Mostrando postagens com marcador Aristóteles. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aristóteles. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, setembro 23, 2021

CORDEL REPENTEANDO, LUA, UNGARETTI, BRÁULIO TAVARES & SALLIE NICHOLS

 

 

TRÍPTICO DQP – Popoesialar... - Ao som da vinheta Tataritaritatá. - Poesia Popular? Eita! Ah, era quando ia com mãe ou vó pra feira e lá dava de cara com dois repentistas com seu trabalho feito e descascando cada qual a honra e a feiúra um do outro, morria de rir, a ponto de ser arrastado pra casa, de nem poder vê-los rapar a viola. Coisa boa de ver, visse? Ou quando via aquela figura gigantesca do Ascenso cantando das suas, umas e outras, para lá e para cá, chega dava gosto! Lá em casa era pai achegado no meio das suas estantes. Ele até cometia uns sonetos bissextos, enrolado com as lições do Bilac, sapecando uns solos ao violão e a me falar noutras horas do romanceiro dos cordelistas, do cancioneiro popular. Eu que já era de ficar entretido com os trava-línguas, parlendas, pastoris e quadrinhas, ouvia dele coisas de Leandro Gomes de Barros, do Pavão Mysterioso, de Zé da Luz e doutros causos e graças das Literaturas ditas de Cordel. Era galope, martelo, oitava e mourão; era décima, ligeira, sextilha, parcela e quadrão. Era gabinete, toada, gemedeira e rojão pernambucano, quando uma dupla com bandeiro no coco da embolada, quando não outros com dez de adivinhação. Olhos grandes e todo espalhado. Se aprendia? Só Deus sabe o que eu não sei. Até que um dia, no meio da itinerância, lá fui eu noutras voltas, cheio de nó pelas costas a recitar outras Severinas do João Cabral.

 


Lunário perpétuo... – Ao som de Abusão. - De primeira foi assim: inadvertidamente dei de cara com um livrão, sabia lá o que era o Non plus ultra do lunário e prognostico perpetuo, geral e particular para todos os reinos e províncias. Vôte! Nunca tinha visto, apareceu assim do nada sobre a mesa. Estava lá, misterioso. Cá comigo: Que droga é nove? Não era só um livro. Bastou abri-lo assim do nada, logo dele, isso mesmo, das páginas dele uma coisa assim que meio evaporou e fez volume esfumaçado no ar. Só depois de muito tempo é que pude ver que era Vivagina – explico: era como se fosse aquela cabeluda de Bráulio Tavares e a da porteira de Courbet, entende? Pois é. Não demorou muito e a coisa foi ficando mais perturbadora. Logo ouvi a voz de Sallie Nichols: Todas as noites, a Senhora Lua reúne todas as lembranças jogadas fora e todos os sonhos esquecidos da humanidade, guardando-os em sua taça de prata até o despontar da aurora. A seguir, aos primeiros albores, continua a história, todos os sonhos esquecidos e todas as lembranças desprezadas são devolvidas à Terra como seiva da Lua ou orvalho. Misturado às lacrimae lunae, o orvalho nutre e retempera toda a vida sobre a Terra. Graças ao desvelo compassivo da deusa, nada de valor se perde para o homem. Além de precavido, estava cada vez mais curioso. Foi, então, que uma voz de um vulto que emergia do ventre, agigantando-se. E começou a falar de Plutarco: É a morada dos homens bons de sua morte. Levam aí uma vida que não é nem divina, nem feliz, mas, contudo, isenta de preocupação, até a sua segunda morte. Porque o homem deve morrer duas vezes. Danou-se! Procurava entender quando ouvi um poema de Giuseppe Ungaretti: Que estás fazendo, Terra, no / céu? / Diz-me, que estás fazendo, silenciosa / Terra? Entendia patavina! Pensei comigo: melhor fugir. Não deu, algo me trancava naquilo e ouvi do poeta árabe Ibn al-Mottaz (861-908): Olha a beleza do crescente que, acabando de aparecer, rasga as trevas com seus raios de luz. Como uma foice de prata que, entre as flores brilhando na obscuridade, colhe narcisos. A primeira lembrança que ocorre, quando se deseja descrever algo excessivamente belo e mostrar sua extrema perfeição, é dizer: uma face semelhante à Lua. Quanta doidice duma vez só! Era como se a imagem me dissesse tudo isso lido das páginas daquele volume misterioso. De repente a imagem foi ficando mais nítida, a ponto de identificar duas torres, um lago azul e nada mais que conseguisse distinguir no meio da névoa onírica que imperava no ambiente. E era Tales mencionando o corpo sem luz própria que apenas refletia a luz solar. Era Demócrito dizendo que ali era um mundo de montanhas e vales. Era Aristóteles falando das fases lunares. Eram Arisparco de Alexandria e Hiparco medindo a distância entre a Terra e a Lua. Era Newton descobrindo a relação gravitacional. Era Galileu com seu Siderius Nuncius, confirmando Demócrito. E tudo me assustava, nada entendia, impedido de retroceder. Cada vez mais visíveis as duas torres de ouro sedutoras, havia um caminho escuro, não sei se antes alguém já havia passado por isso, acho que sim. O caminho dava numa encruzilhada e eu precisei domar a besta fera que havia em mim – um lobo uivador, nada encoleirado -, e percebia que de um lado estava o dia claro e, do outro, o umbral das horas feiticeiras da noite. Uma imagem de mulher se insinuou mais nítida: em silêncio ela me contemplava – não alcancei suas fases, mas quando a vi, parecia ser a deusa da Lua na Noite Terrível, a me dar sonhos de mistérios ocultos. Só podia ser. Duma feita, ela era Ixchel, a deusa com seus quatrocentos coelhos astecas, a filha de Tialoc. Doutra, uma desconhecida irreconhecível que me mostrava a festa de Heng-Ugo, enquanto me falava que a noite era uma rocha que escondia a história patética dos ritmos da vida e que eu havia de descobrir a iluminação das profundezas, no Mapa da Jornada. Foi neste exato momento que me apareceram os tártaros de Altay, para me contar que ali se escondia um velho canibal que foi raptado da Terra pelos deuses, para poupar a humanidade: eu estaria na boca do lobo. Onde estou? Nem se deram ao trabalho de me responder. Um deles disse: O vir-a-ser - as águas, a chuva, a fertilidade, a vegetação, a fecundidade, os destinos humanos sob a lei da variação periódica. No meio disso, emergiu a raposa Yurugu dos dogons, que me trouxe a primeira palavra divina num sonho iniciático. Foi quando de uma das torres apareceu Ártemis, envolvida por um colar de arco-íris a me apontar o escaravelho e era como se ela dissesse que ele iria me devorar para regeneração moral. Na verdade, pelo que pude adivinhar, ela queria mesmo era me castigar com sua virgindade, a me fazer Hipólito destemido diante de seus cães devoradores, para depois me supliciar. Pensei no seu intento e me surpreendeu ao se tornar Selênia: mostrou-se ciumenta e dominadora, e que eu tinha que pagar pelo que fiz à rainha Artemisa. Eu? Ela tão pálida e fria quanto inconstante, com todo recato virginal, vingava-se sem que eu sentisse por alguma coisa que não sei nem jamais saberia. E ao perceber meu amedrontamento, tomou bruscamente a minha mão e voamos numa revolução elíptica por vinte e sete dias. E me contou da rotação de Domenico Casini, da órbita kepleriana, da carta de Riccioli, da selenografia de Ibn Al-Haytham e Leonardo da Vinci, até a alunissagem, quando me levou pela face oculta até me mostrar os onze mares dali. E me apontou para a outra torre que resplandecia. Sim, eu vi, estava cada vez mais viva e brilhante. Ao me voltar para ela, desaparecia como se morresse na passagem da vida pra noite e vice-versa. O que me esperava, sequer imaginava. Da outra torre, veio-me Hécate: era a Noite Negra da Alma – a Jornada Noturna do Mar. A deusa poderosa sobre o céu e a terra, pareceu-me mais amigável. Não era, engano meu: uma tocha em cada mão e acompanhada de fantasmas e sortilégios, o inferno vivo. Quando olhei pros lados buscando saída, ela mais se agitou e me sequestrou por vinte e oito dias e, ao final, me deu o Nirvana, para que os brâmanes me levassem pelos vinte e oito estados paradisíacos. Ao retornar, ela me abraçou, beijou-me e nos possuímos longa e demoradamente: ela estava insaciável. No horizonte a claridade dava sinal de que eu não havia morrido, prestes ao próximo dia. Foi quando ela me concedeu a propriedade material, o dom da eloquência, e a vitória no jogo e nas batalhas. Presenteou-me com tudo isso, um beijo demorado e voou. Vi-me sozinho, fechei o livro. Tudo desapareceu. Sabia lá que aquilo estava entre Los libros malditos (Edaf Antilhas, 2005), da historiadora Mar Rey Bueno, que, aproveitou o ensejo, e me mostrou o Malleus Maleficarum, o Necronomicon de Abdul Alhazred por Lovecraft de Cthulhu, o Código de Voynich da Lei de Zipf que ninguém conseguiu ler, e eu lá queria saber, dissimulando feliz pela exposição daquelas publicações. Ofereceu-me todos e mais outros volumes que nem tive tempo de sacar quais eram e se foi com um adeus para sempre.

