RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: JÁ DERAM DO MAL TARDO AVISO, MIL CRISES,
MIL CATANAS, TUDO DE IMPROVISO! - Só
Jesus na causa, meu! Que é que há? Aperto para todo lado, ora! Quero ser rico,
vida boa, não ter que fazer nada e comprar tudo o que o dinheiro der. Mas aí é que
está o dendê: falta exatamente o tutu, meu, o molho de cédulas da muita e
graúda no pé do cipa, estibado! Quem não quer? Por isso digo: só o salvador para
dar jeito nisso! Ouvi alguém dizer que se Jesus ressuscitasse hoje nunca seria
cristão! Heresia, blasfêmia, valha-me Deus, abençoado, cruz-credo! A gente vive
na cartilha do filho do Senhor... O senhor que conheço e que manda em tudo aqui
é o Coronelão... Arre, só você que é ateu... Eu não sou ateu... Então é
AntiCristo! Nem isso, eu só não tenho mais ilusões com as religiões; você é
católico, apostólico e romano, está satisfeito com sua igreja, tem tudo o que
quer e vive reclamando de barriga cheia, é feliz desse jeito aos resmungos e
vai pros pés do padre todo domingo de manhã para sua santa missa e pregar as
suas santas coisas para se salvar quando morrer, né não? Aonde você quer
chegar, hem? Eu já fui católico, aliás, me fizeram católico no batismo sem nem
me perguntar; também evangélico, crente fervoroso, mesma merda. Eu mesmo fui
batizado, crismado, fiz primeira comunhão e todo domingo comungo e rezo para
que tudo dê certo na minha vida, apago os pecados e abro a caderneta para
cometer novos sem causar prejuízo na salvação, sou lá besta! Na adolescência virei
evangélico por conta própria, virei crente daqueles bodes berreiro paletó e
tudo, o evangelho embaixo do sovaco para cima e para baixo, pregação, louvação
e tome lição; um dia lá, me arretei com o pastor, virei espírita de mesa branca
e baixar espíritos, fui engalombado, dei pinote de todo jeito, quebrei a cara
mais de mil vezes, o que era bom estava de porta fechada, o que era ruim de
porta aberta, passei pros neopentec da vida e essas drogas todas de berreiro
cristão e a minha vida é o mesmo tolete da sua. Ah, eu mesmo vivo como posso,
dou meus saltos soltos, nó em pingo d’água, unhas na parede, pecando e mijando,
fodendo e alisando, vou de todo jeito, contra tudo e todos, Deus no coração e a
minha santa igreja me guiando para me salvar. Salvação? Você é ateu, não sabe o
que é isso. A gente nasceu para se ferrar e a culpa é de todo mundo, o inferno
e o paraíso são aqui mesmo. Minha, não, olhe-lá! A terra é o éden e fazemos
dela o grotesco de todos os horrores. Lá vem você filosofar, papo de comunista...
O que você faz para tornar sua vida melhor? Ué, eu trabalho, sou responsável,
sustento família, dou duro num trampo de quase esfolar o cu, pago as contas em
dia, obro caridade, cumpro com meus deveres tudinho em cima da risca, resolvo
tudo e não consigo ter uma satisfação mínima, mas minha igreja me garante um
dia virá e serei feliz aqui e no céu, seja louvado! Ninguém está satisfeito, a
gente não se satisfaz, sempre insaciável, não para nunca de querer, sempre mais.
Mas eu merecia uma vida melhor, meu bom Jesus assim providenciará! Todo mundo
merece. Ah, o mundo que se fôda, quero saber de mim e que eu mereço uma vida
melhor! O que o faz merecedor? Ué, meu, também, sou filho de Deus, não acha? E
por que você não enricou ainda fazendo tudo direitinho, sem pecar ou se pecando
pede perdão pro padre, vai pra missa, reza todo dia, pede tudo ao seu bom Deus
para salvá-lo das coisas ruins e não ficou ainda hoje estibado de ter de tudo o
que quer, hem? Ah, a vida não é fácil, faço tudo direitinho como manda o
figurino, mas não sei por que não consigo fazer nada do que planejo, tem uma
coisa que encarca e não me deixa fazer direito, não consigo alcançar meus
objetivos nem juntar dinheiro para comprar um carro que tanto preciso para
trabalhar, como para gozar do privilégio de poder me deslocar para onde e como
quiser. Ah, tá! Só você mercê é? Mereço uma vida de paz e felicidade e não
consigo sair dessa vida de porqueira que tenho desde que me entendo por gente! O
que você faz para merecer? Ora, ora. Ora ora, ora bolas! O que faço? Sim. O que
faço todo dia? Exatamente, o que faz? Ah, como eu já disse: dou duro, ralo que
só, luto, vou pra cima e pra baixo, faço tudo, sei que me roubam o sono, o
sangue, a vida, tudo, não tenho nada, nem um lugar para dormir direito, uma
casa decente para morar, nunca consegui sair do aluguel, sempre ferrado pelos
pagamentos mensais que logo que são pagos já estão prontos cobrando pro mês que
vem, um círculo vicioso, sabe, coisa de invejosos de olho seca-pimenteira, sei
que tem muito assim ao meu redor, tudo querendo tomar o que tenho, tudo
querendo acabar com o que fiz, gente ruim como a praga, que vida é essa? Você
disse que tinha Jesus no coração e era feliz, agora vem com infelicidades, não
chego a entendê-lo... É sempre aperto e crise, nunca sobra nada no final do
mês, nem na marra. E você acha que é só você que está nessa situação é?
