segunda-feira, fevereiro 15, 2016

HILDA HILST, BAUMAN, YUSEF DRIS, ESQUIVEL, KENEALLY & RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS

 


RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: JÁ DERAM DO MAL TARDO AVISO, MIL CRISES, MIL CATANAS, TUDO DE IMPROVISO! - Só Jesus na causa, meu! Que é que há? Aperto para todo lado, ora! Quero ser rico, vida boa, não ter que fazer nada e comprar tudo o que o dinheiro der. Mas aí é que está o dendê: falta exatamente o tutu, meu, o molho de cédulas da muita e graúda no pé do cipa, estibado! Quem não quer? Por isso digo: só o salvador para dar jeito nisso! Ouvi alguém dizer que se Jesus ressuscitasse hoje nunca seria cristão! Heresia, blasfêmia, valha-me Deus, abençoado, cruz-credo! A gente vive na cartilha do filho do Senhor... O senhor que conheço e que manda em tudo aqui é o Coronelão... Arre, só você que é ateu... Eu não sou ateu... Então é AntiCristo! Nem isso, eu só não tenho mais ilusões com as religiões; você é católico, apostólico e romano, está satisfeito com sua igreja, tem tudo o que quer e vive reclamando de barriga cheia, é feliz desse jeito aos resmungos e vai pros pés do padre todo domingo de manhã para sua santa missa e pregar as suas santas coisas para se salvar quando morrer, né não? Aonde você quer chegar, hem? Eu já fui católico, aliás, me fizeram católico no batismo sem nem me perguntar; também evangélico, crente fervoroso, mesma merda. Eu mesmo fui batizado, crismado, fiz primeira comunhão e todo domingo comungo e rezo para que tudo dê certo na minha vida, apago os pecados e abro a caderneta para cometer novos sem causar prejuízo na salvação, sou lá besta! Na adolescência virei evangélico por conta própria, virei crente daqueles bodes berreiro paletó e tudo, o evangelho embaixo do sovaco para cima e para baixo, pregação, louvação e tome lição; um dia lá, me arretei com o pastor, virei espírita de mesa branca e baixar espíritos, fui engalombado, dei pinote de todo jeito, quebrei a cara mais de mil vezes, o que era bom estava de porta fechada, o que era ruim de porta aberta, passei pros neopentec da vida e essas drogas todas de berreiro cristão e a minha vida é o mesmo tolete da sua. Ah, eu mesmo vivo como posso, dou meus saltos soltos, nó em pingo d’água, unhas na parede, pecando e mijando, fodendo e alisando, vou de todo jeito, contra tudo e todos, Deus no coração e a minha santa igreja me guiando para me salvar. Salvação? Você é ateu, não sabe o que é isso. A gente nasceu para se ferrar e a culpa é de todo mundo, o inferno e o paraíso são aqui mesmo. Minha, não, olhe-lá! A terra é o éden e fazemos dela o grotesco de todos os horrores. Lá vem você filosofar, papo de comunista... O que você faz para tornar sua vida melhor? Ué, eu trabalho, sou responsável, sustento família, dou duro num trampo de quase esfolar o cu, pago as contas em dia, obro caridade, cumpro com meus deveres tudinho em cima da risca, resolvo tudo e não consigo ter uma satisfação mínima, mas minha igreja me garante um dia virá e serei feliz aqui e no céu, seja louvado! Ninguém está satisfeito, a gente não se satisfaz, sempre insaciável, não para nunca de querer, sempre mais. Mas eu merecia uma vida melhor, meu bom Jesus assim providenciará! Todo mundo merece. Ah, o mundo que se fôda, quero saber de mim e que eu mereço uma vida melhor! O que o faz merecedor? Ué, meu, também, sou filho de Deus, não acha? E por que você não enricou ainda fazendo tudo direitinho, sem pecar ou se pecando pede perdão pro padre, vai pra missa, reza todo dia, pede tudo ao seu bom Deus para salvá-lo das coisas ruins e não ficou ainda hoje estibado de ter de tudo o que quer, hem? Ah, a vida não é fácil, faço tudo direitinho como manda o figurino, mas não sei por que não consigo fazer nada do que planejo, tem uma coisa que encarca e não me deixa fazer direito, não consigo alcançar meus objetivos nem juntar dinheiro para comprar um carro que tanto preciso para trabalhar, como para gozar do privilégio de poder me deslocar para onde e como quiser. Ah, tá! Só você mercê é? Mereço uma vida de paz e felicidade e não consigo sair dessa vida de porqueira que tenho desde que me entendo por gente! O que você faz para merecer? Ora, ora. Ora ora, ora bolas! O que faço? Sim. O que faço todo dia? Exatamente, o que faz? Ah, como eu já disse: dou duro, ralo que só, luto, vou pra cima e pra baixo, faço tudo, sei que me roubam o sono, o sangue, a vida, tudo, não tenho nada, nem um lugar para dormir direito, uma casa decente para morar, nunca consegui sair do aluguel, sempre ferrado pelos pagamentos mensais que