 


Repenteando... – Ao som do cordel Tataritaritatá - Foi aí que tomei pé da situação, depois das muitas e tantas leituras e revivescências, me danei a afinar a viola sem saber direito se cebolinha, cebolão, quatro pontos ou oitavado, qual? Dei aperto na canotilha, ajustei a toeira, dei um grau na turina, já comparando com a requinta, para chegar na prima e me ajeitar pro melhor dedilhado. E fui logo de Manuel Bandeira: Como qualquer violeiro / bom cantador do sertão, / a todos os quais, humilde, / mando minha saudação. E saí repenteando até com um olho só! Isso no embalo da vida, embolando solto, mandando ver na enrolação. Pudesse vir quem quisesse e de qualquer jeito sapecando mote preu glosar de leixa-prem: Não sei se fico ou se corro. Se corro ou se fico. Não sei se fico aqui ou se corro prali. Assim começava, recomeçava e nada de findar. Tudo só para ganhar a simpatia de Iaravi, com coisas impossíveis de Sol e de Lua, presenteando um repente da mulher. Só queria era ver o sorrido dela, coisa mais linda! Afinal, o que é um peido para quem está cagado, hem? Por isso, vou de repente qualquer jeito para ver como é que fica. E feito xexéu: no ano passado eu morri, mas este ano eu não morro. Solto na buraqueira, Cantador no desnorteio & tatataritaritatá! Aí vou contando desde menino que tomou água de chocalho na beira do rio, do que viu da Mãe da Lua e do Urutau, do Lunário Perpétuo e da sua autoria, do que vi e não vi, do que fiz e não fiz, só de uma coisa eu sei: só a poesia torna a vida suportável. Até mais ver.

 

Neste sábado, dia 25, às 16hs, estarei no Ciclo de Poesia Brasileira do Bacellartes, comandado pela Renata Barcellos, contando ainda com a presença da professora e poeta Marcia Ruth Kanitz, do Severino Honorato da Caravana Tin Tin Alves, da pesquisadora Arusha Kelly Carvalho e da doutora Lia Testa.

