terça-feira, março 11, 2008

PROEZAS DO BIRITOALDO




XIII

Quando Deus Num Quer, Santo Num Voga.


Estava Birito naquela noite todo atarantado com a tuia de coisas que aconteciam na reviravolta de sua vida: a Munga, seu Ostrogésilo, o emprego, o futuro se projetando, era mesmo um redemoínho de tempo desarrumando-lhe a idéia para arrumar sua vida.
Sabia, de antemão, que algo estava por trás disso e martelava no seu quengo aquele encosto roendo por dentro, não sabendo se vindo dos ventos bons, ou se das grotas malignas. Alguém lhe perseguia os passos, isso sabia, fungando no seu cangote, vigiando-lhe as passadas. Pior que se amedrontava de noite, querendo fugir dessa assombração. E quando ouvia: - tô aqui, viu? - ele se desesperava de deixar as bolas do olho virando mais que na roleta do bingo, caçando os quatro cantos onde estivesse algo suspeito, até constatar que aquilo só se comunicava consigo e que mais ninguém notava.
Quando conseguia cochilar, acordava atônito, a tempo de explodir seu pânico e acordando todo mundo da casa, aperreado por algo embaixo da cama, em cima do guarda-roupa, atrás da porta, no quintal, remexendo nas telhas, escondido alhures. Um buliçoso temor de num deixar ninguém se afastar dali. Mãe Nega mesmo se danava a rezar prenunciando que algo das coisas mais estranhas estavam por acontecer. E o bicho só dormia depois de uns murros pesados de deixá-lo molinho, roncando a noite toda.
- Mulé, nosso filho tá se auto-enlouquecendo! - dizia Manuel Bertulino sob a maior preocupação.
- Isso é olho grande dos invejosos! -, defendia Mãe Nega.
De manhãzinha, com as olheiras pronunciadas, arrumado todo, seguiu para o local onde estaria o seu futuro promissor, esquecendo aquele tormento. Lá chegando, deparou-se com um prédio enorme, um galpão que num tinha mais tamanho, no centro uma construção circular, com uma torre no meio, panóptica, de onde se podia ver tudo o que se passasse no interior do gradiosíssimo vão, através das grandes janelas envidraçadas. Era o maior zoadeiro num entra e sai de gente apressada, aos gritos, tudo se estufando de raiva, no meio de caminhões, utilitários, carregadeiras, empacotadeiras, calungas embrutecidos, gente como a praga correndo entre galões de combustíveis, animais em extinção enjaulados de papagaio à onça jaguaretê; sacos mais sacos de açúcar amontoados do piso ao teto; pacotes de cigarro; caixas de leite enlatado, comida, bebida, cereais, meio mundo de mercadoria encaixotada, nos fardos, nos sacos, nas grades, nos conteineres, nos frigoríficos, tranqueiras das muitas não identificáveis, trabalho pesado, de dia e de noite, os barriga verde falando em código, parecia mais um fuá doido de tanta gente que azarava serviço. Ele lá, espiando tudo e esperando que alguém notasse sua presença ali.
- Qué que tais vendo aí plantado, paiaço?
- Tô esperando seu Ostrogésilo que mandou vir hoje aqui.
- Dr. Ostrogesilo inda num chegou e vê se num fica ai coarando, cabeça desocupada é oficina do diabo! Arriba, ou entra no pesado ou sai fora!
- O que é que eu faço?
- Arrume logo uma lavagem de roupa! Pegue aqueles saco ali e jogue na carroceria daquele caminhão!
Depois de uma intervenção inamistosa dessa, que mais parecia oriunda de educados na Suíça, ele nem pestanejou e já carregava os pesados sacos, sacudia no caminhão no meio de outros tantos mudos calungas que só ronronavam carregando o peso. O negócio era pesado de quase arrebentar-lhe a espinha dorsal. Mal carregou dois sacos, estava todo desconjuntado.
