilhagem do erário
público, coisa mais feia! Acho que a gente se engana com isso, deveria de ter brio,
pensar direito, mas quem gosta de pensar, ora, pensar como, é tudo muito
inexplicável, só dá mesmo para comprar, gozar, enrolar os bestas, comer as catraias
e sair por cima no melhor da fita! Nessa eleição a gente só vai trocar seis por
meia dúzia, é o fim. A gente só vai pegando bigú, sabe-se lá como o condutor
vai passar pela buraqueira em cada catabí. Nada, é só o começo de uma nova
enrolada, pode crer. Por que o Coronelão ainda não matou o Cabraí, ele mesmo
disse que já tinha mandado tirar as medidas pra funerária e enviou uma série de
condolências para ele, os familiares e os eleitores dele. Coisa de circo, só
para deixar a mundiça entretida e agitada. No fim, dá tudo no mesmo. Na
verdade, no fim dá tudo certo, mesmo que esteja tudo errado. Agora vá,
descasque esse abacaxi! Ixe! Vá é se lascar! Você que se foda, fidapeste!... (Imagem:
Acervo ArtLAM). Veja mais aqui & aqui.
DITOS &
DESDITOS
Consultar mapas
pode diminuir o desejo de viajar que eles despertam, já que o ato de
observá-los pode substituir o ato de viajar. Mas olhar para mapas é muito mais
do que um ato de substituição estética. Quem abre um atlas quer tudo de uma
vez, sem limites — o mundo inteiro. Esse anseio será sempre grande, muito maior
do que qualquer satisfação que se possa obter ao alcançar o que se deseja.
Prefiro um atlas a um guia de viagem, sem dúvida. Não existe livro mais poético
no mundo...
Pensamento da escritora,
editora e designer alemã Judith Schalansky. Veja mais aqui & aqui.
ALGUÉM FALOU:
A morte nunca é
desculpa para parar de viver...
Pensamento da escritora, roteirista e dramaturga
britânica Catherine Johnson. Veja mais aqui.
MEMÓRIA REPRIMIDA – […] Segundo os céticos mais veementes e mordazes, os
terapeutas especializados em terapia de recuperação de memória operam em um
mundo de fantasia, repleto de pó de fada e monstros míticos. Lamentavelmente
alheios às pesquisas modernas, praticando "análises psiquiátricas
rudimentares", culpados de simplificação excessiva, extrapolamento e
"citação incestuosa de opiniões", esses clínicos equivocados,
despreparados e zelosos demais estão implantando falsas memórias nas mentes de
clientes sugestionáveis, transformando-os em "dependentes terapêuticos
perpétuos" e destruindo famílias. [...] Talvez
o problema esteja na própria terapia: uma profissão que se tornou nossa nova
religião, oferecendo respostas rápidas e fáceis para os problemas complexos e
essencialmente insolúveis da vida. Em seu zelo por aliviar nosso sofrimento,
terá a terapia reduzido todos os nossos problemas a sintomas, equiparado o
sofrimento ao abuso e acalentado a falsa esperança de redenção por meio da
ressurreição da inocência perdida? [...]. Trechos extraídos da obra The Myth of
Repressed Memory: False Memories and Allegations of Sexual Abuse (St Mrtins
Griffin, 1994), da psicóloga estadunidense Elizabeth Loftus (Elizabeth
F. Loftus), autora de livros como Witness for the Defense: The Accused, the
Eyewitness, and the Expert Who Puts Memory on Trial (1991) & Human
Memory: The Processing of Information (1976). Veja mais aqui.
BIG BANG – [...] Tudo o que
era necessário para medir o planeta era um homem com um bastão e um cérebro. Em
outras palavras, basta aliar o intelecto a algum aparato experimental para que
quase tudo pareça realizável. [...]. Os românticos
talvez gostem de pensar em si mesmos como sendo feitos de poeira estelar. Os
cínicos talvez prefiram pensar em si mesmos como lixo nuclear. [...] Ainda
mais maravilhoso é o fato de que o modelo do Big Bang pode ser compreendido por
todos. [...]. Trechos extraídos da
obra Big Bang: The Origin of the Universe (HarperCollins, 2009),
do escritor britânico Simon Singh (Simon Lehna Singh), autor de obras como
The Simpsons and Their Mathematical Secrets (2013), Fermat’s Last
Theorem: The compelling biography and history of mathematical intellectual
endeavour (2002), The Code Book: The Science of Secrecy from Ancient
Egypt to Quantum Cryptography (1999) e Fermat’s Last Theorem: The
compelling biography and history of mathematical intellectual endeavour
(1997).
EU NÃO SOU UM NOME - Eu não sou um
nome, \ ocupei-me construindo outras \ que considerei necessárias, \ e os
rodoviários subornys de mim, \ trilhas estreitas Cruzaram mil estradas, \ e
aconchegantes casas para aqueles \ que a verdadeiras das ordens, \ aqueles \ que
uma vergonha, \ solitário tesss de vernos, \ Categoria: cusões são montanhas \ e
guinhas são calejadas pelo trabalho voluntário \ de o criar mundo — \ diques e
pontess sobre o mar, \ admiração por seus e suas forças, \ e aprovado. \ Composi
expansões em mim, pois tinha visto muito \ e também pressentido, \ e agora são
são campos floridos. \ Cidades se cruzavam em mim, \ ali turbilhonavam o
tráfego e o vento, \ e eu sua dúvida urbana, \ mas tambémo descobrir. \ Moinhos
de água e moinhos de vento — \ e silêncio, \ apenas alegria agora — \ pois o
que resta de duas partículas construídas juntas \ não é o, \ mas, como nuvens,
hum objetos de novo de novo. Poema da escritora, fotógrafa e tradutora
armênia Anna Davtyan.
ELA, VULCÂNICA
Seus olhos me
devoram
Sua boca me devassa
Seus seios
fazem festa no meu corpo
Para o seu
convulso sirva-me sua ebulição
Para que
juntos, nus, nossa erupção.
Veja mais abaixo
& aqui, aqui, aqui & aqui.