 

E mais:

CANTARAU & OUTRAS POETADAS

POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS

FAÇA SEU TCC SEM TRAUMAS – CURSO & CONTULTAS

 


Vem aí o Programa Tataritaritatá. Enquanto isso, veja mais aqui.

 


sexta-feira, setembro 18, 2020

CÓRTAZAR, LUCIANO DE SAMÓSATA, ELISA LUCINDA, JOSÉ ROOSELVET & VIOLINOS NO COQUE

 

DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DAS IDAS E VINDAS ENTRE ÉREBROS & BÁRATROS - Olhos na madrugada, cismava sem urdidura. Deu-se de mesmo, tão esquisito: mulheres passavam e uma delas me puxou alegando que as seguissem para me proteger do Soroche de Supai. Para onde iam? Às regiões mais montanhosas e inacessíveis de Pachamama, onde os espíritos das huacas reinavam e que eu fosse com elas senão me perderia pelos confins tenebrosos e infernais de Ucui Pacha, lá onde se sofre de frio e fome e só tem pedra por alimento. Não entendia nada nem me restou alternativa, porque não era eu uma alma penada nem fantasma, encolhi o medo e, de mãos dadas, seguimos pelo caminho das trevas. De repente, senti sua mão escapulir, sozinho e tudo escureceu por bom tempo, nada se via no silêncio de tudo. Com o clarão repentino do luar, eram outras mulheres tagarelando ao meu lado e no meio das torres de pedra de Punta de las Mujeres. Não me passou pela cabeça serem elas as nove senhoras de Ah Puch e que preparavam a descida da enforcada deusa Ixtab, sob os auspícios do panteão Bolontiku. A deusa levitava e se aproximou de mim, ofertou um pedaço da casca da Ceiba pentadra que contém em seus grãos rebentos de kapok, ordenando para que eu fosse já ao Mitnal. Não entendi, era pênalti, sabia de antemão ao vê-la retirar a corda que envolvia seu pescoço, obrigando-me que a pusesse em honra dos suicidas. Era preciso inventar uma saída, o sangue fugia, quase tive um ataque tipo epiléptico para ver se me safava. Nesse instante a sensual deusa Awilix interrompeu o que seria o meu sacrifício, procedendo para elas de forma autoritária, e, em seguida, tomou das minhas mãos para segui-la pela noite da Lua, a me contar do que ocorrera comigo antes, com as incas e, agora, com as maias. Contou-me mais enquanto se disfarçava em muitas outras sedutoras auroras e crepúsculos para me espalhar por aí, e me deixou a par do horror ao vazio e do transporte dos tempos para o futuro por deuses que se sucediam noites e dias presos por uma cilha frontal, porque os dias eram seres vivos, cada um com nome e número patrocinados por uma entre as divindades. Altas horas da viagem, ela me amparava na nudez e fartura dos seus seios, a recitar Julio Córtazar: Andávamos sem nos procurar, mas sabendo sempre que andávamos para nos encontrar. Vem dormir comigo: não faremos amor, ele nos fará. Tudo ouvia até a sonolência e eu dentro dela que se derretia com a febre do meu corpo no seu. Amparado fui embalado por acalanto irreconhecível do seu corpo cheio de músicas.

 


DUAS MORTES DEPOIS (Imagem do pintor surrealista José Rooselvet)– Da primeira morte a vertigem na escada, o telhado que ruiu, o sangue na lavanderia sumida, quase nada mais existe, apenas uma rua estreita para pedestres, com a orla repleta de prédios como se monstros imóveis. Daquela vez tudo desapareceu na brancura onírica de música das esferas, talvez entre Nazcar e Machu Picchu, imagens com desenhos da pedra de Roswell noitedias pelas distâncias da escuridão cósmica. Da segunda morte, nem a lembrança da encruzilhada, não mais o poste na calçada de uma manhã nublada, à espera de uma condução inexistente. Ainda ouço a frenagem e a colisão, tudo pode acontecer do nada, só as graves vozes do coral. Ouvi um verso de Elisa Lucinda: Nesse dia, Deus deu uma saidinha e o vice era fraco. E se morro uma vez e desfaleço outras tantas a cada dia, sou grato à vida, responsável por minha sina. Não lamento o que deixei de fazer, fiz o máximo que pude e renasci menino.

 


TRÊS PASSOS PARA SAIR DO VULCÃO - (Imagem do pintor surrealista José Rooselvet) - Desci pela milésima vez, como se fosse Pessoa escrevendo cartas comerciais ou O’Neill concebendo frases publicitárias, ou como Rimbaud para tomar uma cerveja e dar uma baforadas na face do desafeto. Em todas elas exaltei os trinta e quatro cantos de Dante no meio dos nove círculos concêntricos do sofrimento e os nove caminhos e os três vales e as quatro esferas, enfim, o caos impiedosamente ordenado. Reconheci os três aspectos aristotélicos: a malícia, a incontinência e a bestialidade. Atravessei todas as galerias como se fossem ruas fumegantes e entre elas as mínimas e vistosas entrelinhas do insignificante de qualquer olhar, aprendendo o que pudesse de fecundo e necessário para o aprendizado do útil e do fútil, o momento apropriado para o que quer que fosse. Fiz a travessia do berço ao túmulo, a reconhecer dos invertebrados e protozoários, o que seria de mim depois de tudo. Sempre preferi cinzas, nunca uma sepultura, mesmo sabendo que a viagem indesejável seria qualquer jeito. Lá ouvi o Diálogo dos mortos (Athena, 1996), no qual Luciano de Samósata me contara irreverente: A vida de cada um será passada a limpo... tu vês os ricos, os sátrapas, os tiranos, agora tão rebaixados e insignificantes, reconhecidos apenas pela lamentação; isto é, que são uns poltrões e ignóbeis, enquanto ficam recordando das coisas lá de cima. Assim como a raposa para as uvas, o beijo para a amante, a traição para o humano, cada qual cumpre o seu destino. Quem não compungido se o acontecido é pouco e tornará a acontecer de outra forma e mesmo até à revelia. Todos se veem enredados em suas malbaratadas e entediadas vidas, o que me faz entender talvez alguma possibilidade de ser aquilo que eu gostaria de ser se não fosse o que sou. Até mais ver.