- Mais uma marica práqui, num dá! - gritou um paquiderme lá de dentro, - ou trabaia ou vai alinhá o cu na rola mais grossa que te estroncar por aí.
Não se deu por vencido e foi se danar na labuta. Lá para as tantas, mais ofegante prá morte que escravo vivo, lá vem o homem com o séquito, uma penca de gente pendurada nas partes pudendas do dono de tudo, varrendo-lhe o chão com a própria bunda, limpando, ajeitando tudo para que ele num tivesse nenhum motivo para contragosto. Sabia-se que ele era uma raposa de mil astúcias, somítico, papando as coisas a preço de enforcado, um cavalo-batizado cheio das enrolanças, maldoso, exagerado, impenitente; um zoilo, chamando a todos apenas de suínos chorões; um alceste, indiscreto, não guardando conveniência nos momentos que requeriam condolências, fazendo cobranças a viuvas em pleno velório do marido, e nas ocasiões extremas, situações embaraçosas.
Quando ele queria, o mundo girava ao seu redor. Extravagante, ruidoso no maior trupé. O homem num falava com ninguém, cara de poucos amigos. Era grito e mais grito. Quando diziam que a charque estava estragada, mandava distribuir de presente para a população. A sardinha tá passada, venceu o prazo de validade. Dá pro povo. E quando alguém cochichava no seu ouvido, via-lhe nas faces a raiva, gritava ameaçando matar alguém que atrapalhasse seus negócios, ficais de renda, cobradores, o que fosse!
Lá pro final da tarde, ele perguntou quem era aquele novato e disseram-no que ninguém sabia quem era que mandou o cara aparecer. Ah! lembrou-se e mandou chamar-lhe. Trouxe-lhe pro canto e disse-lhe:
- Nu-num qui-quero vo-você nesse servi-viço não, te-tenho uma-ma mi-missão espe-pe-cial pa-para vo-você!
O Chefão puxou-lhe pelo braço que doía que só, sacudiu-lo no canto e mandou que um certo Ernestinildo passasse as instruções. O cara sapecou oratória mais parecendo que chamava na grande. Depois de uma hora de esporro, fez distribuir as normas de convívio naquele empreendimento. Era o regulamento interno, com os direitos e deveres dos empregados. Um do patrão; outro, da esposa; dos filhos do patrão, também; das irmãs, idem. Eram nove irmãos, seis homens, tres mulheres e um calhamaço de não ter fim com o código de conduta e tratamento. Cada um se achava dono do seu pedaço.
Enquanto recebia aquelas apostilas com as orientações que obrigavam-no a ler, decorar e praticar em cima da risca, Birito pensava como aquele bruto enriquecera, ninguém sabia. Estava mudado daquela noite na sua casa, todo simpático, cordato. O homem, agora, para ele, era um bicho ruim.
Folheando as páginas, o Ernestinildo disse-lhe que seria cabo-eleitoral e que, para isso, liberaria todo dia dinheiro para ele falar bem, muito bem, bem demais dele aos que encontrasse na rua. Birito aquiescente, sim-senhor.
- Olhe, tem que falar bem demais, coisas de santos, milagres de Jesus, poderes de Deus, alma de anjo, ouviu? E trnasformar essas conversas em voto, certo?
- E onde vou ter que inventar isso?
- Com seus parelhas, seus pariceiros, todos do seu convivio. Você tem que conhecer todo mundo para dizer a todo mundo isso que tô lhe dizendo. Bote prá rachar que nem pé de cabra: deixe tudo em bandas, crentes disso, que o homem tem que ser prefeito, deputado, senador, presidente da república, tudo, seu cabra! Se vire, viu!
- Sim-senhor.
