A BANDA DE MANÉ PRETO - Gente, eu já
ouvi de tudo, mas essa banda é a maior tronchura. Juro! Eles são tanto hors
concours, como sui generis e mais superlativos exagerados que deixam a idéia
tanto para infortúnios como para fenômenos inexplicáveis. Isso mesmo. Essa a
atitude assumida por eles. E começa pelo nome: o primeiro de batismo foi
“Zumbido da porra”, mas logo mudaram porque os integrantes não acharam a menor
graça. Depois foi “Arrepiando as pregas”, satisfazendo a todos pela ausência de
coisa melhor. Enfim, vieram os “Zoando a fole”, “Torando tudo” até passar pelo
“Cacete a quatro” e, enfim, depois de muita lengalenga chegaram no “Além do 8 e
do 80”. Na verdade, por causa das imprestáveis idéias que beiravam o cúmulo do
insensato, nome em definitivo, até hoje, não tem, sendo, portanto, conhecida
apenas por Banda de Mané Preto. Pela atitude bisonha deles, a questão passa a
ser uma das características fundamentais da banda: os inomináveis. Isso, claro,
sintetizando bem a idéia que eles querem passar da bizarrice embrulhada toda. O
som. Bem, o som da banda se parece com algo que, segundo a enrolada de língua
deles na pronúncia desdentada, deixa apenas entender, assim, de relance que se
trata de alguma coisa que se identifique perto do pós-dodecafônico, do
ultratonal. Explicação: não tem. Isso porque primeiro não se entende nada do
que dizem e porque foram duas palavras escolhidas a dedo por eles para
justificar alguma coisa de proposta sonora. Com certeza, gente, John Cage
ficaria de queixo caído se visse. Inacreditável mesmo tanta microfonia,
dissonância, pancada, ruído, barulho, doidice, inaptidão, tranqueira,
busuntice, tudo junto no maior pandemônio. Doideira pura. Os integrantes: 5
maloqueiros que se dizem lá à maneira deles - e quase não se deixando entender
-como indie, trash, headbanger, darks, hard, groove, heavy, grunges, punk, ska,
blacks, surf music, cover drags e o escambau, ou tudo isso junto na maior pauleira
com mais uma porrada de coisa não identificável. O cantor, ou melhor, como ele
mesmo se diz crooner, é o Mané Preto, sujeito aparentemente meio que
aluado-abilolado que é dito personal traineé de galo-de-briga e achegado a um
criatório de coleópteros, que só aparece de noite zanzando com os lábios pocados
de choque elétrico de tanto babar no microfone e sempre fazendo sua performance
no palco com seu ar de defunto de olhos arregalados, na companhia de dois
enfermeiros prontos com uma camisa-de-força para sacudirem o rapaz no primeiro
hospício que encontrarem. O guitarrista mesmo é um sujeito com cara de bad boy,
cintura-de-ovo, uma roupa surrada colada no couro porque nunca foi trocada nem
lavada vez que ele é avesso à higiene seja de que natureza for, só toca com um
alicate na boca para não engolir a língua de tanto sopapo nos solos arrancados.
O contra-baixista é um vesgo bisonho e banguela, todo ajegado e troncudo, que
toca um instrumento que mais parece um cabo de vassoura enfiado numa bacia,
sempre desligado para que o sujeito não seja eletrocutado assim sem mais nem
menos. Mas que o troço faz uma barulheira infernal, faz. Como? Não sei. O
tecladista que é um magricela varapau só toca de sarongue e luvas daquelas de
eletricista, o que dá maior estranhice ainda, vez que coloca todos os dedos por
todos os tons ao mesmo tempo, não dando para se identificar qualquer linha
melódica possível. Ou seja, é um verdadeiro desarranjo a coisa toda. O
baterista, esse o mais presepeiro com cara de calango e jeitão de bacamarteiro,
toca um bocado de bombo com penduricalhos de toda natureza, mais uns artefatos
meio amalucados e, com certeza, ignoráveis, que vão desde o peido-de-véia até
um punhado de morteiros e granadas. O disco: não tem; isso por dois motivos. O
primeiro, é que só nos ensaios causaram tantos desastres nos estúdios que
ninguém quer vê-los nem pintado a ouro. O segundo, porque conforme apreciação
mais cuidadosa e cientificamente comprovada, o cd executado poderia
possibilitar um apocalipse no recinto do ouvinte. Resultado: opção deles pela
marginália, completamente fora dos veículos de comunicação, sobrevivendo,
apenas, dos imprevisíveis shows prestigiados pela platéia cativa que ninguém
nunca viu nem sabe quem é. O show: esse nunca tem hora, nem data nem local
marcado. A agenda, pelo que se sabe é só no boca a boca. Isso por serem pior
que Tim Maia e, também, por não contarem nunca com o apoio da polícia e demais
autoridades que querem enquadrá-los nos diversos artigos e incisos do Código
Penal pelo desmantelo provocado a cada tocada. Claro, no primeiro acorde da
abertura morre logo um de ninguém saber de quê. Dizem os linguarudos que quem