 

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Veja mais aqui.


VIOLINOS NO COQUE

[...] Precisa-se. Precisa-se da voz cristalina de uma avezinha, dessas aves sem ninho, como diria o poeta, para escutar o que dizem. E ouvir a humanidade toda que está ali. A beleza do campo, a inocência brotante, a suavidade dos anhos que só Botticcelli percebeu. [...] A beleza comove. E vi ali uma flor de lótus colhida. Que se impõe e faz admirar, apesar do meio circundante.

Trecho extraído da obra Violinos no Coque (FacForm, 2010), do médico, escritor e memorialista Waldênio Porto, contando a história de uma comunidade do Recife e a formação da Orquestra Cidadã Meninos do Coque, projeto desenvolvido pelo maestro Cussy de Almeida e reunindo 130 garotos e garotas. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.



 


quinta-feira, abril 30, 2020

BELL HOOKS, NAIPAUL, BOLAÑO, HELEN LEVITT, AIREN WORMHOUDT, BARBARA HELIODORA, IZABEL LIVISKI & LEIDSON FERRAZ


PRECISO FICAR ZEN DIANTE DE TANTO PIPOCO, GENTE! - UMA: E DAÍ, QUAL QUE É, HEM? – Só escuto notícia do povo enchendo a rua de pernas, fofocas e pacutias, mangação de pirangueiros e intrusos, afora muito blábláblá. Ô povo converseiro! Ouvi dizer que ninguém aguenta mais devotar diante das imagens dos padroeiros, nem só conversar com as paredes, rádio e tevês ligadas, motores roncando e nenhum pé de gente por perto para peiticar ou se estranhar, como de costume. Isso é sinal de vida, o silêncio é um túmulo enlouquecedor. Com isso o termômetro da mortandade sobe todo dia e o Coisonário quer a todos feito um formigueiro no consumo, assim morre logo tudo duma vez por todas, porque a coisa está feia! A cara-de-pau de santarrão cospe o desdém: E daí? Digo eu: Deus te guie, zelação! Comigo os meus sentimentos são pelas palavras de Matilde Camus: A todos os meus compatriotas, do presente e do futuro com a felicidade de ter nascido nesta bela terra que é apaixonadamente amada... À vida que faz parte do tempo e a todos os meus, aqueles que a formam e aqueles que formaram o tempo da minha vida. É assim, sujeito paisano feito eu, asa quebrada, nordestino da gema embaixo de insolação, fadiga e mormaço meridional da entressafra canavieira falida, só minha afeição e ternura solidária por todos que sofrem enfermos e os que temem pelo pior neste meu imenso Brasilzão! Vamos sempre juntos! DOIS: EU CÁ COM MEUS BOTÕES - Na clausura, faço o que posso: converso com o papel em branco, livro aberto, revistas escancaradas, arquivos no computador, violão mudo, cadernos, resmas, canetas e guardanapos. Pura doidice! Tento até ressuscitar os amigos invisíveis da infância que esqueci e na maior interlocução com a tuia de personagem que inventei para as minhas lorotas. Bote aluamento no pedaço. Na verdade estou naquela do Carlos Scliar: Antes de mais nada, eu queria deixar bem claro que estou biruta. A-há! Desde nascença que não bato bem da bola, gente! E como bom estúpido amalucado, valho-me de Aristóteles: Nunca existiu uma grande inteligência sem uma veia de loucura. Háháháhá! É demais para mim, menos. Sou mais iconoclasta, parelha com a genial Marguerite Yourcenar: Creio que quase sempre é preciso um golpe de loucura para se construir um destino. Rir da própria desgraça também faz um bem danado, visse? TRÊS: NUNCA CURTIRAM JAZZ, MAS IMPROVISAM NA GAMBIARRA – Do noticiário só sobra uma constatação: estão batendo cabeça e não sabem o que fazer porque não entendem patavina do riscado! De mesmo, só sobra bulhufas! Se o país vai pela contramão de tudo, é que o piloto dirige pessimamente na sua grossura com a patetada zonza, ao que parece, só para ver a gente com o coração na mão ou bater as botas de vez num colapso! Puft! Ainda bem que existe esperança, jazz e Ernesto Sábato: A esperança não será a prova de um sentido oculto da existência, uma coisa que merece que se lute por ela? Aí ele conversa comigo em tom de maior intimidade: Minha cabeça é um labirinto escuro. Às vezes, há relâmpagos que iluminam alguns corredores. Eu nunca termino de saber por que faço certas coisas. Viver consiste em construir memórias futuras. Num estou dizendo, ora, pensei que era só eu com esse endoidecimento labiríntico de perder a razão por excesso de emoção. Ainda bem que o Miles Davis me absolve: Ninguém é obrigado a ter colhido algodão para tocar jazz. Só escuto, tocar não sei: o hábito não faz o Miles. Vou escapulir por ali para ver se pego ainda a lindeza do nascer do Sol, visse? Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: Não me vingo, aproveito a deixa. Não sofro, improviso. Não fico solteira, entro em temporada. Não vivo, ensaio. Não morro, fecho a cortina. Pensamento da ensaísta, tradutora e crítica de teatro Barbara Heliodora (1923-2015), que escreveu críticas nos mais importantes veículos de comunicação, dirigiu o Serviço Nacional de Teatro (SNT), foi professora de História do Teatro no Conservatório Nacional de Teatro e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela inspirou a comédia Barbara não lhe adora (1999), de Henrique Tavares. Em uma entrevista, ela assinalou: [...] É porque eles não sabem o que eu penso. Na maioria das vezes é exatamente o que eu penso, mas muitas coisas eu procuro dizer sem chegar ao delírio, porque a minha vontade era dizer assim: “Mas isso é uma estupidez, uma coisa horrorosa.” Algumas coisas me irritam, aí eu paro e só escrevo no dia seguinte. Não escrevo com raiva. Talvez eu faça um pouco menos de cerimônia. Se uma pessoa faz uma coisa que está toda errada e você, para ser bonzinho, diz que é ótimo, ela vai piorar cada vez mais. O ideal seria se todos tivessem um amigo que dissesse: “Isso está um horror, não está pronto, está uma porcaria.” Há muita autoindulgência. É preciso que se diga a verdade, mas a minha verdade não é de papa. [...]. Veja mais aqui.