logo que são pagos já estão prontos cobrando pro mês que vem, um círculo vicioso, sabe, coisa de invejosos de olho seca-pimenteira, sei que tem muito assim ao meu redor, tudo querendo tomar o que tenho, tudo querendo acabar com o que fiz, gente ruim como a praga, que vida é essa? Você disse que tinha Jesus no coração e era feliz, agora vem com infelicidades, não chego a entendê-lo... É sempre aperto e crise, nunca sobra nada no final do mês, nem na marra. E você acha que é só você que está nessa situação é? Prestenção: os outros que vão pro inferno, quero resolver a minha vida, ora bolas! Eu quero o meu pedaço de paraíso, nem que eu tenha que pisar, esfolar, pé na goela, chute na canela, cambalhota pra lá, cama-de-gato para cá e enrolar todo mundo para chegar na frente, subir no pódium, dar o dedo e uma banana bem dada para todo mundo e provar que cheguei, venci, sou o vencedor, o resto que se f-o-fo-d-a-da, se fôda! Você acha que tudo isso vai melhorar sua vida? Ei, peraí, de que lado você está, hem? Ora, ora! Ora, ora, nada, ainda me vem com essa, sou um cara lutador, pinto o sete, me viro como posso, rezo todo dia, peço a Deus um dia melhor pelo menos, faço tudo por isso, tenho fé em Deus que um dia vou conseguir e dia após dia não saio da miséria, enfiado cada vez mais até o pescoço, mas sei que o meu dia chegará, será minha redenção e vou ser rico para mangar de todo mundo. Ótimo, na verdade, todos fazemos isso, lutamos que só e não saímos dessa situação lastimável. Ah, eu sei, tão roubando a gente, tenho certeza! Tem gente se aproveitando da leseira da gente. Ora se tem! Por que o Coronelão só ganha, hem? Por que só ele leva a melhor, ele e os dele. Se junte ao inimigo, vá pro lado oposto ou morra babando o ovo dele. Quem vai pro lado dele não tem volta, vende a alma ao diabo, e só sai mortinho da silva. Então? Do outro lado é quase a mesma coisa e ainda é pior: ganha a raiva dele de graça, pronto, encaminhado para se foder embaixo da terra. Fazer o quê, então? Não sei, sei que preciso viver. E o que é viver? Viver? Sim. Viver é... Ah, meu, você gosta de fazer pergunta difícil, filosofices inúteis... Ah, você é um cabeça de penico, só sabe fazer meia sola e gambiarra em tudo, até nas ideias, fala, diz que faz e acontece e não sai do cocô de vida que é a sua. E você? Sou diplomado. O caralho! Diploma de bosta, comprado numa faculdade dessas mixurucas de esquina, sou mais meu curso técnico e dou lavagem nocê com ele de mil a zero, além do mais, tua vida não é um tantinho assim de melhor ou diferente da minha, filho da puta! Sou melhor, mais inteligente e mais lindo que você! No cu! Pronto, começou a esborrar as asneiras e pulhas! Eu sei, sei que estão me roubando, para que serve mesmo Bolsa de Valores? Hem? Ligo a TV e o noticiário fala de investimentos, crise assolando, a economia vai mal, desde quando? Desde sempre, as coisas acontecem e tudo na mesma, seja a boca de urna e ninguém está nem aí, a falta de água – quem é o chefe lá da estação de abastecimento, quem? O sobrinho do Coronelão. E a falta de energia todo dia – quem é o gerentão lá na companhia elétrica, quem? Outro sobrinho do Coronelão. Quem é que está sobre todos os cargos públicos federais, estaduais, municipais, no topo, quem, quem? O Coronelão ou alguém ligado a ele, todos filhotes dele. Eita! Que foi? O que foi aquilo? Aquilo, o quê? Aquilo ali. O delegado Dino passou com mais de mil com os chumbetas atrás. Danou-se! É bronca! Só sendo mesmo. Que terá sido dessa vez? O povo só gosta do circo pegando fogo e a polícia tá prontinha para dar espetáculo na defesa do patrimônio dos ricões. Vai ver, tem coisa. Ei, o que foi, hem? Parece que é o povo lá da Roncadeira que estão fazendo porcarias contra o Coronelão! Tão doido, só sendo. Comboio de besta! Vai terminar tudinho comendo terra. Desocupados! A rádio tá dizendo que é um bando de maconheiros que estão fazendo arruaça lá na Roncadeira. A-rá! Só na força da maconha para encarar de igual para igual com o Coronelão. Coitados, são uns pobretões! Ah, já tá do lado daquela gentalha, é? Que culpa eles têm de serem pobres? Coisa de socialistazinho descarado ficar defendendo aquela gentinha. Pois é, já faltou energia e o zoadeiro lá está grande, estão todos invocados, tocando fogo e atirando pedras. Como é? É que o Cabraí saiu calçando tudo por lá e distribuindo dinheiro, o Coronelão não gostou e está despejando o povo de lá da Roncadeira embaixo do maior cacete! Vixe! Vamos embora que a bronca entorna e lá vem o enterro voltando. Simbora, véi!... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS

A verdadeira tragédia é que somos todos seres humanos, e seres humanos têm um senso de dignidade. Qualquer dominação de um ser humano sobre outro leva à perda de alguma parte de sua dignidade. Será que a dignidade de alguém é tão grande a ponto de ser destruída assim?... Eu não tenho vida própria. Coloquei a mim mesmo e a minha vida a serviço do povo. Se a necessidade me obrigar a fugir, eu fujo... se for para a cadeia, eu vou para a cadeia... se for para morrer, eu morro. Minhas aspirações pessoais são exatamente as aspirações gerais do povo...

Pensamento do escritor e jornalista argelino Yusef Dris, autor de obras como Les Amants de Padovani (2004), Affaires criminelles. Histoires Vraies ( 2006), Biographie de Guerouabi (2008), Destin à l'encre noire (2012) e Le puits confisqué (2010).

 

ALGUÉM FALOU:

Você não precisa pensar no amor; ou você o sente ou não... As palavras se agarram ao âmago de nossas memórias e permanecem ali em silêncio até que um novo desejo as desperte e as recarregue com energia amorosa. Essa é uma das qualidades do amor que mais me comove: sua capacidade de transmiti-lo. Como a água, as palavras são um maravilhoso condutor de energia. E a energia mais poderosa e transformadora é a energia do amor...

Pensamento da escritora, teatróloga e roteirista mexicana Laura Esquivel (Laura Beatriz Esquivel Valdés), autora de obras como Como agua para chocolate (1989), La ley del amor (1995), Íntimas suculencias: Tratado filosófico de cocina (1998), Estrellita marinera (1999), El libro de las emociones (2000), Tan veloz como el deseo (2001), Malinche (2006), A Lupita le gustaba planchar (2014) e El diario de Tita (2016). Veja mais aquí, aquí & aquí.

 