Prestenção: os outros que vão pro inferno, quero resolver a minha vida, ora
bolas! Eu quero o meu pedaço de paraíso, nem que eu tenha que pisar, esfolar,
pé na goela, chute na canela, cambalhota pra lá, cama-de-gato para cá e enrolar
todo mundo para chegar na frente, subir no pódium, dar o dedo e uma banana bem
dada para todo mundo e provar que cheguei, venci, sou o vencedor, o resto que
se f-o-fo-d-a-da, se fôda! Você acha que tudo isso vai melhorar sua vida? Ei,
peraí, de que lado você está, hem? Ora, ora! Ora, ora, nada, ainda me vem com
essa, sou um cara lutador, pinto o sete, me viro como posso, rezo todo dia,
peço a Deus um dia melhor pelo menos, faço tudo por isso, tenho fé em Deus que
um dia vou conseguir e dia após dia não saio da miséria, enfiado cada vez mais
até o pescoço, mas sei que o meu dia chegará, será minha redenção e vou ser
rico para mangar de todo mundo. Ótimo, na verdade, todos fazemos isso, lutamos
que só e não saímos dessa situação lastimável. Ah, eu sei, tão roubando a
gente, tenho certeza! Tem gente se aproveitando da leseira da gente. Ora se
tem! Por que o Coronelão só ganha, hem? Por que só ele leva a melhor, ele e os
dele. Se junte ao inimigo, vá pro lado oposto ou morra babando o ovo dele. Quem
vai pro lado dele não tem volta, vende a alma ao diabo, e só sai mortinho da
silva. Então? Do outro lado é quase a mesma coisa e ainda é pior: ganha a raiva
dele de graça, pronto, encaminhado para se foder embaixo da terra. Fazer o quê,
então? Não sei, sei que preciso viver. E o que é viver? Viver? Sim. Viver é...
Ah, meu, você gosta de fazer pergunta difícil, filosofices inúteis... Ah, você
é um cabeça de penico, só sabe fazer meia sola e gambiarra em tudo, até nas
ideias, fala, diz que faz e acontece e não sai do cocô de vida que é a sua. E
você? Sou diplomado. O caralho! Diploma de bosta, comprado numa faculdade
dessas mixurucas de esquina, sou mais meu curso técnico e dou lavagem nocê com
ele de mil a zero, além do mais, tua vida não é um tantinho assim de melhor ou
diferente da minha, filho da puta! Sou melhor, mais inteligente e mais lindo
que você! No cu! Pronto, começou a esborrar as asneiras e pulhas! Eu sei, sei
que estão me roubando, para que serve mesmo Bolsa de Valores? Hem? Ligo a TV e
o noticiário fala de investimentos, crise assolando, a economia vai mal, desde
quando? Desde sempre, as coisas acontecem e tudo na mesma, seja a boca de urna
e ninguém está nem aí, a falta de água – quem é o chefe lá da estação de
abastecimento, quem? O sobrinho do Coronelão. E a falta de energia todo dia –
quem é o gerentão lá na companhia elétrica, quem? Outro sobrinho do Coronelão.
Quem é que está sobre todos os cargos públicos federais, estaduais, municipais,
no topo, quem, quem? O Coronelão ou alguém ligado a ele, todos filhotes dele.
Eita! Que foi? O que foi aquilo? Aquilo, o quê? Aquilo ali. O delegado Dino
passou com mais de mil com os chumbetas atrás. Danou-se! É bronca! Só sendo
mesmo. Que terá sido dessa vez? O povo só gosta do circo pegando fogo e a
polícia tá prontinha para dar espetáculo na defesa do patrimônio dos ricões.