 

OUTROS DITOS

Os livros são finitos, os encontros sexuais são finitos, mas o desejo de ler e foder é infinito; ele supera nossas próprias mortes, nossos medos, nossas esperanças de paz... Que pessoas distorcidas somos! Como parecemos simples, ou pelo menos fingimos ser diante dos outros, e como somos distorcidos lá no fundo. Como somos insignificantes e como nos contorcemos espetacularmente diante dos nossos próprios olhos e dos olhos dos outros... E tudo para quê? Para esconder o quê? Para fazer as pessoas acreditarem em quê?... A história secreta é aquela que nunca conheceremos, embora a vivamos dia após dia, pensando que estamos vivos, pensando que temos tudo sob controle e que as coisas que ignoramos não importam... Você tem que saber olhar mesmo que não saiba o que está procurando...

Pensamento do escritor chileno Roberto Bolaño Ávalos (1953-2003). Veja mais aqui & aqui.

 

ENSINANDO A TRANSGREDIR, DE BELL HOOKS

[...] Também existem momentos em que a experiência pessoal nos impede de alcançar o topo da montanha, e então a deixamos de lado, pois seu peso é muito grande. E às vezes é difícil alcançar o topo da montanha com todos os nossos recursos factuais e confessionais; então estamos todos juntos ali, tateando, sentindo as limitações do conhecimento, ansiando juntos, procurando um meio de chegar àquele ponto mais alto. Até esse anseio é um modo de conhecimento [...] Achar a própria voz não é somente o ato de contar as próprias experiências. É usar estrategicamente esse ato de contar – achar a própria voz para também poder falar livremente sobre outros assuntos. É disso que muitos professores universitários têm medo. Tive um momento difícil no semestre passado no City College, no meu seminário sobre Escritoras Negras. Na última aula, falei com os alunos sobre a contribuição que cada um deles havia dado à sala; mas, quando falaram, eles me mostraram que nosso curso os tinha deixado com medo de fazer outros cursos. Confessaram: “Você nos ensinou a pensar criticamente, a desafiar e a confrontar, e nos encorajou a ter voz. Mas como podemos fazer outros cursos? Nesses cursos, ninguém quer que nós tenhamos voz!”. Essa é a tragédia de uma educação que não promove a liberdade [...].

Trechos extraídos da obra Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade (Martins Fontes, 2013), da escritora, artista professora e ativista feminista e antirracista estadunidense Bell Hooks (Gloria Jean Watkins – 1952-2021). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

OS MÍMICOS, DE NAIPAUL

[...] À medida que escrevo, modifica-se minha atitude em relação a meus próprios atos. [...] Normalmente eu os encarava como abstrações, caprichos, atos arbitrários que por algum motivo haviam escapado de meu controle. Mas agora, com a consciência do tempo perdido, lamentando as oportunidades desperdiçadas, começo a questionar esta atitude. Duvido que qualquer ato, acima de um certo nível, seja inteiramente arbitrário, caprichoso ou desonesto. Agora questiono a ideia de que a personalidade seja fabricada pela visão dos outros. A personalidade é um todo íntegro. É una e indivisível. [...] Fui eu que criei este isolamento, esta mágoa complexa, esta excitação específica. [...].

Trechos da obra Os mímicos (Companhia das Letras, 2001), do escritor britânico nascido em Trinidad e Tobago, Prêmio Nobel de 2001, Vidiadhar Surajprasad Naipaul (1932-2018). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE TEATRAL DE AIREN WORMHOUDT
Vivermos encarcerados nos nossos apartamentos e casas e entre grades criadas pelos nossos próprios medos, parece ser condição "natural" da contemporaneidade, sobretudo nas grandes metrópoles [...] questionadas sobre o fenômeno da violência, as pessoas recorreram aos estereótipos enquanto estratégia heurística. Assim é que, enquanto avaros mentais, dentre as informações pedidas pelo instrumento, os indivíduos informaram os sinais considerados relevantes para ambos os perfis (agressor e vítima). De fato, o "Monstro Cognitivo" tornou-se uma opção para um julgamento social, de sorte a justificar as relações intergrupais. Ou seja, para defender a identidade positiva do seu grupo (vítimas), as pessoas construíram uma imagem mais positiva desse mesmo grupo em contraposição ao grupo dos agressores. Portanto, a análise dos resultados indicou algumas questões: • A opção pelo sexo feminino enquanto vítima estaria pautada nas crenças de que as mulheres são mais frágeis e, portanto, mais vulneráveis a esses tipos de delito? • A exposição à violência levaria as pessoas a acreditarem que eventos violentos podem acontecer em qualquer horário? • O que estaria influenciando as pessoas quando estas optam pelo Sequestro e pelo Furto como crimes mais frequentes? [...].
AIREN WORMHOUDT - Trechos do artigo Violência urbana: estereótipo do agressor e da vítima (Psicólogo Informação, 2006), da atriz, psicóloga, dramaturga, roteirista, mímica, arte terapeuta e pós-graduando em dramaturgia, Airen Wormhoudt, fundadora Cia. Ellas En(Cena), criou o projeto MimeWeb e é autora de peças teatrais e dos livros Cena Hum Dramaturgia (Inverso, 2014) e coautora na obra Diz(Amor) com Zédú Neves. Ela realiza workshops e consultorias artísticas para coletivos de artes, bem como, escreve roteiros para audiovisual, desenvolve pesquisas unindo a mímica e a dramaturgia como instrumento na formação de plateias e democratização artística. Veja mais aqui.

