sexta-feira, março 14, 2008

TOLINHO & BESTINHA



QUANDO TOLINHO BATEU PINO COM O CAPETA GRANULADO




Cacetadas muitas vieram, doidice pura. O Tolinho não arredava o pé de suas aprontações. Volta e meia, era cada trombada de deixar o mundo inteiro de cabelo em pé. O cabra era mesmo fuçador.
Certo dia, uma festança das boas na redondeza, o infeliz-das-costas-ocas danou-se de espaçoso, adentrando nas intimidades do festeiro. Espia só. Era uma comemoração do abastado Sizenácio, o coronel mais rico de todo lugar que se tivesse notícia.
Essa festa possuía dois espaços: o terreiro de fora do cercado para a mundiça; o salão da casa-grande, só para os achegados. Pros banguelas, um xarope-de-bêbo, Maria-teimosa, de deixar tudo assanhado arrotando empáfia.
Pros da laia, só uísque escocês. Ôxe, Tolinho, maior-cu-de-cana já tungado, avançou-se e já se dava ao direito de se enturmar com os casacudos. Nossa, que desplante! Ele nem se tocando lá no meio, todo adiantado, entrando espalhado na curva, queimando a zebra, afogando-se na brita com a cara toda arranhada. Maior risadagem, se esfregando com abraços com desconhecidos chaleiras do coronel, apertando de mão em mão e contando as anedotas de seu conhecimento. Todo truviscado, ainda conseguiu enxergar o maior cheirado da trupe.
- Ige, esse povo gosta de pitar tabaco mermo!
E quando um deixou em cima da mesa, Tolinho nem se fez de rogado e meteu-se a provar da tabaqueira. Mas olhe só: a cabeça do folgado deu um nó, mas um nó bem dado do tino ficar rodando que só, perdendo a noção de tudo. Vôte! Aí é que foi elas. Parecia mais que ele estava se enfiando num buraco negro nalgum universo paralelo, amocegando num rabo dum cometa qualquer.
Daqui prá pouco, começou a se agitar de se ter a idéia de que ele se metera numa casa de maribondo, debatendo-se todo. Se já possuía a bitola estreita, provocava agora o maior abacaxi da paranóia!
- Segura o homi!!
- O cabra tá desembestado!!!
- Êpa! Pega!
- É melhor tangê ele pro açude.
- Tá doido, s´esse cabra morre afogado????
- Milhó qui tá azoando aqui!!
Ôxe, Tolinho mergulhou num mutismo do olho num bater de jeito nenhum. Ficou no cepo e só repetindo estranhamente: - Yu fôck! Se fôda!
Quando se mexeu, foi para arrear as calças e depositar um tolote proeminente no assoalho da sala de estar. Nossa, fedia que só a porra! Incensou o ambiente! O grosso calibre do coroné avantajado que fazia volume como se fosse uma obra de arte abstrata plantada no centro da sala, arrancou-lhe uma dúzia de pregas do papeiro, do anel ficar dolorido de tão dilatado. E olhe que nem fez careta prá botar prá fora aquilo tudo.
Disso, soube-se depois que se submeteu a uma cirurgia de hemorróidas, tendo de ser costurado minuciosamente, do bocá se parecer um cravinho de rosa de tão arrebitado. Bote mangação.
Depois ficou se contorcendo, inventando de botar o dedão no pé no buraco da venta, parecia mais que era de borracha de tanto se envergar.
Quando se espremeu todo, daqui pouco, caiu pesadamente de ficar estirado no chão, das bolas do olho ficar rodando. Arrastaram o endemoninhado pro chuveirão, deram-no um banho truculento, penduraram de cabeça prá baixo, espicharam, bateram bei bei bei com força, e nada de dar sinal de vida.
Três dias depois bunsuntava ele com uma tremedeira intermitente, o juízo apitando mais que sino de igreja blén blén blén, o coração acelerado num bumbo bum bum bum batendo mais que girândola de fogo de artifícios, uma fome de derrubar um elefante, um desconcertado de num acertar nem a porta de casa, avalie. Mas gostou do que passou. Viciou-se dum jeito de num poder ver pó-de-giz, farinha, açúcar granulado, efervescentes, pó que fosse, estava o sujeitinho na maior cheradeira, querendo viajar de novo por lugares nunca dantes viajado. Foi mesmo. Sugestionou-se de um jeito de qualquer farelo levá-lo às alucinações mais prazerosas. Cheirou, ficava ligadão. Se lúcido já era doido, imagine endoidado desse jeito. Pode?