EM BUSCA DE SCHINDLER - [...] Mas, então, qual é a alternativa a tentar dizer a verdade sobre o Holocausto, a Grande Fome, o genocídio armênio e a injustiça do desapossamento nas Américas e na Austrália? Que todos sejam reduzidos ao silêncio? Fingir que o Holocausto foi obra apenas de uma minoria bem armada que não causou tanto mal quanto se alega — e, da mesma forma, argumentar que a Fome Irlandesa foi algo inevitável ou culpa dos próprios irlandeses — é dizer que ambos não passaram de boatos pouco confiáveis, e não os grandes motores da história que tão obviamente se revelaram ser. Pensar assim me convinha na época, mas continuo acreditando que é verdade: se houver áreas da história que são proibidas, então, em princípio, ficamos reduzidos a tergiversações, a uma narrativa de fachada. [...] O paradoxo é muito apreciado pelos romancistas. O salvador desprezado, a prostituta humana, o homem egoísta que de repente se torna generoso, o tolo sábio e o herói covarde. A maioria dos escritores passa a vida escrevendo sobre a maldade inesperada naqueles que são supostamente virtuosos, e a virtude inesperada naqueles que são supostamente pecadores. [...] As finanças pessoais são como a saúde pessoal: cruciais e trágicas para quem as vivencia, mas entediantes para quem ouve. [...] A sensação de morte que se experimenta nos sonhos parece-me mais penetrante e carregada de atmosfera do que o medo comum que se pode sentir estando acordado. [...]. Trechos extraídos do livro Searching for Schindler: A Memoir (Sceptre, 2007), do escritor e dramaturgo australiano, Thomas Keneally, autor da obra Schindler’s List (1982).

 



HILDA HILST – No livro Bufólicas (Globo, 2002), da escritora e dramaturga brasileira Hilda Hilst (1930-2004), destaco o poema Drida, a maga perversa e fria: Pairava sobre as casas / Defecava ratas / Andava pelas vias / Espalhando baratas / Assim era Drida / A maga perversa e fria. / Rabiscava a cada dia o seu diário. / Eis que na primeira página se lia: / Enforquei com a minha trança / O velho Jeremias. / E enforcado e de mastruço duro / Fiz com que a velha Inácia / Sentasse o cuzaço ralo / No dele dito cujo. / Sabem por quê? / Comeram-me a coruja. / Incendiei o buraco da Neguinha. / Uma criola estúpida / Que limpava remelas / De porcas criancinhas. / Perguntaram-me por que / Incendiei-lhe a rodela? / Pois um buraco fundo / De régia função / Mas que só tem valia / Se usado na contramão / Era por neguinha ignorado. / maldita ortodoxia! / Comi o cachorro do rei / Era um tipinho gay / Que ladrava fino / Mas enrabava o pato do vizinho. / Depenei o pato. / Sabem por quê? / Cagou no meu cercado. / E agora vou encher de traques / O caminho dos magos. / Com minha espada de palha e bosta seca / Me voy a Santiago. / Moral da história: / Se encontrares uma maga (antes / Que ela o faça), enraba-a. Veja mais aqui, aqui & aqui.