- Olhe, a gente vai liberar dinheiro, carro, prestígio e você só tem que falar bem do homem. Onde ele chegar que alguém num souber dele, a gente arranca um culhão seu, ouviu? Depois arranca o outro, depois um dedo, todos os dedos, uma orelha, todas duas, vai ficar maneta, perneta, caolho, sem o pau da venta, banguelo, até num sobrar nem a alma, se você num cumprir o que está obrigado, ouviu? Tá mouco, tá!
- Sim-senhor.
- Arrede daqui e só volte com notícia boa que o homem num quer lhe ver nem a cara!
Pronto. Birito saia do inferno e estava no céu, amontado num mandú, cheio das granas, pago para limpar a barra dum velhaco onde quer que exista lugar que tenha gente. Virou cabo eleitoral do sujeito mais biltre. O bicho soltou-se na buraqueira na maior mamata. Tão doido de dar volta atrás do próprio rabo feito cachorro doido. Num podia ver um pé de gente já soltava a maior tocarola, parecia que o político era ele. E quando o vivente se abestalhava ele largava o maior paralogismo de cheleleu de juntar matula. Ele nem-nem, superava suas ataqueiras na maior corta-brocha. Parecia mais beluário. Nego mais esperto arreliava:
- Gastar cera com defunto ruim, é bronca, meu!
- O home é a reencarnação de Pedro I, maior gente-fina, coração dos bons, bicho!
- Cai noutra, deslavado!
Birito no maior cipoal ficava entupigaitado coçando a gaforinha e abusando do psitacismo e da boa fé dos ouvintes. Mão-de-obra das brabas dobrar aquela gente.
- Ou esse povo tá sabido, ou o home é um defunto ruim de tanger!
Estava já desencorajando no meio da locafa de abaeté quando viu com os dentes de fora a fulustreca Pé-de-quengo, qual não foi o riso sardônico que dispensara ao vê-la desfilando, truct-truct, na calçada.
- O home é um santo! - dissera-lhe ela na presença de todos!
E a mulher largou elogios cabeludos ao Ostrogésilo a ponto de desenterrar-lhes virtudes nunca dantes vista. O maior ó da paróquia soou de deixar nego de boca aberta o tempo todo com o testemunho dela. A negada se convencendo logo e apoiando a candidatura. Pé-de-quengo salvou a lavoura do Birito.
- Daqui a pouco tu me paga direitinho, viu? - disse pro Birito aos cochichos.
O povo já tava chamando pelo nome do homem quando Pé-de-quengo fechou a oratória mandando que todos votassem nele para o que ele aparecesse candidato. Maior ovação. A multidão se dispersando, Birito aproximou-se dela agradecendo.
- Agradecimento, uma ova! Prepare-se logo para molhar minha mão!
Birito todo empolgado e metido a cheio das lábias, encostou-se no maluvido da manquejante e deitou pilhérias picantes a ponto dela arrevirar os olhos e se agarrar no cacete dele. Ele avexado, pronto prá enfiar o esfolado no arreganhado, arrumou-se todo e levou-la prá trás da igreja de São Sebastião. No escurinho ele começou o seu pega-pega, levantava saia, alisava a bunda, a doida se espremendo. O cara doido para quebrar o cabresto dele, ela foi, levantou a moleta com a perna pendurada. Arreganhou-se e ele se enfiou. Tome, tome. Um fungado aperreado. Foi uma gozada da gala lambuzar tudo e afogar Pé-de-quengo dela estatelar-se no chão desmaiada. Biritoaldo assustou-se, que seria aquilo? Que dirão dele? E o emprego? Correu, escafedendo-se dali e quando chega na rua, todo mundo: - rapaz, comesse a aleijadinha!!!! Que mangação. A vergonha foi tanta que deu-lhe um estreluque na hora do bicho ficar abetesgado com cólicas de arrepiar monturo. Deu uma carreira pro cagatório vítima da maior piloura. No amaro-bocão cagou-se chega esvaziar-se, esborrando tudo da bacia sanitária, maior meladeiro de bosta escorrendo frouxa pelo assoalho.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui



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