- Êpa, peraí, peraí, peraí - reclamou Tolinho de repente no meio da narrativa. - Peraí, peraí, peraí!!!! Ei, assim tomém é demais tomém. Peraí, ô seu escrevinhador-de-meia-tijela, sô só bota prá rachar em cima de mim, né? Tô ficando ingicado. Tô ficando de saco cheio dessas suas trampolinagens prá cima d´eu. Num güento mai. Ói, espie só: tô me revoltando e num quero mais participar dessa mixaria de estóra, não. Ei, psiu, m´iscute com atenção! Num adianta fazer muxôxo, ou eu mermo conto minha istóra, ou vou-me-s´imbora dessa loa. Viu?
- Calma, calma, Tolinho - respondi-lhe -, não estou fazendo nada mais que narrar o que se passou em sua vida pregressa...
- Vida o quê? É a mãe! Ei, peraí, em premero lugá, meu nome não é Tolinho, é Beliato Marcolidito Cerejeira Silva Filho, exijo arrespeito, acima de tudo, e quero ser tratado assim. Em sigundo lugar, ocê só mostra os ponto ruim, chega disso, cadê c´ocê mostra qui sô trabaiador, qui sô crente em Deus, qui nunca tirei vantage das freira, qui sô racôio mas tenho uma tesão do caraio, oro todo dia pros santos e prás santas, vô à missa de quano em veizi e peço perdão dos meu pecado, sô decente e quano escorrego na folgança, s´arrepeno e de juêio peço clemença do maiorá...
- Calma, calma, Beliato Marcolidito Cerejeira Silva Filho, tá bom assim?
- Arrispeito é bom, eu gosto e ejijo!
- Certo, seu Beliato Marcolidito, e como é que o senhor quer que eu narre a sua história.
- Apois bem, a partir de agora, seu escritorzinho-de-meia-pataca, eu, a parti di agora, assumo a direção dessa jeringonça mais sem pé nem cabeça. Vumo lá. Minha graça todo já sabi, inté meus apelido todo mundo já adecorou. Sô fio de seu Beliato-mão-de-onça, o cabra mais arretado qui já se teve notiça, e de dona Conça-tranca-rua, eita mulé macha da gota! Essa me deu muito desacerto de quage arrancar meus coro. Sou macho e quem é alesado é o Bestinha e o Boca-de-frô. Eu, não, sou sabido e muito sabido. Bote astuça. Essas istóra de mulé feia é invenção loroteira desse mintiroso. Eu mermo já namorei mulé bonita, das muita, muitona, daquelas de enchê a vista e parecê capa de rivista. Quem me enche o saco, sou chato e bote chato nisso. E digo: quano deus dé bom tempo e vergonha nos homi, eu endireito o pau da venta. Arrespeito tudo: pirôbo, quenga, trambiqueiro, calunga, presepeiro, xumbregador, peiteiro, manguaçado, tudo, meno tarado e comedô de criancinha. Ejijo arispeito, ora, qué qui minha mulé, meus fio e meus parentes e aderentes vão dizer cuma pinóia dessa? Tudo é lorota dum apaideguado dum escritô fajuto feito esse, sabiam? Traço tudo no peito e na lata do ingrisiado. É certo qui cometo umas bobagem, mas tenho responsa e ejijo arespeito! Gosto de mulé, isso sim, gosto e gosto mermo, além da conta. Esse negóço de eu me achegar a veado é invenção. Tudo boataria, tudo caboetage sem pé nem cabeça. Mulé mermo nunca ditou prá minha banda, tudo levado no relho e no arreio. Embaçou comigo, puxo o cabresto e mostro quem é qui manda! Gosto de manha e cafuné, sô doido por isso. Casei-me cuma besta-fera agorenta qui só vive aporrinhando meu juizo, maisi sô eu qui manda no currá, tá claro e evidente. Quem num me agüenta que se fôda! Eu sou eu e pronto, quem quisé qui venha encrespar comigo, hum, vai vê só no qui vai dá! Só vai dá ele! Ih! Peraí qui vorto já! Fui!

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.  




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