O AMOR LÍQUIDO, DE ZYGMUNT BAUMAN -  [...] A misteriosa fragilidade dos vínculos humanos, o sentimento de insegurança que ela inspira e os desejos conflitantes (estimulados por tal  sentimento) de apertar os laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos, é o que este livro busca esclarecer, registrar e apreender. [...] O principal herói deste livro é o relacionamento humano. Seus personagens centrais são homens e mulheres, nossos contemporâneos, desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos facilmente descartáveis, ansiando pela segurança do convívio e pela mão amiga com que possam contar num momento de aflição, desesperados por “relacionar-se” e, no entanto desconfiados da condição de “estar ligado” em particular de estar ligado “permanentemente” para não dizer eternamente, pois temem que tal condição possa trazer  encargos e tensões que eles não se consideram aptos nem dispostos a suportar, e que podem limitar severamente a liberdade de que necessitam para — sim, seu palpite está certo — relacionar-se... Em nosso mundo de furiosa “individualização”, os relacionamentos são bênçãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando um se transforma no outro. Na maior parte do tempo, esses dois avatares coabitam embora em diferentes níveis de consciência. No líquido cenário da vida moderna, os relacionamentos talvez  sejam os  representantes  mais  comuns, agudos, perturbadores e profundamente sentidos da ambivalência. É por isso, podemos garantir, que se encontram tão firmemente no cerne das atenções dos modernos e líquidos indivíduos-por-decreto, e no topo de sua agenda existencial. “Relacionamento” é o assunto mais quente do momento, e aparentemente o único jogo que vale a pena,  apesar  de  seus  óbvios  riscos.  Alguns  sociólogos,  acostumados  a  compor  teorias  a  partir  de questionários,  estatísticas  e  crenças  baseadas  no  senso  comum,  apressam-se  em concluir  que  seus contemporâneos estão totalmente abertos a amizades,  laços,  convívio,  comunidade.  De fato,  contudo (como se seguíssemos a regra de Martin Heidegger de que as coisas só se revelam à consciência por meio da frustração que provocam — fracassando, desaparecendo, comportando-se de forma inadequada ou negando sua natureza de alguma outra forma), hoje em dia as atenções humanas tendem a se concentrar nas satisfações que esperamos obter das relações precisamente porque, de alguma forma, estas não têm sido consideradas plena e verdadeiramente satisfatórias.  E,  se satisfazem,  o preço disso tem sido com freqüência considerado excessivo e inaceitável. Em seu famoso experimento, Miller e Dollard viram seus ratos de laboratório atingirem o auge da excitação e da agitação quando “a atração se igualou à repulsão” ou seja, quando a ameaça do choque elétrico e a promessa de comida saborosa finalmente atingiram o equilíbrio... Não admira  que os “relacionamentos” estejam entre os principais  motores do atual  “boom do aconselhamento”. A complexidade é densa, persistente e difícil demais para ser desfeita ou destrinchada sem auxílio. A agitação dos ratos de Miller e Dollard resultava frequentemente na paralisia da ação. A incapacidade de escolher entre atração e repulsão, entre esperanças e temores, redundava na incapacidade de agir. De modo diferente dos ratos, os seres humanos que se vêem em tais circunstâncias podem pedir ajuda a especialistas que oferecem seus préstimos em troca de honorários. O que esperam ouvir deles é algo como a solução do problema da quadratura do círculo: comer o bolo e ao mesmo tempo conservá-lo; desfrutar  das  doces  delícias  de  um relacionamento  evitando,  simultaneamente,  seus  momentos  mais amargos e penosos; forçar uma relação a permitir sem desautorizar, possibilitar sem invalidar, satisfazer sem oprimir... Os especialistas estão prontos a condescender,  confiantes  em  que  a  procura  por  suas recomendações  será  infinita,  uma  vez que nada que digam poderá  tornar  um círculo  não-circular, e portanto  passível  de  ser  transformado  num  quadrado...  Suas  recomendações  são  copiosas,  embora geralmente se resumam a pouco mais do que elevar a prática comum ao nível do conhecimento comum, e daí  ao status de teoria autorizada e erudita.  Gratos beneficiários dessas recomendações percorrem as colunas de “relacionamento” em publicações sofisticadas e nos suplementos semanais de jornais sérios ou nem tanto, para ouvir o que queriam de pessoas que “estão por dentro” (uma vez que são tímidos ou envergonhados demais para falarem por si mesmos), para espreitar os feitos e procedimentos de “outros como  eles”  e  conseguir  o máximo  conforto  possível  por  saberem que não  estão  sozinhos  em seus solitários esforços para enfrentar a incerteza. E assim os leitores aprendem com a experiência de outros leitores, reciclada pelos especialistas, que é possível buscar “relacionamentos de bolso” do tipo de que se “pode dispor quando necessário” e depois tornar a guardar. Ou que os relacionamentos são como a vitamina C: em altas doses, provocam náuseas e podem prejudicar a saúde. Tal como no caso desse remédio, é preciso diluir as relações para que  se  possa  consumi-las.  Ou  que  os  CSSs  — casais  semi-separados  merecem  louvor  como “revolucionários  do  relacionamento  que  romperam a  bolha  sufocante  dos  casais”.  Ou  ainda  que  as relações, da mesma forma que os automóveis, devem passar por revisões regulares para termos certeza de que continuarão funcionando bem.  No todo, o que aprendem é que o compromisso, e em particular o compromisso a  longo prazo,  é  a maior  armadilha  a ser  evitada  no esforço por  “relacionar-se”.  