quinta-feira, março 06, 2008

TOLINHO & BESTINHA



VI

Quando Boca-de-frô engrossou o caldo para formar a tríade amalucada

Luiz Alberto Machado

O primeiro amigo pra valer do Tolinho foi o Boca-de-frô. Amizade essa que persiste até hoje, apesar dos xingamentos, intrigas, dedadas, boatos, esfregões e injuriamentos. Depois de trocarem muito cavalo-mago, descobriram um parentesco longínquo daqueles de dar uma volta pelo fim do mundo e findar lá pelos oitavos ou décimos graus dos cafundós nos quintos das famílias possíveis e inimagináveis: primos, que se dizem consangüíneos. Não sei muito bem como é que entendem essa parentalha, mas fica sendo assim. Daí unha-e-carne. Este relacionamento mais que estreitíssimo promoveu o maior pisoteio por aquelas bandas, vez que ambos num largavam quietos nada que caísse na conquista. Fosse doidivana aloprada, daquelas mais mocréias das piores catraias, até bichos e indecisos. Não passavam apertado, logo tomavam a iniciativa de abocanhar algo na tresloucada mania de se aproveitarem de tudo quanto houvesse na vida.
O Boca-de-frô mesmo era astuto ao máximo, mas fraquejando sempre de levar pisa todo dia e o dia todo por causa dos flagras libidinosos dele com os seus mais insólitos concubinatos. Para se ter idéia, a primeira mancebia dele fora com a galinha Grenalda. Oxe, a bicha num podia dar um piado que ele crás! E esse idílio durou uns cinco ou seis meses, até que ela fora estrangulada, depenada, assada e servida numa ceia domingueira. Desse episódio, o cara ficou desolado, macambúzio, atarantado noites e dias com aquela perda. Essa, então, a primeira desilusão na vida que marcara a alminha tola do Lombreta. Depois viera a porquinha Juremita que as más línguas insinuam ser uma fêmea javali. Teimava ele tratar-se de uma duroc, mas outros menos especialistas diziam tratar-se de uma pecari domesticada. Pode? Nossa, o débil amante cuidava dela com especialidade de suinocultor. Para ele, aquela era um colosso: carnuda, aprumada e jeitosa. O insaciável seguia a regra, ração com cereais proteinosos até cuidar da poliestria anual. E quando ela estava no cio o maloqueiro se lambuzava. Para suas fantasias sexuais comprara até enfeites e acessórios femininos para melhor ornar com elegância a sua escrava sexual. A suína, por isso, possuía todo tipo de lingerie, estojos de maquiagens, fio-dental, babydol, sutiã, liganete, brincos, pulseiras, anéis, relógios, correntes, piercing, tatuagem, tiara, gargantilha, perucas, além de sofisticados adereços usuais da tipologia sadomasoquista. Vote! Um verdadeiro Marquês de Sade! Imagino, cá comigo, o zoadeiro que a leitoa não fazia no meio da emboança sexual.
Não consegui apurar o período desse enlace, sei que ela pariu várias ninhadas jamais vista. Diziam alguns que já nasciam com o focinho e os beiços feito um botão de flor, denunciando-lhe a paternidade. Ninguém, na verdade, nunca viu nem tivera notícia de ter visto os filhotes, vez que os pais dele davam-na por estéril, retalhando-a no açougue para a freguesia freqüente. Era uma vez e foi-se mais uma. Nova tormenta no toitiço do enamorado. Não parou por aí. Depois deste desatino, veio a jumenta Cremildita, essa durou anos. O apaixonado cuidava com aplicação de fiel da venta até a cauda, afeiçoando-se mais pela garupa da jega, a qual adaptou todos os adereços pertencentes à finada Juremita. Paixão duradoura essa que só foi interrompida com o flagra dele atrepado num tamborete e abusando da donzela. Foi um deus-nos-acuda com estardalhaço. Resultou numa esmerada educação religiosa, daquelas fanáticas, dele exibir camisetas com motivos católicos exacerbados, audiófilo de gospel e da juventude Jesus Super-Star, até hoje.
Na verdade, quem consolou Boca-de-frô foi Tolinho que desviou o rapaz apresentando-lhe um horizonte imenso por explorar entre todo tipo de orifício para se aproveitarem insaciavelmente. Mas Boca-de-frô não conseguia superar a fatalidade amorosa sucumbindo na maior roedeira, ao que Tolinho prescreveu-lhe, com o fito de debelar aquele mal que atormentava o cristão, um inusitado suco de cu.
- Que porra é nove?
- É a maior panacéia, doido!
- Piorou!
- É o siguinte: vou pegar a piquineira negona lá de casa, vou mandá ela ficá uns três dias encarreados sem tomá banho, depois boto-la prá s´assentar na bacia cheia d´água e ficá por umas três horas acocorada lá.
- Vote!
- Depois de tudo, pego a água e iencho um copo e dou procê tomá.
- Tá doido, tá?
- Santo remédio, meu fio.
- O quê?
- Verdade, santo remédio, duvido quem num fique novinho em folha depois de tomar o suco de cu. Quem toma fica todo aceso com a manjuba cheia de vida. Eu mermo tomo dia sim, dia não.
Tomaram, não antes fazerem todo tipo de careta quase botando fora os bofes. Este vigoroso e estranho complexo vitamínico habilitou o católico a se iniciar noutra sórdida iniciativa de se proteger de males danosos com a medicina milenar ayurvédica, de ficar ingerindo constantemente o próprio mijo. Quando não era o suco de cu, era beberagem de urina. Isso tudo às escondidas, claro. Tá doido de alguém saber disso, ora. Mas, pelo visto, o Boca-de-frô vendia saúde, vigoroso espadaúdo que crescia robusto e cheio de pantim.
- Tais arripunando pro quê? -, instigava Boca-de-frô.
- Sô lá doido de beber mijo, cara! -, rejeitava Tolinho.
- Ué, quem bebe suco de cu num tem que estranhar caldo de mijo não!
- Um é um, outro é outro. Mijo de boceta ainda vai.
- E qualé a diferencia?
- Ôxe, beber mijo de macho, sou lá maluco?
- Seu mijo mesmo...
- E daí?
- Ocê fica todo fortificado mais ainda além da conta.
- Ara!
A dupla fazia festa. Tolinho, mais tinhoso, iniciara Boca-de-frô nos meandros da pirobagem, evitando o conversê do mijado. A maior deles desse período foi uma trampolinagem que ninguém, mas ninguém mesmo, sabe ao menos, levemente, explicar. É que de repente, assim, sem mais nem menos, Lombreta apareceu todo espaçoso nas risadas, parecendo mesmo que nada houvesse acontecido na sua vida. Era outro. Tolinho intrigado com aquela saltitante alegria do amigo, digo, primo.
- Quê s´assussede, Lombreta?
- Pro quê?
- Tô veno ocê, assim, todo folgado, levezão, sem remorso, sem nada, como si num tivesse mais saudade das paixonites...
- Ah! viveno e aprendeno, besta.
- Ôxe!?
- Nada como um dia encangado no outro e uma lua no meio...
- Tem cu nesse meio! Tem cu nesse meio....
- Tô pra cima, só, num posso tá de risadagem mais não??
- Pode, pode. Arretiro tudo qui disse...
- Por um acauso só qué vê o sujeito nos escanteio, manemolento, é?
- Já disse, arretiro tudo que disse...
E se entendiam e se desentendiam ora sim, ora não. Até que conheceram Bestinha formando, assim, a trindade imprestável.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.
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