A FOTOGRAFIA DE HELEN LEVITT
Apenas o que você vê. Se fosse fácil falar sobre isso, eu seria um escritor. Como sou inarticulada, me expresso com imagens.
HELEN LEVITT - A arte da fotógrafa estadunidense Helen Levitt (1913-2009), a mais célebre e menos conhecida de seu tempo.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa, fotojornalista, professorae socióloga Izabel Liviski, editora da coluna InContros e coeditora da Revista ContemporArtes, articulista que, atualmente, pesquisa questões ligadas a temas sociais, como presídios, comunidades socialmente vulneráveis, direitos humanos e inclusão visual. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Pernambuco tem uma história forte no teatro nacional e não se colocou de maneira subserviente às demandas estéticas e temáticas que vinham de fora. Foi, antes de tudo, um processo de trocas, de disputas, e fazemos parte do momento de consolidação da Modernidade nos palcos nacionais.
A arte do jornalista e pesquisador da história do teatro pernambucano, Leidson Ferraz, autor das obras O Teatro no Recife dos Anos 50 – Tentativas de Reafirmação da Modernidade, O teatro para crianças no Recife: 60 anos de história no século XX e Um teatro quase esquecido: painel das décadas de 193 e 1940.
A música de Quinteto Violado aqui, aqui & aqui.
A poesia de Janice Japiassu aqui.
Sindicalismo X repressão – a história de Zé Eduardo, o líder do maior sindicato de camponeses do Brasil, de Paulo Profeta aqui.
Festival de Arte do Engenho Paul aqui & aqui.
A beleza de Dudinha – Eduarda Garcia Viana Menezes aqui.
&
Cordel na Escola aqui.


quarta-feira, janeiro 17, 2018

BUKOWSKI, MELO E CASTRO, JORGE MAUTNER, MICHÈLE PETIT, ARISTÓTELES, SIMONE SIMONS, SOPHIE SAINRAPT & OH! CALCUTTA!

ATÉ QUASE, ENTÃO – Imagem: arte da pintora, gravurista, desenhista e ceramista francesa Sophie Sainrapt. - Duas opções apenas: viver ou. Morrer, por enquanto, fora de cogitação. Quem não? Muito por fazer, ora, intensamente: projetos por realizar – quase todos engavetados, encolhidos, adiados -, anseios preteridos por ser muito pouco o dia; a noite, muito menos. Sobreviver e tocar pra frente, afazeres por aqui, ó! Pois é, comissivo no que nunca quis; omissivo no que precisa, quem não? Tudo às avessas, sempre pra rever. Ainda ontem planejamento de mudança na virada do ano, urgências em pauta, agora vai. Ah, o mês já meiou de quase virar carnaval e a agenda pra amanhã, quem sabe março, lá pra depois da vintena oriental, como verdadeiro. Um de cada vez, não, melhor um pouquinho de cada um na maciota, conta-gotas, aí quando menos esperar, tudo pronto, hem? Que seja. Eu sei e todo mundo sabe: o que tem de fazer precisa ser feito, ponto final. Não, ponto e vírgula – sempre vírgulas e uma dúvida em dia, é isso que mata e muito, sempre um “se” ou e ou. Bah! Fazer o que der, ninguém é perfeito. Sem mais desculpas, eleger prioridades. Ora, afinal tudo é prioritário, iminente. Era pra ontem e até hoje, nada. Sei não, quase jogar tudo pro ar. Quase, tudo na base do quase. O que deu, deu; o que não deu, paciência, fica pra depois. Eu mesmo tanto faço e me pego sem ter feito nada. Afora não poder dormir no ponto, senão passa batido. É o que vigora. Quem não? Ih, já foi, é tudo tão rápido, babau. E assim, quase. Quase vivo quase morto, nada demais, eu herdo as desproporções da percepção por não sacar que tudo medra na largura, cumprimento e altura dos esconderijos das coisas que são quando não são e seus secretos truques validados pela exceção das molésticas vigentes, regra inefetiva a servir apenas pros que não sabem da burla na arma dos sabidos. O ilegal na sua teia engole a mim e a todos, vira consuetudinário fora do positivado, uma outra lei oculta e além só pra quem manja, a validar a estupidez e ninguém é besta de remar contra a maré, cada qual uma simples gota a se diluir no lodo da esperteza, apodrecendo tudo com a erosão que mofa a vida e tudo tomba e tosca se dissipa na lei da oferta e da procura com seus sons volantes e anúncios de féretros, queimas de estoques promocionais, última oportunidade, agora ou nunca, shows dançantes, cortes de energia, você não pode ficar de fora, falta d’água, missas e procissões, pressas e gritos, fisionomias que não reconheço, olhares farejadores, alguns tímidos que não sabem o que está acontecendo, outros nem tanto cegos no tiroteio das notícias escandalosas, muitos de cenho franzido ao lado dos de pálpebras pesadas de esperas e mágoas, porfiadores e surpresos obstinados e abstêmios manhosos, ah, tudo passa e o burburinho do dia só ganha o silêncio tarde da noite. Afinal, sou excêntrico e largo a voz no alvo pra todos, eis rejeitada vira bumerangue por não ter pouso no coração alheio, senão retornar pra mim e não era pra voltar. Quase deu certo, por pouco, e ninguém pergunta o havido e haveres, anestesiados pela celeuma feita alarido mantido a distância, como um fogo bom queimando só pela redondeza e nunca chegar aqui, só porque Deus é brasileiro, senão corre daqui pra bem longe, melhor precaver, senão, senão. Até agora é assim, gangorra de gente enquanto bole vivo, pra não findar duro na cova. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o compositor, instrumentistas, cantor e escritor Jorge Mautner: O filho do holocausto & Bomba de Estrelas; a cantora lírica e instrumentista neerlandesa Simone Simons: Épica, Headbanging & The Hauting/The Black Halo & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIANão é tarefa do artista contar as coisas como sucederam, mas como poderiam ter sucedido. Pensamento do filósofo grego Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