só prestigia os “concertos” deles é somente caboeta-de-funerária, papa-defunto,
coveiro e vendedor de seguro. Claro, isso todo mundo precavido com indumentária
preventiva, né, só para se aproveitar dos bestas que passam desavisadamente por
onde ocorre o estrupício. A última apresentação: uma catástrofe. Só com a
subida deles ao palco, bastou contarem 1, 2, 3 caiu a calça de um idoso que
saiu berrando que queriam estuprá-lo. Enquanto o baterista marcava nas baquetas
pipocou uma lâmpada. Quando fizeram que iam tocar, caiu uma parede e matou logo
dois. Quando o acorde foi executado, tiveram que chamar o corpo de bombeiros
para apagar tudo. Maior bronca de buruçu da gota! Pelas razões mencionadas eles
conseguem ser os famosos mais anônimos, além de premiados detestáveis e
contraditoriamente celebrados por uma trupe que prestigiam todas as suas
sandices. Ainda ontem cruzei com Mané Preto todo sorridente como se nada
tivesse ocorrido. - E aí, Mane, tudo em riba? -, perguntei. - Tudo iscorrendo
na calha. – respondeu-me. - E os shows? - Ah, rapaize, os bombêros atrapaiaram
o shô da genti. Toda veizi aconteci isso. Essis cara parece que tem acordo com
minha mulé e minha sogra Bushit. - Ué, por que? - Os cara num gostam, né? Quano
tô em casa a mulé e a sogra só mi trata com uma saraivada de panela que só faiz
galo no meu quengo. Quano vô pra rua fazê shô, os bombêros tascam maió aguacêro
n´eu. - É mesmo, por que? - O som da genti é per... per.... per.... pefumático,
pefomá... profumático, pe.... pé de pasparaio a quatro, ora! - Performático? -
Isso, isso mesmo. E a mulé e a sogra só me chama de traste imprestáve. Coisa de
lôco mermo, rapaize. Num sei mai o qui fazê, ora. É parece mais que Mané Preto
e sua trupe, que são gente boa pra caraca, querem mesmo tocar fogo no mundo,
literalmente, com toda maluquice de suas desarmonias antimusicais. Dá pra ver.
Eu, de mim mesmo, adoro essas invencionices! Bié, bié, glup, glup! © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui & aqui.
DITOS & DESDITOS - O prazer de ler é dobrado quando se vive
com outra pessoa que compartilha os mesmos livros... O que sinto por você não
pode ser expresso em combinações de frases; ou grita alto ou permanece
dolorosamente silencioso, mas eu prometo — supera palavras. Supera mundos... Sempre
senti que o grande privilégio, alívio e conforto da amizade era que não era
preciso explicar nada... A
mente que eu amo deve ter lugares selvagens, um pomar emaranhado onde ameixas
escuras caem na grama densa, um pequeno bosque coberto de vegetação, a chance
de uma ou duas cobras, uma piscina cuja profundidade ninguém imaginou e
caminhos cheios de flores plantadas pela mente... Pensamento da escritora e
crítica neozelandesa Katherine Mansfield
(Kathleen Mansfield Murry, nascida Beauchamp – 1888-1923). Veja mais aqui, aqui,
aqui & aqui.
SEGUNDO SEXO – [...] o homem é pensável sem a mulher. Ela não,
sem o homem. Ela não é senão o que o homem decide que seja; daí dizer-se o
‘sexo’ para dizer que ela se apresenta diante do macho como um ser sexuado:
para ele, a fêmea é sexo, logo ela o é absolutamente. A mulher determina-se e
diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o
inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro [...]. Trecho extraído da obra O segundo
sexo (2 vols., Difusão Européia do Livro, 1967), da filósofa, escritora,
ativista e feminista franca Simone de Beauvoir (Simone
Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir – 1908-1986). Veja mais aqui, aqui,
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CIDADE
DAS LETRAS – [...] os
intelectuais não servem apenas a um poder, como também são proprietários de um
poder [...], Trecho extraído da obra La ciudad letrada (1984), do escritor e crítico literário
uruguaio Ángel Rama (Ángel
Antonio Rama Facal – 1926-1983), introuditor da teoria da transcultururação, ao
estudar a concepção, o planejamento e a consolidação das cidades
latino-americanas, desde a destruição da asteca Tenochtitlán, em 1521, até a
inauguração de Brasília, na década de 1960, traçando um paralelo entre os
projetos urbanísticos e o ideal desejado de urbe limpa, estéril e civilizada.
ÂNSIA MÚLTIPLA - Beija-me Amor, \ beija-me sempre e mais e
muito mais, \ – em minha boca esperam outras bocas \ os beijos deliciosos que
me dás! \ Beija-me ainda, \ ainda mais! \ Em mim sempre acharás \ à tua vinda \
ternuras virginais. \ Beija-me mais, põe o mais cálido calor \ nos beijos que
me deres, \ pois viva em mim a alma de todas as mulheres \ que morreram sem
amor!… Poema extraído da obra Mulher nua (1922), da poeta Gilka
Machado (Gilka da Costa de Melo Machado – 1893-1980). Veja mais aqui &
aqui.