Um especialista informa aos leitores: “Ao se comprometerem, ainda que sem entusiasmo, lembrem-se de que possivelmente estarão fechando a porta a outras  possibilidades  românticas  talvez mais  satisfatórias  e completas”. Outro mostra-se ainda mais insensível: “A longo prazo, as promessas de compromisso são irrelevantes. Como outros investimentos, elas alternam períodos de alta e baixa”. E assim, se você deseja “relacionar-se”, mantenha distância; se quer usufruir do convívio, não assuma nem exija compromissos. Deixe todas as portas sempre abertas. Se lhes perguntassem, os habitantes de Leônia, uma das cidades invisíveis de Ítalo Calvino, diriam que sua paixão é “desfrutar coisas novas e diferentes”: De fato. A cada manhã eles “vestem roupas novas em folha, tiram latas fechadas do mais recente modelo de geladeira, ouvindo jingles recém-lançados na estação de rádio mais quente do momento”. Mas a cada manhã “as sobras da Leônia de ontem aguardam pelo caminhão de lixo” e cabe indagar  se a verdadeira paixão dos leonianos na verdade não seria “o prazer de expelir, descartar, limpar-se de uma impureza recorrente”. Caso contrário, por que os varredores de rua seriam “recebidos como anjos” mesmo que sua missão fosse “cercada de um silêncio respeitoso” (o que é compreensível: “ninguém quer voltar a pensar em coisas que já foram rejeitadas”)?  Pensemos... Será que os habitantes de nosso líquido mundo moderno não são exatamente como os de Leônia, preocupados com uma coisa e falando de outra? Eles garantem que seu desejo, paixão, objetivo ou sonho é “relacionar-se”,  Mas será que na verdade não estão preocupados principalmente em evitar  que suas relações acabem congeladas e coaguladas? Estão mesmo procurando relacionamentos duradouros, como dizem,  ou seu maior desejo é que eles sejam leves e frouxos,  de tal  modo que,  como as riquezas de Richard Baxter,  que “cairiam sobre os  ombros como um manto leve” possam “ser  postos de lado a qualquer  momento”?  Afinal,  que  tipo  de  conselho  eles  querem de  verdade:  como  estabelecer  um relacionamento ou — só por precaução — como rompê-lo sem dor e com a consciência limpa? Não há uma resposta fácil  a essa pergunta,  embora ela precise ser  respondida e vá continuar  sendo feita,  à medida que os habitantes do líquido mundo moderno seguirem sofrendo sob o peso esmagador da mais ambivalente entre as muitas tarefas com que se defrontam no dia-a-dia. Talvez a própria ideia de “relacionamento” contribua para essa confusão. Apesar da firmeza que caracteriza as tentativas dos infelizes caçadores de relacionamentos e seus especialistas, essa noção resiste a ser plena e verdadeiramente purgada de suas conotações perturbadoras e preocupantes. Permanece cheia de ameaças vagas e premonições sombrias; fala ao mesmo tempo dos prazeres do convívio e dos horrores da clausura. Talvez seja por isso que, em vez de relatar suas experiências e expectativas utilizando termos como “relacionar-se” e “relacionamentos” as pessoas falem cada vez mais (auxiliadas e conduzidas pelos doutos especialistas) em conexões,  ou “conectar-se” e “ser conectado”.  Em vez de parceiros, preferem falar  em “redes”.  Quais  são os  méritos  da  linguagem da “conectividade”  que estariam ausentes  da linguagem dos “relacionamentos”? Diferentemente de “relações”,  “parentescos”,  “parcerias” e noções similares — que ressaltam o engajamento mútuo ao mesmo tempo em que silenciosamente excluem ou omitem o seu oposto, a falta de compromisso —, uma “rede” serve de matriz tanto para conectar quanto para desconectar; não é possível imaginá-la sem as duas possibilidades. Na rede, elas são escolhas igualmente legítimas, gozam do mesmo status e têm importância  idêntica.  Não faz sentido perguntar  qual  dessas  atividades  complementares constitui “sua essência”! A palavra “rede” sugere momentos nos quais “se está em contato” intercalados por períodos de movimentação a esmo. Nela as conexões são estabelecidas e cortadas por escolha. A hipótese de um relacionamento “indesejável, mas impossível de romper” é o que torna “relacionar-se” a coisa mais traiçoeira que se possa imaginar. Mas uma “conexão indesejável” é um paradoxo. As conexões podem ser rompidas, e o são, muito antes que se comece a detestá-las. Elas são “relações virtuais”. Ao contrário dos relacionamentos antiquados (para não falar daqueles com “compromisso” muito menos dos compromissos de longo prazo), elas parecem feitas sob medida para o líquido cenário da vida moderna, em que se espera e se deseja que as “possibilidades românticas” (e não apenas românticas) surjam e desapareçam numa velocidade crescente e em volume cada vez maior, aniquilando-se mutuamente e tentando impor aos gritos a promessa de “ser a mais satisfatória e a mais completa”.  Diferentemente  dos  “relacionamentos  reais”  é  fácil  entrar  e  sair  dos  “relacionamentos virtuais”. Em comparação com a “coisa autêntica”, pesada, lenta e confusa, eles parecem inteligentes e limpos, fáceis de usar, compreender  e manusear.  Entrevistado a respeito da crescente popularidade do namoro pela Internet,  em detrimento dos bares para solteiros e das seções especializadas dos jornais e revistas,  um jovem de 28 anos da Universidade de Bath apontou uma vantagem decisiva da relação eletrônica: “Sempre se pode apertar a tecla de deletar”. Como  que  obedecendo  à  lei  de  Gresham,  as  relações  virtuais  (rebatizadas  de  “conexões”) estabelecem o padrão que orienta todos os outros relacionamentos. Isso não traz felicidade aos homens e mulheres que se rendem a essa pressão; dificilmente se poderia imaginá-los mais felizes agora do que quando se envolviam nas relações pré-virtuais. Ganha-se de um lado, perde-se de outro. Como apontou Ralph Waldo Emerson,  quando se esquia sobre gelo fino,  a salvação está  na velocidade.  Quando se  é  traído pela  qualidade,  tende-se  a  buscar  a  desforra  na  quantidade.  