OS JOVENS & A LEITURAA leitura tem o poder de despertar em nós regiões que estavam até então adormecidas. Tal como o belo príncipe do conto de fadas, o autor inclina-se sobre nós, toca-nos de leve com suas palavras e, de quando em quando, uma lembrança escondida se manifesta, uma sensação ou um sentimento que não saberíamos expressar revela-se com uma nitidez surpreendente. [...]. Ao compartilhar a leitura, ao contrário, cada pessoa pode experimentar um sentimento de pertencer a alguma coisa, a esta humanidade, de nosso tempo ou de tempos passados, daqui ou de outro lugar, da qual pode sentir-se próxima. Se o fato de ler possibilita abrir-se para o outro, não é somente pelas formas de sociabilidade e peçlas conversas que se tecem em torno dos livros. É também pelo fato de que ao experimentar, em um texto, tanto sua verdade mais intima como a humanidade compartilhada, a relação com o próximo se transorma. Ler não isola do mundo. Ler introduz no mundo de forma diferente. O mais intimo pode alcançar neste ato o mais universal. Trecho da obra Os jovens e a leitura (34, 2008), da antropóloga, professora e pesquisadora francesa Michèle Petit, que coordena um programa internacional sobre A leitura em seus espaços de crise, no Laboratório de Dinâmicas Sociais e Recomposição dos Espaços, do Centre National de la Recherche Scientifique, na França. Veja mais aqui.

MISTO QUENTE – [...] Lila Jane era uma das garotas bonitas que eu via na escola. Era uma das mais lindas e estava morando na casa ao lado. Um dia quanto estava no quintal ela apareceu na cerca e permaneceu ali olhando pra mim. [...] Continuou olhando para mim e eu sentei na grama e retribuí o olhar. Então disse: - Você quer ver minhas calcinhas? – Claro – eu disse. Ela ergueu o vestido. As calcinhas eram cor-de-rosa e limpas. Pareciam bonitas. Ela continuou com o vestido erguido e então se virou para que eu pudesse ver a parte de trás. Sua parte traseira era bonita. Então abaixou o vestido. – Até logo – disse e se foi. – Até logo – respondi. Isso acontecia todas as tardes. – Quer ver minhas calcinhas? – Claro. As calcinhas eram quase sempre de uma cor diferente e cada vez pareciam mais bonitas. Uma tarde, depois de Lila Jane ter me mostrado suas calcinhas, eu disse: - Vamos dar uma volta. – Está bem. Encontrei com ela em frente e caminhamos juntos rua abaixo. Ela realmente era adorável. Nós fomos andando sem dizer uma palavra até que chegamos a um terreno baldio. A grama estava crescida e verde. – Vamos entrar nesse terreno – eu disse. – Está bem – Lila Jane respondeu. Nós caminhamos no meio daquele mato alto. – Mostra suas calcinhas outra vez. Ela ergueu o vestido. Calcinha azul. – Vamos dar uma esticada aqui – eu disse. Nós nos abaixamos na grama e eu agarrei seu cabelo e a beijei. Então tirei seu vestido e olhei para sua calcinha. Coloquei minha mão por trás dela e a beijei outra vez. Continuei beijando e passando-lhe a mão. Fiz isso por um bom tempo. Então disse: - Vamos fazer. Eu não tinha certeza do que era pra se fazer mas sentia que era mais do que isso. – Não, eu não posso – ela disse. – Por que não? – Aqueles homens irão ver. – Que homens? – Lá – apontou. Olhei entre a grama alta. A meio quarteirão de distância talvez, alguns homens trabalhando no conserto da rua. – Eles não podem ver a gente! – Sim, eles podem! Levantei-me. – Ora, dane-se! – saí do terreno e voltei para casa. [...]. Então Lily Fischman se levantou. Ela ergueu a saia e puxou uma de suas meias de seda. Ajustou a liga e nós pudemos ver aquela carne branca. Então trocou de perna e ajustou a outra meia. Uma visão que nós nunca tínhamos tido, e nem Stanhope jamais havia visto algo como aquilo. Lily sentou e todos nós terminamos nossos exames com os livros abertos. Stanhope sentou atrás de sua mesa, completamente derrotado. [...]. Às quatro em ponto nós encontramos Pete e Lilly no carro. – Oi – disse Lily. Ela parecia fogosa. Pete fumava. Estava com cara de tédio. – Oi, Lilly – eu disse. – Oi, Lilly, gracinha – disse Carequinha. Havia uns sujeitos jogando futebol em uma outra quadra, mas era até melhor, servia como uma espécie de camuflagem. Lilly ficou andando, respirando forte, os seios subindo e descendo. [...] Pete tirou a saia de Lilly pela cabeça. Suas pernas, ela estava de meias até os joelhos, eram muito brancas e a gente podia ver sua calcinha. Excelente. Pete abraçou Lilly e beijou. Então a empurrou. – Sua vagabunda! – Seja educado comigo, Pete! – Sua puta vagabunda! – ele disse e lhe deu um tapa bem forte no rosto. Ela começou a choramingar. – Não, Pete, não faça isso... – Cala a boca, sua babaca! Pete começou a arrancar a calcinha dela. Estava tendo dificuldades. A calcinha era apertada demais, também com aquela bundona toda... Pete deu um violento puxão, ela rasgou e ele a puxou pelas pernas, sobre os sapatos. Atirou no chão. Então começou a brincar com a sua buceta. Ele meseu e mexeu naquela buceta enquanto beijava ela sem parar. Aí, encontou-se no banco do carro. Seu pau ainda não estava completamente duro. Lilly olhou para baixo. – O que é que há? Você é viado? – Não, não é isso, Lilly. É que estou achando que esses caras não estão vendo direito se alguém vem vindo. – Está tudo limpo, Pete – eu disse – nós estamos vigiando! – Nós estamos vigiando! – disse Carequinha. – Eu não acredito neles – disse Pete. – Tudo o que eles estão vigiando é a sua buceta, Lilly. – Eu sei o que é pra fazer – ela disse. Lilly se abaixou e passou a língua no pau de Pete. Passou a língua em volta da cabeça monstruosa. Então o colocou na boca. – Lilly... Cristo – dizia Pete -, eu te amo... Lilly, Lilly, Lilly... ho, oh, oooh, oooh... – Henry! – Carequinha berrou – Olhe! Eu olhei. Era Wagner que vinha vindo direto para nós atravessando o campo e atrás dele os caras que estavam jogando futebol, mais uns outros que estavam assistindo, garotos e garotas. – Pete! – eu gritei. – É Wagner que vem vindo com umas 50 pessoas! – Merda! – respondeu Pete. – Oh, merda – disse Lilly. Carequinha e eu desaparecemos. Saímos correndo pelo portão até meio quarteirão de distâsncia. Olhamos pelo muro. Pete e Lilly não tiveram chance alguma. [...]. Trechos extraídos da obra Misto quente (Brasiliense, 1984), do escritor estadunidense nascido na Alemanha, Henry Charles Bukowski Jr (1920-1994). Veja mais aqui, aqui e aqui.