Vai ver, tem coisa. Ei, o que foi, hem? Parece que é o povo lá da Roncadeira
que estão fazendo porcarias contra o Coronelão! Tão doido, só sendo. Comboio de
besta! Vai terminar tudinho comendo terra. Desocupados! A rádio tá dizendo que
é um bando de maconheiros que estão fazendo arruaça lá na Roncadeira. A-rá! Só
na força da maconha para encarar de igual para igual com o Coronelão. Coitados,
são uns pobretões! Ah, já tá do lado daquela gentalha, é? Que culpa eles têm de
serem pobres? Coisa de socialistazinho descarado ficar defendendo aquela
gentinha. Pois é, já faltou energia e o zoadeiro lá está grande, estão todos
invocados, tocando fogo e atirando pedras. Como é? É que o Cabraí saiu calçando
tudo por lá e distribuindo dinheiro, o Coronelão não gostou e está despejando o
povo de lá da Roncadeira embaixo do maior cacete! Vixe! Vamos embora que a
bronca entorna e lá vem o enterro voltando. Simbora, véi!... Veja mais aqui,
aqui & aqui.
DITOS &
DESDITOS
A verdadeira tragédia é que somos todos
seres humanos, e seres humanos têm um senso de dignidade. Qualquer dominação de
um ser humano sobre outro leva à perda de alguma parte de sua dignidade. Será
que a dignidade de alguém é tão grande a ponto de ser destruída assim?... Eu
não tenho vida própria. Coloquei a mim mesmo e a minha vida a serviço do povo.
Se a necessidade me obrigar a fugir, eu fujo... se for para a cadeia, eu vou
para a cadeia... se for para morrer, eu morro. Minhas aspirações pessoais são
exatamente as aspirações gerais do povo...
Pensamento do escritor e jornalista argelino
Yusef Dris, autor de obras como Les Amants de Padovani (2004), Affaires
criminelles. Histoires Vraies ( 2006), Biographie de Guerouabi
(2008), Destin à l'encre noire (2012) e Le puits confisqué (2010).
ALGUÉM FALOU:
Você não precisa pensar no amor; ou você o
sente ou não... As palavras se agarram ao âmago de nossas memórias e permanecem
ali em silêncio até que um novo desejo as desperte e as recarregue com energia
amorosa. Essa é uma das qualidades do amor que mais me comove: sua capacidade
de transmiti-lo. Como a água, as palavras são um maravilhoso condutor de
energia. E a energia mais poderosa e transformadora é a energia do amor...
Pensamento da
escritora, teatróloga e roteirista mexicana Laura Esquivel (Laura
Beatriz Esquivel Valdés), autora de obras como Como agua para chocolate
(1989), La ley del amor (1995), Íntimas suculencias: Tratado
filosófico de cocina (1998), Estrellita marinera (1999), El libro
de las emociones (2000), Tan veloz como el deseo (2001), Malinche
(2006), A Lupita le gustaba planchar (2014) e El diario de Tita
(2016). Veja mais aquí, aquí &
aquí.
EM BUSCA DE SCHINDLER
- [...] Mas, então,
qual é a alternativa a tentar dizer a verdade sobre o Holocausto, a Grande
Fome, o genocídio armênio e a injustiça do desapossamento nas Américas e na
Austrália? Que todos sejam reduzidos ao silêncio? Fingir que o Holocausto foi
obra apenas de uma minoria bem armada que não causou tanto mal quanto se alega
— e, da mesma forma, argumentar que a Fome Irlandesa foi algo inevitável ou
culpa dos próprios irlandeses — é dizer que ambos não passaram de boatos pouco
confiáveis, e não os grandes motores da história que tão obviamente se
revelaram ser. Pensar assim me convinha na época, mas continuo acreditando que
é verdade: se houver áreas da história que são proibidas, então, em princípio,
ficamos reduzidos a tergiversações, a uma narrativa de fachada. [...] O
paradoxo é muito apreciado pelos romancistas. O salvador desprezado, a
prostituta humana, o homem egoísta que de repente se torna generoso, o tolo
sábio e o herói covarde. A maioria dos escritores passa a vida escrevendo sobre
a maldade inesperada naqueles que são supostamente virtuosos, e a virtude
inesperada naqueles que são supostamente pecadores. [...] As finanças
pessoais são como a saúde pessoal: cruciais e trágicas para quem as vivencia,
mas entediantes para quem ouve. [...] A sensação de morte que se
experimenta nos sonhos parece-me mais penetrante e carregada de atmosfera do
que o medo comum que se pode sentir estando acordado. [...]. Trechos extraídos do livro Searching
for Schindler: A Memoir (Sceptre, 2007), do escritor e dramaturgo australiano,
Thomas Keneally, autor da obra Schindler’s List (1982).
ELA, ENTREGA AO
AMOR...
Ela semeia de
si em mim, a festa da entrega
E nela sou
profusa chuva, irrigando o pomar do seu corpo...
Veja mais aqui.