Se  “os compromissos são irrelevantes” quando as relações deixam de ser honestas e parece improvável que se sustentem, as pessoas se inclinam a substituir as parcerias pelas redes. Feito isso, porém, estabelecer-se fica ainda mais difícil (e adiável) do que antes — pois agora não se tem mais a habilidade que faz, ou poderia fazer, a coisa funcionar. Estar em movimento, antes um privilégio e uma conquista, torna-se uma necessidade.  Manter-se em alta velocidade,  antes uma aventura estimulante,  vira uma tarefa cansativa. Mais  importante,  a  desagradável  incerteza  e  a  irritante  confusão,  supostamente  escorraçadas  pela velocidade,  recusam-se a sair  de cena.  A facilidade do desengajamento e do rompimento (a qualquer hora)  não reduzem os riscos,  apenas  os distribuem de modo diferente,  junto com as  ansiedades  que provocam. Este livro é dedicado aos riscos e ansiedades de se viver  junto, e separado, em nosso líquido mundo moderno. [...] Os principais alvos do ataque do mercado são os seres humanos como produtores.  Numa terra totalmente  conquistada  e  colonizada,  somente  consumidores  humanos  poderiam obter  permissão  de residência. A difusa indústria familiar das condições de vida compartilhadas seria posta fora de operação e desmantelada.  As  formas  de vida,  e  as  parcerias  que as  sustentam,  só estariam disponíveis  como mercadorias.  O Estado obcecado com a ordem combateu (correndo riscos)  a anarquia,  aquela marca registrada da communitas,  em função da ameaça à rotina imposta pelo poder.  O mercado consumidor obcecado pelos lucros combate essa anarquia devido à turbulenta capacidade produtiva que ela apresenta, assim como ao potencial para a auto-suficiência que, ao que se suspeita, crescerá a partir dela. É porque a economia moral tem pouca necessidade do mercado que as forças deste se levantam contra ela. Nessa guerra apresenta-se uma estratégia de mão dupla. [...] Numa piada irlandesa,  quando um motorista pergunta ao transeunte "como se vai daqui  para Dublin", este lhe responde: "Se eu quisesse ir para Dublin, não partiria daqui.” Com efeito,  pode-se  facilmente  imaginar  um mundo  mais  adequado  para  a  jornada  rumo  à "unidade universal da humanidade" kantiana do que aquele que por acaso habitamos hoje, ao fim da era da trindade território/nação/Estado. Mas não existe outro mundo, e assim não há outro lugar de onde se partir. No entanto não iniciar a jornada, ou não iniciá-la logo, não é — neste caso, sem dúvida — uma opção. A unidade da espécie humana postulada por Kant pode ser, como ele sugeria, compatível com a intenção  da  Natureza,  mas  certamente  não  parece  algo  "historicamente  determinado"  O continuado descontrole da rede já global  de dependência mútua e de "vulnerabilidade reciprocamente assegurada" decerto não aumenta a chance de se alcançar tal unidade.  Isso só significa,  contudo, que em nenhuma outra época a intensa busca por uma humanidade comum, assim como a prática que segue tal pressuposto, foi tão urgente e imperativa como agora. Na era  da globalização,  a causa e a política  da humanidade compartilhada enfrentam a mais decisiva de todas as fases que já atravessaram em sua longa história. O AMOR LÍQUIDO – O livro O amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, traz temas como apaixonar-se e desapaixonar-se, dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade, sobre a dificuldade de amar o próximo e convívio destruído. Na primeira parte, aborda o apaixonar-se e desapaixonar-se a partir de assuntos que envolvem Charles Baudalaire, Walter Benjamin, a morte e o amor realizado de Ivan Klima, Heraclito, Malinowiski, Bacon, Platão, Erich Fromm, Eros, o Messias de Kafka, desejo e amor, Catherine Jarvie, Adrienne Burgess, relacionamentos como investimentos, o fracasso no relacionamento, impulsos antropofágicos, a relação de volso é de certa duração com as condições de entrar no relacionamento consciente e sóbrio e manter do jeito que é, o encantado/viciado público, Antígona, afinidade, ideologia da intimidade de Sennett, a comunidade imaginada de Benedict Anderson. Na segunda parte, dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade, trata do homo sexualis abandonado e destituído, Levi-Straus no encontro dos sexos, a origem da cultural, a scientia sexualis de Volkmar Sigusch, órfãos de Eros, destituído pelo futuro, a medicina compete com o sexo pela responsabilidade da reprodução, o filho como um objeto de consumo emocional, paternidade e o pacote de dores do autossacrifício e os temores de perigos inexplorados, Fromm e o sexo em si, a liquida racionalidade moderna, o consumo é caracterizado pelo uso e descarte, os líquidos ambientes modernos: a subdefinição, a incompletude e a ausência de finalidade da identidade sexual; a sublimação de Freud, a circularidade de Derrida, communitas em oferta, qualidade e quantidade, duração pela rapidez, diversão, o Produto Nacional Bruto (PNB), gastar mais dinheiro é crescer, Bakunin e os valores da ajuda mútua, a invasão e colonização da communitas. Na terceira parte, sobre a dificuldade de amar o próximo aborda sobre o amor ao próximo como a si mesmo e a razão do interesse próprio e a busca da felicidade, a exigência ética de Logstrup, o relacionamento puro de Anthony Giddens, o mundo de hoje parece estar conspirando contra a confiança, a imediação da presença e a imediação da ação, cidade e mudança social, mixofobia e mixofilia no campo de batalha urbano. Na quarta parte, convívio destruído, trata acerca do espectro de xenofobia, o lixo humano, exclusão da humanidade, Hannah Arendt, a nova escala planetária da produção e reciclagem dos problemas, guarnições de extraterritorialidade como aterros sanitários, a encruzilhada dos refugiados e as perspectivas sombrias.  Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIA
BAUMAN, Zygmunt. O amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