DOIS POEMAS – Orgassema: de semântica sêmea / se insinua o sêmen / na lacona lagoa lacunar / e da sádica sede se ressente / o sentido / no sentido cunar. / se sádica ou sábia / quem o saberá? / Se salubre salgado / o teu sabor a odre / é a onda do útero / é terra que remorde / a espera de esperma / nas ásperas paredes. / e o significado vem / da fricção rítmica e formal / entre as mucosas rubras / do pênis, da vulva, da boca / ou da anal. Mais difícil é falo: mais difícil é falo/ que falá-lo / mais difícil é língua / do que lua / mais difícil é dado / do que dá-lo / mais difícil vestida / do que nua / mais fácil é o aço / do que achá-la / mais fácil é dizê-la / que contê-la / mais fácil é mordê-la / que comê-la / mais fácil é aberta / do que certa / nem difícil nem fácil / nem aó nem licor / nem dito nem contacto / nem memória de cor / só mordido só tido / só moldado só duro / só molhada de escuro / só louca de sentido / fácil de falá-lo / difícil de contê-lo / o melhor é calá-lo / o melhor é fodê-lo. Poemas (Covilhã, 1932), do escritor, ensaísta, artista plástico e engenheiro português E. M. de Melo e Castro (Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro ComIH).

OH! CALCUTTA! OH! CALCUTÁ!
A revista teatral de vanguarda Oh! Calcutta! (Oh! Calcutá! 1969) criada pelo crítico de teatro britânico Kennet Tynan, estreou na Broadway, consistinbdo de tópicos sobre sexo e assuntos relacionados, tornando-se o espetáculo de revista mais longo na história. O show provocou uma considerável controvérsia na época, porque ele apresentava extensas cenas de nudez, tanto masculino e feminino. O título é retirado de uma pintura Clovis Troiulle, por si só um trocadilho sobre "O quel'cul t as!", francês para "Que bunda você tem!".

Veja mais:
Hoje PNE é o outro, amanhã pode ser você, a poesia de Gregory Corso, a música de Maria João Pires & a pintura de Yves Klein aqui.
Eu te amo na Crônica de amor por ela, Darel Valença Lins, Laura Finocchiaro, Adolfo Sánchez Vázquez, José Craveirinha, Calderón de la Barca, Alejandro Amenábar, Nicole Kidman, Rogério Manjate, A pequena sábia & Fátima Maia aqui.
A poesia de João Cabral de Melo Neto aqui.
A poesia veio dos deuses & Patrick Louth aqui.
Responsabilidade civil, dano estético & erro médico aqui.
A família, Entidade Familiar, Paternidade/Maternidade e as relações afetivas aqui.
Literatura de Cordel, Mulher Escandinava, Shaktisangama, Etore Scola, Francisco Julião, Sophia Loren, Jarbas Capusso Filho & Fetichismo aqui.
Paulo Freire: pedagogia do oprimido e da autonomia aqui.
Psicopatologia & Direito Autoral aqui.
A teoria de Erich Fromm & A dialética do concreto de Karel Kosik aqui.
Absolutismo aqui.
O pensamento de Theodor Adorno aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, gravurista, desenhista e ceramista francesa Sophie Sainrapt.
Veja mais aqui.
 

HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...