 

ELA, ENTREGA AO AMOR...

Ela semeia de si em mim, a festa da entrega

E nela sou profusa chuva, irrigando o pomar do seu corpo...

Veja mais aqui.

 


Veja mais sobre:
O teatro e a poesia de Bertolt Brecht aqui.

E mais:
Bacalhau do Batata aqui.
Padre Bidião, o retiro & o séquito das vestais aqui.
Quarta-feira do Trâmite da Solidão aqui.
Mais que nunca é preciso cantar aqui.
Bertolt Brecht, Boris Pasternak, Vanessa da Mata, Bigas Luna, Francesco Hayez, Penélope Cruz & Abigail de Souza aqui.
Clarice Lispector, Luis Buñuel, Björk, Yedda Gaspar Borges, Brunilda, Vicente do Rego Monteiro, Téa Leoni, Doro & Absurdo aqui.
O amor é o reino da surpresa aqui.
O príncipe de Maquiavel aqui.
Personalidade, Psicopatologia & Anexim do Umbigocentrismo, um ditado impopular aqui.
A entrega total do amor aqui.
Psicologia da Personalidade aqui.
Psicanálise aqui.
Poetas do Brasil aqui, aqui e aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA;

Leitora Tataritaritatá!!!!
Veja  mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui& maisaqui e aqui.







RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...